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O palco do B.Leza, em Lisboa, vibrou de forma intensa num espetáculo criado pela Casa da Cultura da Guiné Bissau. Celebrar o centenário de Amílcar Cabral e homenagear José Carlos Schwarz foi o mote da primeira edição do espectáculo Ora di Kanta Tchiga.
Numa noite em que se testemunhou um dos momentos mais emblemáticos de celebração da cultura guineense, onde a música comprometida brilhou com potência redobrada, o palco do espaço lisboeta B.Leza transbordou de energia com as prestações de Maio Coopé, Karina Gomes e Remna, filho de José Carlos Schwarz.
A força inspiradora e o engajamento de Amílcar Cabral, o "pai da independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau", e José Carlos Schwarz, nome cimeiro da história da música guineense, vibraram de forma intensa num espectáculo criado pela Casa da Cultura da Guiné Bissau com o apoio da Fundação José Carlos Schwarz.
Após o primeiro grande evento da Casa da Cultura da Guiné-Bissau, a RFI falou com Remna, músico e membro fundador da Fundação José Carlos Schwarz, e Bia Djassi, da Casa da Cultura da Guiné-Bissau.
Link Casa da Cultura da Guiné-Bissau:
https://casadaculturagb.org/
A Hungria assume a presidência do Conselho da União Europeia no próximo dia 1 de Julho. São conhecidas as posições eurocépticas do primeiro-ministro, Viktor Orbán, e ainda os desentendimentos no apoio à Ucrânia e à indústria de defesa europeia. O analista em assuntos europeus, Paulo Sande, fala das consequências desta presidência húngara, sublinhando que o apoio à Ucrânia será o grande desafio.
RFI: A Hungria assume a presidência do Conselho da União Europeia, a 1 de Julho. São conhecidas as posições eurocepticas de Viktor Orbán. O que é que se pode esperar desta presidência?
O que se espera desta presidência é que não seja um entrave para as várias políticas e orientações da União Europeia em matérias, nomeadamente, relacionadas com a guerra na Ucrânia. No entanto, em relação a outras políticas europeias, sabendo que está a ser feita uma transformação em todos os órgãos e instituições da União Europeia, uma presidência desta natureza pode não ser tão complicada do ponto de vista das consequências para o bloco europeu. Considero que a grande questão da Hungria será a relação com a Ucrânia.
O que se pode esperar do apoio à Ucrânia e à indústria de defesa europeia, dois temas especialmente significativos, dados os laços historicamente estreitos de Viktor Orbán com Moscovo?
Aquilo que faz a presidência do Conselho da União Europeia, que é o nome formal destas presidências semestrais, é gerir as agendas, gerir as reuniões do Conselho de Ministros- nas suas várias declinações e perante as várias formações- onde estão ministros de diferentes áreas. Eu diria que poderemos assistir ao retardamento de muitas das decisões indispensáveis, sabendo que os alemães têm pressionado muito no sentido de conseguir ainda mais apoio para a Ucrânia.
O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, está em Bruxelas para assinar um pacto de segurança com a União Europeia….
Há esta necessidade por parte da Ucrânia, sobretudo neste período muito complicado. No entanto, é preciso lembrar que não tem a ver com a presidência do Conselho da União Europeia por parte da Hungria, mas sim com as eleições em França. Saber qual será a pol´tica da França. A Ucrânia sabe que precisa, mais do que nunca, não apenas da concretização das promessas, mas precisa das promessas. Ou pelo menos precisa de um sinal político de que o apoio europeu não esmoreceu
Precisa de uma Europa mais unida?
Volodymyr Zelenskysabe sabe que é isso está em causa. Há ainda outros acontecimentos a ter em conta, nomeadamente a situação muito complicada na Alemanha, as eleições nos Estados Unidos, no final do ano, tudo isto representa para a Ucrânia uma ameaça existencial, num período em que a situação no terreno está complicada. Por outro lado, Putin e a liderança da Rússia têm multiplicado as suas diligências diplomáticas, nomeadamente com o reforço de laços.
Refere-se à Coreia do Norte?
Exactamente. Zelensky sabe que tudo isso está em causa e, portanto, o que ele precisa é desse tipo de afirmações.
Depois de se ter encontrado com o chanceler alemão Olaf Scholz, em Berlim, com a Primeira-Ministra George Meloni, em Roma, o chefe do executivo húngaro encontrou-se, ontem, com o Presidente Emmanuel Macron. O que é que procura Viktor Orban com estes encontros?
Viktor Orbán procura convencer os restantes líderes europeus para aquilo que têm sido as reservas colocadas pela União Europeia, em particular pela Comissão, nos últimos anos, relativamente à forma como a democracia húngara funciona. Orbán quer convencê-los- aproveitando no fundo este período e formalmente fazendo esse périplo- demonstrando a sua boa vontade em termos de integração europeia. Ou seja, normalizar um pouco como tem feito, nos últimos tempos, muitas das lideranças e até partidos políticos, alguns deles em vias de chegar ao poder.
Normalizar as políticas?
No fundo, Viktor Orbán quer reduzir a preocupação dos restantes líderes europeus relativamente à possibilidade desses partidos se tornarem Governo em vários países europeus, como é o caso de Viktor Orbán. E sabemos que Hungria têm tido problemas com a Comissão Europeia
A Hungria que viu bloqueados 19 mil milhões devido às violações de direitos de Estado…
Esta é a oportunidade para conseguir isso, a partir do momento em que vai assumir a presidência do Conselho da União Europeia, ao mesmo tempo que cria obrigações do ponto de vista do funcionamento da própria União Europeia.
Há aqui uma espécie de relação transacional em que Viktor Orbán, no fundo, procura obter vantagens e, nomeadamente, libertar uma parte desses recursos ou todos, se for possível, com a promessa dessa normalização. Vai tentar justificar aquilo que, aos olhos de muitos europeus, não é aceitável. Não é apenas a relação com a Rússia, mas também o funcionamento da própria democracia húngara.
Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia vão decidir se aprovam o nome, nomeadamente António Costa, para a liderança do Conselho Europeu, Ursula Vanderlan para um segundo mandato na Comissão Europeia e a primeira ministra da Estónia, Casa Kallas, para chefe da diplomacia comunitária. Apesar do consenso sobre estes três nomes, os primeiros-ministros da Itália, Geórgia Meloni, e da Hungria, Viktor Orban, já demonstraram estar contra o pacote que está destinado aos cargos de topo. Que margem têm estes dois países para negociar?
Eles não podem fazer muito. No entanto, é preciso ver que Geórgia Meloni e Viktor Orban têm posições diferentes. No fundo, o que Geórgia Meloni veio dizer é que quer ter uma uma participação nas negociações, tendo em conta o resultado do partido Fratelli de Itália, nestas últimas eleições europeias, e o facto do grupo político a que pertence na União Europeia ter passado a ser, pelo menos em princípio, o terceiro grupo mais importante do Parlamento Europeu. Órban faz um pouco a mesma coisa. Tem, apesar de tudo, uma posição e um ponto de partida diferente, tentando neste momento conseguir outro tipo de reconhecimento por parte dos seus pares.
A escolha da actual presidente da Comissão Europeia como candidata ao um próximo mandato é uma escolha quase que obrigatória, no sentido em que ela foi apresentada como a candidata principal. Vai ser feita essa votação, mas a partir do momento em que o acordo é feito em conjunto, não há margem para que não seja aprovada.
No caso do presidente do Conselho Europeu, por exemplo, há uma votação. Essa votação implica maioria qualificada reforçada de 72% dos países e 65% da população que à partida está garantida, não se podendo opor a essa escolha. E em relação à Kaja Kallasa [primeira-ministra da Estónia] a escolha é obviamente simbólica.
Trata-se de uma mensagem para a Rússia?
É uma mensagem clara, associada à escolha do Secretário-Geral da NATO, para a Rússia, mostrando que a Europa continua unida nos seus desígnios de se opor aos objectivos da Rússia nesta guerra com a Ucrânia. O facto de ser alguém de uma área que está directamente preocupada com a ameaça russa, estamos a falar dos Estados Bálticos, é uma mensagem forte no sentido de dizer nós continuamos empenhados nesta via.
A Lighthouse Reports e a Bloomberg conduziram uma investigação que revela casos de irregularidades nos processos de recenseamento e eleitoral em Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, onde "sistemas sofisticados de recenseamento eleitoral se tornaram um meio para o partido no poder, a Frelimo, manter o controlo", explica a jornalista Beatriz Ramalho da Silva que fez parte da investigação.
RFI: A Lighthouse Reports e a Bloomberg conduziram uma investigação onde revelam detalhes sobre o contrato de recenseamento eleitoral assinado pelo governo moçambicano com o consórcio moçambicano Artes Gráficas e com empresa estrangeira Laxton. A investigação, intitulada "Promessa falhada dos sistemas biométricos", decorreu durante um ano e destaca várias irregularidades sobre o recenseamento e sobre o processo eleitoral em Moçambique. Que conclusões se tiram desta investigação?
Beatriz Ramalho da Silva: Esta é uma investigação que é parte de uma série maior que estamos a fazer na Lighthouse Reports sobre as falsas promessas da tecnologia biométrica. O que encontramos em Moçambique, onde o enfoque é o sistema de recenseamento eleitoral, é uma situação de uma família muito bem conectada à Frelimo, que é beneficiada em milhares de euros através de contratos eleitorais e que nas últimas eleições, tanto 2018 como 2023 trouxeram esta empresa estrangeira Laxton para providenciar o recenseamento.
O que descobrimos que acontece em 2018, através de, nomeadamente organizações locais de observação e da União Europeia, é que houve uma série de irregularidades, ou seja, inflação de eleitores em locais simpáticos à Frelimo e depois complicações no recenseamento de eleitores em áreas de oposição. Falámos com pessoas próximas do governo e que trabalhavam para a Laxton, esta empresa estrangeira, que nos disseram que os técnicos informavam os seus superiores dentro da empresa, de que havia tentativas de manipular o equipamento, de suprimir o recenseamento da oposição. Isto podia passar por equipamento desconectado ou alocado propositadamente a áreas sem corrente eléctrica.
O que nós conseguimos apurar, em primeiro lugar, foi que esta empresa tinha conhecimento e que escolheu não actuar sobre isto, ou seja, ignorou aquilo que lhe foi colocado pelos seus técnicos. Naturalmente, há uma responsabilidade não só do lado do governo moçambicano, mas das empresas estrangeiras que vendem estas tecnologias, pois elas devem assegurar que a transparência na forma com a tecnologia é utilizada. Mas, para além disso, o que também conseguimos apurar foi que em 2023 foi aprovado um segundo contrato por ajuste directo, ou seja, uma situação excepcional no valor de 127 milhões de dólares para esta empresa Laxton em consórcio com Artes Gráficas e o que descobrimos foi que dentro do sector, ou seja, dentro do órgão eleitoral moçambicano, tivemos acesso a documentos que demonstram que havia uma série de reservas e preocupações quanto ao custo e a viabilidade técnica da proposta desta tecnologia.
No entanto, o governo acaba por renovar este contrato com a empresa estrangeira Laxton, um contrato dispendioso e o executivo acaba por recusar lançar um concurso público?
Exactamente. Segundo o que apuramos, ao falar com um antigo alto funcionário dentro do governo, parte da razão para o qual a Laxton teria sido escolhida como fornecedora era pelo facto de terem sido contratados anteriormente. Deveria ter havido a possibilidade de reutilizar estes kits de identificação móvel, ou seja, os kits utilizados para o recenseamento para reduzir custos. Mas em vez disso, houve uma apresentação feita para um equipamento completamente novo, por um preço que esta fonte chamou de "assustador". Tivemos acesso a documentos que mostram que funcionários dentro do órgão eleitoral consideravam que este equipamento seria frágil, seria lento, que poderia haver dificuldades de transporte para as zonas rurais, ou seja, havia uma série de reservas.
Houve, nomeadamente, a introdução de um novo cartão de eleitor, que é um cartão PVC, ou seja, supostamente mais durável, que iria substituir os que tinham sido emitidos em 2018. O que acontece é que tivemos acesso as atas de uma reunião confidenciais que mostram que funcionários dentro do governo puseram em causa os benefícios destes cartões, dado o facto que em Moçambique o recenseamento não é permanente, tem de ser feito a cada cinco anos, ou seja, não havia uma boa relação de custo benefício. Inclusive uma pessoa dentro da CNE chamou esta introdução dos cartões de PVC como um artifício para fazer aumentar o preço e depois, naturalmente, em 2023, constatou-se os mesmos padrões de irregularidades que tinham sido vistos em 2018 e, aliás, os observadores locais disseram que foi ainda mais acentuado os problemas que viram no terreno.
Na investigação são citadas várias fontes anónimas, há medo em denunciar estes processos de irregularidade?
Absolutamente. As pessoas têm bastante receio no que toca a falarem sobre o facto que a Frelimo suprimiu o recenseamento da oposição, que houve irregularidades, que há também uma família conectada ao governo que repetidamente recebe milhares de euros em contratos directos e, curiosamente, uma das pessoas que são referidas na peça Shafee Sidat é um presidente do município em Moçambique e também recebe dinheiro, digamos, para contratos eleitorais. E toda a gente com quem falei tinha bastante receio e tivemos que proteger a sua identidade. Inclusive as pessoas que falaram e dando o seu nome fizeram no também com reservas.
Como é que surge a ideia de fazer esta investigação? Durante vários processos de recenseamento e processos eleitorais houve organizações da sociedade civil, observadores que denunciaram irregularidades. Este foi o vosso ponto de partida?
Em parte, como eu dizia anteriormente, esta é uma investigação que é parte de uma série maior que estamos a fazer na Lighthouse Reports e onde examinamos contratos de tecnologia biométrica em diferentes países africanos, quer seja pela introdução de cartões de cidadão e depois para demonstrar que, de facto, aquilo que é vendido como uma promessa de maior transparência ou democratização acabam por abrir caminhos para novos modos de irregularidades. O que se constata em Moçambique é uma tecnologia que é vendida, mas que acaba, na verdade, não só para criar uma nova via de irregularidade, como também para trazer um negócio lucrativo para empresas estrangeiras e empresários locais em Moçambique. Era claro que teríamos que nos debruçar sobre o recenseamento eleitoral e aí foi peça chave ter todos os relatórios das pessoas que estão no terreno, ou seja, observadores locais fazem este trabalho, às vezes com poucos recursos e fazem um trabalho excelente de denunciar todos os temas dentro do recenseamento e também observadores da União Europeia. A partir daí, soubemos que tínhamos que examinar ainda mais o que é que estava por trás disto e também qual era a responsabilidade da empresa estrangeira que foi trazida para trabalhar em Moçambique.
Que metodologia utilizada para conduzir a investigação?
O que fizemos primeiramente falámos com várias pessoas que estavam intimamente implicadas no processo eleitoral, portanto, várias entrevistas com pessoas dentro do governo, dentro dos órgãos eleitorais, dentro desta empresa Laxton, e a partir daí, criarmos um caminho onde conseguimos ter acesso a documentos internos e atas, reuniões confidenciais e outro material que fez com que a investigação fosse possível.
Tentaram confrontar as autoridades moçambicanas; representantes do governo da Frelimo, o gabinete da Presidência com os resultados desta investigação e não obtiveram resposta?
Exacto. Tivemos conhecimento através de relatórios de observadores locais e eleitorais tanto da parte da União Europeia, como outras pessoas que estão no terreno, nomeadamente uma organização de anti-corrupção em Moçambique, CIP, que fizeram vários relatórios sobre isto, revelavam que havia várias tentativas de desligar o equipamento em zonas onde haveria um maior número de eleitores pela oposição. Ou seja, este equipamento era desligado e diziam que eram avarias. Havia uma restrição para que estes eleitores não se conseguissem recensear. Havia questões em que o equipamento era deliberadamente posto em zonas sem electricidade. Isto depois que também foi dito por técnicos dentro da Laxton, da imprensa estrangeira, situações onde impressoras paravam de funcionar. Ou seja, criava se como, digamos, uma artimanha para dizer que o equipamento aqui não funciona, mas na verdade eram muitas vezes situações de manipulação ou situações criadas para que os eleitores da oposição não se pudessem recensear. Em 2018, aquilo que se constatou, por exemplo, aqui novamente, é que depois há uma inflação no número de pessoas recenseadas em zonas simpáticas à Frelimo é muito menor número de pessoas que são recenseadas da oposição. Portanto, isto tem uma repercussão muito real naquilo que é o exercício de cidadania dos moçambicanos.
Na investigação, a dada altura, pode-se ler que um dos "objectivos principais era recensear os nossos", que o objectivo não era atingir uma meta diária de recenseamento, mas recensear potenciais eleitores que "pudessem votar no partido no poder, portanto, na Frelimo".
Exactamente. Nós tivemos acesso a uma série de mensagens e isto foi bem reportado em Moçambique, tivemos acesso a mensagens de WhatsApp onde havia um director distrital do STAE da Beira de uma zona de Moçambique que estava a instruir os seus técnicos a recensear selectivamente os eleitores, ou seja, apenas a recensear eleitores da Frelimo. Portanto, eram situações bem coordenadas para a supressão do recenseamento de alguns eleitores.
Moçambique tem eleições gerais a 9 de Outubro. Há razões para ter apreensões quanto ao que está a ser preparado pela Comissão Nacional de Eleições e pelo Secretariado Técnico de Administração Eleitoral. Em que medida é que a falta de independência e transparência da CNE e do STAE pode vir a comprometer a confiança pública no processo eleitoral?
Acredito que aquilo que esta investigação demonstra é que há, de facto, reais preocupações da forma como o sistema eleitoral é gerido. O que vemos aqui é uma enorme falta de transparência e de irregularidades só na parte do recenseamento. Acho que quem acompanha o processo eleitoral em Moçambique acompanhou as eleições autárquicas, onde houve uma nova onda de irregularidades e portanto penso que a situação em geral é preocupante e sabemos que este equipamento e estas tecnologias são utilizados para criar novas avenidas para promover outras irregularidades.
O Quénia enviou esta terça-feira, 25 de Junho, 400 polícias para o Haiti no âmbito de uma missão internacional de apoio à segurança, a pedido das autoridades haitianas e sob os auspícios das Nações Unidas. A decisão foi tomada em resposta à crise de segurança que o Haiti enfrenta. O professor universitário em Bordéus, de origem haitiana, Rafael Lucas, descreve um sentimento de esperança e de desconfiança por parte das população haitiana quanto à chegada da missão internacional.
RFI: Quais são os objectivos desta missão e de que forma esses objectivos podem vir a ser alcançados?
Rafael Lucas: Os objectivos são ajudar o governo haitiano a restabelecer a ordem, mas nem sempre corresponde à necessidade da população haitiana, que é eliminar os bandidos, porque a população, na sua maioria, não quer que os bandidos sejam julgados. Eles preferem que o contigente queniano os ajudem a impor tranquilidade e paz, sobretudo nas vias de circulação inter-urbanas porque os bandidos atacam veículos de transporte e também querem que as crianças possam ir à escola, que os veículos possam circular e que a vida económica possa ser retomada.
Esta decisão foi tomada em resposta à crise, como explicou de segurança que o Haiti enfrenta e que se agravou desde o passado mês de Fevereiro, marcado por um aumento de violência entre gangues, sequestros e uma situação humanitária crítica Esta missão pretende restaurar a ordem, combater gangues, fornecer ajuda humanitária, É isso?
Por enquanto, o contigente queniano vai garantir a possibilidade de proteger os prédios oficiais. A maioria desses prédios já foi assaltada pelos bandidos e a maior parte dos funcionários já fugiu desses prédios, incluindo os hospitais. Então, as forças quenianas têm como missão garantir a tranquilidade desses prédios. A questão dos prédios não constitui a prioridade da população.
Qual é a prioridade da população?
É primeiro a circulação e depois querem que o contigente possa eliminar os agrupamentos de bandidos porque eles já tinham começado há um ano, um ano e meio, mais ou menos uma operação para reduzir bandidos, chamada "linchamento", muitos bandidos foram linchados, foram queimados. É um método brutal e quase medieval, mas esse método deu resultados, pelo menos durante certo tempo, até que os bandidos se conseguiram adaptar e também mudar de estratégia.
Que cooperação existe entre o contigente queniano e as forças haitianas locais, bem como outros contingentes internacionais presentes no terreno?
Acho que o governo haitiano estava à procura de uma ajuda internacional que no princípio devia começar a partir dos países mais próximos. Só que os países da América Latina, a maior parte deles, recusaram aventurar-se no atoleiro haitiano. Os Estados Unidos, por razões históricas, a França também, e o Canadá e outros países como o Brasil, também recusaram. Eles foram buscar ajuda a África e o Presidente do Quénia propôs enviar um contigente
Por que é que esses países todos recusaram ajudar e enviar polícias para o Haiti?
Os Estados Unidos já tinham invadido e ocupado Haiti entre 1915 e 1934 e a ocupação americana deixou um verdadeiro traumatismo no Haiti. A França também, pelas mesmas razões depois, os outros países sabem que os bandidos podiam utilizar a presença deles como pretexto para se redimir e mostrar que lutavam contra a ocupação estrangeira. Mas com os africanos, eles não têm os mesmos argumentos.
Existe a relação histórica entre o Quénia e o Haiti, apesar de ser limitado em termos de profundidade histórica e interacções directas. Os dois países partilham fortes laços simbólicos, como nações que lutaram pelas suas independências contra potências coloniais e contribuíram para o surgimento de movimentos de descolonização e cooperação internacional...
Sim, é um argumento que eles utilizam, mas no Haiti a população não tem nenhuma referência a propósito do Quénia, tirando alguns filmes sobre animais, filmes dos anos 60 ou 80, eles não conhecem a história do Quénia, não ouviram falar do Jomo Kenyatta e da Revolta dos Mau-Mau.
Quais são os principais desafios que o contigente queniano podem vir a enfrentar no Haiti?
Para já, as infra-estruturas urbanas estão em péssimo estado. Depois vão intervir num país cuja cultura e língua não conhecem. Uma parte da população têm um certa esperança nessa intervenção porque eles sofreram demasiado com as crueldades dos bandidos e outra parte considera que é uma nova forma de ocupação porque as intervenções anteriores internacionais, nomeadamente as missões enviadas, como por exemplo a MINUSTAH [Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti] não tiveram resultados. Há uma parte de desconfiança e outra parte de esperança, mas acho que a parte esperança, por enquanto, é maioritária. Se as primeiras acções, pelo menos simbólicas, forem acções eficazes, a parte da esperança vai crescer.
A comunidade internacional, em particular as Nações Unidas, apoia o envolvimento do Quénia no Haiti, apesar de outros países não terem dado este passo. Como é que explica que a comunidade internacional queira apoiar o contigente queniano?
Porque a situação no Haiti representa um descalabro total e porque as forças haitianas estão em número muito inferior às capacidades dos bandidos, em termos de número e em termos de armamento. A única solução, tirando as linchagens que não podem constituir uma solução viável. A última solução era uma intervenção exterior, com forças exteriores multinacionais, se possível.
O Bureau Político do Comité Central do MPLA recomendou recentemente, ao grupo parlamentar, a criação de mais uma província, resultante da divisão de Luanda, capital de Angola, no âmbito da discussão da divisão administrativa do país. Em entrevista à RFI, Serra Bango, presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia, fala num desnorte do MPLA, sublinhado que é mais uma medida para o partido se eternizar no poder.
RFI: Bureau Político do Comité Central do MPLA recomendou a criação de mais uma província, resultante da divisão de Luanda, no âmbito da discussão da divisão administrativa do país. Considera pertinente a divisão administrativa de Luanda?
Serra Bango, presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia de Angola: O MPLA não diz claramente o que pretende, qual é o estudo que fez e o que determina que o aconselhável seria a divisão administrativa de Luanda. Ficamos com a impressão que há aqui um desnorte por parte do MPLA relativamente a esta matéria.
A primeira iniciativa era dividir cinco províncias, depois recuaram para duas, passando de 18 para 20 províncias. Luanda inicialmente não estava prevista, até porque Luanda já foi dividida várias vezes em municípios, distritos, comunas, etc.
Tanto é que Luanda é das províncias mais pequenas em termos de extensão territorial. O problema tem que ver com a densidade populacional, a falta de emprego e o estímulo para o retorno das populações mais jovens às suas zonas de origem.
O facto de dividir Luanda, com forte densidade populacional, em duas províncias não poderá trazer melhorias para a população?
Não trará. Se não há iniciativas actuais para resolver os problemas para a distribuição de água, energia, emprego e mobilidade, quem ao nível do MPLA- nessa altura- teria iniciativas para aquelas circunscrições mais pequenas? Não há, porque se tratam de vícios perpetrados pela administração do MPLA.
Na minha opinião, o que resolve o problema das populações é a de oferta de emprego, soluções para o fornecimento de água, energia e para o problema da mobilidade
Actualmente, Luanda tem apenas duas vias para quem circula na capital. Uma via circular que liga Benfica/Cabo Longo e vai até Cacuaco, a via expressa, e há outra que liga Mutamba até à 33. Mas as vias secundárias, terciárias não dependem da divisão política administrativa da província de Luanda. Isso depende da existência de projectos estruturantes que visem o desenvolvimento da cidade de Luanda.
O MPLA refere que esta recomendação pretende dar resposta mais eficaz à população, dadas as dimensões da actual província de Luanda...
Sim, mas então para isso teriam que dividir todas as províncias, uma vez que os problemas são os mesmos. Parece-me que com esta questão o MPLA quer encontrar formas de acomodar o excesso de membros do grupo e do Comité Central, ou seja repartir os bens com esses membros do partido.
Depois, numa perspectiva futura, o partido pretende aumentar o número de deputados e distribuí-los pelo MPLA. Se olharmos para os resultados eleitorais, nas últimas eleições, o MPLA em Luanda não teve bons resultados e quase perdeu a divisão administrativa da cidade. Nestes termos, a divisão de Luanda, faria com que o MPLA, provavelmente, naquelas áreas em que tem algum militante, consiga no futuro, para além das autarquias, ter mais dois ou três deputados. Isto à semelhança do que poderá vir a acontecer no Cuando Cubango e no Moxico.
Na proposta de divisão política administrativa do país, em discussão no Parlamento, prevê-se a divisão das províncias do Moxico e do Cuando Cubango. Aquilo que me está a dizer é que com esta divisão administrativa, o MPLA se quer eternizar no poder?
O antigo secretário do Grupo Político para a Informação do MPLA, Rui Falcão Pinto Andrade, quando questionado pela Rádio Eclésia sobre a possibilidade do MPLA deixar o poder, respondeu que sim, mas só daqui a 50 anos. Estas declarações permitem-nos concluir que o MPLA fará todas as artimanhas possíveis e imaginárias para se perpetuar no poder.
Por outro lado, parece-me que estas permanentes tentativas de divisão política administrativa do país visam protelar para as calendas gregas apesar de já ter sido discutido e aprovado na generalidade a lei da institucionalização das autarquias a efectivação das autarquias.
Este é o argumento da oposição UNITA, CASA-CE e o FNLA- que afirma que esta medida pode ter como objectivo adiar as eleições autárquicas. Acha que é disso que se trata?
Mesmo que não se faça esta visão política e administrativa, o MPLA não quer realizar as autarquias. Para já, este ano não haverá, porque não foi discutido no Orçamento Geral do Estado. Vamos lá ver se no próximo ano, em Outubro, quando se discutir a proposta do Orçamento Geral do Estado, já consta a proposta de Orçamento para as autarquias.
Américo Chivukuvuku referiu que"com 164 municípios, o executivo mostra-se incapaz de resolver os problemas e com estas alterações em que o país passará a contar com 20 províncias neste caso serão 21- 325 municípios e 375 comunas. Como é que vai ser feita esta administração?
Quem com uma província não consegue gerir, com duas será ainda pior. As populações serão as mesmas, elas não vão ser deslocadas. Haverá, simplesmente, uma divisão artificial das fronteiras, dos municípios e da administração. Todavia, os vícios continuarão a ser os mesmissimos, quer na administração do Estado, quer no dia-a-dia dos cidadãos.
Quando Paris se prepara para acolher os seus Jogos Olímpicos começam a sair de terra as novas estações de metro que vão alterar a fisionomia da capital francesa. Na Estação do Aeroporto de Orly, na linha 14 do metro, uma obra monumental de azulejos do artista Vhils presta homenagem a Paris e às suas gentes. A RFI participou na inauguração da estação e falou com este que é um dos maiores expoentes da arte contemporânea portuguesa.
Paris acolhe o mundo a partir de 26 de Julho para os Jogos Olímpicos de 2024.
Praticamente um mês antes do arranque da competição a capital francesa passa a ser ligada por metro, num trajecto de cerca de 20 minutos, até um dos seus aeroportos internacionais: o de Orly.
A inauguração do prolongamento da linha 14 do metro parisiense, para norte e para sul, no caso até Orly, acontece a 24 de Junho.
A estação do aeroporto, essa, foi inaugurada nesta quarta-feira, 19.
Como nas quase 70 novas estações que compõem a rede Paris Express, que devem alterar a fisionomia dos transportes, aqui também dois artistas deixaram uma obra perene.
O desenhador francês de banda desenhada Edmond Baudoin e os seus "Jogos de crianças", ilustra, nas paredes da própria plataforma do metro, a forma como os mais novos olham para o mundo da aviação.
Por seu lado o português Alexandre Farto, celebrizado mundialmente pelo nome artístico de Vhils assinou a obra "Estratos urbanos" [Strates urbaines].
Trata-se de um mural de azulejos, azuis e brancos, de 34 metros de comprimento e 7 metros de altura representando Paris, os seus monumentos: mas também os rostos plurais dos seus habitantes que se confundem com a própria cidade.
Do grafitti ilegal no Seixal, arredores da capital portuguesa, até muitas obras dispersas pelo mundo... aquele que era um dos maiores expoentes da chamada "street art", arte da rua lusitana, instalou-se no interior daquela que será uma das principais portas de acesso doravante para Paris: a partir deste aeroporto do sul da região da capital francesa.
Foi entre os níveis -1 e -2 desta estação de metro do Aeroporto de Orly, junto à obra monumental do artista, que conversámos com Vhils, logo após a respectiva inauguração, abrilhantada pela presença de Luís Montenegro, primeiro-ministro português."
Vhils admite que esta obra marca, mesmo, uma viragem no seu percurso.
"Foi uma honra e foi, para mim, que comecei a trabalhar maioritariamente na rua, com 13 anos... Estar aqui a fazer esta obra, para mim é um novo caminho para o trabalho, mas também para toda a equipa.
Já somos algumas pessoas e temos trabalhado bastante em vários sítios, mas nunca numa estação. E não um trabalho tão pouco efémero como este, porque é um trabalho que há-de ficar e que para nós teve muito significado.
E acho que sim, é um marco, é um passo na carreira."
Você fez questão de vincar de onde vinha. Falou das suas raízes alentejanas, para além de ser também um filho dos subúrbios de Lisboa, do Seixal. Porquê?
"Primeiro porque tenho orgulho do sítio onde nasci, e que me deu muito. E depois também, numa altura em que no mundo há muitas questões a serem levantadas em relação a isso, de demonstrar também que todas estas estruturas que foram criadas depois da Segunda Guerra, maioritariamente a União Europeia...
E o facto de haver estas interligações entre países, proporcionaram-me a mim e aos meus pais saírem do Alentejo. Hoje em dia vivem em Lisboa.
E a mim também de chegar aqui e fazer um projecto que envolveu pessoas de França, de Portugal, mas também de outros países europeus e dos países do mundo inteiro. E que isso é importante ressalvar e preservar.
E ter noção que foi, graças a uma série de investimentos em infra-estructuras, seja nas escolas, seja nos hospitais onde eu nasci e seja dentro desse percurso, que é um esforço colectivo que me permitiu também estar aqui.
E acho que eu: vindo do graffiti e ter feito o meu percurso.. Tudo bem, houve muito trabalho e muita dedicação ! E não estou a falar que não há uma iniciativa própria de ter lutado por muita coisa.
Mas houve uma série de condições que foram criadas pelo meio. E por uma Europa que me permitiu chegar a partir das ruas a trabalhar para conseguir chegar e fazer uma peça aqui.
Todas as pessoas que fui também envolvendo no processo do atelier, tanto da fábrica de azulejos em Portugal, como a equipa que trabalhou também em França, que também tinha portugueses. E esta estação também tem portugueses a trabalhar !
E isso demonstra também que quando nos unimos e quando temos esta integração, que existe entre os vários países da Europa, conseguimos ter mais força.
Porque é na diversidade que também conseguimos, se calhar superar-nos. E foi por aí que também quis vincar esse lado."
Pintou na ilegalidade, como o dizia, e agora é consagrado. Tem vários projectos simultâneos em Paris e este é aquele que vai ficar.
Já está ligado a Paris: penso, por exemplo, naquela Torre de Paris 13 que acabou por ser dinamitada. Já esteve em várias galerias, agora também está em "We Are Here". Como é que de repente se criou este quase cordão umbilical tão forte com Paris?
"Paris sempre foi uma cidade com uma força e um centro gravitacional à volta do mundo da arte muito importante ! E já desde os tempos em que pintava e que tinha muitos colegas e que pintavam em Paris, de Paris e de outros sítios.
Desde então foi uma relação já de 15 anos. Quase que com frequência sou convidado para projectos, ou que venho pintar com colegas que também são artistas. E essa relação foi ficando e é para mim bastante importante."
Esta matéria-prima é muito portuguesa, o azulejo. Todavia, tenho a impressão que você tem tido muitas outras matérias-primas que não necessariamente o azulejo.
Como é que foi pegar neste património, neste DNA português? O que é que você quis, de facto, mostrar aqui com esta obra?
"Primeiro de tudo, eu queria fazer uma obra que recebesse as pessoas e que de alguma forma humanizasse o espaço e a arquitectura.
Toda a natureza de trabalhar no espaço público tenta trazer um bocadinho a humanidade e a relação a esta relação que as pessoas têm com a cidade e a arquitectura... Que a mim sempre me pareceu um pouco fria e de betão e cinza.
E para mim eu queria quase partir a superfície da estação. E com ela deixar libertar o azul cobalto, que foi a cor que também escolhi aqui.
E quase que revela uma série de monumentos, uma série de imagens, de olhares que muitas vezes vemos em estações. E queria criar uma relação com o "viewer". O azulejo, para mim; foi um caminho natural. Porque é uma coisa muito ligada a Portugal, às minhas raízes. Mas tentei-lhe dar uma outra leitura e ir mais longe.
Ele não é pintado. São 11 658 azulejos, todos eles cravados, todos eles únicos, que envolvem o trabalho de uma fábrica que fechou a porta quase durante dois anos para produzir em Portugal.
E que depois houve uma equipa também em França que as recebeu e que as montou e que comigo e com toda a minha equipa..."
A cozedura das peças foi então numa fábrica portuguesa ?
"Sim, foi em Portugal. E, basicamente, todo o processo que ele implica, cada um é único e é cravado unicamente. Ele fica como o relevo e tem um género de umas paredes à volta.
Ele é posto o pó de vidro em cima, o cobalto. E quando vai ao forno derrete. E, conforme está mais cravado de fundo fica mais escuro. Quanto mais está a superfície mais claro fica.
E é nesse processo: ou seja, tentei trabalhar o azulejo e puxá-lo um bocadinho mais à frente. E fazer uma empresa familiar que trabalhava em azulejos há muito tempo e juntá-la com uma empresa de inovação que trabalha basicamente a gravação.
E tentei basicamente dar um "push", não só na técnica de azulejo, mas algo também que fosse ligado ao meu trabalho, que é sempre esta ideia de destruir a superfície. E mostrar o que está por trás e revelar e deixar que ela crie a imagem."
Voltam-se a ver os rostos como no passado. Você já desenhou muitos rostos nos prédios, nas paredes. Não há só a Torre Eiffel, que é tão simbólica de Paris. O que é que você vê mais aqui?
"Temos vários edifícios: temos o Pompidou, temos uma série de pontos. E depois temos a planta, que vemos numa segunda "layer", que é a planta de Paris. E uma série de padrões também, de que me fui inspirando por várias partes de Paris.
A ideia era mesmo conseguir criar quase este simbiose entre nós, o ser humano. Os rostos são anónimos, foram imagens que eu fui desenhando por Paris e aqui no aeroporto também.
Mas quase que os rostos se misturam e eles misturam-se completamente com a cidade. E essa é a intenção, porque no final é aquilo que nós somos.
No final, nós somos um reflexo do sítio de onde vimos, do sítio de onde vivemos e raramente influenciamos esses sítios. E esses sítios influenciam-nos muito mais !
E é nesse sentido que também queria fazer aqui uma homenagem a isso.E também uma reflexão sobre a diversidade de Paris e a diversidade da riqueza cultural que existe. Não só do património, mas também das pessoas e das histórias que existem em Paris."
Trabalhou com arquitectos, necessariamente. Foi necessário integrar a sua peça numa estação de metro: a linha 14, que é prolongada até aqui, ao aeroporto.
Como é que foi esse trabalho, também ? Com uma grande obra de transportes, que vai mudar Paris e que vai nomeadamente, ser um cartão de visita para os Jogos Olímpicos agora de 2024?!
"O desafio foi-me feito por um projecto que fala de "Grande Paris" e de abrir Paris também. E da relação com uma estação de transporte: em que entramos. É quase entrar e poder ter o acesso a toda uma outra parte da cidade.
E esta relação também com o céu e com a entrada e a saída. Daí também a escolha da cor e da técnica, que tem muito a ver com esta relação, que é um novo portal que nos permite, se calhar, aceder a uma parte de Paris que antigamente não estava ligada e que nos abre a porta a outros sítios e nos aproxima também."
Aqui também há Edmond Baudoin, portanto, um outro artista com "Jogos de crianças". Como é que foi a vossa interacção? Porque, aliás, os tons, ao nível da cor, têm muita semelhança.
"Eu sou um grande fã do trabalho dele. Todo o trabalho que ele faz de BD [Banda desenhada], já e a influência que ele teve é gigante !
Foi a convite também do curador do 104 [Centro de arte da região de Paris dirigido por José Manuel Gonçalves] que nos fez este convite. E fizemos. E é interessante: porque cada um de nós seguiu um caminho.
E, depois, encontrámo-nos e percebemos que tínhamos também sido inspirados e encontrado também um ponto em comum, não só na parte cromática como até conceptual: os trabalhos tocaram-se."
Você também fez questão de vincar o facto de que tem uma equipa: uma equipa grande. E que não é só portuguesa, que está em vários recintos. O que é que é Vhils em 2024, então: para além do artista que nós conhecemos ?
"Sou o artista que faz estes projectos, exploro o meu trabalho e estou constantemente em procura. Mas queria ressalvar que também que é um trabalho de equipa.Que muitas vezes é invisível e que é importante ressalvar. E, mais do que isso, é um trabalho também que inclui equipas que são muito diversas e que trabalhamos, não só em Paris, como já fizemos projectos em muitas partes do mundo. E sem o atelier, sem esta diversidade e sem as pessoas. E a sorte que eu tive..."
Cabo Verde é um deles !
"Cabo Verde, sim. Tenho dois colegas. Temos também do Brasil, temos em muitos sítios. Mas é nessa riqueza também que a equipa se vai crescendo, amadurecendo e também evoluindo também o trabalho.
Eu queria ressalvar isso porque acho que é importante, nos tempos em que vivemos hoje, em que muitas coisas estão a se levantar em questão a importância de entender o outro e humanizar o outro.
E do que é que ganhamos quando conseguimos criar um diálogo e pontes com outros sítios e outras culturas."
Paris vai ser definitivamente uma cidade diferente das demais, então, para si, a partir de hoje ?
"Já era. Mas ainda mais é hoje ! E também pela comunidade toda portuguesa que cá existe. Tenha também muitas pessoas conhecidas que emigraram para outras forças, noutras alturas, outras que estão cá por trabalho. Mas é uma cidade sempre muito especial para mim. Acho que para qualquer português."
E a presença do primeiro ministro português aqui teve algum significado especial para si ?
"Não estava à espera. Não foi uma coisa planeada. Pode sempre haver mais apoio e mais estratégia, mas sem dúvida que estar aqui foi importante para mim. Mas é sempre bom quando vimos o nosso trabalho reconhecido. E e o trabalho da classe e a cultura ! Um bom reflexo também para o trabalho que fizemos, e que a equipa fez também."
Finalmente também está, como por exemplo, o "We Are Here", com o Pantónio, também, com Add Fuel [no Petit Palais]. Como é que foi abraçar esse projecto que envolve figuras muito consagradas da arte contemporânea, para não dizer do "street art"?
"Foi muito bom e foi super bom voltar a rever o Pantónio e o Add Fuel. São colegas de longa data, já pintámos também noutros tempos e são artistas que sempre tiveram um impacto muito grande em mim. E dá-me um gosto enorme ver o trabalho reconhecido ! E ainda para mais na exposição que é, na Mostra que é, com os artistas todos que estão incluídos."
Para os artistas em geral que gostariam de singrar e de insistir: o que é que você lhes diria?
"Que nada substitui o trabalho, a intensidade de trabalho e dedicação. Acho que tudo é possível de aprender ! Não acredito que seja uma coisa que nasça connosco.
E acho que é tudo uma questão de percepção e de trabalho e dedicação. E as coisas, se acreditarmos, conseguimos dar a volta.
Nem sempre temos tudo a nosso favor, mas também nem sempre temos tudo contra nós. Por isso acho que é uma questão de não desistir e de ter força."
O Presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, reúne-se nesta quinta-feira, 20 de Junho, com o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, durante um almoço no Eliseu. Os acordos comerciais que ligam os dois Estados, o franco CFA ou mesmo a presença militar francesa no país vão marcar a ordem dos trabalhos dos dois homens políticos. O analista político senegalês, Oumar Dialló, considera que esta visita "vai dissipar” as tensões entre Dakar e Paris.
RFI: O que é que representa este encontro para as futuras relações entre o Senegal e a França?
Oumar Dialló, professor na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar e analista político: Acho que esta visita evidencia as relações entre a França e o Senegal que são profundas e multifacetadas. Histórica e culturalmente os dois países estão ligados, sem esquecer as relações políticas e económicas. Há ainda a cooperação na área da defesa, da segurança militar e da diáspora. Portanto, penso que este encontro vai ser um momento para esclarecer muitos pontos ligados a esses grandes eixos.
A imprensa escreve que as dívidas acumuladas por vários actores senegaleses com as empresas francesas poderão ser abordadas durante este encontro. O que é que se pode esperar relativamente ao perdão da dívida senegalesa com a França?
O perdão da dívida não será uma questão muito importante, isto porque o actual Governo senegalês está muito apegado à questão de soberania e, portanto, essa soberania também o vai engajar a ser mais responsável com o pagamento dessas dívidas. Talvez, o [Presidente do Senegal] vá tentar renegociar as relações comerciais, o investimento e ajuda ao desenvolvimento.
Não podemos esquecer que a França fornece uma assistência significativa ao desenvolvimento do Senegal, através da Agência Francesa de Desenvolvimento. Esta ajuda faz-se sentir ao nível dos projectos na área da saúde, educação, água e saneamento. Portanto, serão debatidas questões mais práticas e a questão da dívida não será muito importante. Penso que neste encontro [os dois estadistas] vão falar sobre o caminho a seguir nas futuras relações comerciais entre o Senegal e a França.
Outra questão tem a ver com a possibilidade da saída do franco CFA. Bassirou Diomaye Faye tinha previsto medidas para a adopção de uma moeda nacional…
Essa questão vai ser interessante porque há muitos países que estão contra esta moeda. Todavia, o Governo senegalês não está contra o franco CFA e, talvez, vá tentar renegociar os mecanismos do franco CFA, nomeadamente aquela história da paridade fixa. A meu ver, o único problema com o franco CFA são as reservas da moeda. Ou seja, os países membros devem depositar uma parte significativa das reservas cambiais em contas operacionais do tesouro francês e, na minha opinião, é este ponto que deve ser renegociado. Não acredito que a saída do franco CFA seja um objectivo do Governo senegalês. É preciso não esquecer que a paridade fixa, proporcionada pelo franco CFA, é uma vantagem enorme para todos os países da África do Oeste.
Há ainda a presença das tropas francesas no Senegal. As novas autoridades já deram a entender que estão contra a presença destas tropas. Isto numa altura em que vários países, nomeadamente o Mali, Burkina Faso e o Níger, pediram a retirada das tropas francesas dos seus territórios. Acha que será essa a posição do Senegal?
Não se esqueça que as tropas francesas estão no Senegal num contexto de cooperação militar e há textos que validam esta cooperação. Portanto, a França mantém uma presença militar no Senegal, mas esta presença é justificada por questões de segurança. Para ser honesto, em termos de segurança, nós somos países muito frágeis. Portanto, não é por causa de uma mudança política que todas estas operações militares, sobretudo com a França, que são muito importantes para a nossa zona muito afectada pelo terrorismo, vão ser postas em causa.
Os jovens africanos estão muito revoltados contra a presença militar francesa nos seus países, mas é preciso não esquecer a “política real” e a questão da segurança. No combate ao terrorismo no Sahel, e Senegal faz parte dessa zona, a presença militar francesa é uma presença necessária. Todavia, penso que essa presença pode ser negociada, de forma a não impactar muito a soberania senegalesa em termos militares. Ainda assim, penso que o apoio à colaboração militar entre Estados - França e o Senegal - é uma necessidade para combater o terrorismo que afecta, actualmente, toda esta região.
O primeiro-ministro senegalês, Ousman Sonko, condenou, recentemente, o silêncio da União Europeia e da França durante a repressão política no Senegal. Considera que esta visita de Bassirou Diomaye Faye pode dissipar as tensões entre Dakar e Paris?
O Presidente Bassirou Diomaye Faye é um jovem muito inteligente e acredito que há um momento da política “politiqueira” e há um momento da realidade.
Neste momento, o Presidente do Senegal e o primeiro-ministro, Ousman Sonko, estão a gerir um país que atravessa dificuldades económicas, com a inflação a registar níveis elevados, e são estas questões que serão analisadas.
Acredito que este encontro vai dissipar as incompreensões que houve durante as eleições. Agora é preciso passar da vida política da oposição para uma política responsável com a França. Uma postura que será benéfica para os senegaleses, para a estabilidade económica, mas sobretudo para a estabilidade das empresas francesas, que continuam a empregar muitos jovens senegaleses.
O Presidente da Guiné-Bissau minimizou os pedidos de demissão do ministro da Juventude, Cultura e Desporto, Augusto Gomes, do responsável pela pasta da Energia, Hidiberto Infanda, e do secretário de Estado da Juventude, Garcia Biifan. Os três demissionários pertencem à APU-PDGB e a decisão resulta depois do líder do partido, Nuno Nabiam, ter retirado o apoio político a Umaro Sissoco Embaló. O analista político, Rui Jorge Semedo, considera que estas demissões representam uma ruptura na base de apoio do Presidente guineense.
O que representam estas demissões para a estabilidade governativa da Guiné-Bissau?
Do ponto de vista governativo, há quatro anos que a Guiné-Bissau não é um país estável. Estas demissões representam uma ruptura e um desgaste na base do apoio do Presidente da República Umaro Sissoco Embaló.
O APU-PDGB foi o partido que apoiou, na segunda volta das eleições presidenciais, o então candidato Umaro Sissoco Embaló. Depois das eleições, o presidente da APU-PDGB- Nuno Gomes Nabiam, foi quem assumiu a responsabilidade, no lugar do presidente da Assembleia Nacional Popular, de investir -à margem da Constituição da República- o actual Presidente da República.
Essa aliança durou até o momento em que Nuno [Nabiam] decidiu colocar o seu cargo de conselheiro do Presidente da República à disposição, porque - já nessa altura- estava a ver o interesse em se poder preparar para eventuais eleições.
A APU-PDGB considera que a situação política do país está a ser marcada por interferências do Presidente da República nos partidos políticos. Fala em sequestro das instituições do Estado e acusa Umaro Sissoco Embaló de querer garantir um segundo mandato. São acusações graves...
Essas acusações não são apenas da APU-PDGB, mas de todos os partidos que estiveram a apoiar o Presidente da República, refiro-me ao PRS e ao MADEM-G15. Neste momento, o Presidente da República está em ruptura com a principal base de apoio, correndo o risco de não ter apoio partidário para a sua reeleição, como aconteceu com o seu antecessor, José Mário Vaz, durante as eleições presidenciais de 2019, onde foi para o pleito sem apoio partidário.
Actualmente, o chefe de Estado conta apenas com o apoio de pequenos partidos. Um deles- o PTG- tem assento no Parlamento, os outros são partidos parlamentares, sem uma expressão eleitoral forte para suportar uma eventual candidatura para que Umaro Sissoco Embaló seja reeleito.
Outra acusação feita pela APU-PDGB tem a ver com a questão da circulação de drogas e com a participação de membros das estruturas do Estado. Penso que cabe à APU-PDGB e aos outros partidos comprovarem esta acusação que é grave e que precisa ser investigada.
O líder da APU-PDGB, Nuno Nabiam, pede que sejam marcadas eleições presidenciais ainda este ano. Acha que é esta a solução? O país tem condições para realizar essas eleições?
Para se estabilizar o país é necessário cumpri-ser com aquilo que está previsto nas leis. Isso nem deveria ser uma exigência de Nuno Nabiam, trata-se de uma obrigação constitucional e institucional do Presidente da República, Este deve cumprir com aquilo que está previsto na lei e não tentar incentivar ou provocar debates desnecessários a respeito daquilo que está previsto na lei.
A eleição presidencial foi realizada em 2019 e Umaro Sissoco Embaló assumiu o poder logo no começo de 2020, em Fevereiro. Então, tecnicamente. é obrigatório marcar eleições no final deste ano para que o novo chefe de Estado possa assumir o cargo no início de 2025.
Verifica-se uma tentativa de manipulação não só das instituições, mas também da própria opinião pública, nacional e internacional, particularmente com a intervenção [do constitucionalista português] Bacelar Gouveia a tentar contribuir para a manipulação das leis do país.
A situação ainda piorou com inoportuna intervenção do presidente da CNE que não tem competência alguma para se debruçar sobre esse assunto. Todavia, tendo em conta a agenda em que se meteu [o presidente da CNE] e o Professor Bacelar Gouveia, ambos fizeram de tudo para tentar aprofundar a crise político-institucional que o país tem vivido, nos últimos tempos.
Como se explica essa ingerência? Quais são as motivações?
Pretende-se provocar a incompreensão e má interpretação das leis do país. Porque um professor universitário, que tem acompanhado e participado na elaboração das leis do país -da Constituição da República- deveria ter a noção daquilo que estava a dizer a respeito de fazer as eleições gerais só em 2025, quando se sabe que o Parlamento foi dissolvido em Dezembro de 2023- constitucionalmente isso não enquadra.
Por outro lado, a CNE apenas tem a competência legal para se pronunciar sobre resultados eleitorais e não sobre o mandato.
O Presidente da República da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, considerou que estas demissões são “uma questão menor”. Fala em "infantilidade política" e remete a questão para o primeiro-ministro Rui Duarte de Barros...
Ontem, 18 de Julho, ficou evidente que o Presidente da República ficou muito preocupado. Só pelo facto de decidir fazer aquela comunicação já mostra, muito claramente, que não é assunto menor.
É um assunto que mexe com a pretensão que tem em ser reeleito nas próximas eleições. Estamos a falar de um desgaste na sua base de apoio que não foi iniciado pela APU-PDGB, outros partidos, caso particular do PRS e do próprio MADEM-G15, tiveram a mesma postura.
O assunto não é do primeiro-ministro, uma vez que estamos a falar de um primeiro-ministro de fachada, não resulta de eleições,foi indicado à margem da Constituição da República.
A responsabilidade daquilo que está a acontecer é do Presidente da República e ele deve assumir as responsabilidades pela instabilidade que se vive no país. Então, não se pode pensar em reeleição sem ter base de apoio, sem ter o apoio dos partidos. Pelo menos até hoje, os partidos são actores fundamentais para os processos eleitorais.
Umaro Sissoco Embaló afirma que pagou o apoio que teve destes partidos…
Penso que o Presidente da República fez essas afirmações sem reflectir na gravidade dessa comunicação. A lei eleitoral da Guiné-Bissau não permite que o Presidente da República financie os partidos durante o pleito eleitoral.
Ele disse que não é um fundo público e que tirou o dinheiro do seu próprio bolso. Então quanto é que o Presidente da República ganha para estar a financiar, com somas elevadas, estes partidos?
Talvez hoje o país não tenha condições para que o Ministério Público possa averiguar estas afirmações, mas futuramente são questões que Umaro Sissoco Embaló, depois de abandonar o poder, terá de enfrentar a justiça para clarificar essas declarações que o comprometem.
O papel do Presidente da República não é estar a financiar os partidos durante os actos eleitorais, mas sim permitir que os partidos concorram em pé de igualdade. Cada um deve ter liberdade, conforme aquilo que a lei prevê, de procurar os recursos e financiar a sua campanha. Não compete ao Presidente da República financiar os partidos, com fundos supostamente duvidosos.
A Cimeira sobre a Paz na Ucrânia terminou este domingo, 16 de Junho, em Burgenstock, na Suíça. São Tomé e Príncipe esteve representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades Gareth Guadalupe, que fez um apelo à comunidade internacional para que preste mais atenção "às consequências da guerra na Ucrânia", nomeadamente, "ao agravamento da insegurança alimentar que afecta os países mais pobres", como é o caso de São Tomé e Príncipe.
RFI: Que balanço faz da Cimeira sobre a Paz na Ucrânia que terminou este domingo?
Gareth Guadalupe: Todos nós reconhecemos que era importante que nessa cimeira a Rússia estivesse presente. Quando digo todos nós, falo até mesmo da Ucrânia, que o reconheceu. Também devo dizer que se não falarmos da paz, a paz nunca chegará. O entendimento é que nós consigamos essa paz por via do diálogo, então é preciso falarmos, mesmo que não esteja presente um dos principais interlocutores desta matéria. Creio que foi um primeiro passo que uma centena de países e organizações internacionais deram. O grande objectivo é continuarmos a apelar à via do diálogo e numa solidariedade ao nível da comunidade internacional para podermos atingir essa paz o mais rapidamente possível. São Tomé e Príncipe é amigo da Suíça, é amigo da Ucrânia, mas também não deixa de ser amigo da Rússia. Nós podemos ser pai de alguém e condenar uma acção da pessoa. Podemos ser amigo de alguém e condenar uma determinada acção da pessoa. Creio que os amigos devem ser verdadeiros entre si. Em termos gerais, creio que a cimeira sobre a paz na Ucrânia foi produtiva. É verdade que, não tendo aqui um dos principais interlocutores, temos que continuar a falar. Falando em nome de São Tomé e Príncipe, continuamos abertos e estamos disponíveis a dialogar e tudo fazer para que mais rapidamente possa se atingir a paz na Ucrânia.
É possível ser amigo e verdadeiro, como diz, com os dois lados deste conflito?
É possível. Desde a primeira hora manifestamos de forma inequívoca que condenamos a acção da Rússia na Ucrânia ou a invasão da Rússia na Ucrânia. Em momento algum desviámos de tal apoio a resolução das Nações Unidas. Entretanto, assinámos um acordo técnico militar com a Rússia, que foi apenas um acordo técnico militar como qualquer um, e mesmo depois de ter assinado o acordo técnico militar, continuamos a dizer que condenamos a invasão da Rússia na Ucrânia. Temos um acordo geral com a Rússia que data de 1966, um acordo geral de cooperação e neste acordo Geral de Cooperação de Outubro de 1966, já dizíamos que condenamos toda e qualquer acção internacional por via das armas. Continuamos a manter-nos coerentes. Não é o facto de continuarmos amigo da Rússia que não implica que continuemos a apoiar a Ucrânia porque São Tomé e Príncipe também é um país pequeno e nós não estaríamos interessados, por exemplo, a ser invadidos pela Nigéria. Por isso sim, é possível, e aliás, são países como São Tomé e Príncipe que muitas vezes conseguem ser intermediário porque consegue apoiar a Ucrânia, mas ao mesmo tempo condenando a acção da Rússia.
Qual é a validade das resoluções tomadas na Cimeira sobre a Paz sem a presença da Rússia?
Como disse desde o início, todos reconhecemos que não tendo a Rússia aqui presente, torna mais complicada a validade da resolução ou da declaração conjunta, adoptada por mais de uma centena de países e organizações internacionais. Mas, como eu também disse, inicialmente, se não falarmos de paz, ela nunca estará sobre a mesa e queremos que essa paz aconteça por via do diálogo e não que uma das partes se sobreponha a outra para se atingir a paz. Continuamos a defender que é preciso salvaguardar a soberania e a integridade territorial dos países e é preciso nos sentarmos com as duas partes para conversar. Portanto, o que fizemos é dar um apoio claro à Ucrânia, mas não deixamos, conforme digo e repito, de continuar a ser amigo da Rússia e chamar a Rússia à razão, pedindo-lhe que, o mais rapidamente possível, pare com o conflito e para que nos possamos sentar todos à mesa e chegar a uma decisão da paz que seja do interesse de todos.
A declaração final enfatiza que a segurança alimentar "não deve ser uma arma de guerra". Nos últimos dois anos, a invasão da Ucrânia teve consequências importantes no abastecimento alimentar mundial e, sobretudo para os países mais pobres, além do impacto na inflação mundial. De que forma é que é possível controlar esta questão da segurança alimentar?
Deixe-me dizer que, falando propriamente de São Tomé e Príncipe, quando olhamos para o nosso cabaz de consumo, parto de 20%, mais concretamente 17% da nossa cesta básica são produtos à base de cereais. Naturalmente, isso também tem um grande impacto ao nível da inflação em São Tomé e Príncipe. Quando chegámos ao governo em Novembro de 2022, já tínhamos uma inflação de 25%. Agora, com a guerra na Ucrânia, com este conflito na Ucrânia, o preço dos cereais tem tendência a aumentar. Já vinha a aumentar, mas com a guerra na Ucrânia aumentou ainda mais. É importante que trabalhemos em conjunto para que este conflito na Ucrânia cesse o mais rapidamente possível. São Tomé e Príncipe é um dos países que apoia não só o transporte seguro dos cereais, mas também a produção segura ininterrupta dos cereais porque antes de haver o transporte é preciso que haja essa produção e que ela seja segura e livres de qualquer tipo de ameaça para que não haja especulação de preços ao nível mundial.
Os conflitos que normalmente têm tendências à escala mundial é preciso que a gente entre os resolver de forma global. É neste sentido que estamos aqui todos a unir forças e esperamos que todas as partes se possam sentar com a Rússia para chegar a um comum ground do interesse de todos. Estamos em crer que a Rússia também não quer ficar de fora. Por isso é que é preciso haver uma coordenação conjunta e apelar à comunidade internacional para que assim seja. Nós não queremos ser hipócritas. Neste momento deparamo-nos sem programa com Fundo Monetário Internacional e uma das exigências do FMI para que tenhamos programa é aceitar o aumento do preço dos combustíveis e o aumento do preço da electricidade. Sabendo que a população já sofre, de forma severa com o poder de compra. Fizemos aqui [na Suíça] um apelo à comunidade internacional para que olhe para esta perspectiva, não na perspectiva do transporte seguro dos cereais da Ucrânia para países terceiros, mas que também dê atenção a países como São Tomé e Príncipe e outros países de África que possam estar nesta situação, para que os produtos possam chegar de forma segura a países terceiros. Se a população não tiver poder de compra para os adquirir, estamos a pôr em causa a questão da segurança alimentar.
O senhor ministro está a dizer que a guerra da Ucrânia pesa na política interna de São Tomé e Príncipe, nomeadamente no que toca ao bloqueio de acordo com o FMI?
O que eu estou a dizer é que a guerra da Ucrânia já tem as suas consequências na política interna de São Tomé e Príncipe. Se tivemos que juntar isto àquilo que são as imposições do FMI para que possamos ter o programa, mais difícil ainda fica a questão da segurança alimentar. Em São Tomé e Príncipe queremos trabalhar naquilo que chamamos de soberania alimentar. Para que possamos atingir a segurança alimentar é preciso que cada vez mais a gente possa produzir aquilo que são as nossas necessidades. Isto não algo que se consiga a curto e médio prazo, é preciso ainda contarmos com a importação de produtos de países terceiros, como por exemplo, da Ucrânia.
O comunicado final da cimeira exige "a libertação de prisioneiros de guerra, a libertação de crianças ucranianas que foram deportadas e deslocadas de forma ilegal", mas também "a libertação de civis ucranianos que estão detidos de forma ilegal na Rússia". Que resposta se pode esperar do Kremlin?
Não estando aqui a Rússia, é mais um apelo que se faz. Não posso dizer o que é que se espera do Kremlin, mas podemos continuar a fazer o apelo e unir as forças para que assim seja porque São Tomé também apoia a questão dos direitos humanos e vamos continuar a fazê-lo sempre com base na Carta das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos. É de todos o interesse que esta situação se possa resolver o mais rapidamente possível.
O Primeiro-ministro são-tomense esteve presente na sexta-feira, 14 de Junho, na Conferência sobre "Democracias em África" organizada pela Internacional Democrática do Centro, que decorreu no Senado francês. Em Paris, Patrice Trovoada reagiu às criticas da oposição, afirmando que "a oposição não contribui para encontrar solução para o país", e defendeu que São Tomé e Príncipe "não está numa situação de abismo como a oposição descreve".
RFI: Foi um dos intervenientes do segundo painel intitulado "Desafios da Democracia, Estado de Direito e Eleições Transparentes". Que desafios enfrentam os países africanos nas questões de democracia e, nomeadamente, São Tomé e Príncipe?
Patrice Trovoada: Felizmente, São Tomé e Príncipe é uma democracia que funciona. Somos poucos exemplos como Cabo Verde e poucos países que têm um sistema que funciona, mas que precisa de ser consolidado. Hoje, de facto, o que nós observamos no mundo, não só em África, mas também na Europa, na América Latina, Ásia é que a democracia está em perigo. No nosso caso, há dois aspectos que eu acho que são fundamentais: o primeiro é continuar a consolidar o sector da Justiça, para que não seja só uma justiça que se manifeste apenas durante as eleições - e, felizmente, no nosso caso, não tem havido problemas - mas que seja uma justiça que as pessoas sintam presente todos os dias. Isso é algo em que estamos empenhados, na reforma do sistema judicial em São Tomé e Príncipe. O outro aspecto é o desenvolvimento económico, como sabe estamos numa situação bastante crítica do ponto de vista financeiro e a comunidade internacional precisa de olhar para países como os nossos, que são bons exemplos de democracia, mas também bons exemplos pelas condições de várias ordem, precisam sempre do concurso financeiro dos outros.
Apostamos muito no sector privado em São Tomé e Príncipe, como sendo um dos maiores parceiros para o desenvolvimento do sector privado nacional. O Sector privado é, evidentemente, externo, estrangeiro e que tem mais capitais. Há um certo número de aspectos que só podem ser abordados com financiamento multilaterais, donativos ou concessões para que haja sustentabilidade da dívida. Tem sido cada vez mais difícil os países africanos contarem com esses contributos, não só dos organismos internacionais, mas também de alguns parceiros bilaterais ocidentais, nomeadamente.
Na alocução que fez referiu, várias vezes, a palavra "consenso", o consenso que é necessário para o desenvolvimento e para haver democracia num país. Que consenso é esse?
Refiro-me ao consenso porque a democracia abre a porta também à alternância. É preciso que os actores políticos tenham o entendimento consensual daquilo que são as grandes obras, os grandes dossiês estruturantes que irão servir fundamentalmente ao povo, mas a qualquer partido político que é chamado a governar como sendo os alicerces fundamentais do desenvolvimento económico.
Quais são esses alicerces?
Por exemplo em matéria de sustentabilidade das finanças públicas, eu herdei de um país sem reservas cambiais. Um país com inúmeros problemas funcionamento do aparelho do Estado, com uma corrupção que alastrou como uma dívida, nomeadamente, no sector dos combustíveis insustentáveis. Só com Angola quase 300 milhões de dólares e essas questões têm que ser tratadas de modo a que elas não continuam a ser um impedimento. Quando o povo decide pela alternância e você chega e herda numa situação que o povo, depois de dois, três anos, fica com dúvidas sobre a sua escolha. A educação, por exemplo, é fundamental que haja consenso sobre a reforma da educação para perceber o que pretendemos. Falei na questão da Justiça, das infra-estruturas também, é preciso que nós tenhamos modelos consensuais para lidar com as infra-estruturas. É nesse aspecto que eu disse que a alternância não pode ser um recomeçar, no que diz respeito aos alicerces fundamentais de um ponto de vista económico.
No primeiro painel sobre democracia foi evocada a forma como a guerra na Rússia e Ucrânia está a criar uma nova configuração de paz e segurança para o continente africano. Qual é que é o seu posicionamento relativamente ao que está a acontecer? Existem impactos em São Tomé e Príncipe?
Essa guerra trouxe impactos, nomeadamente, numa primeira fase naquilo que foi a segurança alimentar, mas traz também outros tipos de inquietações; primeiro, os recursos que são disponibilizados para atender essa situação de guerra. Toda a gente vê os números bastante altos que hoje são consagrados ao esforço de guerra por parte de países parceiros com da Europa, nomeadamente, que é um grande parceiro do continente africano. Mas também coloca o problema da corrida aos armamentos e essa questão parece-me um pouco em contradição com aquilo que tem sido a política internacional, que é a resolução pacífica dos conflitos, a primazia do direito internacional e a necessidade de estamos sentados à mesa de negociação e dialogar. Estamos preocupados porque estamos convencidos de que não estamos a evoluir no bom sentido quanto à resolução desse conflito, que nos afecta a todos.
No continente africano temos os nossos conflitos também e que, por ordem de ideias, têm sido esquecidos. São conflitos que, do ponto de vista humano e humanitário, são de extrema gravidade. Na RDC são milhões de mortos, no Sudão há centenas de milhares de mortos e eu acho que a humanidade é uma e é preciso termos um pouco de consciência disso - não quero também falar aqui do novo da situação na Palestina e de Israel - ficamos todos a perder porque existe uma categorização do horror, uma categorização da guerra, uma categorização da miséria e faz com que essa grande comunidade que nós éramos há uns anos, comunidade de destino, partilha de princípios que seja a democracia, direitos do homens e liberdade de expressão, está-se a fragmentar em detrimento dos democratas e dos povos.
Os tratados de acordo militar que São Tomé e Príncipe assinou com a Rússia não chocam com os princípios e a postura do partido IDC?
Não, nós não somos democratas, somos de centro-direita e não choca. Aliás, temos durante esses dias temos [em São Tomé e Príncipe] a visita do Almirante Gouveia Melo, que reafirmou os laços muito estreitos que temos com Portugal, de uma maneira geral, e com todos os países do Atlântico, na defesa daquilo que é o nosso bem comum. É evidente que cooperar no domínio da formação, no domínio de trocas de informações ligadas aos tráficos, ao terrorismo com a Rússia, para nós não constitui problema nenhum. Aliás, eu quero dizer que no domínio da segurança, quando existem ameaças comuns, os países mais teoricamente antagonistas conseguem cooperar.
Vou vos dar um exemplo, na situação do Médio Oriente, há países que, por razões específicas, conseguem falar. Por isso não há exclusão. Nós não temos um conflito com a Rússia. Nós condenamos a Rússia por ter violado o direito internacional ao invadir a Ucrânia. Nós estamos presente na conferência na Suíça, mandei o ministro dos Negócios Estrangeiros representar São Tomé e Príncipe, embora a Rússia não esteja presente, mas nós entendemos que era preciso nós estarmos presentes para marcar a nossa solidariedade com a Ucrânia nesse conflito, embora nós pensamos que a via negocial seja a melhor e não continuamos com o conflito armado.
Uma questão sobre a política interna: O movimento Basta, que conta com dois assentos no parlamento são-tomense, pede um diálogo nacional para analisar a situação do país que "enfrenta uma crise económica e social sem precedentes". A oposição acusou-o de "não respeitar as instituições democráticas". Como é que responde a estas acusações?
Felizmente somos uma democracia com liberdade de palavra, de expressão. A oposição, o MLSTP e o Basta são os principais responsáveis da situação de crise em que se encontra o país e da ruptura das negociações com o FMI. Isso é preciso ser claro. Eu não vejo como o movimento Basta, que tem muitos problemas com a gestão do país, alguns dirigentes que são delinquentes fiscais. O MLSTP que teria que responder também de muitos actos de má gestão, querem vir sentar na mesa da negociação com o FMI. Nós havemos de conduzir essa negociação, defendendo os interesses superiores da nação que foi o mandato que nós recebemos e nós não recebemos o mandato para co-gerir a relação do FMI com esses movimentos. Se é preciso pedimos esforços aos são-tomenses, existem mecanismos de facto para podermos falar com os são-tomenses e pedir-lhes para fazer o esforço necessários, como também os são-tomenses têm mecanismos para poderem manifestar o seu agrado desagrado com o governo. Creio que é uma manobra politiqueira que de momento não interessa, que não vai distrair o governo porque o que nos preocupa agora é o dia-a-dia dos são-tomenses, é o abastecimento em combustível do país, é encontramos, de facto, a melhor via de tornar as nossas finanças sustentáveis. Não se trata de um exercício simplesmente sobre papel. É um exercício que temos que fazer tomando em consideração as consequências sociais para as populações.
Portanto, está aberto ao diálogo?
Com o FMI, sim. Com a oposição, eu estou aberto, sou uma pessoa muito concreta, sou trabalhador. O país precisa de gente concreta e que falam de coisas concretas, com soluções concretas. A oposição só está realmente a distrair as pessoas e estão com uma agenda política, mas têm tempo. As eleições são em 2026 e até lá o governo governa e o governo realmente vai à procura dos recursos que podem contribuir para uma solução. A postura da oposição hoje não é nenhum recurso que contribui para a solução do país.
Quando descrevem que "São Tomé e Príncipe está à beira da derrocada económica", qual é que é a solução para a situação económica do país?
São Tomé e Príncipe tem problemas de curto prazo. São Tomé e Príncipe não tem problema de médio prazo. São Tomé e Príncipe é um dos poucos países que é capaz de fazer uma transição energética, uma descarbonização de 40% naquilo que é a produção energética dentro de 12 a 18 meses. Por conseguinte, a médio prazo, o país não tem problema. O país tem sim, uma situação crítica que advém da gestão anterior, que é um país que se encontra sem divisa quando é dependente a 90% das importações. Essas questões têm que ser resolvidas de uma maneira técnica, que seja aquela que não compromete demasiado o futuro. Quer isso dizer que o ideal seria donativos e créditos concessionados para podermos sair da situação em que nos encontramos.
No imediato?
Sim, no imediato, mas se não é possível, há um preço a pagar. Se você vê hoje qual é a taxa de juro da Federal Reserve nos Estados Unidos, o país com economia forte, a taxa de juro e uma taxa de juro que está se a pedir a São Tomé e Príncipe a encontrar empréstimo a taxa de juro três vezes inferior que a taxa de juro do Fed e com um período de maturidade muito superior. Cabe às autoridades são-tomenses de fazer o esforço e decidir em função das várias oportunidades que lhe aparecem. E vamos fazer isso porque o país não pode parar.
Como é que se explica isso aos santomenses que vivem numa precariedade, os são-tomenses que querem deixar o país. Nos últimos meses houve um aumento substancial da taxa de emigração?
Sim, a taxa de emigração deve-se a várias razões e isto não me preocupa. Quer dizer, as pessoas saem à busca de melhor e é perfeitamente normal. Agora se olharmos para os índices em São Tomé e Príncipe, comparando com outros países que não quero citar, nós não estamos assim tão mal. Se olharmos para o nível de inflação, posso dar vários exemplos de países que estão com uma inflação muito maior que São Tomé e Príncipe. Se eu falar do salário mínimo em São Tomé e Príncipe, há países cujo PIB e os recursos naturais são 100 vezes superior a São Tomé e não têm o salário mínimo que nós praticamos em São Tomé e Príncipe. A expectativa dos são-tomenses e a exigência dos são-tomenses é normal e apreciável, mas o país não está numa situação de abismo como a oposição quer descrever. Qual é o nosso desafio hoje? É encontrar dinheiro barato, taxas de juro que sejam compatível com sustentabilidade da dívida e com aquilo que o FMI definiu como aceitável.
É nisso que o senhor primeiro-ministro está a trabalhar neste momento?
É isso que me leva a correr o mundo, a desdobramos em contacto, em reuniões. Vou deixar a conferência agora para me encontrar com instituições financeiras privadas aqui em Paris. Estarei na próxima semana no Médio Oriente também para discutir com autoridades, países árabes e também instituições financeiras, para ver se nós encontramos uma solução. Uma solução terá que haver. Qualquer que seja a solução, não será o penso ideal, mas é um problema de curto prazo que nós temos, porque o médio prazo e longo prazo parece que as perspectivas são muito melhores.
Relativamente à concessão do aeroporto ao FB Group de investidores turcos, quando existe financiamento de 100 milhões de dólares na China. Há quem o acuse, nomeadamente o movimento Basta, de fazer uma gestão que "não inspira confiança". Como é que reage?
Honestamente, eu tenho dificuldade em comentar o movimento Basta, muito honestamente, Nós encontrámos um projecto de alargamento da pista do aeroporto por 100 milhões de dólares e um alargamento no lado do mar, em que, do ponto de vista dos agregados e do impacto ambiental no espaço é um bocadinho perigoso. Nós definimos que não era prioridade o alargamento da pista com 100 milhões de donativos. Dissemos aos chineses que se houver 100 milhões de donativos, nós preferimos pistas rurais, estradas para permitir aos agricultores do interior do país de trazer, de ter mais motivação em produzir e escoar os seus produtos para a capital e para a exportação. Os chineses entenderam isso perfeitamente. Nós dissemos que, quanto ao aeroporto, nós preferíamos ir para uma solução de parceria público-privada, o que aconteceu de forma tranquila. A China vai investir em duas estradas rurais que vão descentralizar uma parte também do interior do país e está muito contente de intervir nesse sector. E nós temos agora o FB Groupque vai, dentro de 20 meses, dotar São Tomé e Príncipe de um aeroporto da classe internacional para 500.000 passageiros, por isso estamos tranquilos.
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