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De 2016 para cá, já passou tempo suficiente para que deixemos de tratar a variada gama que compõe o espectro da extrema-direita mundial como uma novidade. Nesse intervalo, surgiram novas nuances, impulsionadas sobretudo pelo desenvolvimento tecnológico e pelas expressões culturais oriundas dos ambientes digitais, mas hoje nada disso nos surpreende. Após dez anos da primeira eleição de Trump e do golpe no Brasil, reconhecemos que a atuação das extremas-direitas deixou de ser apenas uma ameaça para se tornar um dado concreto, instaurado, normalizado e radicalizado em diferentes contextos do mundo.
Nessa conversa com Odilon Caldeira Neto, partimos dos dilemas que se intensificaram nos últimos dez anos e cruzamos as conexões da extrema-direita que se estendem do fascismo histórico às formas contemporâneas da contracultura, passando pela política institucional e por suas expressões aceleracionistas e masculinistas. Trata-se de um campo capaz de arrebanhar não apenas homens brancos e velhos afetados pela crise de 2008, que escancarou as portas para um certo tipo de reacionarismo no norte global, mas também jovens precarizados dos países do sul.
Acesse o link na bio para ouvir.
Nas últimas conversas que tive com a Nathalia, em 2025, a ideia de gravar um episódio dedicado ao disco A Love Supreme, de John Coltrane, aparecia como algo recorrente, principalmente por conta da celebração dos 60 anos de seu lançamento.A gravação desse episódio não chegou a acontecer, mas a conversa que trazemos hoje, embora não seja sobre Coltrane nem sobre esse disco, pode ser lida como um tributo indireto àquela ideia: a de uma obra capaz de produzir uma imagem possível de “Deus para ateus”, para quem escuta com atenção e se permite penetrar por ela.
Neste episódio, o exercício é deslocar as compreensões que costumam situar as experiências do “espiritual”, do “espiritualizado” ou do “espiritualizante” no campo da religião, da doutrina ou dos códigos que organizam práticas voltadas à transcendência e ao metafísico. O movimento aqui é outro: pensar o espiritual como aquilo que afeta o espírito, que opera como uma mediação sensível nas nossas relações com a realidade.
Acompanhados de Djalma Corrêa, Sun Ra, Elza Soares, 24 Carat Black, Juçara Marçal, Hugh Mundell, Édouard Glissant, Nei Lopes e Suzanne Césaire, percorremos caminhos que encontram nas artes uma arma espiritual necessária para enfrentar este mundo.
Os discos de vinil de macumba revelam uma camada complexa da vida cultural brasileira, em que o som dos terreiros, dos pontos cantados e das giras se transformava em mercadoria, objeto de curiosidade e também de devoção. Essas gravações, ao mesmo tempo em que documentavam práticas religiosas afro-brasileiras, circulavam num mercado que oscilava entre o fascínio e o preconceito, a exotização e o respeito. Ouvir e colecionar esses discos hoje é revisitar essa ambiguidade histórica – em que o país consumia e admirava aquilo que, socialmente, insistia em marginalizar – e reconhecer neles um arquivo sonoro fundamental da espiritualidade e da criatividade popular brasileira.
Em novembro de 2023, numa segunda-feira quente, encontramos na @intercommunalmusic John Robinson (@johnrobinsonmusic) e J. Rawls (@jrawls82). Mais do que grandes produtores do hip-hop estadunidense – fundadores e integrantes de grupos como Lone Catalysts e Scienz of Life, colaboradores de nomes como Talib Kweli, J-Live e Makeba Mooncycle —, são também intelectuais da cultura. Atuam em iniciativas educacionais, como a Youth Culture Pedagogy (um guia para fortalecer as relações entre professores e estudantes por meio do hip-hop), e em pesquisas que resgatam a tradição do jazz dos anos 1960, como no disco The 1960s Jazz Revolution Again….
Nessa Discotecagem Comentada, Robinson e Rawls compartilham sua trajetória, entrelaçando produção musical e educação, jazz e rap, com mediação de @kamau_.
Foram mais de três horas de conversa: da caminhada de J. Rawls e John Robinson às histórias com nomes como MF Doom, Mos Def, Talib Kweli, Madlib, Quarteto em Cy, Djavan, Astrud Gilberto — e muitas outras pessoas e lugares que marcaram suas jornadas.
A luta pelo espaço é também a luta pelo tempo.
O tempo como lugar na história e o tempo em que é possível gozar, viver, ser.
Neste episódio especial, produzido por meio do edital “Memórias do presente: comunicação em direitos humanos”, do Memorial da Resistência, a jornalista Thaís Regina investiga a história da Favela do Maranhão, território que nunca esteve nos mapas oficiais da cidade de São Paulo e que foi varrido definitivamente pelo processo de desfavelamento empreendido nos anos 1970, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Em um ensaio que vai da Favela do Maranhão à Favela do Moinho, da Carolina Maria de Jesus à prisão do Poze do Rodo, esse episódio reúne diferentes arquivos, depoimentos e vestígios que desenham a paisagem da cidade a partir de práticas de solidariedade, resistência e prazer.
Pesquisa e produção: @apropriathaisregina
Colaboração: @rodrigoxcorrea e @dvanessinha
Edição: @vanrozendo
A falta de horizonte, a dificuldade de articular alternativas e de experimentar outra vida têm marcado nosso tempo de forma determinante, inaugurando sentimentos ainda sem nome e afetando nossa capacidade de mobilizar vontades e ações. Mas, se a desesperança é a condição que conseguimos reconhecer, por que não tomá-la como insumo para exercitar a criação de um novo vocabulário – capaz de deslocar a atomização e o sofrimento?
Talvez o punk tenha sido a maior expressão cultural a transformar a desesperança em combustível para elaborações estéticas que reverberaram em ações coletivas e formas de vida. Neste episódio, visitaremos algumas produções do punk nacional dos anos 1980 que ajudam a articular noções que atravessam os dilemas do presente – da precarização do trabalho ao sofrimento psíquico, do genocídio na Palestina ao avanço tecnológico em direção a uma inteligência artificial geral.
Em fevereiro desse ano, na Veneno, encontramos Nathalia Grilo para uma Discotecagem Comentada que nos introduziu a vida e obra de LeRoi Jones (Amiri Baraka), autor do livro Black Music – Free jazz e consciência negra, 1959-1967, publicado pela sobinfluencia edições.
Black Music é um dos exercícios mais radicais e selvagens de crítica musical que já foi posto em prática.
Com ensaios, resenhas, entrevistas, encartes, crônicas e impressões pessoais publicados entre 1959 e 1967, LeRoi Jones retrata a florescente cena do free jazz, um movimento que envolveu o aprofundamento das inovações sonoras do bebop e a recuperação do jazz como expressão autêntica da cultura afro-estadunidense em uma época em que seu sucesso comercial a tornava um gênero padronizado e palatável para a amérikkka branca.
A prática artística de Raphael Escobar é também educacional e política. Marcada pelo trânsito entre museus, galerias e a rua – especialmente a Cracolândia – vemos nela a proposição do conflito como chave para subversão dos espaços e o escancaramento das contradições dos lugares tidos como públicos.
Contra a tecnologia de morte aplicada pelo Estado sobre populações vulneráveis, blocos de carnaval, rodas de samba e rima e práticas das artes visuais são usadas como tecnologias de vida na ativação de pessoas e lugares onde a opressão é regra.
E a conversa de hoje é sobre isso. Confundir para organizar, organizar para tomar. A alegria, os museus, a criação, a dignidade.
Quem teve acesso à internet do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 jamais imaginaria que ela se tornaria um dos principais instrumentos para a elaboração do fascismo de nosso tempo, um impulsionador da crise política e estética, seguido da crise cognitiva que determinaria uma nova subjetividade em seus usuários, assim como uma nova definição de capitalismo ultraprecarizado e ultraliberal, que confundiu ainda mais os limites do trabalho, das liberdades e da democracia liberal.
Da guerra cultural à plataformização, passando pela monopolização das Big Techs e a disputa geopolítica baseada nas tecnologias criadas a partir do que resta da internet, Leonardo Foletto caminha sobre uma breve história das redes de compartilhamento, da pirataria, do hackativismo até o apodrecimento algorítmico fascista em que nos encontramos agora.
A noite nessa conversa não é só uma metáfora. Falamos, sim, de uma política rastejante, que se dá nas sombras, no descuido dos que descansam, capaz de revelar uma outra cidade sobre a cidade, mas que, no seu sentido literal, não tem como momento de reverberação a luz do dia.
O Laboratório Noturno é um coletivo/grupo/laboratório que reúne pessoas que fazem, vivem e pensam a noite em espaços para articulações multidisciplinares que usam da crítica, da performance, da arquitetura e das artes visuais para amplificar a potência e preservar a memória dessas produções.
Saiba mais sobre o Laboratório Noturno: instagram.com/labnoturno
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