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  • UE: novo Parlamento Europeu marca viragem à direita

    Começa a 16 de Julho a nova legislatura europeia, com um hemiciclo em que o grupo centrista Partido Popular Europeu mantém a liderança, seguido pelos Socialistas. A novidade desta nova assembleia é a expansão da extrema-direita, dividida em três grupos que juntos controlam 20% do Parlamento europeu. A campanha eleitoral ficou marcada pela ausência das questões ambientais e pelos debates hostis à imigração. 

    O hemiciclo europeu acolheu a 16 de Julho a primeira sessão plenária e os 720 eurodeputados da nova legislatura, em Estrasburgo. 

    O grupo de centro-direita Partido Popular Europeu (188 assentos) continuará, nos próximos cinco anos, a controlar a maior bancada do Parlamento Europeu. Os Socialistas e Democratas (136) representam a segunda maior força política, apesar de uma ligeira diminuição de mandatos.

    A novidade desta nova assembleia prende-se com a expansão da extrema-direita, agora dividida em três grupos (mais um do que na anterior legislatura) que, juntos, somam 187 assentos. 

    Nesta ala da direita radical aparecem dois grupos novos: os Patriotas pela Europa (com 84 eurodeputados), composta pelos húngaros do Fidesz, os italianos da Liga, a União Nacional francesa e o Chega português; e o Europa das Nações Soberanas (25) composto essencialmente pela AfD alemã.

    O grupo já existente dos Conservadores e Reformistas Europeus da família política da Primeira-ministra italiana Giorgia Meloni também conquista novos assentos (78). 

    Entretanto, o grupo dos Verdes encolhe, com apenas 53 eurodeputados, menos 18 do que na anterior legislatura e a Esquerda, apesar de alcançar uns lugares suplementares, conta apenas com 46 assentos. 

    Ausência das questões ambientais na campanha eleitoral

    Neste contexto, as questões migratórias e ambientais são as duas vítimas colaterais, com um expectável reforço de políticas restritivas em termos de migrações e a ausência quase total das questões ambientais no debate político comunitário. 

    Para Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, as políticas ecologistas poderão encontrar dificuldades com a viragem à direita do Parlamento europeu.  

    A isto se deve não só "a queda dos Verdes à escala europeia", como também a estratégia dos centristas do PPE "que não vão querer perder votos no centro direita" e poderão, por conseguinte, "vir a fazer cedências consideráveis na política ambiental nos próximos anos", de acordo com o activista. 

    O Pacto Ecológico Europeu, que marcou a última legislatura, impulsionado inicialmente pela grande coligação entre Socialistas e PPE acabou por sofrer "obstáculos" em diferentes áreas, desde a lei do restauro da conservação à lesgislação relativa aos automóveis, o que deixa antever "uma legislatura ainda mais difícil", analisa Francisco Ferreira. 

    A ciência, as associações, as organizações ambientalistas e os partidos políticos mais conscientes da necessidade de políticas sustentáveis poderão ter um papel importante. Para o ambientalista, trata-se de "procurar o diálogo, procurar pontes e soluções", "mesmo com a extrema-direita", mesmo que não sejam medidas "tão desejáveis" como poderiam ser numa outra constituição parlamentar.

    "Não podemos arriscar um recuo das políticas devidamente estruturadas e fundamentadas das últimas décadas em termos de sustentabilidade das últimas décadas. É crucial percebermos que estão em causa questões fundamentais de preservação do planeta", conclui Francisco Ferreira. 

    "No caso das migrações, o status quo é difícil de mudar"  

    A taxa de participação nestas eleições europeias foi de 51% (dos cerca de 360 milhões de europeus aptos a votar), cerca de um ponto percentual a mais do que em 2019. Estes baixos índices podem ser relacionados, em parte, com o sentimento por parte dos eleitores europeus de que o processo de tomada de decisões na UE é complexo, distante e desconectado da realidade diária. 

    A composição fragmentada do novo Parlamento, incluindo as divisões entre os próprios grupos de extrema-direita, pode reforçar este sentimento. 

    Segundo o investigador Pedro Góis, especialista das questões migratórias, "no que toca às políticas migratórias, apesar da subida da extrema-direita, não haverá consenso suficiente para alterar as políticas vigentes". 

    No caso do Pacto sobre Imigração e Asilo, aprovado em Abril, foram notórias as divisões no próprio campo das direitas. Giorgia Meloni, na Itália (país de entrada para os imigrantes vindos de Africa), elogiou o texto, porque previa uma "solidariedade obrigatória" entre Estados-Membros no acolhimento dos migrantes.

    Este mesmo pacto foi criticado por Marine Le Pen em França, ou por Viktor Orbán na Hungria, cada país defendendo opiniões opostas consoante a geografia e economia. 

    Com cerca de 20% do hemiciclo europeu controlado pela extrema-direita, o certo é que "estamos perante um parlamento mais à direita e, portanto, tendencialmente menos capaz de fazer mudanças humanistas", de acordo com o investigador. No entanto, "o status quo actual é difícil de mudar, já que não haverá muita coragem para mexer no Pacto das Migrações a menos que haja algum fluxo de migração inusitado em direcção à Europa e fora daquilo que temos assistido nos últimos anos", ainda segundo Pedro Góis. 

    Resta ainda a margem de manobra de cada Estado-membro, sendo que estes podem decidir ser mais generosos do que aquilo a que o Pacto obriga. Caso as medidas não sejam respeitadas, cabe à Comissão Europeia tomar posição. "Até agora, a Comissão não foi capaz de assumir esse papel, e o futuro dependerá muito do ou da futura Presidente deste órgão. Neste cenário, países como Portugal, como a Espanha, como a França, vão ter que servir de contrapeso às medidas que são actualmente tomadas na Hungria ou em Itália e que vão em sentido contrário àquilo que são as tendências migratórias às necessidades que a Europa tem de acolher migrantes", conclui Pedro Góis.    

    A 16 de Julho, dia de abertura da nova legislatura, foi ainda reeleita para Presidente do Parlamento Europeu a maltesa Roberta Metsola. 

    A 18 de Julho, os eurodeputados decidirão se mantêm, ou não, Ursula Von Der Leyen como Presidente da Comissão Europeia. 

    10 min
  • Ataque a Donald Trump mostra “polarização extrema” nos Estados Unidos

    O ataque deste sábado contra Donald Trump mostra a “polarização extrema” da sociedade norte-americana. A imagem que fica para a história é a de um ex-Presidente de punho erguido, com um fio de sangue no rosto, ao lado de uma bandeira americana. Um “símbolo fotográfico”, na análise do investigador Álvaro de Vasconcelos, para quem a campanha dos republicanos ficou “muito facilitada” com Trump “transformado numa espécie de mártir sob protecção divina”. Já o actual Presidente Joe Biden “ganhou a possibilidade de aparecer como o homem que reconcilia a América”.

    A imagem correu mundo e é "histórica", como escreve o jornal francês Libération. Donald Trump, de punho erguido, com um fio de sangue no rosto e ao lado de uma bandeira americana, após um ataque a tiro em plena campanha, este sábado à noite, na cidade de Butler, na Pensilvânia. Este ataque poderá alterar o curso da campanha eleitoral e ter um impacto no resultado das eleições presidenciais de Novembro? Foi o que perguntámos ao investigador português Álvaro de Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.

    Álvaro de Vasconcelos considera que Trump sobreviveu ao ataque com uma imagem de “mártir sob protecção divina” e que a campanha dos republicanos ficou “muito mais facilitada”. Por outro lado, o investigador pensa que o Presidente Joe Biden pode ganhar fôlego como “o homem que reconcilia a América”, mas, para ganhar as eleições, o Partido Democrata teria de investir uma candidata que desse “novo alento” aos militantes.

    RFI: Comecemos com a imagem do fotojornalista Evan Vucci, em que Donald Trump aparece com um fio de sangue no rosto, levanta o punho e há uma bandeira americana… Em termos de leitura política, o que significa esta imagem no contexto de campanha eleitoral?

    Álvaro de Vasconcelos, Investigador: "No fundo, essa imagem vem valorizar, dar um símbolo fotográfico forte àquilo que tem sido a campanha de Trump e como é que os ‘trumpistas’, os membros do movimento MAGA (Make America Great Again) vêem o seu candidato e antigo Presidente como homem combativo, símbolo de uma América poderosa, de uma América patriótica - aí está a bandeira - de uma América pronta para o combate. Aliás, acompanharam essa imagem as palavras de Trump: ‘Fight! Fight! Fight!’ Houve ali um instinto político de Trump. Trump foi ele mesmo e reafirmou a sua visão de masculinidade, de combatividade, mas também deste poder de uma América combativa, de uma América que recusa o declínio."

    Numa altura em que de Joe Biden, o actual Presidente, teve de passar os últimos tempos a garantir que estava de boa saúde e numa altura em que a sua idade, 81 anos, três anos a mais que Trump, é um tema de campanha, Donald Trump pode capitalizar com o ataque de que foi vítima? Pode criar essa tal imagem de força? Ou, por outras palavras, o punho erguido de Trump após o tiro é o fim da campanha democrata?

    "Bem, eu poria as questões talvez um bocadinho diferentes. Naquele momento, essa afirmação da força de Trump e da sua visão da América pode ter triunfado e é a imagem que vai ser utilizada durante a campanha, certamente, pelo Partido Republicano. Mas não é a única. Já ontem surgiu outra, também muito significativa, uma imagem que foi divulgada por uma das noras de Trump - que é, aliás, uma alta personalidade do Partido Republicano - e que mostrava Trump com “a mão de Deus” a protegê-lo. Trump não só é o homem que procura essa imagem da velha América do Oeste, da América guerreira, mas também está muito ligado ao movimento evangélico e vai aparecer a ideia que ele foi salvo por vontade divina. Isso é um aspecto que é importante.

    O outro - para Trump e ainda muito mais para Biden ou quem for o candidato do Partido Democrata – é que vai ser necessário ser o candidato que reconcilia a América, que combata esta polarização extrema que levou até a uma tentativa de assassinato, mas que levou também ao assalto pelos ‘trumpistas’ do Capitólio na recusa de reconhecimento dos resultados eleitorais. Essa América extremamente polarizada, em grande parte pela virulência com que Trump não aceitou o resultado das eleições, mas também pela forma como cada vez mais o Partido Democrata foi identificando Trump como um extremista - que ele é - e com o risco que ele representava para a democracia americana -o que também é verdade que representa um risco sério para a democracia americana. A campanha era muito à volta destes dois temas. Hoje acho que o discurso – quer o discurso de Biden, quer o discurso de Trump na Convenção Republicana – a questão da reconciliação dos americanos vai passar a ser um aspeto importante."

    Nas primeiras entrevistas que Donald Trump deu depois do ataque, ele falou em unir a América e o mundo, portanto, ele já utiliza esse argumento. Os republicanos apontaram o dedo ao discurso dos democratas, considerando que Biden teria favorecido este clima de violência. Houve até um senador (J.D. Vance) que disse que o Presidente Biden "levou directamente à tentativa de assassínio de Trump". Quando se vê o ataque ao Capitólio em 2021, quando se vê a facilidade com que se adquirem armas nos Estados Unidos, estamos perante um aproveitamento político desta tentativa de assassínio ou os republicanos também têm a sua responsabilidade nesta violência política extrema?

    "Que os republicanos são os principais responsáveis dessa violência extrema, qualquer análise da política americana dos últimos anos o confirma. O discurso racista, o discurso anti-imigrante, o discurso conspiracionista sobre a existência de um Estado dominador que controla tudo, as teorias conspirativas que acompanharam, por exemplo, a pandemia e o COVID, por parte dos republicanos... Tudo isso, aliás, e fundamentalmente a recusa dos resultados das eleições e a afirmação de que as eleições tinham sido roubadas ao candidato republicano Trump, tudo isso só polarizou a América. A América está polarizada, de facto, está pluralizada por muitas razões, mas os republicanos tiveram uma enorme responsabilidade na polarização da América. Disso eu não tenho dúvidas."

    No entanto, a América já tem uma longa tradição de violência política. Houve diversos episódios em que candidatos, presidentes e ex-presidentes foram atacados e mortos - os casos mais conhecidos são os de Abraham Lincoln, em 1865, e John F. Kennedy, em 1963. Pode-se falar em polarização extrema nos últimos anos ou é a continuação, entre aspas, dessa violência política?

    "Essa violência política existiu sempre na América, num país onde é facílimo ter uma arma, ter uma arma semiautomática quase metralhadora, e pode-se transformar uma arma semi-automática em metralhadora com autorização do Supremo Tribunal de Justiça americano, que ainda recentemente considerou que essa lei que proibia a transformação de armas em metralhadoras não ia contra os direitos fundamentais dos americanos, pelo contrário, que devia ser defendida, essa América existe, mas o que é novo é que o Partido Republicano e o Partido Democrata não sejam partidos que procuram, de certa forma, uma unidade da América, apesar das suas enormes divergências. E, sobretudo, esse desenvolvimento deu-se no Partido Republicano que se tornou num partido muito mais radical, um partido populista, um partido muito mais influenciado pelas ideias da extrema-direita. Isso é uma nova polarização.

    A antiga polarização que, se calhar, não se devia chamar polarização, a não ser que fôssemos ao tempo da guerra civil em que houve, evidentemente uma extrema polarização que acabou numa guerra civil. Essa cultura de guerra civil e as divisões provocadas pela guerra civil e as razões que levaram à guerra civil, nomeadamente a questão da escravatura, continuaram a existir na sociedade americana. Mas o Partido Republicano e o Partido Democrata não eram partidos que estivessem em campos diametralmente opostos, ou seja, o Partido Democrata a defender a democracia, a Aliança Atlântica, a relação estável com a Europa e um partido republicano extremamente conservador e contra a continuação do apoio significativo americano à defesa da Europa no contexto da guerra da Ucrânia. Portanto há uma evolução, mas a evolução deu-se fundamentalmente no Partido Republicano e reflecte certamente uma polarização da sociedade americana."

    Paralelamente, temos uma crise no Partido Democrata, com um crescente número de vozes que apela ao fim da recandidatura de Joe Biden e à nomeação de um novo candidato - face até às dúvidas sobre o estado de saúde do Presidente de 81 anos (ainda que, repito, Donald Trump tenha apenas menos três anos). Como é que vai reagir ou como é que deve reagir o Partido Democrata? Poderá haver, de facto, um novo candidato em vez de Biden? Quem?

    "Eu estava convencido, antes desta tentativa de atentado contra Trump, que o Partido Democrata ia fazer um caminho para substituir Biden e a candidata óbvia para isso seria a vice-presidente Kamala Harris, que, aliás, nas sondagens aparecia numa situação mais favorável para derrotar Trump que o próprio Biden. Neste momento, não sei se essa dinâmica e esse debate vão continuar ou se Biden vai assumir, de uma forma clara, o homem que é capaz de reconstruir a América e se isso é possível.

    Ao mesmo tempo que a campanha do Trump ficou muito facilitada com o novo tema e com o seu candidato transformado numa espécie de mártir sob protecção divina, no caso da campanha de Biden, ele também ganhou, eventualmente, a possibilidade de aparecer como o homem que reconcilia a América, como um velho ‘sage’ [sábio], um homem com muita experiência, e isso pode travar essa discussão no Partido Democrata.

    Mas eu continuo convencido - talvez ainda mais hoje do que estava antes destes últimos acontecimentos à volta de Trump - que se o Partido Democrata não muda de candidato, se não encontra uma candidata, uma mulher como a Kamala Harris que é naturalmente a candidata que deveria ser escolhida, que seja capaz de galvanizar os democratas e dar um novo alento à campanha democrata, como na América se ganham as eleições galvanizando os seus apoiantes e levando-os a quererem ir votar porque muito pouca gente vota, isso vai ser muito mais fácil no Partido Republicano, com o que passou com Trump, do que no Partido Democrata. Portanto, é mais urgente para o Partido Democrata encontrar um candidato que tenha essa capacidade, mas é mais difícil dada a circunstância."

    12 min
  • “Hécube, pas Hécube”, a reivindicação do direito à justiça dos mais vulneráveis

    Decorre até ao próximo domingo, 21 de Julho, a 78a edição do Festival de Avignon. A segunda edição dirigida pelo português Tiago Rodrigues, que assina igualmente a peça “Hécube, pas Hécube”.

    Uma peça interpretada por actrizes e actores da Comédie Française e que entrelaça a tragédia grega com a vida pessoal de uma actriz, Nadia, na vida como no palco luta por justiça. Uma peça baseada num escândalo de maus tratos a crianças autistas que aconteceu em Genebra, na Suíça.

    "Inspirei-me de um escândalo de maus tratos de crianças autistas que aconteceu em Genebra e continua, aliás, nos tribunais e de que tive conhecimento pelos jornais. Mas também descobri, mais tarde, que uma actriz com quem eu trabalhava era mãe de uma das crianças que tinha sido maltratada e liderava, por assim dizer, uma queixa contra o Estado no tribunal.

    Algum tempo mais tarde, quando convidado pela Comédie Française para criar uma peça, essa história, a memória dessa história, continuava a interpelar-me ou a inquietar-me... a dar-me vontade de fazer qualquer coisa, na realidade e, na altura, com a autorização, obviamente dessa pessoa, inspirei-me muito livremente, nesse caso, para escrever uma história de uma actriz que é também mãe de uma criança que infelizmente foi maltratada numa instituição do Estado e que faz queixa, exigindo justiça para o seu filho.

    Nessa altura, pensando no que é que poderia ser essa ficção, perguntava-me que peça é que esta actriz ficcional pode estar a ensaiar no teatro? E rapidamente a resposta foi Hécube, porque é uma tragédia grega de Eurípides, que, talvez melhor que qualquer outra peça que eu conheça desde há 25 séculos, descreve a cólera, a raiva de uma mãe por amor do seu filho, exigindo justiça, reclamando justiça para o seu filho. E esse superpoder, que é essa raiva que vem do amor incondicional, que permite às vezes a uma mãe de mover um carro só com um dedo para salvar o seu filho. E essa força, associada à reivindicação do direito à justiça e o direito à justiça dos mais vulneráveis, neste caso uma criança e, ainda por cima, no outro caso, na ficção que eu destilo a partir de casos verídicos de crianças maltratadas e autistas. Há uma entrada do Eurípides neste trabalho, porque eu precisava de uma peça que pudesse dialogar com esta ficção inspirada num caso verídico e que permitisse, de alguma forma, que atravessar um sofrimento pudesse ser iluminado de alguma maneira pela representação do sofrimento.

    O que é que eu quero dizer com isto? Uma actriz, como qualquer artista ou qualquer pessoa em contacto com a arte, também procura pôr em relação a representação, por exemplo, do sofrimento com o sofrimento e, por vezes, o que eu observei, por exemplo, é que actores, actrizes atravessam sofrimentos na sua vida, mas também os representam em palco e que a representação do sofrimento em palco pode ajudá-los a atravessar o sofrimento na vida.

    Lavam as lágrimas ali no palco?

    Como nós quando atravessamos qualquer coisa na vida e a vemos mais ou menos representada, mesmo de uma forma longínqua, sentimos, enquanto espectadores, que aquilo que acabámos de ver nos diz, no mínimo, que não estamos sós, que o nosso sofrimento é um sofrimento partilhado noutros lugares, noutros tempos, também pela espécie humana.

    Nesse sentido, o Eurípides serve para compreendermos melhor o que é que acontece no nosso quotidiano e o nosso quotidiano ajuda-nos a compreender melhor o Eurípides. E é esse ir e vir que na peça é muito presente, em que saltamos em permanência de uma cena que se passa no teatro, nos ensaios com texto do Eurípides, para uma cena que se passa no gabinete de um procurador e que tem a ver com a história desta personagem. Às vezes uma cena que já nem sabemos bem onde é que se passa, porque aquilo é um labirinto e os dois mundos começam a misturar-se porque a ficção está sempre presente nas nossas vidas também.

    Mas esse vai e vem na peça também é feito pelo trabalho de luzes.

    As luzes do Rui Monteiro, que tive um grande prazer em convidar para trabalhar com a Comédie Française, também ele pela primeira vez, e o som do Pedro Costa, que são elementos muito fortes desta equipa portuguesa, essencialmente, com o José António Tenente nos figurinos e o Fernando Ribeiro na cenografia, a trabalharem com este grande monumento vivo da cultura francesa e do teatro francês, que é a Comédie Française.

     As luzes e o som são muito importantes para nos darem a mão e nos encaminharem por esse caminho, que é o de saltar permanentemente de Eurípides para o presente, do presente para o teatro, do teatro para a vida quotidiana. Sempre guiados também por esta personagem Nadia, actriz e mãe de uma criança autista que foi maltratada, interpretada pela Elsa Lepoivre, que com muitos poucos recursos, com uma enorme técnica, uma enorme sensibilidade, uma enorme humanidade, mas sem nos explicar demasiado, nos faz atravessar este caminho entre dois mundos e duas experiências que são a da vida quotidiana e a da ficção em palco. A luz e os sons estão lá para amplificar esse trabalho de viagem guiada que é feito pela Elsa Lepoivre junto do público.

     

    Como é que foi trabalhar com a Comédie Française?

    Foi magnífico trabalhar com a Comédie Française, porque se à partida era já uma honra, mas também uma responsabilidade que podia criar alguma pressão, é a companhia de teatro em actividade mais antiga do mundo e a companhia de Molière, é um monumento vivo do teatro francês. Ainda por cima, ia fazê-lo enquanto director do Festival de Avignon, é a primeira vez que acontece, que um director do Festival de Avignon em funções dirige a Comédie Française. Fazê-lo com estreia no festival, na Pedreira de Boulbon (Carrière de Boulbon) e com a digressão europeia que resta. A rara oportunidade de um autor português de entrar no repertório da Comédie Française.

    Tudo isso poderia ser tão importante que criasse uma angústia e uma pressão. Mas depois, o que acontece com a Comédie Française, essa potência que é absolutamente indispensável para poder fazer um certo tipo de teatro e conseguir chegar a tanto público quanto aquele que eles chegam, é que quando cruzamos aquelas portas, é como se tivesse 20 anos e estivesse no Bairro Alto [Lisboa], numa cave, a tentar fazer teatro com amigos. Exactamente o mesmo prazer.

    Tudo é sobre o prazer de fazer teatro para guardar esse prazer para o momento em que partilhamos os espectáculos com o público. Eu vou para cada ensaio, fui para cada ensaio, vou para cada representação com um sorriso nos lábios, como se estivesse a começar a fazer teatro na minha vida.

    O Tiago escreve em português. Como é que é esse processo de tradução? Porque as palavras têm que ser escolhidas para terem exactamente o significado que o Tiago lhes quer dar. É solitário, é consigo? Como é que isso se passa?

    Todo o trabalho, mesmo de escrita, para mim, é bastante colectivo. Evidentemente, exige momentos de alguma solidão e de concentração, mas é sobretudo colectivo. Eu escrevo em português mesmo se a peça é representada em francês e se escrevo durante os ensaios a partir do trabalho que vou fazendo com os actores.

    Mas escrevo em português porque, embora possa escrever em francês ou em inglês ou em espanhol, que são línguas que nas quais sou mais ou menos fluente, os erros que eu faria escrevendo em francês são verdadeiros erros involuntários, enquanto que os erros que eu faço ao escrever em português são escolhas, são liberdades que eu tomo, são transgressões poéticas da regra da sintaxe e da gramática. E, portanto, escrevo em português para ter essa liberdade no momento da escrita.

    Colaboro com um companheiro de viagem de há mais de dez anos, Thomas Resendes, que traduziu quase todas as minhas peças para francês e com quem trabalho durante o processo de trabalho e que muitas vezes está presente nos ensaios. O que eu faço é escrever de manhã para que possa depois ir para o ensaio à tarde. O Thomas, muitas vezes, está no ensaio, mas está a traduzir o que eu escrevi de manhã para me enviar à noite para eu rever, para que no ensaio de amanhã possamos trabalhar em francês aquilo que eu escrevi ontem. Portanto, há um gesto de tradução que é muito rápido, muito inicial, porque aquelas cinco ou seis páginas, por exemplo, de uma cena, serão reescritas várias vezes por causa das tentativas com os actores. O que significa que o tradutor terá direito a aperfeiçoar também a sua tradução. Mas o primeiro gesto tem de ser muito rápido para podermos continuar a trabalhar e continuar a ensaiar. E é um processo que se faz por camadas. Cada cena de uma peça minha foi escrita oito, nove, dez vezes até chegar àquela forma, o que significa traduzida oito, nove, dez vezes e ensaiada muitas vezes com os actores, até para permitir também essas reescritas.

    É um trabalho colectivo, por camadas de muita escuta, de muita experimentação, em que a ideia inicial muitas vezes transforma-se completamente. Outras vezes estamos só a trabalhar em detalhe, mas é sobretudo um grande prazer de poder escrever informado pela imaginação dos outros e o sentido crítico dos outros. Quando não tenho ensaios, não consigo escrever. Porque é que eu hei-de escrever se depois nenhum actor vai ler aquilo?

     

     

    O festival termina no próximo fim-de-semana. A edição deste ano começou uma semana mais cedo e levou com duas voltas de eleições legislativas antecipadas pelo meio. Para já há um balanço positivo?

    Necessariamente que é um festival atípico porque antecipado nas suas datas para nos adaptarmos às datas dos Jogos Olímpicos, o que obrigou a grandes adaptações. E depois, mesmo antes do início do festival, sobressaltado pela dissolução da Assembleia Nacional em França e a convocação de eleições, ainda por cima concomitantes com a primeira semana do festival. Isso obrigou-nos também a desenvolver estratégias para que o festival que nós achamos essencial que se realize mesmo nos períodos de maior incerteza política, talvez sobretudo nos momentos de maior incerteza política, pudesse acontecer da melhor maneira.

    O público disse presente e está. Temos as salas cheias. Uma bela taxa de ocupação até aqui. Evidentemente, a presença do público nas salas era algo que nos preocupava, porque vimos como o anúncio da dissolução da Assembleia punha em causa aquilo que estava a ser uma grande adesão do público na bilheteira, na preparação do festival até essa altura.

    Estamos felizes de perceber que, mesmo no período entre as duas voltas das eleições, que eram períodos em que o espírito de cada pessoa estava muito ocupada, com a incerteza e a ameaça à democracia que pairava sobre um eventual resultado que desse a vitória e a maioria absoluta à extrema-direita, vimos como estarmos juntos à volta do teatro, de repente, tinha um valor fundamental que permitia ao público de sair de uma angústia individual e entrar numa preocupação colectiva que é muito mais rica e muito mais fértil e que se pode viver também através do teatro.

    Foi uma primeira semana muito intensa porque, evidentemente, o festival sentiu também a obrigação de se mobilizar e mobilizar outros para fazer apelo à barragem à extrema-direita, à União Nacional, como nós dizemos em Portugal. E, felizmente, a lucidez democrática dos franceses ganhou estas eleições e permitiu que hoje estejamos num festival que é muito mais de celebração do que de resistência. E nós sentimos também essa diferença. Não é que haja mais público, o público já estava lá, já tínhamos muito público, mas sentimos a diferença de como, a partir de segunda-feira [8 de Julho], apesar da noção de que a ameaça continua a pairar, de que há um trabalho enorme a fazer, a celebração da afirmação absolutamente legítima do povo francês que recusou qualquer hipótese da extrema-direita no poder e votou por um programa que exige uma França progressista, popular, democrática, republicana, que são adjectivos que normalmente utilizo para descrever o festival.

     

    13 min
  • Moçambique e África do Sul no coração do novo romance de Eduardo Pires Coelho

    O navio cargueiro português Angoche foi encontrado a arder ao largo de Moçambique sem ninguém a bordo. O facto aconteceu em 1971 e inspirou Eduardo Pires Coelho a escrever o "thriller" histórico "O Segredo de Lourenço Marques".

    No romance, o mistério e as surpresas enredam-se a um ritmo trepidante numa sequência que leva o leitor além de Moçambique. Num espaço temporal que abrange desde o fim do século XIX até ao presente, a acção, que passa também por Portugal, pode conduzir-nos, por exemplo, até Cabo Verde, África do Sul, Angola, Zâmbia, Uganda ou Tanzânia.

    Depois de O Segredo da Flor do Mar, livro centrado na presença portuguesa em Malaca, e Taprobana, cuja acção decorre maioritariamente no Sri Lanka, Eduardo Pires Coelho acaba de lançar, em Portugal, O Segredo de Lourenço Marques, o primeiro romance que escreve sobre África.

    9 min
  • O olhar dos 'contratados' cabo-verdianos sobre o século XX em São Tomé e Príncipe

    São Tomé e Príncipe assinalou hoje 49 anos de independência. Por esta ocasião, o Presidente cabo-verdiano deslocou-se àquele país com o qual os elos são fortes, dada a grande comunidade de origem cabo-verdiana que está radicada no arquipélago, desde o princípio do século XX. Nessa altura, milhares de cabos-verdianos juntaram-se a trabalhadores de Angola ou de Moçambique nas roças, mediante contratos cujas condições eram pouco melhores do que a escravatura que atinha sido abolida em 1875.

    No âmbito dos encontros que o Presidente José Maria Neves tem mantido com as populações de origem cabo-verdiana no país, um dos descendentes desses trabalhadores 'contratados', Venâncjio dos Santos, conhecido como 'Joãozinho', produtor de café e fundador de uma associação que apoia os residentes de origem cabo-verdiana, foi condecorado com a ordem de 2a classe da Medalha do Vulcão pelo trabalho que tem desenvolvido. Em declarações à RFI, Venâncio dos Santos recordou o seu percurso.

    "Trabalhei na roça e na plantação. Trabalhei na oficina e na agricultura. Na época, não havia essa liberdade. Como sabe, a gente estava sob o jugo colonial. A gente não tinha tanta expressão como dizem agora. Aquilo tinha um horário que tinha que respeitar. Era um bocadinho mais forçado. Às vezes davam tarefa que você não cumpria toda e não ganhava o dia. Não havia aquela liberdade. Depois, com o conhecimento, fui comerciante, fui condutor de praça. Depois dediquei-me à agricultura, café e transformação. Depois de 25 de Abril pensámos em criar uma associação. Dado o ambiente que estava a passar, pensámos, unimo-nos com algumas pessoas, criamos uma associação, a Kê Morabeza", conta o descendente de 'contratados' cabo-verdianos.

    Questionado sobre a condecoração que recebeu de Cabo Verde, Venâncio dos Santos diz que lhe dá alento para continuar empenhado junto da sua comunidade. "Se houver possibilidades para fazer mais, eu vou fazer. Normalmente há sempre pessoas que precisam de uma mão, precisam de medicamentos. Precisam de alimentação, mais do que dinheiro, eles não têm dinheiro. Um bocadinho que eu tenho, às vezes ajuda para medicamentos e outras coisas essenciais", diz o líder associativo.

    'Contratados' cabo-verdianos chegam a São Tomé e Príncipe no começo do século XX

    Calcula-se que cerca de 8% da população de São Tomé e Príncipe tenha origem cabo-verdiana. Chegados em massa no princípio do século passado, foram para as roças e trabalharam sob o chamado regime de 'contratação'. A historiadora são-tomense Nazaré Ceita que tem pesquisado sobre este período e que ultimamente tem trabalhado juntamente com outros estudiosos dos PALOP na elaboração de uma obra sobre as lutas de libertação nacional, evocou com a RFI a história dos 'contratados', em particular os trabalhadores que deixaram para trás as ilhas de Cabo Verde.

    Ao recordar que após a abolição da escravatura, verificou-se "uma terrível falta de mão-de-obra" e os antigos escravos, doravante livres, "correm para a cidade de São Tomé," muitos deles tornando-se sapateiros ou agricultores independentes, a estudiosa explica que começam a contratar pessoas vindas de fora para dar continuidade ao trabalho nas roças de cacau de que o país, naquela época, era um dos grandes produtores.

    Chegam de Angola, Moçambique e até da China, segundo a historiadora que, relativamente a Cabo Verde, de onde vieram boa parte dos trabalhadores, refere que "havia agentes de contratação naquele país. A partir de lá, já eram direccionados para diversos patrões em São Tomé e Príncipe. Mas por causa desta avalanche de gente, nem sempre os cabo-verdianos que vinham já tinham patrão. À chegada, todos eram encaminhados para a antiga curadoria geral dos serviçais e colonos. E aí havia um barracão onde todos se concentravam no sentido de, a partir deste barracão, como um lugar de trânsito onde ficavam", até serem encaminhados para as roças onde iriam trabalhar.

    "Os próprios contratos estabeleciam quais eram as regras. Este contrato estava dividido em duas partes; o dinheiro que era recebido aqui e, depois, outro dinheiro que deveria ser revisto quando chegassem aos lugares de origem após a repatriação. Havia um cofre, o chamado 'cofre de repatriação', e esses cálculos eram feitos neste sentido. Só que a verdade é que muitos não regressavam. Estes dinheiros que foram para o 'cofre de repatriação' nem sempre era recuperado," refere a universitária detalhando que os contratos tinham normalmente prazos de três a cinco anos.

    "Só que houve uma determinada altura em que houve novas regras. Aliás, havia legislações atrás das legislações, umas que depois tornavam inviáveis as outras, porque vários trabalhadores foram confrontados com a questão da recontratação. Então muitos foram submetidos não ao regresso, mas a continuarem em São Tomé, sobretudo nos anos 50," recorda Nazaré Ceita ao especificar que foram criados assentamentos "para suprir sempre a mão-de-obra que faltasse".

    As roças eram espaços herméticos com ferrolho

    "As roças eram espaços herméticos com ferrolho. Os únicos dias em que os contratados podiam sair, às vezes eram ao domingo e com hora de sair e de regressar. Havia o terreiro com as casas dos patrões de um lado e do outro lado, as sanzalas, com filas de casas sem janelas, normalmente com um espaço apenas, sem casas de banho, casas compridas em que eram aí onde ficavam completamente controlados por um sino para regular o quotidiano. O sino que tocava para o recolher, o sino que tocava para a hora do trabalho, portanto, era um espaço hermético, violento para aqueles que desobedecessem. E daí que houvesse também muitas desobediências", relata a estudiosa que refere ter tido em mãos "imensas cartas trocadas entre os patrões, entre a administração do Conselho, com a curadoria geral dos serviçais e colonos para castigar aqueles que prevaricavam."

    Na clausura das roças onde mal chegava o murmúrio do mundo, os trabalhadores 'contratados' foram mantidos de certa forma distantes do século e dos ventos de revolta que sopraram, por exemplo, em 1953, aquando do que foi recordado como 'os massacres de Batepá'.

    "Batepá erroneamente foi considerado o local do massacre, porque as interpretações da altura assim o fizeram, tendo em conta que a zona de Mé-Zóchi, a zona da Trindade, as suas populações irreverentes, foram populações autóctones que nunca concordaram com os termos das repressões coloniais que estavam a verificar-se em São Tomé e Príncipe, desde os anos 30", conta Nazaré Ceita.

    "Eu não posso dizer que essas populações roceiras vivenciaram da mesma forma os acontecimentos de 1953, como a própria população nativa são-tomense. Alguns patrões, alguns portugueses, foram solidários com a população autóctone. Não foram todos. Houve portugueses solidários que, por exemplo, aproveitaram para esconder nos seus espaços alguns momentos considerados irreverentes. Grande parte dos roceiros vai colaborar com Gorgulho (governador português entre 1945 e 1953) e os seus seguidores para reprimir os nativos são-tomenses que foram acusados de manobras comunistas. As roças eram um mundo à parte e a verdade é que uma repressão deste tipo, os muitos roceiros estavam a favor porque de facto isto acabaria por colocar em causa o status quo existente que era o trabalho roceiro", relata.

    O 25 de Abril que marcou uma viragem em Portugal que viria depois a abrir a porta à independência das suas antigas colónias (ou ao seu reconhecimento no caso da Guiné-Bissau, que tinha declarado a sua independência em 1973), também foi sentido com alguma distância nas roças. "Foi uma situação de surpresa, isto é, ninguém compreendia o que se estava a passar. Acreditava-se que através das informações que havia um vento de mudança. Mas a consciência do 25 de Abril não chegou cedo. Nas roças, as pessoas continuavam a pensar que era apenas uma mudança ligeira. Só depois, no dealbar do 1974, com abertura para o país ao Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, da chegada da Associação Cívica para o MLSTP, Associação Cívica que vai depois entrar nas roças a chamar pela consciência das populações a esses ventos de mudança. A verdade é que inicialmente as pessoas não compreendiam o que se estava a passar. O que se passou é que nós não tivemos luta armada no país, não houve confrontos, havia perseguições da PIDE, é verdade, mas esses ventos de libertação por causa da questão da clandestinidade e das redes clandestinas, muita gente, sobretudo nas roças, com certeza não sentiam ainda este vento de mudança", diz a estudiosa.

    Os habitantes das roças nos dias de hoje

    Depois da independência em 1975, as terras são nacionalizadas. Esse momento coincide com uma queda da produção de cacau encetada alguns anos antes. "Creio que nós quando chegamos à independência, estávamos com 10.000 toneladas. Já era muito pouco em relação às imensas toneladas de 1913 em diante. E então já havia muitas dependências que estavam a ser abandonadas pelos próprios roceiros, quer pela falta de mão-de-obra, quer pelas doenças sazonais que apareciam nas plantações do cacau a que não se fazia frente em termos tecnológicos", observa a professora universitária.

    Questionada sobre o estatuto dos antigos trabalhadores das roças, Nazaré Ceita reconhece que as suas condições de vida são difíceis mas considera não foram abandonados. "Uma das coisas que o partido no poder na altura fez, foi acabar com estas divisões que havia de que uns eram uma coisa, outros eram outra coisa, de que uns eram bem-vindos, outros mal vindos. Todos são-tomenses eram iguais. Aliás, a constituição política dizia isso. Podem ter falhado medidas administrativas no sentido de proceder ao registo dessas pessoas como são-tomenses, mas pela minha vivência eu não encontro motivo para que se diga que essas pessoas continuaram abandonadas", diz.

    Quanto ao caminho de regresso que não se fez, a historiadora admite que houve falhas, mas considera igualmente que a situação em que se encontram essas comunidades acaba por não ser diferente daquela que é vivenciada pela generalidade da população."Foi uma falha do país colonizador e se calhar não poderia ser de outro jeito. Não houve tempo material para que as pessoas pensassem como é que ficariam esses trabalhadores após as independências. E, no entanto, o alarme foi feito por estudiosos, por imensas pessoas que achavam que os cabo-verdianos e outros antigos serviçais não estavam bem em São Tomé, que eram pessoas desprezadas, que viviam à sua sorte, o que é o apanágio, no meu ponto de vista, para toda a população são-tomense. Hoje mesmo são-tomenses que vivem nas zonas rurais, creio que enfrentam quase os mesmos problemas que enfrentam os cabo-verdianos nas roças. A situação é caótica para aqueles que não têm condições mínimas para sobreviverem. A subida vertiginosa dos preços que nós verificamos em São Tomé e Príncipe de há muitos anos a esta parte", observa.

    O necessário trabalho de memória

    Olhando retrospectivamente para a história comum dos países africanos e de Portugal, Nazaré Ceita considera que tem havido uma crescente tomada de consciência.

    "Eu convivo com imensos académicos portugueses pela força da minha profissão e eu acho que há uma tomada de consciência. Há linhas de investigação que se estão a 'descolonizar'. Eu acho isso bastante bom. Isto é em Portugal, mas também já há imensos africanos a revolucionar, a ajudar a 'descolonizar' o pensamento colonial. Há muito mais gente a ter um olhar endógeno sobre as questões que nós vivenciamos desde o colonialismo até aqui", considera a pesquisadora.

    Questionada sobre o trabalho que está a desenvolver com uma equipa de estudiosos dos PALOP sobre as lutas de libertação nacional e cujo resultado deve ser publicado para o ano que vem, no âmbito da celebração dos cinquenta anos da independência desses países, Nazaré Ceita insiste sobre a importância dessa pesquisa colectiva.

    "Eu acho que é um trabalho necessário perante as novas tendências que tem havido no sentido da ridicularização de um momento político extremamente decisivo, que foi a luta de libertação nacional dos nossos países. Há uma espécie de descredibilização desta luta. Há uma espécie de rasurar esta luta, no sentido de que as pessoas que lutaram teriam acabado por não trazer coisas positivas ao país. E nós, o que queremos demonstrar é que se trata de um processo histórico próprio. Os países têm momentos históricos e, na verdade, essa história foi bem necessária no sentido de reverter a situação vigente que nos oprimia, denunciada por várias pessoas, por pessoas que sofreram na pele e que, portanto, estes movimentos de libertação foram uma forma, às vezes violenta, que os países, que as pessoas encontraram, que os dirigentes, os nossos pais da independência, encontraram para mudar de facto uma situação terrível de opressão", conclui Nazaré Ceita.

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  • "A França tem uma falta de cultura democrática parlamentar muito grande"

    O Presidente francês endereçou ontem, quarta-feira, uma carta aos seus concidadãos que foi publicada na imprensa regional. Nesta missiva, Emmanuel Macron considera que "ninguém saiu vencedor" das legislativas de domingo em que nenhum bloco obteve maioria absoluta. Neste sentido, ele apela as forças políticas a "encontrarem consensos" para construir uma "maioria sólida" capaz de governar.

    Esta carta não deixou de suscitar comentários, nomeadamente na extrema-direita (RN) cuja líder, Marine Le Pen, denunciou um "circo indigno", dizendo que "Emmanuel Macron propõe fazer uma barragem contra a França Insubmissa, que ele ajudou a eleger há três dias e graças ao qual os deputados do seu partido foram eleitos, também há três dias".

    No bloco dos partidos de esquerda, são vários os apelos para que Macron "aceite a derrota", o dirigente da França Insubmissa (LFI), Jean-Luc Mélenchon, considerando que a carta do Presidente marca "o regresso do direito de veto da realeza sobre o sufrágio universal".

    Do lado da direita tradicional, o tom já menos crítico. Apesar de avisar o Presidente de que "não se brinca com a República", Gerard Larcher, Presidente republicano do Senado, disse concordar com o chefe de Estado relativamente à opção de dar tempo à formação de coligações.

    Contudo, a mão estendida não funciona de forma automática: no seio do aparelho dos republicanos (LR), considerados possíveis aliados do campo presidencial, Laurent Wauquiez, líder parlamentar dessa formação, rejeitou uma "coligação governamental", evocando apenas a possibilidade de um "pacto legislativo".

    Ao observar que existe efectivamente alguma proximidade de ideias entre os republicanos e o partido do Presidente Macron, o historiador Victor Pereira não deixa de apontar algumas fragilidades no campo conservador que saiu dividido destas eleições. Por outro lado, o estudioso considera que a pressão que Macron está a fazer sobre os partidos no sentido de encontrar consensos poderia incitar ainda mais a esquerda a unir-se e apresentar rapidamente um candidato a Primeiro-ministro.

    RFI: Desde domingo, tem havido negociações entre o campo presidencial e os republicanos, o partido de Macron parecendo privilegiar um consenso à direita.

    Victor Pereira: Há um discurso bastante comum da parte da coligação à volta do Emmanuel Macron e dos republicanos. Todos dizem que é inconcebível formar um governo que integra ministros da França Insubmissa e alguns até vão mais longe dizendo que é inconcebível ter um governo com pessoas dos Verdes, dos ecologistas. Então vê-se que há uma certa convergência entre republicanos e, no entanto, os republicanos, o presidente deles (Eric Ciotti) saiu do partido. Então, não sabemos muito bem para onde é que vai esse partido e ele não tem assim tanta força. Alguns estão prestes a colaborar, outros recusam qualquer colaboração. Mas de facto, parece que Macron pensa que ainda é possível governar, nem tanto à esquerda, mas talvez mais à direita. Ele avistou-se já duas vezes nos últimos tempos com Gérard Larcher, que é Presidente do Senado, que é uma das figuras dos republicanos e parece que vai tentar encontrar uma solução desse lado. A carta é um bocadinho ambígua porque é dirigida aos franceses, mas ele não se dirige tanto aos franceses como aos responsáveis políticos na Assembleia. 

    RFI: No meio disto tudo, a esquerda ainda não propôs um nome para Primeiro-ministro. Isto não é um pouco complicado para a esquerda nesta altura, com a pressão do Presidente, por um lado, e o facto de não se entenderem sobre o nome de um Primeiro-ministro?

    Victor Pereira: Sim, de facto parece. Quando Emmanuel Macron dissolveu a Assembleia da República, ele não estava à espera de todo que a esquerda se unisse tão rapidamente e conseguisse em apenas quatro dias encontrar um programa comum e aceitar que haja uma unidade nos candidatos, que não haja vários candidatos da esquerda. Agora, acho que a aposta dele é, mais uma vez, a mesma. Isto é, que a LFI, os ecologistas, os socialistas e os comunistas que têm um historial de desunião, de zangas, que isso volte a acontecer. Mas não sei até se essa pressão que ele colocou ontem não vai mais uma vez ter o efeito contrário, isto é, obrigar os partidos da esquerda a encontrar um candidato comum ou uma candidata comum e ir além das tensões e das divisões. Talvez esta pressão que Emmanuel Macron colocou por cima deles, vai obrigá-los a encontrar uma solução. Então, mais uma vez, o tiro pode sair-lhe pela culatra. 

    RFI: Por um lado, no campo presidencial, há pessoas que estão mais inclinadas para negociar com a direita, outras mais com o campo social-democrata. O limite é a França insubmissa. Esse é também o limite fixado por Gerard Larcher, o Presidente do Senado, que, por outro lado, também avisa Macron que "não se brinca com a República". No fundo, o centro também está um pouco encurralado. 

    Victor Pereira: Pode-se pegar nos resultados eleitorais e na composição da Assembleia. É muito difícil encontrar uma maioria. Ou então é uma maioria, que já não pode contar com 120 e picos deputados da União Nacional (RN), também não pode contar com os deputados que ficaram leais ao Eric Ciotti (LR) e, por outro lado, tanto o centro como a direita recusam uma solução com a LFI. Por isso tudo, vai ser muitíssimo difícil encontrar uma solução. E, além disso, toda a gente está a pensar nessa eventual coligação de olhos postos sobre 2027. Isto é, já muitas pessoas já estão a pensar em 2027 com uma agenda pessoal, por exemplo Wauquiez (líder parlamentar LR). Mas também algumas pessoas têm medo, talvez mais à esquerda, que uma eventual coligação seja uma ajuda indirecta ou directa à União Nacional. Na perspectiva de 2027, se uma coligação de todos os partidos, talvez menos, governarem juntos durante três anos e se isso não for um sucesso, as dificuldades económicas, sociais, etc, etc continuam, isto será mais um argumento em 2027 para a União Nacional (RN) incitar à alternância, argumentando "Já tivemos de tudo, já tivemos de direita, já tivemos esquerda, já tivemos um Macron, já tivemos uma grande coligação, nada funciona. A única solução agora somos nós". Então alguns partidos de esquerda têm medo desta coligação e de um eventual fracasso que daria argumentos à União Nacional.

    RFI: Qual é, para já, o cenário, a seu ver, mais provável? Avançou-se, por exemplo, a ideia de que o governo de Attal poderia durar pelo menos até Setembro, para dar tempo, digamos assim, para alguma coligação emergir de toda esta confusão. E a seguir?

    Victor Pereira: Não se sabe muito bem, de facto, se o governo actual vai durar até meados de Julho, se vai ir além dos Jogos Olímpicos, porque a França recebe os Jogos Olímpicos (em Julho e Agosto) e o Attal vai até Setembro. Mas isso só pode alimentar a ideia de que Macron recusa o resultado das eleições e que o governo não tem legitimidade democrática. O partido de Macron foi o único partido que perdeu quase 100 eleitos. A União Nacional aumentou o número de deputados, a esquerda, também tem muitos deputados. O partido que quer ficar no poder foi o único que perdeu -e muitos- deputados. Isto é uma solução que pode parecer muito antidemocrática. A solução está em 1) a esquerda consegue encontrar e propor o nome de um candidato a ser Primeiro-ministro e que Macron aceite. E 2) a solução também pode ser numa eventual coligação, mas que por enquanto parece muito difícil. Então é muito provável que tenhamos governos muito fracos considerados pouco legítimos, e que talvez vá haver vários governos que se vão suceder e que vão ficar muito pouco tempo no poder, porque vão ter de cair por causa de moções de desconfiança que o Parlamento pode votar.

    RFI: O cenário de uma maioria relativa não é muito habitual aqui em França. No entanto, noutros países, na Europa, como por exemplo na Itália, a maioria relativa é o "pão nosso de cada dia". Isto também aconteceu recentemente em Portugal, onde também não emergiu uma maioria absoluta e, no entanto, consegue-se constituir governos.

    Victor Pereira: Em França, desde o início da Quinta República, ou pelo menos desde os primeiros anos da Quinta República, não há uma cultura do consenso. Há sobretudo uma cultura do confronto, em que um partido, um movimento, uma coligação está no poder e não vai negociar e não vai encontrar consensos na maioria dos casos. A França nisto tem uma falta de cultura democrática parlamentar muito importante e não parece que vai ser com Macron, que não tem de todo uma cultura parlamentar, uma cultura do diálogo e que, pelo contrário, tem uma visão muito mais vertical do poder do que isso possa parecer. Mas, de facto, para os partidos e nomeadamente os partidos de esquerda, a grande questão é isso. Uma ideia que foi enunciada, por exemplo, por um deputado da França Insubmissa, François Ruffin, que saiu agora desse partido e que diz que os franceses tinham dado apenas "uma pausa". E que se as coisas continuam do mesmo modo, é muito provável que a extrema-direita consiga ganhar nas próximas eleições (na presidenciais de 2027). Então, de facto, é uma pressão suplementar. Se não houver governo, se os governos não conseguem governar de forma eficiente, o que pode acontecer muito facilmente é que as próximas eleições sejam ganhas pela extrema-direita. Obviamente, muitas pessoas ficaram aliviadas pelo facto de a extrema-direita não ter sequer a maioria. O sistema eleitoral é bastante complicado e as sondagens enganaram-se. Mas não podemos esquecer que a Frente Nacional passou em poucos anos de oito deputados a 89 e agora para mais de 120. Isto é um partido que tem uma dinâmica eleitoral forte. Essa dinâmica talvez tenha ficado aquém do que as sondagens diziam e que a própria União Nacional pensou conseguir. Mas não podemos esquecer -parte da esquerda e obviamente do centro e de direita têm noção disto- que é uma dinâmica e que se não encontrarem soluções, essa dinâmica pode continuar até que a União Nacional consiga vencer. 

    RFI: Por fim, aventou-se muito a hipótese de se formar um governo de tecnocratas para desempatar tudo isto. Julga que esta é uma solução?

    Victor Pereira: No papel é uma solução. é pouco comum na história recente francesa. Um governo de tecnocratas, foi o caminho, a solução que foi encontrada na Itália com um sucesso ambíguo. Parece-me um pouco difícil e, sobretudo, parece-me um pouco difícil por causa do Presidente da República. Isto é, um governo tecnocrata deveria poder delinear e pôr em prática as políticas públicas com o apoio da Assembleia. Mas em França temos um Presidente da República omnisciente, omnipotente, que muito dificilmente daria margem de manobra a um governo tecnocrata se não fizesse o que ele acha o melhor. Por isso, acho pouco provável que Emmanuel Macron consiga aceitar isto e vê-se, mesmo com essa carta que ele escreveu, que ele não tem uma visão de um poder parlamentar forte. Por isso parece-me pouco provável a solução de um governo de tecnocratas. 

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  • NATO: "EUA e Alemanha são contra um compromisso que defina data para a entrada da Ucrânia"

    Decorre desde esta terça-feira e ainda até amanhã, em Washington, a Cimeira da NATO que marca o 75° aniversário da sua existência. Criada depois da segunda guerra mundial com o objectivo de garantir da defesa do bloco ocidental perante o então bloco soviético, a Aliança Atlântica encontra-se num momento complexo, com os desafios colocados pela guerra na Ucrânia na sequência da sua invasão pela Rússia em Fevereiro de 2022.

    No âmbito desta cimeira que é, uma vez mais, dominada pelo conflito ucraniano, Kiev recebeu desde já a garantia de que Washington e outros parceiros vão fornecer-lhe sistemas de defesa antiaéreos, conforme vinha pedindo nestas últimas semanas. Num plano mais lato, contudo, Volodymyr Zelensky poderia continuar sem perspectivas claras quanto a uma eventual adesão do seu país à NATO.

    Para já, Berlim e Washington não pretendem comprometer-se neste aspecto e o contexto de eleições presidenciais incertas nos Estados Unidos também faz com que as perspectivas da presente cimeira sejam pouco encorajadoras para a Ucrânia, do ponto de vista de Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, em Lisboa.

    RFI: Considera que uma vez mais a Ucrânia não vai obter garantias quanto a uma possível adesão à NATO?

    Carlos Gaspar: Para o bem e para o mal, essa é uma certeza que nós temos, porque os Estados Unidos e a Alemanha são contra qualquer tipo de compromisso que defina uma data ou um contexto específico para a entrada da Ucrânia na NATO. Com certeza que haverá e já estão aprovados, de resto, em quadros bilaterais pelos Estados Unidos, armamentos adicionais e apoios adicionais à Ucrânia, também do lado da União Europeia e dos aliados europeus. Mas esses apoios tenderão a diminuir. Não é, como já aconteceu, aliás, ao longo dos 6 primeiros meses deste ano e poderão diminuir muito radicalmente se os norte-americanos elegerem o Presidente errado em Novembro deste ano. Portanto, há que fazer previsões de certa maneira, não apenas materiais, mas também políticas e diplomáticas, para fazer face a essa possibilidade, que é uma possibilidade real.

    RFI: A sombra de Donald Trump, no fundo, está a pairar sobre a cimeira da NATO?

    Carlos Gaspar: É uma cimeira de campanha. Claramente é uma cimeira de campanha. Ela segue-se a um debate presidencial entre Donald Trump e Joe Biden, que correu mal ao Presidente dos Estados Unidos e que desencadeou um debate dentro do Partido Democrata em que está em causa quem vai ser, finalmente, na Convenção de Agosto, o candidato presidencial. Neste momento, o candidato presidencial é Joe Biden, mas a sua posição pode ser posta em causa. Está a ser objecto de um debate dentro do seu próprio partido. E, nesse quadro, inevitavelmente, a cimeira da NATO para lá da Ucrânia é uma etapa decisiva na campanha eleitoral norte-americana.

    RFI: Esta cimeira da NATO é também a primeira em que participam enquanto membros de pleno direito, tanto a Finlândia como a Suécia. Isto, de certa forma, não será também, apesar de tudo, um símbolo forte para a NATO?

    Carlos Gaspar: Muito forte, muito importante para a NATO. A Suécia é um dos estados neutrais mais antigos da Europa. A Finlândia tinha uma posição de neutralidade imposta durante a Guerra Fria pela União Soviética, mas os dois responderam à invasão da Ucrânia pela Rússia com uma decisão de integrar a Aliança Atlântica, que é muito importante para a NATO e para a defesa europeia e também importante para a União Europeia, na medida em que, neste contexto, há apenas quatro Estados membros da União Europeia que não fazem parte da Aliança Atlântica e isso reforça as relações cada vez mais importantes entre a NATO e a União Europeia, entre os dois pilares da Comunidade Europeia e transatlântica.

    RFI: Esta cimeira decorre numa altura em que o actual Presidente do Conselho Europeu, Viktor Orban, acaba de efectuar visitas tanto a Kiev como a Moscovo e também a Pequim.

    Carlos Gaspar: Visitas bilaterais, não visitas como presidente do Conselho Europeu, uma vez que os próprios parceiros europeus vincaram bem que se tratava de visitas bilaterais e que o primeiro-ministro húngaro não tinha qualquer mandato do Conselho Europeu para tomar quaisquer iniciativas junto da Rússia ou da China.

    RFI: Isto não será, de qualquer das formas, um sinal de que reina alguma confusão, tanto a nível europeu como a nível da NATO, em termos de mensagens que se enviam a Moscovo?

    Carlos Gaspar: De forma nenhuma. Isto é uma manobra de Moscovo na qual o primeiro-ministro húngaro é um actor consciente e voluntário que visa justamente tentar perturbar a reunião da Aliança Atlântica e pôr em causa os esforços daqueles que defendem a definição de um quadro de entrada da Ucrânia na Aliança Atlântica. Não é a única resposta da Rússia e da China à cimeira de Washington. A China e a Rússia também alargaram a Organização de Cooperação de Xangai à Bielorrússia, que é vizinha da Polónia e que entrou na Organização de Cooperação de Xangai no dia 4 de Julho passado. E neste momento há manobras militares conjuntas da China e da Bielorrússia junto à fronteira da Polónia. Foi a forma de a China e da Rússia, as duas principais potências revisionistas, participaram na cimeira da NATO, para a qual, naturalmente, não foram convidadas. É pena, mas não é uma surpresa que o primeiro-ministro húngaro seja um pião dentro da estratégia da China e da Rússia.

    RFI: Mencionou precisamente a Organização de Cooperação de Xangai que esteve reunida na semana passada em cimeira. Uma das questões em cima da mesa foi precisamente reforçar a segurança regional. Esta organização, de certa forma, poderia ser uma concorrente da NATO e poderia obrigar a NATO a mudar radicalmente a sua estratégia?

    Carlos Gaspar: A Organização de Cooperação de Xangai é o contrário da NATO. A NATO é um pilar da ordem internacional. A Organização de Cooperação de Xangai é um perturbador da ordem internacional e não tem nenhuma das funções de garantia de defesa, nem sequer para os seus membros. Os seus membros cooperam vagamente na luta antiterrorista e por aí fora. Mas não há nenhuma cláusula comparável ao artigo quinto ou mesmo ao artigo quatro do Tratado de Washington. E, nesse sentido, não é uma aliança militar, não é uma aliança de defesa, como é a Aliança Atlântica desde 1949.

    RFI: Paralelamente, tem havido um certo bailado diplomático, tendo havido recentemente um encontro entre Putin e Xi Jinping. Putin também avistou-se com o Primeiro-ministro indiano. Putin está a multiplicar as parcerias. Como é que deve ser interpretado?

    Carlos Gaspar: Deve ser interpretado como uma tentativa de demonstrar que a Rússia não está isolada diplomaticamente, que está preparada, o que é falso, para negociar seriamente com a Ucrânia uma cessão das hostilidades, de maneira a evitar que haja sinais fortes do lado da cimeira de Washington em relação à Ucrânia, que garantam que a Ucrânia continua a resistir à invasão da Rússia e a sobreviver aos ataques da Rússia de Putin. A visita de Modi é particularmente importante. Há cinco anos que o primeiro-ministro indiano não ia Moscovo para uma visita bilateral e é a primeira visita bilateral que ele faz depois da sua reeleição. O pretexto que o primeiro-ministro usa é retirar os soldados indianos que estavam integrados nas Forças Armadas da Rússia e que foram mobilizados para a Ucrânia. Esses soldados vão ser desmobilizados e voltar à Índia. Mas esse pretexto não chega para explicar por que razão é que o primeiro-ministro Modi está preparado para, mais uma vez, ser um pião na estratégia do Presidente Putin, num momento que para Moscovo é crucial, e em que Moscovo -como Pequim- tem que fazer tudo para pôr em causa a unidade dos aliados. Nem a China nem a Rússia jamais imaginaram que mais de dois anos depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, continuasse a haver uma frente comum dos aliados para defender a Ucrânia, contra os cálculos que foram feitos, quer em Pequim, quer em Moscovo.

    RFI: Há pouco mencionou o facto de Biden, neste momento, estar a ser avaliado à lupa. Há também outro membro da NATO que também está a ser analisado: é a França, com o poder de Macron, neste momento, a ser abalado por alguma instabilidade interna. Que implicações é que isto pode ter a nível da NATO?

    Carlos Gaspar: Tem com certeza um impacto, porque existe a possibilidade de um quadro de instabilidade governamental nos próximos anos, mas também tem um impacto limitado, no sentido em que o Presidente da França tem uma posição especial e, pelo menos, essa tradição da Quinta República determina a política externa e a política de defesa da França. Isso seria posto em causa se houvesse um governo da União Nacional (partido de extrema-direita), o que parece excluído na presente conjuntura. De resto, mais nenhuma força põe em causa o "domaine réservé", o domínio reservado, do Presidente da República Francesa em relação à política externa e de defesa. E nesse âmbito, há um quadro de continuidade naquilo que é essencial para os aliados. Seria diferente, certamente, se o resultado das eleições do Domingo passado não tivesse sido aquele que foi.

    RFI: Além da Ucrânia, o que também está em cima da mesa é o próprio futuro da NATO, uma vez que, como mencionou há pouco, há a sombra do regresso de Trump, que já deu a entender que a sua política seria totalmente diferente em matéria de defesa e, por exemplo, os parceiros europeus teriam que ser mais activos no seio da NATO. Os europeus não deveriam ter já pensado nessa possibilidade?

    Carlos Gaspar: E pensaram. Neste momento há apenas um pequeno número de membros da NATO que não gasta mais de 2% do seu produto no orçamento de defesa e isso resulta da pressão dos Presidentes norte-americanos Obama, Trump, Biden, para garantir que a Europa tenha uma parte maior na NATO e uma responsabilidade maior na defesa da Europa. E é esse o interesse dos próprios europeus. Esta é uma velhíssima questão no quadro da Aliança Atlântica. É uma velhíssima questão no quadro da construção europeia. Não faz sentido que os países europeus, os países mais ricos do mundo, sejam de tal maneira dependentes dos Estados Unidos no que diz respeito à questão essencial da sua defesa e estratégia. Desse ponto de vista, as pressões de Trump, como as pressões do Presidente Obama antes dele e do Presidente Biden depois dele, são muito bem-vindas por todos aqueles que querem que a Europa tenha uma autonomia estratégica relevante no quadro da Aliança Atlântica. 

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  • Guiné-Bissau: "Realização, neste ano ainda, de presidenciais é única via de retorno à normalidade"

    O Presidente da Guiné-Bissau anunciou nesta segunda-feira que tenciona marcar eleições legislativas antecipadas no próximo dia 24 de Novembro e que quando regressar da visita que efectua esta semana à China, vai conduzir consultas políticas no sentido de formalizar a marcação do escrutínio.

    Esta decisão surge numa altura em que o país deixou de ter um parlamento a funcionar desde a dissolução decidida por Umaro Sissoco Embaló em Dezembro do ano passado, depois de acontecimentos que ele qualificou de "tentativa de golpe de Estado".

    Esta decisão surge também e sobretudo depois de os chefes de Estado e de governo da CEDEAO terem recomendado, em cimeira no passado fim-de-semana na Nigéria, que o executivo guineense "acelere o processo de realização de novas eleições legislativas para restabelecer a Assembleia Nacional Popular e permitir a eleição de membros da Comissão Nacional de Eleições".

    Uma recomendação que vem, de certo modo, contrariar os pedidos de esclarecimentos dos partidos guineenses com assento parlamentar que, para além de reclamarem -sim- a realização de presidenciais ainda este ano, argumentando que o mandato presidencial termina oficialmente em Fevereiro de 2025, também pretendiam obter um posicionamento da CEDEAO sobre a eleição de uma nova direcção para a CNE e para o Supremo.

    Estes foram alguns dos aspectos que focamos com Sumaila Djaló, membro da plataforma da sociedade civil 'Frente Popular' com quem abordamos igualmente a situação de divisão no seio do PRS, bem como as iniciativas que a organização a que pertence tem vindo a tomar ultimamente.

    RFI: Quais são os seus comentários à decisão presidencial de marcar legislativas antecipadas para o dia 24 de Novembro?

    Sumaila Djaló: É, mais uma vez, um sinal da continuidade da crise política na Guiné-Bissau, iniciada em Dezembro de 2023, com a dissolução inconstitucional da Assembleia Nacional Popular, por um decreto assinado por Umaro Sissoco Embaló, que vai contra todas as orientações da Constituição da República da Guiné-Bissau. Como se disse na altura, a Assembleia não podia ser dissolvida a menos de 12 meses das últimas eleições legislativas, nem poderia, nos últimos seis meses do mandato do Presidente da República em que estamos agora a entrar também. Mas Umaro Sissoco Embaló fez o que fez, e o país há seis meses está com a Assembleia Nacional Popular a não funcionar por uma decisão ilegal, e a crise política a agudizar-se cada vez mais, com consequências na vida das populações. Mas agora, marcar eleições legislativas para o mês de Novembro coincide com um outro acto também importante, no sentido de agravar a situação política e social no país, que é a CEDEAO adoptar uma resolução vinda da última cimeira dos chefes de Estado e do Governo, a também orientar para a realização das eleições legislativas antecipadas ainda neste ano, o que é uma forma de a organização sub-regional homologar a dissolução contra constitucional da Assembleia Nacional Popular, e mais uma vez, a não contribuir para a democratização de um Estado-Membro e a demonstrar-se cada vez mais incapaz de monitorar os Estados membros, a consolidar as suas democracias e também a debater-se com diferenças com outros países da sub-região. E a Guiné-Bissau é um caso que se torna cada vez mais paradigmático, porque a CEDEAO tem vindo a revelar-se incapaz de, de facto, ajudar o país a orientar-se para a democratização.

    RFI: Relativamente a outro anúncio feito ontem, o Presidente da República, uma vez mais, deu a entender que as presidenciais seriam no ano que vem e não ainda este ano, conforme é reclamado por uma série de partidos políticos. Quais são os seus comentários?

    Sumaila Djaló: Estamos, mais uma vez numa situação em que Umaro Sissoco Embaló reafirma o seu desdém para com a Constituição da República e a legalidade democrática. A Constituição ordena que o mandato do Presidente da República cesse depois dos cinco anos em que esse mandato deve acontecer. Em Novembro próximo, nós vamos entrar nos cinco anos desde a realização das últimas eleições presidenciais que conduziram Umaro Sissoco Embaló à Presidência da República, embora a tomada de posse tenha sido em Fevereiro, dia 27, de forma unilateral, devido a um contencioso eleitoral que estava a decorrer no Supremo Tribunal de Justiça. No entanto, é preciso também dizer aqui que Umaro Sissoco Embaló não se preocupa muito em infirmar acções que vão contra a Constituição da República e a legalidade democrática na Guiné-Bissau. Se não houver uma oposição política à altura dos desmandos de Umaro Sissoco Embaló e que consiga convocar o povo e outras forças vivas, políticas e cívicas da Nação Guineense para enfrentar a deriva absolutista de Embaló, as eleições vão se realizar em 2025 e teremos um Presidente com mais de cinco anos no poder. E depois, não sabemos quando é que isso vai terminar. E é preciso dizer que tudo isto acontece numa altura em que na Comissão Nacional de Eleições, temos uma direcção caduca e, mais grave ainda, no Supremo Tribunal de Justiça, temos um presídio fora da legalidade constitucional, porque o presidente legitimamente eleito pelos seus pares, foi destituído de forma abusiva das suas funções, e desde então não houve legitimação da presidência do Supremo Tribunal de Justiça através de uma eleição que deveria ser livre e imune a qualquer interferência política, como tem acontecido neste momento na Guiné-Bissau. Portanto, mais uma vez, a única forma de a Nação Guineense, toda ela reunida pela salvação da democracia e pela reposição da constitucionalidade no país, ultrapassar esta questão é as lideranças políticas, organizações cívicas e movimentos sociais encontrarem mecanismos de mobilização popular internos que consigam influenciar na retoma da ordem constitucional e regresso à democraticidade através da realização de eleições no Supremo Tribunal de Justiça, através do retorno do funcionamento da Assembleia Nacional Popular e, a partir daí, eleger-se uma nova direcção da Comissão Nacional de Eleições e só após a realização, neste ano ainda de eleições presidenciais, porque é a única via verdadeiramente democrática e constitucional de retorno à normalidade democrática no nosso país. 

    RFI: Relativamente ao desempenho do Supremo Tribunal de Justiça, ele acaba de validar a eleição do presidente do grupo dos "Inconformados" dentro do PRS. Portanto, ele considera que este é o líder legítimo do PRS. O que é que se pode dizer sobre este parecer, uma vez que a outra ala do PRS rejeita esta decisão e considera-a ilegal?

    Sumaila Djaló: Há duas notas a tomar aqui: duas notas muito importantes, porque o PRS tinha sido um partido que ajudou Umaro Sissoco Embaló a chegar à Presidência da República, mesmo sabendo que, enquanto Primeiro-ministro entre 2017 e 2018, tinha sido muito autoritário e já tinha revelado o seu apetite para o absolutismo e para o exercício de violência como forma de restringir liberdades democráticas. Depois, houve, sim, um período relativamente curto de ruptura entre a actual direcção do PRS com Umaro Sissoco Embaló, que é o período que antecedeu as eleições legislativas de Junho de 2023, para o período que culminou com a dissolução do Parlamento que veio dessas eleições. Quando se dissolveu o Parlamento de forma claramente inconstitucional, o presidente do Partido da Renovação Social, apesar de ser jurista e de conhecer muito bem a Constituição da República e de ter informações suficientes para saber que aquela dissolução tinha sido contra a Constituição da República, não se posicionou de forma clara contra esse acto abusivo do Presidente da República. Neste momento, estamos perante, por outro lado, a afirmação de uma estratégia de caos de Umaro Sissoco Embaló no seio dos partidos políticos com assento parlamentar, de modo a que esses espaços de mobilização política se esvaziem e ele se afirme como o único salvador do país. Uma espécie de interferência nos partidos que não se alinham com a sua ditadura. Está a acontecer com o PRS. Está a acontecer no MADEM-G15 que é o partido que curiosamente ajudou a fundar, mas do qual se desvinculou. Está a acontecer no PAI Terra Ranka, nomeadamente no PAIGC que é o maior partido desse espaço, mas também no APU-PDGB, que foi outro partido que o ajudou a chegar à Presidência da República e que teve o seu líder no governo ilegal instituído por Umaro Sissoco Embaló, desde Março de 2020 até as últimas eleições legislativas de 2023. Portanto, o caso do PRS é mais uma demonstração de que o Supremo Tribunal de Justiça está ao serviço de Umaro Sissoco Embaló e não a funcionar dentro do quadro da legalidade. Porque, repare, a direcção interina do PRS liderado por Fernando Dias, veio de uma escolha do Conselho Político Nacional do PRS, que é o órgão que funciona entre congressos para a tomada de decisões nesse espaço político. A tal direcção, eleita num dito congresso extraordinário dos "Inconformados", não teve nem anuência do Conselho Político do Partido da Renovação Social, nem teve caminhos estatutários no quadro do mesmo partido para a realização desse Congresso. Fê-lo em paralelo a um Congresso convocado pela direcção legítima do Partido da Renovação Social, para instalar uma onda mais aguda de confusão no seio do Partido da Renovação Social e possibilitar que Umaro Sissoco Embaló construa o seu caminho, sem oposição política contundente no sentido de obrigar a respeitar os ditames constitucionais e a legalidade democrática no país. Mas também é uma forma de dizer aos partidos políticos que a defesa da Constituição e da legalidade democrática, não pode ser feita por conveniência. Esses valores têm de ser defendidos independentemente dos interesses localizados, independentemente das conveniências partidárias. São valores que nos podem assegurar a justiça, a equidade e a igualdade de circunstâncias, tanto na mobilização política, como no exercício de cidadania em geral no nosso país. O PRS tem-se demonstrado titubeante na realização do seu compromisso com esses valores democráticos e hoje está a pagá-lo na sua pele, através de interferências do tipo que estamos a verificar nesta altura do Supremo Tribunal de Justiça, orientado por um interesse político claramente identificado. 

    RFI: É neste contexto que a Frente Popular anunciou há dias que não só interpunha uma acção contra o Estado e membros do Governo da Guiné-Bissau pelos acontecimentos do passado mês de Maio, mas que também tenciona lançar acções no exterior. O que é que nos pode dizer exactamente sobre a vossa iniciativa e, sobretudo, sobre as vossas expectativas relativamente a estas acções?

    Sumaila Djaló: Nós estamos a preparar um conjunto de acções, tanto de protestos, como de resistências de outras formas, a partir do próprio território guineense e a partir de outras instâncias internacionais. Há uma queixa-crime a ser preparada através da Frente Popular, com assistência da Liga Guineense dos Direitos Humanos e apoio de um conjunto de advogados franceses, especialistas nestas questões de justiça internacional. Uma queixa que se vai apresentar a partir dos tribunais franceses para outras instâncias que se venham a identificar como sendo possibilidades nesse sentido. Trata-se de denunciar ataques de que os nossos colegas foram alvos na nossa última manifestação, a 18 de Maio, em que 93 pessoas foram presas e torturadas de forma brutal nos cárceres do Ministério do Interior, a mando do regime instituído no país e encabeçado por Umaro Sissoco Embaló. Mas no próximo dia 27 de Julho também temos uma manifestação a acontecer em Bissau, mais uma manifestação popular para exigir o retorno à ordem constitucional, a realização de eleições presidenciais ainda neste ano, a legitimação do Supremo Tribunal de Justiça, mas também da Comissão Nacional de Eleições e, por outro lado, a resolução de graves problemas sociais na saúde, na educação e de uma população que perde poder de compra a cada dia que passa. Também essa manifestação estender-se-á a várias localidades da diáspora, como aconteceu na manifestação de 18 de Maio passado em Portugal, na França, possivelmente no Brasil e noutras localidades. Temos colegas a se mobilizarem nesse sentido para denunciar a ditadura encabeçada por Umaro Sissoco Embaló, para defender os valores da República e da democracia, porque a República da Guiné-Bissau está ameaçada pela instituição de um absolutismo, um autoritarismo encabeçado por uma única pessoa que se autodenomina de único chefe. E nós não podemos ficar passivos perante todas estas situações de violações gritantes da Constituição da República e de perigos ao multipartidarismo e ao processo de fortalecimento da democracia no nosso país.

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  • França: "É impossível governar sem uma negociação entre pelo menos dois partidos"

    A nova frente popular venceu as eleições legislativas deste domingo. A coligação de esquerda elegeu 182 deputados.
    O movimento presidencial juntos pela república elegeu 168 deputados, a União Nacional e aliados conquistam 143 lugares no parlamento. A participação foi de 66,6%. "Estamos numa situação muito complicada, numa tripartição da vida política francesa e vamos viver um momento de experimentação", defende o professor auxiliar na Universidade de Paris-Nanterre, Christophe Araújo.

    RFI: Que leitura se pode fazer, venceu a frente republicana ?

    Christophe Araújo: É uma leitura um pouco complicado com esta nova configuração que nunca conhecemos durante a V República Francesa. Temos de um lado, uma curta vitória dos partidos de esquerda que se uniram nesta Nova Frente Popular, que é uma criação muito recente. Vemos aqui o sucesso da Frente Republicana que uniu as forças centrais com as forças de esquerda contra a extrema-direita. Mas, ao mesmo tempo temos de considerar e de olhar que as conclusões vão ser complicadas porque há uma parte do centro que não quer governar com a esquerda. A esquerda não quer também governar com o centro, mas vemos muito bem que há uma impossibilidade, porque para encontrar uma maioria absoluta vai ser sempre necessário negociar, que é um hábito pouco francês desde o início da V República, onde havia quase sempre uma maioria absoluta ou então pelo menos um partido com o qual era possível fazer uma forma de coligação. Aqui estamos numa situação muito complicada de uma tripartição da vida política francesa e vai ser um momento de experimentação política da qual ainda não sei muito bem como é que vai resultar este cenário.

    Um mês depois da dissolução do Parlamento, o Chefe de Estado está perante uma Assembleia ingovernável?

    Se continuarmos na maneira com a qual foi sempre praticada a vida política francesa com maiorias é ingovernável. A única solução seria propor, como já foi o caso na Itália, mas nunca foi o caso em França, creio eu, um governo técnico além dos partidos, para conseguir continuar a vida política sem que haja um bloqueio do lado da Assembleia legislativa. Mas não sei se será algo de muito viável e isto irá daqui um ano, no mínimo, já que não podemos ter novas eleições antes de um ano, novas eleições e de novo uma forma se calhar de incerteza. Não sabemos muito bem como é que vamos conseguir sair desta situação, tirando esta necessária cooperação entre os partidos, quer do centro quer da esquerda, para encontrar uma plataforma de ideias para encontrar uma maneira de governar.

    Nenhum partido consegue uma maioria absoluta. Para isso seria necessário eleger 189 deputados. Nenhum partido pode governar sozinho. A nova configuração parlamentar pode criar um risco de 'paralisia' e a Constituição da V República foi feita para que fosse possível governar sem maioria, nomeadamente com artigos como o 49,3?

    Sim, é uma situação muito difícil. Estamos muito longe dos 289 deputados. A situação anterior era uma minoria, um governo sem maioria absoluta. Os centristas conseguiram encontrar com muitas dificuldades, uma maneira de negociar, quer com a direita, quer com a esquerda.

    Aqui estamos numa situação ainda mais complicada porque o primeiro partido só tem 182, com os outros deputados de esquerda, que são os 12 dá 190 e então faltam quase 100 deputados para conseguir esta maioria absoluta. É impossível encontrar uma maneira de governar sem ter uma negociação entre pelo menos dois partidos dessas grandes coligações que foram criadas; a nova Frente Popular, Renascença, que é o partido centrista, ou então também a extrema-direita. Mas mesmo assim, quer do lado da União Nacional, não há possibilidade, até com os partidos de direita, de encontrar esses 289 deputados. É uma complicação e vai ser algo de mesmo difícil de governar.

    O primeiro-ministro entregou a demissão ao Presidente esta manhã. Emmanuel Macron pediu a Gabriel Attal para que fique fica à frente do governo mais um tempo. Isto significa que vai haver um tempo de transição entre o actual governo demissionário e o próximo governo com vista ao calendário dos Jogos Olímpicos, mas também porque as conversações vão ser demoradas, podem ser longas para se chegar a um entendimento?

    Temos claro este contexto um pouco internacional, tendo em conta a aproximação muito rápida dos Jogos Olímpicos e a necessidade de haver alguém, pelo menos um governo num país que vai acolher o mundo. Era um previsível que houvesse esta continuidade, pelo menos durante umas semanas ou, digamos, até o início de Setembro.

    Agora vai ser também uma maneira de entrarem num processo de negociação, quer do lado também da nova Frente Popular, que apesar de ter chegado em primeiro lugar, não há um nome no qual todos os partidos concordam para apresentar ao Presidente da República, para depois entrar num processo de negociação com as outras forças da qual vai ser necessário, porque é preciso ter uma avaliação da Assembleia Nacional para haver uma confirmação do governo. Se houver uma rejeição dos outros partidos que formam a Assembleia da República, haverá um bloqueio. Vão ser mesmo momentos de negociações tensos, quer do lado da esquerda, quer do lado do centro, para ver o que é que vai ser possível formar como governo. Nesta dinâmica, já estamos a ver que a França Insubmissa, que é uma das principais tendências da nova Frente popular, é um pouco a figura que é muito criticado, quer do lado do centro, quer do lado da extrema-direita, também um pouco no seio da nova Frente Popular. Vai ser necessário encontrar uma figura que é mais do centro para poder abranger um pouco mais deputados, para ter um governo que seja possível.

    O Presidente francês ainda não se pronunciou, está à espera de conhecer a nova configuração parlamentar, os deputados têm até dia 18 deste mês para constituir a nova Assembleia. Quem nomeia o primeiro-ministro, segundo a Constituição francesa, é o artigo número 8 é Emmanuel Macron. O Presidente vai chamar a Matignon o líder do partido mais votado? Quais é que são os cenários possíveis?

    O cenário mais lógico seria de dar a possibilidade de formar um governo ao partido mais votado, ou seja, à nova Frente Popular para ver se consegue ou não eleger depois, ter uma avaliação de parte da Assembleia Nacional. As várias possibilidades; uma pessoa de direita é quase impossível porque nunca chegaram a um número que seja suficiente. O mais provável um candidato da nova Frente Popular que seja designado e vai ser necessário encontrar uma figura que não seja assim repelente - estou a pensar no caso da França Insubmissa, que foram muito criticadas por causa dos posicionamentos que tiveram durante a legislatura que acabou.

    Vai ser um pouco um momento de grande negociação. Não sabemos se será uma figura política ou uma figura da sociedade civil, ou seja, uma figura um pouco fora dos partidos, com uma tendência ou com uma proximidade ideológica da nova Frente Popular -para não ter esta dimensão muito partidária e vai ser, creio eu, necessário encontrar uma figura que crie consenso e que não seja uma figura que vai ser mesmo repelente ou que vai complicar esta negociação que vamos ter de criar em França, que é uma coisa, como já já referenciei, inédita e que vai ser necessário encontrar, senão vamos ver esta paralisia. Há um pouco uma necessidade de encontrar uma figura. Não sei se será a esquerda, se calhar também pode ser no centro uma figura mais do centro-esquerda para tentar um pouco aproximar as pessoas da nova Frente Popular. Mas vai ser muito complicado mesmo. Vai ser muito complicado encontrar este nome para um governo francês.

    Houve um nome proposto há dez dias pelo socialista Raphaël Glucksmann, o do antigo dirigente sindicalista, Laurent Berger, como possível primeiro-ministro. Ainda faz sentido hoje?

    Pode ser uma figura que seja interessante, no sentido em que não faz parte da vida política, dos partidos políticos. Tem uma tradição de participação sindical mais de centro-esquerda ou mais do centro. Até porque o partido é um sindicato que não é assim muito próximos das tendências mais da esquerda radical. Pode ser um nome que tenha um pouco uma possível capacidade de atracção das pessoas do centro, mas também é uma figura que foi uma proposta do Partido Socialista, mas não vejo assim muito dos outros partidos da esquerda, que pertence a esta nova Frente Popular, aceitarem o nome de uma pessoa da qual temos este marco de uma aceitação da reforma das pensões de 2019. Não é uma figura tão apreciada na esquerda francesa, então não sei se seria um nome mais sensato para um actual governo.

    A União Nacional de extrema-direita consegue eleger de quase duas vezes mais deputados. Em 2022, conseguiu 4 milhões de votos, dois anos depois, ontem, votaram 9 milhões de franceses para a União Nacional. Na campanha assistimos à violência e a propósitos racistas, estes comportamentos foram, de alguma forma, legitimados pela União nacional?

    Penso que sim. Houve uma forma de legitimação, mas ao mesmo tempo, foram também argumentos e ideias que incentivar as pessoas a reagir e a ir votar contra essas ideias. Porque vimos também que muito dos candidatos da União Nacional não estavam de todo preparados para participar na vida política. Vimos também o passado destes candidatos que tinham tido propósitos racistas, homofóbicas, anti-semitas. Essas figuras contrariaram um pouco esta imagem da União Nacional que se apresenta como um partido que é mais sério, que já não é tão extremo como o foi [no passado]. Ao mesmo tempo, como vemos com esta progressão do voto de extrema-direita que é cada vez mais forte - não podemos esquecer estes dado até porque toda a gente pensava que eles iam ficar na frente. Ficaram aquém do que estávamos a pensar, mas ao mesmo tempo há uma progressão clara. Essas ideias, essa questão do papel da imigração, da questão do racismo assumido e dessas ideias, vemos aqui, é o sinal de uma forma de fragmentação e de dificuldades sociais que podemos observar para essas pessoas que são consegue convencer outras pessoas neste sentido.

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  • Franceses nas urnas para defenderem valores da "liberdade, igualdade e fraternidade"

    Em França, decorre hoje a segunda volta das eleições legislativas com a extrema-direita a ter a dianteira em muitas dos 501 círculos eleitorais que ainda falta apurar. Em Bernes-sur-Oise, uma aldeia de cerca de 2.500 habitantes, vota-se numa triangular em que a extrema-direita tem a dianteira, algo que chocou a população.

    Em Bernes sur Oise, uma aldeia na extremidade norte da região de Ile de França, a região de Paris, é um dia importante para Jocelyne Borges de Carvalho, franco-cabo-verdiana, que hoje veio votar para impedir a chegada ao poder da extrema-direita no seu cículo eleitoral.

    "É extremamente importante votar hoje, este domingo, na segunda volta das eleições legislativas, porque é importante pelo menos para alguém que nasceu e cresceu em França, com pais cabo-verdianos, é importante defender os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que são valores franceses, mas também o valor da diversidade. Por isso, eu própria não tenho necessariamente uma cor política, mas convido realmente as pessoas a virem votar para que possamos viver todos serenamente", disse a eleitora em entrevista à RFI.

    É no 1º círculo eleitoral da região de Val d'Oise que acontece uma das 89 eleições triangulares onde três candidatos disputam a segunda volta das eleições. Aqui, em Bernes sur Oise, a candidata da União Nacional, Anne Sicard, chegou em primeiro lugar há uma semana, com 33,65% dos votos. O candidato da Nova Frente Popular, Maximilien Jules-Arthur, em segundo, e Emilie Chandler, do campo do Presidente, decidiu não desistir e continuar na corrida. O aumento dos votos na extrema-direita face às eleições de 2022 chocou uma parte da população.

    "O que marcou mais as pessoas aqui em Bernes sur Oise foi a ascensão da extrema-direita, um partido que defende valores que são contra a diversidade e contra os direitos das mulheres. Portanto, espero realmente que as pessoas venham votar contra este partido", constatou.

    Esta manhã, por volta das 13:00, já tinha votado 38% da população, mais do que a média nacional que se situava por volta dos 26%.

    Com 34 anos, e tendo crescido em cidades multi-culturais entre a região parisiense e Amies, Jocelyn vê-se agora confrontada com um discurso de ódio e uma agressividade que diz nunca ter visto até agora em França.

    "É verdade que este discurso de ódio e racista está a crescer cada vez mais. Antes, em todo o caso, a União Nacional, antiga Frente Nacional, não tinha esta força. Desde que vivemos nesta crise e neste período de grande inflação, as pessoas estão a ter dificuldade em sobreviver e já não acreditam no que lhes é oferecido, por isso tendem a ir para um partido porque não conhecem. Mas também se esquecem de onde vem esse partido. Portanto, acho que as pessoas estão muito preocupadas por tudo o que afecta a sua vida quotidiana e querem mesmo mudar", declarou.

    Para esta franco-cabo-verdiana, o que a assusta mais são os valores com os quais o filho será confrontado caso a extrema-direita triunfe.

    "Tenho muito medo destas convulsões porque, hoje, não sabemos o que vai mudar. Mas eu preferia que o meu filho crescesse num país que defende a liberdade e a diversidade, onde todos podem viver juntos, tanto mais que ele também cresceu em Sarcelles, uma cidade muito cosmopolita onde todas as nacionalidades vivem juntas. E eu quero realmente que ele cresça num ambiente são, sem ódio, mas que também respeite estes valores ligados à igualdade, uma igualdade que lhe permita dizer que aqui é possível, e se ele quiser ser Presidente, pode ser Presidente, sem se sentir limitado pelas escolhas politicas deste país", concluiu.

    A preocupação estende-se a toda a comunidade cabo-verdiana, com alguns membros a ponderarem mesmo um regresso ao país de origem ou país de origem dos seus pais, embora esta seja uma volta difícil para quem viveu toda a sua vida em França.

    As pessoas partilham os seus medos, os seus receios de ter obstáculos aos seus direitos em França. Por isso, inevitavelmente, estamos sempre a falar disso, a toda a hora. Neste momento, as pessoas não estão serenas e têm medo do resultado. Já ouvimos as pessoas dizerem talvez volte para Cabo Verde. Se alguma vez a extrema-direita chegar ao poder, fala-se nisso. Temos sorte em poder voltar ao nosso país de origem. Só que não é também não é uma vontade, porque Cabo Verde é um país onde gostamos de ir de férias, mas faltam algumas infra-estruturas, nomeadamente a nível da saúde e alguns reformados aqui em França de cuidados de saúde e têm medo de voltar. Mas ainda é muito cedo para falar deste tipo de extremos.

    Este final de tarde, Jocelyn estará entre um número limitado de cidadadãos que vão ajudar a contar os votos, fazendo viver em cada mesa eleitoral o espírito republicano independentemente do candidato mais votado.

    Catarina Falcão,

    Bernes sur Oise,

    RFI

    7 min

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