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Isabel Sequeiros e Bruno Pereira foram escolhidos para fazer parte dos 45.000 voluntários dos Jogos Olímpicos de Paris, que terminam este domingo, 11 de Agosto. "Vim para estes jogos a pensar que ia viver um sonho. Não sabia o que ia acontecer e isto superou tudo. Estamos a ver o processo de dentro, estamos na Aldeia Olímpica, onde convivemos com os atletas, com as delegações, todos os dias. Somos uns sortudos", partilharam os voluntários portugueses.
RFI: O que é que os Jogos Olímpicos representam para vocês?
Isabel: Gosto muito de desporto no geral, Atletismo, no particular, representa o máximo do desporto. Aquela coisa que acontece de quatro em quatro anos e que é muito, muito especial.
Já era o caso antes destes Jogos Olímpicos de Paris?
Sim, já o era antes. A minha primeira memória grande dos Jogos Olímpicos foi quando, em 1984, Carlos Lopes ganhou a medalha de ouro em Los Angeles. É um momento que eu não não esqueço nunca. Todos os anos por essa altura, falta pouquinho, recordo e isso é importante. São muito, muito especiais desde essa altura.
O que é que representam estes Jogos Olímpicos?
Bruno: Para mim era o número um no top dos sonhos. O que é que eu tenho que fazer nesta vida? O primeiro era assistir ou fazer qualquer coisa nos Jogos Olímpicos. É a concretização do sonho, do sonho do miúdo.
Qual é que é a sua missão durante estes Jogos Olímpicos?
Bruno: Sou assistente da delegação colombiana e no fundo, apresentamo-nos e estamos disponíveis para o que eles precisarem naquele dia. As tarefas são diferentes, dependemos um bocadinho daqueles que eles precisam no momento.
Como é que é um dia de um voluntário, são todos diferentes?
São todos diferentes. Nós temos um horário que é pré-definido, o meu é das 14h30 às 22h30. Entramos na plataforma, fazemos o check-in, apresentamo-nos à nossa delegação consoante aquilo que eles precisem. Podemos acompanhar um atleta a determinado sítio, ir buscar bagagens, preparar um quarto são tarefas muito distintas mesmo.
Isabel qual é a sua missão nestes Jogos Olímpicos?
Isabel: Eu tive o bombom maravilhoso de ficar com a delegação de Portugal. Aliás, sou a única portuguesa, não sei porquê que o conseguiu. O nosso objectivo é que o atleta esteja mais confortável possível. Estamos sempre a fazer coisas em prol disso, verificar se está tudo bem nos quartos, se aquilo que eles precisam em termos de nutrição, por exemplo, está em ordem e organizado. Há dias que fazemos muitas coisas porque é preciso. No início foi preciso colocar o nosso edifício bonito para receber os nossos atletas.
Bruno: Como disse a Isabel, temos muito tempo livre e acabamos por também nos permitir de conhecer outras delegações, outros voluntários e acaba por ser quase uma família que se criou porque conhecemos imensa gente e acabamos por criar laços com essas pessoas.
Qual é o espaço que ocupa o desporto nas vossas vidas?
Isabel: Eu sou juiz de atletismo já há muitos, mas sempre gostei de desporto. Não tenho nenhuma ligação a não ser essa de ser juiz e de ser também membro da direcção da associação de Atletismo de Viana do Castelo. O Bruno é diferente.
Bruno: O desporto para mim é o meu modo de vida. Sou formado em Educação Física e sou personal trainer, por isso o desporto já faz parte de mim desde a minha área de formação, mesmo antes em que também fui atleta. Por isso acho que desde que me conheço o desporto está na minha vida.
E quanto aos valores que veicula?
Isabel: Na minha carta de motivação apresentação que escrevi quando me candidatei, mencionei precisamente os valores olímpicos. São todos bons e acho que me representam todos eles.
Bruno: O olimpismo em si representa tudo aquilo que deveria ser projectado numa sociedade perfeita. Nota-se nesta microestrutura que é a Aldeia Olímpica. O sonho é mesmo que isso seja projectado cá para fora e tem-se verificado aqui em Paris. E eu vivo cá há 12 anos e posso dizer que nunca vi a cidade com este ambiente tão eufórico. Está a ser mesmo fantástico.
O desporto cria ligações e nestes Jogos Olímpicos e em Paris tem sido o caso e isso sente-se nas ruas, dentro dos complexos, na Vila Olímpica?
Bruno: Sim, sim. Sente-se em todo o lado. É incrível. Como disse, estou aqui há 12 anos e nunca imaginei nos meus maiores sonhos que a coisa fosse realmente assim. Aliás, muitos parisienses saíram porque acharam ia ser um desastre nos transportes e que ia correr mal. Estamos às portas da cerimónia de encerramento e não tenho nada a dizer. Nada de negativo, sinceramente. Eu acordo com sorriso de orelha a orelha. Vou deitar me com sorriso de orelha a orelha.
Isabel: Sim, eu também. Eu não vivo cá não e só venho de férias. A minha relação com Paris é sempre boa. Agora, em termos desta alegria que o Bruno falou, eu também a sinto. Também acordo a sorrir e adormeço a sorrir. Estou muito, muito feliz porque tenho amigos novos.
Bruno: Mais uma das coisas que os jogos nos trouxeram foi conhecer pessoas como a Isabel de Portugal ou do Brasil ou de outro país qualquer, porque acho que mais ou menos 20% dos voluntários vêm do estrangeiro e acabamos por não só praticar línguas estrangeiras porque dá jeito, mas também conhecer pessoas de toda a parte do mundo.
Isabel há pouco dizia nos que teve que escrever uma carta, que processo foi esse?
Nós fizemos uma candidatura já há muito, muito tempo, há anos e meio com muitas questões às quais nós tivemos de responder. Depois, na parte final, havia uma parte que nem sequer era obrigatória. Nós poderíamos escrever porque é que nós achávamos que devíamos ser seleccionados e aí sim, eu acho que caprichei um bocadinho e expliquei como é que eu era e todos os meus valores, os meus, meus sentimentos, a minha vontade. Porque é que eu queria tanto estar aqui e fui seleccionada. Acho que fui convincente.
Era possível imaginar o que está a acontecer hoje?
Bruno: Não, lá está. Eu vim para estes jogos pensando vou viver um sonho. Mas não sabia o que ia dar de dentro. Sempre assisti aos Jogos Olímpicos, desde miúdo tinha uma experiência de fora, mas não sabemos muito bem o que é que vamos esperar. Isto supera. Mas de longe porque nós também estamos a ver o processo. Estamos na Aldeia Olímpica, então convivemos com os atletas, com as delegações, todos os dias. Por isso, se calhar somos uns sortudos por estar lá.
Como é viver os Jogos Olímpicos a partir dos bastidores?
Somos privilegiados por causa disso. Todos os dias vemos aquilo que os atletas sentem, vemos com que sensações é que vão para as provas. Acompanhamos o staff, a própria delegação, as expetativas, às vezes frustrações, outras vezes muita alegria.
Qual foi momento mais marcante até agora?
Bruno: Para mim foi a cerimónia de abertura. Tivemos a sorte de fazer parte do evento. Tivemos nos barcos para acompanhar os atletas durante todo o percurso. Foi a atmosfera única, embora durante o trajecto não conseguimos acompanhar tudo o que estava a acontecer a nível de acontecimento televisivo. Mas só viver aquela atmosfera... não sei quantas vezes me belisquei para perceber que se estava mesmo ali, dentro do barco.
Bruno, quer partilhar connosco uma história, um encontro com um atleta?
Bruno: Sim, eu tenho uma heroína, a Simone Biles, que tem capacidades incríveis, que vão para além do que o ser humano consegue fazer. Tenho acompanhado a carreira dela desde dos primeiros jogos, quando esteve no Rio de Janeiro e sou completamente fã. Não tive a oportunidade de a cruzar na Aldeia Olímpica. Mas andei à volta do edifício várias vezes e fui espreitando, ia vendo o que é que ela punha nas redes sociais. Parecia quase um paparazzi.
Isabel: Sem querer contribuir para a tua tristeza, Bruno, mas eu cruzei me com ela e, apesar de já ser a noite, e eu não consegui dizer outra coisa que não fosse 'Bonjour'.
Vão continuar a ser voluntários durante os Jogos Paralímpicos?
Eles querem que a energia destes Jogos Olímpicos seja a mesma e estão a fazer tudo para que isso aconteça. A nível de organização, estão a tentar pôr o patamar ao nível dos Jogos Olímpicos. O que tem acontecido é que desde o momento em que os Jogos têm sido difundidos, houve um aumento de venda de bilhetes de quatro ou cinco vezes superior. Por isso espera-se que estejam mais ou menos ao mesmo nível. Agora a dificuldade será o regresso escolar. As pessoas estão a trabalhar, vai ser um bocadinho mais difícil ao nível de público, penso eu. Mas a ideia é que seja que esteja lá em cima também.
A Isabel vai a Portugal, mas volta para os Paralímpicos?
Exactamente. Eu vou na próxima semana porque na minha cidade acontecem as Festas da Agonia e é algo para mim que está só um patamar um bocadinho abaixo dos Jogos Olímpicos. É uma celebração na qual gosto sempre de participar e depois venho já para uma tarefa diferente. Nos Paralímpicos vou estar na La Défense Arena nas provas de natação.
Qual é o momento que levam daqui dos Jogos Olímpicos de Paris?
Isabel: Difícil dizer que não foi a cerimónia de abertura por tudo aquilo que envolveu, mas depois também levo toda aquela alegria que se vive na delegação. Volto a frisar eu tive muita sorte. Eu estou com a delegação de Portugal. Há pessoas muito maravilhosas que nos tratam muito bem, que respeitam o facto, no meu caso, de ser também a primeira vez de estar aqui. Ajudam quando é preciso explicar isto ou aquilo. Levo também aquela relação boa que se estabeleceu dentro da delegação, por outro lado, sem falar do facto de ter agora amigos novos, que eu sei que vão ser amigos por muito tempo, não é, Bruno?
Bruno: Era isso que eu ia falar. O que eu levo se me perguntarem qual é a memória que eu acho que vou guardar, vão ser as pessoas. Esta troca de experiências e de conhecimentos que fizemos, tanto entre voluntários como com as delegações, como com as próprias pessoas que trabalham na Aldeia Olímpica. Acho que é mesmo aquilo que eu levo com a maior recordação. A cerimónia de abertura porque foi excepcional e foi um momento que vivemos só uma vez na vida.
Os nadadores moçambicanos Matthew Lawrence e Denise Donelli integram a missão olímpica de Moçambique e estrearam-se nos Jogos Olímpicos de Paris.
O atleta moçambicano Matthew Lawrence está a viver em Portugal desde 2022, no âmbito de uma bolsa atribuída pelo Comité Olímpico Internacional, o nadador olímpico participou na prova dos 100 metros bruços e não conseguiu seguir em frente, neste que foi o momento mais importante da carreira de Matthew Lawrence até ao momento.
RFI: Como é que correu a sua prova?
Matthew Lawrence: A sensação foi incrível. Esta é a primeira vez que estou nos jogos e é o palco maior do mundo, já participei em dois mundiais e nem se compara porque há tantas pessoas a gritar e a apoiar. A prova o ensino correu assim tão bem e estava à espera de nadar mais rápido, mas acontece e não posso estar muito zangado.
Sentiu que deu o melhor de si, os seus adversários foram mais rápidos?
Sim, eu acho que eu dei tudo que tinha. Cheguei no fim completamente cansado e não tinha mais para dar. Também estava muito nervoso antes da prova, o que é normal e acho que isso também influenciou o meu tempo.
Falando dos tempos, 1'04'95 é muito rápido?
É rápido, mas no nível mundial ainda não está onde eu quero estar. Ainda só tenho 20 anos e só saí de Moçambique há dois anos. E em Moçambique, como sabemos, não há as melhores condições. Claro que tentámos tudo, mas nos últimos dois anos consegui melhorar de três segundos, que já é muito. Por isso acho que nos próximos quatro anos tem possibilidade de chegar ao nível mundial.
Como é que são as águas da piscina olímpica de Paris, são mais lentas porque estavam previstos muitos recordes?
Não sei porque normalmente a piscina é um pouco mais funda. Esta piscina só tem 2 metros e 15 e o normal são três metros. Não sei se isso influencia, eu senti-me bem na piscina, mas os tempos que foram vistos até agora não foram assim tão especiais. Nos 100 bruços, na final estava à espera que fosse muito mais rápido e não foi.
Tem 20 anos, foi um dos porta-bandeiras de Moçambique na cerimónia de abertura destes Jogos Olímpicos de Paris. O que é que se sente quando está num barco a representar o seu país, Moçambique?
Não estava nada à espera quando eles decidiram que ia ser eu. Fiquei sem palavras e a sensação também não consigo descrever. Foi mesmo incrível.
Apesar da chuva, foi uma cerimónia vivida intensamente?
Exactamente. A chuva no início não foi assim tão mau, mas para o fim já estava a ficar mais frio e eu não fiquei até o fim. Bastou o barco atracar e eu saí logo e voltei para a vila porque ia competir no dia seguinte. Aqui na vila olímpica estou com os meus amigos, basicamente a minha família, porque estamos todos juntos. Eles disseram-me que foi incrível, além da chuva, porque eles apanharam muito frio e não tinha onde se abrigar da chuva.
A delegação de Moçambique é composta por sete atletas. Essa entre ajuda, esse apoio é permanente entre vocês durante estes Jogos Olímpicos?
Sim, eu acho que sim. Estamos aqui uns para os outros. Quando alguém luta ou nada, estamos a apoiar, estamos a ver o que podemos ver. Há provas a que não podemos ir, mas estamos aqui na vila a ver na televisão e mandamos mensagens. Há uma atleta que está fora, mas também comunicamos com ela todos os dias para ver como é que está a correr.
A Deizy está em Marselha nas provas de vela...
Exactamente e estamos sempre em contacto e se podemos ajudar com a ansiedade.
Como é que controla esta ansiedade de representar o seu país, de ser um dos melhores atletas do seu país e de estar aqui no certame, onde só estão os melhores dos melhores?
Isso é boa pergunta. Acho que ainda não cheguei a esse ponto para perceber como posso usar a ansiedade para nadar mais rápido. Não sei como explicar que eu faço isso e sinto que consigo.
Há quem fale de adrenalina dos atletas, isso impulsiona uma energia?
Sim, é verdade. A adrenalina faz muitas coisas. Tu podes achar que não és capaz, mas com adrenalina consegues fazer. Por exemplo, nos 100 bruços ninguém estava a espera que Nicolo Martinenghi, da Itália, ganhasse, mas com a adrenalina conseguiu.
E agora preparar-se para os jogos de 2028?
Não sei. Agora vou de férias, Vou descansar e depois das férias vou pensar nisso. É muito provável que sim. Ainda vou estar em Portugal alguns anos para acabar o meu curso.
Falando um pouco no seu percurso, está a viver há cerca de dois anos em Portugal. O que é que isso mudou?
Eu fui para Portugal estudar na faculdade e também para melhorar o treino. Consegui a bolsa de World Aquatic, era suposto ir para os Estados Unidos, mas se eu fosse não ia estudar. Também tinha uma atleta que era suposto sair do país para treinar, ir para a Ucrânia, mas depois começou a guerra e não teve como sair do país. Então eu ofereci a bolsa.. não foi bem oferecer, mas eu pus o nome dele para bolsa. Este ano foi oferecido novo, mas calhou aqui em França, não ia conseguir ter porque não quero prejudicar os meus estudos. Por isso vou ficar em Portugal e decidir onde vou treinar.
O que é que está a estudar?
Estou a estudar gestão na Universidade Nova.
É difícil ser um atleta olímpico que está a tirar um curso superior?
Sim, não posso mentir, está a ser muito difícil. Estou como part time student, tem alguns apoios, mas sinto que não é um apoio suficiente. Ainda há coisas que faltam. Por exemplo, nos Estados Unidos, é possível ser atleta e estudar. Acho que em Portugal estão a tentar mudar, mas ainda não têm esse pensamento norte-americano.
Imagino que nos últimos meses e anos se tenha preparado todos os dias a pensar nos Jogos Olímpicos e nestas provas. Existe agora um vazio?
Eu acho que ainda não cheguei a esse ponto. Acho que quando eu sair de Paris me vou sentir um pouco assim. Não vai ser assim tão pesado porque eu sei que ainda tenho coisas pela frente e eu ainda sou jovem. A minha colega Denise, que já tem mais idade, vai parar depois dos jogos, pelo menos é que ela diz. Não sei se ela vai conseguir parar totalmente, mas ela quer. Acho que quando eu chego a esse ponto, também vou sentir isso. Mas como eu sei que ainda tenho a fazer pela frente, acho que ainda não vou sentir esse peso.
O desporto é um vício?
Exactamente. Exactamente. É um vício e acho que não consigo viver sem desporto. Se eu decidir parar de competir, vou nadar na mesma. Não há como me tirar da piscina.
A atleta olímpica, Denise Donelli, nadou os 100 metros costas na arena de Paris, em La Defense, conseguiu melhorar a marca pessoal. A nadadora moçambicana conta-nos como se preparou nos últimos sete anos para participar nos Jogos Olímpicos.
RFI: Como correu a prova dos 100 metros costas?
Denise Donelli: Fiz aquilo que eu queria fazer e foi muito bom. Consegui baixar o meu tempo, há quatro anos que não conseguia. Fiz 1:08.73 minutos, melhorei a minha marca na prova e esse era o meu objectivo.
Como é que se prepara para ser mais rápida dentro de água?
Este ano trabalhei mais na força, troquei de treinador e foi muito treino na força e na quantidade. Trabalhamos muito no ginásio e na água.
O Matthew, que também representa a delegação moçambicana nos Jogos Olímpicos de Paris, falou-nos do facto de a piscina ser menos profunda desta vez. Sentiu uma diferença?
Como eu nado costas, não senti a diferença. Acho que ele sentiu porque nada bruços, especialmente no salto porque vais mais para baixo. Para mim não mudou nada.
O que é que se sente quando se entra numa arena olímpica? Imagino que seja emocionante.
Muito, muito emocionante. O público estava bem presente mais do que nos mundiais. Antes de fazer a prova, a adrenalina estava muito alta.
Esta é a sua estreia em Jogos Olímpicos, correu bem?
Sim, foi a minha primeira vez. Eu queria fazer os Jogos Olímpicos do 2021, mas não consegui. Não me aceitaram para fazer os Jogos e queria parar, mas o meu sonho era estar nos jogos, então continuei a nadar até agora.
Depois de Paris pensa em 2028?
Acho que não, porque já tenho 28 anos, pode ser que faça uma outra época. Eu queria parar, mas como ocorreu bem esta prova, não sei se eu vou parar, mas não vou nadar até 2028.
Como é que se sabe e quando é que se sente que é tempo de parar?
Não sei porque eu também agora não sei para mim se continuarei a nadar. O problema é também trabalhar e nadar porque a vida começa a ser complicada. Tenho que fazer uma escolha.
Até o momento, qual foi o momento mais intenso que viveu aqui em Paris?
Quando saí da minha prova, estavam aqui os meus pais e minhas amigas. Estavam fora da água a gritar e a chorar. Foi muito emocionante.
Foram quatro anos de preparação para estar aqui?
Foram mais porque antes preparei-me para os Jogos de 2021. Foram sete anos para vir aqui e foi incrível.
É difícil a vida de uma atleta olímpica?
Sim, principalmente, se temos de trabalhar também. Os meus dias são grandes; acordo às oito, trabalho, nado, depois volto a trabalhar, eu volto para casa às 23 horas. É muito trabalho.
Estamos aqui na Vila Olímpica, em Paris. Há uma energia positiva entre atletas?
Sim muito e estou a conhecer muita gente de todos os cantos do mundo. Todos estão felizes e concentrados nos próprios treinos, mas há uma energia muito positiva.
Em natação existem problemas de financiamento. É difícil financiar atletas de natação, continua a ser o caso hoje?
Se é, acho que é um caso que é mais ou menos em todo o mundo. Enquanto moçambicana e italiana também porque é um desporto que não é muito seguido, então ainda não há muito dinheiro investido nesta modalidade.
A pugilista moçambicana, Alcinda Panguana, perdeu no combate frente a chinesa Yang Liu, campeã mundial na categoria dos 66 kg, e não conseguiu o apuramento para os oitavos-de-final do torneio de boxe feminino nos Jogos Olímpicos de Paris. "Não foi tão gratificante quanto eu queria, mas dei o melhor de mim", afirmou a atleta olímpica moçambicana.
RFI: Está satisfeita do seu desempenho nos Jogos Olímpicos de Paris?
Alcinda Panguana: As provas aqui nos Jogos Olímpicos de Paris correram bem, mas não positivamente porque não consegui nem chegar aos quartos-de-final. Então para mim não foi tão gratificante quanto eu queria, mas deu para estar e acho que dei o melhor de mim.
Teve uma vitória por 5-0 contra a eslovaca Diane, Depois foi afastada pela chinesa Yang Liu. Como é que viveu esse combate?
Primeiro quando fui ao combate nem sabia que a Yang Liu já estava à espera. Eu não vi no sorteio o nome dela e achava que ia competir com as outras, que seria a China Taipé. Eu também ouvi dizer que ela já não estava a competir, mas então quando vi ali foi uma surpresa, já sabia daquele momento que eu não ia conseguir passar para a próxima fase. Acho que o país aqui nos Jogos Olímpicos fala mais alto que a própria competição. Moçambique contra a China não havia chance de passar. Ainda assim, fui tranquila e tentei aceitar o que ia lá encontrar e joguei tranquilamente.
O que é que se sente antes de uma competição como esta em que já se sabe que vai ser uma prova difícil?
Eu acho que tenho um Deus grande porque sempre me tranquiliza perante este tipo de situação. Acordei muito calma, não fiquei tão nervosa porque acho que se tivesse ficado muito nervosa, nem um golpe eu não teria conseguido tirar e nem ia terminar os três assaltos. Acordei muito calma e disposta a aceitar qualquer decisão que tivesse lá no ringue.
Esta é sua segunda participação em Jogos Olímpicos. Existem muitas diferenças entre Tóquio e Paris, nomeadamente, volta a haver presença do público?
Existem muitas diferenças. Em Tóquio eram mais acolhedores, eram mais verdadeiros, mais abertos do que estamos a notar aqui porque não são abertos, não são verdadeiros. Cada país tem as suas leis, tem suas regras, tem o seu modo de preparar um campeonato. Não podemos condenar a cultura de cada um. Temos de apoiar e agradecer. Quando falo da abertura, falo das pessoas em si. Em Tóquio, todos os trabalhadores demonstravam a abertura com o rosto. Tu vês que se está disposto a ajudar. Agora, não sei se é por causa da língua, mas de Tóquio também não falam português, aqui também não falam muito em inglês. Mas tu vês pela abertura, pela recepção que em Tóquio eles estavam dispostos a ajudar em qualquer coisa. Eles estavam dispostos a acolher todo mundo, aqui algumas pessoas parecem obrigadas.
Que emoções sentiu durante as competições?
Eu tive aqui muitas emoções, diferentes das de Tóquio talvez porque estávamos naquela situação de pandemia Nós não circulávamos muito, aqui estou a circular muito, estou a ter intercâmbio com vários atletas. Então isso é uma emoção e tanto. Acho que é por isso que eu me qualifiquei, para vir ter esse intercâmbio com vários atletas.
O que é que se ganha nessa troca com outros atletas?
Eu estou a descobrir que o atleta, não por ser bom ou atleta do mundo, ele deixar de ser humilde. Ele é atleta do mundo, mas ainda continua a ser humilde. Eu acho que é isso que faz dele um atleta olímpico, um verdadeiro atleta com humildade e respeito que carrega dentro de si.
É difícil ser atleta olímpica?
É difícil, sim, porque para a nossa preparação exige muito esforço. Tu tens de abdicar de muitas coisas, de várias pessoas, famílias, amigos, convivências. Tens de abdicar disso e dedicar-te aos treinos. Se tu trabalha tens que trabalhar e treinar, focar nessas duas coisas. Se tu estudas tens que estudar e treinar, focar nessas duas coisas. Ser atleta olímpico exige muita disciplina, porque um atleta olímpico não se pode expor. Um atleta olímpico tem que saber estar e não se pode envolver em brigas na rua, por exemplo. Um atleta olímpico tem que ter respeito, humildade e, acima de tudo, trabalho e persistência.
Já pensa nos próximos Jogos Olímpicos?
O futuro pertence a Deus porque estamos a ouvir por aí que a modalidade de boxe não fará mais parte dos Jogos Olímpicos nos próximos anos. Vamos participar nos outros torneios porque o boxe vai parar, não. O boxe vai continuar, mas noutros torneios. Só para os Jogos Olímpicos é que parece que vai ser banido.
Como é que reage a esta decisão?
Ainda não pensei muito a fundo no assunto, não procurei saber os reais motivos. Só ouvimos zunzuns por aí. Ainda vamos ficar à espera enquanto treinamos e fazemos outras competições.
Estar aqui, ser atleta olímpica é também um salto para abrir novos caminhos na sua carreira?
É sempre um salto que abre novos caminhos numa carreira, principalmente para atletas que querem fazer boxe profissional. A partir deste momento é que alguns patrocinadores conseguem ver o talento de cada um e decidem apostar nos verdadeiros atletas profissionais.
Por que motivo ainda há poucas mulheres pugilistas em Moçambique ?
Porque no nosso país é difícil as mulheres engrenarem-se no boxe porque é visto como uma modalidade muito difícil e agressiva. É considerada como sendo uma modalidade só para homens. Então, às vezes é muito difícil conquistar algumas mulheres. porque elas têm receio, mas acabam aderir por ver que há outras mulheres que não têm machucadas na cara.
O que é que ganha aqui em Paris, nos Jogos Olímpicos?
Ganho ter conhecido o país, ter convivido com vários atletas e ter adquirido muita experiência.
São Tomé e Príncipe participa pela primeira vez nos Jogos Olímpicos, com três atletas em três modalidades. Para o chefe de missão da delegação de São Tomé e Príncipe nos Jogos Olímpicos de Paris, Filipe Neto, se "houver uma surpresa da medalha será uma alegria para São Tomé e Príncipe".
RFI: Como correram as provas olímpicas dos atletas são-tomenses até ao momento?
Filipe Neto: Nós trouxemos três atletas, uma em atletismo, um atleta em canoagem e um atleta no judo. Todos eles, pela primeira vez, nunca estiveram numa Olimpíada. Já competimos em judo e o nosso atleta de judo não conseguiu passar porque ele encontrou um adversário bastante forte em relação a ele. Em termos de ranking, o outro estava em 25.ª posição e ele na 324.ª - é uma diferença muito grande em relação à experiência técnica e ele não não conseguia ganhar. Depois, no dia 2 de Agosto tivemos a participação da Gorete Semedo nas provas de 100 metros, que para foi bastante gratificante porque ela passou a fase preliminar e ganhou. Talvez tenha feito muito esforço, o que não devia ser, mas isso é uma questão de mesmo da experiência.
E competiu logo a seguir, numa segunda prova, com um espaço de tempo muito reduzido.
Muito reduzido. Nós até pensávamos que ela iria ter pelo menos ou duas horas de descanso, mas só teve 30 minutos de descanso e não estava preparada para isso. A segunda prova, que era eliminatória, teve adversárias mais fortes e também um pouco de azar porque foi única a correr contra o vento. A Gorete tinha vento não a favor e as outras tiveram menos a favor. Mas ela teve uma boa prestação, deu tudo que tinha e nós agradecemos muito a ela, o treinador, o João Abrantes. A nível do Comité Olímpico, nós vamos continuar o projecto. Nós temos o próximo jogo de Los Angeles. Se ela estiver disposta para que nos próximos jogos ela tem a melhor prestação.
Falámos com a Gorete depois da prova. Ela já disse naquele dia, portanto, na sexta-feira, no dia 2 de Agosto, que já estava a pensar em Los Angeles.
Sim, nós também pensámos porque nós entendemos que ter bons resultados a nível do das Olimpíadas e dos Campeonatos do Mundo não são coisa que se faz num ou dois anos porque são projectos de quatro ou oito anos, até mesmo 12 anos, dependendo da idade do atleta. O que ela fez nos mostra que podemos confiar nela e basta ela aplicar-se um pouco mais e ela vai, vai melhorando e pensamos que com ela vamos continuar o projecto e também com os outros. Temos a canoagem que também é uma modalidade bastante plural a nível de São Tomé e Príncipe. Temos um projecto também a canoagem bastante boa e pensamos que com o mesmo, com a canoagem, o judo e as outras modalidades que são individuais para nós, pode entrar no projecto dos próximos jogos.
São Tomé e Príncipe compete na sexta-feira, dia 8 de Agosto, na prova de canoagem. O que é que se espera?
Como disse a Hermínia é uma atleta a este nível, também experiente, mas ela vai fazer o que estiver ao seu alcance. Vai dar tudo por tudo. Já está a adaptar ao rio e ao clima e vai tentar fazer o melhor que pode para que haja uma boa prestação. O importante é que nós conhecemos o nosso nível e sabemos que estar nos Jogos Olímpicos, dizer que viemos aqui para ganhar medalhas e às vezes é um sonho de loucos. Mas o desporto às vezes traz surpresas e a gente pode ver que durante essas Olimpíadas vimos campeãs do mundo a caírem logo na primeira, campeão olímpico a caírem e outros que não tinham experiência a ganhar. Portanto, há surpresas no desporto e se houver surpresa desses para nós, olha uma alegria bastante grande para São Tomé e Príncipe.
Como é que se formam atletas olímpicos? Como é que se preparam atletas para estarem pela primeira vez, como é o caso de São Tomé e Príncipe, a participar aqui nos Jogos Olímpicos de Paris?
Primeiramente nós conversamos com as federações, entregamos as federações os programas olímpicos e elas concorrem. Quando concorrem, nós enviamos os resultados para as federações internacionais e as federações internacionais analisam os resultados e atribuem uma bolsa olímpica. É a partir desta bolsa olímpica, nós enviamos os nossos atletas para diversos países para que eles possam ser preparados para esta estas competições.
Sem essas bolsas olímpicas seria difícil para São Tomé ter atletas aqui presentes em Paris?
Muito, mas muito difícil mesmo. Muito difícil, porque nós entendemos que preparar atletas para alta competição é algo que requer muito investimento. A preparação e o cuidado das federações, o investimento do comité e também o investimento do próprio Estado são-tomense. Todos nós devemos estar envolvidos numa só causa, porque a representação é única e de São Tomé e Príncipe. Nós viemos para aqui representar São Tomé e Príncipe e por isso é sempre que se o Estado, o Comité e as Federações e também alguns empresários estejam de mãos dadas para que essa representação seja a melhor possível.
Como professor de Educação Física é possível reconhecer nas crianças, nos jovens, um futuro campeão olímpico, um futuro atleta promissor?
Sim, é fácil conhecer. Nós, enquanto professor de Educação Física atentos, rapidamente detectamos o talento do do aluno. Mas só que realmente direccionamos esses alunos quando a federação também está bem organizada porque se a federação não estiver organizada, o aluno vai para ir dois ou três dias, volta a sair e perde-se. Por isso é que nós devemos fazer um trabalho também logo na escola, a nível de educação física, através do desporto escolar, nós detectamos os alunos, enviamos as federações e as federações trabalham com os alunos para que realmente o governo, o Comité Olímpico possa apostar nesses atletas. Uma das coisas que nós não não fazemos, em que nós pecamos é essa tenra idade que nós não trabalhamos muitas vezes com o aluno, porque é ali onde eles aprendem a técnica e a técnica tem muita influência no resultado desportivo.
Essa falta de investimento acontece por falta de meios?
Eu diria que o pouco que existe deveria ser aplicado. São Tomé e Príncipe é um país pequeno não tem grandes recursos financeiros, mas do pouco que existe, se nós o direccionarmos também para a parte social, sobretudo para o desporto, que de forma indirecta, tem muito a ver com o crescimento mental da população. Olha, nós conseguiríamos ter um melhor desporto e melhor resultado a nível nacional e internacional porque nós preferiríamos atletas e também preferiríamos homens para o futuro e a nossa sociedade seria um pouco melhor. Por isso é que o desporto, de uma forma ou de outra, é como se fosse um catalisador bastante bom para o desenvolvimento de qualquer sociedade.
Essa energia desportiva sente-se ao longo desta semana que passou dos Jogos Olímpicos aqui na Aldeia Olímpica, na própria cidade de Paris, durante as provas, nos complexos desportivos. Existe uma energia de união, de igualdade?
Sim, existe porque o desporto é mesmo para isso. Se nós encontramos a essência mesmo do desporto, eu até diria um pouco com orgulho - é a única parte social que une as pessoas, independentemente de haver embates de defesas contraditórias. Cada um defende o seu país no momento da actividade desportiva, Mas estão todos unidos. Ele envolve toda a gente. Depois de terminadas as competições, somos amigos, independentemente daquilo que tenha acontecido. Nós conhecemos pessoas de diferentes países e há outra coisa que nós sentimos aqui em Paris, é que o povo parisiense está todo em volta da sua selecção e isso é muito bonito. É muito bonito quando, quando toda a gente vibra pela sua cor, a sua bandeira, a sua selecção e mostrar também a sua terra aos outros que vêem a sua cidade, fazer com que as pessoas se sintam bem.
Imagino que em São Tomé e Príncipe, durante as competições e as provas dos atletas são-tomenses também houve esta união e imagino que tenham recebido inúmeras mensagens depois das prestações dos atletas são-tomenses?
Sim, sim, nós recebemos sobretudo na primeira actuação de Judo, enviamos os resultados para São Tomé e recebemos essa mensagem de apoio a dizer para que continue tudo bem para nós. Vamos continuar, vamos apoiar. Quando da Gorete correu, melhorou um pouco e sentimos também que eles lá em São Tomé também estão a pensar em nós e querem que nós tenhamos um bom resultado. É isso que estamos aqui a fazer e queremos dar alegrias.
Falava há pouco da questão das fugas de atletas. De que forma é que olha para estas fugas às vezes de atletas de são-tomenses para Portugal, como é o caso, por exemplo, de Agate de Sousa?
Bem, essa é uma situação em que, honestamente, sinto-me muito revoltado, não porque ela tenha ido, mas pela forma como é que ela foi e a forma como a entidade portuguesa desportiva lidou com isto. Para mim foi um acto de, eu até diria, traição. Honestamente, sinto-me muito magoado, inclusive com pessoas que estiveram envolvidos neste processo. Eu atrevo a dizer do presidente da Federação de Atletismo, que foi meu professor e para mim foi uma mágoa bastante grande, ela estava no nosso projecto de representação São Tomé e Príncipe nestes Jogos Olímpicos. Ela estava com uma bolsa olímpica. Às vezes este tipo de coisas mina a boa relação que a gente tem com determinadas pessoas.
Portanto, há toda uma organização que está por detrás, entre países, uma organização geopolítica para tentar conquistar mais medalhas?
Sim, isso é verdade. Não quero dizer que isto seja só a nível do desporto porque é mesmo a todos os níveis. A gente sente que, se nós que somos africanos, se não nos sentirmos verdadeiramente africanos, é que devemos representar o nosso continente, o nosso país, dar orgulho ao nosso país. A Europa não quer o desenvolvimento de África. Eu digo isso com toda a certeza, apesar de um ou outro levar alguns apoios, mas no fundo eles não querem desenvolvimento porque se quisessem o desenvolvimento, porque o próprio presidente da Federação, em momento em que estive em Portugal na formação de atletismo, ele disse-me 'olha, se eu tivesse a hipótese, eu iria buscar muitos, muitos atletas a São Tomé', e eu disse: 'claro, lá existem bastante, mas se vocês quisessem ir buscar vocês punham lá algumas condições para nós. Trabalharíamos atleta, vocês ficariam com uma parte, nós ficaríamos como contraparte'. Mas eles não dão nada, não fazem nada. Não falamos com o Comité Olímpico Internacional, falamos com solidariedade olímpica, mas notamos que mesma federação internacional são lobbys, são coisas que existem. Quando puder desaparecer com o outro para ser mais fraco, eles conseguem fazer isso.
O vencedor do Prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, foi designado para o cargo de chefe do Governo interino no Bangladesh. O economista, conhecido por ter reduzido a pobreza no país, disse estar pronto para assumir as responsabilidades. Luís Tomé, professor catedrático e investigador sénior do Instituto português de Relações Internacionais, considera que a escolha de Muhammad Yunus era a mais expectável, sublinhado que o nome do prémio Nobel da Paz era uma das exigências dos manifestantes.
RFI: Muhammad Yunus foi designado para gerir o Governo interino no Bangladesh, ele que tentou formar o próprio partido em 2007. Esta nomeação era expectável?
Luís Tomé, professor catedrático e investigador sénior do Instituto português de Relações Internacionais: Sim, era expectável. Por um lado, porque ele próprio já se tinha disponibilizado para poder governar o país, sobretudo como alternativa àqueles que são os partidos históricos dominantes da política do Bangladesh- para além das ditaduras militares e das Forças Armadas- ou seja, o da primeira-ministra que se demitiu e o Partido Nacional do Bangladesh. E, por outro lado, esta era uma das exigências dos manifestantes que tinham feito constar no caderno de reivindicações um Governo interino, precisamente liderado pelo economista e Prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus.
Que lugar vão ter os estudantes na composição deste Governo interino?
Eu vejo como difícil que os estudantes tenham lugar neste Governo. Certamente que haverá negociações e, portanto, pode haver um ou outro elemento das universidades, em particular, a fazer parte do Governo. Mas a situação é crítica e de grande instabilidade, porque com relativa facilidade o Bangladesh pode voltar a cair perante uma ditadura militar. Pode haver um golpe, por esta via mais civil, se não forem marcadas eleições. No passado já houve várias ocasiões de golpes e ditaduras militares e o Bangladesh sabe disso.
Esta foi, de resto, a postura do secretário-geral da ONU, António Guterres, que veio defender a realização de eleições democráticas. Trata-se de uma prioridade para o país?
O Governo de Muhammad Yunus é um Governo interino. Ele vai ter estabilizar o país, pôr a economia a funcionar e, sobretudo, gerar emprego- 40% dos jovens não estuda, nem trabalha. Ele vai ter de criar condições para marcar, no prazo razoável de um ano e meio a dois anos no máximo, eleições.
Recorde-se que a primeira-ministra Sheikh Hasina, que acaba de renunciar, tinha sido eleita mais uma vez, embora com eleições muito, muito contestadas em Janeiro. Agora com o Governo interino, que resulta de uma negociação entre Forças Armadas e manifestantes, tem que haver um poder legitimado e eu estou em crer que isso acontecerá.
Em 2006, Muhammad Yunus recebeu o Prémio Nobel da Paz pelos esforços económicos graças ao micro-crédito, este homem que é também conhecido como o banqueiro dos pobres. Considera que será capaz de responder aos desafios do Bangladesh?
Ele tem as condições para o fazer porque está muito bem preparado. Ele é economista e, aliás, alguns até dizem que para além do Nobel da Paz também deveria ter recebido o Prémio Nobel da Economia. Ele vive num país tradicionalmente muito pobre, embora tenha havido um crescimento económico depois de 2009. Com esse conhecimento da realidade do Bangladesh, esse reconhecimento internacional e o background económico, acho que é a pessoa indicada para acalmar uma sociedade muito polarizada, dividida, contando com o apoio da comunidade internacional.
Obviamente que o apoio externo- para um país que está nas circunstâncias em que Bangladesh está- é crucial e, portanto, eu acho que ele tem condições internas e externas para conseguir estabilizar o país, colocando-o de novo na rota do crescimento económico. Se as coisas ocorrerem como se espera, ele tem, naturalmente, as condições para ser eleito em eleições livres, apesar da suas idade.
Muhammad Yunus tem 84 anos….
Sim, já tem 84 anos, o que não lhe vai permitir muito tempo à frente dos destinos do país. Mas, creio que é a pessoa certa para colocar o Bangladesh nos carris do desenvolvimento e da estabilidade política. E se ele conseguir fazer isso, para além de tudo o que já fez no combate à pobreza e o que fez para outros países, deixará um legado importantíssimo para o futuro político do Bangladesh.
A violência no Bangladesh começou com manifestações pacíficas dos estudantes contra as quotas na função pública, conferindo até 30% dos postos de trabalho a combatentes da guerra de independência. O Governo acabou por anular 95% das quotas, mas ainda assim, a violência culminou na morte de 400 pessoas. Temos estado aqui a falar da transição política. Considera que são também importantes mudanças estruturais nesta sociedade?
Sim, são importantes. Do ponto de vista económico, é verdade que a primeira-ministra que saiu -fugiu- conseguiu aquilo que alguns até consideram uma espécie de milagre económico, sobretudo com desenvolvimento da indústria têxtil que emprega uma parte substancial da população do Bangladesh. E, aliás, houve uma série de anos em que a média de crescimento económico anual era de 6%.
Mas o problema é que esse crescimento económico foi acompanhado por progressos de autoritarismo, sob o domínio da própria Liga Awami e da primeira-ministra e, portanto, alguns opositores foram presos. Por exemplo, a antiga primeira-ministra, a líder do Partido Nacional de Bangladesh e o Prémio Nobel da Paz chegou a ser detido, seis meses no início de 2014, porque também contestava a evolução do país.
A líder da oposição que foi, entretanto, posta em liberdade…
A primeira- ministra Sheikh Hasinaque, conhecida como Dama de Ferro, renunciou e fugiu para a Índia -alguma imprensa avança que o destino final será o Reino Unido- houve também demissões na polícia. O país terá condições para julgar os responsáveis por esta onda de violência?
Eu creio que sim. Mas há aqui um papel importantíssimo das Forças Armadas. Aliás, não é caso único, já aconteceu em vários países da região como, por exemplo, no Paquistão. Lembremos que o Bangladesh é o antigo Paquistão Oriental, do qual se tornou independente em 1971, com o apoio da Índia. Eu não estou certo que a senhora demissionária vá para o Reino Unido. É muito provável que fique na Índia. Recordo também que esta é a terceira vez que ela se exila na Índia. Em 1975, quando o pai- o fundador e primeiro Presidente do Bangladesh, foi assassinado, ela exilou-se, regressando depois ao país. Em 1982, após o golpe militar no Bangladesh, ela volta a exilar-se. Esta é a terceira saída. Nós sabemos como alguns processos estão pacificados por uma espécie de acordo de não vingança e, portanto, não punição dos responsáveis de certo tipo de regime e de violência, neste caso em concreto.
Mas podem optar pela amnistia dos responsáveis pela violência?
Eu não sei qual é a negociação política que está em curso e o que vai decorrer nos próximos dias. Há sempre uma espécie de "pau de dois bicos". Por um lado, por uma questão de justiça, os responsáveis, designadamente da polícia, ou os activistas da Liga Chhatra do Bangladesh- que era uma filial estudantil do partido da primeira-ministra Sheikh Hasinaque que também instigou a violência contra outros manifestantes- poderão ser julgados.Todavia, isso pode continuar a fractura na sociedade.
Ou então haverá uma espécie de acordo em que- tal como aconteceu em Portugal, depois do 25 de Abril- não se busca tanto a justiça e até alguma vingança para evitar polarização, conseguindo-se estabilizar o país. Mas isso é uma questão interna e os próprios vão ter que decidir com o apoio dos militares. Cada caso é um caso. Os próprios actores da sociedade conhecem melhor as circunstâncias e decidirão se prendem os responsáveis por estas estimadas 400 mortes, neste último mês e meio, ou se preferem procurar a pacificação, através de uma espécie de amnistia para quem esteve ligado ao regime da senhora Sheikh Hasinaque e, designadamente, à violência das últimas semanas.
O Centro para Democracia e Direitos Humanos publicou nesta segunda-feira, 5 de Agosto, um relatório onde se refere à situação dos direitos humanos em Moçambique como “sombria e crítica”, denunciando a morte de mais de 20 pessoas devido à violência pós-eleitoral em 2023. Em entrevista à RFI, o director executivo da organização não-governamental, Adriano Nuvunga, acusa o Estado de ser o principal violador dos direitos humanos em Moçambique.
RFI: Quais são as principais conclusões deste relatório?
Adriano Nuvunga, director executivo do Centro para Democracia e Direitos Humanos de Moçambique: as principais conclusões deste relatório revelam que o Estado, através da polícia em Moçambique, continua a ser o principal violador e abusador de direitos humanos, incluindo assassinatos. A polícia assassinou nas esquadras de Nampula, na metrópole em particular, e algumas esquadras da cidade de Maputo. A polícia impediu a realização de direitos fundamentais, como o direito à manifestação, respondendo sempre de forma muito bruta. [A repressão policial] culminou na morte de 21 pessoas, 1050 ficaram feridas e cerca de 250 foram arbitrariamente detidas.
Estas violências foram cometidas, na sua maioria, no período pós-eleitoral?
Antes, durante e no período pós-eleitoral. Por exemplo, nas manifestações pacíficas de celebração à vida e obra do Azagaia, que decorreram em Abril, a polícia respondeu com muita violência. No período anterior ao período eleitoral, durante as eleições e depois a seguir às eleições. Todavia, foi sobretudo depois das eleições onde a polícia respondeu com brutalidade e disposição para matar.
No relatório, acusam os órgãos de Estado de ameaçarem os cidadãos. Como é que justificam estas acusações?
Há aqui uma primeira dimensão, a do custo da corrupção, que é exactamente a deterioração das condições de vida dos moçambicanos. Os moçambicanos que estão na miséria, por causa da corrupção dos dirigentes, estão mais disponíveis para manifestarem e votarem contra o Governo da Frelimo. E o que faz o Governo, através da polícia? Responde violentamente, com brutalidade e predisposição para matar, negando o exercício dos direitos fundamentais, que são um instrumento de expressão da insatisfação causada pela corrupção.
O Centro para Democracia e Direitos Humanos indica, no relatório, que a polícia “evidenciou-se como os maiores violadores dos direitos humanos e dizem que o Estado não garante um efetivo acesso à justiça, às vítimas de violações e abusos de direitos humanos”…
Claramente. Aqui a Procuradoria-Geral da República de Moçambique, que tem o mandato de agir, aparece como aquela instituição que impede o acesso à justiça. Um exemplo muito terrível, que chocou a sociedade moçambicana, foi aquele em que a polícia da 3ª esquadra, na cidade de Maputo, matou nas celas um jovem chamado “Cebolinha” e a digníssima procuradora reconheceu o episódio na Assembleia da República – que o cidadão foi assassinado pela polícia nas celas da esquadra, mas não moveu nenhuma acção.
Como é que se explica esta desresponsabilização das autoridades?
A Procuradoria faz parte dos órgãos que impedem o acesso à justiça, promovendo uma justiça selectiva. [Procuradoria] está apenas disposta a mover acções contra activistas, os defensores dos direitos humanos, protegendo aqueles que promovem a impunidade.
Não estão a ser feitas investigações para apurar esses crimes que o relatório coloca em evidência?
Nada está a ser feito. Por exemplo, no caso de Nampula, onde a polícia matou indiscriminadamente cidadãos indefesos, o CDD apresentou uma acção criminal à Procuradoria Provincial de Nampula, em Fevereiro deste ano. Foi submetida uma petição e, até ao dia de hoje a Procuradoria-Geral da República está a engavetar um processo que procura justiça para as vítimas da acção da polícia. Há cerca de 21 pessoas que foram assassinadas pela polícia.
Qual é que é o objectivo desta inacção das autoridades?
O objetivo dessa inacção é a proteção do status quo. A polícia e a Procuradoria vêem-se como agentes de protecção o poder fraudulento que a Frelimo exerce, ao invés de atender os ditames da Constituição da República de proteger a cidadania, as liberdades e os direitos dos moçambicanos. Só através da promoção destes direitos poderemos ter uma democracia plena em Moçambique, colocar um fim nesta situação de tirania. E falo de situação de tirania porque não são aqueles que venceram as eleições que nos estão a governar. É essa tirania que enfurece os cidadãos que vão para a rua manifestar e, em resposta, a polícia atira para matar.
No relatório lê-se que “a polícia usou de forma excessiva a força, abusou da autoridade, praticou detenções ilegais, resultando grande parte dessas ações em mortes e lesões corporais e mentais graves”. São acusações muito fortes…
É a nossa realidade. Na cidade de Nampula, a polícia disparou indiscriminadamente, balas de guerra, contra jovens que estavam a manifestar-se. O relatório enumera as vítimas mortais da acção da polícia e essas pessoas não foram vitimadas de balas perdidas. Foram balas disparadas à queima roupa contra jovens que participavam na manifestação.
Este relatório, que começou a ser preparado em Dezembro, é tornado público numa altura em que Moçambique se prepara para viver um período eleitoral, com as eleições gerais em Outubro. Trata-se de uma coincidência?
O timing da publicação do relatório é espectacular. O actual chefe de Estado, Filipe Nyusi, vai amanhã pela última vez à Assembleia da República e queremos ver o que ele vai dizer sobre esses casos onde a polícia matou cidadãos moçambicanos. Isto porque o Presidente da República é a pessoa que tem a responsabilidade de garantir a vida, um direito plasmado na Constituição da República, por um lado.
Por outro lado, é o timing da realização das eleições. Como dissemos, foi o período eleitoral que mais criou condições para a violação de direitos humanos, no período anterior, durante pós-eleitoral. Pretendemos obter justiça para as vítimas.
Trata-se de prevenir que situações semelhantes voltem a acontecer?
Precisamente, para que situações como estas não voltem a acontecer. As eleições não podem ser um momento para que Moçambique fique de luto. As eleições devem ser o momento para o exercício dos direitos fundamentais plasmados na Constituição da República.
O cessar-fogo no Leste da República Democrática do Congo está a ser vivido, no terreno, com cepticismo, uma vez que o M23 tomou uma cidade estratégica na noite de sábado. "O Ruanda tem mostrado vontade política, apesar de saber que o M23 não vai cessar as hostilidades", sublinha o especialista em Relações Internacionais da Universidade Técnica de Angola, Osvaldo Mboco.
O novo cessar-fogo no Leste da República Democrática do Congo entrou em vigor à meia-noite de domingo, 4 de Agosto. O acordo alcançado sob mediação angolana visa silenciar as armas no conflito entre o exército congolês e o grupo rebelde do M23, apoiado pelo Ruanda.
RF: Este não é o primeiro cessar-fogo negociado desde o início do conflito, em 2021, o que muda desta vez?
Osvaldo Mboco: Este acordo cessar-fogo foi assinado pelos ministros dos Negócios Estrangeiros e houve a concordância por parte dos Chefes de Estado quando o Presidente João Lourenço os contactou, por via telefónica. Ainda assim, penso que o Ruanda pode estar a jogar com algumas peças do xadrez, mostrando que há vontade política por parte do Ruanda, mas quando na verdade sabe que o M23 não irá cessar as hostilidades no teatro das operações.
O grupo rebelde M23 não se sentou na mesa das negociações. Mas o que também acontece é que até agora o Ruanda nunca assumiu estar por detrás deste conflito. Este é um dado importante?
Claramente que é um dado importante e a importância desse dado é que é de domínio público que o acordo de cessar-fogo não foi assinado pelos beligerantes ou então os contendores e o M23 não está presente. Se existir cumprimento no terreno de acordo de cessar-fogo, vamos chegar à conclusão de forma tácita, que tem sido, de facto, Ruanda que tem patrocinado e tem armado o M23. Se o M23 não faz parte das negociações e o M23 não se vincula a este acordo de cessar-fogo. O Ruanda assina, hipoteticamente, assumindo isto, então fica claro a nível mundial que tem sido Ruanda, que de facto tem estado a movimentar o M23 a desestabilizar o Leste da República Democrática do Congo.
Agora também podemos trazer de cima um outro elemento que o acordo de cessar-fogo, se de facto tiver pernas para andar, vai abrir o caminho para que a diplomacia ao mais alto nível dos chefes de Estado possa acontecer. E o outro passo seria uma cimeira onde o presidente Paul Kagame e o Presidente Félix Tshisekedi estivessem presentes na mesma mesa de negociações, encurtar as diferença e de facto assumirem ou reassumir os compromissos que é do Roteiro de Paz de Luanda, quer do comunicado final de Nairobi. Temos uma estratégia de defesa colectiva ao longo da fronteira. Isso sim seria um passo extremamente importante para aquilo que é o acordo de cessar-fogo ou então para aquilo que a instabilidade no Leste da República Democrática.
Angola foi escolhida pela União Africana para ser mediadora deste conflito. Não cabe às partes escolherem livremente quem é que pode mediar o conflito na RDC?
Não porque o que tem que acontecer é o seguinte: o interlocutor deve ser o interlocutor ou mediador válido para as duas partes e, até agora, pelos contactos mantidos pelas vias diplomáticas é notável que existe uma aceitação política por parte das partes, que é o Ruanda e que é a República Democrática do Congo. Apesar de há algum tempo a esta parte o Presidente Kagame deixou de vir para Luanda sobre esta matéria. Ele esteve cá, recentemente, depois de um ano e meio, quase dois anos, e voltou a estar em Luanda, mas de forma separada, não no formato da cimeira. Ele tinha manifestado vontade de se sentar à mesa das negociações com o Presidente Félix Tshisekedi, numa data que deveria ser escolhida. Há aqui um elemento que também não podemos descurar, as intervenções feitas pelo presidente Kagame e Tshisekedi, do ponto de vista das acusações, tem estado a minar o processo de paz porque se vão digladiando de forma verbal e com acusações.
Chegou uma altura que nós ficamos com a percepção que Luanda já não era o interlocutor válido para o Ruanda. À medida que o presidente Kagame se fazia representar e algumas pessoas alegavam que Luanda nunca poderia conduzir um processo de acantonamento, mostrava imparcialidade neste processo. Penso que Luanda poderia ter levado esse processo de acantonamento e o que eu percebo é que o presidente Kagame tem estado com algumas aspas a fintar aquilo que têm sido as acções do Estado angolano porque não se faz representar normalmente nas cimeiras, dificilmente consegue um calendário para se sentar à mesma mesa de negociação com o Presidente Tshisekedi e agora esta assinatura, pelos ministros dos Negócios Estrangeiros, pode ser vista como mais uma estratégia do presidente Kagame em dizer que aceita, quando na verdade sabe que no terreno não vai existir nenhum cessar-fogo por parte do M23.
A ideia que passa é a de que 'nós Ruanda estamos preocupados com isso, aceitamos o cessar-fogo, mas não controlamos o M23, logo não temos capacidade de influenciar as acções do M23'. Penso que o Presidente Kagame tem estado a jogar com algumas peças de xadrez, que vai ganhando, vai dilatando o tempo e as manobras e vai tendo os seus interesses salvaguardados. A não ser que a parte mediadora do conflito não tenha percebido que os interesses e os desejos e as aspirações do Ruanda são diferentes do que estavam previstos ao nível do Roteiro de Paz de Luanda e era fundamental se compreender, na essência, o que é que Ruanda pretende com tudo isso e trazer uma proposta que se ajuste àquilo que é o interesse também do Ruanda quanto a esta matéria.
Qual é que é o interesse do Ruanda?
Bem, essa é uma pergunta de 1 milhão de dólares e fica difícil chegar a esta conclusão: Qual é o interesse do Ruanda? Há várias teorias levantadas, uma delas é a de que o Ruanda, por ser um território pequeno e necessariamente tem uma densidade populacional que vai crescendo de forma muito rápida, quer anexar espaços ao território da República Democrática do Congo. São algumas teorias que vamos discutir e a outra também é muito em função do acesso aos mineiros ao longo da fronteira. Fica muito difícil compreender quais são as reais intenções do Ruanda, quando Ruanda vem se posicionando desta forma, mostra à comunidade internacional que tem vontade política de resolver um determinado problema, mas na prática age de forma contrária e diferente. É de domínio público que o Presidente de Ruanda só veio parar a para Angola este ano porque houve pressões internacionais sobre esta matéria. Estamos perante a um acordo de cessar-fogo bastante frágil porque não integra o M23. O M23 pode não se vincular e se não se vincular a este acordo de cessar-fogo, não vai respeitar o mesmo no interesse das operações.
Os sete atletas olímpicos que representam Moçambique nos Jogos Olímpicos de Paris ganharam "presença, experiência e reconhecimento", sublinhou o Secretário-geral do Comité Olímpico de Moçambique, Penalva Cézar.
RFI: Como é que têm corrido as provas dos atletas moçambicanos nestes Jogos Olímpicos de Paris?
Penalva Cézar: As provas estão a correr satisfatoriamente naquilo que são as nossas previsões. Os atletas portaram-se de uma maneira razoável. Todos os atletas que competiram até agora superaram aquilo que são as suas marcas, principalmente na natação, os atletas superaram as suas melhores marcas pessoais. No judo foi uma prova que não correu tão bem como desejávamos. Já no boxe, as coisas apresentaram-se de uma outra maneira, uma vez que os nossos dois atletas, tiveram um comportamento muito positivo na primeira eliminatória e foram vencedores inequívocos. A segunda eliminatória não correu tão bem para os nossos atletas, principalmente para o atleta masculino, que na opinião geral terá ganho combate, mas há coisas esquisitas que só os especialistas podem explicar. Particularmente em relação à disciplina de boxe.
Está a falar de Tiago Muchanga que foi afastado por 2-3 pelo mexicano Marco Verde. Nos oitavos, Tiago Muchanga venceu dois dos três assaltos e o mexicano marcou apenas um, mas três dos cinco juízes deram como vencedor o seu adversário, Marco Verde.
Pois é... é a tal coisa subjectiva. Daí que as outras modalidades de combate, a esgrima e outras assim têm outro tipo de pontuação electrónica que é para sairmos desta coisa de ter dúvida. Uma coisa é nós, o público, nós, os apoiantes, acharmos que os nossos atletas estão a pontuar. Provavelmente não estão e penso que será altura do boxe pensar numa outra forma de pontuação porque se levantam sempre essas dúvidas e dá a impressão de que os países mais pequenos são sempre penalizados.
Quanto à Alcinda, eu direi que foi um combate dividido e aqui pode se compreender que tenha corrido mal. Mas é assim, alguém tem que vencer. Acho que foi uma experiência positiva. Para a Alcinda estas são as suas segundas Olimpíadas e por isso penso que a lição aqui foi bem aprendida. Temos mais quatro anos pela frente, são mais quatro anos de trabalho.
Moçambique ainda pode conquistar a segunda medalha para o país e a primeira aqui nos Jogos de Paris, nas provas de vela ou atletismo?
Medalhas não vamos conquistar de certeza absoluta. É preciso notar que o tempo em que qualificou o Sabino para Paris não é exactamente um tempo de qualificação, porque ele é um atleta que veio aqui a Paris no âmbito da universalidade, o que me deixa mais tranquilo é que é um atleta muito novo. Ele é júnior, tem mínimos para o campeonato mundial de júnior e se as coisas correrem normalmente, pensamos que ele se vai qualificar para Los Angeles. É um atleta sobre o qual nós não colocamos absolutamente nenhuma pressão porque é o andar do processo de crescimento e amadurecimento, e penso que ele está bem. Se ele conseguir passar à primeira fase vai ser um bom donativo, mas se não está tudo bem, ele tem todo o tempo.
Quanto à Daisy, ela não é candidata à medalha, sabemos disso. Existem muitas nuances na vela e uma delas é provavelmente o peso da própria atleta. Tem que fazer um esforço suplementar para fazer as manobras e isso é um processo que vai também levar muito tempo. Ela participa pela segunda vez e penso cada vez que ela participa, vai acumulando experiência. Vamos ver o que acontece até o fim e só podemos desejar-lhe o melhor. Depois a velha tem essas coisas, depende da sorte; se o vento ajudar. Se na altura de virar o vento estiver lá e a vela virar é mais fácil. Neste momento não é para medalhas, mas para ela fazer o melhor.
Em Paris já se pensa em Los Angeles?
Exactamente até as nossas conversas já são viradas para Los Angeles. São conversas que se baseiam naquilo que estamos a ver todos os dias e nas coisas que estão menos bem feitas para começarmos a trabalhar no processo de preparação. Para que 2028 Moçambique tenha mais atletas qualificados. Há que reparar, nós baixámos o número de atletas qualificados de Tóquio para aqui e provavelmente achava que nós estávamos com todas as condições para pelo menos atingirmos um número igual ao de Tóquio, mas houve muitos atletas no limiar da qualificação e as coisas, infelizmente, não correram como nós queríamos. É mesmo um processo que começa para que 2028 Los Angeles corra melhor.
Como é que se constrói esse processo para 2028?
É um trabalho que envolve muita gente. Nós, no Comité Olímpico, fazemos aquilo que é a nossa parte. Em Novembro vamos reunir com as federações olímpicas para planificar o quadriénio e depois verificar quais são os atletas que têm potencial. Olhando para aquilo que são os seus resultados nos últimos dois anos e a partir daí vamos criar um plano com um cronograma que é para a participação dos atletas nas provas de qualificação. Em Moçambique, as coisas correm um pouco ao contrário; não são as federações que qualificam os atletas, quer dizer, são, mas o Comité Olímpico é quem tem que suportar as despesas todas na sua preparação e na sua participação em provas de qualificação.
São encargos importantes?
São, são quase insuportáveis. Temos que fazer tudo possível e impossível para podermos suportar isso. Por vezes, temos de facto muitas dificuldades em colocar os nossos atletas nas competições em que eles gostariam de participar. Quando você tem uma manta pequena, está frio e quer cobrir os pés, a cabeça fica descoberta e quando você quer puxar a manta para a cabeça, os pés ficam. de fora. E aí temos que fazer o tal exercício de ver quais são as prioridades, qual é a prova mais importante e provavelmente é um handicap para nós, o facto de os atletas não conseguirem participar em todas as provas porque não há recursos financeiros. Vamos continuar a conversar com o governo porque o governo tem um papel importantíssimo para desempenhar e também o sector privado, o empresariado, para ver se conseguimos aumentar o nosso leque de patrocinadores para aí, de facto, desenvolvermos um trabalho que possa garantir que os atletas não andem preocupados sem saber se vão ou não vão, porque isso passar a ser o nosso trabalho.
O que é que Moçambique ganha na participação destes jogos daqui em Paris?
Nós ganhamos presença, nós ganhamos a experiência que os atletas precisam e, acima de tudo, o reconhecimento do trabalho que é feito, principalmente relacionado com aquilo que são as actividades que temos com o Comité Olímpico Internacional, através da solidariedade olímpica, do qual os nossos atletas são bolseiros. É necessário que a gente demonstre que as bolsas que atribuem aos atletas têm algum resultado. Infelizmente, os atletas não atingiram as finais nem atingiram as medalhas, mas os resultados demonstram que, com o tratamento mais profícuo daqui para a frente, um bocadinho mais pensado, mais programado, poderemos atingir aquilo que é para além da visibilidade do nosso país, o reconhecimento que temos que ter em relação àquilo que são os nossos adversários mundiais e, quiçá mais cedo do quanto nós pensamos atingirmos aquilo que é o nosso sonho e sonho de toda a gente atingir as medalhas.
Marina Correia é a embaixadora da equipa olímpica de Cabo Verde em França. Campeã mundial de longboard dancing e figura de destaque entre os jovens atletas em França, Marina disse em entrevista à RFI que se sente uma ponte entre os dois países.
Marina Correia é uma figura incontornável do desporto em França Em 2020, esta cabo-verdiana de 26 anos instalada em Nice, no Sul do país, desde os 14, foi consagrada campeã mundial de long board dancing freestyle. Poucos anos depois, Marina é actualmente embaixadora da equipa olímpica de Cabo Verde em França, um grande motivo de orgulho e uma forma especial de viver estes Jogos Olímpicos de Paris como explicou em entrevista à RFI.
"É uma honra para mim ser embaixadora da equipa de Cabo Verde em França. Quando soube, fiquei muito contente porque nasci em Cabo Verde, mas vivo cá em França, por isso tenho uma dupla cultura e penso que foi uma escolha natural da parte deles. Estou muito contente"
Marina acompanhou os atletas olímpicos num estágio em Parthenay, no Oeste de França, antes dos Jogos Olímpicos. Foram momentos emotivos, de tranquilidade e de paz antes da confusão de Paris.
"Vivemos muitas emoções. Estivemos juntos realmente como uma pequena família, brincávamos uns com os outros e era muito descontraído. Não havia muita pressão, ao contrário do que se poderia esperar. Estávamos muito relaxados, brincávamos uns com os outros e, ao mesmo tempo, continuámos a treinar muito. Acordávamos cedo e tínhamos uma rotina de treino. Portanto, a preparação física é muito importante. Depois disso, havia os treinos e muito descanso. Eles têm cuidado com o que comem, mas na verdade é mais o importante era passar tempo juntos. Mais com a família, mais descontração do que pressão. Porque acho que a pressão está, de facto, nos próprios Jogos. E entre nós, vamos dar-nos a força. Dissemos a nós próprios que tudo ia correr bem e que, apesar de sermos um país pequeno que o mundo não conhece, somos um grande país porque somos muito pequenos no mundo, mas brilhamos e essa é a beleza de Cabo Verde"
Para Marina Correia viver estes Jogos Olímpicos ao lado da equipa cabo-verdiana tem sido um privilégio.
"Sou actualmente a ponte entre os dois países, através da minha forma de comunicar com a diáspora, com os cabo-verdianos que vivem no país. Sinto que é diferente de alguém que nasceu aqui. Eu nasci em Cabo Verde, por isso sei como é a vida lá. Cresci lá até aos catorze anos. E depois cresci aqui em França, desde os catorze anos até aos 26. Por isso, de facto, sou metade-metade dos dois países e sinto-me tanto francesa como cabo-verdiana. Com a minha idade, 26 anos não é algo que acontece a todos serem escolhidos como embaixadores num evento como os Jogos Olímpicos. Para mim é um privilégio. Portanto, há muito trabalho por detrás disto. É também um privilégio conviver com grandes desportistas, ter várias oportunidades. São experiências que levarei para o resto da minha vida, e só tenho boas recordações"
Chegada a França aos 14 anos, foi no desporto, nomeadamente no longboard, um skate mais comprido que permite outro tipo de movimentos, que Marina encontrou um ponto de contacto com os outros jovens da sua idade, já que para além da mudança de país teve também de se adaptar a uma nova língua.
"Cheguei a França, a Nice, com a minha mãe, a minha irmã mais nova e o meu padrasto, que é francês já cá estava. Eles casaram-se, viemos para cá por razões familiares, e, quando cheguei, tentei integrar-me um pouco. Eu jogava futebol, mas tive de me adaptar a esta nova cultura, a este novo país, e fazer novos amigos. Havia também a questão da língua. Tinha de aprender francês. No início foi um pouco difícil, especialmente na escola. Mas com o tempo, através do desporto, do longboard, consegui encontrar a minha identidade, afirmar-me, gostar de mim tal como sou e, gradualmente, construir uma carreira através da dança no longboard. Tudo aconteceu por acaso. Tinha uns amigos na escola quejá praticava, o que despertou a minha curiosidade e faço-o desde 2016, ou seja, há quase dez anos"
O longboard pode ser considerado com um primo do skate, sendo menos praticado e não sendo ainda modalidade olímpica.
"Não é a mesma modalidade do skate, somos da mesma família, mas é muito diferente. Ainda não está nos Jogos Olímpicos. O longboard é uma prancha mais longa que se pratica em terrenos planos O skate, por outro lado, é mais praticado em skateparks, embora também se possa fazer em terreno plano. Mas não é de todo a mesma disciplina, mesmo que sejam parecidos. Gostaria que o longboard se tornasse uma disciplina olímpica. Penso que o longboard tem um lugar nos Jogos Olímpicos, tal como o skate, o breakdance e o BMX. Mas, neste momento, acho que ainda não estamos em condições de estar nos Jogos Olímpicos, porque ainda há problemas com o júri. Ou seja, ainda não está pronto para os Jogos Olímpicos. Penso que ainda vai demorar algum tempo até estarmos realmente prontos"
Quanto ai seu futuro, Marina gostava de vir a representar a França ou Cabo Verde nos Jogos Olímpicos quando o longboard integrar as modalidades olímpicas, mas também quer dedicar-se à sua carreira de modelo e continuar a contar a sua história em livro ou documentário.
"Espero que evoluir no bom sentido e espero que um dia o longboard esteja nos Jogos Olímpicos e que eu passa representar Cabo Verde ou a França. Vai ser um dos dois países, a gente vai ver. E eu gostaria muito de escrever um livro também e fazer um filme, participar em algum filme ou mesmo realizar o meu próprio filme da minha carreira. Eu vivo o dia a dia evejo como as coisas correm, porque também tenho uma carreira como modelo e estou, a brincar com estas duas carreiras", concluiu.
A luta é a grande esperança da Guiné-Bissau para uma medalha nos Jogos Olímpicos de Paris, numa altura que o país está a formar campeões africanos e está a promover um programa de recrutamento de novos lutadores. Na capital francesa, o comité guineense procura agora apoios para continuar a formar atletas não só na luta, mas noutros desportos olímpicos.
Com mais atletas do que em Tóquio, a equipa da Guiné-Bissau é composta por seis elementos que vão actuar em cinco modalidades diferentes chegou a Paris com a possbilidade de, pela primeira vez, ter uma medalha olímpica. A grande esperança é na modalidade de luta.
Esta é uma ambição que o Sérgio Mané, presidente do Comité Olímpico da Guiné-Bissau não escondeu em entrevista à RFI, dizendo mesmo que tudo é possível para os guineenses na capital francesa.
A Guiné-Bissau sonha com uma medalha nestes Jogos Olímpicos?
Não temos a tradição da medalha olímpica, mas tudo indica que nestes Jogos poderá acontecer algo extraordinário. Temos dois atletas de luta que fizeram uma preparação extraordinária, foram campeões africanos e revalidaram o título que dá direito a participar nos Jogos. Quer dizer que se qualificaram para os jogos através de duas provas seguidas e conseguiram revelar grandes qualidades nesta base. Podemos ter esperança porque tanto um como outro, em termos de ranking, estão bem posicionados. O Diamantino Fafé, por exemplo, é um atleta bolseiro olímpico que já esteve nos Jogos de Tóquio e desta vez voltou a qualificar-se. Está bem posicionado em termos de ranking e está no 16.º lugar. Sabemos que é uma é uma tarefa difícil, mas tudo está em aberto. O Bacar Ndum, na categoria de 74 kg está no sexto lugar do ranking e é um o atleta que ao longo da sua participação em diferentes competições, sempre trouxe medalhas para o país. E nesta base temos esperança. Sabemos que não é uma tarefa fácil, mas também não é impossível. Daí que continuamos a acreditar que poderá acontecer algo extraordinário.
E, neste caso, no caso da luta, ao contrário de outras modalidades, realmente é possível, porque basta que, por exemplo, do outro lado, o outro atleta tenha alguma desconcentração e os vossos atletas encontram uma maneira de conseguir penetrar na cabeça do adversário e podem ganhar.
Perfeitamente perfeitamente, porque no desporto de combate ali existe precisamente aquelas fragilidades. Se falhar na aplicação de uma técnica, o adversário pode aproveitar e fazer pontos que lhe dá a oportunidade de ganhar a competição.
Os atletas já estão aqui há alguns dias. O que é que eles estão a achar das condições de treino, das condições de alojamento na Aldeia Olímpica?
Até aqui está tudo tranquilo. Não há queixa. Estão bem e estamos a gostar.
Quando é que os atletas guineenses vão entrar em acção?
A partir do dia 01 de Agosto teremos natação, depois no dia 02 teremos judo, com o nosso atleta Bubacar Mané. Vamos ter o Seco Camará no atletismo no dia 03. Já o Diamantino Fafé começa na luta dia no dia oito e o Baca também na luta no dia 10. O Paicou no Taekwondo começa no dia 10.
E tendo em conta esta possibilidade de se chegar a medalhas, como é que os guineenses na Guiné-Bissau estão a acompanhar este jogos?
Há muita expectativa à volta dos atletas porque na verdade fizeram uma boa campanha. Nós sabemos que eles costumam brindar-nos com os títulos africanos. O desejo de todos os guineenses é ver o nosso atleta no pódio. Então, à volta disto, toda a gente está com esperança e vamos lá ver se conseguimos desta vez.
E esta expetativa é também uma possibilidade de desenvolver e trazer mais pessoas para o desporto, mais financiamento, por exemplo, mais financiamento internacional, mais ajuda ao desenvolvimento para o desporto na Guiné-Bissau?
Com certeza. Nos jogos anteriores tínhamos um menor número de atletas e nesses jogos aumentámos, o que significa que isso vai-nos permitir angariar meios e mobilizar recursos para pôr à disposição dos nossos atletas para poderem subir mais em termos de qualidade, em termos de performance.
Na equipa da Guiné-Bissau temos seis atletas e são todos homens. O que é que aconteceu na parte das mulheres? É uma preocupação sua trazer mais mulheres e mais meninas para o desporto na Guiné-Bissau?
Exactamente. Nós temos praticantes femininas, só que, lamentavelmente, ainda não estão este nível. Tivemos um caso de uma menina que esteve em Marrocos, uma bolsa financiada pelo Comité Olímpico e ela conseguiu medalha a nível do continente. Só que não progrediu mais. Isto também tem a ver com a parte familiar, não é? Já tinha um filho menor e certamente deve ser a causa que acabou por contribuir negativamente. Tinha que juntar-se ao filho e acabou por desistir. Estou a falar da luta, mas já tivemos casos da nossa atleta campeã africana de judo, a Taciana, que também deixou e desta vez só tivemos rapazes, mas nos Jogos anteriores ainda tivemos menina.
Há também uma questão então de formação civica e informação para as famílias da importância de as mulheres participarem no mundo do desporto?
É também uma questão de oportunidade. Eu considero isso a oportunidade, porque nem sempre todos têm a mesma oportunidade e nós trabalhamos nessa visão. Procurar sempre ter o equilíbrio de género para fazer com que as meninas possam também aproveitar as oportunidades que nós oferecemos para poderem desenvolver os seus talentos.
Está aqui então, também não só para acompanhar a equipa olímpica, claro, mas também para ter vários encontros, para encontrar-se imagino aos mais altos níveis, incluindo com o Comité Olímpico Internacional. Que tipo de encontros é que vai ter e o que é que espera levar depois para a Guiné-Bissau?
Nos Jogos Olímpicos acabamos por fazer diplomacia desportiva, já que estão aqui 206 países e dentro desses seis países, independentemente da rotina que acabamos por ter, vamos tendo já alguns encontros. Mas também já trazemos alguma agenda. Temos a reunião, por exemplo, a nível do continente, temos a reunião com a Sociedade Olímpica, temos a reunião com a francofonia, portanto, temos uma agenda super apertada. Mas tudo isto é para tirar proveito da nossa participação, da nossa presença e tentar levar esses ganhos para o país.
E o que é que vi nos próximos anos para os atletas olímpicos e os atletas em geral na Guiné-Bissau? Que modalidades e que se vê a desenvolver? Parece que a luta realmente está a atrair muita gente. Mas que outras modalidades? Por exemplo, modalidades náuticas, já que a própria Guiné-Bissau tem condições extraordinárias para este tipo de modalidades? Quais é que são as vossas apostas?
Já temos um atleta que está a progredir na natação. Esse jovem já beneficiou de uma bolsa. Devia ir para Hungria, mas já por causa do número de candidatos, vai para Singapura. Portanto, isto certamente vai criar uma grande expectativa e eu tenho plena certeza estando ali em termos de resultados, certamente vai surpreender porque é um jovem com qualidades, com uma progressão que encoraja tudo. Então também há outras modalidades, como o caso de luta. Estamos a fazer um investimento porque ali temos um potencial. Temos já um projecto de captação de talentos que está em curso e provavelmente vamos ter mais número de atletas a representar o país e certamente o número de medalhas vão aumentar, não é? Está tudo em aberto.
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