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  • Os Republicanos: "Não damos hipótese de monopolizarem discursos extremistas"

    Termina esta sexta-feira, 5 de Julho, a campanha para a segunda volta das eleições legislativas francesas. À segunda volta concorrem 1094 candidatos em 501 círculos eleitorais. O partido d'Os Republicanos foi o único a não dar indicação de voto aos seus eleitores. "Não queremos dar hipótese aos extremos que tentam monopolizar o discurso extremista", justifica o vice-presidente da câmara municipal de Aulnay-sous-Bois, na região parisiense, Paulo Marques.

    RFI: O que espera do escrutínio de domingo?

    Paulo Marques: Esta segunda volta, no que diz respeito aos Republicanos, obviamente, vão ser poucos os candidatos em França. Vai haver escassos candidatos, esperando que haja perto de uns 80 que possam ser eleitos dos 577 deputados à Assembleia da República Francesa. Esta é uma segunda volta que permite, nomeadamente de ter em vez de ter as 300 triangulares, isto é com três candidatos por circunscrição, nomeadamente, houve vários que se desistiram, mais de 200 desistiram, permitindo uma escolha binária, escolher entre dois candidatos. Estamos a falar de umas eleições onde não se fala de um programa, mas de se colocar contra um ou outro candidato. Isso é muito mau e não facilita, nomeadamente a leitura de um próximo governo e da próxima Assembleia da República.

    O risco é precisamente esse, do país ficar ingovernável?

    Sim, Emmanuel Macron tinha uma maioria muito escassa na Assembleia da República. O que pode suceder é que haja uma coabitação, mas quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente da República. E, sabendo-se que não vai haver maioria clara, Emmanuel Macron escolherá muito provavelmente um primeiro-ministro que lhe seja mais favorável ou não. Também pode depender do resultado da União Nacional e aí iremos ver qual será a iniciativa. Mas não esquecer que o regime presidencialista de França e as directivas de orientações do governo são feitas pelo Presidente da República e, óbvio, se ele escolher o candidato mais votado no próximo domingo, terá o que nós dizemos uma coabitação. Coabitação essa que não permitirá que na Assembleia da República se possa construir um programa que foi, aliás, divulgado durante esta campanha escassa. De frisar também que quem estiver a governar irá trabalhar com a Assembleia da República e com o Senado, cuja maioria é d'Os Republicanos. Aqui está a grande dificuldade em que haver novas leis e o exercício democrático das nossas instituições será facilitado.

    Em sete círculos eleitorais, os candidatos do partido Os Republicanos não desistiram para evitar que a extrema-direita chegue ao poder, como o fez, por exemplo, a coligação de esquerda, a Nova Frente Popular, ou coligação presidencial Juntos pela República. Pergunto-lhe por que motivo estes sete candidatos não desistiram?

    Houve desistências só que foi, nomeadamente, do Éric Ciotti. Aí é que se vê o que é que é um indivíduo fascizante; o presidente d'Os Republicanos decidiu unilateralmente aliar-se com a União Nacional da Marine Le Pen. Nós verificamos aí que ele nem às bases solicitou para essa medida. Ele hoje está só e os republicanos de França, obviamente, em função do lugar onde estão, de território em território, fizeram ou não a possibilidade de se retirarem. Nós temos, nalguns distrito e nalguns territórios, a França Insubmissa contra outro candidato da França Insubmissa. Temos também noutros lugares também a União Nacional contra Os Republicanos. Esta é uma eleição local, é uma eleição com candidatos uninominais que não é de lista. É óbvio que a realidade territorial faz com que haja uma diversidade de acordos ou não acordos, mas não são os acordos nacionais que permitem uma realidade depois no terreno.

    Pode se dizer que existe um braço-de-ferro entre duas alas do seu partido, do partido d'Os Republicanos?

    Não, não há duas alas. O presidente decidiu estar sozinho e fazer um acto fascista, decidindo unilateralmente o que nós, militantes, deveríamos fazer. O que nos diz respeito é que não temos Éric Ciotti como presidente, já não é o nosso presidente e nós, que temos a maioria dos municípios em França, nós estamos em responsabilidade com os nossos munícipes, com a nossa realidade e é isso que nos interessa.

    É possível uma reconciliação com o Éric Ciotti?

    Não, não, obviamente. Eu, aliás, nunca votei em Éric Ciotti, mas como eu, muitos decidiram ficar no partido d'Os Republicanos, porque não é fugindo, não é ao estar ausente que nós participamos no debate, que nós participamos a dar as nossas ideias e termos um partido pró-activo. Obviamente que Éric Ciotti se pôs à margem d'Os Republicanos e nós continuamos o nosso trabalhinho iniciado nas autarquias porque temos maioria, no Senado também temos maioria e somos um partido responsável. E quem não estiver bem nesse partido, olhe, como se diz cá: podem juntar-se a Éric Ciotti.

    Temos em mente as nossas populações e podem confiar nos nossos autarcas, nos nossos presidentes de câmaras, nos políticos que estão mais próximos dos cidadãos e dos seus munícipes.

    Fala-se do risco do partido dos Republicanos desaparecer. Quando em 2017, Emmanuel Macron chegou ao poder acabou com a dicotomia entre os partidos tradicionais de esquerda e de direita. Os republicanos já formaram muitas vezes governo, tiveram sucessivos presidentes, nomeadamente Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy. O perigo do partido desaparecer é real?

    Esta foi a promessa que Emmanuel Macron fez quando chegou a Presidente da República: comigo não haverá nem esquerda nem direita. Ele conseguiu e tem os extremos; a extrema-direita e a extrema-esquerda. No entanto, nos territórios, a realidade é que as pessoas quando vão eleger os seus presidentes de câmaras, os seus conselheiros distritais ou os seus conselheiros regionais vão eleger pessoas que estão muito próximo dos seus munícipes e do dia-a-dia. Os primeiros políticos com quem lidamos são os que nos são próximos e muitas vezes são os presidentes de câmaras. Aí temos que ter essa noção muito clara de proximidade, de resposta aos nossos munícipes, aos anseios das nossas populações e é verdade que com este trabalho conseguiremos muito provavelmente ter uma direita, não sei se será os republicanos ou se temos que encontrar eventualmente outra estrutura, mas a realidade é que nos territórios municipais são os republicanos que têm a maioria e no Senado também.

    Por que motivo é que o partido d'Os Republicanos não deu indicação de voto?

    Nós não damos é hipótese e oportunidade de os extremos tentarem monopolizar o discurso extremista. De um lado, os que querem retirar as armas aos polícias e andarem na rua com as mãos nos bolsos e do outro lado, os que estigmatizam os imigrantes. Isto não tem lógica nenhuma. Aliás, os nossos munícipes já não compreendem essa problemática dos partidos e também dizem por que é que são os partidos, porque é que é a nível nacional que tem que nos dizer qual é o voto que eu tenho que indicar? Temos que ser realistas.

    Depois da forte participação de domingo passado, as pessoas não estão à espera das posições dos partidos ou dos presidentes de partidos a nível nacional para decidir em quem votar.

    Os Republicanos passaram os últimos anos a criticar a política de Emmanuel Macron. É possível que criem uma aliança com o Partido Presidencial Renascença. O primeiro-ministro Gabriel Attal afirmou nos últimos dias que seria possível uma grande aliança com partidos de esquerda, com partidos do centro e os republicanos. Este figurino faz sentido para si?

    Fala-se muito numa aliança quando 'existe um perigo em casa ou dentro dos partidos', eles querem decidir pelos militantes. Parece-me que são medidas unilaterais, pensamentos muito nacionais e hoje temos que ter em preocupação qual estado do país vamos ter domingo. Qual será o futuro da situação política? A grande problemática é a nível nacional não responder aos anseios das pessoas. Eles não responderam à inflação e foram muitas vezes as autarquias que tiveram que responder à ausência de Emmanuel Macron no que diz respeito à proximidade com as nossas comunidades francesas. Isso foi muito mau. Hoje ele tem o resultado que é quase uma brincadeira de mau gosto porque aniquilando a esquerda e a direita e estamos com dois extremismos que se enfrentam. Depois das eleições temos de ter a maior união possível porque o que é importante é responder aos anseios das pessoas.

    Portanto, o seu partido vai posicionar-se, muito provavelmente a partir de segunda-feira, como um partido da oposição, independentemente dos resultados?

    Exactamente, haverá uma oposição construtiva porque nós estamos nos nossos terrenos, estamos com as pessoas e o facto de estarmos com as pessoas, elas querem compreender e nós temos que explicar regularmente quando estamos com o movimento associativo, quando estamos com os pais nas escolas, etc. Temos que ter esse posicionamento muito terra-a-terra e de proximidade, porque a situação é complexa. Nós seremos obviamente uma oposição de construção e em responsabilidade.

    12 min
  • França/Legislativas: "Na segunda volta as pessoas nem sempre confirmam o descontentamento"

    Os franceses são chamados às urnas, novamente este domingo para a segunda volta das eleições legislativas francesas. Philippe Pereira, vereador em Nogent-sur-Marne, arredores de Paris, e militante do partido presidencial Renascença (Renaissance) reconhece que a complexidade do panorama nacional e relembra que estão fora de questão alianças ou coligações com a extrema-direita.

    Os franceses são chamados às urnas, novamente este domingo para a segunda volta das eleições legislativas francesas.

    Na corrida à Assembleia Nacional estão, essencialmente, o partido de extrema-direita União Nacional, Rassemblement National, favorito nas sondagens, a aliança das esquerdas na Frente Popular e a lista presidencial juntos, Ensemble.

    Philippe Pereira, vereador em Nogent-sur-Marne, arredores de Paris, e militante do partido presidencial Renascença (Renaissance) reconhece que a complexidade do panorama nacional e relembra que está fora de questão alianças ou coligações com a extrema-direita.

    Quais são as expectativas para a segunda volta das eleições no domingo?

    Expectativas para quem? Para mim, para o nosso partido?

    Para si e para o partido que também representa?

    Estou actualmente a conduzir a campanha de um candidato da Renascença (Renaissance) na minha circunscrição. Estamos com algumas esperanças, mas a lutar até à última hora para confirmarmos o resultado da primeira volta e numa triangular com o Rassemblement National (União Nacional), o que não facilita as coisas. No que diz respeito aqui à circunscrição, tudo leva a crer que o Rassemblement National (União Nacional) não vai alcançar os objectivos.

    A nível nacional, temos que reconhecer que a situação está muito complicada. Não acredito que a Rassemblement National (União Nacional) chegue à maioria absoluta. Na segunda volta, as pessoas nem sempre confirmam o descontentamento que tinham na primeira volta e também tomam consciência da gravidade que seria termos uma maioria absoluta primeiro, e depois um Governo formado pelo Rassemblement National (União Nacional), pela extrema-direita.

    Equaciona a possibilidade do seu partido, o partido presidencial, poder vir a formar Governo?

    Pelo que temos agora à nossa frente, não acredito que consigamos por nós próprios formar um Governo maioritário ou, pelo menos, alcançar uma maioria que nos permita ter um Governo sozinhos. Governo de coligação, com certeza. E acho que é a única hipótese imaginável a partir do dia 08 de Julho, tendo em conta a situação do país. A nossa esperança tem de ser essa.

    Mas coligação com quem? 

    Tem que ser com as forças republicanas e com os candidatos republicanos que tenham sido eleitos no dia 07 de Julho. Quando digo republicanos, não estou a pensar nos LR [Os Republicanos, Les Republicans, partido de direita tradicional] propriamente dito. Estou a pensar nos candidatos, que apesar de serem do novo Front Populaire [Frente Popular, aliança de esquerda] sejam oriundos dos partidos mais dispostos a governar o país.

    Os seus deputados que não sejam da França Insubmissa [esquerda-radical]?

    Exactamente.

    O facto de nem o primeiro-ministro Gabriel Attal, nem o Presidente da República Emmanuel Macron, darem uma indicação de voto clara e explícita, não pode deixar os eleitores do seu partido confusos?

    Sim, à primeira vista, pode ser a impressão que temos de não haver instruções claras a nível nacional, mas acho que, apesar de tudo, trata-se, obviamente, de eleger os deputados da nação, mas também se trata de ter uma análise local em cada circunscrição.

    Nem sempre o contexto é o mesmo e nem sempre as equações são as mesmas.

    Parece-me ainda necessário poder haver alguma análise de caso por caso. Acho que é indispensável.

    Mas numa disputa entre Rassemblement National, União Nacional, e a Frente Popular, em quem é que votam os eleitores do Juntos (Ensemble), a lista presidencial?

    Até agora, deste ponto de vista, a mensagem tem sido clara. Vale mais votar pela Frente Popular e convém votar Frente Popular, quando os candidatos do Juntos (Ensemble) já não estão a concorrer.

    Com o Rassemblement National, União Nacional, e falo aqui a nível pessoal, não há hipótese de alianças e de coligações. Isso não é possível.

    Depois é ver caso por acaso. Quem é o candidato da Frente Popular, circunscrição por circunscrição, que não seja LFI (França Insubmissa) se possível.

    A França Insubmissa que era diabolizada até há uma semana, agora é menos diabolizada para a não subida ao poder da extrema-direita. Acaba por haver aqui alguma confusão ou falta de clareza.

    De certa forma é, não posso desmentir. Temos de ser claros e objectivos. Mas tem havido, talvez não por parte do Presidente da República, mas por parte de outros ministros ou responsáveis políticos a distinção entre os candidatos da Frente Popular, os que sejam oriundos do PS, dos Verdes ou do Partido Comunista e aqueles que são oriundos da França Insubmissa. 

    Ainda dentro da França Insubmissa, há certos políticos que têm apresentado um discurso muito mais responsável e racional do que outros. E aí também se poderá fazer alguma diferença. Agora, conhecemos bem os candidatos da França Insubmissa que não estão numa postura republicana e consensual.

    Mas, em todo o caso, a extrema-esquerda não é igual à extrema-direita?

    Não é, os valores não são os mesmos. Falo a título pessoal, uma vez que não sou porta-voz do meu partido, mas o Rassemblement National, União Nacional, faz diferença entre os homens pela sua qualidade humana.

    O seu partido, chega a este acto eleitoral algo fragilizado. Não corre o risco de o partido Renaissance desaparecer.

    Não acredito que a questão seja da sobrevivência ou desaparecimento. Agora, o que é necessário é uma recomposição do nosso partido e do bloco central. É necessário haver alguma alternativa, convém haver uma recomposição alargada no centro para poder haver outras alternativas, que sejam responsáveis como partidos de Governo.

    Se efectivamente a extrema-direita chegar à maioria na Assembleia Nacional, a responsabilidade não é de Emmanuel Macron, que acabou por lhe abrir as portas?

    Responsabilidade tem a partir do momento em que tomou essa decisão. A responsabilidade é dele. Mas maior ainda será a dos franceses. A responsabilidade dos franceses escolherem dar uma maioria, seja ela relativa ou absoluta, ao Rassemblement National, União Nacional. É responsabilidade dos franceses, não estou a fazer juízo nenhum. Mas quem tem responsabilidade, quem elege, são os eleitores.

    Os cidadãos portugueses, cabo-verdianos, de origem estrangeira, que vivem aqui em França estão ameaçados caso a extrema-direita consiga uma maioria parlamentar?

    Espero bem que não. Ainda tenho muita fé e confiança no sistema institucional francês, que é bem feito e com muitos contrapoderes e que mesmo assim, um Governo, seja lá qual ele for e nem que seja de extrema-direita, não poderá fazer tudo o que entende e tudo o que promete. 

    Depois, o princípio da realidade levará o Rassemblement National (União Nacional), se no pior dos casos alcançar o Governo, a não tomar as decisões todas que prometeu no programa. 

    Agora, algum receio temos de ter. Os meus pais nunca me pediram a nacionalidade francesa. São estrangeiros. A minha esposa é britânica, não tem nacionalidade francesa. Eu tenho dupla nacionalidade e os meus filhos têm três. Portanto, estamos no olho do furacão Furacão. 

    Mas diga-se de uma vez por todas, cidadão francês ou cidadão de um país, seja qual ele for, não é só uma questão de papel e de autorização. Há princípios que fazem com que ninguém nunca tenha o direito de me recusar a mim, por exemplo, o facto de ser cidadão francês pleno e inteiro, como também sou cidadão português.

    9 min
  • "A França governada pelo nosso partido [União Nacional] será a verdadeira França"

    Virgínia de Oliveira é candidata da União Nacional e concorre no 3º círculo eleitoral de Loir-et-Cher. A luso-descendente acredita que a "França governada pelo nosso partido [União Nacional] será a verdadeira França". No domingo, a candidata de origem portuguesa quer levar o maior número de eleitores a votar na segunda volta das legislativas francesas.

    No domingo, 7 de Junho, decorre a segunda volta das eleições legislativas em França em mais de 500 círculos eleitorais. No 3º círculo eleitoral de Loir et Cher há dois candidatos Virgínia de Oliveira, candidata da União Nacional, que conquistou 40% dos votos e Christophe Marion da coligação Juntos pela República que se apresenta como candidato do partido Renascença e que obteve 36% na primeira volta.

    Em entrevista à RFI, Virgínia de Oliveira, luso-descendente, defendeu que o seu partido não é de extrema-direita, mas sim um "partido patriótico e de direita" e esclareceu que Jordan Bardella só aceita ser primeiro-ministro caso o seu partido consiga uma maioria absoluta.

    RFI: Quais é que são as expectativas para a segunda volta das eleições no domingo?

    Virgínia de Oliveira: Bem, as minhas perspectivas para esta segunda volta são as de conseguir o maior número possível de pessoas a votar. Nesta segunda volta, é preciso entender que enfrento um político macronista cessante, o Senhor Christophe Marion, que aceita -pelo menos, é a minha leitura - formar uma aliança com a Nova Frente Popular. Não compreendo de todo esta postura, mesmo a nível nacional em aceitar trabalhar com estes indivíduos e estas pessoas. Porque quando se conhece bem as ideologias e, especialmente, aquilo de que são capazes fico indignada... fico mesmo indignada. E digo, cá para mim, se esta é a sua única forma de quererem manter o seu lugar, não é nada bom. 

    Estão prontos para governar com e sem maioria absoluta?

    Penso que Jordan Bardella deixou isso bem claro. Ele aceita ser primeiro-ministro só no caso de conseguirmos uma maioria absoluta. 

    A França passa a ser uma país diferente com um governo da União Nacional?

    Não.. quer dizer, a França governada pelo nosso partido não será nem mais nem menos França, mas será a verdadeira França. É isto.

    Temos de manter e preservar a nossa identidade. E penso que mesmo eu, oriunda da imigração, quando os meus pais chegaram, e posso até recuar mais longe porque na minha família foi o meu bisavô veio para França durante a Primeira Guerra Mundial, penso que nos assimilámos... Não gosto da palavra assimilar, apenas soubemos adaptar-nos com normalidade porque este é um país que nos acolheu e porque respeitámos as regras deste país. 

    Acho que toda a gente deveria fazer o mesmo. Há que respeitar o país em que se vive e, sobretudo, no que diz respeito à minha família, respeitámos o país que nos acolheu e que nos permitiu, a mim de ir à escola, aos meus pais de se desenvolverem profissionalmente em bons empregos, uma vez que o meu pai foi  director de uma empresa. É o respeito antes de tudo e posso garantir-vos que, se chegarmos ao poder, não vai haver problemas nem para as pessoas de oriundas da imigração, nem para qualquer outra coisa. Há que respeitar o país, há que respeitar as regras, e nós não temos qualquer problema com isso. Por isso, esse rótulo, se quiserem, de racista. Não há racismo no nosso movimento. Pronto !

    Como é que explica o aumento substancial de eleitores nestas eleições legislativas deram a vitória à União Nacional, que votaram no seu partido nesta primeira volta?

    É muito simples, penso que os franceses estão fartos! Querem acções reais e medidas concretas. Penso que lhes mentiram muitas vezes, lhe mentiram demasiadas vezes. Como já dissemos, e como já disso o presidente do nosso movimento, Jordan Bardella, temos de ser transparentes com os franceses e ser capazes de lhes dar respostas a todas as suas perguntas e a todos os seus problemas. E é por isso que a nossa prioridade é o poder de compra dos franceses e a sua segurança, porque, de qualquer forma, quando olhamos para as sondagens, essa é também a sua prioridade no dia-a-dia. Temos conseguir mesmo dar aos franceses meios para terem um maior poder de compra do que aquele que têm hoje e mais segurança. 

    No  seu círculo eleitoral, o 3° de Loir et Cher enfrenta na segunda volta um candidato da ala presidencial, da coligação Juntos pela República, Christophe Marion, isso dificulta a possibilidade de ganhar ou está confiante?

    A minha resposta é que me mantenho sempre confiante. Confio no povo francês e, neste caso, confio no povo do meu círculo eleitoral, porque estou num círculo eleitoral muito rural e, sinceramente, acredito neles porque penso que se querem uma mudança. É para isso que estamos aqui e para isso que sou candidata ! E sim, continuo confiante e vou lutar até ao fim. 

    Quando é que aderiu à União Nacional e por que motivo o fez?

    Desde antes de eu ter 18 anos já me sentia atraída e fazia parte da Frente Nacional porque acredito que a identidade nacional é muito importante para mim e acredito que devemos respeitar o país em que vivemos e as suas regras, os seus costumes. Portanto, é isso. Penso que não devemos retirar a identidade de um país ou, pelo menos, apagá-la.

    Há pouco dizia defender uma França verdadeira e agora fala de desrespeito das regras. O que está a dizer é que hoje os franceses não respeitam as normas e as regras?

    Bem, ouça, em todo o caso, há alguns franceses que não respeitam as regras. Porque quando vemos os membros da França Insubmissa e o respectivo comportamento que têm, vemos que não estão de todo no mesmo estado de espírito que nós. 

    Isto é ?

    Por outras palavras, revoltam-se à mínima coisa. Bem, não sei, não estamos a apelar à guerra civil ou à guerra no terreno. Quero dizer, não estamos a apelar a motins nas ruas, e isso é realmente desrespeitoso. Temos de ser respeitosos, os franceses pronunciaram-se. A partir do momento em que a União Nacional está a liderar, todos se revoltam e há que respeitar as regras. Os franceses pronunciaram-se e querem a União Nacional no poder. Há que respeitar e aceitar. 

    Consegue perceber por que motivo muitos franceses têm medo de um governo de extrema-direita. É perceptível para si? 

    Desde logo não somos um partido de extrema-direita, párem com isso. É o tipo de coisa que não aceito de forma alguma, ser descrita como candidata de extrema-direita. Não sou de todo de extrema-direita. Não creio que os franceses tenham medo da extrema-direita. A prova é que, ainda no domingo passado, chegámos a pouco mais de 34%, por isso é impossível. Portanto, os franceses não têm qualquer receio de que tomemos o poder. E o facto de se jogar com o termo da extrema-direita incomoda-me imenso porque eu não me considero de todo de extrema-direita. 

    Qualifica-se de direita?

    Sim, é essa a nossa posição. Somos um partido patriótico e de direita. 

    8 min
  • "Há um perigo para todos os estrangeiros em França" caso a extrema-direita ganhe as eleições

    O candidato Maxime da Silva, militante da França Insubmissa e que concorre no 5º círculo eleitoral dos franceses no estrangeiro pela Nova Frente Popular, considera que a esquerda pode sair triunfante da segunda volta das eleições em França e que os direitos das comunidades estrangeiras no país estão ameaçados.

    Já no próximo domingo acontece a segunda volta das eleições legislativas em França. Mais de 500 círculos eleitorais vão a votos, incluindo os do estrangeiro. Na quinta circunscrição dos franceses que vivem no estrangeiro, ou seja, Portugal, Espanha, Mónaco e Andorra, restam dois candidatos, Stephane Vojetta, antigo deputado do partido do Presidente Emmanuel Macron que se apresenta como independente, e Maxime da Silva, candidato da Frente Popular, coligação de esquerda.

    Em entrevista à RFI, Maxime da Silva, luso-descendente, disse que a esquerda pode ainda ganhar esta eleição e que não faltam bons possíveis primeiros-ministros para lideratr um Governo da Frente Popular.

    RFI: A nível nacional quais são as suas expectativas para a segunda volta das eleições no domingo?

    Maxime da Silva: Vemos bem que há duas forças que estão em condições de governar o país, tanto a União Nacional, que representa a extrema-direita, como a Nova Frente Popular. Por isso, a minha expectativa para domingo é que o povo francês ofereça um horizonte de esperança e de felicidade para o país, votando maciçamente na Nova Frente Popular.

    No caso de a União Nacional não conseguir uma maioria absoluta, a Frente Popular está pronta para uma coligação com o partido de Emmanuel Macron?

    Representamos a oposição face a Emmanuel Macron, que infligiu uma grande violência social e ecológica ao país nos últimos sete anos. Por enquanto, o que estamos a pedir ao povo francês é que nos dê uma maioria. Penso que isso é possível. Precisamos do maior número possível de deputados da Nova Frente Popular para que possamos ser o maior grupo na Assembleia Nacional. E se os franceses tiverem confiança em nós, ainda há tempo. Faltam cinco dias para vencer a União Nacional.

    Quem seria o primeiro-ministro num Governo da Frente Popular?

    Temos muito por onde escolher, graças ao facto de termos tanto talento na esquerda. Por isso, acho que não vale a pena entrar neste debate. Vamos ver o que dizem as urnas e temos a possibilidade de ter não um, mas quatro, cinco, seis, sete Primeiros-Ministros da Nova Frente Popular, porque temos muitas pessoas capazes.

    O que significa para a França ser governada por um partido de extrema-direita? Como é que a França Insubmissa pensa reagir?

    Respeitaremos obviamente a escolha do povo francês e entraremos numa oposição muito firme, numa resistência, se isso acontecer. Mas não creio que os franceses estejam dispostos a eleger um governo que quer pôr em causa os direitos das mulheres e os direitos das pessoas LGBT. Mesmo ao aproximar-se do poder, a União Nacional é ainda um partido que promove ideias racistas, tendo adoptado a maior parte do programa de Macron. Por isso, penso que os franceses têm de estar conscientes do perigo que representa a União Nacional e do perigo que seria ter Marine Le Pen ou Jordan Bardella à frente do país a partir do próximo domingo.

    Como é que é ser comparado à União Nacional quando se fala de extremos políticos?

    É uma estratégia do poder mediático para tentar normalizar a União Nacional. Mas as pessoas sabem que partido foi criado por colaboradores nazis, que é um partido que tem um programa de ódio. E não há dúvida de que todas as forças da nova Frente Popular são forças humanistas, anti-racistas, que lutam contra o antissemitismo e todas as formas de discriminação. Por isso, podem sempre tentar comparar-nos, mas podemos ver pelos resultados de domingo que os franceses sabem que somos pessoas com elevados padrões morais e depositaram a sua confiança em nós, algo que eu agradeço.

    No seu caso, no seu círculo eleitoral, está a bater-se contra um candidato que já pertenceu à maioria do Presidente, mas que se apresenta como independente. É um pouco o que se passa em toda a França, com uma rejeição de Emmanuel Macron?

    A pessoa contra quem eu me vou bater na segunda volta, que é Stéphane Vojetta, é um macronista convicto que votou a favor de todas as leis anti-sociais e anti-ecológicas de Macron e que agora se apresenta falsamente como independente. Ele fez toda a sua campanha da primeira volta pedindo aos eleitores que o elegessem para que ele pudesse construir uma maioria alternativa. O resultado das eleições de domingo mostra que isso é muito claro. Ou haverá uma maioria da nova Frente Popular, ou haverá uma maioria da União Nacional. Assim, a conclusão a que podemos chegar é que o senhor deputado Vojetta fez uma promessa ao eleitorado que é incapaz de cumprir. E hoje simboliza um boletim de voto inútil.

    Foi acusado de ter sido colocado artificialmente neste círculo eleitoral. Como explica esta candidatura?

    Como temos o programa mais adaptado às exigências dos franceses no estrangeiro, tentam atacar-me por outros aspectos da minha personalidade. Mas eu sou filho de emigrantes portugueses. Sou neto de Pieds-Noirs. Estou presente no círculo eleitoral. Estou a falar convosco no comboio entre Madrid e Barcelona. Por isso, sinto-me muito em casa aqui, com os franceses no estrangeiro, muitos dos quais conheci durante a campanha. E sabe, acho que é melhor ter um deputado combativo como eu aqui no círculo eleitoral, do que um que é inútil há cinco anos. E os franceses do círculo eleitoral, creio que, no domingo, têm a oportunidade de virar a página do Macronismo no círculo eleitoral e de Vojetta.

    Os franceses que vivem fora do país estão preocupados com a situação em França?

    Obviamente, é claro, eles estão preocupados. Em primeiro lugar, porque A União Nacional propõe transformar em cidadãos de segunda classe as pessoas com dupla nacionalidade e, logo no início das eleições, o senhor deputado Vojetta disse que preferia um governo da União Nacional a um novo governo da Frente Popular. Por isso, penso que estão preocupados com os resultados que poderemos obter no domingo, uma vez que temos aqui muitos cidadãos com dupla nacionalidade. Também estão preocupados porque os franceses são imigrantes no estrangeiro e, por isso, ter um partido a governar a França, seguindo uma política de rejeição de estrangeiros, vai coloca-los também em dificuldades. Coloca também a França em dificuldades diplomáticas com os nossos parceiros europeus. Em suma, o boletim de voto da União Nacional não traz nada de bom. Tal como o voto em Stéphane Vojetta.  

    Considera que os portugueses ou os cabo-verdianos em França estão ameaçados no caso de um Governo de extrema-direita?

    Sim, penso sinceramente que sim. Quando temos pessoas que consideram cidadãos de segunda classe os outros só porque ou não têm a cor de pele correcta, ou talvez tenham um sotaque ou até pela religião, sim, temos um problema e há um perigo para todos os estrangeiros em França. Sabe, a minha avó, que morreu há poucos meses, tinha um nível de francês relativamente baixo porque vinha de um meio muito humilde e não tinha estudado. Não teve qualquer educação formal, nem em casa nem em França. Pois bem, vi-a sofrer discriminações enquanto portuguesa. E vejo ainda em relação a franceses no estrangeiro que não são contratados no estrangeiro também por causa dos seus sotaques.

    8 min
  • França: “Extrema-direita às portas do poder”, mas “esquerda tem margem de manobra”

    A França está a viver um “momento histórico capital”, resume o filósofo Diogo Sardinha, olhando para os resultados da primeira volta das legislativas em França. O académico diz que “o resultado é muito inquietante” porque “se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder”, com graves consequências internas e internacionais, mas acredita que “a esquerda tem margem de manobra” para a segunda volta de 7 de Julho.

    “Há momentos históricos que são capitais”, alerta o filósofo Diogo Sardinha ao olhar para os resultados da primeira volta das eleições legislativas deste domingo em França. A União Nacional, de extrema-direita, e os seus aliados, venceu com 33,1% dos votos, ultrapassando a Nova Frente Popular, de esquerda, que obteve 28% dos votos, e o movimento Juntos pela República, do Presidente Emmanuel Macron, que reuniu 20% dos votos.

    O filósofo da Universidade de Lisboa avisa que “o resultado é muito inquietante” porque “se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder” em França, o que pode levar a “um enfraquecimento da estrutura da União Europeia”. Porém, ainda que esta primeira volta seja “um balde de água fria” para a Nova Frente Popular, Diogo Sardinha acredita que “a esquerda tem margem de manobra” para a segunda volta no próximo domingo, 7 de Julho.

    RFI: Cerca de dez milhões de franceses votaram pela extrema-direita. Como descreve este resultado da primeira volta das eleições legislativas em França?

    Diogo Sardinha, Filósofo: "O resultado é muito inquietante por dois motivos. Primeiro, por aquilo que expressa em relação ao sentimento da população francesa e, por outro lado, pelo risco que representa de realmente haver uma mudança de governo que seja um governo da extrema-direita neofascista. Só para dar um exemplo, quando se vê o Jordan Bardella, representante da União Nacional - que é o mesmo nome do partido de Salazar em Portugal na ditadura - quando o vemos vestido de fato cinzento escuro, gravata negra, cabelo curto, risca ao lado, ar marcial, isso é a estética fascista e nazi. É preciso dizer as coisas tal como são."

    Isso é a forma. Vamos ao conteúdo.

    "Mas é que a forma é essencial! Quando se pensa nos regimes fascistas, quando se pensa nos regimes históricos - em Portugal aconteceu o mesmo, aconteceu na Alemanha, aconteceu na Itália - são regimes da estética. Se viu ontem a conferência de imprensa, a primeira parte em que o Bardella toma a palavra, nem a parte vermelha da bandeira francesa aparece. O fundo é cinzento claro, ele está vestido de cinzento escuro, gravata preta. Veja o corte de cabelo dele e compare um bocadinho com o corte de cabelo dos dirigentes nazis: cabelo curto, sem patilhas, risca ao lado. É exactamente a mesma estética e aquilo não é um acaso. Eles sabem que aquele tipo de estética, em certos momentos da sociedade, tem um poder sedutor. Portanto, nós que sabemos isso, quando vemos essa estética reaparecer hoje, temos que saber que há uma reclamação directa da história da parte daquelas pessoas. Aquilo é mais do que uma piscadela de olho ao passado, aquilo é um recuperar, é um assumir de uma estética que é uma estética ligada a um certo regime político."

    Qual regime político?

    "Um regime político fascista e, em França, um regime político de colaboração com o nazismo. Claro, isso é evidente."

    Sociologicamente, o que é que explica esta vitória da extrema-direita? Há pouco disse que expressa algo em relação à população francesa. O que é? Uma crise de representação daqueles que não se sentem representados em França, que se sentem esquecidos?

    "Primeiro, deixe-me dizer uma coisa: não é toda a população francesa que vota pela União Nacional. Isto é muito importante dizer. Há um grupo importante de pessoas, um grupo crescente de pessoas que vota e que assume explicitamente as suas escolhas no discurso quotidiano. Nós que estamos ligados ao mundo lusófono, não podemos esquecer-nos do que aconteceu no Brasil nos últimos 10, 15 anos. Houve realmente uma massa de população em conjunto com certos poderes, o poder dos media, o poder judicial que levou Bolsonaro ao poder e o bolsonarismo. Houve muita gente que lutou contra isso e até agora, pelos vistos, conseguiram recuperar. Portanto, não são os franceses que estão a votar pelo fascismo e pela União Nacional."

    Ainda assim, é um terço… São 33% dos votos expressos na primeira volta…

    "33% de 65% da população. Não foi a população toda que votou. E depois, se juntar os votos da Nova Frente Popular com os votos do partido de Macron, etc, supera largamente os votos da União Nacional. Portanto, não é a maioria dos franceses. Agora, é claro que é uma parte importante dos franceses que vota e que está profundamente descontente. Um descontentamento que vai crescendo há vários anos e que explodiu nos últimos anos com a política seguida pelo Emmanuel Macron. Isso é evidente. Quer dizer, quando ele apresenta o programa dele em 2016, para a primeira eleição de 2017, que é um programa de liberalização de tudo e mais alguma coisa, pronto, aqui estamos, oito anos mais tarde, sete anos mais tarde, a ver os efeitos."

    O que é que o terceiro lugar do movimento do Presidente, “Ensemble pour la République” [Juntos pela República], representa? O Presidente Emmanuel Macron abriu as portas do poder à extrema-direita?

    "Bom, isso já sabíamos que ele estava a abrir as portas do poder à extrema-direita no momento em que ele decidiu dissolver a Assembleia, portanto, isso não é propriamente uma novidade. Ele é intocável, ele é Presidente da República, será Presidente da República até 2027, de qualquer modo, não pode ter novo mandato. Agora, a política dele, a política de liberalização de tudo, dos serviços, de tudo pôr em concorrência a todos os níveis, essa política vemos bem que não era aquilo de que a França precisava e não é aquilo que torna as pessoas satisfeitas. Pelo contrário, a França não precisava daquilo. Repare até nos défices orçamentais franceses que explodiram e que são censurados pelas instâncias da União Europeia. Por outro lado, a população continua descontente e tão descontente que se volta agora para o extremo oposto, digamos assim."

    A Nova Frente Popular aparece em segundo lugar na primeira volta. Juntou todas as forças de esquerda, ainda assim, não foi suficiente para bater a extrema-direita. Isto é o quê?  Um balde de água fria? Era o esperado? Ou os dados ainda não estão todos jogados e ainda se pode esperar uma mudança na segunda volta?

    "Eu penso que é tudo isso ao mesmo tempo. Em relação ao que vai acontecer, por um lado, não podemos saber e, por outro lado, como disse quando falei há pouco do exemplo do Brasil e há outros exemplos, é preciso nunca perder a esperança que há a possibilidade de a situação não se tornar completamente dramática. E é preciso bater-se para isto. As pessoas desses partidos da esquerda da Nova Frente Popular batem-se, com certeza, nesse sentido. Claro que é um balde de água fria porque se vê a extrema-direita neofascista às portas do poder e, ao mesmo tempo, tudo isto já era esperado. Quer dizer, é uma receita que já está sendo cozinhada há bastante tempo. Nós sabemos que, a dada altura, o prato vai estar pronto e o prato agora está pronto e está prestes a ser servido. Vamos ver se ainda conseguimos impedir a coisa ou não."

    As projecções dos institutos de sondagens antecipam uma larga maioria relativa de, pelo menos, 240 assentos parlamentares para a extrema-direita ou mesmo uma curta maioria absoluta [que começa com 289 deputados em 577]. Isto são só projecções, mas o que é que se pode esperar da segunda volta no domingo? A esquerda ainda tem margem de manobra?

    "A esquerda tem margem de manobra. Resta agora saber como é que se vai comportar o eleitorado do centro, os 20% de pessoas que votaram pelo partido de Macron. Há algumas outras, de menor percentagem, que votaram pelo centro-direita, por aquela direita republicana. Essa própria direita republicana está muito dividida. Uma parte delas vai votar na União Nacional e depois vamos ver como é que se comportam as pessoas.

    Agora repare, há muita gente que faz política e que está na política institucional, que já está a dizer que não vai inteiramente apoiar a união de esquerda por vários motivos que eles vão explicando. É claro que alguns desses motivos podem até ser sérios, mas há outros motivos que são tácticos. São pessoas que já estão a ver que a União Nacional vai governar ou vai ter um peso importante e elas querem estar bem com essas pessoas. Algumas dizem-no explicitamente - como o presidente d’Os Republicanos, o antigo partido de Sarkozy, que rompeu e levou uma parte do partido para a União Nacional. E depois há outros que moderam o discurso porque, no fundo, não se querem comprometer."

    À esquerda, os líderes políticos apelaram aos candidatos para abandonarem, no caso de triangulares, para evitarem a vitória da extrema-direita. Ao centro e direita, o partido de Macron apelou a uma “frente republicana” contra a extrema-direita, mas sem precisar se isso inclui a França Insubmissa, que faz parte da Nova Frente popular, quando no seu partido e também n’Os Republicanos, várias personalidades se manifestaram contra o voto na França Insubmissa. Isto mostra uma grande divisão que também deve deixar os eleitores confusos. Que comentário faz?

    "O comentário que isto merece e que há momentos históricos que são capitais. Na vida quotidiana, as coisas vão andando um bocadinho mais à direita, um bocadinho mais à esquerda, muita gente vai sofrendo com problemas económicos, etc. Depois, há momentos capitais, há momentos em que as coisas - de repente e infelizmente para nós todos - começam a aparecer entre o branco e o negro. E nesses momentos é preciso saber de que lado é que estão as pessoas. Estamos a viver um momento desses e veremos o que acontece, como é que cada um tomará as suas posições. Há muita gente de um centro direita clássico, como o Dominique de Villepin, que foi primeiro-ministro de Jacques Chirac, que já disse que é preciso votar contra a União Nacional. Depois há outros que dizem é preciso votar, mas não votando na França Insubmissa… São maneiras de distrair e dizer que eu estou do lado dos bons, mas também não em excesso. São pessoas que estão a pensar no que virá depois e que não querem estar em más relações com a família Le Pen. A política também é feita disso. A política também é feita dos interesses comezinhos de uns e de outros, para quem a história não é muito importante, o que é importante são as suas carreiras e os seus estatutos e os seus salários."

    A estratégia da direita e da extrema-direita tem consistido, de certa forma, em “diabolizar” Jean-Luc Mélenchon, o líder da França Insubmissa, apresentado como uma ameaça. Não seria mais simples que ele se retirasse, por exemplo, dos nomes possíveis para primeiro-ministro em caso de vitória da esquerda?

    "Não sei e não creio que ele o faça. O que é importante é ver o seguinte: claro que a extrema-direita tem que encontrar inimigos para dizer: “Atenção, aqueles são o perigo, o senhor Mélenchon é o perigo, ele e os dele, os da França Insubmissa. Isso é o papel da extrema-direita, encontrar o seu inimigo, seguindo a velha lógica da política como amigo inimigo, encontra o seu inimigo e depois tenta destruí-lo. Ora, o que é preocupante é que as pessoas que não estão ainda na extrema-direita ou que não querem estar na extrema-direita não rompam com este discurso, que é o discurso do Macron que diz que “há dois extremos e um ou outro nos conduz à guerra civil”. Isto é falso! Isto é uma estratégia politiqueira que não funciona e ainda por cima é falsa. Isto só serve para aumentar a inquietação e as tensões na sociedade. E isto prejudica claramente a política nacional e, por conseguinte, porque se trata da França, a política europeia e internacional também."

    Quando começámos esta conversa, começou por falar do perigo que poderia representar um governo de extrema-direita em França. Ora, pela primeira vez na história, em França, os franceses estão a ponto de escolher pelas urnas um primeiro-ministro de extrema-direita. O que é que isto representa para a História de França?

    "Bom, para a História da França, o que pode representar, no curto prazo, é um endurecimento das políticas em vários domínios: o endurecimento da política da imigração, o endurecimento da política de estabilização da sociedade pela atribuição de subsídios e de apoios aos mais desprotegidos. De qualquer modo, quem for governar vai ter um défice orçamental importante e eu não sei como é que vai resolver isso.

    Eu penso que vai haver um enfraquecimento da estrutura da União Europeia. A França é um dos países-chave da estrutura da União Europeia e nós sabemos que esta extrema-direita neofascista não é apologista da União Europeia porque é precisamente apologista do nacionalismo. É por aí que eles fundam os seus argumentos e é por aí que conseguem também captar votos. Muita gente cai no erro de pensar que é voltando à nação de antigamente e acabando com a imigração que se resolvem os problemas dessas pessoas, quando não é. Qual é o país europeu hoje da Europa ocidental, que pode viver sem imigração? Os nacionais não têm mais filhos, têm um filho, têm dois. Quem é que vai trabalhar na construção civil? Quem é que vai trabalhar nas limpezas? Quem é que vai fazer esses trabalhos pouco qualificados? São os imigrantes. Como é que um país funciona hoje sem esse tipo de trabalho e sem esse tipo de mão-de-obra que, ainda por cima, é mão-de-obra explorada e mal paga?"

    Em termos internacionais, esta é a primeira vez que há esta possibilidade de um grande país europeu fundador poder adoptar um partido anti-europeu à frente do Governo. Já tínhamos, por exemplo, a Itália, a Hungria, agora temos o espectro norte-americano do regresso de Donald Trump. Que consequências para a Europa e para o mundo, nesta altura, se a França tiver um Governo e um Primeiro-Ministro de extrema-direita?

    "Falar do mundo é uma coisa muito vasta que não podemos fazer em três minutos, mas podemos falar um pouco da Europa. Houve um momento de abertura, de estabilização, de construção de um Estado social relativamente forte, com uma segurança social, com apoios. Porque o drama da guerra foi imenso, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, mas consideremos, como fazem alguns historiadores, que é uma guerra de 30 anos que começa em 1914 e termina em 1945. Houve tantos milhões de mortos, houve tantos crimes, houve tantos extremos que depois disso, conseguimos ter 70 anos de paz e de, mais ou menos, tranquilidade. Pode ser que esse ciclo, que nunca se viveu na história da Europa, esteja a terminar. Quer dizer, não vai terminar hoje ou amanhã, mas há cada vez mais sinais de que, por diversos motivos, há um fechamento da Europa, um fechamento de alguns países sobre si mesmos. As consequências que daí advirão, a médio e longo prazo, receio que sejam trágicas. Mas, cada dia é um dia e é, por isso, que é preciso não antecipar os resultados das eleições francesas que ocorrerão no domingo."

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  • Franceses mobilizam-se "porque extrema-direita está à porta do poder"

    Emanuel Mayassi votou este domingo nas eleições legislativas francesas. O eleitor franco-angolano exerceu o seu direito de voto na mesa de voto número 49 do 18 bairro de Paris. "Habitualmente, quando esse partido chega próximo do poder, cada vez que obtém um bom resultado, todo o país se mobiliza e constitui o que se chama de frente republicana para travar esse partido", defendeu.

    RFI: Era importante votar este domingo?

    Emanuel Mayassi: É um dever que tenho enquanto cidadão deste país e sempre votei desde que me tornei cidadão francês. Há uma participação crescente nestas eleições pelo facto de o partido da extrema-direita ser favorável a vencer essas eleições e isso fez com que as pessoas se mobilizassem mais para poderem votar. Os pedidos de procuração, aquelas pessoas que não estão disponíveis para votar, que estão de férias ou que têm viagens programadas, todas essas pessoas antigamente não se importavam, ia embora de férias e não votavam. Desta vez houve mais de dois milhões de pedidos de procuração para poderem votar este domingo. Isso significa que esta é uma eleição muito importante para a França.

    Pode explicar-nos como é que funciona o sistema eleitoral francês para as eleições legislativas? 

    O sistema eleitoral francês é de duas voltas. Quer dizer, vamos à primeira volta e se nenhum dos candidatos obtiver a maioria absoluta, quer dizer, 50%, mais um voto, ai vamos à segunda volta com os dois candidatos mais votados. Na segunda volta, quem tiver a maioria absoluta é que vence e forma o próximo governo.

    Nas últimas eleições legislativas houve oito triangulares na segunda volta, isto é, passarem três candidatos à segunda volta. Há a possibilidade de haver muito mais triangulares este ano?

    Sim, sim. Ultimamente a imprensa fala muito disso, que em certas circunscrições haverá muitas triangulares dos três blocos principais. Isso é a democracia e nessa caso onde houver triangulares, os eleitores vão decidir quem é que dos três ficará à frente. 

    O que é que espera deste escrutínio?

    Muita gente está com medo que a extrema-direita chegue ao poder, mas se isto está a acontecer é porque todos os partidos que governaram a França nos últimos anos, digamos nos últimos 30 ou 40 anos, não satisfizeram as necessidades da população e a população está farta, a população está cansada de promessas não cumpridas, da falta de poder, de compra da vida cara. Tudo isso faz com que a população queira colocar no poder um partido que nunca governou, um partido que foi sempre diabolizado e actualmente esse partido fez um trabalho de branqueamento da sua imagem e a população já considera esse partido como sendo um partido normal. 

    Vamos lá ver o que acontece porque, habitualmente, quando esse partido chega próximo do poder, cada vez que obtém um bom resultado, todo o país se mobiliza e constitui o que se chama de frente republicana para travar esse partido. Dessa vez não está a acontecer, não está a ser o caso. Então vai ser uma surpresa. Estão todos num suspense para saber se esse partido vai vencer ou não porque a esquerda também se uniu de uma maneira incrível. Numa semana, a esquerda, que estava muito dividida, conseguiu unir-se e constituir a nova Frente Popular. As pessoas estão a tentar saber se a extrema-direita vai passar ou é nova frente popular.

    Estas eleições acontecem depois de, no dia das eleições europeias a 9 de Junho, Emmanuel Macron ter decidido dissolver a Assembleia Nacional. Conseguiu perceber a decisão do Presidente francês? 

    Não. Não achei que fosse uma boa decisão. No momento em que França vai organizar os Jogos Olímpicos daqui a um mês, a situação do país é complicada e todos concordam em dizer que a dissolução foi uma boa ideia. Acho que foi uma dissolução estratégica e só ele é que pode explicar a ideia porque não podemos esquecer que a extrema-direita está sempre a progredir, está em ascensão. 

    O presidente não quer deixar a extrema-direita chegar ao poder em 2027, que é o ano em que haverá as eleições presidenciais, a extrema-direita poderá chegar ao poder à Assembleia e à Presidência da República e dirigir o país durante cinco anos e consolidar-se. Ao Presidente faltam-lhe apenas um pouco menos de três anos e está a dar a oportunidade da extrema-direita para poder chegar ao poder e mostrar a sua incapacidade para depois, em 2027, não vencer as presidenciais. Acho que foi por isso que o Presidente dissolveu ele não era obrigado a dissolver, mas dissolveu no momento em que ninguém esperava.

    É inesperado também o resultado deste escrutínio. Como disse há pouco, não se sabe o que vai acontecer. Acha que os resultados desta primeira volta podem já desenhar um figurino do vencedor da segunda volta para a semana? 

    Tudo é possível e não acho que nessa primeira volta um dos grupos possa ter a maioria absoluta. Esta mobilização de hoje acontece porque a extrema-direita está à porta do poder. Eu acho que não haverá nenhum grupo com a maioria absoluta logo a primeira volta. Se a extrema-direita estiver à frente na primeira-volta, pode não acontecer o mesmo na segunda volta. Não temos a certeza que este partido possa conquistar eleitores indecisos, que certamente podem votar noutros grupos para impedir que a extrema-direita chegue ao poder. É aqui que reside a incerteza de não sabermos quem vai realmente ganhar.

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  • Legislativas: "França vive um grande momento de incerteza política"

    Depois da dissolução da Assembleia Nacional anunciada por Emmanuel Macron na noite das eleições europeias, os franceses são chamados às urnas este domingo, 30 de Junho, para eleger os 577 deputados. O professor auxiliar na Universidade de Paris-Nanterre, Christophe Araújo, afirma que "a França vive um grande momento de incerteza política".

    RFI: O que reteve desta curta campanha eleitoral?

    Christophe Araújo: Esta campanha eleitoral, como referenciou, foi muito curta. Não era nada prevista. Como já deve saber, não estávamos assim com tanta expectativa de haver novas eleições. E foi uma campanha muito rápida, com muitos confrontos. Sabemos muito bem que a reforma nacional está a ganhar cada vez mais peso e houve muitos confrontos ideológicos. Uma defesa muito forte também da parte do actual governo, que está a tentar ver se consegue limitar a fuga dos votos. Foi algo surpreendente, direi, e intenso. Muita incerteza a nível nacional, como a nível internacional, creio eu. 

    Houve tempo em duas semanas para conhecer as propostas e o que defende cada candidato dos principais partidos?

    Vemos muito bem com estas eleições legislativas antecipadas, que foi um pouco uma continuação das eleições europeias e vemos também que essas eleições europeias foram muito nacionalizadas. As temáticas dos principais candidatos, nas eleições de 9 de Junho, tinham como principal enfoque uma dimensão nacional.

    Ou seja, em vez de ter um programa que fosse europeu, era muito focado no contexto francês. Acho que as pessoas pouco lidaram com o projecto a nível nacional, porque já havia as principais temáticas, a questão da imigração, as questões económicas já estavam no espaço público e creio que houve uma continuação.

    E houve muito poucos partidos,de esquerda, do centro e da extrema-direita, que tivessem uma dimensão mais europeia, exlcuindo o candidato do PS, Raphaël Glucksmann. Os Verdes também, talvez, mas não tiveram muita audiência nesta campanha. É uma sequência quase lógica destas eleições europeias. As pessoas não estão muito focadas nos programas dos candidatos de cada círculo eleitoral.

    Quando vemos os panfletos dos partidos distribuídos esta semana, as pessões que aparecem, por na União Nacional, são o Jordan Bardella e a Marine Le Pen. E os nomes aparecem muito pequenos. Ou seja, esta dimensão local que podia haver nas legislativas está muito atrás. Aliás, acho que estas eleições aparecem como um referendo, "sim ou não", contra ou a favor de Macron. As pessoas já conhecem as temáticas porque já tinham sido muito referenciadas durante as eleições europeias. 

    Portanto, acho que as pessoas não ligam tanto ao programa, apesar de haver também, claro, estas propostas que foram lançadas com a nova Frente Popular, coligação que conseguiu realizar um programa em escassos dias, mas que tiveram tendência para aglomerar um pouco as propostas feitas nas eleições presidenciais de 2022.

    Estão a tentar reactualizar o debate sobre a pensão das reformas, muito contestada pela esquerda, e lembrar quais foram as principais medidas que foram criticadas nesta legislatura e presidencial desde 2022. 

    A França é hoje um país fragmentado?

    Por um lado há divisões, há divisões, como sempre houve em todos os países. Penso também que o presidente possa estar a incentivar esta dimensão de fragmentação e insistindo até numa ideia de uma possível guerra civil para tentar aparecer com a força política mais moderada.

    De facto, há umas fragmentações que estão cada vez mais fortes. Muito acerca da questão da imigração, da preferência nacional, do facto de dar prioridade aos franceses "de raíz", como eles dizem. A questão também da mundialização, da europeização. Há muitas tensões que estão a aparecer.

    Penso também no conflito que está a ocorrer entre Israel e Palestina. É também claro que há uma fragmentação que é incentivada, quer pela extrema-esquerda, quer também pela extrema-direita. Acho que todos os partidos estão um pouco a incentivar esta fragmentação e de facto perde-se a ligação entre os cidadãos franceses. A situação está a ficar cada vez mais tensa. Vamos ver qual será o resultado, mas acho que vai ser um pouco tenso. 

    Há motivos para apreensão quanto ao desfecho destas eleições? Falava em tensão e falava na incógnita do que pode vir a acontecer depois destas eleições legislativas antecipadas. O autarca de Lyon, por exemplo, pediu reforços policiais, Grégory Doucet mostrou-se preocupado com uma crescente instabilidade ?

    De facto, há uma tendência em haver uma contestação muito forte. Os resultados serão logicamente democráticos, não duvido disto, mas as tensões estão cada vez mais fortes e se o país se vir dominado pela extrema direita, vai haver uma reação, creio eu.

    Não sei se vai haver barricadas, não sei em que medida as coisas vão correr bem ou mal, espero eu que não vamos ter uma situação de pré-guerra civil. Creio que não, também porque as pessoas já estão um pouco conformadas com a ideia de um papel crescente da extrema-direita em França e de uma vitória dessas ideias. Poedrá haver epsaço para uma resposta republicana, mas sem o uso da violência.

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  • "Uma 'guerra civil fria' é possivelmente aquilo a que assistimos em França"- Álvaro Vasconcelos

    Em França, esta sexta-feira marca o fim da campanha para a primeira volta das legislativas antecipadas de domingo 30 de Junho, na sequência da dissolução do parlamento decidida há três semanas pelo Presidente da República, em resposta à pesada derrota do seu campo nas eleições europeias.

    Durante esta campanha extremamente curta, surgiu o retrato de uma França profundamente dividida, uma França que assusta os seus vizinhos na Europa, uma França descrente nas políticas até agora conduzida pelos tradicionais partidos de governação e com uma fracção significativa da sua população tentada pelo discurso da extrema-direita.

    Nestas três semanas de campanha, também se dramatizaram e se agudizaram as oposições, nomeadamente no campo de Macron que agitou inclusivamente o risco de guerra civil. Por outro lado, à medida que se foram normalizando as ideias e agendas da extrema-direita, diabolizou-se ainda mais a esquerda e algumas das suas figuras, como Jean-Luc Mélenchon.

    Estes foram alguns dos fenómenos que analisámos com Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.

    RFI: Em paralelo com uma banalização da extrema-direita, tem-se assistido a uma diabolização da esquerda. Qual é a base disso ?

    Álvaro Vasconcelos: Creio que, como em muitos sítios do mundo, há duas esquerdas. Há uma esquerda que é representada pelo Partido Socialista e pelos ecologistas, que é uma esquerda alinhada com os valores da integração europeia, alinhada com a ideia de que é preciso criar consensos na sociedade para que exista democracia, porque a democracia baseia-se na criação de um espaço público com alguns consensos essenciais. Depois, há uma esquerda de certa forma representada por um sector da França Insubmissa, muito particularmente por Mélenchon, que olha para esta questão dos consensos nacionais, de criar o quadro da convivência democrática entre diferentes forças, como algo contrário aos seus objectivos e, evidentemente, isto esteve presente na campanha. Por outro lado, nós temos uma particularidade em França hoje, que é, para além de existir uma frente de esquerda, a Nova Frente Popular, e um partido fortíssimo da extrema-direita. Temos ainda um centro, um partido que foi criado por Macron, que alguém chama de "partido do extremo-centro" -o próprio Macron usou essa expressão- e que, encontrando se numa situação extremamente difícil do ponto de vista político, procura chegar mais perto de objectivos que são pouco claros. Qual é o objectivo? Não é certamente de maioria absoluta, porque isso é absolutamente impossível. Mas procura chegar perto desses objectivos dizendo que "somos nós ou o caos". Isto é uma estratégia que já o general De Gaulle tem utilizado noutras circunstâncias e que é uma estratégia também condenada ao fracasso, porque é uma estratégia que radicaliza também a política francesa. Por exemplo, a declaração de Macron que estávamos "perto de uma guerra civil" é uma declaração extremamente grave, porque contribui para essa radicalização da sociedade e para a ideia que há fracturas na sociedade que são irreconciliáveis. Essa estratégia não tem tido sucesso, não terá sucesso e vai, de certa forma, contra os valores com que Macron tinha sido eleito pela primeira vez em 2017, quando apareceu como alternativa aos partidos políticos tradicionais, partidos que estavam desgastados por anos de governação sem resultado e apresentou-se como uma terceira força, o que tem acontecido várias vezes em França. E essa terceira força, para crescer e para existir, vai destruindo os partidos tradicionais e vai radicalizando sectores dos partidos tradicionais. Esse é um dos problemas. Outro problema que eu vejo, que é extremamente grave, é que as ideias da extrema-direita e, por exemplo, a ideia de há uma ameaça à identidade francesa, de que os imigrantes são uma ameaça que os valores e as conquistas como direitos para as comunidades homossexuais e LGBTQ, para os direitos das mulheres, etc, destroem a sociedade. Essas ideias extremamente reaccionárias e conservadoras que dividem profundamente os franceses, foram banalizando-se e aí a responsabilidade é de muita gente. Essa banalização ela dá-se, por um lado, porque a direita tradicional, em perda de velocidade e de eleitorado, sobretudo, foi pensando que teria mais sucesso, se assumisse as ideias da extrema-direita, porque iria retirar eleitorado à extrema-direita. Mas, como dizia o pai (Jean-Marie) Le Pen, as pessoas ao terem que escolher entre o original e a cópia, escolhem o original. O original é o racismo, mas eu acho que há muito mais sectores da sociedade francesa que contribuíram para essa banalização da extrema-direita.

    RFI: Nomeadamente a comunicação social, por exemplo. Há órgãos de comunicação social que partem do princípio de que a extrema-direita vai ganhar. Há também, inclusivamente canais de televisão que fazem campanha de forma assumida pela extrema-direita. Isto, no fundo, não vai contribuir também para orientar o voto dos franceses?

    Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida que houve um papel importante e muito significativo daquilo que podemos dizer o "marketing da sociedade do espectáculo", em que um político radical, um político de certa forma "Bouffon", um político que cria controvérsia e que diz coisas violentas, aumentaria as audiências. E aí, evidentemente, nós sabemos que há canais de televisão francesa, como a CNews, que foram, digamos, empoderados por essa corrente e que hoje estão ao serviço claramente da Frente Nacional. Mas há outros sectores. Por exemplo, há uma série de intelectuais franceses que ainda gostam de se chamar de intelectuais. Eu dou o exemplo de Alain Finkelkraut que escreveu há já vários anos um livro que se chamava "L'identité malheureuse" (a identidade triste) em que ele dizia, apesar de ele ser filho de imigrantes, que no seu tempo, integrava completamente os valores franceses, que agora há comunidades que não integram plenamente os valores franceses e que vivemos num momento de uma "Identidade triste". A teoria da "grande substituição" também é uma teoria de um intelectual. Ou seja, nós temos que pensar que a produção intelectual tem impacto também nessas questões. Evidentemente que isto se dá num contexto que facilita o desenvolvimento dessas ideias reaccionárias e o voto contra, embora o voto contra assumiu essa ideologia como sendo a ideologia que lhe pode dar um outro tipo de vida -o que é absolutamente falso- como já se viu em muitos sítios do mundo. Mas o contexto favorável é o contexto da consciência de enormes desigualdades na sociedade. Foi também toda a política agora, nos últimos anos, do Banco Central Europeu aumentar as taxas de juro, a inflação provocada pela guerra e a falta de resposta a nível europeu, mas também global, a especulação financeira, tudo isso a que se chama, e com razão, o triunfo da ideologia económica neoliberal, para o qual não há alternativa. Isso criou uma consciência muito grande na sociedade francesa da desigualdade numa sociedade onde o valor da igualdade é extremamente forte. Lembremos que a França, tem como lema a Liberdade, Igualdade e a fraternidade. Os grandes princípios da Revolução Francesa. Mas a desigualdade tem uma força muito grande na sociedade francesa. É a consciência da desigualdade. Depois, a crise de 2008, acho que também contribuiu para o crescimento da extrema-direita.

    RFI: Estava a falar do neoliberalismo. Ele é, de certa forma, personificado e cristalizado na personagem de Emmanuel Macron. E, por oposto, temos também Jean-Luc Mélenchon, que também é uma figura que divide a sociedade francesa. Ambas essas figuras foram, de certa forma, rejeitadas pelos seus próprios aparelhos partidários durante esta campanha. Apesar disso, eles não respeitaram o seu "dever de reserva". Julga que isto pode também contribuir para orientar o voto dos franceses?

    Álvaro Vasconcelos: Certamente que essa é a questão-chave das eleições francesas. Como nós sabemos, são eleições com duas voltas. E o que será decisivo para voltar atrás? A extrema-direita e a resistência republicana e os votos a serem orientados para o candidato em melhores condições para derrotar a União Nacional, seja ele de que partido for. E é a demonização recíproca, a demonização que foi feita de Macron durante estes anos por um sector da França Insubmissa, e agora a campanha que é feita contra a França Insubmissa nesse período eleitoral em particular, não facilitarão que na segunda volta das eleições, quando for um candidato da França Insubmissa ou do partido do presidente, que os votos se canalizem de um para o outro. E isso junta-se ao facto de o anti-semitismo ter reaparecido em França. Isso é algo que nós não podemos negar. Quer dizer, a França é um país onde as correntes islamofóbicas são extremamente fortes. Mas se nós formos na nossa própria análise -e eu me incluo- menosprezamos a força que o anti-semitismo histórico tem ainda nas sociedades europeias. E com a crise, nós não nos podemos esquecer que nós acabamos de viver a crise do covid, que foi uma crise extremamente grave. A crise da pandemia afectou profundamente as pessoas e apareceram as teorias mais absurdas, isto muito antes da Guerra de Gaza. Isto começou a ganhar uma dimensão significativa, durante a crise do covid, quando se começou a equacionar a vacina e a própria epidemia com os interesses da finança internacional, ligando essa finança internacional a várias teorias conspirativas sobre os judeus. Isso eu ouvi em vários sítios, até em Portugal, onde o anti-semitismo é latente, mas não tem essa dimensão. De repente, teve em França, por causa das circunstâncias actuais, e isso contribui para que uma parte da população olhe para os judeus como uma ameaça, além de olhar para os muçulmanos, o que torna a questão do racismo extremamente complexa e extremamente grave. Porque, para ser coerente, nós temos que ser claramente contra a islamofobia e contra o anti-semitismo. E aí não há dúvida que o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, não foi claro sobre essa questão, inclusive ao dizer que (o anti-semitismo) era "um problema residual". Ora, parecia-nos um problema residual, dado a dimensão da islamofobia, mas deixou de ser um problema residual. E não se deve desvalorizar nenhuma forma de racismo. Todas as questões que têm a ver com os direitos das pessoas, nomeadamente os direitos a não serem discriminados pela sua origem étnica, religiosa, nacional, etc. têm que ser tratados com enorme rigor, porque se contaminam uns aos outros e acabam por legitimar o horror, o absurdo do racismo.

    RFI: Relativamente à diabolização que tem havido, tanto de um lado como do outro, tem havido apelos para que, depois da primeira volta, os candidatos que fiquem em terceiro lugar nos seus círculos eleitorais, desistam da sua candidatura para fazerem barragem à Frente Nacional, no caso de ela estar presente na segunda volta. Todos os partidos concordaram, excepto o partido de Macron. Ou seja, a estratégia do "Ni-ni", como se diz aqui em França. É uma estratégia perigosa?

    Álvaro Vasconcelos: É uma estratégia muito perigosa, embora me pareça que é uma estratégia para a primeira volta das legislativas. É uma estratégia para tentar que o partido do Macron saia da situação extremamente difícil em que se encontra, aparecendo como o único partido que não teria nenhuma corrente extremista, que seria um partido do centro. Mas eu acho que na segunda volta, as coisas vão se colocar de forma muito diferente, algo que eu estou absolutamente convencido. Temos que relembrar que se a nova Frente Popular concorre com essa sigla, é que cada um dos partidos tem os seus próprios deputados em círculos diferentes e as pessoas sabem quem é o seu respectivo deputado. E quando forem candidatos, o Partido Socialista, os Ecologistas e o Partido Comunista, a transferência de votos do partido de Macron para esses candidatos vai passar e vice-versa. Quando forem candidatos da França Insubmissa e do partido do Macron, vai já ser muito mais difícil a transferência de votos. Mas eu penso que vai ter muito mais a ver com os candidatos específicos do que com os partidos em geral. Embora nós tenhamos visto, nos últimos dias, uma série de políticos e até intelectuais franceses a fazer abaixo-assinados a dizer que nunca votariam na extrema-direita, nem na França Insubmissa. Evidentemente que dizer isso hoje é extremamente perigoso, é grave. Estou a pensar como, por exemplo, em Manuel Valls e o caso e outros dirigentes. Hoje, eu penso que estes responsáveis não vão mudar de posição. Mas acho que os eleitores e mesmo os candidatos, quer do partido de Macron, quer do Partido da França Insubmissa, nos sítios em que tiver um candidato da extrema-direita pela frente, muitos deles irão apelar ao voto contra a extrema-direita. Vamos ver. Isso aí é um grande ponto de interrogação, mas não está bem encaminhado para que essa frente republicana exista. Mas temos que pensar que são em duas voltas as eleições e que estamos na primeira volta.

    RFI: Mencionou há pouco o risco de guerra civil que foi agitado nestes dias pelo Presidente da República. Julga que este é um risco plausível?

    Álvaro Vasconcelos: Acho isso um absurdo. Quando estive no Brasil nas vésperas da eleição do Bolsonaro, escrevi um artigo em que falei de "uma guerra civil fria", ou seja, uma guerra em que não há batalha, não há sangue, mas há uma destruição política significativa, como no Brasil, com a vitória do Bolsonaro. Uma guerra civil fria é possivelmente aquilo a que nós estamos a assistir em França, com uma sociedade extremamente polarizada como era a do Brasil, com a subida do Bolsonaro e seus apoiantes e com os partidos e pessoas a colocarem-se em dois campos absolutamente irredutíveis. A gravidade de se dizer "guerra civil" sem explicar o conteúdo, é que se está a dizer que amanhã os franceses se podem matar uns aos outros. É muito possível, perante a vitória da extrema-direita que haja em França manifestações que ganhem alguma dimensão violenta. Mas isso não tem nada a ver com uma guerra civil. Tem a ver com a revolta que a vitória da extrema-direita vai provocar e depois, como é que a polícia vai reagir. Tudo isso pode criar uma situação extremamente difícil. Mas dizer que se está em situação de guerra civil é também um velho discurso extremamente perigoso, porque é um discurso que foi usado pela extrema-direita para dizer que o que se passava nos bairros periféricos de Paris era um ambiente de guerra civil entre os franceses e os muçulmanos. Não era disso que Macron estava a falar. Estava a falar da clivagem entre a extrema-direita e a esquerda mais radical. Mas ele está a deitar fogo sobre o fogo. E não se percebe como é que um político eleito com uma política centrista (diga isto), a não ser numa situação de desespero, porque aquilo que ele tinha pensado que ia acontecer ao dissolver a assembleia, não se deu. Ele pensaria que a esquerda não se iria unir porque era o que tinha acontecido durante as europeias e portanto, o seu partido apareceria como sendo a única alternativa face à extrema-direita. Não foi assim. Criou-se uma nova Frente Popular, que é hoje a verdadeira alternativa à extrema-direita, embora esteja convencido que sem uma aliança entre a esquerda e o centro, em França, não se derrota a extrema-direita, mas não se pode polarizar a situação política ainda mais do que ela está.

    RFI: No fundo, com esta dissolução, a vítima colateral de tudo isto não terá sido o próprio campo de Macron que aparece ainda mais isolado depois desta refundação política?

    Álvaro Vasconcelos: Eu acho que o campo de Macron já estava extremamente fragilizado, que a dissolução foi uma tentativa um pouco desesperada para dar ao campo centrista uma força nova que falhou, mas se vir o resultado das europeias em que o partido de Macron teve 14,6%, já estava um partido com muitos problemas numa Assembleia Nacional extremamente dividida, em que o Partido de Macron tinha cada vez mais dificuldade em aprovar fosse o que fosse. Possivelmente havia outras alternativas, como dizem alguns dos políticos do campo de Macron, até o primeiro-ministro Gabriel Attal. Eu diria que, em tempos normais, o apelo ao voto dos eleitores é o fundamento da democracia e, portanto, isso acontece em imensos países do mundo em que, perante um impasse político significativo, se pede ao eleitorado para votar. Isso funcionava bem quando a democracia liberal era um regime que não era contestado de uma forma radical por forças iliberais de extrema-direita. Hoje, pelo contrário, esta situação, que é extremamente perigosa para a democracia. Nós hoje temos medo do voto e temos razão para ter medo do voto. Isto, para além da questão do timing, acho que é uma questão mais de fundo. Eu lembro que quando o Berlusconi perdeu pela primeira vez as eleições em Itália, houve uma discussão sobre convocar novas eleições e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, foi à Itália para dizer "não façam eleições, porque se houver eleições, será o partido Cinco Estrelas que vencerá". E não houve eleições. Puseram um tecnocrata, o Mario Monti, a governar a Itália e depois houve eleições, o Cinco Estrelas governou em aliança com Salvini e hoje temos a Meloni e a extrema-direita no poder na Itália. Ou seja, o medo das eleições é um problema grave da democracia. Mas a gente percebe porquê. Agora, onde eu seria crítico em relação à dissolução, não é que a dissolução da assembleia não seja um acto legítimo. É um acto que devia ser clarificador da situação política, mas devia ter sido feito noutras circunstâncias, não no momento em que a extrema-direita saía de umas eleições europeias muito reforçada. E o Presidente tinha esse poder de decidir quando dissolver a Assembleia e não com o impulso que a extrema-direita já tinha das europeias de fazer o país ir a eleições. Só mesmo com base naquele cálculo de que a esquerda não seria unida é que Macron pode ter pensado que faria sentido fazer eleições. Eu não entro naquelas análises psicológicas que estão hoje na moda em França, que é que o Macron se quis suicidar. Há uma série de análises que são do domínio psicológico. Eu acho que foi uma opção política, uma opção política feita no timing errado, uma opção política que era, penso eu, inevitável, cedo ou tarde. Porque se não houver uma clarificação política antes, há um problema muito mais grave para a democracia francesa, que é a vitória da Marine Le Pen em 2027. Então a extrema-direita tem a presidência e o Parlamento e aí estamos noutra França, noutra Europa e estamos numa numa situação de extrema gravidade. Travar o caminho da Marine Le Pen para a presidência é um objectivo essencial da política. Agora, para fazê-lo, tem que se fazer de forma que, de facto, trava o caminho. Porque mesmo que o partido da Marine Le Pen tenha a maioria absoluta, a coabitação não vai desgastar o partido da Marine Le Pen, na minha opinião, porque eles vão passar os três anos e tal do governo a dizer que não podem governar e não podem fazer aquilo que querem, porque o Presidente não deixa, porque o Tribunal Constitucional não deixa, porque não podem fazer referendos que alterem a Constituição e que todas as suas propostas, algumas delas extremamente perigosas, como retirar direitos aos franceses com dupla nacionalidade, todas essas propostas não avançam porque são bloqueadas pelo Tribunal Constitucional e que é preciso fazer um referendo e só podem fazê-lo se tiverem a presidência. Portanto, será extremamente perigoso.

    RFI: Entretanto, esta semana, o chanceler alemão expressou os seus receios relativamente ao desfecho destas eleições, que têm implicações também para a Europa.

    Álvaro Vasconcelos: Sem dúvida. E aí estamos num capítulo em que, com todas as críticas que podemos fazer e devemos fazer, à incapacidade que o Macron teve de unir a sociedade francesa e de, apesar de ele ter tido que enfrentar a crise do covid, que foi extremamente difícil, a crises dos "coletes amarelos" etc... o balanço do ponto de vista interno é claramente negativo, porque senão também nós teríamos uma situação em que estamos. Mas ao mesmo tempo, e no domínio europeu, a França foi um país extremamente importante nestes anos. Macron, desde o discurso da Sorbonne, tem uma visão para a Europa, visão que faltava aos outros Estados-Membros. Foi muito importante para o plano de recuperação e resiliência a seguir ao covid. A Europa construiu-se e tem-se construído desde a sua fundação no eixo franco-alemão. Ora, se a França for controlada pela extrema-direita, só será totalmente controlada se essa tragédia acontecer em 2027. Mas com um governo de extrema-direita, a dinâmica europeia da França e a capacidade da França de influenciar a política europeia será muito diminuta. O eixo franco-alemão será muito mais frágil e temos que pensar que o chanceler alemão também saiu enfraquecido das eleições europeias, para tornar a questão mais complicada. O partido da extrema-direita foi o segundo partido mais votado, os partidos da coligação ficaram todos atrás quer da CDU, quer da extrema-direita. E quando se olha para os Landers de Leste -é um susto- a extrema-direita é dominante nos landers da antiga Alemanha do Leste. Depois, há a Itália. O terceiro maior país europeu tem um governo de extrema-direita. Portanto, se tiver um governo de extrema-direita em França e uma Itália dominada pela extrema-direita e uma Alemanha enfraquecida, teremos um problema gravíssimo para a Europa. Ou seja, eu diria que o chanceler alemão não está preocupado apenas com a situação francesa. Deve estar preocupado com a sua própria situação, com o peso da Meloni na Itália, e espero que ele tenha o mesmo nível de preocupação que eu tenho. E, evidentemente, com a situação francesa. Embora no domínio da coabitação, o Presidente francês continuará a ter muito peso nas questões europeias, mas muito enfraquecido. 

    25 min
  • Amílcar Cabral e José Carlos Schwarz inspiram espectáculo Ora di Kanta Tchiga

    O palco do B.Leza, em Lisboa, vibrou de forma intensa num espetáculo criado pela Casa da Cultura da Guiné Bissau. Celebrar o centenário de Amílcar Cabral e homenagear José Carlos Schwarz foi o mote da primeira edição do espectáculo Ora di Kanta Tchiga.

    Numa noite em que se testemunhou um dos momentos mais emblemáticos de celebração da cultura guineense, onde a música comprometida brilhou com potência redobrada, o palco do espaço lisboeta B.Leza transbordou de energia com as prestações de Maio Coopé, Karina Gomes e Remna, filho de José Carlos Schwarz.

    A força inspiradora e o engajamento de Amílcar Cabral, o "pai da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau", e José Carlos Schwarz, nome cimeiro da história da música guineense, vibraram de forma intensa num espectáculo criado pela Casa da Cultura da Guiné Bissau com o apoio da Fundação José Carlos Schwarz.

    Após o primeiro grande evento da Casa da Cultura da Guiné-Bissau, a RFI falou com Remna, músico e membro fundador da Fundação José Carlos Schwarz, e Bia Djassi, da Casa da Cultura da Guiné-Bissau.

    Link Casa da Cultura da Guiné-Bissau:

    https://casadaculturagb.org/

    11 min
  • "Ucrânia é o grande desafio" da Hungria na presidência do Conselho da UE

    A Hungria assume a presidência do Conselho da União Europeia no próximo dia 1 de Julho. São conhecidas as posições eurocépticas do primeiro-ministro, Viktor Orbán, e ainda os desentendimentos no apoio à Ucrânia e à indústria de defesa europeia. O analista em assuntos europeus, Paulo Sande, fala das consequências desta presidência húngara, sublinhando que o apoio à Ucrânia será o grande desafio. 

    RFI: A Hungria assume a presidência do Conselho da União Europeia, a 1 de Julho. São conhecidas as posições eurocepticas de Viktor Orbán. O que é que se pode esperar desta presidência?

    O que se espera desta presidência é que não seja um entrave para as várias políticas e orientações da União Europeia em matérias, nomeadamente, relacionadas com a guerra na Ucrânia. No entanto, em relação a outras políticas europeias, sabendo que está a ser feita uma transformação em todos os órgãos e instituições da União Europeia, uma presidência desta natureza pode não ser tão complicada do ponto de vista das consequências para o bloco europeu. Considero que a grande questão da Hungria será a relação com a Ucrânia.

    O que se pode esperar do apoio à Ucrânia e à indústria de defesa europeia, dois temas especialmente significativos, dados os laços historicamente estreitos de Viktor Orbán com Moscovo?

    Aquilo que faz a presidência do Conselho da União Europeia, que é o nome formal destas presidências semestrais, é gerir as agendas, gerir as reuniões do Conselho de Ministros- nas suas várias declinações e perante as várias formações- onde estão ministros de diferentes áreas. Eu diria que poderemos assistir ao retardamento de muitas das decisões indispensáveis, sabendo que os alemães têm pressionado muito no sentido de conseguir ainda mais apoio para a Ucrânia.

    O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, está em Bruxelas para assinar um pacto de segurança com a União Europeia….

    Há esta necessidade por parte da Ucrânia, sobretudo neste período muito complicado. No entanto, é preciso lembrar que não tem a ver com a presidência do Conselho da União Europeia por parte da Hungria, mas sim com as eleições em França. Saber qual será a pol´tica da França.  A Ucrânia sabe que precisa, mais do que nunca, não apenas da concretização das promessas, mas precisa das promessas. Ou pelo menos precisa de um sinal político de que o apoio europeu não esmoreceu

    Precisa de uma Europa mais unida?

    Volodymyr Zelenskysabe sabe que é isso está em causa. Há ainda outros acontecimentos a ter em conta, nomeadamente a situação muito complicada na Alemanha, as eleições nos Estados Unidos, no final do ano, tudo isto representa para a Ucrânia uma ameaça existencial, num período em que a situação no terreno está complicada. Por outro lado, Putin e a liderança da Rússia têm multiplicado as suas diligências diplomáticas, nomeadamente com o reforço de laços.

    Refere-se à Coreia do Norte?

    Exactamente. Zelensky sabe que tudo isso está em causa e, portanto, o que ele precisa é desse tipo de afirmações.

    Depois de se ter encontrado com o chanceler alemão Olaf Scholz, em Berlim, com a Primeira-Ministra George Meloni, em Roma, o chefe do executivo húngaro encontrou-se, ontem, com o Presidente Emmanuel Macron. O que é que procura Viktor Orban com estes encontros?

    Viktor Orbán procura convencer os restantes líderes europeus para aquilo que têm sido as reservas colocadas pela União Europeia, em particular pela Comissão, nos últimos anos, relativamente à forma como a democracia húngara funciona. Orbán quer convencê-los- aproveitando no fundo este período e formalmente fazendo esse périplo- demonstrando a sua boa vontade em termos de integração europeia. Ou seja, normalizar um pouco como tem feito, nos últimos tempos, muitas das lideranças e até partidos políticos, alguns deles em vias de chegar ao poder.

    Normalizar as políticas?

    No fundo, Viktor Orbán quer reduzir a preocupação dos restantes líderes europeus relativamente à possibilidade desses partidos se tornarem Governo em vários países europeus, como é o caso de Viktor Orbán. E sabemos que  Hungria têm tido problemas com a Comissão Europeia

    A Hungria que viu bloqueados 19 mil milhões devido às violações de direitos de Estado…

    Esta é a oportunidade para conseguir isso, a partir do momento em que vai assumir a presidência do Conselho da União Europeia, ao mesmo tempo que cria obrigações do ponto de vista do funcionamento da própria União Europeia.

    Há aqui uma espécie de relação transacional em que Viktor Orbán, no fundo, procura obter vantagens e, nomeadamente, libertar uma parte desses recursos ou todos, se for possível, com a promessa dessa normalização. Vai tentar justificar aquilo que, aos olhos de muitos europeus, não é aceitável. Não é apenas a relação com a Rússia, mas também o funcionamento da própria democracia húngara.

    Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia vão decidir se aprovam o nome, nomeadamente António Costa, para a liderança do Conselho Europeu, Ursula Vanderlan para um segundo mandato na Comissão Europeia e a primeira ministra da Estónia, Casa Kallas, para chefe da diplomacia comunitária. Apesar do consenso sobre estes três nomes, os primeiros-ministros da Itália, Geórgia Meloni, e da Hungria, Viktor Orban, já demonstraram estar contra o pacote que está destinado aos cargos de topo. Que margem têm estes dois países para negociar?

    Eles não podem fazer muito. No entanto, é preciso ver que Geórgia Meloni e Viktor Orban têm posições diferentes. No fundo, o que Geórgia Meloni veio dizer é que quer ter uma uma participação nas negociações, tendo em conta o resultado do partido Fratelli de Itália, nestas últimas eleições europeias, e o facto do grupo político a que pertence na União Europeia ter passado a ser, pelo menos em princípio, o terceiro grupo mais importante do Parlamento Europeu. Órban faz um pouco a mesma coisa. Tem, apesar de tudo, uma posição e um ponto de partida diferente, tentando neste momento conseguir outro tipo de reconhecimento por parte dos seus pares.

    A escolha da actual presidente da Comissão Europeia como candidata ao um próximo mandato é uma escolha quase que obrigatória, no sentido em que ela foi apresentada como a candidata principal. Vai ser feita essa votação, mas a partir do momento em que o acordo é feito em conjunto, não há margem para que não seja aprovada.

    No caso do presidente do Conselho Europeu, por exemplo, há uma votação. Essa votação implica maioria qualificada reforçada de 72% dos países e 65% da população que à partida está garantida, não se podendo opor a essa escolha. E em relação à Kaja Kallasa [primeira-ministra da Estónia] a escolha é obviamente simbólica.

    Trata-se de uma mensagem para a Rússia?

    É uma mensagem clara, associada à escolha do Secretário-Geral da NATO, para a Rússia, mostrando que a Europa continua unida nos seus desígnios de se opor aos objectivos da Rússia nesta guerra com a Ucrânia. O facto de ser alguém de uma área que está directamente preocupada com a ameaça russa, estamos a falar dos Estados Bálticos, é uma mensagem forte no sentido de dizer nós continuamos empenhados nesta via.

    8 min

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