
Sign up to save your podcasts
Or


O que ajuda a explicar a existência de uma parcela da população que continua aderindo ao bolsonarismo e, em outros países, a figuras como Trump, Milei ou Fujimori, mesmo diante de experiências de governo catastróficas? Neste episódio, conversamos com Moyses Pinto Neto sobre a necessidade de compreender esses fenômenos para além da disputa estritamente eleitoral, dos interesses econômicos ou da adesão a um conjunto determinado de ideias. Partimos da hipótese de que há também uma colisão entre modos de perceber, organizar e habitar o mundo.
A crescente presença da ideia de “guerra espiritual” no vocabulário das direitas oferece uma entrada para pensar esse conflito: política, religião, afetos, mitos, medos e encantamento passam a compor uma batalha na qual o adversário deixa de representar apenas uma posição política diferente e passa a encarnar uma ameaça à própria existência de determinado mundo. Pensar esses embates em termos cosmopolíticos talvez nos ajude a compreender por que a demonstração dos fracassos, das contradições ou das consequências materiais desses projetos nem sempre é suficiente para desfazer a adesão a eles: o que está em jogo não é apenas disputas de programas, mas um conflito sobre qual mundo deve prevalecer.
Falar de crise da imaginação política, de futuros interrompidos e da dificuldade de compor uma vida diferente já virou um assunto batido, um diagnóstico com o qual todos concordamos e uma constatação que já não carrega novidade alguma.
Se isso está dado, o que nos resta? Talvez o que nos reste seja o teste. E, nesse processo de testar, exercitar nossa capacidade de descrever formas de recuperar o espaço e o tempo pode dar indícios de como desbaratar o cinismo que este mundo impõe sobre nós.
Neste episódio temos algumas ideias e alguns raps que articulam temporalidade, espaços e vida comum a partir de uma narrativa gráfica, direta, às vezes ingênua, mas que podem nos ajudar a pensar nesse exercício em que quebrar o tempo é essencial para viver de verdade.
Cristiano Onofre (AKA Fora de Compasso, AKA Crizin da Z.O.) é um artista que traz em suas obras a síntese do colapso, o testemunho da lixificação e a relação com a fragmentação da linguagem, mobilizando de forma singular aquilo que hoje pode ser chamado de pós-ironia.
Nesta conversa, remontamos sua trajetória, marcada pelo punk, pelo autodidatismo nas artes visuais e pela relação com a cultura digital, elementos que atravessam tanto seu trabalho como artista visual quanto o projeto Crizin da Z.O. A partir desse percurso, especulamos formas de fazer e narrar uma realidade cyberpunk do terceiro mundo.
Durante a última década, pudemos acompanhar a ampliação do ecossistema artístico que compõe o funk, reverberando o que está presente na dimensão musical e na cultura de baile para outros campos, como a pintura, a fotografia, o cinema, a instalação e a performance.
Imaginar que essas produções possam encontrar espaço em ambientes institucionais, receber outras chancelas e alcançar novos públicos pode dar a impressão de que estejam relativamente protegidas das violências que acontecem nas ruas. Mas isso não é necessariamente verdade.
Nas últimas semanas, vimos a repercussão da censura à exposição “Funk: Um grito de ousadia e liberdade”, no Museu da Língua Portuguesa, encerrada antecipadamente em 31 de maio, e como ações desse tipo transformam os debates sobre arte, mais uma vez, em conversas sobre violência.
Diante dessa velha realidade que é a perseguição ao funk, nesta conversa com Taísa Machado, uma das curadoras da exposição, tentamos mapear a diversidade dessa atuação funkeira que insiste em subverter espaços, que não abre mão da contradição em nome da assimilação e que, a cada dia, refina ainda mais suas propostas estéticas em diversas frentes.
Na capa do episódio, arte de Bruno Lyfe
A relevância de uma cultura pode ser constatada não apenas por sua capacidade de mobilizar público e alcançar visibilidade, mas também pelas diversas iniciativas que surgem daqueles que constroem essa comunidade, articulando outras frentes, que, no caso desta conversa, se dedicam à preservação da memória e à criação de um arquivo voltado ao mapeamento da diversidade territorial e formal dos Sound Systems no Brasil.
Em tempos de vulnerabilidade dos registros e de sequestro de dados, o Mapa Sound System Brasil, encabeçado por Dani Pimenta e Natan Nascimento, realiza um importante trabalho de cartografar iniciativas Brasil afora e tornar visível a expansão dessa cultura.
Nesta conversa, a festa é fundamental, mas a pesquisa e a prática são o mote para pensar território, engenharias e vibrações.
A música Fábrica de Bico, do MC Zói de Gato, pode ser considerada um dos marcos em termos de consumo de música pela internet no Brasil. O registro mais antigo no YouTube é de 16 anos atrás, e o vídeo mais acessado tem cerca de 13 milhões de visualizações. Mas a música é mais antiga que isso, e seu impacto foi maior.
Muito provavelmente, essa é uma impressão localizada, especialmente para quem cresceu no estado de São Paulo no começo dos anos 2000 e estudou em escola pública. Ainda assim, a combinação de MC Zói de Gato, MC Bill e Bolinho com “Buffalo Bill” e “Bonde da Juju”, do Backdi e Bio G3, remonta a uma paisagem que pode ser enriquecida por três elementos: o celular Motorola V3, a Escola da Família e as lan houses.
Por um lado, esses sons foram virais. Jovens periféricos, independentemente do gênero musical que preferiam, não escapavam de refrões que se tornavam clássicos quase instantaneamente. Por outro, vemos ali um modo de produção, da música aos clipes, que não só antecipou, mas pautou produções futuras, como as do Kondzilla, e contaminou, de um jeito ou de outro, linguagens mais recentes, como o trap e o grime.
Pegando o bonde dessa história a partir de Zói de Gato, conversamos com Fleezus sobre o que marca o gosto e as pesquisas dessa geração paulistana no começo dos anos 2000 e como isso representa um fio que liga outras estéticas e discursos.
2026 começou marcado por uma série de acontecimentos que colocaram a América Latina no centro de disputas culturais e políticas. Do sequestro de Maduro, passando pela apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, até o estrangulamento ainda mais violento dos Estados Unidos em relação a Cuba, vemos como cada um desses momentos produz impactos distintos no público. A euforia, o engajamento, ou a ausência deles, oferecem pistas para pensar aquilo que chamamos de “latinidade”: qual nos querem vender e qual estamos dispostos a comprar.
Sabemos que, na velocidade dos acontecimentos, tomar os fatos mencionados acima como baliza para a conversa, já os coloca, em alguma medida, como ultrapassados. Mesmo assim, independentemente do timing ou do hype, é possível identificar uma tendência: a emergência de uma era “latin-core” no norte global, impulsionada tanto pelo esgotamento das linguagens estadunidenses e europeias quanto pela crescente circulação de produções latino-americanas. Nesse contexto, a tensão entre a latinidade como produto e a realidade histórica das produções que há muito tempo existem por aqui tende a se intensificar.
Diante disso, junto de Claudia Manzo, recuperamos parte da história de uma produção musical que se coloca de forma radical, latino-americana e anti-imperialista, das experiências atravessadas pelas ditaduras, como a nueva canción, nueva trova e afins, até os desdobramentos que chegam às produções mais recentes, como o reggaeton, a cumbia e o funk.
Sonic youths de quebrada, Pavements da baixada, Guided by voices do subúrbio, Built to spills do interior… o começo dos anos 2000 no Brasil foi prolífico no que diz respeito à criação de uma cena daquilo que podemos chamar de "indie”, que nos anos 90 chamariam de “guitar”, mas com um frescor de descentralização ainda maior.
A razão de isso ter acontecido talvez esteja diretamente relacionada à forma incipiente como a internet se colocava naquele momento e à sensação de que você recebia um fluxo de informação na medida certa, compatível com o tempo de ler, ouvir e assimilar. CD-Rs, fóruns, Soulseek, MySpace e derivados.Mas a questão prática que marca a circulação e a longevidade dessas bandas e pessoas é o traquejo desenvolvido no meio do caminho quando não se está no centro da produção dessa estética. A malícia e o desenrolo precisam ser desenvolvidos no deslocamento até o centro, pra que às vezes as coisas possam dar certo e as vezes não.Nessa conversa com Lê Almeida falamos disso, das coisas que deram certo, que não deram e que vão dar.
Em fevereiro, encontramos @kikodinucci na Intercommunal Music, em uma escuta coletiva/processo de troca que toma seu último disco, “Rastilho”, como referência para desbravar aquilo que compôs suas referências estéticas, poéticas, sonoras e visuais na materialização desse disco.
A Discotecagem Comentada é uma atividade que visa promover um espaço de encontro, audição e troca sobre obras e expressões que incorporam em sua forma diferentes tipos de luta, experimentos, invenções e alternativas para os meios de produção, de criação e de vida.
Captação e edição por @igorsouzadbk
From the publisher's feed

18 Listeners

249 Listeners

18 Listeners