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A República Democrática do Congo foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado falhada no domingo, com as autoridades a garantirem esta manhã que a tranquilidade voltou a Kinshasa. Em entrevista à RFI, o brigadeiro angolano Correia de Barros, diz que a situação no país devido ao conflito na fronteira norte com o M23 e a intromissão do Ruanda já era complicada e que esta falta de estabilidade interna não beneficia o continente africano.
Esta tentativa falhada terá sido levada a cabo por um grupo de comandos de cerca de 40 homens, liderados por Christian Malanga, uma figura destacada da diáspora congolesa, que acabou por ser morto pelas forças de segurança. Os atacantes tentaram invadir a residência do ministro da economia e um dos palácios presidenciais onde, nessa altura, não se encontrava o Presidente Félix Tshisekedi.
Este é um golpe que se vem juntar à situação de conflito vivida pelo país na sua fronteira norte, com o M23, e onde há muito Tshisekedi acusa o Ruanda de ter uma forte implicação. Para o brigadeiro angolano Correia de Barros, até agora, a situação política na RDC era estável, no entanto, há grupos que consideram que a situação interna pode ser resolvida à base de tiros.
"A RDC tem problemas nas fronteiras, principalmente essas no Norte, incluindo com o Ruanda. Mas em Kinshasa acho que não tem havido problemas complicados. Há uns tempos largos que isso não não acontece. Pelo aquilo que eu tenho visto, acho que o Presidente continua a fazer um trabalho relativamente bom. É preciso ver que ele também teve de lidar com o Presidente anterior. Aquilo foi complicado, mas ele saiu-se muito bem e o que é um facto é que agora estas eleições já falamos de eleições livres, já as outras também tinham sido, mas pronto, ainda há ainda quem ache que esses problemas podem ser resolvidos através de tiros", indicou o antigo militar,.
Há ainda muitas interrogações em relação às motivações desta tentativa de golpe e sobre o restabelecimento da ordem, sabendo-se que pelo menos quatro dos atacantes terão morrido. Entre os comandos haveria várias nacionalidades, incluindo norte-americanos. Vital Kamerhe, ministro da Economia, e a sua família não sofreram qualquer ferimento, mas dois dos polícias que protegiam a sua casa foram mortos pelos comandos. Kamerhe é uma destacada figura da política congolesa e deverá ser o próximo presidente da Assembleia Nacional.
Esta é uma situação que inquieta os Estados vizinhos, especialmente Angola, já que acontece no seguimento de vários golpes de Estado noutros países africanos.
"A paz na RDC é algo que diz respeito a toda a África. A África, infelizmente, nestes últimos anos, voltou um pouco atrás naquilo que já tinha atingido tanto de paz e tranquilidade de funcionamento as democracias das eleições. Actualmente, em muitos sítios, viram-se golpes de estado, a tomada do poder pelas forças armadas. E oarece-me que era uma tentativa na RDC também de se chegar a uma situação dessas. Se calhar convém a muita gente", concluiu Correia de Barros.
"A Savana e a Montanha" é uma longa metragem do português Paulo Carneiro em exibição na Quinzena dos cineastas, mostra paralela do Festival de cinema de Cannes. Trata-se de um western que retrata a luta da população de Covas do Barrroso, em Trás-os-Montes, nordeste de Portugal... contra o projecto da maior mina de exploração de lítio da Europa, denunciando as consequências para o meio ambiente e os habitantes.
O cineasta Paulo Carneiro começa por se referir à sua presença neste prestigioso certame de cinema do sul da França, onde é candidato com "A savana e a montanha" à distinção "Oeil d'Or".
"Para nós foi muito importante, porque este filme serve também, desde o início, é uma espécie de um contrato com as pessoas de Covas do Barroso.
Era um bocado a ideia de amplificar a luta, aquilo que se está a passar ali na região, porque é algo que de uma grandeza muito, megalómana que nas cidades, mesmo em Portugal, ninguém quase tem ideia do que é.
E estar aqui em Cannes acho que pode ajudar bastante ao filme, pode ajudar bastante à causa. Acho que o cinema não tem a capacidade de mudar nada, mas pelo menos que faça com que as pessoas possam discutir o assunto.
E depois, quer dizer, as autoridades competentes lá, talvez de alguma maneira tenham a capacidade de reflectir sobre o que se está a passar e aquilo que querem impor a estas gentes, que é o que mostra o filme e que acho que é um bom microfone para isso."
É uma matéria prima que serviu também para uma curta metragem portuguesa que está em exibição precisamente aqui na Quinzena dos Cineastas. Refiro-me à obra do Frederico Lobo "Quando a terra foge".
Portanto, é possível vir a explorar-se o lítio em Trás-os -Montes, precisamente como dizia em Covas do Barroso, não muito longe da família do seu lado paterno.
Você já tinha feito um filme sobre o seu avô, o "Bostofrio", não muito longe de lá. É um filme militante, pergunto eu? E porquê a opção por um western ?
"Na verdade é curioso: eu soube do filme do Frederico quando houve a Selecção porque eu não sabia que o Frederico estava a fazer um filme ali, em Trás-os-Montes, a região do Barroso, que são dois concelhos, Boticas e Montalegre.
Curiosamente, o Frederico filma em Montalegre e eu filmei em Boticas, o meu pai, é ali efectivamente de perto de Covas do Barroso, de Bostofrio, que fica a cinco quilómetros. Ou seja, é um sítio que eu já conhecia.
Quando se começou a especular um bocado em relação a isto, eu ainda não estava tão informado. Tentei-me informar bastante antes mesmo de avançar para a região. Não para fazer um filme.
Mas no início o objectivo era criar algum conteúdo para a internet para, de certa maneira, poder partilhar com outras pessoas, como tinha dito, anteriormente, na cidade.
Parece-me importante que nós tenhamos a capacidade de nos rirmos de nós mesmos. Acho que o cinema é sério, é um trabalho sério, mas acho que é importante também não nos levarmos, por vezes tão a sério e conseguirmos rirmo-nos de nós mesmos.
E foi daí que parte também a ideia do western. As próprias pessoas de Covas do Barroso encetaram esta coisa dos indígenas contra os cowboys, os cowboys contra os indígenas e de repente fizeram esse jogo.
Começámos a escrever juntos e perceber de que forma é que as coisas no filme poderiam funcionar para caminhar para o lado do western, mantendo, ainda assim, uma sobriedade de um filme que, apesar de ser um filme militante, acho que continua a querer trabalhar muito. esta ideia do que para nós é o cinema.
O gesto de cinema e a forma, e não relegando apenas para o canto do cinema militante, porque, parece-me a mim, muitas vezes, a ideia que surge com com o cinema militante é uma coisa muito de gueto, muito filmada, com uma forma que não interessa tanto e nós tentamos contrariar isso."
Porém, as mensagens são muito claras: "A hora é de morrer ou de matar." "Agora é hora de lutar !" "A voz do povo". Como é que foi escolher as músicas? Como é que foi trabalhar com o Carlos Libo ?
"Na verdade, sim. Eu não nego que seja um filme militante. Só não o empurro para o gueto porque acho que é um filme de cinema, no sentido da forma. Só apenas isso.
O Carlos Libo foi uma descoberta no início, quando começámos a ir a Covas do Barroso, frequentemente íamos filmando os conteúdos, que é o que se diz de conteúdos, não é para as redes sociais ?
Descobrimos o Carlos Libo e eu percebi que ele gostava muito de ler e gostava muito de Zé Mário Branco, do Zeca Afonso.
E encontrávamo-nos lá na carrinha dele, das abelhas, os livros do [Miguel] Torga e comecei a perguntar... Depois vi que tinha uma guitarra e começámos a perceber que ele tocava e compunha umas coisas. E instigando-o a criar umas músicas, não pensando que fossem músicas para o filme.
Porque são músicas que são filmadas e gravadas ainda antes da existência da próprio ideia de um filme.
E depois quer dizer, tudo muito orgânico e com naturalidade. Queríamos criar e quisemos... Não sei se está criado, se não ? Mas quisemos criar este músico que fosse um músico de referência para a luta ali, na região do Barroso, contra a mineração.
E que já se amplificou e que já as músicas dele são palavras tidas em conta quando há manifestações sobre sobre outras explorações noutras regiões do país."
E como é que se articulou a constituição do elenco para este filme?
"Na verdade, a constituição do elenco também foi com muita naturalidade. São as pessoas que estão mais engajadas na luta. Acabam por ser as pessoas que também acabam por se engajar mais no filme. A comprometer -se mais no sentido que para elas era importante a forma que o filme poderia potenciar ou mostrar aquilo que se estava a passar foi muito natural."
E aquele debate entre: "Isto pode constituir oportunidades de emprego para uma terra que tantas necessidades tem." E, eventualmente, a destruição que isso implicará efectivamente para o património natural local, não é?
Eu gostaria também que recuasse um bocadinho no tempo. Eu sei que há cerca de dez anos fazia uma curta metragem na Guiné-Bissau. "Água para Tabatô" e os problemas que ocorriam com uma embarcação.
Como é que foi esse projecto que o levou à África Ocidental e à Guiné-Bissau?
"Eu, na verdade, fui à Guiné-Bissau a trabalhar enquanto assistente de realização num outro filme.
Esse filme a que que se está a referir é um filme com 40 e algo minutos e foi uma coisa que aconteceu efectivamente que eu vivi. Ou seja, não foi... também não foi muito planeado e acaba por ser um episódio que aconteceu, mas eu tenho em mim. Sim, isso acontece mesmo. E é o chamado cinema à "vérité", não é? E, na verdade. Quer dizer, depois isso foi durante a rodagem do outro filme em que eu estava a trabalhar como assistente.
E depois quer dizer, as minhas ligações com África sempre foram muito próximas porque acabo por ficar com amigos.
Alguns estão em Lisboa, outros ainda vivem na Guiné. Eu já fui à Guiné várias vezes e a outros países africanos, tudo um bocado também a trabalhar noutras áreas de cinema e quer dizer, festivais de cinema. Foi acontecendo."
No "Bostofrio" já falava, então, da terra da sua costela paterna, não é? Em "Via Norte" você decidiu mesmo ir até à Suíça e falar, nomeadamente do apetite por muitos imigrantes portugueses, pelos automóveis e pelos bólides, não é?
Agora, tem "A savana e a montanha". Tem, também, a sua própria produtora. Trabalha muito com o Uruguai. Sei que teve dificuldades para conseguir financiamentos e, uma vez mais, eles vêm também do Uruguai. Como é que isto se articula?
"Na verdade o que acontece é que no cinema nós estamos todos muito... Trabalhamos muito com o coração. Não temos uma estratégia muito definida de como é que vamos... É um bocado e as pessoas querem estar perto umas das outras e as coisas vão surgindo.
Eu conheço o Alex: o Alex Piperno, co-produtor, em 2019 quando mostro o Bostofrio no Festival do Uruguai.
E depois encontrámo-nos novamente na Berlinale. Eu estava no "Talents", que é um programa de talentos do Festival de Berlim e o Alex estava a mostrar o seu primeiro filme no Festival de Berlim.
Encontrámo-nos aí novamente. Começámos a discutir ideias de cinema durante a pandemia. Fomos falando sempre muito, muito, muito activa a discussão. E achámos que podia ser uma possibilidade. O
s filmes que nos interessa são os mesmos. Ainda nos interessa mais a forma do que a história do que a narrativa. Queremos procurar novas maneiras, se quisermos, de fazer filmes.
E abriu-se uma possibilidade: o Uruguai teve interesse. Acaba por financiar este filme. O filme teve financiamento da Câmara de Boticas e do Uruguai.
Foi três vezes rejeitado no apoio à pós-produção. Nós não concorremos à produção, ao ICA (Instituto [português] do cinema e do audiovisual), porque, efectivamente, era um temática urgente e não dava para esperar. E foi começar a filmar e fomos fazendo o filme assim.
Esta última vez que foi negado foi a mesma montagem que foi aqui aceite na Quinzena. Ficámos quase em último lugar no apoio à pós produção do ICA. Mas quer dizer: os filmes são o que são, têm a vida que têm. E não é por não termos um apoio do Instituto de Cinema que que iríamos desistir.
Foi muito difícil, mesmo estar presente aqui em Cannes. Mas quer dizer, agora vamos para a frente e seguiremos com outros projectos, independentemente do que aconteça.
Já temos financiamento também para o próximo filme, que temos apoio do Uruguai e aí temos o apoio do ICA, apesar de nos terem só financiado metade do montante a dividir com outro projecto.
Mas, quer dizer, acho que o cinema deve ser pago e nós pagamos às pessoas, mas também não vai ser por não ter o apoio do ICA que não vamos fazer o filme."
E há boas notícias, não é? O filme vai estrear em França, já é uma garantia, não é?
"Sim, sim. Nós assinámos a distribuição comercial."
Cannes está a dar já bons frutos !
"Sim, sim, acho que sim.
E acho que era isso que nós queríamos na verdade, poder mostrar o filme em mais sítios. E estamos muito contentes com isso, obviamente."
Conhece bem esta região. Já houve um governo português que acabou por cair, o do governo socialista de António Costa, indirectamente por causa da exploração do lítio.
Qual é o diagnóstico que faz de como estão os habitantes desta área actualmente em 2024?
É de pessimismo ? Porque já vimos os pareceres da Agência Ambiental, contraditórios... E o projecto vai para a frente. Eles estão derrotistas ? Como é que eles se posicionam neste momento?
"O que acontece é que quanto à queda do governo, o nosso filme já estava rodado. Já tínhamos até terminado a montagem. Ou seja, não houve essa intenção. O que eu verifiquei e acho que também é importante referir isso !
O que eu verifiquei é que a nível municipal, tanto em Montalegre como em Covas, em Boticas, o que eu verifiquei e continuo a afirmar com muita força é que, de repente não há forças.
Ou seja... nestas regiões, que são coisas muito concretas, em que a própria própria instituição "Câmara Municipal" está tão próxima das pessoas do género... o partido parece que fica mais esquecido.
Ou seja, não é porque, sei lá ! É quase como dizer: pode ser oposição, sendo ou não sendo a oposição. O presidente da Câmara... neste momento, o lítio, a exploração do lítio, continua a ser uma prioridade para o novo governo AD.
Mas o presidente da Câmara Municipal faz parte, tem a mesma cor e não é por isso que dá um passo atrás.
Portanto, eu acho que isso é importante referir, até porque em Montalegre era o oposto e também não dá um passo atrás. E isso é importante.
Nos municípios há muito esta política, muito de proximidade."
Como é que as pessoas agora, neste momento, olham para o projecto da Savannah Resources, se ele vai mesmo acabar por avançar, se a serra vai continuar a ser destruída ?
"O que o que acontece é que neste momento existem máquinas que estão no vale. Foram feitas prospecções. Não se iniciou a extracção. Há máquinas no vale e eles estão a fazer. As pessoas vão estar cá em Cannes... Mas há outras pessoas lá da aldeia que estão a fazer piquete. Há uma tabela com horários e as pessoas estão a fazer piquete para as máquinas não avançarem para cima dos baldios.
Porque a empresa quer avançar e estão numa luta de que os terrenos que são da empresa e os terrenos que são parte do baldio. O baldio ainda é nacional, mas é gerido pelas pessoas dali que têm os seus direitos. E enquanto não houver uma espécie de uma nacionalização e... toda a gente vai lutar contra isso, obviamente. A luta agora faz-se no terreno.
Então existem piquetes, há uma máquina. Às vezes estão a jogar às cartas com a própria pessoa que trabalha, que trabalharia nessa máquina... que não está a trabalhar.
Porque quer dizer isto também há um filme que é isso. É um filme que trabalha nos cinzentos.
Não é porque os trabalhadores que estão com a Savannah [Resources, empresa britânica encarregada da prospecção do lítio] também são povo. Também são de outras aldeias ali perto. Nós nunca vemos o Golias, não é? E essa é uma das grandes coisas do capitalismo."
"Quando a terra foge" é uma curta metragem do português Frederico Lobo, em cartaz na Quinzena dos cineastas, mostra paralela do Festival de cinema de Cannes. O projecto de exploração do lítio no norte de Portugal é o pretexto para este filme, com uma forte fibra social.
O realizador começa por se referir às suas expectativas quanto à sua presença neste certame.
"Na verdade, acho que a expectativa acaba por ser uma coisa mais abrangente do que Cannes, porque é o primeiro momento em que o filme vai ser mostrado em público, não é ? Que vai haver uma projecção pública e em que o filme se vai confrontar, felizmente, numa sala de cinema com o público."
Relativamente a Cannes, precisamente, não é qualquer patamar, não é qualquer festival !
Como é que você está a viver o facto de se inserir nesta mecânica de um dos maiores, porventura o mais prestigioso dos certames da sétima arte?
"Na verdade, com alguma surpresa, expectativa: estou um bocado aberto ao que possa vir a acontecer.
Claro que para quem filma este tipo de atenção momentânea por parte de um festival com esta dimensão, tem um valor que é a possibilidade que nos dá enquanto realizadores ou ajuda um bocadinho à possibilidade de continuarmos a filmar.
Muito honestamente, para mim é o grande valor de estrear em Cannes. Obviamente que é o festival de referência que toda a gente sabe, não é?
Mas eu acho que num meio que é muito difícil muitas vezes de conseguir as condições para filmar, isto acaba por acrescentar algum ponto à probabilidade de se fazer um próximo filme. Quanto a Cannes especificamente, vou com toda a curiosidade, não é?"
E vai estar a privar, por exemplo, com Inês Lima, que também lá estará com "O jardim em movimento". Imagino que tenha tido o interesse por ver que mais filmes são ali projectados. Portanto, como é que está a lidar com isso? O que é que vai tentar ver? Em que é que vai apostar?
"Eu acho que há algumas coisas que não vou conseguir ver e que gostava de ver, porque eu apenas vou conseguir ir nas datas da estreia do meu filme, que já é muito perto do final do festival.
Então vou tentar basicamente ver aquilo que está programado para esses dias. Tenho alguma curiosidade, obviamente, com os filmes portugueses por... não é assim tão comum !"
Por afinidade !?
"Por afinidade ou por, de repente, um festival desta escala, ter uma presença portuguesa tão alta!
Eu acho que é um sinal também de que, num meio tão pequeno como é o cinema em Portugal, conseguir produzir neste número de filmes que acabam por ser seleccionados, em Cannes em diferentes secções !
E eu acho que acaba por trazer razão de alguma forma ou por dar um bocadinho de alento nesta luta permanente que existe também na procura dos financiamentos e nesta relação com o Instituto de Cinema Português, acaba por ter com o seu próprio cinema.
E é óbvio que tenho muita curiosidade para ver os filmes portugueses e não vou ter a grande oportunidade de os ver todos, mas seguramente que depois terei mais possibilidade, espero que os filmes possam também circular depois do festival."
No seu filme aborda-se a questão da exploração do lítio em Trás-os-Montes, que indirectamente já levou à queda do governo socialista português de António Costa, que é uma situação que também é retratada em "A Savana e a Montanha", um outro filme que está em projecção em Cannes.
O que é que pretendeu com este filme que parece estar algo entre o documentário e a ficção, com uma certa dicotomia entre a maquinaria, por um lado, e o mundo rural, por outro, duas lógicas que estariam aí em oposição?
"Sim, eu acho que, antes de mais, o filme acaba por ser realmente esse híbrido, se assim podemos chamar.
Mas eu acho que é um filme que acaba por ter um pendor, apesar da matriz que se pode assumir como documental, tem um pendor de ficção bastante grande.
Para mim, esta questão da mineração acaba por ser uma questão que não é uma questão isolada, que é uma coisa que ao longo dos séculos, principalmente, eu diria desde a Revolução Industrial, aumentou exponencialmente.
Mas esta questão do progresso e da forma como se relaciona com os territórios e com as suas populações.
É uma coisa que, por exemplo, na própria zona de Trás-os-Montes já teve um impacto muito grande, tanto com as minas de volfrâmio que existiam e que encerraram no seguir à II Guerra Mundial, se não me engano a década de 60.
Este mega projecto de mineração que vai ocupar ou que pretende ocupar uma escala de território imensa relacionado com a escala, o território, a zona do Barroso é uma coisa que também já tem antecedentes.
Com tanto questões extractivistas como esta do volfrâmio, de que estava a falar, como por exemplo, com a construção de barragens, construção de barragens que acabaram por submergir aldeias inteiras.
Nesta questão da produção de energia e de manter um bocado a roda sempre a circular."
Ou seja, é um bocado inevitável esta oposição entre o desejável desenvolvimento económico de regiões até bastante atrasadas em termos de acolhimento e depois o respeito do meio ambiente e o respeito também das pessoas localmente.
"Sim, eu acho que isso pode ser visto de alguma forma, de uma forma falaciosa. Se olharmos para o funcionamento daquilo que pode ser chamado a economia de mercado e que neste momento assume um pendor totalitário sobre as nossas vidas.
Muitas vezes estas promessas de desenvolvimento económico não estão directamente ligadas a melhor condições de vida.
Ou seja, eu não acho, por exemplo, que Trás os Montes seja uma região atrasada. Não considero isso.
Por exemplo, no meu filme acabo por me remeter a coisas que considero mais ancestrais. Mas há todo um processo de ficção que cruza histórias e memórias com espaços a uma montagem ficcional que faço a partir dali.
Mas eu de forma alguma sinto que seja uma região que esteja atrasada. Acho que é uma região que dá a possibilidade à criação de outros mundos que talvez possam não obedecer na sua totalidade ou ainda tenham alguma forma de lidar de forma com um bocadinho de mais margem... basicamente o capitalismo global. Mas não considero que sejam regiões atrasadas, mas..."
Marcadas pelo êxodo rural, por uma grande hemorragia de recursos humanos para o litoral e para o estrangeiro.
"Claro, claro, Eu acho que isso também obedece realmente... bom, para já, uma história recente, não é?
Não se pode esquecer uma ditadura que durou quase 50 anos e que depois foi substituída por uma febre talvez demasiado forte sobre esta ideia de progresso.
Há outras formas que possam permitir às pessoas ficarem nos seus sítios e acho que é isso que se deve pensar.
Pessoalmente, e acho que isto acaba por extrapolar o próprio filme, mas para mim é uma questão que está lá do início ao fim.
Mas eu acho que muitas vezes esta imposição económica ou esta imposição numa perspectiva de progresso económico, acaba por ter um impacto que às vezes acaba por ser não tão recompensante para as pessoas que habitam ali e que já têm as suas vidas de alguma forma montadas.
Obviamente, passa sempre por uma luta. É uma região que toda a sua geografia tem tanto de bonito como de invernos inóspitos, muito mais no passado e agora,obviamente, as condições de vida são outras, mas são populações que obviamente lidavam com quase uma questão metereológica, quase e de agressividade de território de meio que acaba por esculpir carácteres também, não é?
Mas que obviamente acaba por também encontrar formas de resiliência e de resistência a essas questões.
Por isso eu acho que esta questão desta extracção está planificada para ali. Ou seja, se o plano destes grandes grupos económicos vai realmente para a frente, eu, pessoalmente, não acredito que isso vá trazer as mais valias que compense nem a perda de qualidade de vida no território.
E acho que às vezes estas coisas vêm tão atadas que o difícil é encontrar caminhos no meio. E acho que este filme é um bocado uma tentativa de encontrar um caminho aí no meio."
Mas para se chegar a "Quando a terra foge", você tem já por detrás cerca de duas décadas de cinema.
Então, passando muito rapidamente por alguns dos momentos que você já protagonizou entre "Bab Septa" em 2008. Já tinha havido antes o "Entre Tempos". Houve também a "Revolução Industrial", portanto colaborações com Pedro Pinho, com Pedro Hespanha, por exemplo.
E "Entre tempos" era a decadência da Feira Popular de Lisboa. Aquele recinto um pouco ao deus dará. A "Revolução Industrial", a descida do vale do Rio Ave, que foi o coração fabril daquela área e, portanto, "Bab Septa" o drama dos imigrantes às portas de Ceuta, entre Tânger e Ceuta.
Há assim, um fio condutor em relação aos temas os quais tenha apetite para ir fazendo o cinema que conhecemos da sua parte ?
"De uma forma geral eu acho que sim, pelo menos. Se calhar sou a única pessoa que sente isso.
Mas para mim, a linha entre estes filmes que possam ter formatos de produção, estéticas diferentes, formas de abordagem diferentes. Para mim há uma linha contínua que os atravessa a todos."
É a fibra social ?
"Eu acho que há uma relação social. Ao mesmo tempo acho que é muito uma questão como o ser humano vive o seu meio. E, obviamente, para mim, há uma questão que talvez possa ser considerada social, e um bocado mais genérica, que tem a ver com o que é que faz as pessoas mexerem-se, moverem-se com toda a legitimidade do mundo.
Mas eu acho que há um funcionamento do mundo. Então, nos dias que correm, confesso que acho que essa turbulência ainda está mais acentuada!
Ou seja, tanto a tragédia da imigração e as mortes no Mediterrâneo e no Atlântico não param, como o genocídio de Gaza. Acho que é uma questão super forte ! E acho que, de alguma forma, tento abordar coisas em que sinto que há realmente um desequilíbrio gigante entre as forças de alguma forma.
E que tanto obrigam as pessoas a partir como as que ficam, mais tarde ou mais cedo podem-se sentir também atacadas, não sei.
E acho que toda esta questão de relação com o espaço e dos filmes muitas vezes partirem do próprio espaço. Acho que isso acaba por ser um de alguma forma, uma marca, ou seja, não um espaço absolutamente real, mas sim um espaço geográfico específico, que pode ser tanto o móvel, como foi no caso do "Bab Septa" e na "Revolução Industrial".
Como pode ser mais sedentário e fixo, como é o caso de Entre Tempos e de "Quando a terra foge" por mais? Para mim são criações imaginárias, mas "Quando a Terra foge", acaba por ser uma criação imaginária.
Não é um mundo, ao contrário do "Revolução Industrial", em que é especificamente sobre um território que é o Vale do Ave.
Aqui também há uma presença desse território que é assumido, mas ao mesmo tempo há um cruzamento de tempos que dá uma liberdade formal e acho que leva o filme para outros lados.
Há um espaço e um tempo suspenso e eu acho que esta questão da relação com o espaço e com a forma como o espaço é ocupado é uma coisa que...e como lidamos com ele e como às vezes queremos ficar e temos que partir.
E como às vezes queremos partir e nos obrigam a ultrapassar barreiras completamente absurdas.
Pelos vistos já são 20 anos e com poucos filmes, não é? Trabalho como director de fotografia, trabalhei em mais filmes e trabalhei de outras formas."
E é co-fundador de uma cooperativa de cinema que é a Rua Escura, no Porto.
"Exactamente. Mas, por exemplo, é engraçado. Porque esta questão do eu quando fiz o "Entre Tempos" foi num contexto muito específico. Foi os Ateliers Varans e era uma situação que parecia urgente, que era uma coisa que estava a acontecer no momento e que ia ter um tempo e uma urgência muito forte.
O que acontece é que aquele território foi deixado ao deus dará durante 20 anos. E, honestamente, por uma questão de especulação imobiliária, neste preciso momento, eu passei lá, curiosamente, há cerca de um mês.
Estão a ser construídos mais um quarteirão novo em Lisboa para uma classe social específica, claro.
Já acho que tem a ver com a própria transformação das cidades e o modelo de transformação das cidades.
Mas muitas vezes são coisas que se alargam muito no tempo por razões que ultrapassam o nosso próprio tempo. E a nossa própria perceção do mundo. Tem a ver com o funcionamento geral.
Acho que estamos a fazer cinema e as ferramentas são as do cinema. O desejo é o do cinema. E por mais que o cinema talvez não tenha capacidade de transformação das coisas, pelo menos acho que pode acrescentar perspetivas sobre elas.
E acho que é um bocado esse jogo meio misterioso que o cinema carrega, que também me faz mexer na vontade de fazer filmes."
A França decretou esta quarta-feira, 15 de Maio, estado de emergência na Nova Caledónia até dia 12 de Junho. Depois de cinco dias de tumultos, que tiraram a vida a cinco pessoas, a França está a enviar reforços de segurança para o território francês no Pacífico, que vive uma crise de segurança e identidade política motivada pela reforma eleitoral. O historiador emérito da Universidade de Sciences Po, Michel Cahen, defende que a única forma de resolver a crise é a descolonização.
RFI: Como é que interpreta este surto de violência na Nova Caledónia?
Michel Cahen: Como historiador vou tentar raciocinar na longa duração, mas uma coisa é muito clara: o que acontece hoje na Nova Caledónia francesa é devido a uma situação colonial. Não se pode raciocinar com universalismo abstracto, dizendo isto é uma parte da França e vamos raciocinar como se fosse Bordéus ou Paris. É uma situação colonial. O que acontece hoje é uma tragédia com perdas humanas, com muita destruição. É uma situação pré-insurrecional porque essa situação é o produto de uma política do actual governo francês. Já há cinco ou seis anos que a situação está a piorar e todas as pessoas que conhecem bem o terreno dizem 'cuidado, cuidado, isto vai explodir'. Não se pode comparar a Nova Caledónia com as Antilhas Francesas, a Martinica, Guadalupe ou a ilha de Reunião no Índico.
Porquê?
Porque nessas ilhas não havia indígenas. Estou a utilizar essa palavra indígena no sentido antropológico, naturalmente. Não havia indígenas, foram muito rapidamente exterminados e os habitantes eram uma minoria de donos brancos. Hoje em dia, a maioria da população é descendente de escravos, enquanto na Nova Caledónia é um bocadinho comparável com a África continental. Isto é, há um povo indígena, há um povo que nunca aceitou a dominação francesa, desde a conquista da Nova Caledónia, nos meados do século XIX. Os vários povos que hoje se chamam de kanaks sempre resistiram. Houve revoltas, houve repressão feroz, houve uma diminuição da população. Não se pode dizer simplesmente que a ordem deve voltar. O governo francês actualmente está a reagir simplesmente em termos policial e militar. A ordem tem que ser restabelecida. Eu quase estou a ouvir o Salazar, o Caetano, dizendo 'nós podemos conversar com Moçambique, Angola, mas em primeiro lugar, a ordem deve voltar'. Não há outra maneira de resolver uma situação colonial que não seja a descolonização. Essa descolonização tinha sido prevista pelos acordos feitos pelo Michel Rocard e isso foi completamente abandonado hoje. Isso explica todo o desespero de uma geração de jovens. Também não devemos esquecer a situação social e económica que é muito má. É uma revolta anti-colonial.
O governo francês parece ter dificuldade em travar esta crise. O executivo reforça a segurança, envia a militares para a Nova Caledónia, mostra força, portanto, Mas tem responsabilidade nesta crise?
Não só tem responsabilidade, mas tem uma responsabilidade esmagadora porque as grandes organizações kanaks que são independentistas não são nada radicais, pelo contrário são muito moderadas. Têm um objectivo muito forte que é a independência do país, mas têm sempre dito, ao longe de 20 anos, que defendem o diálogo. Vou dar um exemplo, quando houve a pandemia da Covid-19, houve muitos mortos nos kanaks da Nova Caledónia. Com a Covid-19 e nos costumes, há um período de luto e durante este período de luto as pessoas recolhem-se e não participam em actividades políticas. Nesse momento, o governo teimou em organizar o terceiro referendo. Mais tarde, o governo considerou que essas crenças dos habitantes do país não eram qualquer coisa de relevante e então organizaram o referendo. Os independentistas boicotaram e, obviamente, o resultado foi de maneira esmagadora, "não à independência", mas este não é um referendo aceitável. Nós estamos a pagar o fruto de anos e anos de desprezo para os Kanak.
Como é que se explica que desde 2018 a Nova Caledónia tenha tido três referendos pela independência, sendo que nos três o não saiu vitorioso e o último, como disse, em 2021 foi boicotado pelos independentistas. Estes referendos não foram fidedignos, foram manipulados?
Tecnicamente não foram manipulados, pelo menos não tenho fontes para dizer isso, mas temos que raciocinar de maneira histórica. O povo Kanak é um povo que foi menorizado desde há décadas. Com a imigração crescente de gente vindo da França. O povo daquela terra foi mais e mais minoritário
O povo Kanak que representa cerca de 40% da população na Nova Caledónia...
Hoje sim, mas antigamente era muito mais e com a taxa demográfica, se esperarmos mais alguns anos, provavelmente o povo kanak vai voltar a ser maioritário. A não ser que a França organize mais e mais imigração para a Nova Caledónia. É muito estranho porque em França há muita gente que diz que a ordem deve ser restabelecida. São pessoas que estão a criticar muito a imigração em França, dizendo que a extrema-direita diz que 'o povo francês vai ser submerso por uma vaga de imigrantes'. Mas é exactamente a mesma coisa que aconteceu na Nova Caledónia. A França favoreceu mais e mais a vinda de franceses com salários locais para os franceses quase multiplicado por dois em comparação com a metrópole e o povo Kanak ficou minoritário na sua própria terra. Não se pode raciocinar somente dizendo um ser vivo, um voto. É preciso considerar que há uma situação colonial e essa situação colonial para ser resolvida dever ser descolonizada. O que não quer dizer que todos os franceses que estão lá devem sair. Há muitos franceses que nasceram nessa terra, esses obviamente podem ficar e até há muitos kanaks que estão a favor de trabalhar com caledonianos de origem francesa. Mas em primeiro lugar, deve-se aceitar que é uma situação colonial, que um povo foi historicamente menorizado na sua própria terra e que este povo não pode aceitar um referendo onde uma maioria de pessoas, historicamente imigrantes, os colonizadores franceses, vai votar para o futuro desta terra.
Que soluções para sair desta crise? A França está pronta a dar razão aos independentistas da Nova Caledónia?
Não sei se é dar razão aos independentistas da Nova Caledónia, mas se o governo francês quer que a paz volte, a primeira coisa, é retirar a lei, não promulgar a lei sobre a revisão do corpo eleitoral. Esta lei cria uma situação de desespero para os kanaks que com a situação demográfica actual, vão continuar a ser minoritários, embora estejam na sua terra, enquanto os outros são historicamente os colonizadores. Se o governo quiser, em vez de enviar centenas e centenas e centenas de militares na Nova Caledónia, é muito simples: retiram e não promulgam o projecto de lei sobre a revisão do corpo eleitoral e a paz volta de imediato. Poderão reorganizar negociações porque não estamos em 1842. Agora deve haver uma colaboração entre os kanaks, que são o povo histórico da terra e os franceses que querem fazer esta terra a sua terra para a vida toda e não só para uma uma posição de funcionário público muito bem pago para alguns anos. Há muitos franceses que vivem lá que estão prontos para negociar. Não se deve empurrar os kanaks e, nomeadamente, uma juventude Kanak muito pobre que está a ver a riqueza dos outros e que sente que tudo isso foi roubado ao povo Kanak. Para que a paz volte, deve-se retirar esta lei. A lei não deve ser promulgada e integrada na Constituição Francesa.
A única coisa que propôs o nosso Presidente, Macron, foi atrasar a integração da lei na Constituição. Espero que não haja uma ala radical dos independentistas que decida entrar na luta armada mesmo, como houve em Angola, como houve em Moçambique, como houve na Guiné. A França vai entrar numa nova guerra colonial? Já tivemos a Indochina, já tivemos a Argélia. Espero que não vai acontecer assim, porque a situação é muito grave.
Em comunicado emitido nesta quarta-feira, a Human Right Watch afirmou que o grupo armado que atacou na sexta e sábado passados a vila de Macomia em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, usou crianças soldado para invadir e pilhar a localidade. A ONG de defesa dos Direitos Humanos que se baseia em testemunhos locais, estima que pelo menos 20 crianças participaram na ofensiva, não sendo contudo claro se também estiveram envolvidas nos próprios combates contra as forças governamentais no terreno.
Ao recordar que "usar crianças com menos de 15 anos em conflitos, por si, é um crime de guerra", Zenaida Machado, investigadora sénior da Human Rights Watch e autora da pesquisa, sublinha que "o Estado moçambicano tem a responsabilidade de proteger estas crianças".
Questionada sobre o facto de este novo ataque ter acontecido numa altura em que começam a sair gradualmente do terreno as forças da SADC que estão envolvidas desde Julho de 2021 no combate ao terrorismo juntamente com as forças governamentais, a investigadora relembra que é o Estado moçambicano que "tem competência e autonomia para decidir a quem deve solicitar ajuda para garantir que os moçambicanos e todos os outros residentes no território possam usufruir do direito à segurança".
Neste sentido, a investigadora e activista dos Direitos Humanos apela para que o governo tome as suas decisões nesta matéria "tendo em conta as condições no terreno, depois de também fazer consultas com as comunidades e acima de tudo, quando tiver controlo total da situação".
RFI: A Human Rights Watch contactou diversos moradores de Macomia durante o ataque. Que cenário lhe descreveram?
Zenaida Machado: É um cenário com muitas nuances. Primeiro, porque as pessoas descrevem que o grupo quando entrou na vila, conversava com a população e explicou-lhes que não tinha intenção de atacar as pessoas. A intenção deles era irem buscar comida. Temos o caso de residentes que decidiram, mesmo assim, fugir porque já tinham experimentado as mesmas situações em ocasiões anteriores e, por questão de segurança, preferiram retirar-se da zona e irem esconder-se nas matas. Mas também conversamos com pessoas, por exemplo, que decidiram ficar e assistir ao decorrer dos eventos. Uma coisa é certa: independentemente do que os insurgentes tenham dito às pessoas, a sua chegada a Macomia tornou-se, em algum ponto, uma acção violenta e com sérios riscos para a vida humana, porque eles atacaram posições das forças de defesa e segurança. Estavam numa acção de pilhagem em que estavam a retirar produtos e mantimentos que pertencem aos residentes. Isto por si já é um crime, um abuso de Direitos Humanos. Estavam também a levar mantimentos que estão guardados em armazéns de agências humanitárias. Portanto, estes produtos estão ali para ajudar as pessoas deslocadas e pessoas necessitadas. Para quem não sabe, estas são zonas de difícil acesso por causa do conflito e o que está nos armazéns deve durar algum tempo para permitir ajudar a quem precisa. Se os insurgentes vão para lá para retirar estes mantimentos, torna o processo de trabalho das agências humanitárias um pouco difícil. Então, é uma mistura de sentimentos. Há os que se sentiram mais confiantes e ficaram a assistir ao que se estava a passar, mas a maior parte da população e residentes daquela zona decidiu fugir e esconder-se na mata durante 24 horas até sábado, quando regressaram às suas casas, porque os insurgentes já se tinham retirado da aldeia. O que nós sabemos, nesta fase, é que há pessoas mortas. Há pelo menos 10 pessoas mortas. Na sua maioria são soldados, mas também há civis entre os mortos, o que demonstra que as 24 horas em que os insurgentes estiveram em Macomia, apesar de terem dito que não iam atacar os residentes, foram efectivamente 24 horas de violência.
RFI: Tem-se noção de quantas crianças poderão ter participado nas acções de pilhagem ou eventualmente até nas acções armadas durante o ataque a Macomia?
Zenaida Machado: A informação que nós temos, nesta fase, é que o grupo que foi invadir Macomia dividiu-se em três: um que estava a combater as posições das forças de defesa e segurança, outro que bloqueou os principais acessos e, depois, tivemos relatos de que surpreenderam violentamente as forças que foram enviadas para ajuda de reforço. Entretanto, houve outro grupo que esteve dentro da cidade a fazer as pilhagens. Nós não temos, nessa fase, como verificar se o grupo que esteve a confrontar-se com as Forças de Defesa e Segurança ou esteve, por exemplo, a tentar distrair as forças de apoio que se aproximavam de Macomia, se continha crianças. Podemos confirmar que o grupo que esteve em acções de pilhagem dentro do posto administrativo continha pelo menos 20 crianças, que foram os números que as pessoas puderam dizer. Mas nós acreditamos que sejam muito mais. Pelo menos uma das crianças foi reconhecida e é uma criança que tem 13 anos. A legislação internacional diz que usar crianças com menos de 15 anos em conflitos, por si, é um crime de guerra. Mas também é preciso dizer que, para efeitos de Direitos Humanos, não faz muita diferença se essas crianças tiveram ou não engajadas em troca de tiros com as forças de defesa e segurança. O facto de elas estarem armadas em acções de conflito armado, quer sejam pilhagens, organização ou mobilização em si, transformam elas em crianças-soldados. O que é um crime grave contra os Direitos Humanos. É efectivamente aquilo que se considera um crime de guerra.
RFI: Tem havido múltiplos apelos das autoridades moçambicanas a prevenir precisamente a população local, os jovens, os menores, para não entrarem nesses grupos. A seu ver, o que é que faz com que esses jovens acabem por ser forçados ou aliciados?
Zenaida Machado: Eu gostaria de distinguir aqui a diferença entre a criança e o jovem. O jovem tem a sua própria opção de escolha, se quer ou não juntar-se ao grupo. Claro, se não tiver sido forçado a fazê-lo. Jovens que se juntam voluntariamente a este grupo, se não estiverem na idade de menoridade, devem, como qualquer outro adulto, enfrentar a justiça pelos crimes que vão cometer enquanto fizerem parte do grupo. No nosso trabalho, damos especial atenção às crianças, porque uma criança dificilmente tem capacidade de escolha ou de decisão ou de interpretação do que é o certo ou do que é errado. Então, o Estado não deve se limitar apenas a fazer apelos às crianças para não se juntarem ao grupo. O Estado moçambicano tem a responsabilidade de proteger estas crianças. Recentemente, o ISIS divulgou nos seus canais de publicidade um vídeo em que apareciam os insurgentes a ter reuniões com crianças. Isto é alarmante e preocupante. Mostra que, de alguma forma, o Estado moçambicano perdeu o controlo do paradeiro de muitas crianças e não está a saber ou não está a conseguir cumprir o seu papel de protector destas crianças. O lugar de uma criança é em casa, na escola, a brincar nas ruas. Não é no campo de batalha, nem num treino de como usar uma arma para matar o seu vizinho ou o seu familiar. O Estado deve, com os seus parceiros, melhorar os seus esforços para garantir que estas crianças não se juntem a estes grupos. Deve garantir formas de que os lugares onde estão essas crianças são devidamente protegidos e que existam políticas para manter as crianças afastadas de um ambiente de guerra. Mas também é uma mensagem clara que devemos deixar para o grupo Al-Shabab de Moçambique e que eles devem parar de recrutar crianças e devem parar de usar crianças em ambiente de guerra. Os crimes de guerra são aplicáveis aos Estados e aos actores não-estatais. Estes crimes que está a cometer hoje estão a ser documentados e efectivamente, em algum momento, a gente espera poder levar a liderança deste grupo também às barras da justiça pelos crimes que está a cometer. Também apelamos ao bom senso deles, se é que ainda tem algum, de se recordarem que uma criança é o futuro de um país. Crianças que aprenderam a matar dificilmente terão um futuro saudável e é preciso permitir que as crianças de Moçambique sejam crianças, não pequenos soldados.
RFI: Isto acontece numa altura em que precisamente estão a sair gradualmente as forças que se juntaram ao dispositivo da SADC em Cabo Delgado. Está prevista uma retirada progressiva dessas forças nestas próximas semanas. Como é que vê esta situação à luz dos abusos e das violações dos Direitos Humanos que acaba de descrever?
Zenaida Machado: A função de proteger ou de providenciar o direito à segurança dos residentes no território moçambicano é do Estado moçambicano. O Estado moçambicano tem competência e autonomia para decidir a quem deve solicitar ajuda para garantir que os moçambicanos e todos os outros residentes no território possam usufruir do direito à segurança, neste caso, de Cabo Delgado. O Estado moçambicano solicitou ajuda às forças regionais e ao Ruanda. Nós, como Human Rights Watch, em algum momento, também solicitamos várias vezes as forças regionais, em particular, a terem uma missão que se foca principalmente na defesa dos Direitos Humanos e a garantir que as condições humanitárias no terreno sejam melhoradas. Mantemos esse apelo a todas as forças que estejam a trabalhar em conjunto com as forças governamentais, que a prioridade no terreno deve ser permitir que as populações vivam em segurança, mas também que recebam ajuda humanitária adequada sempre que assim necessitarem. Prefiro não comentar, nesta fase, as decisões do Estado moçambicano sobre quando ou como essa chegada ou partida dos parceiros internacionais deve ser feita. O que nós também podemos apelar, nesta fase, ao governo moçambicano é que tome as suas decisões de convidar ou despedir as forças parceiras de forma informada, tendo em conta as condições no terreno, depois de também fazerem consultas com as comunidades e, acima de tudo, quando tiverem controlo total da situação e possam, como Estado individualmente, sem ajuda, garantir que os cidadãos possam usufruir desse direito. Caso contrário, se não fizerem isso, estarão a incorrer num grande erro de voltarem ao estado em que não podiam garantir às populações um nível de segurança adequado.
Muitas são as vozes que têm vindo a público denunciar o abate indiscriminado de árvores centenárias na cidade de Bissau. Constantino Correia, antigo director das Florestas da Guiné-Bissau, sublinha um processo de requalificação da cidade feito sem estudos e cujo efeito imediato é o aumento da temperatura. Posição diferente tem o executivo, que diz tratar-se de um processo normal de substituição de “árvores velhas”, que "já atingiram o seu clímax".
Muitas são as vozes que têm vindo a público denunciar o abate indiscriminado de árvores centenárias na cidade de Bissau. Constantino Correia, antigo director das Florestas da Guiné-Bissau, sublinha um processo de requalificação feito sem estudos e cujo efeito imediato é o aumento da temperatura da cidade. Posição diferente tem o executivo, Viriato Cassamá, ministro do Ambiente, sublinha que são “árvores velhas”, que já não conseguem “sequestrar carbono” e, por isso, são agora substituídas por novas.
Aumento da temperatura na cidade, aumento de insectos, ausência de sombra, ausência de barreiras anti-vento e anti-ruído, menos oxigénio, são algumas das consequências, apontadas por Constantino Correia, do abate de árvores centenárias na cidade de Bissau.
O antigo director das Florestas da Guiné-Bissau sublinha que a requalificação da cidade deveria ser feita de mãos dadas com o ambiente e baseada em estudos.
O que está a acontecer, neste momento, é o derrube total das árvores na parte antiga da cidade de Bissau, alegando facilitar condições para a construção das vias públicas. (...)
Bissau é uma cidade altamente poluída e uma das funções das árvores é a absorção do dióxido de carbono.
Sobre a perigosidade das árvores e de possíveis quedas, o engenheiro florestal responde com operações de “poda”.
Por exemplo, o Hospital principal de Bissau estava circundado de árvores. Não é por acaso, porque para além de proporcionar grandes quantidades de oxigénio, ameniza a temperatura.
Portanto, as desculpas que se deram para esse abate total não compensa, porque os prejuízos de imediato são muito maiores.
Vai haver estragos na próxima época das chuvas provocados pelo intenso vento. Essas árvores serviam de atenuantes, de barreiras. E depois vai haver um aumento significativo de poeira, de incidência directa da luz, que tem efeitos em doenças como a asma, rinite até AVC’s [Acidente Vasculares Cerebral].
Bissau vai chegar a temperaturas acima de 40 graus.
Posição diferente tem o Governo guineense. Em declarações à agência Lusa, Viriato Cassamá, ministro do Ambiente, Biodiversidade e Acção Climática da Guiné-Bissau, fala num processo normal de requalificação urbana, que envolve o abate e a substituição de “mangueiras centenárias”. “Árvores velhas” nas palavras do governante que já “não sequestram o carbono” e “constituem um perigo público principalmente na época das chuvas”.
A cidade de Bissau é uma cidade antiga. As árvores que estão a ser derrubadas neste momento são mangueiras velhas que já não têm a capacidade de sequestrar o carbono. Já atingiram o seu clímax.
Constituem um perigo público, principalmente na época das chuvas. Assistimos várias vezes à queda dessas árvores.
A requalificação do centro da cidade de Bissau é da responsabilidade da Câmara Municipal de Bissau e do Ministério das Obras Públicas.
O Palácio de Versalhes, em França, acolhe, esta segunda-feira, 180 líderes de empresas estrangeiras durante a 7ª edição do fórum económico "Choose France", uma iniciativa do Presidente francês. O Eliseu anunciou que há promessas de investimento no país de mais de 15 mil milhões de euros, através de 56 projectos. “Um recorde” e uma oportunidade para empresas locais e para a criação de emprego, explica o economista Carlos Vinhas Pereira, presidente da Câmara de Comércio Franco-Portuguesa.
RFI: O que é este evento “Choose France”?
Carlos Vinhas Pereira, presidente da Câmara de Comércio Franco-Portuguesa: “Este encontro é da iniciativa do Presidente Macron e estamos a falar da 7ª edição. Foi ele que introduziu este ‘Choose France’ que é um grande 'show' para os grandes empresários internacionais no Château de Versailles, o sítio mais prestigioso de França. O objectivo principal é de apresentar a atractividade de França relativamente aos projectos de investimento, sobretudo projectos internacionais em que há montantes importantes de investimento e também empregos para os franceses inerentes a estes investimentos. É uma maneira de apresentar cada ano tudo o que é atractivo, medidas, incentivos para poder estimular a actividade económica francesa.”
A Presidência anunciou que esta edição vai originar mais de 15 mil milhões euros de promessas de investimento em França, num total de 56 projectos. O que é que representam estes valores para a economia francesa? É realmente um recorde de investimento relativamente às outras edições?
“Sim, é um recorde. Claro que não é um montante para 2024, é um montante que se vai diluir em função dos anos porque estamos a falar de construções de fábricas, estamos a falar de altas tecnologias, de investigação. Isto implica muitos fundos, implica um grande investimento. Efectivamente, a França foi eleita há poucos dias como campeã da Europa e da atractividade na Europa.”
Justamente, de acordo com o Eliseu, a França é o país mais atractivo da Europa há cinco anos. Confirma?
“É verdade. O ranking foi feito há pouco por um organismo completamente independente e confirma estes dados da atractividade francesa. Temos que ver que temos grandes faculdades, temos também grandes centros de investigação, estamos a falar do centro da Europa, estamos a falar do quinto país em termos económicos ao nível mundial, que é um dos grandes europeus conjuntamente com a Alemanha. Hoje vão-se reunir 180 empresas, essencialmente das novas tecnologias, da saúde…”
Há também empresas na área da inteligência artificial, da descarbonização da economia? Quais é que são as áreas em destaque e porquê?
“São aquelas áreas que estão na moda e que também vão implicar grandes investimentos para o futuro. Quando estamos a falar de grandes tecnologias, estamos a falar, por exemplo, em informática quântica, com a IBM. Estamos a falar da Microsoft, que vai fazer um investimento de quatro mil milhões de euros e que será o maior investimento da Microsoft em França para criar tudo o que é ‘data centers’ em França. E uns atraem outros. O facto de estarem em conjunto num mesmo sítio, num evento regular, com grandes patrões… Por exemplo, a Amazon anunciou um grande investimento de 1,2 mil milhões de euros e a criação de empregos.
Há sempre o destaque da criação de empregos. O Presidente Macron sempre apostou na criação de empregos para os franceses e é verdade que a taxa de desemprego diminuiu fortemente, mas também diminuiu em toda a Europa. Estas grandes empresas vão também contratar subcontratantes. Isto vai ser uma bola de neve. Ou seja, são investimentos que depois vão permitir criar números muito importantes de empregos que justificam o facto de um Presidente da República se mobilizar, assim como o ministro da Economia.”
O Presidente da República “mobilizar-se” um mês antes das eleições europeias, com anúncios de investimentos massivos, não soa a oportunismo político?
“Efectivamente, poderíamos ter alguma legitimidade para pensar nisso porque estamos a menos de um mês desta eleição. Agora sabemos bem que o Presidente Macron sempre pôs em destaque a Europa. O grande projecto dele é que existissem os Estados Unidos da Europa em que ele fosse o Presidente. Os Estados Unidos da Europa sempre foi o sonho dele, podemos dizer, e um dia pode acontecer. Eu acho que ainda estamos longe disso porque temos alguma dificuldade de mobilizar as tropas para algumas coisas, tanto em termos económicos, como em termos da agricultura, como em termos de muita coisa.
Mas quando um cidadão francês ouve que os 180 gerentes das maiores empresas mundiais estão reunidos em França porque estão atraídos pela economia francesa, claro que alguns podem dizer que ele é uma pessoa que nos põe em destaque, que nos põe no seio da Europa. Se calhar, os outros países é que podem não concordar porque tudo o que é feito em França, não é feito nos outros países.”
Estamos a falar de uma reunião de grandes multinacionais no Palácio de Versalhes, com toda a criação de oportunidades de investimento para essas multinacionais. Também há o equivalente de criação de oportunidades para as pequenas empresas que já estão implantadas no território francês? Elas têm a mesma igualdade de oportunidades que as que se abrem aos investidores estrangeiros?
“Não podemos dizer que há igualdade, mas o que podemos dizer é que quando a Amazon ou a Microsoft ou a IBM ou a AstraZeneca investem em França, obviamente vão ter que empregar pessoal deles, mas também vão fazer trabalhar toda a parte local. Todas estas instalações não são em Paris ou na região parisiense, são na província, onde vão permitir empregar subcontratantes locais. Com certeza que isto será dito pelo ministro da Economia ou até pelo Presidente porque ele não quer que se pense que isto é tudo feito no interesse das grandes empresas, no interesse do capitalismo em geral, mas que isto vai ter um mecanismo de bola de neve para as pequenas e médias empresas francesas. Dentro destas empresas haverá, com certeza, também empresas portuguesas com toda a parte de construção, toda a parte de infra-estruturas. Ou seja, há muitas empresas que vão estar ligadas a estas grandes empresas e a estes grandes investimentos.
Os grandes investimentos vão realizar-se, na maioria, fora da região parisiense e nos territórios franceses, o que vai permitir também abranger e criar empregos para as pessoas localmente, onde há mais dificuldade em encontrar emprego.”
No ano passado, as promessas de investimento foram de 13 mil milhões de euros. Isso concretizou-se? E ao longo das seis edições, todas as promessas de investimento concretizaram-se?
“É muito complicado, efectivamente, de contabilizar porque quando se fala de 15 mil milhões, isto vai-se fazer durante um período alongado. A criação de uma fábrica, por exemplo, de um ‘data center’ ou de uma fábrica de informática quântica não vai ser de um dia para o outro. Ou seja, quando eles dizem 15 milhões é para o futuro.
É claro que aqui estamos também a falar um pouco de marketing. Tem que se anunciar no momento oportuno e o momento oportuno é quando estão reunidos, quando cada um dos grandes investidores vão falar dos projectos que eles têm em França, quando há toda a comunicação social. Podemos dizer que a contabilidade disto tudo não se materializa imediatamente nas contas públicas e, além disso, não teríamos o pormenor para podermos verificar isto. Mas estamos a falar de anúncios que são concretos porque as fábricas nascem, os empregos são criados.
Agora, era uma boa ideia que o governo francês fizesse um apanhado do que é que foi prometido nos anos anteriores, o que é que foi realizado, qual é o grau e percentagem de acabamento dos investimentos que foram anunciados nos anos anteriores. Isto era uma boa sugestão a fazer ao presidente Macron.”
Há 180 empresas estrangeiras convidadas. Entre elas há empresas lusófonas?
“Não temos noção ou, pelo menos, não estão destacadas. Aquelas grandes empresas destacadas são aquelas que fazem acima de 500 milhões de euros de investimento. Agora haverá, com certeza, empresas subcontratantes ou empresas que podem ter alguns projectos, mas que nunca vão ser deste tamanho.”
No Chade, esta quinta-feira, Mahamat Idriss Deby Itno foi declarado vencedor das eleições presidenciais, três anos depois de ter tomado o poder através de um golpe militar, na sequência da morte do seu pai. Os resultados oficiais provisórios dão-lhe 61,03% dos votos, seguido de Succès Masra que obteve 18,53% e que contestou os resultados. A RFI conversou com Leonel Claro, que mora no sul do Chade, e que considera que “é mais do mesmo” no cenário político do país.
RFI: Houve surpresa pelo facto de ter havido uma proclamação dos resultados tão rápida? Inicialmente falava-se no anúncio dos resultados até 21 de Maio…
Leonel Claro, habitante em Sahr: "Toda a gente esperava que fosse mais tarde porque a Agência Nacional tinha dito que iria proclamar muito mais tarde, lá por volta do dia 20 e 21 [de Maio] - até ao fim, praticamente, do prazo. Mas é verdade que havia muita expectativa e muita gente a desejar que não se prolongasse tanto tempo porque estava tudo numa expectativa de mudança. Foi uma certa surpresa quando eles anunciaram, logo três dias depois, que iam proclamar os resultados provisórios. E foi uma grande surpresa para muita gente o resultado também."
Como assim?
"Para quem está aqui é inconcebível, por exemplo, que numa província como a nossa, no Moyen-Chari, ou no Mandoul que é aqui ao lado, é inconcebível que Mahamat [Idriss Deby] tenha tido a maioria. Quer dizer, não se compreende. Com todos os problemas que houve, de injustiças, de roubos, de massacres nas populações locais, é inconcebível que o Presidente tenha tido a maioria dos votos. Portanto, ninguém compreende como isso é possível."
É uma região com mais oposição ao general Mahamat Idriss Deby Itno?
"Claro. São zonas mais do sul, há muitos problemas interétnicos. As populações do sul são sempre as injustiçadas e, portanto, há uma onda de não poder mais. A gente não sabe quem vota, mas supõe-se que a partir de uma realidade de que as pessoas vivem, a partir daquilo que foi o mar de gente que cada candidato conseguiu juntar e depois também do que foi publicado, nas redes sociais, dos resultados das mesas de voto, esperava-se que - não digo que Masra ganhasse - mas, pelo menos, que tivesse muito mais percentagem, muito mais votos do que teve."
Houve suficiente transparência eleitoral? A União Europeia lamentou o afastamento de cerca de 2900 observadores da sociedade civil. Como é que viu a questão dos observadores?
"Eu não acompanhei as mesas de voto, não estive a observar. E também não sou um comentador político, digamos assim, neutro. Estou num lugar e vejo o sentir das pessoas. Noto a realidade que se passou, o que é que não se passou. Por isso é que eu estou a dizer que é inconcebível - para mim e para muita gente - que uma pessoa que esteja sempre a ser espezinhada, maltratada e injustiçada vá votar naquilo que lhe faz mal.
O afastamento de muita gente, não sei qual foi o número, mas viu-se nas redes sociais o afastamento de muitos observadores -não sei se internacionais, mas pelo menos observadores nacionais foram postos de parte. Basta percorrer as redes sociais para encontrarmos vídeos com o encher as urnas com boletins de votos que estão já pré-preparados. Não quero dizer que o Presidente tenha perdido ou tenha ganho as eleições. Agora, esta diferença entre o Presidente da transição, o Mahamat Deby, parece exagerada a muita gente daqui. E há um outro dado também que é o facto de o terceiro candidato praticamente não ter feitocampanha e por onde passou não conseguia juntar ninguém. Vê-se que foi um candidato cooptado e, provavelmente - não estou a dizer que tenha acontecido - mas a gente desconfia que foi posto lá para dizer: 'Bom, Masra tu não és o único na oposição, há outros, etc, etc, etc'."
Antes da proclamação dos resultados, Succès Masra reivindicou a vitória. O que é que esta reivindicação antes do tempo significa? Poderemos ter um novo confronto em vista? Ele apela a manifestações pacíficas também…
"Esse é o medo, ou melhor, o receio que a gente tem. Agora há cinco dias para quem quiser contestar as eleições e, portanto, pedir uma nova contagem. Não sei se Masra vai apresentar isso, mas é verdade que há um certo receio naquilo que se vai seguir.
Manifestações pacíficas? Sim, teoricamente a gente pode organizar manifestações pacíficas, mas o poder não vai deixar. Se alguém se juntar, mesmo pacificamente, os militares e a polícia vão cair sobre eles com gás lacrimogéneo, como tem acontecido sempre."
Justamente, a 20 de Outubro de 2021, Succès Masra apelou a manifestações contra a transição e houve uma repressão que teria feito entre 75 a 300 mortos em N'Djamena... Por outro lado, o facto de ele pedir às pessoas para manifestar também não pode ser atirar achas para a fogueira?
"Há sempre quem acuse de um lado e do outro."
Mas as pessoas têm o direito de se manifestar.
"Claro. O problema é que depois uns vão dizer 'se ele não convoca, é um fraco, não está na oposição, está com o poder'. Mas se ele convoca e os militares e os polícias caírem sobre os manifestantes com balas reais e mortes, alguém vai acusar: 'Já se sabia que isso ia acontecer e convocou na mesma as pessoas para isso?' Portanto, é preso por ter cão e preso por não ter, de uma certa maneira."
No terreno, como estão as coisas? Há militares mobilizados? Qual é a resposta que se espera do campo de Mahamat Idriss Deby?
"Ontem, N'Djamena estava militarizada, estava coberta de militares por tudo que era canto. Antes de anunciarem os resultados, a capital tinha militares já por todo o lado para conter qualquer veleidade da população. Aqui, em Sarh, onde estou, durante o dia as coisas estavam calmas até à tardinha, mesmo que a Agência Nacional tenha pedido para que os militares, nos festejos, não abram fogo, etc, ouviu-se muito tiro de armas de fogo e algumas armas pesadas. Em N'Djamena, parece que algumas pessoas ficaram feridas porque havia balas perdidas, houve feridos e parece que houve mesmo mortes."
Os chadianos votaram numa eleição presidencial destinada a pôr fim a um regime militar. Foi o líder da Junta Militar que venceu o escrutínio. Qual é a leitura que tira destas eleições?
"No fundo, é mais do mesmo. Havia uma grande expectativa, agora com as redes sociais, que já nada se pode fazer às escondidas. Mas se houve realmente trafulhice na contagem, foi mesmo descaradamente porque com as redes sociais, vem muita coisa ao de cima. É preciso ter muita coragem e muito desrespeito pela população para fazer uma coisa dessas - se é que houve e isso é o que uma grande parte da população desconfia.
Agora, é mais do mesmo porque nós já vivemos esta situação há 34 anos. Aconteceu com o pai do Presidente: um militar que tomou o poder pelas armas e depois converteu-se, sendo sempre militar, e pôs em prática um sistema de controlo de tudo. E agora foi o filho que também tomou o poder pelas armas, disse que o ia entregar aos civis, não entregou, prolongou a transição, apresentou-se a eleições e, claro, o sistema está já está de tal maneira montado que vai demorar muitos anos antes que toda a gente possa dizer que foram eleições livres e que estamos numa democracia."
O Presidente guineense encontra-se desde esta quarta-feira em Moscovo onde, segundo fontes governamentais russas, ele efectua uma visita até ao dia 11 de Maio. Hoje, Umaro Sissoco Embalo, está presente nas cerimónias oficiais comemorando o dia 9 de Maio de 1945, dia da vitória das tropas soviéticas sobre a Alemanha Nazi, ao lado dos dirigentes de Cuba, do Laos, da Bielorrússia, do Cazaquistão ou ainda do Uzbequistão.
No âmbito desta visita que decorre num contexto em que Moscovo tem vindo a estreitar cada vez mais os laços com países africanos, nomeadamente São Tomé e Príncipe, o executivo russo avança que o Presidente da Guiné-Bissau e Vladimir Putin deveriam abordar questões internacionais e humanitárias, mas também assuntos económicos, como a exploração mineira e o sector dos hidrocarbonetos.
Em Março, os serviços de informação do executivo russo anunciaram que tinham sido apagados um pouco mais de 26 milhões de Dólares da dívida da Guiné-Bissau para com Moscovo e que Bissau se comprometia a aplicar este valor em projectos visando melhorar os sectores da saúde e da educação. Contudo, mais nenhuma informação a confirmar ou desmentir essa notícia chegou a filtrar.
A Rússia tem uma longa história de cooperação com a Guiné-Bissau que antecede a sua independência. A Rússia Soviética deu um apoio militar capital para a luta de libertação guineense. Mas hoje a época é outra, porque a Rússia mudou de rumo e também porque o Presidente da Guiné-Bissau pertence a outra geração, recorda o jurista e universitário guineense Fodé Mané.
RFI: O Presidente guineense efectua actualmente uma visita à Rússia. Segundo fontes do governo russo, esta visita tem por objectivo abordar questões alusivas à exploração mineira e aos hidrocarbonetos, mas não há muitas mais informações. O que se pode depreender disso?
Fodé Mané: Há poucas informações. As informações que a gente tem estado a ter são através de outras fontes, principalmente as fontes russas ou de algumas agências internacionais. Só que, apesar disso, nós podemos fazer algumas avaliações. A Rússia comunista esteve muito ligada à luta, libertação nacional e à própria Constituição do Estado. A ligação dos quadros russo e dos quadros guineenses e de alguns sectores é muito forte. Umaro Sissoco Embalo não só não faz parte da geração daquele grupo, mas tem estado ultimamente a ter uma relação um pouco hostil com aquele grupo de intelectuais. Inclusive, também não se revê em termos históricos nesse passado com a Rússia. Não se vê esta identificação. Umaro Sissoco Embalo esteve na Rússia há pouco. Foi à Rússia e à Ucrânia. Depois tem estado a ter posições que parecem directamente hostis à posição da Rússia. Por exemplo, a Rússia tem estado a colaborar com alguns Estados africanos da África Ocidental, como o caso de Mali, do Níger, do Burkina. A linha de Sissoco Embalo é uma linha totalmente contrária àquela cooperação. Não se percebe qual é a estratégia diplomática da Guiné-Bissau para, nesse momento, estar ligada à Rússia no momento em que o mundo está polarizado. Estão a sancionar a Rússia devido à guerra na Ucrânia. Então, estando com a Rússia indirectamente, é arriscar-se a apanhar as sanções, porque não se pode fazer transferências directas e não se pode alargar muito em termos de cooperação. Agora, qual é o interesse que leva você a ir para a Rússia, neste ambiente em que no país não estão a funcionar as instituições? Nós não temos parlamento, não temos um governo que saiu das eleições, não temos um tribunal a cumprir a sua missão fiscalizadora. Existe apenas uma instituição que é uma pessoa, Umaro Sissoco Embalo, que vai fazer tudo. Portanto, é uma visita que nos preocupa, porque a Rússia não tem aquela característica de respeitar as instituições do Estado de Direito democrático.
RFI: Há umas semanas atrás, fontes russas anunciaram que a Rússia tinha apagado uma parte substancial da dívida que a Guiné-Bissau tinha para com Moscovo. Houve mais alguma informação sobre este assunto?
Fodé Mané: Não temos informação porque apagar a dívida vai mexer com instrumentos como o Orçamento Geral do Estado. Isso vai mexer na programação que é feita. Se houver alguma acção, um perdão dessa dívida deve ser enquadrado. Não deve limitar-se em acordos pontuais. Onde é que deve enquadrar? Quem é que acompanha depois? Como é que isso se vai reflectir nas contas gerais do Estado? Não há esta informação, mas a Rússia não está a ver o país por dentro. E isso pode ter consequências, porque toda essa situação pode não servir os interesses da população. Por isso, estes anúncios informais nessas condições, não ajudam. Mas não é só sobre o serviço da dívida: há também o anúncio de que houve propriedades que pertenciam à Embaixada da Rússia que foram cedidas para o Governo da Guiné-Bissau e que neste momento são reivindicadas por algumas pessoas muito próximas ao actual regime. É uma coisa que está fora dos padrões. E isto também aliado à questão das dívidas, quem apaga a dívida, condiciona a forma como os pagamentos devem ser feitos. Não se conhecem os pormenores do problema da dívida.
RFI: A visita de Umaro Sissoco Embalo à Rússia acontece numa altura em que acaba de ser noticiada a assinatura recente de um acordo militar entre a Rússia e São Tomé e Príncipe. Julga que isto é apenas um acaso de agenda ou que, efectivamente, a Rússia poderia estar a fazer uma "operação de charme" junto de alguns países africanos?
Fodé Mané: Está a fazer. Mas mais do que isso: a situação em São Tomé e Príncipe é diferente, quando pensamos que temos um Presidente, temos um governo saído de um parlamento eleito democraticamente e está a funcionar e temos instituições judiciais a funcionarem. A ajuda russa, principalmente nas Forças Armadas, não é novidade e até os nossos quadros já têm alguma experiência de lidar com as tecnologias russas, com alguns serviços russos. Isso seria bom se fosse de uma forma transparente, porque o Estado precisa de ter meios de defesa. Agora, o problema que se coloca neste momento é que tipo de governação temos na Guiné-Bissau? Isso é preocupante, porque vem fortalecer um regime que se impõe contra os interesses da maioria e que tem estado a amordaçar todos os direitos fundamentais. E depois aqui só existe uma vontade.
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