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  • Terminou a “era de mais de 50 anos de família al-Assad no poder” na Síria

    A Síria vive um momento histórico com a queda de Bashar al-Assad, o homem que governou com mão de ferro durante 24 anos, depois de ter herdado o poder do pai, Hafez al-Assad, que tinha tomado o poder em 1970. O regime autocrático foi declarado oficialmente derrubado, após uma ofensiva das forças da oposição, que tomaram o controlo de Damasco nas primeiras horas de domingo. Ivo Sobral, coordenador de mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Abu Dabi, falou-nos sobre os cenários em cima da mesa, as esperanças e os desafios do país perante o fim "de mais de 50 anos de família al-Assad no poder”.

    RFI: A queda de Bashar al-Assad ocorreu menos de duas semanas depois do início da ofensiva da oposição. Ficou surpreendido? O que é que fez com que a sua queda acontecesse agora?

    Ivo Sobral, coordenador de mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos: De facto, foi um avanço surpreendente, super rápido, que ninguém esperava. Movimentações militares nos últimos três, quatro dias, muitas pessoas de exércitos do Médio Oriente a deslocarem-se para a Jordânia, a deslocarem-se até para Israel para observarem o que é que estava a acontecer para fazer os relatórios de volta para os seus países. Toda a gente ficou surpreendida com esta rápida expansão das forças populares da Síria.

    O que aconteceu foi que, de facto, o regime de Bashar al-Assad estava minado logisticamente por dentro, foi uma batalha de atrito, uma batalha que durou muitos anos e que parecia eterna, mas afinal não, porque os relatórios recentes falam de um exército ao lado de Bashar al-Assad muito fraco, muito debilitado, muito dependente de mercenários e de forças externas, como o próprio Hezbollah libanês que estava quase terminalmente enfraquecido com os ataques de Israel e também as forças do Irão, assim como as forças proxys iranianas que são originárias do Iraque.

    Ou seja, de certa forma, foi a própria fragilização do Hezbollah e do Irão que teria levado a que isto pudesse acontecer agora?

    Exactamente. É essa a parte decisiva desta mudança enorme no Médio Oriente. As forças russas eram à volta de mil soldados, no máximo, portanto, nada de transcendental, alguns meios aéreos, mas que não poderiam fazer absolutamente nada quanto a esta ofensiva que foi super rápida. O próprio exército de Bashar al Assad, apesar de ter à volta de 20.000 homens, pelo menos até Damasco, também não teria recebido nem sequer os seus salários nos últimos meses, havia falta crónica de munições, falta de comida para as forças de Bashar al-Assad, uma situação que estava já a descer bastante em termos de apoio para Bashar al-Assad. Ele já não era popular na Síria, o problema agora é que as suas próprias forças mais fiéis estavam já a abandonar as posições, como aconteceu em Homs, quase no início.

    A queda de Bashar al Assad simboliza o quê? É o fim de uma era de opressão e de violência, mas também poderá ser o início de uma fase de incertezas? Qual é o principal cenário neste momento em cima da mesa?

    É difícil falar de um cenário. Podemos falar de vários cenários. É uma era que se acaba, uma era de mais de 50 anos de família al-Assad no poder. A Síria dominou o Médio Oriente e foi um bastião de alguma estabilidade com mais de 50 anos e que agora desaparece. Quando desaparece qualquer coisa - isto não é de hoje, já vimos o que aconteceu no Iraque - um vácuo do poder transforma-se sempre numa situação extremamente perigosa. Isso é o apanágio de qualquer revolução, mas no Médio Oriente ainda é pior, em particular numa zona tão volátil como onde está a Síria e o Iraque.  A Síria é particularmente complexa a situação porque temos não só os jogadores internacionais todos presentes, como existe uma multitude de forças internas da Síria, que tornam todos os cálculos cada vez mais difíceis.

    O vazio de poder ocorre normalmente após a queda de regimes autoritários e pode ser explorado por grupos extremistas, como aconteceu no Iraque e na Líbia. Essa possibilidade acontece aqui?

    Exactamente. Fortemente.Temos que compreender bem qual é a lógica destas organizações radicais. Numa situação de caos completo, de falta de ordem, de falta de infraestruturas básicas, de completo colapso institucional do governo, uma força consegue trazer uma estabilidade, usando as táticas mais ferozes que podem acontecer, normalmente isso acontece com grupos religiosos fundamentalistas. O fundamentalismo islâmico é uma arma muito potente para a estabilização. As visões radicais baseadas em leituras do Corão radicalizadas trazem esta estabilidade. A estabilidade é muito simples: quem roubar perde uma mão; quem cometer qualquer outro tipo de crime basicamente é brutal o tipo de opressão.

    Mas isto pode acontecer na Síria? Quem é que lidera a oposição que fez cair Bashar Al Assad? Quem é Abu Mohammed Al-Jolani?

    É uma personalidade muito curiosa. Nasceu na Arábia Saudita, teve uma educação mais conservadora saudita de estilo wahabi tradicional, rumou para o Iraque como um combatente com a Al-Qaida e depois ficou preso cinco anos ou seis anos numa prisão iraquiana. Depois foi para a Síria, onde iniciou este movimento contra o governo. Portanto, é um indivíduo que nas últimas duas semanas se tem desdobrado numa campanha curiosa que é demonstrar que não é um radical, ou seja, uma espécie de campanha de PR - “Public Relations Stunt” - para ter um pouco ao seu lado o Ocidente e outros. Ou seja, não fazendo os erros que outros movimentos mais radicais, como o Daesh ou ISIS no Iraque e na Síria, fizeram e foram isolados e quase destruídos.

    Abu Mohammed Al-Jolani prometeu respeitar as minorias, disse que a Síria seria um país para todos os sírios. As minorias religiosas, afinal, não devem ter medo?

    O problema são as minorias étnicas também, como são os curdos. Ao mesmo tempo que vemos esta tomada de Damasco, temos também uma ofensiva no Norte do país contra as forças curdas. Obviamente, também não podemos ser demasiado rápidos na análise porque temos que deixar tempo ao tempo, a situação é demasiado volátil e incandescente para termos este tipo de certezas. Existem muitas Sírias agora em movimento, um pouco o cenário que aconteceu em termos de milícias na Líbia, mas desta vez temos toda esta variedade étnico-religiosa da Síria que torna-se bastante difícil para nós fazer esta análise simples porque não sabemos quem está realmente a controlar as ruas de Damasco neste momento, qual é a força, quais são as forças, qual é a conjugação de forças. Portanto, temos que deixar um pouco, pelo menos semana, para começarmos a observar a situação acalmar para fazermos este tipo de análises.

    Foram 50 anos de ditadura. Não há aqui uma esperança, um novo amanhecer para um povo reprimido por esta autocracia brutal?

    Sem dúvida, sem dúvida. Tenho vários colegas da Síria e foi muito interessante as conversas que eu tive hoje de manhã. Os meus colegas estão muito felizes com o que aconteceu e alguns deles, inclusive que trabalharam para Bashar Al Assad e outros não,  todos são unânimes numa coisa: é que a mudança tinha que ser feita. Pior que a situação na Síria não existia. Estamos a falar de um país que sofreu o que se chama uma detonação social, ou seja, metade da população teve de desaparecer do país. Ficou refugiada, emigrou. Portanto, a Síria perdeu metade da população e os que fugiram não podiam voltar sequer.

    Sem contar todos os milhares que estavam em prisões, não é?

    Exactamente, há várias décadas, portanto, o que acontecia é que a Síria, como estava, não era positiva para ninguém, muito menos  para qualquer facção da Síria. Isso é um facto. Agora, o que vemos para o futuro? O que eles diziam, rindo um pouco, é que não podia ser pior que isto, portanto, alguma coisa tinha que ser feita. O futuro terá que ser sempre melhor. Um regime autocrático como o do governo de Bashar al-Assad e do seu pai, com milhares - nós nem sabemos a quantidade de prisioneiros políticos que existirão na Síria, estamos a saber agora, lentamente, o que acontecia - é algo que não pode acontecer nos anos 2000 e tinha que terminar. O que aconteceu, o que acontece com estes regimes sempre, é que eles apodrecem por dentro. Foi o que aconteceu e temos que só pensar positivamente para o futuro. Temos de dar uma chance a todas as forças. Existem muitos riscos, sem dúvida, muitos jogadores.

    Esta saída de Bashar al-Assad marca uma das mudanças mais significativas no Médio Oriente nas últimas décadas. Que impacto para a região? À partida, quem ganha é a Turquia e Israel e quem perde é a Rússia e o Irão? Quem é que ganha e quem é que perde no tabuleiro geopolítico?

    Aparentemente quem perde imediatamente é o Irão. O maior derrotado desta crise será o Irão porque Bashar al-Assad - de uma minoria xiita, os alauítas, muito similar em termos religiosos com o Irão - com o apoio maciço do Irão, com muitos meios empenhados, muitas forças operacionais dentro da Síria, que fazia conexão às forças pró-iranianas do Iraque. Portanto, há aqui uma estrada, uma ligação de Teerão, Bagdad e Damasco, que é agora cortada completamente, e essa estrada ia para Beirute, que foi cortada completamente. O Irão é o grande perdedor.

    E a Rússia?

    A Rússia basicamente perde prestígio internacional porque se dizia que Putin nunca iria deixar os seus regimes pró-russos caírem no mundo. Bem, a questão é que caiu. Perde prestígio internacional, perde poder geopolítico no Médio Oriente e perde duas bases, as únicas bases que ainda existem da Rússia no Mediterrâneo, portanto, uma base aérea e uma base naval. Muito provavelmente os russos já estão neste momento a evacuar o material mais sofisticado para não cair nas mãos dos rebeldes ou dos seus inimigos. E a Rússia também perde, sem dúvida.

    Relativamente a Israel, há aqui alguma vitória no sentido em que Bashar al-Assad era um inimigo de Israel. No entanto, também é um desequilíbrio do “status quo” porque é melhor combater com o inimigo que se conhece do que um inimigo que não se conhece. Ele agora poderá ter que estabilizar um pouco a área, o que é como no passado, em que todas as forças fundamentalistas, mais cedo ou mais tarde, unem-se contra Israel. Aqui, é essa a grande incógnita do futuro. Israel está a monitorizar tudo o que está a acontecer na Síria e pode ser um novo inimigo. Esta instabilidade pode criar um novo inimigo para Israel.

    E a Turquia?

    Toda esta operação, que começou há mais de duas semanas, tem um cunho muito forte da Turquia, um cunho logístico, de  "leadership", muito provavelmente de "intelligence", existem várias imagens, fotografias que mostram vários indivíduos que não correspondem ao perfil de um combatente sírio e Erdogan joga aqui outra cartada para debilitar o governo de Bashar al-Assad e, ao mesmo tempo, também controlar a zona mais próxima da fronteira com a Turquia. Portanto, há aqui também alguma vitória por parte da Turquia, sem dúvida.

    Agora, há outros jogadores à volta: a Jordânia, o próprio Golfo. O Golfo estava relutantemente a ter algumas relações com Bashar al-Assad porque não existia mais ninguém e agora vê na queda de Damasco uma oportunidade, talvez para o futuro, uma oportunidade para investir na Síria, criar e estabilizar a Síria e transformar a Síria num país que seja pró- Golfo, como está a acontecer um pouco no Iraque. Eu tenho certeza de que a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos não querem uma Síria fraca porque uma Síria fraca seria um Iraque fraco, um país desestabilizado que poderia trazer bastantes perigos para esses mesmos países.

    E depois muito perto temos sempre a Jordânia. A Jordânia é um país fulcral de estabilização ali no Médio Oriente. A Jordânia está a olhar muito atentamente tudo o que está a acontecer na Síria por causa da sua enorme fronteira comum, assim como que tipo de xadrez poderá se jogar ali tão perto das suas casas. Basicamente, a Jordânia é o país ali com mais coisas em risco.

    E depois há o Líbano…

    O Líbano é outra incógnita. Líbano e Síria estiveram sempre juntos no passado. A Síria teve sempre um poder superior ao projectar a sua força para dentro do Líbano, os seus serviços secretos a usarem o Líbano. Se calhar, esta pressão agora vai aliviar-se e o Líbano talvez será deixado aos libaneses.

    A única coisa em que existe um perigo muito grande é que a Síria, nos últimos sete anos, transformou-se um pouco no chamado "narcopaís", um país que vendia drogas, em particular, e onde o próprio governo de Bashar al-Assad estava implicado. Portanto, para os seus inimigos e para os seus amigos em toda a volta, a Síria transformou-se basicamente num grande produtor de estupefacientes bastante baratos e que eram exportados para toda a zona. Este é um perigo que veremos agora, com a queda deste regime, o que poderá acontecer. Poderá ser como aconteceu no Afeganistão, que mudou para os Taliban, mas a primeira coisa que eles fizeram foi cortar na produção de heroína e pode ser que estes mesmos governos, que sejam mais conservadores também, optem por essa mesma política. O Islão não é compatível com estupefacientes, portanto, há aqui outra questão em aberto.

    16 min
  • "Saudade Cité", livro póstumo de Álvaro Morna foi lançado neste domingo em Paris

    Foi lançado neste domingo 8 de Dezembro de 2024 em Paris, o livro "Saudade cité", um livro sobre a imigração portuguesa em França escrito por Álvaro Morna, escritor e jornalista que os ouvintes mais antigos da RFI em português para África decerto recordam. Quando faleceu em Maio de 2005, o autor estava a trabalhar nesta obra que é uma colectânea de contos.

    Militante anti-salazarista, o jornalista exilou-se em França por se opor às guerras coloniais que considerava injustas. Nos arredores de Paris, Álvaro Morna continuou a sua militância junto dos numerosos portugueses que tinham também deixado o país então amordaçado pela ditadura.

    Depois de ter evocado em 1999 em "Timor uma lágrima de sangue", a luta dos timorenses rumo à independência, e após ter evocado a sua própria viagem clandestina para a França no "Caminho para a liberdade", o seu último livro "Saudade Cité" fala precisamente dos portugueses que fugindo à miséria e à guerra se aglomeraram naquilo que nos anos 60 era um enorme bairro da lata, em Champigny, perto da capital francesa.

    Este livro era a obra na qual ele estava a trabalhar quando faleceu.

    Ele recordou a primeira greve em que entraram trabalhadores portugueses que nunca tinham participado em nenhum bloqueio, ele contou-nos a odisseia de um português que não sabia nem ler nem escrever e fez duas vezes a viagem a "salto" até França sem nunca cruzar a polícia e também apresentou-nos Alfredo, um homem feio que, como os colegas, vai tentar sair da sua solidão no final de semana. 

    O amigo e editor, João Heitor, recordou as circunstâncias em que nasceu essa colectânea de quatro contos que acaba de publicar em português e em francês.

    "O Álvaro já estava muito doente. Ele de vez em quando convidava-me a mim e à minha esposa para irmos jantar a casa dele e líamos contos. Ele dizia-me 'olha, acabei de escrever tal livro'. Quando o Álvaro foi para o hospital, eu dizia-lhe 'temos que editar o livro'. Ele respondia 'Sim, sim, sim, sim, sim'. Morreu. Eu achei que sobre a questão da emigração, do 'Salto' dos anos 80, as coisas não estão ainda bem esclarecidas a nível dos jovens que hoje se encontram com 40, 45 anos. Porque não era um tabu, mas os pais queriam que os filhos se integrassem através da escola, através do trabalho, através de tudo isso", lembra o editor para quem as histórias -reais- que Álvaro Morna nos dá a conhecer "são documentos escritos por alguém que viveu essa realidade. Não há mais nada. Há o realizador José Vieira que fez algo, há Gerald Bloncourt ao nível da fotografia. Depois há uns pequenos extractos aqui e acolá. E sobretudo, os jovens não conhecem essa história. Conhecem vagamente, porque também os pais não queriam que conhecessem. Portanto, este é o próximo combate".

    "Teatro de desgostos escondidos, de saudades marejadas nos olhos tristes, de revoltas obscuras, de interrogações sem resposta, o Bidonville de Champigny era um palco onde se reflectia, como numa poça de água, a alma torturada dos portugueses. Era o depositário das suas penas, dos seus gritos silenciosos e das suas esperanças sem rumo", descreve a dada altura o escritor. 

    Esta história pouco conhecida, uma história provavelmente partilhada por todas as diásporas, uma história de separação, de saudade e de incertezas, foi contada por Álvaro Morna, como um testemunho para as gerações vindouras. Um dos filhos, Jean-Paul, presente no lançamento do livro, deu conta da sua emoção."Acho que ele nos contou essas histórias quando éramos crianças, como um pai conta histórias para os filhos que olham para ele com muita admiração, maravilhados", disse.

    Também presentes estiveram muitas das pessoas com quem se cruzou nas suas andanças e se tornou amigo.

    "Tino" Costa, antigo dirigente de uma rádio associativa, conheceu o jornalista nos anos 80. "Conheci-o quando houve o movimento associativo relativo às rádios livres. Era uma pessoa muito dedicada à comunidade e aos problemas sócio-culturais e políticos também. Era uma pessoa que, com muita dignidade, sabia dominar os seus impulsos, mas também sabia o que queria na vida, para ele e para e para os que o rodeavam", recordou. 

    Gracinda Maranhão, militante e advogada em Paris, também conheceu Álvaro Morna há mais de quarenta anos. "Ele era um homem que tinha um sentido profundo da família. Tinha um sentido profundo da justiça e tinha uma paixão profunda pela humanidade. Lembro-me do encorajamento e da força que ele me inculcava. Ele tinha uma palavra que era comum às palavras que o meu próprio pai que me dizia para nunca renunciar ao seu próprio sonho", lembra a advogada portuguesa. 

    Fernando Marques, cantor naquela época e agora professor universitário em Atenas, também fez questão de estar presente na homenagem. "Primeiro de tudo, era uma pessoa culta e, sobretudo, tinha uma abertura de espírito muito grande, capaz de vir ter com o jovem que eu era na altura e perguntar-me coisas como se eu fosse já uma celebridade, por assim dizer. Tinha uma abertura de espírito muito grande. Guardo dele também o espírito de 'bon vivant' que ele tinha. Há pessoas que passam sobre nós, que a gente esquece. Há outras pessoas que nós encontramos na vida que nunca mais esquecemos e que estão sempre presentes. É o caso do Álvaro Morna", conclui o universitário ao lembrar a pessoa que para uns foi uma voz que acompanhou as tardes e que, para outros, foi um amigo.

    Para ter mais informações sobre o livro "Saudade cité", eis o contacto:

    https://www.conviviumlusophone.com/contact/

    14 min
  • Catedral de Notre-Dame de Paris vai receber 15 milhões de visitas anuais

    Os franceses e o mundo católico acompanharam este fim-de-semana a reabertura a catedral de Notre Dame de Paris, cinco anos após o incêndio que a destruiu quase totalmente.

    As celebrações da reabertura da catedral de Notre Dame de Paris prosseguiram este domingo, 8 de Dezembro, com duas missas. Pela primeira vez desde 2019, a Sé de Paris celebrou uma missa com público.

    O Presidente Macron esteve presente, reafirmando o compromisso pessoal com a restauração do edifício histórico. A cerimónia religiosa contou com mais de 170 bispos de todo o mundo, bem como representantes das paróquias da diocese de Paris.

    No sábado à noite, o arcebispo de Paris, Laurent Ulrich, abriu as portas da catedral para uma cerimónia em dois tempos: político e litúrgica. O arcebispo de Paris bateu três vezes com a sua cruz nas portas, abrindo-as novamente ao público.

    No seu discurso, dentro da catedral, devido ao mau tempo, o Presidente francês, Emmanuel Macron, expressou a "gratidão da nação francesa a todos os que salvaram, ajudaram e reconstruíram" a catedral de Paris.

    Foram ainda homenageados os bombeiros e artesãos que ajudaram a salvar a catedral gótica do século XII.

    O monumento histórico voltou a abrir perante caras bem conhecidas: o Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Joe Biden estive ausente, mas representado pela esposa, Jill Biden, o príncipe William, em nome do Reino Unido, bem como o empresário norte-americano Elon Musk. O Presidente guineense, Umaro Sisocco Embaló, o primeiro-ministro são-tomense e a secretária de Estado da Cultura portuguesa marcaram presença.

    Patrice Trovoada recordou o dia 15 de Abril de 2019 e descreveu um choque emocional. "Todas as televisões estavam viradas para o incêndio. O primeiro choque emocional fez-me pensar no 11 de Setembro, ao ver o edifício a ser consumido pelo incêndio e cair aos pedaços. Tendo vivido uma parte da minha juventude em Paris, é evidente que ficamos com uma grande tristeza, mas o facto de o governo francês, dos franceses terem, em cinco anos, recuperado o edifício mostrou uma forma de resiliência, de engajamento, de patriotismo, é positivo", descreveu.

    O chefe de governo são-tomense reconhece a reatividade da França e dos franceses para restaurar em cinco anos o monumento histórico. "Há muitas coisas positivas: a tecnologia, mas também a preservação de métodos antigos, criativos. Não só o património, mas as pessoas, os artesãos que conseguiram salvaguardar o monumento", acrescentou Patrice Trovoada, sublinhando a importância deste ter havido um dialogo inter-religioso.

    "Estive ainda há uns meses com a Sua Santidade, o Papa Francisco, e estou convencido de que a Igreja Católica está aberta ao diálogo inter-religioso. O mundo precisa de tolerância e precisa de paz e é por isso que estamos todos aqui, católicos, muçulmanos, laicos e outras religiões", concluiu.

    Em Abril de 2019, na altura do incêndio, o arquitecto português Amadeu Magalhães, chefe de projeto no atelier parisiense PCA-STREAM, acreditava que era tempo de repensar a Catedral de Paris. Passados cincos anos, o debate em torno da estética inicial passou para segundo plano: "Aquando do incêndio, tenho memória de ter dito que seria provavelmente uma oportunidade para repensar a Notre-Dame. A estratégia que foi definida foi claramente outra; foi a de reconstruir. Mas também essa parte de reconstruir teve o seu interesse porque foi reconstruído, utilizando métodos diferentes, introduzindo elementos diferentes em relação ao que existia. Não podemos esquecer que estamos a trabalhar num edifício que é património mundial, que tem a sua autenticidade histórica. Houve bastantes pressões internacionais para se manter esta identidade da Catedral. Era uma estrutura que estava em perigo, o incêndio afectou muito a estabilidade do edifício, então foi necessário utilizar métodos que deixassem proteger de certa forma a estrutura existente e que permitissem receber, de novo, as estruturas dos elementos que tinham caído", descreve o arquitecto.

    O Papa Francisco enviou uma mensagem lida pelo arcebispo de Paris, Laurent Ultrich, durante a cerimónia oficial de reabertura da catedral. Na mensagem, o Papa pediu às autoridades francesas que acolham "generosa e gratuitamente" a "enorme multidão" de pessoas que vão querer visitar a reconstruída catedral de Notre-Dame, em Paris.

    A mensagem do Papa, que não esteve fisicamente na cerimónia, surge na altura em que o ministério francês da Cultura levantou um debate, propondo que seja cobrada a entrada aos visitantes de Notre-Dame.

    São esperados 15 milhões de visitas anuais, Notre-Dame de Paris vai voltar a ocupar o lugar como um dos marcos culturais e espirituais mais importantes do mundo. "Rever de novo a Notre-Dame é muito bom. Vamos perceber que não foi feita da mesma forma, mas se calhar até foi enriquecida com as técnicas como foi reconstruída. Vai voltar a trazer todas aquelas pessoas que se deslocavam, que ouviam falar de Notre-Dame, que vinham a Paris", acredita Amadeu Magalhães.

    A catedral gótica do século XII nasceu num tempo em que se construía uma nova relação entre o Homem e Deus. Assume-se, hoje, como um pilar de valores, sobretudo num mundo de fragilidades, defende a secretária de Estado da Cultura portuguesa, Maria de Lurdes Craveiro.

    A catedral de Notre Dame "congrega valores simbólicos importantíssimos. Não é por acaso que ela nasce num tempo em que se começa a construir outra relação do Homem com Deus. Não é muito em função de toda uma prática filosófica de matriz religiosa, e com São Tomás de Aquino, à mistura, que apela a outra participação do homem, como destinatário e construtor do seu destino. Os modelos artísticos que se propagam decorrem muito a partir, não exatamente em primeira mão da Catedral, mas a partir do trabalho laborioso do abade Suger, que, exactamente às portas de Paris, projecta este modelo de construção e de articulação entre o Homem e Deus. Portanto, é uma nova relação que se constrói e que se projecta, tanto que a partir daqui", explica-nos.

    Maria de Lurdes Craveiro lembra o carácter cíclico destas tragédias: "As igrejas, de maior ou menor dimensão, são organismos que têm a sua própria vida, organismos que se desgastam, organismos que são construídos a partir de materiais perecíveis e, portanto, estão, de alguma forma, também condenados a uma vida que tem princípio, meio e fim. Os incêndios fazem parte da trajectória normal das construções porque são construídas por vários materiais, obviamente, onde consta a madeira, que não deixa de ser um material frágil e portanto, a determinada altura, ocorrem estas situações. Nestas ocorrências, na medida do possível, tentamos essa recuperação, como se verificou neste caso concreto aqui em Notre-Dame".

    A estrutura de madeira destruída depois do incêndio foi reconstruída a 32 metros de altura, utilizando ferramentas do século XIII. Foram precisas 20.000 horas de estudo para conceber esta nova estrutura, 100.000 horas de trabalho nos ateliers e 40.000 horas de montagem. A limpeza minuciosa dos vitrais, uma tarefa considerada impossível dentro dos prazos temporais, foi bem sucedida e resultou numa catedral que nunca esteve tão iluminada. O custo da restauração ultrapassou os 700 milhões de euros, financiados por 340.000 doadores.

    17 min
  • "Os próximos meses em Moçambique não serão nada fáceis"

    A jornalista moçambicana Eva Trindade esteve nos estúdios da RFI, em Paris, para falar sobre o seu percurso profissional, sobre a sua dedicação aos direitos das mulheres e meninas e ainda do momento "assustador" que o seu país atravessa actualmente.

    Com mais de 15 anos de experiência como jornalista em Moçambique dedicada aos direitos humanos, analisando de perto os direitos das meninas e mulheres no país, Eva Trindade considera que faltam opções, oportunidades e informação para que as crianças, tanto meninas como meninos, tenham outras escolhas do que, por exemplo, uniões precoces.

    "Eu acho que as nossas escolas não estão a contribuir para que, como pessoas, nós possamos desenvolver aquilo que são as nossas habilidades, aquilo que são as nossas competências. Então, eu acho que não é um problema apenas de direitos humanos das meninas em uniões precoces forçadas, por exemplo. Muitas vezes elas não têm expectativas em relação a outras coisas ou nem sequer sabem da existência de outras possibilidades", indicou a jornalista.

    Eva Trindade foi uma das pioneiras dos programas de televisão dedicados às mulheres em Moçambique, abordando temas como a educação das meninas, a saúde feminina ou partilhando histórias de mulheres com percursos profissionais singulares primeiro com o formato "21ª hora" e mais recentemente com o pograma “Nós Mulheres”.

    Para esta jornalista, os direitos e deveres cívicos deviam ser aprendidos o mais cedo possível nas escolas em Moçambique, para promover a igualdade entre homens e mulheres, criando uma sociedade mais coesa e mais justa, numa altura em que aumentam os feminícidios no país.

    Quanto à actual situação em Moçambique e numa altura em que pelo menos 88 pessoas morreram e 274 foram baleadas durante as manifestações e paralisações de contestação aos resultados eleitorais desde 21 de outubro, segundo a ONG Plataforma Eleitoral Decide, Eva Trindade diz que se trata de um momento "assustador", temendo ainda o que se pode passar após o anúncio oficial dos resultados por parte do Conselho Constitucional, que deve acontecer a 23 de Dezembro.

    "Acho assustador o momento em que estamos a viver agora. Honestamente, eu acho assustador porque eu não sei o que irá acontecer depois do anúncio dos resultados, porque acho que as pessoas estão à espera de um único resultado", declarou Eva Trindade.

    Entretanto, o candidato presidencial Venâncio Mondlane apelou para uma nova fase de contestação eleitoral e voltou a desafiou o Presidente Filipe Nyusi para um encontro virtual, insistido que lhe sejam retirados processos judiciais. Para evitar novas convulsões no país, Eva Trindade defende que Venância Mondlane fale de forma moderada aos jovens moçambicanos.

    "Venâncio Montano precisa ir preparando as pessoas para o momento que se vai seguir, independentemente do resultado que vier. Muitos mais problemas irão surgir, ainda que não seja por tempo indeterminado. Mas os próximos meses em Moçambique não serão nada fáceis. As pessoas devem ser preparadas para isso, porque senão vamos ter outros problemas e outras convulsões", concluiu.

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  • Próximo primeiro-ministro terá que mediar forças entre esquerda e extrema-direita

    O governo francês de Michel Barnier caiu com 331 votos a favor da moção de censura apresentada pela esquerda e apoiada pela extrema-direita. Michel Barnier foi o segundo chefe de governo da Quinta República a cair depois de adoptada uma moção de censura, após Georges Pompidou em 1962. O docente em ciências políticas da Universidade de La Rochelle, Eric Monteiro, lembra que o país está ingovernável até ao mês de Julho, dificultando a formação de um governo estável.

    RFI: Estamos perante uma crise sem precedentes, qual é a leitura em relação ao que está a acontecer?

    Eric Monteiro: Há realmente uma crise sem precedentes, porque a V República foi concebida para que isto nunca mais acontecesse. O que estamos a presenciar é o que aconteceu entre 1946 e 1958, na IV República, onde uma sucessão de governos, um sistema parlamentar onde nenhuma maioria se destacava, acontecia justamente a V Quinta República foi feita para isso, evitar minorias, governos minoritários e que haja maiorias absolutas. Estamos perante um caso sem precedentes e provavelmente irreconciliável, porque há três grandes blocos e mesmo a meio dos blocos, se formos a ver o bloco mais à esquerda; entre o Partido Socialista que está minoritário na coligação que fez com o Bloco de Esquerda, a França Insubmissa, nesse grupo há distinções. Entramos numa fase de grande incógnita.

    O primeiro-ministro apresentou esta manhã demissão a formalmente ao Presidente francês. Além de Michel Barnier o que é que provocou esta censura: O partido presidencial Renascimento, que contou com o apoio da União Nacional de extrema-direita, ao Presidente da República, que dissolveu o Parlamento a 9 de Junho e esta sanção confirma o fracasso da dissolução de Macron?

    Sem dúvida, não há dúvidas nenhumas que o macronismo acabou. Já acabou depois da dissolução, quando se viram os resultados das eleições legislativas antecipadas, onde nenhuma maioria se confirmou, todos reivindicaram a vitória. Só que nenhuma coligação alcance maioria. É muito complicado ver como sair desta situação. Que razões nos levaram a isto? O que é incrível é de ver que a moção de censura foi depositada pela extrema-esquerda, mas foi validada também pela extrema-direita e que tinha também depositado a sua própria moção de censura. No projecto que foi depositado pela esquerda, havia aspetos com os quais a União Nacional discordava, mas, apesar disso, fizeram cair o governo. Eu penso que está muito ligado também à situação jurídica da futura candidata, outra potencial candidata natural do RN, Marine Le Pen, às eleições presidenciais de 2027, sabendo que ela corre o risco, efectivamente, de não poder se candidatar, de ser inelegível por decisão judiciária. Isso contribui a que haja uma instabilidade que esse partid,o de extrema-direita, tenha toda a vantagem em desestabilizar o país para que o Presidente da República demissão. Na situação actual é impossível haver nova dissolução até Julho do próximo. O país está ingovernável até nos próximos sete meses.

    A oposição exige que o novo chefe de governo seja nomeado pela Nova Frente Popular com alguns membros que pedem até a convocação de eleições presidenciais antecipadas. Esta pressão por novas eleições presidenciais, como sugeriu, por exemplo, a líder parlamentar da França Insubmissa, Mathilde Panot, tem apoio popular? Podem acontecer no futuro, a seu ver?

    Duvido muito porque há um grande problema na França. Acho que não é só em França também nos Estados Unidos, mas os partidos tradicionais nestes últimos 30 anos não souberam fazer emergir novos líderes políticos. Portanto, são caras conhecidas ou caras que ninguém quer mais ou caras desconhecidas. E não há em qualquer partido hoje, um líder natural que pode agregar forças suficientes para que um governo se aguente até Julho próximo, data em que se poderá novamente reorganizar eleições.Todos pretendem que têm possibilidade para governar. Eu acredito mais que o que deseja a extrema-direita é mostrar que não há governo possível e que há uma crise institucional profunda e que a única solução de sair desta crise política é a demissão do Presidente da República ou a sua destituição.

    Não a priori forma essa destruição chega a cabo, mas pelo menos que a situação seja tão ingovernável que o Presidente não tenha outra opção de demitir-se, mas ele já disse ontem, quando estava na Arábia Saudita, e confirmou que não estava nos seus projectos demitir se. Vamos realmente nestes dias próximos vai ser a incógnita. Uma coisa que os franceses não suportaram, mas houve a trégua dos Jogos Olímpicos e isso acalmou um pouco a espera da nomeação de um governo, que durou mais de 50 dias. A questão hoje vai ser justamente saber se o Presidente da República é capaz de nomear um primeiro-ministro nas próximas horas e não daqui a quatro ou cinco semanas, sabendo que o orçamento não foi validado e que o país precisa de um orçamento para funcionar.

    Todas as atenções estão, portanto, voltadas para Emmanuel Macron, que pretende anunciar um novo primeiro-ministro até esta noite, pelo menos foi o que o chefe de Estado ontem dizia que iria nomear em 24 horas um novo chefe de governo. Encontrar um líder capaz de restaurar a estabilidade num cenário tão fragmentado pode ser, a seu ver, o maior teste do mandato presidencial de Emmanuel Macron?

    É a última carta que ele tem para julgar. Ele hoje vai fazer uma intervenção às 20 horas, horas de Paris, na televisão há muitos nomes que são propostos e são os mesmos nomes que já circulavam quando acabou por ser Michel Barnier, há 90 dias. O que parece ser mais viável é o nome de François Bayrou, que é líder do partido centrista e que justamente há décadas que anda a fomentar a ideia de que a França deve ser governada com pessoas de centro-esquerda e centro-direita, porque as forças vivas encontram se firmemente aí. Macron optou por essa ideia quando foi candidato em 2017, mas, na prática, o que podemos ver é que estes últimos sete anos governou mais a direita com políticas neoliberais. Portanto, se quiser hoje ter um nome que possa ser aceite é provavelmente o de François Bayrou. 

    O partido dele teve processos judiciários em relação também a financiamentos do partido político por fundos europeus, no que toca aos deputados europeus do partido dele, foi absolvido, mas foi um dos raros a dizer que pensava que não era justo que uma candidata ou um candidato não pudesse ser eleito por decisão provisória de inelegibilidade antes de o caso ser definitivamente julgado. Portanto, isso torna o simpático aos olhos da União Nacional, o que talvez permitirá a ele ser primeiro-ministro hoje. Mas uma coisa é ser primeiro-ministro, uma coisa é governar e validar um orçamento.

    O próximo primeiro-ministro vai ter de mediar estas forças políticas. Como dizia há pouco, esta moção de censura apresentada pela esquerda contou com o apoio da extrema-direita e que revela uma mudança nas alianças políticas aqui em França?

    São alianças de ocasião porque eles detestam-se e não têm nada em comum. Se formos a ver a questão do Médio Oriente, a posição da França Insubmissa não tem nada a ver com a posição da União Nacional. A nível de política internacional, não concordam, a nível de política nacional, talvez o único ponto comum que possam ter é sobre o poder de compra do cidadão de base. Fora isto, a maneira de chegar ao aumento da qualidade de vida dos mais, os mais pobres não serão os mesmos. Depois são ambições pessoais, há realmente aí duas personalidades, quer seja o Jean-Luc Mélenchon, quer seja a Marine Le Pen, são personalidades muito fortes que sonham em ser Presidente já há muitos anos e os franceses estão cansados disso querem hoje soluções viáveis, mais do que projectos individuais ou de carreiras pessoais.

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  • Marias de Abril: As vozes silenciadas na luta pela liberdade

    A exposição "Marias de Abril: o cravo no feminino" é inaugurada esta quarta-feira, 4 de Dezembro, na Casa de Portugal André de Gouveia, na cidade universitária de Paris. O vernissage junta a artista plástica Melanie Alves e a cantora A Garota Não, nome artístico de Cátia Oliveira. A exposição homenageia mulheres que resistiram à ditadura do Estado Novo, muitas vezes esquecidas pela história, incluindo pintura, instalações, bordados ou ainda cerâmicas.

    RFI: Como é que surge este encontro entre os vossos trabalhos?

    Melanie Alves: Eu acho que é quase o destino. Quando começámos a falar com a Maison du Portugal acerca de fazer uma exposição, e com o aniversário dos 50 anos do 25 de Abril, comecei a ver que não havia vozes de mulheres. A história era sempre contada no masculino. Eram sempre generais, políticos,  polícias, o ditador. Quando comecei a procurar, achei que fazia todo o sentido fazer esta homenagem a mulheres e retirá-las da sombra. Dizem que atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Comecei a questionar onde é que estavam as grandes mulheres. Sinto que há uma grande ligação com a Cátia, admiro imenso o trabalho dela - ela sabe-o e para mim é importante contar histórias, tentar mexer com as pessoas, tentar mostrar a importância e a valorização da vida humana e neste caso das mulheres, fazer realmente com que haja outras perspectivas, outros pensamentos ou unir comunidades. E sinto que a Cátia fala disto muito bem nas suas canções.

    Cátia, como recebeu este convite por parte da Melanie?

    Cátia Oliveira: Tenho de confessar logo à partida que não conhecia de todo a obra da Melanie, muito infelizmente, mas cheguei, como se diz; tarde, mas com muita vontade. Este e-mail da Melanie e da sua produtora fez-me sentir muito lisonjeada. Não é a minha primeira vez em Paris, mas é a primeira vez em Paris no sentido em que vim convidada para trabalhar. Depois lisonjeou-me sobretudo a ideia de poder fazer parte de um encontro que também a mim me significava muito. Não era a ideia de só vir dar um pequeno concerto em Paris. Não era esse o deslumbre, mas era a ideia de vir participar num encontro onde as peças, a ideologia por detrás das peças, a preocupação ambiental, a preocupação activista com o papel da mulher no que é que foi e no que é agora e no que nós queremos que seja agora o papel da mulher.

    Depois de perceber o percurso da Melanie porque eu também sou um bocadinho exigente com as parcerias que faço, e não tem nada a ver com vaidade, mas com a ideia de precisar de perceber se o nosso encontro vai ser um encontro de almas. Não tem a ver com estatuto ou não ter estatuto. Pode ter começado agora, mas se tem a ideia, se tem a beleza do que quer passar, se me faz sentido, se tem intenção, para mim está tudo bem. Quando fui um bocadinho ao passado da caminhada artística que a Mélanie tem feito, percebi que ela também tem este trabalho muito envolvido com o trabalho social, com esta matriz transformadora do tempo. Um dos projetos que me tocou, que ela tinha feito anteriormente, foi um trabalho grande com mulheres reformadas, com um projecto sobre a terceira idade.

    Melanie: O projecto As vozes da Avó.

    Cátia: Esta consciência e este desejo de fazer um trabalho artístico e consequente. Esta parte para mim é que é a ponte que nos faz trabalhar em conjunto aqui em Paris. Depois há uma coisa muito curiosa: num mundo tão imenso e a Melanie é misturada, todos somos, mas ela poderá falar disso melhor, mas viveu muito tempo fora de Portugal, mas somos curiosamente da mesma cidade, Setúbal, que é a coisa curiosa. Temos a mesma idade....

    Melanie: Temos a mesma idade, somos da mesma cidade, provavelmente até temos as mesmas referências de crescer lá da zona. Dou por mim a pensar que nos cruzamos nos sítios sociais, não no Liceu, mas se calhar nos sítios de convívio. É muito interessante. O destino tem destas coisas.

    Parte destas oito mulheres que tomaram a palavra a dada altura na História. Estas mulheres representam aquelas que não puderam fazê-lo?

    Melanie: Com a escolha destas mulheres, tentei demonstrar que no mundo de hoje estamos todos em correria, estamos todos demasiado estimulados pela tecnologia, pelos media, pelas redes sociais e tudo mais, estamos cada vez mais individualistas e estamos a perder o toque humano. Estamos a desvalorizar a vida humana.

    Acho que ainda há muitas grandes mulheres para saírem da sombra do Estado Novo. Estas foram as que mais tocaram, que mais me intrigaram por certos detalhes, mas o que acho que é importante realçar é que, cada uma à sua maneira, directa ou indirectamente, mais ou menos conhecida, cada uma tem a sua história com valor e importância. Não é só a escritora mais conhecida ou a poeta mais impactante, que realmente tem uma história importante para ser contada.

    Temos o caso de, por exemplo, da Conceição Ramos, cuja história é pouco conhecida. Ela foi praticamente a vida toda criada de serviço, antes disso trabalhou no campo, desde os 14 anos. No entanto, foi tentando perceber como ajudar, foi encontrando a sua comunidade até na sua paróquia, na igreja e fundou o Sindicato do Trabalho Doméstico. Não estamos a falar de uma pessoa que foi à faculdade, que estudou, que tinha influências a nível familiares, ou seja o que for, não: ela disse basta! E defendeu que ser criada de serviço é um trabalho que decidiu fazer, um trabalho digno...

    Cátia: Um trabalho com horários e que não implica extras sexuais.

    Mélanie: Exactamente! Com direitos, defendendo que tinha de haver regras e respeito. Hoje em dia ainda se vê muito isto, infelizmente. Mas é preciso perceber, para o motor gigante do mundo consiga rodar a 24 horas, que todos os trabalhos são importantes; desde a empregada doméstica até ao Presidente da República.

    No vosso trabalho vocês também dizem basta?

    Cátia: Dizemos todos os dias. Posso falar com mais propriedade sobre a música e menos das artes plásticas ou de outro sector das artes. Sinto que enquanto música, para ser a música que quero ser, abdico de muita coisa. Também digo que não a muita coisa e isso faz com que as consequências a seguir sejam que haja menos disponibilidade para nos receber, menos visibilidade dada ao trabalho. Fala-se do assédio sexual no cinema, por exemplo, mas também na música. Isto é muitíssimo sentido.

    Começa a falar-se e, mais recentemente, no jazz português...

    E o jazz português é um exemplo tristíssimo porque é uma coisa muito mais transversal a qualquer género porque aquilo não é só na casa do jazz. Nós vamo-nos conhecendo enquanto artistas, vamos marcando uma espécie de identidade. É o que tenho de fazer. Muitas vezes é preciso perceber que não quero tocar no Festival X porque aquele festival, para mim, não cumpre nenhum papel cívico, consciente, constructivo, transformador, alargador de consciência.

    As ligações de que falava no início da entrevista?

    Sim, claro. Porque determinado evento é patrocinado por pelo banco Y ou pela gasolineira tal. Eu até posso ir a esse festival, mas é importante que eu diga nesse festival que a gasolineira tal me envergonha enquanto cidadã, pelos lucros multimilionários que têm anualmente num país que está a viver com tantas dificuldades e tantas misérias. Depois percebo que isto há de ter consequências.

    Tem consequências?

    Sim. Esse festival, por exemplo, a que me refiro, duvido que mais algum dia me convidem para fazer um concerto, mas fico muito mais tranquila se pensar que cumpri o meu papel de artista. Para mim, ser artista tem que ter algum papel de transformação e de provocação.

    Neste ano em que se assinalam 50 anos de liberdade em Portugal, o que significa para vocês a palavra a liberdade?

    Melanie: Tenho assim, como se diz em inglês mixed feelings, por um lado, dou graças às mulheres e homens que lutaram, que foram oprimidos, que foram agredidos, que lutaram por nós para pavimentar o nosso caminho, para nós podermos sentir que somos livres hoje. Por outro lado, às vezes sinto-me um bocado desiludida. Sinto-me desiludida de termos que continuar a falar sobre igualdades. Sinto-me um bocado desiludida de sentir que quando estamos a falar de igualdade de direitos estamos a falar de igualdade de direitos perante homem e mulher. Mas eu estou a falar de igualdade perante; empregada doméstica e político. Percebemos que as coisas são diferentes e que isto é tudo muito complexo. Tudo bem que as coisas têm hierarquias diferentes, mas eu acho que há um grande basta: Como é que falamos sobre liberdade e, no entanto, vemos situações no nosso país, em Portugal, de pessoas por causa de taxas, por causa de inflação, seja por que razão, perdem empregos, não podem pagar rendas. Ainda há uma situação muito complexa e sinto-me desiludida por não estar resolvida, passados 50 anos.

    Cátia, sente que ainda hoje, o impacto da censura e das desigualdades do Estado Novo se refletem nas nossas gerações, 50 anos depois?

    Cátia: É que nem consigo comparar. Se eu pensar na música e pensar no percurso como o do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho, doJosé Mário Branco que tiveram que sair do país porque ali a palavra deles era terminantemente proibida. Acho que não estou num momento em Portugal em que possa sequer comparar. Daí que eu até tenho aqui um problema quando me apresentam como cantora de intervenção, fico com um bocadinho de desconforto porque cantor de intervenção, para mim tem este período cronológico muito marcado e está muito associado àquela pré 25 de Abril, toda aquela fase final da ditadura pela qual contra a qual esta gente lutou muito.

    Para preparar esta entrevista e ao descobrir este trabalho da Melanie Alves foi impossível não pensar no trabalho do livro pioneiro As mulheres do meu país de Maria Lamas e mais recentemente no filme de Marta Pessoa Um nome para o que sou e no livro da Susana Moreira Marques Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro. São mulheres que viajaram com um livro para perceber a própria história. É isso que também procura fazer? 

    Mélanie: A certa altura da minha vida não fazia sentido continuar a fazer arte que fosse o eu e eu e o que me acontece a mim mesmo, sentia que faltava qualquer coisa e foi aí que comecei a virar-me para os problemas sociais e para o que acontece em tanto sítios onde estou, como no mundo. Começo logo a sorrir, a pensar nas mulheres do meu país, porque eu sinto uma grande proximidade, relativamente ao facto de Maria Lamas ter dito um basta. Foi um basta também porque estava a ser censurada, simplesmente por estar a demonstrar que a mulher portuguesa era maioritariamente analfabeta camponesa, vivia em situações precárias e trabalhava imenso. Foi censurada por isso e decidiu durante dois anos viajar de norte a sul e descrever essa realidade.

    Até me arrepio porque quando eu acabei as vozes da avó, essa era a minha ideia; fazer dois anos e provavelmente ainda vai acontecer, mas como eu sentia que os avós e os senhores estavam tão isolados, queria ir de norte a sul as aldeias assim mais remotas, falar e entrevistar e dar a conhecer a história.

    A exposição para mim não é para ter simplesmente a minha perspectiva ou a minha retórica. É para intrigar e para fazer as pessoas pensar, para terem curiosidade. Porque quando decidi fazer esta exposição sobre as mulheres conhecia muito poucas mulheres que tinham lutado contra a opressão da ditadura. Dei por mim a achar que era ignorância minha de realmente conhecer tão poucas. Mas quanto mais pesquisei, estudei e mais comecei a falar com o meu núcleo de pessoas, notei que não era só minha ignorância. Há uma ignorância geral, muita gente não conhece até os nomes mais mediáticos.

    Cátia: A Maria Barroso, por exemplo.

    Mélanie:A Maria Barroso é completamente uma mulher sombra. Ainda hoje, a maioria de nós ainda pensa nela como a primeira-dama, mulher de Mário Soares, mãe de João Isabel. Não fazia ideia que ela foi a única mulher e co-fundadora do Partido Socialista na Alemanha. Pensava que era erro meu, ignorância minha, mas afinal não. É somente isso que eu quero com esta exposição: apreciarmos, ouvirmos, haver mais união, haver mais conversa e intrigar as pessoas para que tenham realmente vontade de saber. Levar as pessoas a querer pesquisa mais acerca da Conceição, da Celeste ou da Maria Barroso.  Até posso lançar aqui um desafio para quem nos estiver a ouvir: pesquisar ainda mais, mais mulheres de Abril, mais Marias de Abril. Porque decerto e eu acredito piamente nisto, que todos temos uma história importante para ser contada. Há aí mais mulheres à espera para serem reveladas.

    Canta como se nos estivesse a fazer uma confidência, com uma entoação que revela tanto vulnerabilidade como uma força ou uma impulsão. De onde é que vêm?

    Cátia: Eu acho que até a maior parte das canções que escrevo vêm exactamente desse lugar de vulnerabilidade. Acho muitas vezes que a música salva-me de lugares muito angustiados. Falava há pouco de uma certa desilusão e às vezes a desilusão também me angustia muito. Acho que sou um bocadinho fantasiosa sobre o poder popular e o poder do colectivo. E depois também me desiludo com alguma frequência. Acho que a maneira de transformar isto é fazer canções que possam ser um reflexo ou que possam ter um reflexo disto, mas que sejam as canções que contenham uma certa dose de esperança para não cantar só a angústia e o desespero e o mal-estar, acho que o activismo na música também não passa por aí e eu não penso nada em mim como uma activista, mas estou a pegar mais nisto, até porque é uma palavra que a Mel usa bastante e estou a pregar por aí. Sinto que sim, que a música acaba por reflectir a forma como eu apreendo o mundo e como movimento no mundo. Há muita vulnerabilidade e, às vezes, instabilidade, mas também há uma grande vontade de que isto possa ser sempre um dia melhor.

    A Cátia Oliveira é hoje uma das cantoras mais ouvidas em Portugal. Ganhou o prémio de Melhor Trabalho Popular em 2024 da Sociedade Portuguesa de Autores. O último trabalho de 2 de Abril foi considerado um dos melhores discos do ano. O que é que este reconhecimento, o que é que estes prémios acrescentam, mudam alguma coisa?

    Não mudam nada. Não vou dizer que também não sabem nada porque todos nós precisamos de alguma espécie de validação e aquela validação que nos chega no mais imediato. Comigo funciona em mandar música ao meu pai, eu mando um texto que escrevi ao meu pai e ele é um barómetro muito interessante e muito curioso. A validação dele importa. Às vezes não é validação, é opinião dele. O que é que ele sente sobre aquilo porque ele sente bem a coisa, percebe quando a música tem alguma coisa que possa ser interessante.

    A música chega a si pelo seu pai?

    Não, acho que vem mais da minha mãe. Eu acho que a minha mãe usava muita música para cantar aquele dia a dia difícil.

    Cantava?

    Cantava muito, cantava a fazer a lida da casa, trabalhar na costura. Ela teve tantas amarguras, tantas agruras na vida que o canto realmente espanta alguns demónios. E as mulheres da minha família tem muito isso. A minha avó também adora cantar. Às vezes o mundo estava a cair dentro de casa, mas ela ia para o postigo, no bairro de pescadores, lá em Setúbal, abria o postigo e cantava e as vizinhas juntavam se à porta. É muito engraçado porque há vizinhas que ainda me dizem a tua avó cantava tão bem e às vezes lá dentro aquilo estava tudo assim, muito frágil. Acho que também herdei um bocadinho isso, mas pronto. Voltando à questão dos prémios, não mudam nada, mas há sempre um certo sentimento de que eu, na verdade, só tenho 30.000 ouvintes nas plataformas digitais, o que é um número irrisório para uma população como a de Portugal.

    As plataformas e o número de seguidores dizem muito?

    Até diz sobre a minha música e sobre aquilo que eu escrevo, o que é que representa para o outro. Se há 30.000 pessoas a ouvir.

    30.000 pessoas que têm acesso, mas há quem não tenha acesso ou quem use outras formas para ouvir música?

    Também e eu vendo muitos CDS. Não muda nada, mas acaba por dar uma espécie de conforto de olha, não tens muitos ouvintes, não tens muitos seguidores, mas há sempre alguém que acha que aquilo que tu estás a fazer é importante e pode acrescentar alguma coisa. Eu acho que é isso.

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  • França: Queda de Governo "pode agravar ainda mais a crise financeira"

    A esquerda e a extrema-direita francesas apresentaram nesta segunda-feira, 2 de Dezembro, uma moção de censura contra o Governo de Michel Barnier, depois de o primeiro-ministro ter aprovado a Lei do Financiamento da Segurança Social com o recurso ao artigo 49.3, artigo que permite contornar o voto na Assembleia Nacional. A aprovação desta moção de censura pode significar a queda do executivo de Michel Barnier, um cenário que pode agravar ainda mais a crise financeira do país, defende o economista Pascal de Lima.

    RFI: Quais são as consequências para a França de ficar, neste momento, sem Governo?

    Pascal de Lima, economista: Sem um Governo funcional, a França vai enfrentar um vazio de liderança e uma paralisia política, o que pode agravar a crise económica. E isso inclui também a incapacidade de implementar políticas a longo prazo, gerir a crise e aprovar o orçamento. É claro que a confiança dos mercados internacionais também pode cair, aumentando o custo de financiamento e deteriorando ainda mais a situação económica.

    Nos mercados, a taxa de financiamento da França ultrapassou, pela primeira vez, a da Grécia. Concretamente o que é que isso representa?

    Quando a taxa de financiamento de um país ultrapassa a de outro, como foi o caso da Grécia, que é um país muito fraco, significa simplesmente que os investidores consideram o risco associado à dívida desse país melhor. Portanto, isso reflecte uma deterioração da confiança na capacidade da França de gerir a sua trajectória orçamental, podendo levar também a um efeito dominó. Isto significa que os custos dos empréstimos aumentam para o Governo, mas também para as empresas e, provavelmente, para os cidadãos.

    Ou seja, com esta situação, a imagem do país poderá degradar-se ainda mais?

    A imagem da França pode degradar-se ainda mais, especialmente se a crise política e económica não for resolvida rapidamente. Uma situação de instabilidade política tem impactos negativos para a estabilidade económica.

    Num cenário onde a França se encontra sem Governo, fica sem orçamento. Quais são os riscos?

    Sem o orçamento aprovado, o país não pode alocar fundos para certos serviços essenciais. Não todos, claro, mas, os agricultores, por exemplo, podem enfrentar atrasos nos subsídios necessários para a manutenção da sua actividade. Certas ajudas destinadas à habitação podem ser suspensas e alguns programas sociais ou investimentos públicos também podem ser interrompidos.

    Mas não há o risco de os funcionários ficarem sem salário?

    Não, não há risco de os funcionários ficarem sem salários. Isso não é possível na Constituição Francesa, nem na jurisdição dos orçamentos públicos.

    Marine Tondelier, líder do partido os Verdes, afirmou recentemente que o Orçamento de 2024 era melhor do que o orçamento de 2025. De acordo com o presidente do Tribunal de Contas, Pierre Moscovici, a França tem actualmente 3,2 mil milhões de euros em dívidas, 110% do PIB em termos de dívida pública e um peso da dívida de 70 mil milhões de euros. Este orçamento era o possível para a França face à situação económica do país?

    O orçamento proposto parece ser um dos mais realistas. Dentro das limitações financeiras actuais, com uma dívida de 110% do PIB e custos anuais de serviço da dívida de 70 mil milhões de euros, a França não tem grande margem de manobra.

    Portanto, esses ajustes fiscais adicionais, os cortes orçamentais, são necessários no modo quantitativo. A grande questão agora é perceber se não haverá possibilidade para ser mais eficaz nas despesas públicas e talvez cortar um pouco mais, mas para gastar melhor.

    Na eventualidade de  ser nomeado um primeiro-ministro de esquerda, acredita que será capaz de fazer aprovar um orçamento?

    É improvável que um primeiro-ministro de esquerda consiga aprovar um orçamento. O actual clima de polarização política e a composição da Assembleia Nacional não permite isso e qualquer tentativa dependeria de concessões significativas a alianças, o que também poderia resultar num orçamento ainda mais difícil de implementar, dado das restrições financeiras que acabamos de evocar.

    Na semana passada, o vice-presidente do partido de extrema-direita -União Nacional- Sebastian Chenu, convidou o Banco Central Europeu a proteger o sistema financeiro da França se tudo correr mal. Uma afirmação um pouco caricata para um partido que queria sair do euro até 2019.

    Sim, claro! Na minha opinião, a França e a Europa vivem um grande período de resiliência. E talvez essa possibilidade de intervenção do Banco Central Europeu, essa possibilidade de sair da zona euro, representam um período forte de resiliência para a França e um período ideal para reconstruir totalmente uma Europa política.

    Muitas das exigências feitas pela União Europeia começam a revelar-se irreais, impraticáveis?

    Irreais, impraticáveis, com desigualdades Norte-Sul, com uma maioria qualificada para decidir também uma política proteccionista para a França, para os interesses diversos dos países da Europa. Eu acho que vivemos período único na história económica e [devia ser aproveitado] para construir uma nova Europa.

    E quais é que seriam as bases dessa Europa?

    Primeiro, uma Europa política, a mais importante, porque temos aqui um proteccionismo internacional contra a Europa, devendo decidir sobre certas barreiras tarifárias para enfrentar essas dificuldades. Hoje não temos essa Europa política e reitero que vivemos o período ideal para reflectir sobre a possibilidade de uma [nova] Europa política.

    A crise económica da França pode ser resolvida com a demissão do presidente Emmanuel Macron?

    A demissão de Macron não resolveria a crise económica. A situação é também conjuntural. Claro que é estrutural dentro da França, mas é também conjuntural. A situação actual é também o resultado da guerra na Ucrânia, das tensões geopolíticas, da conjuntura económica global , de uma dívida acumulada ao longo de certas décadas, associada a uma situação internacional difícil e anos de uma gestão um pouco complicada. Na minha opinião, a resolução da crise exige reformas estruturais profundas, consenso político, que vai além da figura do Presidente Emmanuel Macron.

    Então, na sua opinião, esperam-se anos de austeridade?

    Sim! 

    8 min
  • Visita de Joe Biden a Angola significa “tudo ou nada”

    O Presidente norte-americano, Joe Biden, inicia, esta segunda-feira, uma visita de três dias a Angola. Qual o peso simbólico e económico desta primeira deslocação de um Presidente norte-americano ao país? Paulo Faria, Doutor em Política e Governo, considera que esta viagem pode ser “tudo ou nada” pelo próprio estatuto de Joe Biden em fim de mandato e espera que a política norte-americana não se limite a uma lógica extractiva de recursos naturais, mas que imponha temas como direitos humanos e boa governação.

    RFI: O que significa, para si, esta viagem de Joe Biden a Angola?

    Paulo Faria, Doutor em Política e Governo, e deputado da UNITA: “Esta viagem, para mim, significa tudo ou nada. Significaria nada porque o Presidente Joe Biden é designado como ‘lame-duck’ ,quer dizer, está basicamente no final do mandato, uma vez que a 20 de Janeiro do próximo ano tomará posse o Presidente eleito, Donald Trump. Portanto, neste caso, tudo quanto ele fizer ao longo dos três dias de visita ao nosso país, poderá ser descontinuado pelo Presidente Donald Trump.

    Acha que há esse risco?

    “Sim, porque, é claro, tudo vai depender daquilo que é a política externa que o Donald Trump vai adoptar. Portanto, se for uma política externa de continuar a isolar outros parceiros históricos, por exemplo, aqui de Angola, nomeadamente a Rússia e a China, naturalmente que não poderá ser descontinuado porque será do melhor interesse da administração Trump dar sequência ao volume de investimentos, sobretudo para o corredor do Lobito, onde os Estados Unidos prometeram injectar 250 milhões de dólares, por exemplo, para fazer o ‘upgrade’ da linha férrea do Corredor do Lobito.”

    Há já sinais de qual será a política americana de Donald Trump para Angola e para África?

    “Não. Eu ando à procura disso e vendo quem Trump designou para secretário de Estado, que é o senador do Flórida, Marc Rubio, ele tem o historial de ser alguém extremamente frontal com a China e a Rússia, então estamos a ver que a política externa de Donald Trump vai ser bastante combativa, quer dizer, dando maior centralidade às questões relacionadas com os direitos humanos, a boa governação, um Estado de direito democrático e depois, também, naturalmente, práticas lesivas à boa administração pública, como a corrupção e a impunidade poderão ser sancionadas na administração Trump. Se assim acontecer, nós veremos aqui o regime de Luanda, da Cidade Alta, a estar sob grande pressão porque é um regime que apresenta antivalores liberais.”

    Inicialmente, disse que esta visita de Joe Biden poderia ser o tudo ou nada. Explicou o que era o nada. Porquê o tudo?

    “Sim, poderá ser tudo se, efectivamente, esta relação de parceria entre Angola, o Estado angolano e, neste caso, os Estados Unidos não seja pura e simplesmente uma lógica extractiva de recursos minerais, recursos naturais estratégicos, mas que também sirva para estabelecer rupturas sustentadas em valores. Quando eu falo de ruptura é os Estados Unidos a estabelecerem um paradigma relacional sustentado, por exemplo, nos seus valores liberais: a boa governação, o respeito pelos direitos humanos, o Estado democrático de Direito, e governos que surjam de um processo eleitoral transparente, inclusivo, e livre, não pela fraude e batota eleitoral.

    Neste caso, os Estados Unidos estariam a marcar uma grande diferença e, neste caso, estaria também a diferenciar-se daquilo que tem sido prática corrente de não ingerência em assuntos domésticos do regime cá em Angola, por exemplo, que é a China e também por parte da Rússia, que não se interessam absolutamente, de modo algum, com as questões que têm a ver com os valores liberais.”

    Fala na questão dos direitos humanos. Na semana passada, um relatório trimestral do movimento cívico angolano Mudei denunciou a degradação dos direitos humanos em Angola. Os direitos humanos serão abordados nesta visita?

    “A CNN dá-nos assim um plano, uma panorâmica geral daquilo que vai ser a agenda de Biden nesses três dias. Do que a CNN fala, assiste-me inferir que, por exemplo, Biden reunir-se com a sociedade civil não consta neste plano. Consta, sim, que ele fará uma declaração junto do Museu da Escravatura. Aquilo é um sítio histórico com grande peso histórico e também com uma grande simbologia que tem a ver com a deportação do capital humano para o Ocidente e também que isto é uma nuvem escura na consciência da humanidade, a escravatura.”

    Há temas mais imediatos para os angolanos?

    “Sim, naturalmente que ao ir ao Museu da Escravatura, não pode não deixar de referir as questões de abusos sistemáticos dos direitos humanos, sobretudo porque temos aqui problemas de execuções sumárias, extrajudiciais, por exemplo, por parte da polícia, esquadrões da morte, temos também as mulheres zungueiras que são vítimas da impunidade policial. Temos níveis altíssimos de desemprego entre os 32 e 35%. A população activa está desempregada e é maioritariamente jovem e temos uma economia em franco estado de estagnação permanente.

    As questões de direitos humanos são essencialíssimas, a questão da boa governação, as questões de uma imprensa pública inclusiva, plural, transparente, é crucial. As questões do combate à corrupção têm de ter resultados tangíveis, visíveis. Temos de ter também a credibilidade dos processos eleitorais. Tem de haver o compromisso dos Estados Unidos de não patrocinar golpes institucionais por meio de fraudes e batotas eleitorais e uma Assembleia Nacional também ao serviço do interesse público.”

    Diz-se que no centro desta visita estão as parcerias económicas e comerciais e, essencialmente, o Corredor do Lobito. Quer-nos explicar porquê?

    “Eu sinto-me tentado a estabelecer a ligação entre dois espaços. O primeiro espaço, amanhã, é a intervenção do Presidente Biden junto do Museu da Escravatura porque do Museu da Escravatura partiam escravos para o Brasil, Américas e por aí adiante. Por outro lado, temos o Lobito, onde vai para ter recursos estratégicos. Então, aqui o elemento comum é a lógica extractiva. Era importante que se estabelecesse uma parceria na lógica do ‘win win’ equilibrada para vantagens partilhadas. Neste caso, não é só extrair recursos estratégicos de Angola, ou através da Zâmbia ou da República Democrática do Congo, mas também fomentar o sector industrial, sobretudo a questão da energia e economia verde. Se houver o compromisso de os Estados Unidos estabelecerem também o núcleo industrial, por exemplo, na província do Lobito e não só, estariam a contribuir também para a oferta de oportunidades laborais para a juventude angolana. Mais uma vez, estaria a ganhar corações e mentes, estaria a demarcar-se daquilo que é o paradigma unipolar extractivo unicamente, que é exercido pela China e pela Rússia também.

    Então, eu vejo nesse aspecto que há elementos-chave e também vejo que, naturalmente, os Estados Unidos não é o único player no Corredor do Lobito. Estão também países da União Europeia e o Reino Unido que possivelmente terá uma fatia maior. Pelo que eu tinha percebido, numa das intervenções do Embaixador britânico cá em Luanda, é que o Reino Unido investia na ordem dos 500 milhões de libras, um valor acima do que tinha sido anunciado pelo Blinken de 250 milhões de dólares. É interessante, sim, que se revitalize o Corredor do Lobito, que se faça o ‘upgrade’ da linha férrea para facilitar a mobilidade, o escoamento de recursos minerais estratégicos, mas também que se abra aqui o caminho da industrialização do próprio país. Assim se estaria não só a tirar recursos, mas também a envolver as comunidades. As comunidades estariam a ver os benefícios do investimento americano através do acesso ao emprego e à melhoria da sua condição socioeconómica também.”

    Há outro aspecto importante nesta visita oficial de Joe Biden, que é a questão diplomática. Simbolicamente, o que é que significa para Angola? É um certo reconhecimento de Angola como líder regional, como mediador regional de muitos conflitos?

    “Eu sou bastante céptico quanto à questão da liderança de Angola na resolução de conflitos regionais porque os conflitos estão aí latentes, em alta erupção em muitos casos. Falo sobretudo do Congo, Kivu (Norte e Sul)… Portanto, não sejamos bastante optimistas quanto ao papel de Angola. Agora, o que há, sim, é a tendência de se estabelecer o equilíbrio porque até aqui a China tem sido o país líder em termos de injecção de capital, estima-se na ordem dos 47 bilhões de dólares que foi o empréstimo que os chineses fizeram a Angola e os Estados Unidos estão muito longe disso, de ultrapassar a China. Então, dá-me a entender que a questão é pura e simplesmente estabelecer algum equilíbrio na balança da relação multilateral que os Estados Unidos vêem ou encetam com o regime de Angola, mas em termos de papéis bastante salientes de Angola, naturalmente, não sejamos bastante optimistas porque o Congo ainda se mantém como um espaço de conflitos internos e de grande instabilidade política.

    Portanto, o papel de Angola só teria alguma credibilidade se o próprio regime tivesse também legitimidade junto dos seus cidadãos. A legitimidade vem a partir da prestação de contas; a legitimidade vem de termos um orçamento geral equilibrado, em que as áreas sociais, como a saúde e a educação, sejam contempladas com maior fatia. Portanto, legitimidade significa que termos um sector de defesa e segurança cujo nível de execução orçamental está na ordem dos 120%, em tempos de paz, tem de ser altamente questionável, e indicia, naturalmente, a falta de transparência orçamental . E, depois, também ter os media que estejam ao serviço do interesse público, pela verdade e também um maior escrutínio da parte do cidadão sobre os seus servidores públicos. Portanto, legitimidade significa não ser déspota, não ser autocrata, prestar contas, e não ver a aprovação do Orçamento Geral do Estado como a aquisição de um mero cheque em branco para poder promover o festim do despesismo e por aí fora.”

    15 min
  • Eleição de comissários europeus reflecte divisão da UE

    O Parlamento Europeu aprovou esta semana o novo colégio de comissários europeus com 370 votos a favor, 282 contra e 36 abstenções, a aprovação mais baixa de sempre da história da União Europeia. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o relançamento da economia da zona euro, o reforço do sector da defesa e o apoio à Ucrânia são as prioridades desta equipa nos próximos cinco anos. Vítor Oliveira, analista político e secretário-geral da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social da EUROPA, fala dos desafios deste colégio de comissários, numa altura em que a União Europeia surge muito dividida.

    RFI: A nova Comissão Europeia foi aprovada pelo Parlamento com o apoio mais baixo da história da União Europeia. O que muda nesta equipa?

    Vítor Oliveira, analista político: Historicamente, na União Europeia, nunca foi aprovado um colégio de comissários com uma votação tão baixa e isso não é um bom sinal. Numa altura em que a União Europeia precisava de união, os partidos estão bastante divididos em relação ao colégio de comissários.

    Lembrar, também, que o facto de o colégio de comissários absorver pessoas de extrema-direita não facilitou a votação e provavelmente, por isso, houve esta descida em relação à votação de Julho.

    O que se pode esperar é que António Costa, presidente do Conselho Europeu, seja um facilitador das relações, dentro da União Europeia, entre os vários partidos e os vários países, e que consiga levar este colégio de comissários a bom porto.

    A Presidente da Comissão Europeia não conseguiu o objectivo da paridade. Há menos mulheres nesta equipa…

    Era um dos objectivos de Ursula von der Leyen, mas o colégio de comissários e comissárias é proposto pelos vários países. Ou seja, não pode haver uma imposição em ser um homem ou uma mulher. Mas claro que isso também representa uma pequena derrota, se podemos dizer assim, para aquilo que eram os objectivos de Ursula von der Leyen, que era ter um colégio de comissários paritário.

    Existem duas maiorias na Assembleia Legislativa com as quais o presidente da Comissão terá de lidar: uma formada por conservadores, social democratas e liberais, a outra construída em torno da direita e da extrema-direita. Com quem poderá contar Ursula von der Leyen?

    Poderá contar sobretudo com o colégio de comissários e com o Partido Popular Europeu, que é o seu, com o partido de Giorgia Meloni, que coloca também pessoas nesta comissão. Como disse, há pouco, António Costa poderá ter um papel determinante nas negociações, fazendo com que Ursula von der Leyen leve a bom termo o programa proposto [para os próximos cinco anos].

    O italiano Rafael Fito, do partido de extrema-direita Irmãos de Itália, foi nomeado vice-presidente executivo, estando encarregue da coesão e reformas. A eurodeputada francesa dos Verdes, Mary Toussaint, afirmou que, com esta escolha, Ursula von der Leyen banalizou a entrada da extrema-direita nas instituições. É disto que se trata?

    Todos os partidos, que criticam essa escolha, teriam uma boa opção que era apoiar Ursula von der Leyen para que ela não tivesse de ir buscar pessoas à extrema-direita para conseguir compor o colégio de comissários. A extrema-direita tem vindo a subir em vários países europeus e em várias geografias. Neste caso, também há uma subida da extrema-direita na União Europeia, levando a que haja mais deputados e os partidos de extrema-direita tenham muito mais influência, neste caso até sobre o colégio de comissários. Esta situação também se deve ao facto do centro não se conseguir entender, ficando fragilizado. Portanto, se os partidos de centro ou da esquerda queriam bloquear a extrema-direita, poderiam ter aceitado negociar.

    A França e a Alemanha, que atravessam crises políticas internas, saem enfraquecidas neste colégio de comissários?

    Vai ser interessante seguir a relação entre Michel Barnier [primeiro-ministro francês] e Ursula von der Leyen. As relações entre eles não são as mais famosas. Na altura do Brexit [2020], Michel Barnier - enviado para as negociações do Brexit da União Europeia - quase não falava com Ursula von der Leyen. Eles têm visões um pouco diferentes da política europeia. Contudo, Michel Barnier tem muita experiência no domínio da política europeia.

    Outra questão interessante será de perceber como é que Ursula von der Leyen vai reagir com o colégio de comissários, quais vão ser as políticas da União Europeia, neste próximo ciclo, para perceber como é que vai tentar dar a volta às crises brutais que atravessam a Alemanha e França. A França já está a sentir em várias áreas da economia e a Alemanha com a Volkswagen a encerrar algumas fábricas, a Volkswagen que representa 7,2% PIB alemão, só por aqui podemos perceber o impacto que isto vai ter. Vamos tentar perceber como é que a União Europeia vai colocar a máquina a funcionar para esta nova dinâmica económica, ainda por cima com uma guerra à porta.

    Ursula von der Leyen insistiu que a liberdade e a soberania dependem, mais do que nunca, do poder económico. Sublinhando que é preciso aumentar a despesa militar, num contexto de guerra na Ucrânia e com o regresso de Donald Trump à Casa Branca. Quais serão os principais desafios desta equipa?

    Neste momento, se olharmos para o que se passa em França, com as várias manifestações na área da agricultura. Ursula von der Leyen devia ter feito um discurso no G20 no Brasil, sobre a questão da assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, e não fez. Isto porque há uma grande resistência em França para que este acordo não seja assinado. Este acordo comercial vai ser um braço de ferro importante entre a União Europeia e a França.

    A União Europeia deve apostar mais na defesa?

    A União Europeia terá que ter outra dinâmica a nível de estratégia de defesa. Donald Trump poderá ter alguma mudança de política, mas a NATO também permite aos Estados Unidos continuar a ter a supremacia mundial. Grande parte do armamento que é comprado por muitos países, também é vendido pelos Estados Unidos.

    Ou seja, Donald Trump não pode tomar decisões unilaterais. Provavelmente tomará decisões um pouco mais sólidas, mas não tomará, na minha opinião, decisões contra aquilo que é hoje a Aliança Atlântica.

    Agora, a Europa tem que ter uma política de defesa, com uma estratégia muito bem definida, pensando que aquilo que aconteceu na Ucrânia pode vir a acontecer em países do Leste ou pode vir a acontecer em países do centro da Europa.

    A guerra não se vai gerir só em matéria de área da defesa. Hoje não se gere só em matéria de tropas apeadas de infantaria. Hoje gere-se muito em termos de aviação militar, ataques cibernéticos e aposta na informação. A dependência energética da Alemanha com a Rússia foi muito complicada para o país. Portanto, tudo isso são matérias a serem pensadas na área da defesa. E a União Europeia, neste caso, tem que pensar muito bem para não ter essa dependência, mas não se pode fechar ao exterior.

    8 min
  • COP29: Mulheres e as meninas representam 80% dos deslocados climáticos

    As mulheres e as meninas representam 80% dos deslocados climáticos. São elas que suportam o peso dos impactos climáticos, todavia também são elas que não têm lugar à mesa das decisões. Para Yolanda Mulhuini, do Comité Ecuménico para o Desenvolvimento Social em Moçambique, não haverá avanços enquanto as mulheres estiverem fiquem fora da equação.

    As mulheres e as meninas representam 80% dos deslocados climáticos. São elas que suportam o peso dos impactos climáticos, todavia também são elas que não têm lugar à mesa das decisões. 

    A questão do género e a falta de representatividade feminina foram dossiers em cima da mesa na COP29. Todavia, os representantes mundiais não foram capazes, em Baku, no Azerbaijão, de reforçar as políticas de género dentro das negociações, empurrando novas directrizes para a COP do próximo ano.

    Para Yolanda Mulhuini, do Comité Ecuménico para o Desenvolvimento Social em Moçambique, não haverá avanços enquanto as mulheres estiverem fiquem fora da equação.

    Seria interessante se tivéssemos jovens, mulheres, raparigas e crianças na mesa de decisões.

    Na COP, a falta representação de mulheres na mesa principal de discussão se reflecte em todos os níveis de decisão climática, mas as evidências mostram claramente que as mulheres amplificam soluções, que impulsionam a iniciativas de adaptação em todo o mundo, inclusive com práticas agrícolas inovadoras. Mas não têm sido consideradas nestas questões.

    Como é que vamos avançar se estamos a deixar este grupo de lado?

    Espero que no próximo ano, no Brasil, sejam envolvidas mais mulheres. Esperamos que seja uma COP diferente em termos de representação: jovens, mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência.

    10 min

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