Imagine o Rio de Janeiro no final da década de 1950. O Brasil respirava otimismo: JK prometia que a economia iria crescer 50 anos em 5, Brasília estava sendo erguida e tínhamos acabado de ganhar nossa primeira Copa do Mundo.
Nas rádios, havia uma mescla de diferentes tipos de música, como o samba, o bolero, o baião e por ai vai… um gênero que fazia muito sucesso era o samba-canção, que era uma música mais melancólica, dramática e sentimental, carregada de orquestras pesadas e vozes de ouro. Esses cantores não apenas possuíam extensos vocais privilegiadas, mas compartilhavam um estilo de interpretação potente, operístico, usando vibratos marcantes e grande volume sonoro, o chamado vozerão.
Uma voz operística (ou lírica) é uma forma de produção vocal treinada tecnicamente para projetar o som com grande potência e volume sem o uso de amplificação eletrônica, permitindo que o cantor seja ouvido sobre uma orquestra inteira em grandes teatros
Bom, até que um jovem baiano chamado João Gilberto pegou um violão. Ele não tinha esse vozerão, ele praticamente sussurrava, cantava baixinho. Assim, ele criou uma batida que mais tarde foi chamada "samba desossado”; a essência rítmica da escola de samba transferida para os dedos… Aquele sussurro era o nascimento da Bossa Nova.
Mas esse estilo não veio somente dele, havia grupos de cantores que eram influenciados pelo jazz estadunidense e do impressionismo francês, como também de músicos brasileiros que já flertavam com a modernidade.
O movimento da bossa nova nasceu nos apartamentos da Zona Sul carioca, especialmente no apartamento da cantora Nara Leão, que convidava jovens, músicos e universitários que amavam Jazz e impressionismo francês para trocarem figurinhas, ou seja, se juntavam para criar uma mescla desses estilos com um toque brasileiro.
Para entender a Bossa Nova, você precisa de três nomes fundamentais.
Primeiro, Tom Jobim. Um gênio de formação erudita que criava harmonias complexas disfarçadas de melodias simples. Ele era como o Oscar Niemeyer da música: elegante, moderno e solar.
Segundo, Vinícius de Moraes. O "Poetinha". Diplomata e poeta que trouxe um novo vocabulário. Chega de letras sobre traições trágicas e "fossa". Vinícius escrevia sobre o mar, sol, peixinhos a nadar e a beleza descompromissada de uma moça a caminho da praia.
E, finalmente, João Gilberto. O mestre que uniu tudo com sua "batida" sincopada. Ele provou que era possível cantar baixinho, quase como se estivesse falando ao pé do ouvido de quem ouve. Ele trouxe uma economia de meios onde menos era mais, reduzindo a percussão ao dedilhado preciso do violão.
Para continuar, acesse: