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  • CNa#051: O Rito | Conto de Fantasia
    Killgrunt é um bárbaro meio orc que precisa mostrar sua verdadeira vocação ou morrer tentando. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Vinicius Mendes Souza Carneiro.
    ▬ Narração:
    Wévison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
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    Contos Narrados apresenta, “O Rito", um Conto de Fantasia.
    O barulho das folhas secas era audível a cada passo, ali sozinho na mata, se sentia em casa, o cheiro de pinho e o farfalhar da folhagem das árvores era agradável e tudo evocava aquilo que havia de mais primitivo em seu coração. Kilgrunt Lâmina de Sangue saiu na empreitada mais importante de sua vida, mostraria que era digno, mostraria que o clã dos guerreiros-ursos do qual fazia parte deveria se orgulhar dele! Após aquele dia, ou viveria em honra ou morreria em desgraça, assim era a natureza, assim as coisas eram, desde outrora. Neste momento não estava somente em jogo sua vida, mas a honra de sua família adotiva e de seus ancestrais!
    …
    Kilgrunt nasceu da guerra em meio ao clamor do aço e dos gritos à sua volta. Claro que um pequeno bebê não poderia perceber nada daquilo, mas os xamãs dizem que alguma energia dali emanou, alguma coisa o preenchera de algo que só descobriria mais tarde. A batalha era por ele, por ele e por sua mãe, sendo mais exato. Seu nascimento ocorrera em meio aos Orcs Esmaga-Crânio, uma das mais violentas tribos da região. Seu pai era um Bárbaro Lâmina de Sangue que provara a virilidade ao seduzir e reproduzir com sua mãe, uma orquisa musculosa e violenta, líder de bando, no entanto infelizmente aquilo não duraria muito, já que foi morto em seguida pela mesma.
    Em seu último suspiro, Grumak, o Viril, contara a verdade para sua tribo, havia se deitado com uma orc, algo que chocou e deixou a todos admirados. Grumak morreu feliz e satisfeito, seu título agora seria eterno, mas sua tribo entrou em fúria. Nenhum Lâmina de Sangue morria sem vingança e por isso invadiram o território dos orcs, o que significava invadir as cavernas onde tais indivíduos moravam.
    A invasão não ocorreu imediatamente. Eram bárbaros, porém sabiam planejar, afinal não haviam sobrevivido por gerações sem um mínimo de sabedoria e cautela. Observaram a rotina de seus vizinhos hostis por meses, até entender qual seria o momento ideal para o ataque. Foi ao meio-dia, no momento do nascimento de Kilgrunt, que a invasão aconteceu. Quando as forças dos Lâmina de Sangue invadiram os aposentos de sua mãe, a surpresa e a alegria preencheram seus corações, afinal Grumak, o Viril, havia deixado sua semente! Em seus últimos momentos, Triloa (mãe do pequeno bebê mestiço) disse: “Chamar Kilgrunt” sendo atingida na cabeça por um machado em seguida.
    Havia algo que qualquer Lâmina de Sangue também nunca faria: abandonar um dos seus ou mesmo desrespeitar o nome dado por uma mãe moribunda. Meio-orc ou não, Kilgrunt era um Lâmina de Sangue, descendia de Grumak e em honra ao seu pai a tribo o adotou. Entre os guerreiros-ursos não havia distinção entre bem ou mal nascido, havia a honra, a batalha, a fúria e a largura do braço! Quem conseguisse a melhor combinação entre essas coisas seria respeitado.
    No fim das contas o meio-orc cresceu sob constante treinamento, entre aqueles da sua idade certamente era o mais forte, porém respeito é algo que nunca obteve, não por suas raízes, mas porque nesta tribo para se tornar um homem era necessário passar por um rito de passagem. Foi quando atingiu os 14 anos que o mandaram realizar o feito, retornando vivo seria um membro da tribo, não retornando todos saberiam que não era capaz.
    …
    Andava devagar entre as árvores e observava os sinais, ali estava, eram fezes frescas, sabia pois as tocou e estavam quentes. Revirou o monte, pêlos, escamas, ossos, era o que um urso comia. Abandonou seu machado e duas machadinhas e passou a andar com mais cautela, certamente o animal não estava longe, se esgueirou devagar através das árvores e escutou o barulho de água, algum riacho passava por ali, então o seguiu na esperança de que o animal estivesse lá.
    Para evitar chamar atenção, buscou andar contra o vento e pisar nas pedras, seu coração acelerou com a expectativa e pulsava forte, a respiração calma contrariava seus ânimos, pouco dando mostra do que realmente acontecia com seu corpo. Após alguns momentos de tensão e furtividade, finalmente seu alvo pôde ser visto. Era um urso pardo grande, calmamente parado à beira do córrego bebendo a água límpida. Pelo tamanho parecia ser um macho que provavelmente dominava aquele território, e era isso o que buscava.
    Apanhou seu amuleto em forma de urso e orou para o totem de sua tribo: “Que no sangue de teu irmão eu me torne digno de sua força, e que caso não seja, que me torne parte de sua carne”.
    Através das pedras se esgueirou em direção ao alvo, para qualquer pessoa comum aquilo seria um suicídio, mas para Kilgrunt era a diferença entre ser um homem e um menino, entre um guerreiro e um covarde, aquilo era viver ou morrer. Se posicionou em um ponto mais alto e quando estava prestes a saltar o animal virou e o viu ali, a boca escancarada e cheia de dentes do urso se abriu em uma ameaça clara, mas antes que o mesmo o pudesse perseguir concluiu a manobra e pulou sobre suas costas.
    Agarrado no pescoço do animal a verdadeira provação começou, girando e pulando o urso oferecia uma resistência incrível. Cravou suas mãos no couro do bicho e conseguiu machucá-lo, porém ainda não o suficiente, o sangue empapara o pelo e a determinação em viver, bem como a fúria do mesmo, aumentara. Ficando de pé o urso bateu as costas e Kilgrunt contra uma pedra, golpe que quase lhe custara uma costela. Sentindo o perigo de aquilo se repetir, o bárbaro apoiado pela pedra, empurrou seu adversário tenaz com ambas as pernas e o soltou, fazendo o bicho cair em pé a alguns passos.
    Agora livre, o urso se posicionou de frente para seu agressor e o encarava, Kilgrunt sabia que apenas um deles sairia vivo dali, porém seu olhar não vacilara. Naquele instante de contemplação sentiu seu peito queimar e a sensação de excitação inundar suas veias, momento em que gritou a plenos pulmões: “VENHA, FERA!” e o urso arrematou em sua direção. A velocidade do animal o surpreendeu, uma fera daquele tamanho não deveria ser tão ágil, porém não era o suficiente para ceifar sua vida, mesmo que por pouco. O animal desferiu em Kilgrunt um golpe com as garras, ele se esquivou no último segundo, ou quase, as garras de treze centímetros do animal penetraram de raspão em sua carne, fazendo quatro grandes cortes em seu peito e derramando seu sangue pelo corpo.
    Sem pensar, Kilgrunt, desferiu em resposta um soco com toda a força que conseguiu reunir na altura do olho esquerdo do urso, o golpe foi tão bem sucedido que estourou o olho do animal, o enfurecendo ainda mais! Uma dança aterrorizante começou: garra contra soco, peso contra agilidade e mordida contra, contra, o que mesmo? Contra mordida, ora essa! Kilgrunt aproveitava cada brecha, cada oportunidade para desferir golpe após golpe, não morreria ali, não deixaria aquela fera levar sua honra, seria DIGNO!
    Mais uma garra o acertara, desta vez ao lado de sua cabeça e mais sangue seu escorria. Naquele momento, no entanto, a dor já não existia, vida e morte nada significavam, tudo o que importava era a vitória sobre seu adversário! Com o rosto sangrando percebeu que era agora o momento certo, passou a mão direita sobre o sangue fresco e o arremessou no único olho do animal, o deixando momentaneamente cego, e então em um movimento descuidado colocou toda a força que tinha em seu corpo naquele último soco.
    Quando o punho atingiu o crânio do animal, o impacto foi tamanho que sentiu os ossos de todo o braço vibrarem, certamente fraturou a mão no processo, porém junto com ela o crânio do urso também, já que este tombou pesadamente aos seus pés. Em pé ali, Kilgrunt ficou observando o que fez, a fera gigantesca morta, boquiaberta, assim como ele diante de tal feito. Por fim buscou seu machado e suas machadinhas, e começou a esfolar o bicho.
    Após ter passado a noite na floresta, o bárbaro voltou à tribo, sujo de sangue e vestindo a pele do animal que abatera, o crânio do urso serviria-lhe agora de elmo e seu couro o recobria como uma manta. Todos o receberam com honra e sua volta foi ovacionada, a semente de Grumak dera resultado e agora possuía seu próprio nome: Kilgrunt Lâmina de Sangue.
    Nos anos que se passaram, infelizmente ele não foi capaz de ativar sua comunhão com o espírito totêmico do animal, então quando fez 16 anos resolveu viajar e abandonar sua tribo por um período, até que aprendesse o significado de seu totem, até que ele mesmo se considerasse um bárbaro. Seu destino neste momento já estava traçado, um ponto marcado na imensidão de Faerûn, uma das joias da vasta Costa da Espada: era a cidade do Portal de Baldur
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    20 min
  • CNa#050: Tukdam | Conto de Suspense
    Recentemente, múmias de monges foram descobertas em templos budistas, dentro de estátuas e até mesmo em uma casa, resultado de roubo. Essas múmias, encontradas na posição de lótus, são consideradas especiais por seus correligionários. Acreditam que esses monges não estão mortos, mas sim em um estado avançado de meditação chamado “tukdam”. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
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    ▬ Autor:
    Vinicius Mendes Souza Carneiro.
    ▬ Narração:
    Brendo Santos.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
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    Contos Narrados apresenta, “Tukdam", um Conto de Suspense.
    “Tudo o que vemos ou parecemos, não passa de um sonho dentro de um sonho.” – Edgard Allan Poe
    A história que vou lhes contar remonta a outra antes daquilo que testemunhei. Diz a lenda que Sidarta Gautama foi o primeiro Buda, aquele que alcançou o estado de iluminação máximo, meditando abaixo de uma árvore após aceitar arroz e leite das mãos de uma donzela. Muitos buscaram o mesmo estado encontrado por ele, e alguns morreram tentando. Iniciado no Nepal, o Budismo se espalhou pelo mundo.
    De um tempo para cá foram encontrados em templos budistas, dentro de estátuas e também em uma casa – produto de roubo neste último caso – alguns monges mumificados em posição de lótus (sentado de pernas cruzadas e mãos descansando sobre os joelhos, os dedos indicador e polegar se tocando), meditando. Fato seja dito, essas múmias são muito especiais para seus correligionários, julgam que não estão mortas, mas em um estado avançado de meditação chamado de tukdam.
    Três semanas meditando seria o necessário. É raro, mas no último século foram registrados algo em torno de 40 casos. É desnecessário dizer que para a medicina moderna, aqueles monges estão mortos. Alguns jaziam entre couro de animais já por muitos anos, 100, talvez até 200 ou 300 anos, o que proporcionou as condições ideais para o processo de mumificação.
    É nesse contexto que começa minha lamúria, aquilo que vou lhes narrar foi tão estranho e severo que nada pelo qual passei e muito possivelmente pelo que tenham passado ao longo de suas vidas seja parecido. Assim como existem situações nas quais o bem nos fortalece com milagres rotineiros, acredito que o desconhecido também possa nos mostrar nossa resumida insignificância, e qual terror maior para o homem, que tem em si o complexo de Deus, do que descobrir tal fato?
    Era julho, mês das chuvas intensas, alagamentos e doenças respiratórias. São Paulo, como uma cidade superlotada e poluída, nunca foi gentil ao tratar a saúde de seus habitantes. Por outro lado, como todo bom paulista, eu gostava dessa época do ano a despeito dos transtornos oferecidos. Não nego, entretanto, como a falta de planejamento urbano interferiu na estrutura local, rios canalizados, várzeas invadidas e impermeabilização do solo provocam anualmente um sem número de transtornos e alagamentos.
    Nesse período conturbado chegou a carga, vinda do Nepal à exposição, a qual mostraria para o mundo a cultura e a história do budismo. Os itens foram expostos no museu do Ipiranga, provavelmente o mais bonito dos museus paulistas. O prédio foi inaugurado em 1895, localizado no Parque do Ipiranga, que na prática funciona como um grande jardim à frente da estrutura, seguindo a arquitetura neorrenascentista, que se inspirava no renascentismo, tornando o prédio em si bonito e imponente.
    Nela existiam muitos itens interessantes, desde roupas utilizadas pelo primeiro Buda, tapetes, rolos de escritos antigos e até mesmo uma múmia de trezentos anos de idade, era o que diziam. A primeira impressão que tive ao visitar a exposição em sua inauguração foi de antiguidade, algo reverente e antigo, mas não só isso, senti também ali uma sabedoria profunda e uma história de reflexão.
    — Está vendo que legal, Geraldo? – era minha esposa Letícia.
    — Não sou cego, Letícia…
    — Né não, mas é um pedaço de cavalo.
    Meu dia tinha sido um daqueles em que você acorda com o pé esquerdo, sabe? Eu achava, até naquele momento que foi um dia ruim, hoje já penso ter sido um dia ótimo, ainda assim estava ranzinza, o “seu Saraiva” em pessoa naquele instante.
    — Você não queria vir? Vai dizer que agora se arrependeu? – ela era sempre assim, quando me via nervoso tratava de falar bastante.
    — Meu amor… deixa isso pra lá, eu tô gostando sim, ok? Meu nervoso não é contigo…
    Passamos então pela múmia e paramos para observá-la. Aquele corpo ressequido em posição de lótus eterna, a pele marrom enrugada, os braços esqueléticos, os olhos fechados, era tudo demais para mim. Como alguém poderia chegar naquela situação era uma completa incógnita para meu cérebro pouco concentrado.
    — Parece que ele morreu tranquilo, né, bem?
    — Sim, meu amor…
    A observação dela era verdadeira, não havia sofrimento ali, mas sim uma profunda devoção. Aquilo me deixava admirado e ao mesmo tempo assustado. Voltamos para casa conversando profundamente sobre a exposição, imaginando o que poderia ter acontecido com cada peça e principalmente impressionados com o monge, afinal, era algo fora de nossa cultura e realidade.
    Estimulado pelo fato, mais tarde fui ler sobre a religião e como ela pode mudar o corpo e a mente de alguém. Existem muitos relatos interessantes sobre o tema, alguns sobre monges no estado de tukdam, outros sobre pessoas capazes de resistir ao frio, a dor, e, até curas milagrosas engendradas por uma fé muito forte. Aquilo me fascinava e ao mesmo tempo assustava, pois a fé não move montanhas, mas pode mover uma nação inteira e a maior parte da humanidade compartilha de alguma porção dessa força imponente.
    Engraçado como o tempo passa depressa quando fazemos algo que nos interessa, não percebi o dia passar e ao fim dele, já pelas oito da noite, minha esposa invadiu o escritório:
    — Geraldo, meu amor, tu vai comer computador, é? Tá aí desde a tarde, meu filho, vamos para a sala tomar café.
    Letícia era assim, cuidadosa e atenciosa, o que outros não sabiam é que naquela fala havia um aviso velado: eu havia passado muito tempo longe dela, naquele momento desejava companhia e contrariá-la não levaria a lucro algum. Sorrindo me levantei e a beijei.
    — Obrigado por me chamar, meu amor, fiquei entretido com uma pesquisa.
    — Todo investigador é assim, lerdo? — falou rindo.
    Comemos, namoramos e assistimos séries juntos, então lá para as 22h resolvemos deitar. Uma hora depois tudo começou. O celular tocou vibrando em cima da mesa de cabeceira e me deu um susto, apanhei o cabo da minha arma embaixo do travesseiro pensando ser uma invasão, foi quando me dei conta do aparelho.
    — Alô?
    — Geraldo? Recebemos um chamado do museu, tem algo de errado acontecendo lá, preciso de você pronto e a caminho agora.
    — Moreira? Tá, tá certo, estou a caminho.
    Sou investigador da polícia federal, normalmente não me meteria com uma situação de linha de frente como essas, mas pra Moreira ter me ligado a coisa era séria. Não podíamos perder de vista também que a exposição era internacional, os bens ali constantes eram inestimáveis e deveriam ser resguardados. Saltei da cama e comecei a me vestir.
    — Ohhhh! Vai ter que sair, fofuxo?
    — Vou, amor, tem algo de errado no museu.
    — No museu?
    — Sim, Moreira me chamou, deve ser sério.
    — Vai com cuidado, por favor, meu amor…
    — Eu vou, tenho você para ver quando voltar!
    — Te amo!
    — Também te amo! — beijei-a e saí.
    Me perguntava que tipo de emergência seria pra minha supervisora ter me chamado, com certeza não era algo comum. Fui reflexivo durante todo o percurso, tateando a arma no coldre e por algum motivo a tensão me dominara, todos os meus instintos estavam em alerta. Aquele trajeto, meu corpo alertava, poderia me levar à morte.
    Cheguei no museu e já haviam dez viaturas paradas em volta dele. Me aproximei do centro do cerco e me encontrei com Moreira:
    — Ei, não sabia que aqui era ponto de mulher feia, alguém me arruma uma cerveja aí!
    — Vai tomar no seu cu, Geraldo. Não tá vendo que a porra tá séria aqui e vem com piadinha? — Apesar da resposta sua expressão era suave.
    — Quanta agressividade! — Sorri – O que aconteceu?
    — Recebemos um alerta do alarme do museu, quando chegamos aqui os seguranças estavam todos do lado de fora, apenas um conseguia falar, os outros estavam em choque.
    — Interrogaram-no?
    — Sim… mas deixamos pra você fazer de novo, afinal, o especialista em detectar mentiras aqui não sou eu.
    — Quer um suquinho de maracujá pra se acalmar?
    — Vai se foder, Geraldo.
    — Adoro quando consigo te irritar. — Ri.
    — Venha por aqui.
    Um carro da tropa de choque estava estacionado com os policiais do esquadrão parados em linha na sua frente. Dentro da van havia alguns bancos e neles estavam os seguranças à espera de uma ambulância.
    — Pedro! Venha cá. — falou Moreira.
    Um homem alto se levantou, era forte como um touro, a pele refletia a luz reforçando o tom ébano, veio sério. Parecia um agente de segurança experiente, um ladrãozinho certamente não acharia passagem fácil por ele.
    — Conte o que aconteceu lá.
    — É do diabo, delegada… aquilo que tá lá não é gente e eu não entro naquele museu mais, não.
    — Só quero que explique o que viu.
    — Não sei explicar, só sei que num momento aquela múmia tava lá, seca, e no outro não. Sei que o Francisco ficou lá, que não correu, isso eu sei também.
    — Vocês não voltaram pra conferir nada? — perguntei.
    — Não, senhor, um uivo horrível saiu de lá… era Chico, tenho certeza… sentimos tanto medo que não conseguimos voltar.
    Olhei para Moreira e percebi seu olhar de pena por aquele homem.
    ...
    37 min
  • CNa#049: Batalha das Eras (Parte 5) A Batalha Final | Conto de Fantasia
    “Batalha das eras” é um conto dividido em cinco partes, sobre batalhas milenares ao longo dos anos, em defesa do plano terrestre. É uma história independente que se passa em um mundo fictício idealizado pelo autor. Neste conto, a garota Ana, de vinte e poucos anos, faz uma descoberta sobre seu vizinho estranho, o senhor Benson. Esta descoberta leva Ana a viver uma aventura jamais imaginada por ela. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
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    ▬ Autor:
    Herica Freitas.
    ▬ Narração:
    Wevison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “Batalha das Eras (Parte 5) A Batalha Final", um Conto de Fantasia.
    Depois de toda a luz se dissipar Anaobservou um homem de cabelos negros e molhados, encebados no couro cabeludo e estendendo-se até os ombros. Uma veste negra e molhada assim como seus cabelos cobria seu corpo desde os pés até os pulsos. A sua mão magra segurava um cajado de luz no formato de um raio. O cajado brilhava intensamente e ouvia-se barulho de eletricidade vindo de sua direção.
    -Enfim nos encontramos novamente meu amigo. – a voz de Globack ecoava como um trovão, grave e ensurdecedora – Estava ansioso por nosso combate, fiquei sabendo de alguns fatos que me deixaram bastante animado.
    Globack abriu os seus olhos e, assim como Hatszu e Ana, sua aparência não era convencional. Os dele estavam repletos do elemento tempestade, escuros e com lampejos de luz branca e roxa que cortavam suas íris como os raios cortavam os céus.
    -Eu estou ansioso pelo nosso combate Globack. Hoje eu sinto que posso fazer qualquer coisa. – Hatszu sorriu.
    -Você já foi mais jovem meu amigo. – ele sorriu ferozmente – Desculpe-me a indelicadeza, mas a mocinha saindo fumaça logo ali atrás quem é?
    Ana sentiu um ódio inexplicável de Globack.Seu calor começava a sair da sua pele enquanto seus olhos ficavam mais alaranjados e fumegantes. A água começava a evaporar, formando uma grande camada de vapor entre a pele de Ana e as gotas d’água.
    -Eu sou Globack, o cavaleiro da tempestade – ele fez uma reverência – Você é?
    -Ana. – ela aperta o cabo da espada.
    -Não o seu nome de humana, quero saber seu nome de cavaleira. – ele sorriu, provocando – O que foi? Não tem um? Deixe-me ver, olhos alaranjados, corpo pegando fogo e água evaporando. Você é a cavaleira do sol não é? Ainda não tem nome porque não se encontrou com o conselho, deu azar e acabou caindo aqui, de paraquedas, na batalha não é mesmo?
    Neste momento Ana piscou e quando abriu os olhos novamente Hatszu estava em sua frente, defendendo-a com seu cajado de um ataque de Globack.
    -Não ouse atacar a menina. – Hatszu disse, com força na voz.
    -Já entendi tudo, ela é sua sucessora não é? É com ela que eu vou lutar nos próximos anos. – Globack recuou.
    -Fique perto de mim Ana, você precisa ficar a salvo e guardar suas energias para o final. – ele olhou o relógio – São onze meia, está quase na hora.
    -Eu não consigo controlar minha raiva – ela disse entre dentes – apesar de nunca tê-lo visto eu quero matá-lo.
    -Só ataque quando eu mandar.
    Ana assentiu.
    -A propósito, você será Luss a cavaleira do sol. – ele sorriu de canto.
    -Taí. Gostei. Luss, a cavaleira do sol.
    -Vamos ao que interessa – Globack levantou seu cajado para o céu, transformando-o em uma espada em forma de raio – Hatszu.
    Hatszu transformou seu cajado em uma espada e partiu ao encontro de Globack. Ambos se chocaram fazendo um estrondo de trovão. Eles eram muito rápidos e Ana quase não acompanhava seus movimentos. Ao olhar ao redor Ana percebe várias aranhas subindo no telhado, correndo e pulando na chuva em direção a ela. Rapidamente sacou a sua espada, transformando-a em um arco, e começou a disparar flechas contra as criaturas.
    Durante uma olhada ou outra Ana via Hatszu e Globack lutando com suas espadas. Hora um, hora outro estava vencendo. O poder deles estava realmente em um patamar diferente de Ana. Ela estava preocupada com as aranhas que não paravam de aparecer e com seu coração disparado que começava a sentir-se cansado demais para bombear o sangue. Por mais que a água caísse sobre Ana, ela não se molhava. A fumaça que saía de seu corpo era quente e impedia também que as aranhas chegassem perto.
    Cansada e esgotada de tanto lançar flechas nas aranhas que não paravam de vir, Ana conjurou mais uma vez sua espada e passou a combater as aranhas de perto, agora com golpes precisos, o que, no entanto, não impedia que ela levasse um corte ou outro das patas afiadas das criaturas. Ana percebia que seus ferimentos curavam-se instantaneamente assim que eram feitos, como se sua pele fosse mais forte agora, nessa forma de caos.
    -ANA – Hatszu gritou, jogando uma balinha verde para ela – TOME!
    Ana, com um movimento marcial, girou seu corpo, dando um golpe em uma aranha com sua perna, e pegou a balinha, colocando-a rapidamente na boca. Nesse momento ela sentiu o vigor retornando ao seu corpo. Uma ideia veio à sua mente e ela transformou sua espada agora em um martelo grande e começou a bater nas aranhas como se fosse um jogo de videogame, desferindo golpes de cima para baixo.
    -Boa garota – Hatszu disse, enquanto cortava o rosto de Globack com sua lâmina – agora elimina esses insetos.
    Ambos lutavam com vigor e poder. Ela percebe que por mais que Hatszu estivesse confiante ele havia errado e, agora em desvantagem, recebia mais golpes do que Globack.
    – Hatszu não perca! – ela exclamou quando acabou de matar o que parecia ser a última aranha.
    Quando ela se virou para Hatszu ela o viu deitado no telhado de frente para o vilão, Globack flutuando alguns metros sobre ele, sua espada de raio agora transformada em uma lança. Globack olhou para Ana sorridente, levantando o braço, pronto para arremessar a lança, também com formato de raio. Hatszu olhou para Ana sorrindo “Onze e cinquenta e cinco e cinquenta e nove segundos”, ele fechou os olhos e sorriu. Uma luz forte começa a emanar de Hatszu, Globack lançou sua arma rumo ao peito do velho caído enquanto observava aquele brilho emanando.
    Muita luz, nesse momento, invadiu o ambiente, mas Ana tentou não tirar os olhos da cena. Ela consegue ver o exato momento em que Hatszu explodiu como uma galáxia sendo formada. A explosão varreu a lança de Globack e tudo sobre o telhado rumo aos céus. Ana, com dificuldade, se segurou na calha mais próxima, mas quando conseguiu finalmente abrir os olhos, Hatszu não estava mais lá e Globack flutuava mais alto, tampando os olhos com o antebraço.
    -NÂAAAAAAAO – Ana grita – HATSZU!
    -Faltam dois minutos para meia noite garota, acho que não preciso de todo esse tempo para pegar a chave de você – Globack se aproximou novamente do telhado – agora me deixe ver, onde a chave está?
    -Eu tenho um nome – ela disse, empunhando sua espada – a partir de hoje me chame de Luss, a cavaleira do sol – ela transformou a espada em um arco e preparou uma flecha – sua inimiga e protetora da chave do abismo dos titãs, que de lá – ela mirou uma flecha muito brilhante e poderosa para Globack – NUNCA SAIRÃO!
    Globack se concentrou e com sua magia lançou um raio de luz, que partiram de suas mãos em direção à casa de Hatszu. A flecha de Ana voou em direção à lança que caía dos céus como um raio invade a noite tempestuosa. Ambos os ataques se chocaram no ar emanando muita luz e posteriormente, em um estrondo pavoroso de um trovão caindo sobre a casa, o telhado do pobre senhor Benson foi destruído e Ana e Globack foramvarridos um para cada lado. Ana caiu pelo buraco do telhado, se arranhando nas telhas quebradas e na fuligem que a explosão deixou sobre a casa, pousando brutalmente de costas no chão duro de madeira que estava queimado pelo raio de Globack.
    Ao virar-se, meio zonza com a queda, Ana encontrou o relógio de pulso de Hatszu e ouviu seu apito indicando a meia noite. Sem forças e com muita dor no corpo ela soltou seu arco, desejando que ele voltasse a ser uma espada, mas seus olhos involuntariamente se fecham para a escuridão enquanto ela sentia as gotas da chuva entrarem na torre e finalmente molharem seu corpo, que não cintilava mais calor.
    -Ana, você me ouve? – uma voz de um homem seguida de vários apitos ecoaram pelos ouvidos da garota.
    -Quem, onde – ela colocou a mão na testa, sentindo dor – o quê?
    -Calma, abra os olhos devagar – a voz parecia suave – olhe para a luz, isso muito bem. Consegue se sentar?
    Ana abriu os olhos sentindo uma dor de cabeça comprimindo-a como se fosse explodir. Ela olhou para a luz desconfortável do aparelho em frente aos seus olhos, mas não conseguia enxergar a figura que lhe falava. Depois que a luz se apagou ela piscou algumas vezes, conseguindo finalmente olhar ao redor Estava em uma cama coberta por um lençol branco, em seu braço existiam curativos que cobriam agulhas com medicamentos intravenosos e ela observou ao pé da sua cama um pequeno carrinho de metal cheio de remédios e utensílios médicos.
    -Onde eu estou? – ela pergunta olhando para o homem à sua frente.
    -Olá Ana, eu sou o seu médico, me chame de Pedro. Você pode me responder algumas perguntas?
    -Sim, claro. Eu posso me sentar? – ela disse, apoiando-se pelos cotovelos.
    -Claro – Pedro a ajudou – Então, diga-me, do que você se lembra?
    Ana parou por um instante e tentou se lembrar de tudo que acontecera na noite anterior. Sem saber se era verdade ou não ela se voltou para seu braço esquerdo e enxergou uma corrente dourada muito brilhante.
    -Ah, não conseguimos tirar sua pulseira – ele olhou para o braço – produto de qualidade, não deveria andar com ela sempre, pode atrair ladrões.
    -É só um presente de um amigo, – ela lembrou-se de Hatszu – me diga, vocês encontraram mais alguém comigo, na casa do Hat… digo, senhor Benson?
    -Achamos sim.
    Ana sentiu-se esperançosa.
    ...
    22 min
  • CNa#048: Bilhetes | Conto de Horror
    Gilca encontra um bilhete preto em cima de sua cama ao sair do banho, o significado disso pode mudar sua vida de formas inimagináveis… Classificação indicativa 14 anos.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Vinicius Mendes Souza Carneiro.
    ▬ Narração:
    Shelly.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “Bilhetes", um Conto de Horror.
    Começou em um dia normal, ensolarado, dia lindo, pra ser sincera. Acordei pela manhã, fui até o banheiro e tomei um baita banho quente, daqueles nos quais o box fica todo embaçado, sabe? Devo ter passado ao menos meia hora curtindo o momento, saí do banheiro e me enxuguei. Havia depilado as pernas no dia anterior e, apesar de não recomendado, o banho quente estava satisfatório. 
    Meu nome é Gilca, tenho trinta e dois anos, cabelos escuros e encaracolados, cachinhos de mola, segundo mainha. Meus olhos são castanho-escuros como os cabelos, minha pele é branca, tenho lábios nem finos e nem grossos, e o nariz é um pouquinho redondo, sabe? Um dia faço plástica! Mesmo sob protestos de meu companheiro Valter. Não sou gorda nem magra e meço 1,68m. 
    Ao vestir minhas roupas de trabalho notei algo diferente. Sempre que entro no banheiro deixo tudo já separado antes, dessa forma não perco tempo, sendo assim, sabia que era algo novo, deixado lá durante meu banho. Ao lado do vestido jazia um envelope preto, e em seu centro havia um olho aberto desenhado em tinta branca. Curiosa, abri rapidamente o item, será que era coisa de Valter? Com seu trabalho noturno mal nos víamos, e àquele horário da manhã ele ainda não deveria ter chegado. Puxei o bilhete que vinha dentro:
    “Nas gordinhas de ondina.”
    Nada mais estava escrito. Moro na Pituba, um bairro de Salvador na Bahia, meu pai deixou esse apartamento de herança pra mim, caso contrário não teria dinheiro para uma casa aqui. Trabalho na Barra. Costumo passar pela avenida oceânica todos os dias, então as Gordinhas de Ondina, monumento referência composto por três estátuas de mulheres gordas em um canteiro próximo à orla do local, era paisagem trivial.
    Humm, curiosa com isso, viu...
    Terminei meus preparativos e peguei o elevador, meu carro aguardava no primeiro estacionamento. O trânsito estava como sempre, insuportável, fiz o trajeto em pelo menos meia hora, pois a curiosidade era grande, queria ver o que o monumento tinha a ver com minha vida hoje. Há um cruzamento em “T” com sinaleira em frente às estátuas, curiosamente o sinal fechou na minha vez de passar e tive visão plena do que acontecia ali. 
    No primeiro momento julguei que não veria algo diferente, havia uma senhorinha caminhando em direção à UFBA (Universidade Federal da Bahia), um garoto de skate, um mendigo sentado aos pés de uma estátua. Não havia nada fora do normal... até que vi.
    Foi repentino, um pedestre andava ao lado de uma das gordinhas, por algum momento não consegui desviar mais a atenção dele, foi quando um buraco na calçada o fez desequilibrar, ao tentar ficar em pé torceu o tornozelo e tombou para o lado da pista, o ônibus que vinha por ali não teve como desviar e suas rodas estouraram o crânio dele como uma fruta madura. A cena foi horrível, em choque não consegui me mover dali até o buzinaço começar atrás de mim. Parcialmente catatônica fiz o trajeto até o trabalho, tanto que ao parar o carro quase não percebi um segundo bilhete que descansava no banco do passageiro.
    Trêmula, peguei o segundo envelope e o coloquei na bolsa, não iria abrir aquele mau agouro de maneira nenhuma. Fui até minha sala no escritório de contabilidade no qual trabalho e fiquei ali amuada por alguns momentos. Então Rita entrou:
    - Tu tá com cara de fantasma menina, o que aconteceu?
    Rita era minha amiga ali, conversávamos sobre tudo, parceiros, desejos, fofocas e qualquer assunto que fosse colocado. Uma morena de cabelos crespos e curtos, tinha olhos fortes e um sorriso largo, era magra e como eu dizia pra ela todos os dias: “Magra de ruim”. Olhava pra mim curiosa naquele momento.
    - Eu nem sei ainda se tem algo a ser dito... aconteceu algo muito estranho comigo essa manhã.
    - Me conte logo, minha filha, tenho paciência pra suspense não.
    - Veja bem, achei esse bilhete em cima de minha cama pela manhã...
    Mostrei pra ela o bilhete e narrei o que havia acontecido, enquanto isso ela escutava compenetrada.
    - ...Entendeu? – Concluí.
    - Você não bebeu, né?
    - Não, criatura, tô te mostrando o bilhete, ora essa.
    - Abre o outro.
    - O quê?
    - Abre o outro! Tu vai ficar sem saber o que é?
    - Ai minha santa! Tu não tem medo de acontecer algo, não?
    - Pior do que ficar sem saber, não acha?
    - Ai... que medo!!! Não quero ver isso.
    - Abre logo! Ou você acha que ler isso vai fazer qualquer diferença? Até pra quebrar essa ideia, né?
    - Tá bem, vou abrir.
    “14 horas”
    Mais nada havia ali, apenas isso, um recorte no tempo, um horário, o que iria acontecer?
    - Só isso?
    - Oxe! Tu acha pouco? Que desgraça será que vai rolar esse horário?
    - Se acontecer algo você vai saber, afinal, né, não há como descobrir se esses bilhetes são verídicos ou apenas uma pegadinha.
    - Será, amiga? Tomara...
    Trabalhei compenetrada, passei a manhã inteira ocupada e quase me esqueci do bilhete, só não o fiz devido ao acidente que presenciei mais cedo naquele dia. Fora horrível, nunca mais minha vida seria a mesma após aquilo. Dez novas empresas haviam contratado o escritório, o que era muito bom, porém o trabalho aumentou vertiginosamente no último mês. Rita ficara a manhã toda resolvendo o quinhão dela e ao fim de tudo resolvemos sair para almoçar.
    Em um fast-food  próximo, sentamos para comer um sanduíche. àÀs segundas-feiras era nosso dia de sair do regime, sabe? Fizemos isso para o dia ser mais interessante.
    - Como foi sua manhã, Rita?
    - Você acredita que a Carnes S. A. quer que eu maquie suas contas?
    - Sério?
    - Sim, minha filha, ainda bati a maior boca com o dono hoje pela manhã, deixei o pepino pra Dário resolver, o escritório é dele e se quiser ele que se responsabilize.
    - Pois é, menina, concordo demais com você, não suje seu nome. Caso fizesse e fosse descoberto, o escritório diria que você agiu sozinha, pule fora disso.
    - Já pulei... mas falando sério, queria pular em outro lugar... aquele Dário é um gostoso!
    Uma sequência de risos se seguiu e nossa conversa perdurou por mais alguns momentos, comemos o sanduba e, após isso, resolvemos descansar um pouco ali mesmo. Essa é a maior vantagem e a pior desvantagem de andar com Rita, o tempo passa rápido, sabe? Quase não percebemos e por mera sorte vimos que era uma e meia da tarde. 
    Corremos como loucas para chegar, entramos no escritório e quem encontramos? Hilton Barbosa, dono da Carnes S. A. Adequadamente à função, o homem se assemelhava a um suíno, nariz achatado com dois grandes vincos nas narinas, gordo e vestido de terno e gravata, seu rosto era cheio de espinhas e escorria suor, este também fazia duas grandes manchas embaixo de suas axilas, uma gravata desarrumada pendia em meio a toda essa carne.
    - Aí está a menina que debateu ética comigo pela manhã! Ética, Dário! Pode acreditar nisso? – a voz parecia tão rechonchuda quanto sua forma.
    - Senhor Hilton, podemos conversar em particular? Aqui no meio do escritório me deixa, de certa forma, desconfortável. – Dário estava sério, não parecia apreciar a presença dele ali.
    - Claro, que é isso!? Vamos lá.
    - Vocês duas, venham comigo também!
    - Eu também? – perguntei.
    - Claro, já viu tudo, então presencie o resto.
    Andamos a passos largos até a sala de Dário. Ai, que bunda que ele tem! Sinto calor até agora só de pensar e, naquela calça social, definitivamente Rita estava certa. Entramos na sala e o ar condicionado me fez sentir frio imediatamente, não entendo até hoje como ele mantém aquilo tão frio.
    - Pode se sentar, senhor Hilton.
    - Obrigado, mas prefiro ficar de pé.
    - Sentem-se. – Falou-nos, dando um olhar forte, e sentamos, claro.
    - Essa sua funcionária não sabe ganhar dinheiro!
    - Realmente, senhor Hilton. Ela foi treinada para administrá-lo.
    - Não é disso que falo, Dário, qual é o problema de dar um jeitinho em minhas contas?
    - Rita, o que o senhor Hilton pediu que fizesse?
    - Veja bem... ele tem passado notas frias, sabe? Pediu que eu adequasse as contas dele para maquiar esses valores por fora.
    - Senhor Hilton, acredito que o senhor tem razão, minha funcionária não sabe ganhar dinheiro... – um sorriso se fez aparecer no rosto do empresário – …sujo. – O sorriso desapareceu imediatamente. – Aqui na Contabilionaria Salvador LTDA trabalhamos honestamente e, se o senhor não se enquadra em nosso modo de trabalho, procure outra empresa. Não sujaremos nosso nome com esse tipo de serviço.
    - Isso é um ultraje! Você sabe com que está falando?
    - Sei, com alguém que está perdendo a linha. Se o senhor não se acalmar, terei que chamar a segurança.
    - Você! Você!!! – Hilton colocou uma mão no peito, seu rosto era vermelho como um tomate, olhou para mim e estendeu sua mão, então caiu no chão, e ali ficou, imóvel, o relógio então bateu quatorze horas. Quando a ambulância chegou, confirmou a morte e convocou o IML para levar o corpo.
    Ainda, após uma hora de intercorrências, fiquei catatônica em minha mesa. Aconteceu realmente, aquele envelope preto era um augúrio de morte, eu sabia que algo poderia acontecer, mas nada fiz. Era responsabilidade minha? Senti uma mão em meu ombro direito.
    - Oi amiga...
    - Oi Rita. – Meus olhos marejaram.
    - Não é sua culpa, o homem era um tonel de banha, estava na cara que ia enfartar a qualquer momento.
    - E o bilhete? Ele avisou... eu sabia, apenas não sabia o que era especificamente.
    - Você não tinha como evitar e nem prever aquilo, pare de se culpar.
    Dário veio em nossa direção.
    ...
    27 min
  • CNa#047: Batalha das Eras (Parte 4) Cavaleira do Sol | Conto de Fantasia
    “Batalha das eras” é um conto dividido em cinco partes, sobre batalhas milenares ao longo dos anos, em defesa do plano terrestre. É uma história independente que se passa em um mundo fictício idealizado pelo autor. Neste conto, a garota Ana, de vinte e poucos anos, faz uma descoberta sobre seu vizinho estranho, o senhor Benson. Esta descoberta leva Ana a viver uma aventura jamais imaginada por ela. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Herica Freitas.
    ▬ Narração:
    Wevison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “Batalha das Eras (Parte 4) Cavaleira do Sol", um Conto de Fantasia.
    Ana pegou o livro no chão. Ao virar a página viu que palavras em dourado estavam sendo marcadas magicamente no livro. Tudo que conversaram e tudo que aconteceu dentro da casa estava escrito agora. As próximas páginas do livro, no entanto, estavam em branco.
    — Você está dizendo que a minha data de morte será escrita aqui?
    — Não hoje Ana, nós sabemos do nosso dia de morte apenas um ano antes. – ele tomou o livro da mão da garota, colocando-o de volta na mesa.
    — O que temos que fazer? – Ana pegou a espada do chão e colocou sobre a mesa.
    — Primeiro você precisa guardar a chave no seu corpo. – ele retirou o colar, entregando na mão direita de Ana.
    Ana pegou o colar com a chave dourada. Ao tocá-lo, especificamente na chave, teve visões do passado e do presente de Hatszu: seu treinamento, suas batalhas, as forças e fraquezas, os estudos e a magia. Em um momento soube exatamente o que fazer quando encontrasse Globack: se via utilizando a sua nova arma, chamada de Espada da Luz. Ana pegou a chave e a encaixou exatamente no buraco formado pela cicatriz. A chave foi absorvida pela pele sem dor ou sofrimento a cicatriz se fechou, deixando a pele de Ana intacta e a corrente dourada, que antes era o colar de Hatszu, se tornou uma pulseira no seu braço esquerdo. Ana movimentou o braço como se quisesse sentir a chave dentro de si, mas a sensação era normal, como se não existisse nada ali.
    — Legal. – ela falou admirando o que aconteceu.
    — Nunca, jamais revele a ninguém que você carrega a chave. – Hatszu disse, entregando a espada para ela – Pegue sua arma, as aranhas invadirão esta sala em dois minutos.
    — O que eu faço? – ela questionou.
    — Bem, sua arma tomará a forma que quiser. Uma espada mágica, um cajado, um arco que dispara flechas de luz, um escudo, entre outras. Você poderá escolher a melhor arma para lutar em determinada condição, como nossa arma é mágica, você possui certa proficiência com elas, mas não quer dizer que não precise de treinamento adequado.
    Hatszu concentrou-se e sua arma, que antes era um cajado com uma lua e uma estrela tornou-se um arco dourado e brilhante. Ele mirou, apontou para a porta e disse: “Se concentre e deseje sua forma” Nesse momento magicamente uma flecha de luz esverdeada se formou, munindo seu arco.
    — Entendi. – Ana pegou sua espada e desejou um arco, assim como o do velho – Uau! Não é tão difícil. Como eu disparo agora?
    — Trinta segundos – Hatszu apontou para a porta – É só desejar e as flechas aparecerão como um passe de mágica. Quinze segundos, está pronta? Dez, nove, oito, se prepare e, três, dois, um. Atacar.
    A porta abriu e pelo menos vinte aranhas entraram, invadindo o local, subindo pelas paredes, teto e chão. O senhor disparava flechas esverdeadas em todas que se aproximavam dele. Sua pontaria era incontestável, ele não parecia mais um velho rabugento que furava as bolas de futebol das crianças. Ana se concentrou e conseguiu flechas de coloração amarelada, diferentes das dele, mas, aparentemente, tão fortes quanto. Apesar de nunca ter atirado de arco e flecha se lembrava bastante da pontaria que sempre tivera nos jogos. Ela errava uma ou outra, mas conseguia alguns acertos, impedindo que as aranhas viessem até ela.
    As aranhas acertadas pelas flechas se consumiam em chamas negras, sumindo do local. Depois de uma porção delas Hatszu e Ana encontraram-se no meio da sala, de costas um para o outro, com suor pingando de suas testas e muito ofegantes. O silêncio foi quebrado mais uma vez pelos trovões lá fora. A chuva ainda se fazia presente naquela noite escura e sombria da sexta-feira treze.
    — Uau, que sensação incrível. – Ana diz ofegante.
    — Não se empolgue tanto, disparar flechas consome a nossa magia e nos esgota. – Hatszu respondeu, tirando duas daquelas balinhas do bolso de sua roupa roxa – Pegue, vai melhorar seu vigor.
    Ana pegou a bala e colocou na boca, sentindo um gosto de ervas bem parecido com chá mate ou erva cidreira, mas ao mesmo tempo não conseguia identificar o sabor e o que seriam as balinhas misteriosas que Hatszu possuía.
    — O que são? – ela pergunta com a bala na boca.
    — É um combinado de ervas preparado sob a lua cheia com uma magia de restauração de vigor muito forte. Eu utilizo a magia daquelas criaturinhas ali na jaula, são fadas da noite. Não se preocupe – ele olha a cara de reprovação de Ana – Eu os solto depois e eles se recuperam assim que entram em contato com a luz da Lua.
    — O que faremos agora? – ela perguntou, fazendo seu arco virar novamente uma espada.
    — A gente se prepara para a chegada de Globack. Ele deve chegar em vinte e seis minutos e treze segundos. – Hatszu olhou para o céu.
    — Eu tenho tantas perguntas antes que você – ela fala sem jeito – morra.
    — Não precisa ter pena de mim Ana, eu vivi por mais de três mil anos. Preciso descansar. – ele sorriu amigavelmente.
    — Eu queria que você pudesse ser meu mentor.
    — Assim que isso tudo acabar o conselho vai vir até você e definir seu mentor, eu sou apenas seu antecessor.
    — Você está me dizendo que eu vou viver três mil anos como você? – ela olhou como se isso a incomodasse.
    — Claro que sim, isso quer dizer que você precisará abrir mão de muita coisa em sua vida. – ele disse sério e com pesar na voz.
    — E se eu não quiser isso? Se eu quiser ser normal?
    — Você poderá renunciar a isso quando o conselho trouxer seu contrato. Aí você esquece de tudo o que aconteceu hoje, tudo que aprendeu e perde sua magia para sempre.
    Ana deu um muxoxo como se estivesse em dúvida em sua escolha. Não existiria um meio termo? Um estágio onde ela pudesse experimentar tudo aquilo e depois escolher? Sentia-se confusa e preocupada, afinal, queria ter uma vida, um amor, queria poder desfrutar de sua família e amigos, ter uma carreira sólida e tudo mais que uma pessoa normal poderia querer.
    — Você poderá decidir tudo quando o conselho vier te visitar. Agora se concentra, Globack deve chegar em treze minutos e vinte e três segundos.
    — Como você sabe disso? – ela perguntou curiosa.
    — Está no livro a hora que ele vai chegar, o oráculo prevê toda a batalha e certamente ele já sabe o final, mas ele apenas compartilha comigo o que ele quer, então eu não sei como acaba. Diz no livro que Globack pousará em meu telhado às onze e dezesseis, são onze e quatro agora – ele olhou em seu relógio de pulso – ele chega em doze minutos e treze segundos.
    — Não vai ser muito desleal nós dois enfrentarmos ele? – Ana questionou – Dois contra um não é covardia?
    — Com o poder que ele possui hoje, não. Vamos subir?
    — Você quer que a gente lute no seu telhado? – ela perguntou incrédula.
    — Sim, vamos pela janela. – Hatszu disse caminhando até ela – Escuta Ana, você tem medo de altura?
    — Acho que depois de cair na sua sacada não. – ela deu de ombros – Por quê?
    — Vou te ensinar a voar. Não espero que aprenda de primeira, mas se você disse que caiu da sua casa até a minha creio que possui o dom. Você voou hoje.
    — Eu realmente não achei nenhuma explicação na física que pudesse ter feito com que eu caísse bem ali. Eu vi tudo em câmera lenta e depois estava pendurada na sacada.
    — Sim, você voou! – Hatszu deu um leve sorriso – Vamos?
    Enquanto ele dizia isso, se jogou da janela, aparecendo no mesmo instante no lado de fora, como se pisasse em degraus invisíveis. Ana, admirada com tudo, seguiu até a janela e olhou para baixo. Ela engoliu seco e olhou para Hatszu.
    — O que eu faço? – ela pergunta trêmula.
    — É só se concentrar e desejar fazer parte do vento. Toda a gravidade ao seu redor será reduzida a zero e você vai flutuar. Para controlar é só pensar para onde quer ir. O pouso normalmente é mais difícil.
    — Me ajudou muito. – ela olha para o céu – Não pode dar uma ajudinha?
    Hatszu estendeu a mão para Ana. Ela segurou e desceu. Por um momento sentiu como se fosse cair de mais de quatro metros de altura, mas sentiu seu corpo ficando leve enquanto tentava se concentrar em voar. Era ridículo e ao mesmo tempo fabuloso. Quando finalmente teve coragem para abrir os olhos, Ana estava sobre a casa de Hatszu, flutuando alguns centímetros sobre as telhas.
    — Uau, acho que agora você pode me soltar.
    — Tem certeza? Não quero que você quebre o telhado da minha casa. – ele olhou rabugento.
    — Eu sou leve, jamais quebraria.
    Hatszu soltou a mão de Ana devagar enquanto observava a altitude da garota manter-se estável. Hatszu soltou um sorriso e disse: “três minutos e vinte e seis segundos”. Seus olhos,que antes haviam ficado castanhos, agora tomavam novamente a forma de uma galáxia. Seu arco mais uma vez era o cajado majestoso com a lua e a estrela e Ana conseguia ouvir uma energia circulando pelo corpo do feiticeiro.
    — Agora é tudo ou nada Ana – a voz de Hatszu estava metálica e com um eco diferente do tom de antes – Se concentre e deixe o caos tomar conta de você, libere seu poder.
    Hatszu flutuou até Ana e a tocou na testa. Nesse momento ela sentiu como se uma corrente elétrica invadisse seu corpo e carregasse seu peito com muita energia. Seus olhos deixaram sua coloração negra e começaram a brilhar alaranjados como o sol, sua espada brilhava intensamente e ela sentia a energia sob seus pés....
    19 min
  • CNa#046: Batalha das Eras (Parte 3) A História | Conto de Fantasia
    “Batalha das eras” é um conto dividido em cinco partes, sobre batalhas milenares ao longo dos anos, em defesa do plano terrestre. É uma história independente que se passa em um mundo fictício idealizado pelo autor. Neste conto, a garota Ana, de vinte e poucos anos, faz uma descoberta sobre seu vizinho estranho, o senhor Benson. Esta descoberta leva Ana a viver uma aventura jamais imaginada por ela. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Herica Freitas.
    ▬ Narração:
    Wevison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “Batalha das Eras (Parte 3) A História", um Conto de Fantasia.
    Ao correr a lanterna sobre as pernas Ana percebeu que a figura parada sob o batente da porta estava vestida com um longo vestido de seda fina, em coloração roxa extravagante e decorado com várias estrelas douradas e prateadas dos mais diversos tamanhos. Em uma das mãos a figura segurava um cajado de metal dourado com uma lua e uma estrela na ponta. Ao iluminar a face da criatura ela reconheceu a cara carrancuda do seu vizinho, Benson.
    — Senhor Benson me desculpe eu n…
    Ela foi interrompida pelo senhor que, magicamente, moveu-se até a sua frente, tapando a sua boca com o dedo indicador esquerdo. “Shhh” ele fez sussurrando, olhando dentro dos olhos dela. Ana não conseguiu deixar de reparar que onde deveriam existir pupilas no senhor Benson existia apenas um brilho, como se fosse uma galáxia escura, repleta de estrelas. Senhor Benson tocou no ombro de Ana com sua mão esquerda e por um momento ela sentiu como se flutuasse e logo depois despencasse em um abismo sem fim. Seu estômago se virou enjoado e ela, agora com medo de abrir os olhos, apertou com força o cabo da espada e a lanterna em suas mãos. Sentiu-se como se a gravidade se dissipasse do ambiente e seus ouvidos não fossem mais capazes de ouvir absolutamente nada.
    — Ai, isso doeu – ela disse, ao sentir o chão de madeira gelado sob seu corpo – o que?
    — Não fale muito, a primeira vez é sempre conturbada. – o senhor Benson respondeu – Você fez uma viagem dimensional para se transportar para o meu terceiro andar. Abri uma janela mágica que nos mandou para o espaço e depois nos cuspiu aqui. Acredito que as aranhas não serão capazes de entrar por enquanto.
    Ana levantou-se do chão devagar e piscou algumas vezes para voltar a enxergar o ambiente, que se encontrava embaçado. Ela olhou para o senhor Benson, que estava parado à sua frente com o braço estendido, oferecendo algo parecido com uma balinha de hortelã.
    — Tome, vai melhorar o enjoo – ele disse – precisamos nos preparar, minhas defesas não vão aguentar por muito tempo. Ele virá atrás de mim.
    — Ei, eu exijo uma explicação agora! – ela disse aceitando o doce.
    — Você invade a minha casa, pega minha espada, suja meu carpete e se sente no direito de me pedir uma explicação? – ele disse cruzando os braços.
    — Sinto muito, eu não queria invadir a sua casa, eu queria te avisar que tinha uma aranha gigante entrando nela, tentei ser legal e uma boa vizinha, ao contrário do senhor. – Ana colocou a bala na boca e cruzou os braços emburrada – E então?
    — Tudo bem – ele respirou – vou te contar, sente-se.
    Ana percebeu que, com um gesto do cajado, duas cadeiras de madeira se materializaram logo atrás de ambos. Benson sentou-se como se aquilo para ele fosse como escovar os dentes de manhã ao acordar.
    — Eu vou resumir para você, não espere entender tudo.
    Ana sentou-se como se estivesse desacreditada que aquela cadeira fosse real.
    — Meu nome é Hatszu, mas aderi o nome humano de Benson, porque precisava me esconder. Sou um feiticeiro muito poderoso de uma aliança que protege este plano das criaturas mais hostis que você possa imaginar. Eu sou o responsável por guardar os portões de grandes titãs do caos, você já ouviu falar de titãs?
    — Só quando jogo videogame, isso é ficção.
    — Não, não é! Eu guardo comigo essa chave – ele mostrou um colar com uma chave muito brilhante e dourada – sou a única pessoa que sabe o encantamento para abrir o portão, se falado corretamente e a chave for utilizada, o portão se abre, liberando os três grandes titãs do caos, que destruirão toda a vida deste universo. Eles são: Guerra, Escuridão e Morte. Aquelas aranhas que você viu, que invadiram a minha casa, são lacaios de um mago maligno que tenta roubar a chave de mim há mais de 2 mil anos. Globack é um seguidor dos titãs que estão presos e vem tentando me matar há muito tempo.
    — Você está me dizendo que a magia existe mesmo, que os titãs são reais e que você, meu vizinho rabugento que fura a bola da galera, é um mago poderoso? – Ana caiu na gargalhada – Isso é loucura.
    — Você já olhou ao seu redor?
    Ana parou por um instante, ela não havia observado onde estava desde que aterrissou no chão frio. Ela observou que estava em uma sala com muitos frascos coloridos e aparatos que, para ela, eram de um laboratório de química. Além disso havia um telescópio próximo à janela, uma estante cheia de livros de capas coloridas, uma escrivaninha com mais papéis como as reportagens que encontrara no quarto, e uma jaula com algumas criaturas do tamanho de esquilos, mas que possuíam asas e um brilho fabuloso de tom esverdeado.
    — Então essa é a janela que você estava hoje de manhã. – ela disse, indo até a janela e observando sua rua.
    — Sim, esta é a janela do terceiro andar, minha torre, onde faço meus experimentos e estudo algumas magias para proteger o que deve ser protegido.
    — E você possuiu meu amigo hoje para falar comigo. – ela disse voltando sua atenção para ele.
    — Sim, hoje quando nossos olhares se cruzaram eu senti uma magia em você, ela estava fraca, pensei que você estivesse sendo manipulada por Globack, mas agora sei que não.
    — Magia em mim? – ela riu novamente – Você só pode estar brincando.
    — Você foi capaz de empunhar a espada da luz – ele indicou a espada na mão direita de Ana com a cabeça – Se você pegou nesta espada e não morreu queimada, provavelmente é uma mulher mágica e não sabia ainda.
    Ana soltou a espada no chão imediatamente.
    — Você está dizendo que eu poderia ter morrido ao tocar nesta espada?
    — Sim, matei o último vizinho desta forma. Bem, ele se matou. Deu muito trabalho para conjurar uma ilusão na casa dele e fazer as autoridades acreditarem que ele morreu dormindo.
    — Você matou o dono da minha casa?
    — Eu não, ele tocou no que não podia e se explodiu. – Benson deu de ombros – Depois disso, resolvi nunca mais receber nenhum vizinho em casa.
    — Mas que merda! Eu quero ir para casa – Ela disse, voltando-se para a porta.
    — Você não pode, as aranhas agora estão te rastreando, elas sentiram a mesma magia que eu senti em você. Precisamos trabalhar juntos para proteger a chave até que essa chuva passe.
    — Me diz uma coisa, por que hoje? Por que seu inimigo nunca atacou?
    — Neste dia os poderes dele ficam fortes, se equiparando aos meus. Globack é um mago poderoso, mas nunca foi forte o suficiente para me vencer. Este dia de superstição para os humanos é, na verdade, um reflexo do poder de Globack. Por ficar muito forte ele influencia pessoas fracas, como os seres humanos, com a má sorte.
    — E hoje você tem que lutar com ele pela chave?
    — Sim Ana, hoje os poderes dele se equiparam aos meus e nós lutamos até que o dia termine. No fim quem ficar com a chave ganha.
    — E por que você nunca o matou? – ela perguntou sentando-se de volta na cadeira.
    — Globack, assim como eu, tem uma data de morte. Todos que possuem este grande poder consigo tem uma data definida, nós não podemos ser mortos até que esse dia chegue. O dia de Globack eu não sei ao certo, mas durante todos estes 2 mil anos nós mantemos este padrão incessante de batalhas, até hoje.
    — Hoje?
    — Sim. Hoje, antes da meia noite, mais precisamente às onze e cinquenta e seis, é o meu dia de morte – ele disse sorrindo.
    Ana se assustou com a serenidade no olhar do homem. Seria normal alguém falar com tanta tranquilidade sobre sua morte? E mais, como ele poderia estar tranquilo com tudo aquilo que acabara de contar para ela? Abriu a boca para perguntar, mas foi interrompida.
    — Sei o que você está pensando, mas eu preciso te contar mais uma coisa. Existia uma profecia, Ana, e essa profecia falava sobre você.
    — Sobre mim? – ela arregalou os olhos.
    — Sim.Você pode pegar aquele livro com a capa dourada logo atrás de você? – ele apontou para um livro sobre a mesa.
    Ana se levantou e caminhou até o livro, que se encontrava aberto em uma página bem específica.
    — Você pode, por favor, ler o que está escrito? – ele sorriu com os olhos.
    — O guardião da chave também possui dia e hora, na noite de sexta-feira, dia treze de novembro de dois mil e vinte, depois de Cristo. Hatszu, em sua batalha com Globack, morrerá. Não fique preocupado, oh grandioso guardião, nessa mesma noite o escolhido cairá em sua casa, a garota cujo nome você saberá empunhará a espada da luz e seguirá ao seu encontro, mais precisamente às oito e treze. Você a reconhecerá pela marca, uma grande chave rasgada em sangue no seu pulso esquerdo, lugar onde ela deverá guardar a chave dada por você. Assim que ela estiver em posse da chave será capaz de compreender nosso mundo e seu legado.
    — Viu? Você caiu em minha casa às oito e treze de hoje, empunhou a espada para matar aquela aranha e tem a cicatriz.
    — Você está enganado, eu arranhei meu braço quando caí é apenas uma… – Ana deixou o livro cair no chão quando olhou seu punho – isso não estava aqui antes.
    Ana olhou para seu punho esquerdo. O local onde antes havia sangue e arranhões de cimento, agora tinha uma cicatriz em forma de chave do tamanho do colar do senhor Benson. Apesar de cheia de sangue a cicatriz não escorria, muito menos doía. Ana tocou seu punho sentindo-se cheia de coragem e
    20 min
  • CNa#045: A Mansão Assombrada | Conto de Horror
    Crianças são seres muito curiosos, e por vezes costumam ir além de sua capacidade para sanar suas dúvidas. Todavia, existem alguns casos em que elas passam dos limites, colocando em risco suas vidas e a vida de outras pessoas. Por isso, mantenha sempre um adulto responsável por perto quando o assunto for investigar uma mansão hipoteticamente mal assombrada. Indicado para 16 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Herica Freitas.
    ▬ Narração:
    Brendo Santos.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “A Mansão Assombrada”, um Conto de Horror.
    Que as crianças são muito curiosas, todo mundo sabe. Entretanto, existem certas ocasiões em que sua curiosidade excede os limites de saúde e segurança delas ou de terceiros. O caso que vou relatar ocorreu em 1990, numa cidade portuária, uma ilhazinha na verdade, chamada Atlas. A cidade era bem movimentada, pelo seu porto e comércio de pescados. Quem não era pescador, era cozinheiro de frutos do mar ou capitão de navios, operador de guindastes, ou melhor, qualquer profissão voltada para a pesca, armazenagem e comercialização dos produtos pesqueiros.
    Todos os Atlasianos eram corados de sol, vestiam-se em sua grande maioria com roupas casuais, pelo calor da região, e praticavam atividades físicas relacionadas ao mar, como natação e surf. As crianças eram muito animadas, e por ser uma ilha bem pequena e com poucos moradores, elas quase sempre estavam sem a companhia de um adulto ou responsável. Brincavam pelos portos, andavam de bicicleta, frequentavam o único fliperama da ilha e entravam às escondidas nos cinemas.
    Arthur, ou simplesmente Art, estava na flor de seus 11 anos, e era o campeão de Pacman do arcade “Hora do Jogo”. Ele andava sempre na companhia de seus três fiéis amigos, Ana (10), Clóvis (9) e Miguel (12). Juntos eles percorriam toda Atlas, com exceção, de um único lugar. Na pequena ilha, havia uma mansão localizada no alto do maior pico, jamais habitada por alguém, é o que todos os adultos contavam. Conhecida como a mansão mal assombrada, estava lá havia gerações, e ninguém nunca soube explicar quem a havia construído.
    Há quem diga que a mansão seja um portal para outra dimensão, outro mundo, cheio de criaturas horrendas. Muitos acreditam ser o portão do inferno, que lá residem demônios prontos para levar suas almas. Outros, dizem que um vampiro morou ali, mas que morreu com uma estaca em seu peito, fincada por um herói que de lá jamais saiu. No entanto, ninguém sabe qual dessas histórias é de fato a verdadeira, fato é que ninguém, seja adulto ou criança, tem coragem de ir até aquela mansão.
    No dia 31 de outubro, de 1990, data comemorativa do Halloween, Arthur e sua trupe andavam vestidos de caça-fantasmas pela vizinhança, pediam doces ou travessuras. O combinado era que as crianças estivessem de volta em casa às 10 da noite, ou seus pais ficariam muito nervosos. Mas o inesperado ainda estaria por vir. Art, que era um garoto muito competitivo, cheio de postura de líder e decidido, fora desafiado por seu rival, Jhony. Ele, chamando Art de covarde e medroso, o incentivou a subir a colina para a mansão assombrada.
    Art, que não gostava de perder, nem mesmo ser chamado de fraco, convenceu seus companheiros a irem consigo, porém disse a eles:
    -E faremos mais do que isso! Entraremos naquela casa.
    Era uma ideia louca, mas que enchia o corpo do garoto de adrenalina. Suas mãos suavam, seu coração batia rápido e sua respiração estava descontrolada, não sabia se era nervosismo ou o cansaço de subir aquela colina alta.
    Chegaram ao topo, e lá estava ela. A mansão com seus três andares, visivelmente abandonados. O primeiro composto de uma porta alta, janelas totalmente cobertas por cortinas brancas que não balançavam com os ventos da alta colina, pois os vidros estavam abaixados. O segundo andar, também repleto de janelas, com as mesmas características, Art e seus amigos podiam jurar que as do segundo andar eram mais assustadoras. No terceiro havia janelas como as demais, com a diferença estrutural da presença de uma torre, parecia como um pequeno castelo que exibia longa janela curvada. Esta, porém, pregada com tábuas pelo lado de dentro.
    Ana reparou a madeira parcialmente deteriorada pela umidade proveniente do mar e, principalmente, devido aos séculos de exposição a tal ambiente. “Precisamos mesmo entrar?” perguntou Clóvis que estava com as pernas tremendo, claramente amedrontado. “Não existe essa coisa de fantasma, isso é lenda pra gente não vir aqui”, Art respondeu com um ar destemido, e complementou com um “Vamos!”. Art, como esperado, partiu primeiro, liderando o grupo como sempre fizera, caminhou em direção à cerca viva que os separava da grande porta de entrada da casa, ela possuía cerca de um metro de altura e meio de largura, com galhos emaranhados entre si, alguns secos, outros com espinhos e uma ou outra folha verde. Olhou para ambos os lados antes de pular a cerca e, quando o fez, ao tocar o solo do interior do terreno sentiu um frio tomar conta de seu corpo.
    Depois de Art foi a vez dos companheiros, primeiro Miguel, que por ser o mais alto não teve muita dificuldade em pular sem tocar a cerca, depois Ana, que acabou cortando sua mão em alguns espinhos, por fim Clóvis, que olhou para a cerca, olhou para os amigos e depois para a janela da torre de castelo no terceiro andar. Nesse momento, o garoto viu uma silhueta observar as crianças pela fresta de uma tábua, o que o deixou amedrontado demais para pular, ele apenas gritou e correu colina abaixo, deixando os três amigos para trás.
    Sem entender, e sem enxergar o que Clóvis havia visto, Art, Ana e Miguel partiram rodeando a casa, tentando ver seu interior pela fresta das janelas, mas sem sucesso. Deram a volta pelo lado esquerdo, até atingirem o quintal traseiro do local. Observaram então que a cerca viva acabava à beira de um precipício muito alto, que ia de encontro ao mar e a muitas rochas pontudas. Voltaram seus olhares novamente para a casa, perceberam que um alçapão estava de portas escancaradas, como se os convidasse para entrar.
    Art pegou sua lanterna do bolso e indicou o alçapão com a cabeça para Ana e Miguel, partiu à frente caminhando devagar até a entrada. Ele iluminou com sua lanterna, mas conseguiu enxergar apenas degraus de uma escada que não parecia ter fim devido à escuridão. “Temos que entrar, a lanterna não está ajudando”, Art disse colocando o primeiro pé no degrau mal iluminado, o segundo pé veio em seguida, mas sem esperar, Art foi jogado ao chão escada abaixo, em função do degrau apodrecido que cedeu sob seu peso.
    “ART!” gritaram os dois amigos ao verem o garoto sumir para a escuridão. Art sentiu dor enquanto caía e rebatia pelas quinas dos degraus, e depois de muito rolar, sentiu seu peito bater sobre um chão frio. Sentia dor, estava zonzo, seu ouvido zumbia, sequer ouviu seus amigos gritarem seu nome, não enxergava nada pois a lanterna havia caído de sua mão com a queda da escada. Segundos após o acidente, retomou a consciência, conseguiu identificar um facho de luz vindo de sua direita, sua lanterna provavelmente havia rolado para longe. Se levantou com dificuldade, suas pernas ardiam, seus cotovelos também e suas costelas doíam ao respirar.
    Lá fora, Miguel e Ana estavam desesperados, tentando ver algo dentro da casa, mas sem sucesso. Ana já estava com seus olhos cheios de lágrimas, porém Miguel ainda se mantinha firme. Depois de algum tempo respiraram aliviados ao ouvir a voz de Art advinda do final da escada:
    -Eu me machuquei, me ajudem…
    Ana ainda chorosa perguntou:
    -Mas a gente vai cair também?
    -Não se a gente der a volta – Miguel completou -“Art, você consegue abrir uma porta ou janela?
    -Sozinho? – ele respondeu.
    -Está com medinho? – Miguel caçoou.
    -Não, cla…claro que não.
    -Então abre a porta aqui dos fundos.
    -Tá…tá bom.
    -A gente vai esperar lá na outra porta, tá bom? Vem, Ana.
    Art virou-se de costas para a escada, tentando iluminar o máximo que podia. Estava em uma espécie de porão, mas não via nada além de silhuetas cobertas de lençóis brancos, como se a mudança de alguém nunca tivesse sido buscada. Não conseguia distinguir as formas, ao menos não ousou descobrí-las para saber. Poderia jurar ter visto algo se mexer por entre elas, mas tentou ignorar este fato, pois já estava amedrontado demais, “Tá tudo bem”, repetia baixinho diversas vezes. Caminhou por entre a mobília, sentiu uma respiração em seu pescoço, gritou, deixou a lanterna cair no chão, agachou-se tapando os ouvidos com os braços.
    Algum tempo depois, a agonia deu lugar à coragem para esticar a mão e pegar a lanterna, então olhou ao redor e não viu ninguém. Ouviu da extremidade de uma segunda escada um rangido de porta se abrindo, sozinha em meio à inquietante ausência de outros sons. Ficou imaginando que alguém poderia ter aberto para ele, talvez um fantasma? Um demônio? Um ladrão? O vampiro das velhas estórias? Seja lá o que fosse, Art não conseguia imaginar nada de bom vindo dalí. Pensou em retornar, e tentar subir a escada podre para voltar para fora. Correu até o primeiro degrau, mas ao olhar para cima, para fora, viu a entrada se fechando com rapidez.
    Sem ter para onde ir, voltou para a porta que havia se aberto, engolindo em seco, estava tremendo, suando, não sabia se de dor ou de medo, mas estava. Começou a subir lentamente os degraus, que rangiam mais que a porta que se abriu, estava tremendo tanto que a luz de sua lanterna se projetava trêmula pelos degraus empoeirados. Chegou à porta, estava olhando para o assoalho de madeira, com medo de projetar a luz para frente e encontrar quem a havia aberto. Percebeu então que no chão haviam marcas de arranhões, como se algum bicho, ou pessoa, tivesse sido arrastado naquela direção.
    Colocou o primeiro pé para dentro do cômodo à sua frente,...
    20 min
  • CNa#044: Batalha das Eras (Parte 2) A estranha casa de Benson | Conto de Fantasia
    “Batalha das eras” é um conto dividido em cinco partes, sobre batalhas milenares ao longo dos anos, em defesa do plano terrestre. É uma história independente que se passa em um mundo fictício idealizado pelo autor. Neste conto, a garota Ana, de vinte e poucos anos, faz uma descoberta sobre seu vizinho estranho, o senhor Benson. Esta descoberta leva Ana a viver uma aventura jamais imaginada por ela. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Herica Freitas.
    ▬ Narração:
    Wevison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “Batalha das Eras (Parte 2) A estranha casa de Benson”, um Conto de Fantasia.
    Ana ligou a lanterna de seu aparelho celular e caminhou até uma porta na estante à frente, abrindo-a e vasculhando alguns objetos. Encontrou uma velha lanterna tática ainda com bateria. Ela colocou seu telefone celular, que se tornou inútil para este momento, sobre a estante e caminhou até a cozinha.
    -Ótimo, que a luz ilumine este ambiente. O que foi isso? – Ana se virou para um barulho vindo de fora.
    Com o coração disparado, seguiu até a porta dos fundos, munida de sua lanterna. Passou a mão em uma capa de chuva pendurada em um velho mancebo na saída de sua cozinha, vestiu-se e então abriu a porta com a intenção de encontrar a fonte dos barulhos vindos do lado de fora de sua casa.
    -Alô, alguém por aí? – ela perguntou, desejando não obter resposta – Alguém?
    Ouviu então o barulho de patas sobre seu telhado, como se vários insetos andassem ao mesmo tempo sobre sua casa. A chuva ainda pesada caía no chão de seu quintal , formando grandes poças de água que refletiam a luz trêmula de sua lanterna. Ana direcionou sua luz para a parede adjacente, na esperança de encontrar a criatura ou seja lá o que for que caminhava sobre seu telhado. Naquele momento ela observou uma aranha grande e peluda tentando vencer a chuva para chegar até o telhado do senhor Benson.
    -Aaah, o que é isso? – ela gritou, se assustando e pensando como poderiam existir aranhas tão grandes assim – Jamais vi na vida uma aranha maior do que um cão.
    Correndo sobre as poças de água em seu quintal, Ana acessou a escadaria que dá passagem para o terraço na esperança de avisar o senhor Benson sobre a criatura que acabara de adentrar seu quintal. Ela correu fatigada pelos dez, doze, dezesseis, vinte e dois e, finalmente, trinta degraus de cimento até o abrigo do telhado de zinco que a protegia da chuva gelada.
    Ofegante, tentou gritar ao senhor Benson na esperança de que ele ouvisse sua voz em meio a todo aquele barulho de água e trovoadas ferozes, mas sem sucesso. “O retorno das atividades físicas viria a calhar agora” ela pensou, enquanto procurava um meio de avisar seu não tão nobre vizinho sobre a grande aranha negra e peluda que havia pulado em seu telhado. Olhando ao redor ela procurou algo para subir até a altura da janela para gritar mais de perto e encontrou uma caixa velha de madeira, antes utilizada para guardar algumas tralhas em seu terraço.
    Ana posicionou a caixa ao lado da parede de seu terraço, colocou a lanterna tática na boca, segurando-a pelo cabo com os dentes e subiu na caixa. Com um impulso logo estava em cima do muro, olhando para a sacada da janela aberta. Observou ao redor para ver se encontrava a criatura e, ao girar seu pescoço para a esquerda, viu a aranha no telhado de Howard Benson. Com o susto Ana escorregou do muro, caindo do outro lado. Sua lanterna caiu sobre a sacada com o feixe de luz direcionado para a aranha, que se assustou e correu para o terceiro andar da casa.
    Escorregando e despencando rumo ao chão molhado Ana, sentindo um medo tremendo, como se fosse morrer ali, caindo de uma altura de mais de dois metros, em desespero, conseguiu se agarrar na pilastra da sacada da janela, com muito custo. Ela encontrava-se molhada, com os braços arranhados e sangrando sob um pequeno toldo negro, que protegia uma janela aberta de um cômodo escuro. Preocupada com a grande aranha e com medo, Ana logo pegou a lanterna, iluminando o seu redor à procura de uma forma de voltar para o terraço.
    -Droga, ai. Isso com certeza vai ficar feio. – ela disse, tocando com o indicador os arranhões em seu braço – Tenho que dar um jeito de dar o fora daqui. – disse sussurrando para si mesma.
    Depois de muito analisar as possibilidades de voltar para seu terraço, decidiu que talvez fosse melhor gritar pelo senhor Benson e explicar tudo do que se arriscar, afinal, ela estava em um nível mais baixo que seu terraço e seria quase impossível escalar o muro molhado, além de que, no telhado havia uma grande tarântula asquerosa. Ela então virou-se para a janela escura, iluminando-a com sua lanterna, revelando o interior do cômodo.
    A pouca quantidade de luz era suficiente para revelar um cômodo estranho, com alguns móveis velhos e empoeirados. Na tentativa de chamar o senhor Benson e sem resposta, Ana adentrou o cômodo, pousando sobre um grande capacho embolorado. Sua lanterna varreu o lugar revelando uma máquina de costura antiga e enferrujada, um baú de madeira quadrado, uma cadeira de balanço de bambu e tecido e um grande carrinho de roupas esquisitas de diferentes tons de preto, azul e roxo. Uma espada na parede, exposta como um troféu, refletia a luz que passava sobre sua lâmina, chamando a atenção de Ana.
    Caminhando em direção à espada, como se estivesse hipnotizada por ela, a garota cruzou o cômodo, deixando para trás a janela aberta e a chuva que ainda insistia em cair lá fora. Neste momento Ana ouviu um baque logo atrás dela, seguido do mesmo barulho que ela ouvira sobre o telhado. Ao virar-se observou a grande aranha, agora encarando-a com as pinças abrindo e fechando.
    -Mas que merda – ela disse enquanto tateava a parede que agora estava em suas costas – Você certamente não veio pedir informação.
    Depois de tatear a parede alguns centímetros acima de sua cabeça, Ana sentiu o metal gelado em seus dedos. Ela retirou a espada do suporte, segurando-a pelo seu cabo de couro. Sentiu uma energia mágica invadir seu peito enquanto empunhava a espada em direção à aranha, que agora caminhava vagarosamente com suas oito patas em direção a ela.
    -Se você vier eu vou atacar, estou avisando. – ela disse, desesperada e com a voz trêmula – Não sei se você pode me entender, mas eu estou avisando.
    Ao terminar de pronunciar estas palavras Ana viu a aranha aumentando a velocidade em sua direção. A criatura peluda e grande saltou e Ana, em uma tentativa desesperada, empunhou a espada frente a seu peito e fechou os olhos, ouvindo um splesh e sentindo o peso da espada aumentar, o que fez com que sua mão descesse até o chão. Ana abriu os olhos e observou a aranha espetada tendo espasmos em algumas de suas muitas pernas.
    -Mas que merda é essa? – Ana disse, direcionando a luz da lanterna para a aranha morta – eu preciso achar o Benson. Senhor Benson, você está em casa? Senhor Benson, sou eu, Ana, você está aí?
    Ana gritava enquanto se dirigia para a porta do cômodo. A garota, ainda munida da espada, agora se encontrava em um corredor vazio e escuro. Ela mirou a lanterna para a esquerda, revelando a escada para o primeiro andar. Por um momento pensou em descer e dar o fora, pulando o portão da casa, já que havia matado a ameaça e seu propósito naquela casa havia sido cumprido. Ela mirou a lanterna para a direita e revelaram-se mais uma série de portas e uma escada que parecia levar ao terceiro andar. Seu instinto curioso foi atiçado e ela se pegou dividida entre dar o fora dali ou bisbilhotar a casa do homem mais estranho da sua rua, que, aparentemente, não estava em casa.
    -Senhor Benson, estou entrando,desculpe – ela caminhou vagarosamente pela direita – mas eu acabei caindo do meu terraço na casa do senhor. – ela tentou abrir a primeira porta à esquerda – É que eu queria avisar o senhor sobre a aranha gigante que por acaso eu matei naquele outro quarto ali – ela engole seco ao ver que a porta está trancada – eu só quero ir para a minha casa, tirar essa capa de chuva e tomar um bom chá quente.
    A segunda porta que ela tentou abrir se mostrou destrancada. Ela encostou a espada na parede ao seu lado e abriu a porta devagar. Nesse momento ela se assustou com um trovão vindo de fora, mas logo se recompôs. Pegou a espada com a mão direita e com a esquerda iluminou o ambiente com sua lanterna. Conseguiu, com a pouca luz que adentrava o ambiente, distinguir alguns móveis. Uma cama bagunçada, uma mesa com alguns papéis e um abajur, uma cadeira e um armário indicavam que aquele cômodo era um quarto.
    Ana entrou sem fazer muito barulho e foi direto à mesa, com sua lanterna iluminando os papéis. Alguns eram recortes de jornais sobre diversas tempestades e cortes de energia da cidade, sobre raios que caíram em postes próximos e reabastecimento de energia. Uma reportagem em especial chamou sua atenção e, sem perceber, leu em voz alta: “Sexta-feira, treze de março de dois mil e vinte, um mito? Superstição? O que aconteceu na tempestade misteriosa que deixou a sexta-feira mais temida por todos no escuro por horas?“. Ela continuou, correndo os olhos até uma frase grifada em marca-texto verde: “Uma grande energia foi registrada pela Companhia de Luz, que não soube explicar sua origem. Mesmo com os geradores desligados para manutenção, a corrente elétrica corria pelos fios. Seria falta de desligamento de equipamentos?”.
    -Só existem reportagens do dia treze aqui, esse cara deve ser obcecado por essa data. – ela disse para si mesma, repousando o recorte de jornal sobre a mesa de novo – Preciso dar o fora daqui. Droga, não falha agora lanterna, eu preciso de você! – ela exclamou, balançando a lanterna que piscava.
    A lanterna se apagou e Ana encontrou-se totalmente no escuro. Sentiu sua mão suar no cabo de couro da espada,...
    16 min
  • CNa#043: Batalha das Eras (Parte 1) Sexta-Feira 13 | Conto de Fantasia
    “Batalha das eras” é um conto dividido em cinco partes, sobre batalhas milenares ao longo dos anos, em defesa do plano terrestre. É uma história independente que se passa em um mundo fictício idealizado pelo autor. Neste conto, a garota Ana, de vinte e poucos anos, faz uma descoberta sobre seu vizinho estranho, o senhor Benson. Esta descoberta leva Ana a viver uma aventura jamais imaginada por ela. Indicado para 14 anos ou mais.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Herica Freitas.
    ▬ Narração:
    Wevison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “Batalha das Eras (Parte 1) Sexta-Feira 13”, um Conto de Fantasia.
    Era mais um dia chato e tedioso para a jovem Ana, de vinte e poucos anos, a sexta-feira amanheceu cinza e fria. Ela se levantou, tomou seu banho matinal com água bem quente e bebeu um grande copo de café, acompanhado de nada, ela fazia a mesma coisa cinco dias por semana, enquanto o tempo ia passando e aos poucos a idade ia chegando. As responsabilidades de adulto, que chegaram de repente, tomaram dela aquilo que ela tinha de mais precioso: sua curiosidade.
    Morava em uma pequena cidade no interior de Minas, que era pouco movimentada naquela hora da manhã. Ela saía de casa para trabalhar sempre às seis horas e vinte minutos, deixando a sua residência cercada de vizinhos estranhos para trás. De todos os vizinhos, o Senhor Howard Benson sem dúvidas se destacava. Todos os dias, durante várias horas da madrugada, Ana podia ouvir barulhos estranhos vindo da casa do velho rabugento que aparentemente morava sozinho, contudo fazia barulho como se mais de uma pessoa estivesse lá.
    Durante os quatro anos que ela morava naquela monótona rua, nunca havia visto sequer uma pessoa visitá-lo: nenhum filho, sobrinho, irmão, necromante, tio ou amigo. O senhor Benson quase nunca saía de sua casa e, na maioria das vezes, olhava pela janela a rua enquanto os filhos chatos dos vizinhos brincavam de futebol utilizando traves de gols improvisadas com chinelos.
    A casa do senhor Benson era, sem dúvidas, a mais assustadora de toda a vizinhança. Uma casa de três andares com grandes portões negros e altos, através dos quais que ninguém conseguiasequer olhar para o seu interior. Uma nuvem cinza sempre estava sobre a casa do velho. Por mais que fizesse sol e o dia estivesse azul e caloroso, a casa de Howard sempre parecia ter um aspecto fantasmagórico e hostil.
    Nada de diferente acontecera com Ana naquele dia até sair com seu carro da garagem e estacionar do outro lado da rua para poder fechar o portão e se dirigir ao trabalho. Durante o trajeto do carro até o portão involuntariamente olhou para a janela mais alta da casa assustadora do senhor Benson. Naquele momento observou o velho homem cruzar o olhar com o seu. Sentindo um arrepio na espinha, desviou rapidamente o olhar, dirigindo-se até o seu portão.
    Ao voltar para o carro, evitou olhar para trás, mas sentiu-se observada e incomodada. Quando adentrou seu veículo ela procurou o senhor na janela, porém ele que não estava mais lá. Ana simplesmente deu a partida e seguiu até seu trabalho para mais um dia de atividades chatas e monótonas. Durante o caminho, acompanhada de uma boa música, se perguntava onde estariam sua curiosidade e sua coragem que sempre estiveram consigo quando jovem.
    -Bom dia Ana – cumprimentou seu amigo do escritório.
    -Bom dia Jhosé, tudo bem?
    -Vou bem, muitos relatórios hoje, não é mesmo? Ana, por que você estava bisbilhotando a minha casa hoje cedo? – ele perguntou com uma voz robótica.
    Ana sentir novamente um arrepio em sua espinha ao ouví-lo dizer essa frase, engoliu seco e perguntou:
    -O que você disse?
    -Que temos muitos relatórios para fazer hoje, não é mesmo? – ele respondeu sorridente, se sentando em sua cadeira.
    -Digo, sobre sua casa, sobre estar te bisbilhotando.
    -Você dormiu bem Ana? Sabes que residimos em bairros extremos da cidade, seria impossível que você estivesse em minha casa hoje cedo. Eu não disse isto. Agora vamos trabalhar, o chefe pediu aquele relatório das entregas de sobressalentes pra ontem!
    Ana passou o resto do dia fazendo relatórios tediosos e pensando no que havia acontecido. Seria muito estranho continuar tendo essa conversa com Jhosé e explicar toda a trama, desde que se mudara para a presente casa, passando pelo vizinho louco e os barulhos que ela ouvia para poder chegar até o presente momento. O restante do dia passou exatamente igual a todos os outros: lento e chato. Por sorte ou azar, Ana precisou ficar até mais tarde em seu trabalho e quando retornou para casa já era noite.
    Quando estacionou seu carro e foi ao encontro do portão, seguindo o mesmo caminho que fizera de manhã, ela propositalmente procurou pelo senhor Benson em sua janela, mas observou apenas uma janela vazia, com pequenos feixes de luz esverdeados saindo do interior da casa. Mais uma vez, como nos últimos quatro dias da semana, Ana entrou com seu carro na garagem e, depois de trancar o portão, se viu jogada no sofá da sua sala, acariciando seu gato.
    -Acho que preciso de férias Shipô, o que acha? – ela perguntou enquanto acariciava a cabeça do felino.
    -Miau, miau. – ele respondeu ronronando
    Ana correu seus olhos por todo o sofá à procura do controle remoto do seu aparelho televisor e o encontrou na estante, bem ao lado da TV, que parece estar demasiadamente longe naquele momento, e pensando: “Seria útil ter o super poder de controlar o controle remoto agora”. Levantou-se para ir ao encontro do objeto de desejo da maioria das pessoas sentadas em sofás pelo mundo e, em posse do prestigiado item pressionou o grande botão vermelho circular escrito “ON/OFF” com seu controle apontado para a tela de seu televisor.
    Com um lampejo sua TV se liga iluminando toda a extensão da sala com uma forte luz esbranquiçada. Ana conseguiu ouvir a moça do tempo falando no jornal: “Parece que temos uma tempestade se formando. Será que esta sexta-feira treze promete uma chuva assustadora como saideira? William é com você!”. Quando Ana se virou de costas, olha diretamente para seu calendário, onde enxergou o número treze em vermelho, na casa da sexta-feira. Como poderia ter sido tão esquecida? Os dias tediosos tinham mesmo acabado com toda sua energia e vigor. Nem mesmo tinha se dado conta de que o dia em que ela estava era um dia muito supersticioso para toda a humanidade.
    Ana sentou-se no sofá e, em posse de seu smartphone, enviou algumas mensagens para contatos próximos, voltando sua atenção rapidamente para seu felino, que agora dormia sobre uma almofada. Um grande trovão anunciou a tempestade que a moça do tempo havia previsto, o vento assobiou lá fora e logo as gotas grandes de chuva bateram no telhado, confirmando a chegada da tempestade, que encerraria a sexta-feira treze. Minutos depois um brilho forte vindo de fora, seguido de um estalo, provocou uma queda de energia. “Mas seria possível que um raio atingiu poste outra vez?”.
    Em posse de seu telefone, ela tentou ligar para a companhia de energia elétrica, para saber que diabos estava acontecendo, mas sem sucesso, pois o aparelho estava fora da área de cobertura.
    -É meu amigo, parece que vamos ter que acender velas – ela disse para o gato, que continuava dormindo como se nada estivesse acontecendo.
    Continua…
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    12 min
  • CNa#042: As Desventuras de Égout | Conto de Fantasia Medieval
    Égout nunca fora dos mais sortudos, mas sempre fora obstinado. Acompanhe as desventuras de Égout, e descubra que até o poço mais profundo possui uma saída.
     
    Contos Narrados. Aqui você encontra mais um conto sonorizado produzido pelo do RPG Next.
    Coloque seu fone de ouvido e curta!
    ▬ Autor:
    Renato Soares.
    ▬ Narração:
    Wevison Guimarães.
    ▬ Masterização, sonorização e edição:
    Rafael 47.
    Contos Narrados apresenta, “As desventuras de Égout”, um Conto de Fantasia Medieval.
    Era perto da hora do almoço em Luskan. Conhecida como a Cidade das Velas, uma cidade portuária na foz do Rio Mirar, na Costa da Espada do Norte. Se fosse um lugar normal as crianças estariam brincando, contudo houve uma briga.
    O pestinhas tinham por volta dos 7 anos, de um lado um rapaz magro, pele escura, orelhas pontudas, olhos amendoados e cabelos aparentemente prateados, naquele momento eram beges de tão sujos. Ele estava dentro de um saco de grãos com aberturas para os braços, pernas e a cabeça, considerando-o sua veste.
    Do outro, um garoto de aparência robusta, ossos largos, cabelos encaracolados, amarelos e brilhantes. Seus olhos eram azuis como um céu límpido de uma tarde primaveril e suas vestes eram de tecidos caros, tão bem alinhados quanto fosse possível a um excelente alfaiate de uma família abastada.
    As demais crianças torciam, gritavam e incentivavam a briga.
    Ambos rolavam pelo chão aos tapas, mordidas e beliscões. E tão logo a disputa se encerrou, todos começaram a debandar exceto o perdedor, que deitado no chão levantou o braço esquerdo, apontou o punho cerrado para o céu e disse em tom de ameaça:
    – Se insultar minha mãe novamente, William, provará minha ira mais uma vez!!!
    William apenas se virou, cuspiu sobre o derrotado e disse:
    – Vá se danar Égout!!!
    Ambos voltariam a brincar e a brigar novamente. Afinal, assim eram as crianças daquela região.
    O jovem William sempre diminuía o pobre Babel, lhe atribuía apelidos, entre eles, um que vai carregar pelo resto da vida: Égout ou esgoto em uma língua antiga. Idioma do qual o rechonchudo se gabava por saber algumas palavras. Em contrapartida, o pobre garoto jamais se apequenou e não se deixava insultar, apesar de sempre apanhar.
    Assim era o relacionamento de William e Babel. O primeiro, um garoto de classe média alta, cujo pai era um importante ourives da região. O segundo, um bastardo, cuja mãe trabalhava como cortesã, na taverna Jax Caolho, a mais frequentada da cidade.
    As confusões dos dois meninos, sempre repercutiam pela cidade. E nesse momento os amigos de sua mãe, em sua maioria músicos da taverna, geralmente intervinham. Eles iam resgatar o garoto maltrapilho, ofereciam-lhe banho, remédios, comida e um aposento para repouso. Além é claro de entretenimento e ensinamentos, músicas e rimas, a pedido da senhora Vivian Durand, a meretriz mais atraente da bodega local ou simplesmente a mãe de Babel, uma elfa negra legítima.
    Apesar de sua profissão, Vivian fazia todo o possível para estar presente na vida de seu filho, muito amável diariamente lhe contava uma história fantástica, advinda das aventuras de seus amantes ou mesmo dos livros que gostava de ler.
    Nesses momentos mais intimistas, o garoto chorava, contava sobre suas derrotas, seus sentimentos e perguntava sobre o paradeiro do pai. E sua mãe sempre lhe dizia palavras doces e reconfortantes, mas mudava de assunto, lhe pedia para esquecer aquele que jamais retornaria.
    Com o tempo o jovem, Babel “Égout” Durand, começou a entender o que sua mãe fazia, e porque desconversava quando o assunto paternidade vinha à tona. Passou a buscar alternativas para tirá-la dessa vida.
    Ele começou a trabalhar na taverna aos 10 anos como aprendiz de cervejeiro. Aos 12 assumiu o cargo de atendente e aos 14 tornou-se balconista taverneiro. Todavia, o dinheiro que o trabalho lhe assegurava era insuficiente para realizar seu sonho.
    Um dia, enquanto fazia compras pela cidade, envolto em seus pensamentos derrotistas e sobre como lucrar mais, avistou uma moça encantadora. Era linda, esguia e tinha a pele branca como a neve, os cabelos negros como a mais densa escuridão noturna, olhos cor de mel tão claros quanto era possível e lábios praticamente simétricos, que se assemelhavam a um arco de cupido retesado.
    Babel só conseguia enxergar a bela garota. Mais tarde soube que tratava-se de Arwen Fay, filha de uma das famílias nobres mais ricas da região.
    Foi amor à primeira vista, mas também um infortúnio, pois se não conseguia nem ao menos tirar a mãe daquela vida, como causaria boa impressão na garota de seus sonhos?
    A resposta era uma só: trabalharia mais do que antes.
    Ele procurou os bardos da taverna, que lhe ensinaram alguns truques sobre entretenimento, inclusive sobre interagir com garotas de maneira cavalheiresca.  O que lhe rendeu um novo ofício e também mais gorjetas, devido a predileção dos clientes por seu atendimento, cheio de floreios e frases caricatas.
    Mas sua ansiedade juvenil era deveras inquietante, foi quando a oportunidade de se aproximar de sua bela apareceu, no festival de primavera. Um evento especial feito para a nobreza, bastava entrar e estaria frente a frente com sua paixonite.
    E após outra briga com William, que se gabava por ter acesso ao festejo frente aos amigos, Babel conseguiu as entradas. Durante o embate, o garoto tomou os ingressos de forma sorrateira… e outra surra.
    O rapaz tratou de comprar roupas apropriadas à ocasião, passou dias lavando seus cabelos encardidos e pediu para que sua mãe lhe fizesse um penteado charmoso.
    Na fatídica noite de pompa, com os mais variados nobres, e obviamente deslocado, Babel partiu para a ação e logo conseguiu uma brecha para cortejar sua dulcinéia.
    Tudo se encaminhava bem, o galã conseguiu tomar Arwen para uma dança, fez alguns meneios insinuantes e usou palavras doces ao pé do ouvido. A efetividade de suas ações foi delatada pelo sorriso e face ruborizada de sua amada, contudo, ao perceber a presença do bastardo da taverna, os pais de Arwen foram ao seu encontro no meio do salão, puxaram-na de seus braços, lhe insultaram e por fim o jogaram na sarjeta.
    Mesmo aos cacos e com o orgulho em frangalhos, proferiu-lhes uma promessa:
    – Vou ficar tão ou mais rico que vocês e jamais passarei por tal humilhação novamente!
    Todos apenas riram das asneiras daquele degenerado.
    No dia seguinte, Babel chamou sua mãe e lhe disse:
    – Vou embora da cidade, pois preciso juntar dinheiro suficiente para deixarmos essa vida, não aguento mais passar por humilhações e apenas com o meu trabalho atual é impossível, morreremos de trabalhar e continuaremos pobres.
    O jovem, que havia completado 15 anos, juntou alguns pertences e saiu para desbravar Faerûm. No início apenas se apresentava com os demais bardos, com o qual aprendeu a tocar vários instrumentos. Eram aclamados por onde passavam. Ao longo de suas apresentações, usava a alcunha de Durand.
    Logo foi convidado por um grupamento militar da região, para se juntar ao batalhão de música e servir à nação. E durante o tempo de guarnição, aprendeu a manusear armas e a rigidez das rotinas da corporação. Contudo, apesar de ganhar mais do que antes, ainda não era o suficiente para que sua mãe pudesse se aposentar e a sensação de incapacidade sempre retornava.
    No quinto ano de exército, o soldado Durand havia desaparecido durante um cerco e foi dado como morto. A verdade é que ele havia desertado, após ouvir rumores sobre cultos que reverenciavam entidades sobrenaturais, onde os sacerdotes recebiam altos valores dos fiéis. O interesse foi tamanho que resolveu simular seu desaparecimento e buscar mais informações a fim de se tornar um acólito.
    Novamente o garoto se aventurou em meio a pessoas perigosas, no Culto do Ódio Uivante, adoradores de Yan-C-Bin, contudo, algum tempo depois percebeu que para ter acesso aos ganhos da organização teria que subir bastante na hierarquia, isso lhe custaria anos de trabalho e uma lavagem cerebral. O pensamento da seita já havia começado a perverter sua mente e lhe desvirtuar do seu objetivo. Foi então que reuniu forças, recolheu alguns pertences e partiu no meio da noite.
    A experiência, fez o meio-elfo se afundar em sentimentos negativos, ter pensamentos suicidas, comer mal e dormir o dia todo por quase seis meses. Nesse período conturbado, o jovem usou seus ganhos para garantir um teto e alimentação. E foi a imagem de sua mãe que o manteve firme, para poder enxergar a saída da escuridão e recuperar-se do abuso espiritual e emocional.
    O rapaz, escondeu-se das facções por anos e após conseguir apagar seu rastro dos cultistas, retornou para o seu objetivo. Não sem sequelas, adquiriu um tique que afetava seu sistema motor e o fazia estalar o pescoço a todo o momento.
    Aos 28 anos e mais maduro, Durand havia adquirido uma rede de contatos interessantes o suficiente para ser convidado a filiar-se aos Harpistas, recusou de pronto, pois não queria perder o foco novamente.
    E com 35 anos, havia conseguido juntar bens suficientes para finalmente dar a vida que sua mãe merecia e tomar a mão de sua amada em casamento. Porém, a vida lhe reservava mais um duro golpe. Ao chegar na cidade descobriu que Arwen havia se casado com William e a desolação se tornou ainda maior quando soube que sua mãe estava doente há algum tempo. À essa altura a bela Vivian, uma drow de 170 anos, havia vivido ao máximo.
    Poucas semanas depois, sua mãe veio a falecer. A vida de Durand tinha perdido o sentido, passou anos trabalhando e não conseguiu alcançar seus sonhos. E como meio Elfo, ainda viveria por mais de 100 anos carregando tal fardo.
    Após o sepultamento, ele foi caminhar pelas ruas de Luskan, com um olhar melancólico e distante. Em sua mente inquieta, se perguntava: com toda aquela pobreza e sofrimento, de onde os cidadãos arrumam forças para continuar? Porque apenas os nobres viviam com pompa e suas crianças eram alfabetizada
    20 min

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