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O actual líder do partido do maior partido de direita em França, Os Republicanos, Eric Ciotti, deu luz verde a um acordo com a extrema-direita, o que está a incendiar as opiniões dos militantes e de figuras relevantes deste partido, com Paulo Marques, autarca em Aulnay-sous-Bois, a dizer à RFI que se trata de uma decisão "unilateral" e "descabida".
Em França, após o anúncio da dissolução da Assembleia Nacional e convocação de eleições legislativas relâmpago por parte de Emmanuel Macron, a vida política está em alvoroço. Na terça-feira, o líder do partido de direita, Os Republicanos, Eric Ciotti, anunciou que o seu partido aceitava coligar-se com o partido de extrema-direita, União Nacional, de Marine Le Pen. Uma união que surpreendeu e enfureceu os próprios militantes d’Os Republicanos, cujos líderes até agora sempre recusaram alianças com a extrema-direita.
Para Paulo Marques, vereador da cidade de Aulnay-sous-Bois nos arredores de Paris e membro do partido Os Republicanos, esta foi uma decisão unilateral, descabida e que não representa nem o seu partido, nem os valores de antigos líderes como Jacques Chirac.
"É uma decisão do presidente do partido, Eric Ciotti, que decidiu unilateralmente e sem mandato claro dos órgãos dos republicanos, de uma aliança com a antiga Frente Nacional e com Bardella e com a Marine Le Pen. Obviamente, há um encontro político na sede d'Os republicanos hoje e é óbvio que o presidente dos republicanos vai ter que se explicar sobre essa união", indicou Paulo Marques.
Esta reunião vai acontecer na sede do partido hoje à tarde, em Paris, mas Eric Ciotti já fez saber que não estará presente e que considera que este encontro não tem qualquer validade. Entre as possibilidades que restam à cúpula de decisão do partido, está a destituição de Ciotti como presidente desta força política.
Para Paulo Marques, esta decisão de Ciotti foi pensada a nível "individual" para garantir a sua própria reeleição em Nice, mas não representa a vontade do partido já que figuras como o antigo líder Laurent Wauquiez ou a presidente da região de Paris, Valerie Pecresse, vieram inviabilizar qualquer união com Marine Le Pen.
"A solução é clara: manter a nossa opinião, a nossa linha gaullista. Mas também Jacques Chirac, nomeadamente ele, que foi o Presidente da República que abriu os braços à comunidade portuguesa para ela poder se envolver, para ela ser ouvida. E ele sempre disse: n"ão podemos ir e aceitar os extremos, não podemos e nunca o faremos". E é o que nós nos sentimos. Sentimos nos nossos territórios que também o nosso eleitorado não está a compreender esta situação. Os republicanos vão continuar com as suas ambições, nomeadamente em prol das nossas comunidades, porque nós somos um partido de governo, um partido muito, muito próximo das comunidades. Aliás, é o partido que mais autarquias tem das 36.000 autarquias em França", explicou.
Paulo Marques disse ter já recebido telefonemas de imigrantes portugueses em França preocupados com este alinhamento da direita e que na sua cidade, marcada pela multiculturalismo, a ameaça está nos extremos, com a população apenas a querer paz.
"O nosso distrito foi o único onde foi a extrema esquerda que ganhou as europeias com perto de 40%. Nós temos um problema que é o extremismo. E há um culpado. Emmanuel Macron. Porquê? Porque ele não quis nem esquerda nem direita. Então ele ele aniquilou a esquerda, está a aniquilar a direita. E agora temos como opção ou a extrema esquerda e a extrema direita. É isso e é fracturante e fractura uns contra os outros. E nós sentimos que nos nossos territórios o que nos solicitam é paz, que haja união, coesão e que se fale dos problemas dos franceses no seu quotidiano, no seu dia a dia", concluiu.
Inês Rocha assumiu recentemente o cargo de directora para toda a Europa da Corporação Financeira Internacional (IFC), uma instituição do Banco Mundial, e vai estar presente em Berlim para a conferência que visa recolher fundos para a reconstrução da Ucrânia. Um país "resiliente", mas que precisa desde já de investimento privado para ultrapassar as dificuldades impostas pela invasão da Rússia, como explicou em entrevista à RFI.
A Conferência para a Reconstrução da Ucrânia decorre entre estas terça e quarta-feira em Berlim. Esta é a sua terceira edição e junta governos, organizações internacionais e sector privado de forma a encontrar soluções para apoiar a economia ucraniana desde já, mas também recolher desde já compromissos para o fim esperado da guerra, quando Kiev puder começar a pensar na reconstrução do país.
Um estudo recente do Banco Mundial mostrou que a Ucrânia precisa aproximadamente de 486 mil milhões de dólares para se reerguer, um número que se eleva todos os dias com a continuidade da presença russa em território ucraniano. Para Inês Rocha, directora para a Europa da Corporaçao Financeira Internacional, estes fundos serão necessários para todos os sectores.
"Estas necessidades de 486 mil milhões são relativas à habitação, transportes, comércio, indústria, agricultura. E também restauro da parte de geração eléctrica, porque a Rússia tem atacado particularmente os sistemas e as infraestruturas energéticas da Ucrânia", detalhou.
Volodymyr Zelensky está a participar nesta conferência em Berlim.
Nesta terça-feira, o chanceler Olaf Scholz disse que é preciso continuar a reforçar as defesas aéreas da Ucrânia, com o próprio Presidente Volodymyr Zelensky a marcar presença em Berlim, mas é a nível dos investimentos que se joga também o futuro da Ucrânia, já que apesar da sua "resiliência", muitos investidores saíram do país e quase todas as empresas ucranians foram afectadas pela invasão.
"A Ucrânia tem demonstrado uma resiliência incrível, apesar de todos o impacto negativo da guerra. De acordo com os dados do Banco Mundial, 84% das empresas foram afectadas em relação a vendas, investimentos, investimentos estrangeiros e temos o investimento estrangeiro a metade do que se tinha nos anos nos anos anteriores. Mas ainda há empresas que estão a investir", explicou Inês Rocha.
O IFC, que integra o Banco Mundial, assim como outros bancos de desenvolvimento estão presentes na Ucrânia tentando captar investimento internacional para manter a frágil economia ucraniana a funcionar e incentivando a novas investimentos, já que a reconstrução do país não se fará só com ajuda internacional
"É claro que sector privado novo, hesita porque estamos numa zona de conflito, mas por isso é que é ainda mais importante o papel desta [conferência] multilateral. O Banco Mundial e outros bancos de desenvolvimento estão lá para estimular o sector privado, os investimentos e também ajudar os investidores privados que querem continuar a operar na Ucrânia através, por exemplo, de algum apoio financeiro a nível de risco", indicou Inês Rocha.
Para além das dificuldades ligadas à destruição da guerra, a Ucrânia tem também a cumprir um plano de reformas caso queira prosseguir com a integração na União Europeia, com Bruxelas a ter já dado 50 mil milhões de euros para este efeito, mas muito está ainda por fazer, com o Governo a pensar já na reconstrução que vá de encontro às metas europeias.
"Na habitação, por exemplo, há um apoio ao restauro e reparações que é muito importante, mas por exemplo, também se pode associar a medidas de eficiência energética. Portanto, olhando um bocado um bocado para o futuro. Há ainda necessidade de organizar a parte social, as instalações na área de educação, saúde, cultura, reformas na parte agrícola e aqui, infelizmente também um sector que é muito importante, que é tudo o que é minas anti-pessoas. Portanto, infelizmente, há uma grande parte do território na Ucrânia que também tem minas anti-pessoais e, portanto, tem que se fazer uma um processo de retirar estas estas minas que têm um custo, um custo elevado", explicou a directora para a Europa do IFC.
Esta conferência, que será procedida par um reunião do G7 na Suíça sobre a situação na Ucrânia, acontece poucos dias depois das eleições europeias numa altura em que os partidos de extrema-direita ganham terreno político e muitos têm posições menos claras sobre o apoio à Ucrânia. Para Inês Rocha, o apoio da União Europeia é ainda "inequívoco".
"Eu acho que a União Europeia, apesar de todas estas tensões políticas que existem, são inegáveis, tem e teve uma posição muito clara de apoio à Ucrânia e aliás, este pacote de 50 mil milhões é a prova que foi aprovado e que está agora a ser a ser posto em marcha é a prova disso. Neste sentido, há um apoio inequívoco à Ucrânia", concluiu.
Apesar da previsível subida da representação da direita radical e extrema houve uma viragem à direita no Parlamento Europeu. "O número de deputados continua a ser distribuído entre conservadores e socialistas", destaca o filósofo e investigador na Universidade de Lisboa, Diogo Sardinha, lembrando que "os partidos no poder em países como Portugal, Espanha, França ou Alemanha saem penalizados nestas eleições".
RFI: A União Nacional de Jordan Bardella venceu as eleições europeias desde domingo com pouco mais de 31% dos votos. Duas vezes mais do que a candidata macronista Valérie Hayer que atinge 14,6% e do líder o Partido Socialista Raphael Glucksmann com 13,8%. Uma derrota que levou Emmanuel Macron a convocar eleições legislativas antecipadas para o final deste mês. Qual é a análise que faz dos resultados das eleições europeias?
Diogo Sardinha: Creio que é necessário distinguir os resultados da eleição a nível europeu e os resultados a nível nacional. A nível europeu, não muda muita coisa na estrutura do Parlamento Europeu. Em princípio, há uma faixa da extrema-direita que se alarga, mas o número de deputados continua a ser distribuído entre conservadores e socialistas que, no fundo, vão partilhar os cargos de presidente da Comissão Europeia e presidente do Conselho Europeu. Nesse aspecto, não há grandes mudanças ao contrário do que talvez muita gente esperasse que houvesse uma maré da extrema-direita muito mais forte do que houve.
A nível nacional é preciso ver, pelo menos em alguns dos países, como é o caso de Portugal, de Espanha, de França ou da Alemanha, os partidos que estão no poder são penalizados, não ganham as eleições, não são os partidos mais votados. Os três partidos que compõem a coligação que governa a Alemanha neste momento perderam para os conservadores de, no fundo, Angela Merkel, esse conservadorismo de direita democrata cristão. Em Espanha, como em Portugal, não são os partidos que estão no governo que ganham: em Espanha são os conservadores que ganham, quando são os socialistas que estão no governo e em Portugal perde a AD para o Partido Socialista, mas por margens relativamente estreitas. E depois há realmente o caso de França, que é um caso particular.
O caso da França, um terramoto político. Dissolver o Parlamento e convocar eleições foi a forma de Emmanuel Macron reconhecer a derrota e dizer aos franceses que ouviu o descontentamento nas urnas. O Presidente procura uma segunda vida, mas esta decisão também pode levar a uma coabitação com a extrema-direita. É uma aposta inesperada, arriscada?
Sim, é arriscada. Só o tempo poderá dizer se a solução foi inteligente ou não. Parece-me, e provavelmente já foi dito por algum comentador, que a ideia é a seguinte: em França, os mandatos presidenciais e os mandatos legislativos coincidem em termos de datas. Emmanuel Macron tem duas soluções: a primeira é não fazer nada e não mudar o seu estilo do governo, de qualquer maneira, ele já não pode mudar o estilo do governo porque não tem maioria parlamentar, continua a passar algumas medidas que geram descontentamento com o recurso ao instrumento institucional, que permite não esperar uma maioria parlamentar. Portanto, nos próximos três anos, que é o tempo que ele tem ainda de mandato, a situação degrada-se, degrada-se, degrada-se, degrada-se e, quando houver eleições em 2027, claro que a Marine Le Pen é eleita presidente e claro que a Assembleia Nacional tem uma vaga da extrema-direita. Essa é a pior solução; ele deixa o país em todos os níveis do poder entregue à extrema-direita.
A outra solução é fazer uma espécie de coabitação, resta ainda saber se a União Nacional ganha as eleições legislativas ou não, se tem maioria parlamentar ou não. E, obviamente, em governos em situação de coabitação é muito difícil governar. Portanto, isso só pode servir - e penso que esta é a expectativa de Emmanuel Macron - para durante três anos desgastar a União Nacional para que, de alguma forma, quando se chegar a 2027, nem a Marine Le Pen seja eleita, nem a União Nacional obtenha novamente uma maioria parlamentar. Esta parece-me ser a lógica.
Houve uma taxa de abstenção importante 48,6% em França: um em cada dois franceses não votou este domingo. Este resultado, que dá a vitória à União Nacional e que lhe dá uma vitória histórica, o segundo melhor resultado de eleições europeias desde 1984, com a lista de Simone Veil, representa a França?
A França é um caso muito especial no seio da União Europeia neste momento. O presidente eleito é um fenómeno que sai não se sabe de onde. Quer dizer, nós sabemos mais ou menos de onde ele sai. Quando Emmanuel Macron anuncia em 2016 que vai ser candidato à Presidência da República, ele destrói completamente os partidos convencionais, destrói o Partido Socialista, destrói a direita clássica conservadora e aparece ali uma coisa que não é, como ele próprio diz, nem de esquerda nem direita, que no fundo vai buscar um pouco de gente a todo o lado. Emmanuel Macron não é um representante da política tradicional francesa. Isto é um caso especial, pelo menos no conjunto dos países da União Europeia.
Por outro lado, temos a União Nacional, que é o herdeiro com outro nome da Frente Nacional, um partido que tenta conquistar o poder há décadas. Não é um partido recente, não é como Chega em Portugal, nem é como Alternativa para Alemania na Alemanha. É um partido que tem adoptado estratégias diferentes para tentar chegar ao poder com algumas estratégias, nomeadamente, com um atenuar do seu discurso mais radical e tem realmente conseguido, de forma crescente, angariar simpatias e obter votos. Depois, o que isso representa para o Parlamento nacional teremos que ver.
Os partidos têm até ao final da semana para apresentar candidatos às eleições antecipadas de dia 30 deste mês. Esta vai ser a campanha francesa mais incerta da história recente e mais curta. Emmanuel Macron vai tentar federar forças, criar uma barragem republicana à extrema-direita. A França Insubmissa, através de Jean Luc Melanchthon, apelou a uma união "forte" e "clara" à esquerda. Os partidos de esquerda vão estar reunidos esta segunda-feira, acredita numa candidatura única à esquerda ?
Pelo que ainda pode haver de futuro na esquerda francesa, eu espero que haja uma candidatura única. Porque a ameaça mais provável é que a União Nacional e, portanto, a família Le Pen, no fundo, apesar de algumas divergências internas, chegue ao poder. Se a esquerda não se conseguir unir numa situação destas é dramático. É dramático para a política em geral e é dramático para a própria esquerda. Espero bem que consigam chegar a uma espécie de geringonça. O que nós vemos nos partidos de esquerda - e isto não é um caso especial da França - é uma divisão por disputas menores. O que vemos na direita são partidos mais sólidos e mais latos porque os seus membros aceitam trabalhar juntos, apesar de várias divergências.
A esquerda por uma mínima divergência; a Palestina, a União Europeia, ou não importa o quê cria um partido novo, acontece a mesma coisa na Alemanha, acontece a mesma coisa em Portugal. E a direita consegue, de uma forma ou de outra, trabalhar junta, apesar das suas divergências. É o caso da AD em Portugal ou da CDU/CSU na Alemanha. Espero realmente que que a esquerda, pelo bem da democracia e para que haja, digamos, uma espécie de debate sério e de convergência pelos interesses principais, consiga encontrar uma maneira de passar para lá das vaidades pessoais e dos interesses e opiniões e que consigam fazer uma uma candidatura de união.
Na Europa, apesar da previsível subida da representação da direita radical e extrema, o centro aumentou. Houve uma viragem à direita no Parlamento Europeu. Era previsível?
O que era previsível era que esse aumento da extrema-direita fosse maior. Isso era o que todos receavam, pelo menos era o que indicavam as sondagens em vários países. Daí a inteligência de Emmanuel Macron, que é um homem muito astuto. Se não fosse um homem astuto, não tinha chegado a Presidente da República com a idade que chegou, fintando, digamos assim, toda a política tradicional. Ele sabe perfeitamente que, nesta fase, por razões de conjuntura ou de estrutura, a extrema-direita tem tendência a ter mais peso. Portanto, ele sabe que daqui a três anos ele não poderá fazer mais nada e daqui a três anos ele deixa o poder, deixa de ser Presidente da República e termina a influência dele na política directa. A maneira que ele tem de conservar alguma influência na política directa é tentar prejudicar esse avanço da extrema-direita e dar uma espécie de entrada da extrema-direita no poder para, a seguir, tentar prejudicar a vida da extrema-direita com uma coabitação, esperando que daqui a três anos, ao sair da Presidência da República, não deixe a extrema-direita completamente no poder, na Presidência e no Parlamento. Penso que é essa a estratégia.
"Embodied Narratives" é a exposição colectiva que apresenta o trabalho de um conjunto de artistas contemporâneos africanos sobre o tema do corpo numa projecção associada ao território e ao tempo.
Alida Rodrigues; Benigno Mangovo, Cristiano Mangovo; Hennie Meyer; Kébé; Luís Damião; Nelo Teixeira; Osvaldo Ferreira; René Tavares; Saïdou Dicko; Sanjo Lawal, Teresa Kutala Firmino; Uólofe Griot e Vivien Kohler são os artistas que, em ruptura com a "fetichização e hiperestilização do corpo negro", apresentam, na galeria This Is Not a White Cube, um conjunto de trabalhos onde sobressai "a figuração e o retrato como veículos de expressão".
A RFI visitou o espaço da galeria This Is Not a White Cube na capital portuguesa. A co-directora artística, Graça Rodrigues, fez a visita guiada à exposição, ajuda-nos a entrar no universo dos artistas presentes na colectiva e começa por explicar como foi pensada a mostra "Embodied Narratives".
O número de eurodeputados de extrema-direita no Parlamento Europeu deve aumentar a partir de 10 de Junho, vindos da maior parte dos 27. Estes populismos foram alimentados durante décadas pelas políticas "declaratórias" de Bruxelas e a falta de um verdadeiro orçamento europeu, como sublinhou o professor universitário Viriato Soromenho Marques em entrevista à RFI.
Com um Parlamento Europeu em que o número de eurodeputados de extrema-direita deve aumentar um pouco por todos os 27 Estados-membros da União Europeia após as eleições de dia 09 de Junho, o crescimento do populismo e nacionalismo em Bruxelas tem as suas raízes em problemas de base do projecto europeu como a falta de um orçamento comum e políticas efectivas que cheguem aos mais de 500 milhões de habitantes deste bloco económico e político.
Em entrevista à RFI, o académico português Viriato Soromenho Marques considera que a extrema-direita pode vir a tornar-se na segunda força no Parlamento Europeu com o grupo Conservadores e Reformistas Europeus e o grupo Identidade e Democracia a poderem vir a unir-se.
"Estas eleições são uma plataforma que muitas vezes permite medir, preparar e incentivar o assalto eleitoral aos governos nacionais. E neste momento temos uma situação em que, do ponto de vista parlamentar, nós temos os partidos populistas e extremistas de direita, organizados fundamentalmente em dois grupos, mas é muito natural que, com o ganho de votos e o ganho de lugares no Parlamento Europeu, estas duas forças se inclinem para uma negociação no sentido da integração, para poderem eventualmente tornar-se na segunda força Parlamento Europeu, com as vantagens que isso tem em termos de gestão do Parlamento", declarou o professor universitário.
As causas deste crescimento um pouco por toda a União Europeia estão relacionadas segundo Viriato Soremenho Marques com a incapacidade da Europa promover políticas eficazes, tendo em conta a sua organização interna que não permite a existência de um orçamento comunitário.
"Acho que nós temos que fazer um exercício de autocrítica e ver o que é que está mal. Na minha perspectiva, fundamentalmente, é que a União Europeia funciona essencialmente num plano declaratório, num plano retórico com grandes objectivos, que depois não são acompanhados pelo financiamento nem pelos recursos financeiros, nem acompanhados pela coerência. Veja-se, por exemplo, a cumplicidade com o que está a acontecer em Gaza e qual o comportamento do governo irresponsável de Israel", indicou.
No entanto, mesmo num cenário político em que a União Europeia fosse dominada por forçar nacionalistas de extrema-direita, pensar que a Europa voltaria facilmente a um sistema de nações é "uma ilusão".
"Isso pode acontecer, mas isto não será um regresso pacífico. Eu penso que a grande ilusão dos partidos tradicionais europeus, socialistas, democratas, cristãos e liberais é a ilusão de que uma Europa unida e forte pode ser feita de forma low cost, uma espécie de União Europeia low cost, que é a que temos com 1% do PIB europeu, e que resolvemos o problema. A outra grande ilusão dos novos que estão a chegar, os populistas da extrema direita, é a de que podemos regressar a uma Europa das nações sem ser através de uma trágica fragmentação do que já se construiu na União Europeia. São duas ilusões", afirmou.
Apesar de o debate se ter concentrado sobre algumas questões comuns nos 27 como a Defesa, devido à guerra na Ucrânia, as migrações ou o custo de vida, um dos temas que preocupa os europeus e que ficou para trás foi o ambiente. Um esquecimento ligado ao limitado peso económico atribuído ao desenvolvimento sustentável.
"Nas alterações climáticas nós temos um grande foco nas questões de energia. Porquê? Porque as questões da energia e da mobilidade são interessantes também para os sectores económicos relacionados com a energia, as empresas da energia e as empresas do sector automóvel. Já outros aspectos fundamentais como a biodiversidade, como por exemplo, a boa gestão da água, a conservação dos solos agrícolas já são abandonadas na medida em que a agricultura intensiva, a agricultura de produção, aquela que utiliza muitos adubos, muitos pesticidas, é aquela que domina a agenda europeia", concluiu.
Os aliados celebram, neste 6 de Junho, os 80 anos do desembarque na Normandia, o "Dia D" decisivo para o início da vitória contra a Alemanha nazi. O aniversário acontece em vésperas de eleições europeias e numa altura em que a guerra assola novamente o continente, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022. Excluído das comemorações ficou o Presidente russo, enquanto o chefe de Estado ucraniano é um dos convidados de destaque.
O Presidente russo, Vladimir Putin, foi excluído do aniversário dos 80 anos do "Dia D", apesar do papel da Rússia na luta contra o nazismo. Já o chefe de Estado ucraniano,Volodymyr Zelensky, é uma das personalidades em destaque nestas comemorações, ao lado dos presidentes de França, Emmanuel Macron, dos Estados Unidos, Joe Biden, de Itália Sergio Mattarella, do Rei britânico Carlos III, do chanceler alemão, Olaf Scholz, do primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, entre muitos outros.
Que imagem ficará deste encontro nas vésperas de eleições europeias, em ano de eleições nos Estados Unidos e numa altura em que o conflito continua na Ucrânia? Fomos perguntar ao historiador Victor Pereira, para quem o dia representa “a união das forças aliadas e democráticas que se juntaram contra a ditadura”. Nesse caso, ficará a Ucrânia associada às actuais forças democráticas e a Rússia, outrora essencial na guerra contra o nazismo, definitivamente rotulada como autocrática? O que é certo é que “o espectro” de uma nova guerra mundial ensombra as comemorações.
RFI: Qual o peso do Dia D, do desembarque de 6 de Junho, para acabar com a ocupação alemã em França e rumar para o fim da II Guerra Mundial?
Victor Pereira, Historiador: "Foi um papel fundamental. Obviamente não foi o único. Houve o desembarque das tropas americanas na África do Norte, logo em Novembro de 1942, mas foi o início da presença aliada - americana, inglesa, canadiana, também de alguns franceses - para começar a entrar na Europa. Também houve o desembarque na Sicília [Julho de 1943] e no sul de França [15 de Agosto de 1944], mas foi o início de uma longa batalha, a batalha da Europa contra a Alemanha, que apenas acabou um ano depois. Foram precisos 11 meses ainda para que a Alemanha perdesse e houvesse rendição sem capitulação."
Na noite de 6 para 7 de Junho, durante bombardeamentos aliados, houve entre 50.000 a 70.000 vítimas civis, 10.000 só na Normandia. Fala-se suficientemente disto?
"Sim. Na Normandia, em todas as praias há cemitérios enormes. Em Caen, que é uma das capitais da antiga Basse-Normandie, há um museu ligado à Segunda Guerra Mundial. É um território mesmo muito ligado a essa memória da guerra. Aliás, o Arquivo em França sobre as vítimas de guerra é em Caen. Há um conhecimento desta zona e, além disso, é um dos pontos que todos os alunos de colégio e liceu conhecem, na disciplina de História. No território francês, como noutros países, há uma memória de pedra da guerra, no sentido em que há monumentos aos mortos em qualquer aldeia com os mortos da Primeira Guerra Mundial, da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Argélia. Acho que isso está bastante presente nas memórias, obviamente talvez não dos mais jovens que não vão saber isso ao pormenor, mas neste território, em qualquer sítio, há um monumento ligado a esses mortos - tantos militares, quanto civis."
O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, participa nas comemorações do Dia D, em que estão também o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o presidente italiano, Sergio Mattarella, e o rei britânico Carlos III, por exemplo. Qual é a simbologia destas personalidades juntas?
"O dia 6 de Junho é para estes países ocidentais uma data muito importante porque é o início da vitória contra a Alemanha nazi, contra a ditadura nazi, contra uma ditadura que matou, massacrou e cometeu um genocídio. Então, é a união das forças aliadas e democráticas que se juntaram contra a ditadura e o sacrifício de milhares de homens dos Estados Unidos, ingleses, do Canadá, franceses e do Império Inglês. Este ano, uma das grandes mudanças é que tradicionalmente havia um representante da Rússia. Agora, obviamente não é o caso e o facto de ser a Ucrânia convidada coloca a Ucrânia nos países democráticos que defendem a democracia, enquanto a Rússia do Putin é uma autocracia. Então, a simbólica é muito forte porque obviamente houve muitos ucranianos que, nessa época, estavam na União Soviética e que combateram na Frente de Leste."
A Rússia não foi convidada para as cerimónias dos 80 anos do desembarque. Antiga aliada contra a Alemanha nazi, a Rússia é hoje o país pária das comemorações?
"Sim, é o país pária. Nas outras comemorações, houve a vontade de incluir Vladimir Putin e a Rússia nas comemorações porque houve milhões e milhões de russos que morreram durante a Segunda Guerra Mundial a combater depois do ataque alemão em 1941 e depois do contra-ataque russo a partir de 1942, 1943. Havia uma vontade de incluir e de manter essa relação entre a Europa Ocidental e a Rússia, mas a última invasão [russa] da Ucrânia acabou por colocar de lado completamente."
O evento é uma demonstração de força contra a Rússia, com a presença do Presidente ucraniano?
"Não diria que é uma demonstração de força porque, de todos os modos, os países ocidentais iam comemorar uma data tão importante nos vários países. Neste caso, a mudança é ter incluído a Ucrânia para não descartar o esforço e o sacrifício de milhões de soldados da antiga União Soviética."
Mas não vai simbolicamente mais além? Não é mostrar que os aliados ocidentais estão em peso contra uma Rússia cada vez mais isolada?
"Não sei se é propriamente contra a Rússia. De todas as formas, era impossível, neste momento, com a guerra da Ucrânia, Vladimir Putin ir a um país ocidental. Mostra, sobretudo, a união entre os países ocidentais e, nesta data, eles não podiam não comemorar por causa da não vinda do Putin. Era obrigatório comemorar, sobretudo porque vai ser provavelmente uma das últimas vezes em que há comemorações com antigos soldados - devem ser muito poucos. Provavelmente nos 90 anos [do Dia D], já não haverá nenhum soldado que desembarcou nas praias da Normandia."
Oitenta anos depois desse desembarque, a guerra está de volta à Europa. Paira, de novo, o espectro de uma guerra mundial?
"Sim, com o que se passa na Ucrânia, também com o que se passa em Gaza, mas sobretudo na Ucrânia, há de novo esse espectro. Um dos últimos pontos que foi referido por Macron e Biden é o uso de armas ocidentais dentro do próprio território russo e isso não foi feito até agora porque houve sempre o medo de uma retaliação russa e de um alargamento da guerra. Obviamente que esse aspecto de uma eventual nova guerra mundial está sempre presente, também com o medo que se a Rússia ganhar à Ucrânia, ela continue a tentar invadir os países bálticos. Essa ameaça de uma guerra com a Rússia está sempre presente. Agora estamos um bocadinho a esquecer, mas essa possibilidade está sempre presente também com a China, com Taiwan e as tensões que agora falamos menos na Europa, mas as tensões continuam a existir na Ásia."
Estamos também nas vésperas das eleições europeias. A mensagem da luta pela liberdade é suficientemente forte perante a subida dos extremismos na Europa? Esta comemoração também passa essa mensagem?
"Obviamente que para pessoas como Emmanuel Macron, comemorar o 6 de Junho, o início da derrota do nazismo e do fascismo, tem um papel importante nas vésperas das eleições. No entanto, o que se vê há vários anos é que a extrema-direita continua a subir e que muitas pessoas, nomeadamente os mais jovens e grande parte do eleitorado, não ligam assim tanto ao que foi a extrema-direita nos anos 30 e o que foi o nazismo e o fascismo. Apesar de eu ser historiador, acho que parte das pessoas não pensa nos quadros históricos."
De onde vem a responsabilidade? O que é que se passa? Não há transmissão da memória?
"Eu não sei se há uma falta de memória. Por exemplo, nos Estados Unidos, há o papel dos veteranos na Segunda Guerra Mundial e o facto de milhares de americanos visitarem a Normandia para verem os cemitérios onde foram sepultados soldados. Em França, muitos feriados estão ligados à guerra e às vitórias: 11 de Novembro, 8 de Maio... Não sei se há propriamente falta de comemorações e falta de memória. Mas para muitas pessoas, isto já não é assim tão actual nas vidas delas, já não as toca e já não fazem a relação entre o que foram as ditaduras e as guerras e o que é hoje a União Europeia.
No caso francês, por exemplo, o Rassemblement National apresenta-se como patriota, como país de resistentes, quando parte da extrema-direita francesa vem de Vichy e da colaboração. O Rassemblement National fala muito do Charles de Gaulle e do Gaullismo quando inicialmente a extrema-direita francesa tentou matar o De Gaulle várias vezes. Muitas pessoas conhecem a História mais ou menos, mas já não a ligam à actualidade porque há outros elementos como as condições económicas e sociais, o sentimento de desclassificação, os medos que vão passando por alguns media em França ou nos Estados Unidos, com a Fox News… Então, acho que há uma disrupção entre a História e a memória e vê-se nos Estados Unidos com Trump que tem valores da extrema-direita, quando muitos americanos têm uma memória familiar da Segunda Guerra Mundial e da luta contra o nazismo."
O facto de Emmanuel Macron fazer as comemorações três dias antes das eleições europeias e ao longo desses três dias, não pode ser visto como oportunismo político?
"Ele não tem culpa que o 6 de Junho seja três dias antes das eleições. Isto é, ele não podia deixar de comemorar."
Mas calha bem…
"Bom, eu não sei se as pessoas vão ligar. Por exemplo, as pessoas que iam votar na extrema-direita, seja no Rassemblement National ou no Reconquête ou outros partidos da extrema-direita, não sei se vão pensar: 'Ah, afinal não vou votar no partido da extrema-direita porque há 80 anos milhares de pessoas morreram nas praias da Normandia para combater o fascismo'. Isso não acredito muito. Acho que o problema até do próprio Emmanuel Macron e de parte da classe política é que o discurso que eles têm sobre história já não toca as pessoas. Então, cai bem, mas acho que não vai fazer muita diferença nos resultados eleitorais. As pessoas que iam votar na extrema-direita, votam na extrema-direita. O que talvez pode mudar um pouco é nas pessoas indecisas ou nas pessoas que não pensavam ir votar, talvez… Mas mesmo assim, eu tenho algumas dúvidas."
O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também vai visitar um cemitério de soldados que morreram na Primeira Guerra Mundial. Em 2018, durante a sua visita, Donald Trump não o fez, alegando que não havia condições meteorológicas. Simbolicamente, num ano em que também há eleições nos Estados Unidos, esta visita de Joe Biden, do lado dos Aliados, tem peso?
"Sim porque os Estados Unidos combateram duas vezes na Europa, nas duas grandes guerras, e vai além de um certo isolacionismo. Donald Trump era mais essa tradição americana de não se envolver nos outros conflitos e houve muitos conflitos dentro da NATO, com a ideia que os americanos pagavam pela defesa da Europa e aquela ideia da “America First”.
O Joe Biden com esta dupla comemoração, da segunda e da primeira guerras mundiais, vai, em primeiro lugar, comemorar os mortos, os soldados - sabemos que Trump não fez a tropa e pôs em relevo esse discurso de ser patriota, mas ter conseguido não ir combater. Em segundo, vai comemorar esse lado dos Estados Unidos como democracia que interveio duas vezes na Europa para defender democracias contra regimes autoritários. Então, nesse quadro das eleições em breve, é uma dupla mensagem."
As eleições europeias em França estão a servir como tubo de ensaio para as presidenciais de 2027, altura em que Emmanuel Macron não se poderá voltar a candidatar e em que a extrema-direita pode subir ao poder. Esta "nacionalização" das eleições está a levar a um desinteresse da população, sobretudo dos mais jovens, como explicou Adeline Afonso em entrevista à RFI.
A 9 de Junho, os 27 Estados da União Europeia vão a votos. Em França, um dos maiores países do bloco europeu e também o país mais jovem entre os 27, a extrema-direita de Marine Le Pen, liderada agora por Jordan Bardella, deverá sair vencedora, segundo as sondagens. Já o partido de Emmanuel Macron deverá eleger metade dos eurodeputados da extrema-direita.
A participação e o potencial interesse dos jovens nestas eleições é uma das maiores interrogações, mas Adeline Afonso, investigadora de Estudos Europeus na Sorbonne, considera que em França a campanha tem sido instrumentalizada para a política interna.
"Na faixa etária mais jovem já não se acredita assim tanto na actual classe política e também no próprio sistema democrático. Então isso leva os jovens a não terem aquele interesse de ir votar para tentar mudar as coisas. E isso também vai talvez explicar a taxa de abstenção, sobretudo nas faixas etárias mais jovens. Mas o interesse pela pelo tema da Europa existe. Eu acho que nesta campanha actual em França há ali uma espécie de instrumentalização destas eleições para fins de política interna", declarou.
Defesa, migrações e poder de compra são os temas que marcam esta eleição em França, mas acabam por ser discutidas nos vários debates já organizados nas rádios e televisões nacionais mais ao nível gaulês do que nas perspectiva europeia.
"Sobre a questão do poder de compra, a verdade é que se pode fazer legislação a nível europeu que vai ter impacto no poder de compra dos franceses e em geral, dos europeus. Agora, aquilo que eu acho que é preocupante é que durante as eleições europeias se aproveite também para, de alguma forma, nacionaliza-las. Ou seja, durante o debate entre o actual primeiro ministro, Gabriel Attal, e o actual cabeça de lista do Rassemblement National que é o Jordan Bardella eles acabaram por atacar-se um ao outro sobre questões de política interna, em vez de abordar as questões mais europeias", disse a investigadora.
Largamente na frente das sondagens, estima-se que o partido de extrema-direita Rassemblement National tenha cerca de 32% dos votos, enquanto que o partido de Emmanuel Macron, que tem como cabeça de lista Valerie Hayer, se fique pelos 14%. A seguir será a lista de esquerda de Raphael Glucksman, seguida depois pela extrema-esquerda com 9%, os Republicanos de centro-direita com 7,5% e os escologistas com cerca de 5%.
"Se formos ver, em comparação com os resultados de 2019, o emblema nacional em França já tinha ficado em primeiro lugar. Eu acho que eles vão ter muito mais deputados do que em 2019. Tendo em conta as actuais sondagens em comparação com o partido do Presidente. E sim, se formos a ver no contexto mais global europeu, creio que também em outros países, não só em França, a extrema direita tem tendência, de alguma forma, a atrair bastante o voto nas eleições europeias", explicou Adeline Afonso.
A França, que elege 81 deputados, pode assim mandar quase 30 eurodeputados de extrema-direita pa Bruxelas, um recorde para o partido de Marine Le Pen. Isto pode fortalecer a imagem do novo líder da extrema-direita, Jordan Bardella, mas também enfraquecer externamente a imagem da França já que estes eurodeputados vão contribuir para um possível bloqueio do Parlamento e das restantes instituições europeias.
"A nível de consequências, a primeira consequência eu acho que se o resultado for assim muito bom para o Rassemblement National isso vai ter um grande impacto positivo na figura do Jordan Bardella que poderá de facto ser escolhido como potencial candidato a presidente em 2027. O facto de a França ter uma grande delegação de extrema direita, sabendo que este grupo no Parlamento, tem tendência em bloquear mais do que tentar fazer avançar os diversos assuntos, isso claramente vai ter também uma incidência na projeção da França dentro do contexto da União Europeia", concluiu Adeline Afonso.
A primeira cimeira Coreia/África decorre esta terça e quarta-feira, em Seul, na Coreia do Sul, com delegações de 48 países africanos. O Presidente sul-coreano prometeu milhões de dólares em ajuda ao desenvolvimento e em incentivos ao investimento. A cimeira é também um “acto de soft power”, descreve Álvaro Nóbrega, professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa.
“O Futuro que Construímos: Crescimento Partilhado, Sustentabilidade e Solidariedade” é o lema do encontro em cuja abertura o Presidente sul-coreano comprometeu-se em duplicar a ajuda pública ao desenvolvimento em África para chegar aos 10 mil milhões de dólares em 2030 e também prometeu 14 mil milhões de dólares de financiamento em exportações para ajudar as empresas sul-coreanas a expandir o comércio e os seus investimentos no continente africano.
À semelhança de outras cimeiras, o encontro Coreia-África “é um acto de soft power” em que o país anfitrião procura alargar a sua influência num continente hoje reconhecido pelas potencialidades de investimento e pela abundância de riquezas minerais, explica Álvaro Nóbrega, professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa. Se até agora a presença sul-coreana em África era discreta, com destaque para a África do Sul, a cimeira “marca uma afirmação da Coreia do Sul e da sua política africana”.
A Coreia do Sul visa, nomeadamente, recursos minerais como o cobalto, a platina ou o lítio que são essenciais para sectores tecnológicos de ponta, desde o fabrico de veículos eléctricos, à indústria da Defesa. Tanto é que o Presidente sul-coreano admitiu, em entrevista à AFP, que a Coreia do Sul “é uma potência industrial de alta tecnologia, mas depende fortemente das importações no que toca a 95% das suas necessidades em minerais”. Nesse sentido, Álvaro Nóbrega aponta que o primeiro objectivo da cimeira de Seul é “garantir o aprovisionamento de matérias minerais que são essenciais para a economia sul-coreana e para a transição para a chamada economia verde”.
O que é bom para a economia, é bom para o ambiente e a sustentabilidade local? “Os investimentos são importantes. Claro que quando associamos as áreas extractivas aos investimentos, vemos sempre que eles poderão ser predatórios, mas se esses apoios forem bem acolhidos e bem aplicados, naturalmente que se revertem progressivamente para as populações. Se, pelo contrário, forem desaproveitados, não chegarão às populações e, portanto, a questão da distribuição é fundamental”.
Álvaro Nóbrega elenca um segundo objectivo da cimeira Coreia/África que “é retirar apoios ao vizinho do lado, à Coreia do Norte, que contou tradicionalmente com uma boa ligação com alguns países africanos, especialmente durante o período da Guerra Fria e no tempo que se seguiu e que tem vindo de alguma maneira perder essa ligação”.
O encontro junta chefes de Estado e de governo de 48 países africanos, nomeadamente os Presidentes de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Angola é representada pelo secretário de Estado das Relações Exteriores.
O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, participa no fórum de negócios Coreia-África e, à margem da cimeira, tem um encontro bilateral com o seu homólogo Yoon Suk Yeol, assim como com executivos de empresas sul-coreanas. Moçambique tem já um investimento sul-coreano da empresa Kogas, que detém 10% no consórcio de pesquisa de gás natural da Área 4 do Rovuma. A Samsung Heavy Industry anunciou, esta segunda-feira, que prevê arrancar com a construção da segunda plataforma flutuante para a extracção de gás natural liquefeito no terceiro trimestre deste ano, depois de já ter instalado uma primeira infra-estrutura. Mas até que ponto a segurança em Cabo Delgado permite estes investimentos, quando a francesa TotalEnergies suspendeu as operações de construção da unidade de processamento de GNL em Cabo Delgado e ainda não retomou os trabalhos?
Para Álvaro Nóbrega, os investimentos sul-coreanos mostram que “há uma vontade, uma aposta nesse sector” e que “a questão da segurança vem sendo trabalhada”, nomeadamente graças à presença doRuanda que indica uma "tentativa de criar alguma estabilidade nessa zona”. “É uma forma de energia muito relevante que interessa a um conjunto de países e é de esperar que o processo continue”, acrescenta. Da mesma forma, a indústria petrolífera de Angola também atrai a Coreia do Sul que oferece tecnologia no âmbito da construção naval e da construção das próprias plataformas.
Ainda na cimeira, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, integra um painel sobre “Expansão do Comércio e Criação de Emprego” e tem marcado um encontro com o chefe de Estado sul-coreano. Na véspera do evento, Cabo Verde e a Coreia do Sul assinaram um memorando de entendimento para promover acções de cooperação nas áreas da economia, comércio, cultura, ciência e educação.
Para terminar, outro aspecto realçado por Álvaro Nóbrega é a questão de Seul mostrar que não se quer imiscuir nos assuntos internos dos outros países: “As áreas que são classificadas como prioritárias da cooperação com África são sete e nestas a questão da política interna nunca é referida. É um aspecto interessante destas relações porque não tem o chamado condicionalismo político, ou seja, não é sensível à questão do sistema político. Se é democrático ou se não é democrático não entra nessa equação.”
O México elegeu, pela primeira vez, uma mulher para dirigir o país. Este é um “momento histórico” num país marcado pela violência baseada no género, onde, por exemplo, no ano passado, 10 mulheres foram assassinadas diariamente. Claudia Sheinbaum, cientista climática que fez parte do painel que venceu um Nobel em 2007, tem também como desafios o combate contra a violência do crime organizado, a luta contra a pobreza e o desenvolvimento económico e sustentável do país.
Claudia Sheinbaum foi eleita a primeira mulher Presidente do México, onde, de acordo com a ONU, 10 mulheres foram assassinadas diariamente em 2023. Há um ano, a ex-governadora da Cidade do México dizia que “México já não se escreve com M de machismo (…), escreve-se com M de mãe e de mulher” e agora promete ajudar as mulheres a “viverem sem medo”. Além do combate contra a violência baseada no género, outro dos seus desafios é lutar contra a violência do crime organizado que, desde 2006, fez 450.000 mortos e 100.000 desaparecidos.
Claudia Sheinbaum herda o projecto do seu mentor e líder cessante, Andrés Manuel López Obrador, que se empenhou na luta contra as desigualdades sociais, num país onde um terço da população ainda vive na pobreza. López Obrador distribuiu milhões em ajuda directa a idosos, jovens e pessoas com deficiência, e tirou 8,9 milhões de pessoas da pobreza.
Cientista e investigadora nas áreas da energia, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, Claudia Sheinbaum fez parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2007.
O que representa a sua vitória e que perspectivas se abrem para o México? Fomos perguntar a Pedro Abrantes, professor de sociologia na Universidade Aberta de Lisboa, que viveu vários anos no México, onde fez investigação e deu aulas.
"É uma eleição histórica"
RFI: O que representa esta vitória esmagadora de Claudia Sheinbaum nas eleições presidenciais do México?
Pedro Abrantes, Professor de Sociologia: “É uma eleição histórica, primeiro pela eleição de uma mulher. No México, de facto, os presidentes têm historicamente um poder bastante grande porque são, de certa forma, presidentes e primeiro-ministros ao mesmo tempo e nunca tinha ocorrido ser uma mulher. Além disso, é uma académica, portanto, dedicada à investigação científica na maior universidade pública do país e uma das maiores do mundo. Efectivamente, corresponde a um novo perfil que nunca esteve na Presidência do México e que também representa a mudança que tem atravessado a sociedade mexicana.”
Há um ano, ela dizia que “o México já não se escreve com M de machismo (…), escreve-se com M de mãe e de mulher”. No entanto, o México é um dos países com recordes de feminicídios. Dez mulheres são assassinadas diariamente, segundo a ONU. Esta eleição pode mudar alguma coisa?
“Sim, Eu penso que, do ponto de vista da afirmação das mulheres é realmente um momento histórico. Por outro lado, o grande problema que tem hoje o México tem a ver com a violência - e aí realmente as mulheres estão mais expostas - mas não afecta só as mulheres. O México tem um problema gravíssimo relativamente ao crime organizado que, em muitos casos, não se vê como é que vai ser possível desmontar e combater nos próximos anos de uma forma eficaz. Embora seja verdade que a Presidente tem uma estratégia relativamente ao combate à pobreza, estamos a falar de grupos que já alcançaram um nível de organização tão grande que realmente será muito difícil de desmantelar.”
Falou na questão da violência. A guerra contra os cartéis, lançada já pela direita em 2006, continua a fazer mais de 30.000 mortos por ano. Como é que se pode lutar contra esta violência tão enraizada do crime organizado no México?
“Este novo movimento, do qual a Claudia Sheinbaum faz parte, já no último sexénio esteve na Presidência e procurou desenvolver uma estratégia que tem mais a ver com a criação de oportunidades para que, sobretudo nos sectores mais pobres da população, seja possível ter outras possibilidades de enriquecer e, desta forma, não estar tão vulnerável aos cartéis.
No entanto, a verdade é que, até ao momento, o crime organizado não tem diminuído nos últimos anos e tem mostrado uma grande diversificação em termos de actividades, em termos de regiões em que actua e isso é um problema bastante complicado. Quer dizer, actualmente, mesmo mobilizando as forças militares, há várias regiões do México que estão muito condicionadas pela acção do narcotráfico.”
Claudia Sheinbaum afirma-se como feminista, mas relativamente ao aborto, ela não falou sobre a eventual legalização, escudando-se que este já foi despenalizado pelo Tribunal Supremo. Não seria preciso legalizar o aborto para melhorar o acesso e diminuir as desigualdades entre as mulheres?
“Sim, sem dúvida. A estrutura política do México é complexa. Por um lado, a Igreja Católica continua a ter muita força e, nesse sentido, é uma sociedade ainda bastante tradicional. Para além disso, tal como, por exemplo, nos Estados Unidos, há uma série de áreas em que o poder dos estados acaba por se sobrepor ao poder da federação. Ela até era já presidente do Distrito Federal da Cidade do México, onde esse direito já está consagrado, e teve alguma dificuldade em poder defendê-lo claramente relativamente a estados, sobretudo no norte do México, que são mais tradicionais e que ainda não o legalizaram. Estará na mão do Estado fazer essa reforma, a não ser que haja uma alteração constitucional, o que não é impossível, mas também não é uma situação fácil. Eu penso que daí vem um pouco a sua prudência relativamente a essa medida porque a situação é bastante diferente de uns estados para outros.”
Falou na questão da mudança da Constituição. Estas eleições são uma vitória para a esquerda em vários níveis porque também conquistou a maioria necessária no Congresso e tudo indica que conseguirá o mesmo no Senado. Esta vitória não se limita às presidenciais…
“Sim, é verdade, foi uma vitória em várias frentes. Por um lado, embora os resultados ainda não sejam definitivos e ainda possa haver algumas dúvidas, pelo menos na Câmara dos Representantes terá alcançado uma maioria qualificada, o que lhes permite aprovar um conjunto de leis sem precisarem de acordos com outros movimentos políticos e, nesse sentido, poderão alavancar mais do que no sexénio anterior um conjunto de medidas que já vinham defendendo e que consideravam que os outros partidos estavam a limitar ou a atrasar.
No Senado, ainda não se sabe - pelo menos eu não tenho indicação do número de deputados exacto, mas estará ali próximo da maioria absoluta - mas não se sabe ainda se terá alcançado no Senado e isso poderá fazer muita diferença, por exemplo, em termos de mudanças constitucionais.
Para além disso, há as eleições também num conjunto de estados, sendo que realmente no México os estados têm também poderes bastante alargados. Se realmente este movimento MORENA [partido do governo] conseguir vencer em vários estados, isso também acaba por dar um impulso muito maior a certas reformas que podem ser articuladas entre os Estados e o governo federal. Nesse sentido, de facto, ainda se está a aguardar os resultados finais, mas a indicação que existe é que já existe um reforço relativamente ao mandato anterior e isso será muito importante para este governo conseguir realmente desenvolver as políticas que tem defendido.”
Quais serão os principais desafios da nova Presidente, que se comprometeu em continuar com o legado do Presidente cessante, Andrés Manuel López Obrador? Que marca poderá ela deixar?
“Primeiro que tudo, ela situa-se numa posição de continuidade relativamente a uma mudança que o anterior Presidente já impulsionou também desde o mandato anterior e que tem, sobretudo, a ver com o combate às desigualdades que são muito profundas no México e à possibilidade de alguns grupos, desde os grupos com rendimentos mais baixos, desempregados, camponeses, reformados conseguirem aceder a níveis de vida e de bem-estar superiores. E isso faz muita diferença em termos sociais porque o México continua a ter uma estrutura muito polarizada com uma grande parte da população muito pobre.
Por outro lado, eu penso que esta candidata, até pelo perfil que tem de ser uma académica, ainda para mais ligada às questões do meio ambiente, poderá fazer uma diferença também ao nível do desenvolvimento económico e sustentável do México. O México tem, hoje em dia, uma população muito mais qualificada do que no passado, mas ainda acaba por ter uma estrutura económica algo tradicional e, portanto, terá também que dar um salto.
Eu penso que esse será o grande desafio que ela tem pela frente: conseguir realmente que a economia mexicana também possa ser uma economia que não funcione na dependência, sobretudo, dos Estados Unidos, mas que possa, ela própria, impulsionar uma actividade que seja mais inovadora, com maiores níveis de sofisticação, criadora também de mais rendimentos e, além disso, que seja mais sustentável porque o México tem problemas complexos que agora se estão a sentir muito, como a falta de água, por exemplo, ou com o desregrado dos plásticos, e isso terá que ser combatido com muito conhecimento. Uma académica nesta área acaba por ser uma esperança que possa trazer algum conhecimento e algumas soluções mais sofisticadas para problemas que são bastante complexos.”
Falou da dependência económica dos Estados Unidos. Ora, 80% das exportações são feitas para os Estados Unidos e há uma grande emigração para os Estados Unidos. Que relações é que se podem esperar, em termos diplomáticos e económicos, num ano em que vamos ter eleições nos Estados Unidos e que o candidato Donald Trump falou em deportação em massa de migrantes?
“Eu penso que o México tem beneficiado - e creio que continuará a beneficiar - de um cenário a nível mundial em que os Estados Unidos acabam por ter um conjunto de restrições e de tensões com a China e com a Rússia e isso faz com que, em grande medida, uma parte do investimento que era canalizado para essas regiões tenha sido mais canalizado para a América e para o continente americano, em particular, para o México. Nesse sentido, a situação é melhor para o México do que era há 10 ou 20 anos.
Esta dependência que existe faz com que alterações que existam nos Estados Unidos se sintam sempre no México e se houver um resultado como a eleição de Donald Trump ou uma situação de alguma instabilidade, isso vai-se repercutir no México, até porque, como nós sabemos, há uma parte grande que foi muito apoiada pelo Donald Trump que busca no México e nos mexicanos o bode expiatório para um conjunto de problemas que existem na economia e na sociedade americana. Nesse sentido, claro que vai haver alguma tensão e não será fácil de gerir, mas neste momento os Estados Unidos precisam muito do México, assim como o México também precisa dos Estados Unidos. Eu penso que essa relação próxima se vai manter nos próximos anos, independentemente de haver alguns atritos em termos diplomáticos.”
O Festival de Cinema IndieLisboa chega ao fim este domingo. Com 250 filmes distribuídos por várias secções, a 21.ª edição do festival regista um recorde de 26 películas portuguesas em competição.
A par das diferentes secções competitivas e não competitivas, o IndieLisboa apresentou duas grandes retrospectivas: Uma dedicada ao artista visual e realizador palestiniano Kamal Aljafari e outra dedicada ao MFA.
No ano em que se celebram 50 anos do 25 de Abril, a retrospectiva é uma homenagem às Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do Movimento das Forças Armadas (MFA).
Uma das novidades da edição deste ano é a secção Rizoma.
Aqui é apresentado "um conjunto de obras que destacam questões relevantes da actualidade, cineastas de renome e antestreias."
Um programa "em torno do cinema como entretenimento, reflexão e debate," onde, por exemplo, as co-produções entre Portugal, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Brasil e França ganham espaço.
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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.