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Ainda estou a tentar perceber o que raio é o tempo, mas garanto-vos que a minha vida não está nem perto do que eu imaginava que significava ter 24 anos. E ainda bem! Numa espécie de aquecimento para o meu aniversário, estive a pensar no motivo pelo qual fazer anos é importante para mim, a lembrar-me de como fui festejando este dia ao longo do tempo e desvendei os planos para este ano, a minha festa de sonho e o meu truque - infalível - para acabar com a estranheza de ter toda a gente a cantar-nos os parabéns!
Ainda em quarentena, pus-me a escrever e a falar sobre o feminismo. A partir das discussões que fui tendo na universidade, e a partir também das vezes em que fiquei calada, debrucei-me sobre a importância da palavra e do seu entendimento. Dei-vos a definição do meu feminismo, alguns números dos países em desenvolvimento e os temas comuns, como a igualdade salarial, os piropos e o cavalheirismo. Falei do machismo invisível, da presença dos homens na luta feminista e do feminismo na educação. E, porque não podia deixar de ser, falei do corpo da mulher, que só a ela pertence, e da importância de ouvir, falar e saber o que dizer nos momentos certos.
Bárbara Cardoso: https://www.youtube.com/watch?v=JF0H7UlIqnE
Anabela, você é um ponto! Eu e a minha mãe continuamos a conversar, sem grande organização, a interrompermo-nos mutuamente, com grandes monólogos da minha parte - exatamente como cá em casa. Falámos sobre as vezes em que a minha mãe me bateu e os traumas que temos ambas, sobre reproduzir o comportamento dos adultos, sobre o seu pragmatismo zen, sobre a falta que lhe fazem as rotinas do café e do cigarro mas como se opõe a rotinas no trabalho. Como se a matemática não tivesse complicado a sociologia, a minha mãe apresenta o seu parecer sobre a minha geração, os motivos pelos quais decidiu doar o corpo à ciência e algumas recomendações de quarentena. P.S - A música dos Deolinda de que eu falo chama-se “Concordância” (não é sobre letras e números, mas sobre pronomes e gramática no geral).
Foi o mais perto que se esteve cá em casa de celebrar o 25 de abril: a minha mãe a contar-me, pela milésima vez, as histórias que eu nunca aprendo (a ida da minha família materna para Angola e o regresso a Portugal). Celebrou-se também a Bela, Belinha ou Belita que viajou, desalojada, para um país sem Dusol. Falámos sobre o casamento e a maternidade, a cesariana que me trouxe ao mundo e discutimos afinal qual das avós é que foi ver-nos ao hospital. Daqui posto de comando: pode ter sido o fantasma do Salgueiro Maia que nos visitou ou os bichos carpinteiros da minha mãe, mas a qualidade do som neste episódio também parece saída da rádio na década de 70.
Graças a uma caixa de ampolas para o cabelo, o tema deste episódio são as coisas que a quarentena deixou a meio. Desabafei sobre os cafés que ficaram por tomar, as saudades que ficaram por matar, as pazes que foram feitas por impulso (e ainda bem), os espetáculos que ficaram por ver, os planos e os projetos na gaveta. A Belisa Brancas com cedilha mandou-me um áudio e partilhou a sua espécie de vida londrina a partir de Portugal.
Neste episódio faço um update da minha quarentena e revelo alguns dos meus segredos e truques: separar o frigorífico por turmas, deixar de fumar por preguiça, usar uma aplicação para registar os meus períodos, o motivo pelo qual o meu avô vai ao supermercado, a minha manicure de sonho, as coisas que tenho visto e o SIMS 4 como forma de acalmar o meu relógio biológico e algumas saudades.
Nesta segunda parte, estive à conversa com a Rita, a Sofia, o Cristiano, a Teresa e a Andreia. Uma vê vídeos de exercício físico sentada na cama, a outra dedica-se à culinária gourmet e a livros de pintar mandalas. Temos a personificação do verdadeiro isolamento e o seu oposto: as saudades de ter a casa cheia e um projeto com o objetivo de aproximar as pessoas.
À terceira semana de quarentena, resolvi ligar aos meus amigos para saber deles. Nenhum deles sabia que eu ia ligar, embora pareça, tendo o Miguel atendido tão rápido e com o tom mais simpático com que alguma vez o ouvi falar comigo. Disse-me que não sentia falta de fazer as coisas, mas de as fazer com a mente descansada. A Joana está consciente do seu privilégio, o Bernardo arranjou o seu próprio equilíbrio e a Raquel ficou na Noruega com uma Nintendo Switch. Para a semana há mais chamadas e mais saudades.
Continuo a falar sozinha - desta vez menos sozinha, mas durante mais tempo - sobre drag queens, cadernos, as minhas camadas, coronavírus, Billie Eilish, o meu convidado preferido, este podcast no futuro, ansiedade e depressão, thrifting, o amor nos nossos dias, teorias da conspiração e quarentena partilhada - graças às sugestões da Sandra, da minha mãe, da Sara, do João, do Diogo, da Eva e da Belisa.
Para combater a ansiedade e solidão próprias do isolamento, fiz um episódio mais virado para o futuro. Aliei o meu gosto por listas ao meu otimismo e fiz 10 planos para quando a quarentena acabar. Pelo meio, ainda contei a história da minha hipocondria, dei dicas sobre o verbo haver e fiz um par de recomendações. Façam-me companhia. Já estou habituada a falar sozinha mas não durante tanto tempo.
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