Binaural Radio Rural # 9 - Escutar a juventude rural: Ouço, Lembro e Sinto em Castro Daire
Neste nono episódio continuamos com a série “Escutar a Juventude Rural” que dá voz a crianças e jovens atuais que vivem em zonas rurais de vários concelhos do distrito de Viseu.
O discurso sobre a memória coletiva remete quase sempre para contextos antigos e para a necessidade de processos de resgate para a valorizar e difundir. Se estendermos esse conceito de memória às crianças, entramos necessariamente noutro reino, um não menos importante já que o próprio crescimento implica uma ativação de processos de recordação e de adaptação, tanto individuais quanto coletivos, nos quais a expressividade e a ausência de guiões pré-formatados constituem uma libertadora constante.
Este podcast constitui o resultado de um ateliê com o mesmo título que decorreu na Biblioteca Municipal de Castro Daire (Portugal) nos dias 29 e 30 de abril de 2019. Ao longo dos dois dias passaram pelo ateliê mais de uma centena de crianças das escolas básicas de Castro Daire, Farejinhas, Parada de Ester e Cabril assim como utentes da Misericórdia de Castro Daire os quais cruzaram experiências de escuta, de memória pessoal e coletiva, de leitura e de expressão oral, todas ligadas a aspectos do território local.
Caminhar na vida, ventos da história, rir, os perigos latentes, ir com os animais, ritmos do coletivo, estar com as vacas no campo, semear batatas, plantar o cebolo, beber a água que corre, com cinco anos a tentar cortar um pinheiro.
Pai bombeiro, cabeças rachadas, acidente de bicicleta, memórias de bebé, placa no nariz, boca na mosca, passa o avião, chocalhos, matança do porco, galinhas, mais histórias contadas e chupeta na sanita, história de ovelhas: dorme dorme, ovelhinha, gato selvagem a comer galinhas, chorar e chorar, os empurrões no intervalo da escola, deitar na erva e olhar as nuvens, ajudar a mãe na cozinha, no campo, na floresta, dormir de manhã no chão, vaca da avó que chorou, menina desapareceu de casa encontrada no dia a seguir no cimo de um telhado.
Cão que ia comer farinha ao moinho, o remoinho que sugou o bisavô Afonso, o menino que fugiu para ir ter com o pai separado da mãe, o avô viu uma pedra quando ia com o trator e foi contra uma laranjeira, feijões como berlindes, uma mãe a cavalo que partiu o braço, ajudar o avô a apanhar as alfaces, acodar com onze meses debaixo da cama, a biblia que conta quando Jesus nasceu e ressuscitou, ó idas almas do purgatório, nasceram seis irmãs, e se o sétimo nascesse o rapaz, seria lobisomem, chocalhos, lendas.
Romeiros de São Macário regressar da encosta de Nodar até Parada de Ester, serras empinadas, penedos e fráguas, caminhos serranos do Montemuro, moinhos e azenhas de necessidade, o cair da folha e as linhas do rosto dos velhos, palavras de passado ditas por crianças com futuro.
Dinamização do ateliê, registo e edição sonora e composição musical de Luís Costa
Um agradecimento ao ótimo acolhimento da equipa da Biblioteca Municipal de Castro Daire, às professoras e assistentes dos estabelecimentos de ensino e sociais presentes e, principalmente, às crianças e jovens que participaram no ateliê, mostrando como a cosmovisão infantil e juvenil pode ser tão criativa, livre e improvável.