Convidado

Convidado

By RFI Português
Download on the App Store

Convidado episodes

  • Marilson Fernandes Semedo: «Feliz por bater o recorde nacional de Cabo Verde»

    A comitiva cabo-verdiana nos Jogos Paralímpicos que decorrem em Paris, a capital francesa, conta com dois atletas: Marilson Fernandes Semedo no lançamento do dardo F57 e Heidilene Patricia Oliveira Lopes nos 100 e 200 metros T12.

    A final da prova de lançamento do dardo F57, categoria para pessoas com transtorno do movimento de baixo grau em uma das pernas, de grau moderado em ambos os pés ou com ausência de membros, decorreu no passado sábado 31 de Agosto no Stade de France, o estádio principal dos Jogos Paralímpicos.

    Onze atletas lutaram pelas medalhas, entre eles o cabo-verdiano Marilson Fernandes Semedo que foi o terceiro a lançar o dardo.

    Nesta modalidade do atletismo, cada atleta lança sucessivamente os seis lançamentos que tem. O terceiro a entrar em acção na prova foi o cabo-verdiano Marilson Fernandes Semedo.

    No primeiro lançamento, o atleta de Cabo Verde alcançou a marca de 39, 97 metros, novo recorde pessoal e novo recorde nacional.

    Marilson Fernandes Semedo não conseguiu melhorar nos cinco lançamentos seguintes, terminando no 9° lugar na prova.

    Cabo Verde tem um novo recorde nacional na prova de lançamento do dardo F57 com 39,97 metros, marca alcançada pelo atleta Marilson Fernandes Semedo.

    Recorde-se que em 2021, em Tóquio, no Japão, o atleta cabo-verdiano tinha alcançado o 10° lugar.

    Em declarações exclusivas à RFI, Marilson Fernandes Semedo estava satisfeito com a prova que realizou, bem como pelo novo recorde nacional. No entanto o atleta cabo-verdiano, amputado da perna direita, afirmou que poderia alcançar melhores resultados se tivesse melhores condições para a prática desta modalidade, sobretudo a nível financeiro.

    Marilson Fernandes Semedo, atleta cabo-verdiano, que terminou no 9° lugar na prova.

    De referir que o vencedor do concurso do lançamento do dardo foi Yorkinbek Odilov do Uzbequistão com 50,32 metros. A medalha de prata foi conquistada pelo turco Muhammet Khalvandi e a medalha de bronze pelo brasileiro Cícero Valdiran Lins Nobre.

    Quanto a atleta cabo-verdiana Heidilene Patricia Oliveira Lopes vai entrar em acção nesta quarta-feira nos 100 metros, e na sexta-feira nos 200 metros, sempre na categoria T12 para pessoas com deficiência visual.

    Os Jogos Paralímpicos decorrem em Paris, a capital francesa, até 08 de Setembro.

    10 min
  • Atleta são-tomense Alex dos Anjos quer bater recorde pessoal

    O atleta são-tomense Alex dos Anjos participa pela terceira vez nos Jogos Paralímpicos e vai correr a prova dos 400 metros no Stade de France, em Paris. O objectivo do atleta são-tomense é superar a marca dos 50.49 nos 400 metros T47, categoria para atletas com amputação nos membros superiores.

    RFI: Como é que se preparou para estar aqui nos Jogos Paralímpicos de Paris?

    Alex dos Anjos: A preparação foi enorme porque tive algumas dificuldades, uma vez que eu trabalho, estudei e depois vou para o treino e conciliar tudo é um bocado difícil, mas é assim.

    Como é que é o seu dia-a-dia?

    O meu dia-a-dia é normal; saio de manhã para trabalhar na direcção-geral de Desportos. Terminei a minha licenciatura em Desporto e também sou atleta e treino todos os dias.

    Quando é que tem tempo para treinar?

    Todos os dias de manhã vou para o trabalho. No período da tarde treino.

    Como é que se preparou para os Jogos Paralímpicos de Paris?

    Com treino diário, mas foi específico porque já estava inscrito para vir aos Jogos Paralímpicos e decidi mudar a trajectória do treino, de modo você chegar aqui e fazer uma boa prestação.

    Costumo treinar na pista normal, com a dimensão da pista internacional, uso a bancada para fazer exercício de força e alguns elásticos também, já que não temos o nosso próprio ginásio. Uso aquelas aquelas ferramentas para fazer o treino de força.

    Na vila paralímpica tem acesso a ginásios e a outro tipo de máquinas de desporto, sente uma diferença?

    Há diferença, sim, mas o que eu sei é que podemos fazer  tudo quando queremos. Não vale desistir porque não temos ginásio, temos outros mecanismos para lá chegar, trabalhando.

    Já pensa em Los Angeles, em 2028?

    Vai depender porque só o tempo dirá. Eu não posso dizer nada porque vai depender se a vida melhorar, se melhorar eu continuo. Se não melhorar, tenho que abandonar.

    Quando diz melhorar é em termos de apoio e financiamento?

    Precisamos de apoio para ter uma melhor a vida. Se tiver condições continuo a treinar. Tenho de trabalhar, estudar. Se tiver uma bolsa paralímpica, um apoio do Estado, para ajudar nas despesas consigo continuar a treinar sem pensar noutras coisas.

    Vai correr os 400 metros T47, categoria para atletas com amputação nos membros superiores. Qual é a sua história?

    Felizmente nasci assim. Como eu também nasci no bairro onde praticavam desporto e havia uma escola de futebol, chamaram-me. Era muito traquina mesmo com este braço. Comecei a fazer competição para pessoas com deficiência. Participei nos jogos da CPLP em 2005.  Convidaram-me a fazer atletismo porque viram que tinha potencial para o atletismo e aqui estou. Continuo o atletismo e sou feliz a fazer atletismo. É uma forma de desenvolver a minha capacidade física, intelectual, praticando desporto vamos conhecendo o mundo fora.

    Qual é que é a energia que sente na Vila Paralímpica?

    Tenho-me encontrado com alguns colegas que eu já conhecia de anteriores competições. A energia é boa porque vamos vendo outros atletas de outros países. 

    Está orgulhoso do trabalho que fez até agora?

    Estou orgulhos, sim, porque se não estiver orgulhoso de mim, quem estará? Valeu a pena os sacrifícios que fiz para estar aqui.

    Há dias em que tem vontade de desistir?

    Por vezes  saio do trabalho cansado e pergunto-me por que motivo vou para treino, fazer o quê? Mas mudo de ideias, persisto e vou ao treino.

    Está aqui em Paris...

    Estou aqui. Às vezes a vida tem dessas. E este é um momento feliz.

    O que é que espera levar daqui de Paris?

    Espero levares conhecimento. Boa partilha com os outros e conhecer novos atletas internacionais de outros países. Além de boas recordações dos Jogos Paralímpicos.

    9 min
  • Moçambique quer "conquistar uma medalha paralímpica"

    A delegação paralímpica moçambicana chegou a França há mais de um mês para fazer um estágio intensivo em Nueil-les-Aubiers. "A nossa expectativa é chegar à medalha. Estar numa final, ter um recorde africano e ter uma medalha paralímpica", descreve o chefe do Comité Paralímpico moçambicano, Luís Mouliaã.

    RFI: A delegação de Moçambique conta com uma atleta, Edmilsa Governo, que já ganhou um prémio paralímpico?

    Luís Mouliaã: De facto, a nossa atleta Edmilsa Governo já teve uma medalha paralímpica no Rio de Janeiro, ganhou o bronze nos 400 metros. Estamos muito esperançosos que se volte a repetir agora em Paris.

    Prepararam os Jogos Paralímpicos com um estágio intensivo em Nueil-les-Aubier. Como é que se organizou este estágio?

    Correu bem, tivemos este estágio com Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Começamos a falar deste estágio no princípio do ano e finalmente conseguimos vir para cá. Convidaram-nos e tivemos a sorte de poder fazer este estágio aqui em França, que foi muito produtivo.

    O que é que muda a fazer este estágio a três semanas dos Jogos Paralímpicos? Nesta altura em Moçambique está mais frio do que em França. Imagino que seja também uma fase transitória de preparação?

    De facto, nós estamos no Inverno em Moçambique, embora seja um Inverno muito suave, mas sobretudo os dias são muito curtos. O sol vai embora a partir das 17h30. Aqui em Paris temos sol até quase às 22 horas e isso muda também a percepção da competição porque uma das provas, a série dos 400 metros, a Edmilsa vai correr às 21 horas. O facto de estarmos cá antes, de nos podermos adaptar a este novo horário, embora estejamos no mesmo fuso horário, muda a percepção do dia e a temperatura.

    Faz muita diferença correr às 9 horas ou às 21 horas?

    Faz diferença sim, claro, sobretudo durante a preparação. A atleta tem que estar pronta para correr de manhã ou à noite. A série dos 400 metros vai decorrer às 21 horas, mas a final será de manhã, às 10 horas. A atleta tem que estar apta para correr de manhã e de tarde. Para além disso, outros dos benefícios em estar cá antes foi a concentração da atleta. Não é a mesma coisa estar em casa e sair para treinar no estádio, estar com os amigos, a família, do que estar apenas concentrada no treino. Tivemos acesso à piscina, ao ginásio, à pista. A atleta está bem concentrada e consciente do que vem cá fazer.

    A atleta moçambicana, Edmilson Governo, corre na serie dos 400 metros, na categoria T12?

    Na verdade, ela correu no Rio de Janeiro, na classe T12. T12 significa baixa visão e ela agora está correndo no T13.

    Temos três classes desportivas para a deficiência visual, para aqueles que correm em pista T11, são cegos totais ou quase totais. T12 tem um pouco de visão e os seus parâmetros de campo visual e acuidade visual e T13 que é o limite para ser elegível para ser atleta paralímpico.

    Nas classes 12 e 13, a classificação dos atletas pode mudar. Esta é uma questão bastante subjectiva da pessoa que classifica poder classificar como T12 ou T13. Existem parâmetros objectivos, mas também existe uma parte subjectiva nessa classificação.

    E qual é o processo para essa classificação?

    Existem competições internacionais pela World Athletics, que assume o processo de classificação, algumas têm todas as classificações física, visual, intelectual ou apenas física, intelectual. É preciso ir a uma competição internacional com especialistas na classificação para ter uma classe oficial que serve para competir em provas internacionais.

    O que é que espera destes Jogos Paralímpicos de Paris? Voltar a conquistar uma medalha, desta vez de prata ou de ouro?

    Essa nossa expectativa. De facto, seria o desejado. Não só a medalha de bronze, mas também ter uma final, ter um recorde africano e ter uma medalha paralímpica.

    Por que motivo é que os PALOP competem sobretudo na modalidade de atletismo. É uma coincidência?

    Nos países de África e, especificamente falando de Moçambique, o atletismo é uma das modalidades mais fáceis de praticar ou de investir porque não exige que a delegação seja grande. Não é a mesma coisa ter uma equipe de voleibol que precisa de 12, 15, 16 pessoas para viajar para a competição, do que ter um atleta e um treinador para ir a uma competição. O investimento é muito menor.

    Nos países como Moçambique, em que temos pouco apoio de parceiros nacionais, do governo especificamente e de parceiros privados, há que se focar muito bem na competição e na quantidade de pessoas que podem ir a essas competições. O atletismo é uma aposta, por ser uma modalidade individual.

    Estão presentes 4400 atletas, os melhores dos melhores atletas paralímpicos. Como é que descreve o dia-a-dia na vila paralímpica?

    Temos ouvido muitos comentários não muito bons por parte dos Olímpicos, com muitas publicações nas redes acerca das refeições ou da hospedagem. Acredito que dependa da expectativa que cada um. Pela nossa parte, a comida está muito bem. Não temos nenhuma queixa, é variada, e temos muito espaço nos quartos.

    Está tudo a correr bem, pelo menos onde a nossa delegação está instalada. O ambiente é muito bom, tem muitos espaços para diversão, treino, ginásio, para tudo o que o atleta precisa. O ambiente é muito agradável e não temos nenhuma queixa a fazer em relação à vila paralímpica.

    As acessibilidades são um dos pontos importantes na questão material, das infra-estruturas e dos transportes, mas também temos a questão imaterial que é dar a conhecer a realidade paralímpica e destruir os tabus que se criam em torno da diferença.

    Quanto à acessibilidade tem havido muito esforço em criar instalações acessíveis em todo o lado. Temos tantas pessoas em cadeiras de rodas e elas podem mexer-se à vontade e vão com facilidade a qualquer ponto da vila. Os transportes são acessíveis em todas as residências. Os refeitórios ou ginásios têm máquinas que são acessíveis, há  muitos voluntários para ajudar em qualquer momento e em qualquer situação.

    O ambiente é de festa?

    É um ambiente muito agradável, São todos muito simpáticos. O ambiente no refeitório, no ginásio, nos corredores com todos os países está a ser vivido com festa e acredito que que o ambiente perfeito.

    9 min
  • Jogos Paralímpicos: "Cabo Verde é um país cada vez mais inclusivo"

    "As deficiências físicas de muitos atletas são consequências de guerras, doenças ou acidentes e operações", afirma o presidente do comité paralímpico de Cabo Verde e membro do comité paralímpico internacional, José Rodrigo Bejarano.

    RFI: Cabo Verde tem dois atletas a participar nestes Jogos Paralímpicos. Pode descrever-nos a delegação de Cabo Verde?

    José Rodrigo Bejarano: Não vamos só participar. Antes utilizávamos esse termo e agora falamos em competição. Os nossos dois atletas têm resultados bastante interessantes. Começamos com o atleta feminina Heidilene Oliveira; ela é uma atleta com limitações visuais da categoria T12. Ela vai correr com o seu guia e vai fazer a competição de 100 e 200 metros. Depois temos o atleta Marilson Semedo; amputado de perna e vai fazer lançamento de dardo na categoria 57.

    São atletas que não estão aqui para participar, mas para competir. O que é que mudou para passarmos do verbo participar ao Competir?

    Eu acho que é o evento, isto não é uma passarela. O evento demonstra atletas de altíssimo nível. São pessoas que treinam igual, mais e têm muito mais desafios que os atletas convencionais, os olímpicos. Além dos já conhecidos obstáculos, desafios diários, têm as suas limitações físicas e sensoriais e isso acrescenta mais ao valor da competição. A terminologia não estava errada porque são participantes de um evento, mas eles estão aqui a competir e isso que nós queremos ver.

    Enumerou as categorias nos quais os atletas cabo-verdianos vão competir. Como é que se prepararam para estar aqui?

    A maioria dos atletas já tem um percurso. O Marilson, por exemplo, participou em Tóquio e é a segunda vez que vai participar. São atletas que já estão a preparar-se para a competição há muito tempo.

    A Heidilene também é uma atleta que está constantemente a treinar. Eles combinam as suas actividades normais escolares, na universidade e as coisas quotidianas com os treinos. Evidentemente que gostaríamos de ter melhores condições, recursos humanos que trabalharem com eles mais de perto. Só para te dar uma ideia, a treinadora de Marilson é cubana e ela treina-o a partir de Cuba para Cabo Verde.

    É o Presidente do Comité Paralímpico de Cabo Verde. O que é que espera destes dois atletas?

    Estou contente porque vamos ver a bandeira de Cabo Verde e mostramos, uma vez mais que somos um país inclusivo, resiliente. Temos outros desafios, outras situações, mas esta especificamente, desde o ano 1998, estamos presentes desde que fundamos o Comité. Sempre tivemos apoio de acordo com as possibilidades do nosso país. Lembro  que Cabo Verde é um país muito jovem, tinha os seus próprios desafios, tem seus próprios objectivos. Ver o desporto como uma ferramenta de inclusão é importante.

    Em Cabo Verde, já há uma inclusão no desporto massiva ou ainda há trabalho por fazer?

    Não sei se massiva, por exemplo, nas nove ilhas habitadas, todas têm uma instituição, um pequeno comité, uma associação regional de desporto. Isso já quer dizer alguma coisa, inclusive a mais pequena que é a ilha do Maio- onde há menos população. Há jogos escolares, incluíram algumas modalidades para os jovens com algumas limitações físicas, sensoriais, com deficiência. Isso já é algo muito. A lei de base do sistema desportivo cabo-verdiano inclui os atletas paralímpicos. Só para dar uma ideia, os prémios que ganham um ganhador de medalha olímpica têm o mesmo valor de medalha paralímpica, inclusive os nossos dois Comités Olímpicos e Paralímpicos têm uma visão de juntar os dois comités, como fazem os Estados Unidos, os Países Baixos, a África do Sul Queremos ser talvez o primeiro país pequeno em conseguir este. Hoje estamos pelo bom caminho.

    Por que motivo a maior parte dos países não o faz?

    Acredito que são vários factores. Eu trabalhei durante 12 anos como secretário-geral do Movimento paralímpico africano. Infelizmente, muitos comités estão de costas viradas, querem protagonismo. Outro motivo é que, talvez, não tenham capacidade e a visão ainda das coisas positivas que podem sair ao juntar as mesmas formações, as mesmas oportunidades, a mesma valorização.

    Foi secretário do Movimento Paralímpico africano. Como é que se posicionam os países africanos hoje nos Jogos Paralímpicos?

    O continente africano é a região do Comité Paralímpico Internacional maior. Em África temos 54 países, entre os quais  48 comités paralímpicos registados, ainda faltam uns quatro ou cinco. Temos diferentes níveis; se falarmos de África do Sul, Egipto, Marrocos, Argélia, Nigéria, estamos a falar de comités vencedores de medalhas, de recordes mundiais. Depois há os países médios como Angola, Ruanda, Quénia. Depois os mais pequenos, do nosso tamanho, com a nossa dimensão e capacidade financeira. Evidentemente que Cabo Verde nunca vai ter uma delegação como a que tem a Nigéria, um país com 200 milhões de pessoas, nós só temos meio milhão de habitantes. Mas esta região africana é a que deveria servir, talvez para mim, de exemplo para o mundo inteiro.

    A maioria dos atletas que participam no movimento paralímpico são produto de guerras tipo Ruanda, Angola, onde há muitos amputados ou algumas doenças que já foram erradicadas há 40 anos, como o pólio. Ainda há alguns casos em África e outras vítimas de acidentes e operações, fenómenos que já foram ultrapassados ou não existem noutros países, são os que fazem com que o continente tenha o desafio de se organizar para dar oportunidade a esta população. Há muitos países que não dão importância suficiente, não somente o desporto convencional, mas muito mais a desporto paralímpico.

    Há pouco falava das categorias dos atletas cabo-verdianos F57 e T12. Que categorias são estas?

    É muito interessante. Quando cheguei a primeira vez a umas competições, tive que aprender, eles começaram a perguntar-me que atletas tinha. Eles diziam; ‘tenho uma T12 50’ e eu não entendia do que se tratava. As letras são para definir o desporto e o número, por exemplo, 5, quer  dizer que é amputado da perna. Se ele é amputado de perna abaixo de joelho, é um número, na altura do joelho é outro número.. 55, 56, 57. Se for de braço, seriam 40.

    A Heidilene tem uma deficiência visual. A deficiência visual corresponde aos números 11, 12 e 13. Como é ela corredora  é T de Track. 11 é totalmente cego, 12 vê umas luzes e 13 já tem uma mínima visão para poder competir com mais técnica. Esta terminologia é interessante porque agora é globalizada. Todos utilizam uma classificação para todo mundo geral.

    A atleta cabo-verdiana vai ser acompanhada por uma guia. A guia tem que treinar também. Como é que tudo acontece ?

    Eu costumo dizer que tenho três atletas, mas só dois vão competir. Os guias são muito importantes porque têm de acompanhar, tem que se preparar de igual forma que o atleta. Antes de chegar à meta, os guias não podem passar à frente na linha final e devem recuar um pouco. Para isso tem que prestar muita atenção porque se o guia passar primeiro na meta, a corrida é anulada.

    Têm de estar com muita atenção  para não tropeçar, ir ao mesmo ritmo, saber quando um atleta vai muito mais rápido. Às vezes ele está excitado e tem que acompanhar. São como uma sombra é nisso consiste ser um guia. Este é um trabalho muito louvável, muito profissional.

    Há três semanas, os Jogos Olímpicos foram vividos com euforia. Cabo Verde conquistou a primeira medalha olímpica. Espera que estes Jogos Paralímpicos também proporcionem esta sensação de euforia e de festa?

    Gostaríamos muito, seria um sonho. Não fizemos primeiro, vencemos a primeira medalha de uma competição da categoria dos Paralímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, independentemente de ser olímpicos ou não. Foi uma alegria nacional, colocámos o nome de Cabo Verde no mapa dos medalhistas paralímpicos.

    Ficámos muito felizes com David, que ganhou a sua medalha também de bronze para Cabo Verde. Como dizem os brasileiros, tomara que se repita. Sabemos que é um desafio muito grande. O nível dos atletas é muito alto para cada classificação desportiva. Se a medalha vier, vai ser  uma alegria extra, mas também nós sabemos que os cabo-verdianos ficam muito felizes de ver nossa bandeira desfilar nos Campos Elísios, em Paris, onde temos em França uma comunidade muito grande.

    14 min
  • Jogos Paralímpicos: "Desporto adaptado deve ser acessível a todos"

    O objectivo da delegação são-tomense nos Jogos Paralímpicos de Paris é que o atleta Alex Anjos tente superar a marca dos 50.49 nos 400 metros T47, categoria para atletas com amputação nos membros superiores. "Os Jogos Paralímpicos são uma mostra mundial para que o desporto adaptado seja cada vez mais acessível a todos",  defende o chefe da delegação paralímpica de São Tomé e Príncipe, Filipe Neto.

    São Tomé e Príncipe participou pela primeira vez nos Jogos Paralímpicos em 2016 no Rio de Janeiro, com o atleta Alex dos Anjos, que volta a competir nos Jogos de Paris na prova de 400 metros T47?

    Filipe Neto: É um bocado constrangedor ser uma representação tão pequena, mas é o que temos. Inicialmente tínhamos uma delegação que podia ter até oito pessoas, mas infelizmente a Marina, uma da nossa lançadora que estava também no nosso desejo de vir. Não pôde vir porque não teve classificação internacional e a sua vinda para Paris em 2024 não foi aprovada. Por isso trouxemos um só atleta, naturalmente que a quota da delegação caiu. Por isso é que viemos apenas quatro: um atleta, um treinador, um massagista e eu como chefe de missão.

    Quais é são os objectivos desta participação nos Jogos paralímpicos de Paris?

    Em primeiro lugar, o nosso objectivo é representar São Tomé e Príncipe com a maior dignidade possível. Nós já tivemos nos Jogos de Tóquio e aqui queremos que o resultado seja melhor, nem que seja bater o recorde nacional, que é de 50.49. Contamos que ele esteja à altura de fazer esse melhor tempo e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que a representação seja melhor do que nos jogos passados.

    O atleta Alex dos Anjos pode dar um exemplo a outros atletas ao estar aqui a representar São Tomé e Príncipe nos Jogos Paralímpicos de Paris?

    Sim, sim, é mesmo isso que nós queremos que os jovens entendam em São Tomé e Príncipe que uma pessoa com deficiência também pode mostrar o seu valor, o valor que tem no desporto, praticando com afinco, mostrando que realmente também pertence a uma sociedade que pode fazer algo por essa sociedade, sobretudo no desporto, onde se vê muitas pessoas que com deficiência. São pessoas corajosas, pessoas determinadas, pessoas que mostram que realmente têm capacidade para fazer algo de grande valor. Esperamos que a participação do Alex sirva de incentivo a jovens são-tomenses, para que eles também possam começar a praticar desporto, sobretudo os jovens com deficiências.

    Esteve em Paris com a delegação olímpica há três semanas, aqui na Vila Olímpica, na altura, agora transformada em Vila Paralímpica. Que mudanças estruturais é que observou até ao momento?

    Primeiro, na Vila Olímpica de há três semanas, tudo era totalmente diferente em termos da habitação porque agora a adaptação é feita para pessoas com deficiência e tem que ser totalmente adaptada. O cuidado tem que ser maior, tem que haver muito mais envolvimento das pessoas: o apoio para que as pessoas com deficiência também se sintam seguros para andar e e caminhar aqui na vila. 

    Há três semanas e nos Jogos Olímpicos estavam aqui mais de 10.000 atletas. Para os Jogos Paralímpicos há 4400 atletas a competir. O que é que explica esta diferença tão grande?

    Em São Tomé e Príncipe lutamos para que as pessoas com deficiência pratiquem desporto. Por isso é que existe essa diferença tão grande. Na medida em que as pessoas vão compreendendo que, independentemente de ter uma limitação física, não implica que sejam excluídas e praticar desporto. Acho que no futuro vai haver mais atletas porque a participação está a crescer e vai crescer muito mais. Os atletas estão a ver que podem praticar desporto, podem representar o país e conhecer pessoas, pisar outros palcos. 

    Que mudanças são necessárias até lá?

    Uma das grandes mudanças é no próprio Comité Paralímpico Internacional para que deixe de limitar as cotas de pessoas com deficiência e que permita deixar ao critério do país e da capacidade financeira do país levar a quantidade de pessoas que queira. Talvez, nessa altura, o número de atletas seja maior. 

    O número de de bolsas paralímpicas não é igual às bolsas olímpicas?

    Não por acaso não é e esse é outro factor. Em São Tomé, embora sejamos um país pequeno, tivemos bolsa olímpica para oito pessoas e para o Comité Paralímpico não houve nenhum. Apesar de eles ajudarem, eles ajudam ao enviar alguma subvenção pequena para ajudar. 

    É um ponto a repensar?

    Sim é um ponto a repensar se realmente eles quiserem porque ajudaria muito. Em São Tomé e Príncipe, por exemplo, os nossos atletas são trabalhadores, mas se tiverem bolsa não deixariam o trabalho, mas pensariam menos no trabalho porque já teriam um meio de subsistência.

    10 min
  • "Pessoas com deficiência precisam de oportunidades, não de empurrões"

    Juliana Moko compete nos 100, 200 e 400 metros femininos e Sabino Tchipessi nos 400 metros masculinos nos Jogos Paralímpicos de Paris. "Os Jogos Paralímpicos deve servir de mobilização e de informação para apostar em melhores políticas públicas para a inclusão de pessoas com deficiência", defende o secretário-geral do Comité Paralímpico angolano, António da Luz.

    RFI: Angola está representada por dois atletas. Estão prontos a competir nos próximos dias?

    António da Luz: Na verdade, gostaria de ter aqui mais atletas, inclusive noutras modalidades. Nós tivemos a um passo de qualificar um atleta no halterofilismo, mas infelizmente não conseguimos. Tivemos uma atleta também que nos últimos meses se lesionou e acabou por não estar aqui. Trouxemos dois atletas que nos dão garantias de que são, neste momento, os melhores que temos.

    Os Jogos Paralímpicos disponibilizaram 150 autocarros e cerca de 1000 táxis. Como é que está a correr a organização para as delegações e para os atletas, que precisam de conforto na mobilidade?

    As delegações também têm carros próprios, que são atribuídos aos chefes de missão e em função do tamanho da delegação, podendo ter duas ou três viaturas. Nota-se uma grande mobilidade aqui na vila paralímpica e há pessoas a andar de bicicletas. Há instrumentos auxiliares para quem anda de cadeira de rodas, para que possam ter maior mobilidade em termos de movimento. Estamos a falar de carrinhos eléctricos, que estão a andar pela vila, que vão levando as pessoas de um lado para outro.

    Estes são os meus oitavos Jogos, acredito que à semelhança dos outros jogos em que estive, haverá sim uma grande afluência de transporte para que os atletas tenham o conforto necessário, possam chegar a tempo e horas aos recintos e possam ter tempo para a devida preparação antes do início da competição.

    Como é que corre a organização para que os atletas possam treinar todos os dias?

    As federações internacionais envolvem-se e são elas que acompanham, praticamente, toda a calendarização, quer de preparação, quer de horário de treinamento e quer, portanto, da própria comissão em si. Infelizmente, as reuniões estão a ser, dia sim, dia não, entre os chefes de missão. As reuniões decorrem logo de manhã cedo, onde as questões são colocadas e resolvidas. Há toda uma mobilidade, há todo um envolvimento  de toda a parte, que nos vai ajudar. Basta olhar para os voluntários, por exemplo, que andam por aí todos simpáticos e prontos para ajudar. Eles não são só franceses, há várias nacionalidades, o que significa dizer que, de facto, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos mobilizam o mundo e mobilizam cidadãos, mobilizam a paixão das pessoas. 

    Em que medida é que estes Jogos Paralímpicos podem trazer mudança? 

    Quem organiza quer fazer melhor, quer organizar melhor do que quem já organizou. Portanto, há um grande empenho, de facto, e a uma grande valorização das pessoas com deficiência. Nós, que acompanhamos o que está a ser feito, olhamos com alguma admiração, com algum respeito, aquilo que é a resiliência. Costumo dizer aos colegas em Angola que a melhor forma de ver os jogos é estar na Vila Paralímpica porque é aqui vê-se de tudo um pouco e conseguimos aprender que de facto, nós não somos nada se não estivermos todos unidos.

    A questão das políticas de apoio às pessoas com deficiência depende muito de país para país. Nos países mais desenvolvidos, mesmo assim, há pessoas que reclamam. Portanto, é um processo que precisa de alguma paciência, é preciso algum estudo, é preciso alguma paixão porque as pessoas com deficiência querem ser autónomas e não querem que sejam os outros a fazer por elas. Elas já deram mostra que podem, são capazes de fazer e precisam de oportunidade. Precisam de meios que lhes permitam movimentar-se e trabalhar.

    Estes jogos devem servir de mobilização, devem ser de formação e de informação aos políticos para perceberem que, de facto, as pessoas com deficiência precisam de oportunidades, não de empurrões, não de ajudas, mas de oportunidades para poderem, de igual para igual, mostrar aquilo que valem.

    São os jogos da equidade. Há equidade?

    Faz-se por haver e vamos lutar para que assim seja. Como sabe, principalmente em África, há muito tabu em relação àquilo que significa ser homem, ser mulher. Aquela coisa de protecção, de achar que a mulher com deficiência não pode ir para a escola, tem de ficar em casa para tomar conta do irmão mais novo.

    O desporto, felizmente, tem estado a muda e a chamar a atenção às pessoas de que, de facto, é preciso dar mais espaço, mais liberdade para que essa equidade possa de facto existir. Não tem sido fácil. Se calhar não temos 50-50. Seria bom que tivéssemos, mas se estivermos 30-70 já estamos no bom caminho. É preciso continuar a trabalhar, é preciso continuar a preparar porque nós temos países que hoje estão muito longe em relação a outros. Temos de ter paciência, temos que ir com calma. Os nossos políticos precisam de perceber que fazer política não é só armar betão, é preciso dar atenção ao ser humano. E o ser humano é todo aquele que está sob a sua tutela, que está no seu país e que, independentemente da sua condição física, deve ter sempre os mesmos direitos.

    É mais difícil obter financiamento para um atleta paralímpico do que para outros atletas?

    Já há uma mudança substancial, mas ainda há países como o meu, por exemplo, onde ainda há um patrocinador que é capaz de dar 4000 a um atleta paralímpico e dar 100.000 ao convencional. Ainda não há as estruturas que trabalham com o desporto paralímpico, principalmente em África. Não há assim grande apetência das pessoas em concorrerem para os cargos. Noto que nos Jogos Paralímpicos cruzamos as mesmas pessoas de há quatro anos e nos Jogos Olímpicos isso dificilmente acontece. Porque não basta só ter dinheiro, não basta só ter infra-estruturas, não basta só ter conhecimento, na ciência do desporto, é preciso ter amor, ter paciência, ter carinho e ter algum dom para trabalhar nesta causa. Estou há quase 30 anos neste cargo porque de facto ainda ninguém me quis substituir. Estamos a preparar alguns jovens para isso, porque chega uma altura de facto, em que temos de parar.

    Ainda há essa diferença, há sempre mais atenção para os olímpicos em termos de patrocínios, de que para os paralímpicos. Há países muito desenvolvidos onde esta diferença, quase que já não se nota.

    Como por exemplo?

    Os americanos. O Brasil deu um passo enorme. A China que em 2004 não tinha expressão. Organizou os Jogos em 200. São países que conseguem mobilizar. Tem muita gente, trazem muitos atletas porque têm de facto, pessoas que apoiam pessoas que acreditam e têm patrocinadores que ajudam, que apoiam também esta causa.

    12 min
  • Quarta participação de Guiné-Bissau nos Jogos Paralímpicos

    A Guiné-Bissau participa nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024 com dois atletas. "O caminho não tem sido tão fácil para um país com o nosso contexto. Vão participar dois atletas; Mama Saliu Bari, que foi procurar o mínimo na edição de Marrakech 2024, conseguiu a medalha de prata nos 200 metros, na categoria masculino T11. Na Brinbamde Domingas também esteve nessa competição, conseguiu fazer a sua marca pessoal ", descreve o chefe de missão da delegação paralímpica da Guiné-Bissau, Vladimir Sanó.

    RFI: Quais são os objectivos desta quarta participação da Guiné-Bissau nos Paralímpicos de Paris?

    Vladimir Sanó: Depois de Tóquio 2020, enfrentamos grandes dificuldades em termos de mudança global provocada pela Covid-19. O nosso atleta Mama Saliu Bari, que é de mais antigo atleta paralímpico da Guiné-Bissau, está mais motivado, está mais entusiasmado para Paris 2024. Ele conseguiu entrar na lista de recorde mundial porque está mais motivação. Apesar das dificuldades e dos desafios da viagem, espiritualmente e psicologicamente, está preparado para enfrentar os adversários mundiais.

    São 23 modalidades, 549 competições, 4400 atletas. São jogos para desafios muito importantes para dar visibilidade aos melhores dos melhores. O que é que se pode esperar das competições?

    Nós vamos ao encontro do espírito paralímpico, isto é tentar superar barreiras e dificuldades. Estamos a ser confrontados com barreiras e dificuldades em termos económicos, em termos organizacionais, é certo, mas vamos ao encontro desses desafios e vamos superá-los. Podemos esperar que a nossa participação traga a visibilidade e seja reconhecida a superação, afirmação e talento dos nossos atletas. 

    Os dois atletas paralímpicos guineenses que vão participar nas competições de atletismo com dois guias?

    Sim, os guias estão disponíveis, estão bem adaptados com os nossos atletas e juntam-se à nossa delegação. Estão todos envolvidos para apoiar a delegação da Guiné-Bissau, para mantermos uma representatividade mais condigna em pé de igualdade com os outros países. É verdade que estamos a concorrer numa única modalidade. Temos potencialidades de atletas que praticam outras modalidades basquetebol, voleibol sentado, mas como temos poucos recursos, só conseguimos participar numa categoria de modalidades individuais. Isto não é segredo nenhum, o nosso país enfrenta grandes dificuldades económicas.

    Muita das vezes, o desporto paralímpico não é uma prioridade do governo ou para o Estado. É nesse sentido que enfrentamos múltiplos desafios, mas acreditamos e temos essa grande vontade de apoiar e ajudar e colocar o país dentro de ranking e dentro de convivências da família paralímpica nesta competição de Paris 2024.

    As limitações financeiras que a Guiné-Bissau enfrenta travam os sonhos dos seus atletas?

    Para ser sincero e honesto comigo e com o resto do mundo é verdade que para o meu país, a promoção de desporto para pessoas com deficiência não é uma prioridade. Nem é uma prioridade numa perspectiva de longo prazo, eu duvido que o governo terá um projecto para construir um estádio, uma infra-estrutura adequada ao domínio de deficiências dos nossos dois jovens atletas. As nossas infra-estruturas estão ultrapassadas, estão muito velhas, nem são adaptadas a pessoas sem deficiência. Para praticar desporto não é adequado que fará para desporto paralímpico.

    Numa perspectiva a longo prazo, duvido que venhamos a ter essas condições, mas é verdade que há, pontualmente, um apoio do governo, sobretudo aquando destas  participações. Embora não seja só a participação que o governo deva apoiar, mas sim  assegurar e garantir a participação nas provas de competições sub-regionais para que os  atletas possam rodar nas provas de competição nacionais porque isto cria outra vertente: a  auto-estima, cria superação dos atletas. Infelizmente, tendo em conta o factor financeiro e económico do meu país, isto não é uma prioridade neste momento.

    Além do evento desportivo são esperadas políticas de acessibilidade e de inclusão?

    Os jogos paralímpicos levantam um debate à volta da inclusão e da superação de pessoas com deficiência, lembrando que as pessoas com deficiência são capazes e são pessoas que merecem ser respeitadas. Esta participação demonstra, uma vez mais, o espírito da inclusão em todas as vertentes e vai ao encontro do Objectivo de Desenvolvimento Sustentável que num dos artigos sublinha que ninguém deve ser deixado para trás. É preciso trabalhar para uma inclusão de minorias. É verdade que, em termos político, ainda há muita coisa no meu país para fazer. Imagine que até à ratificação da Convenção sobre Direitos das Pessoas com Deficiência em 2014, não havia nenhuma legislação específica de protecção de direitos de pessoas com deficiência. As políticas e os programas de desenvolvimento não eram inclusivos.

    Não existe nenhuma lei que obriga à criação de rampas nas infra-estruturas públicas, por exemplo, constituindo um grande desafio e barreiras arquitectónicas e urbanísticas para o exercício de direitos de pessoas com deficiência, sobretudo no capítulo da acessibilidade e inclusão.

    11 min
  • Cerimónia da abertura dos Jogos Paralímpicos vai ser “inclusiva” e “espectacular”

    São esperados 65.000 espectadores esta noite na Praça da Concórdia, no centro de Paris, para assistir à cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos. O espectáculo foi imaginado pelo director artístico dos Jogos de Paris, Thomas Jolly, e dura três horas. Na emissão especial desta quarta-feira fique a saber o que esperar destes doze dias de competições, que contam com 4400 atletas, de 182 delegações e 549 provas desportiva.

    Esta quarta-feira, a chama paralímpica chega a Paris para a cerimónia da abertura que decorre na Praça da Concórdia que foi transformada num palco de teatro a grande escala. O objectivo da cerimónia é ser “inclusiva” e “espectacular”, segundo Damien Gabriac, um dos co-autores do espectáculo desta noite.

    23 min
  • Comité para a Protecção dos Jornalistas denuncia situação na Guiné-Bissau

    O Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ) anunciou que vai muito em breve informar as Nações Unidas sobre que tem acontecido em termos de liberdade de imprensa na Guiné-Bissau. Este anúncio surge numa altura em que se tem instalado alguma desconfiança entre o poder na Guiné-Bissau e os jornalistas.

    No começo do ano, o Presidente guineense acusou os profissionais da classe de "serem oposição". Certos jornalistas queixam-se de terem sido impedidos de cobrir determinados eventos, como por exemplo declarações de Braima Camará, coordenador da ala tradicional do MADEM-G15, que se dissociou recentemente de Umaro Sissoco Embaló.

    Em meados de Julho, um jornalista que questionava o Presidente da República sobre a eventualidade de se organizar ainda este ano eleições presidenciais foi insultado publicamente, o que levou o Sindicato dos Jornalistas Guineenses a apelar ao boicote dos eventos organizados pelo poder. 

    Agora, na semana passada, a própria presidente do sindicato da classe, Indira Correia Baldé, foi impedida de cobrir um evento do governo, por "ordens superiores" que a profissional afirma terem vindo do próprio Presidente da República.

    Perante este cenário, a jornalista sul-africana Ângela Quintal, coordenadora para África do Comité para a Protecção dos Jornalistas, com sede em Nova Iorque, refere que vai reportar esta situação ao Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas no próximo mês de Outubro, altura em que a sociedade civil tem oportunidade de informar aquele órgão sobre situações que considere anómalas.

    RFI: Vai relatar a situação nas Nações Unidas. Como vai fazer isso e quando? 

    Ângela Quintal: Em Outubro, as organizações da sociedade civil terão a oportunidade de enviar requerimentos escritos ao Conselho de Direitos Humanos. É o período chamado de "Revisão Periódica Universal" em que que vamos passar em revista o que se passou ao longo dos últimos cinco anos mais em particular, porque começamos realmente a acompanhar a situação na Guiné-Bissau desde 2022. Vamos focar-nos nesses anos, apenas para dar conta da nossa preocupação quando se trata de jornalistas e meios de comunicação na Guiné-Bissau e, em geral, do estado da liberdade de imprensa. 

    RFI: Quais poderiam ser as consequências para o governo da Guiné-Bissau?

    Ângela Quintal: Bem, eu acho que o que é importante não são necessariamente as consequências, mas eu acho que também é importante informar a comunidade internacional, que pode não estar necessariamente atento ao que está a acontecer na Guiné-Bissau. Para a imprensa, eu acho que é importante, nesse sentido, tornar isso público. Ao longo dos anos, o que fazemos é investigar as violações da liberdade de imprensa em países e, na Guiné-Bissau, temos feito isso. Então, o que eles terão é a nossa pesquisa, e obviamente vamos associar-nos com outras organizações e vamos colocar esse registo lá. Cabe realmente aos Estados-membros decidir se querem tomar isto em consideração, se vão fazer recomendações ao governo da Guiné-Bissau, e se o governo da Guiné-Bissau está disposto a aceitar algumas das recomendações e garantir que se mude de rumo. Vamos falar apenas de 2024: tem sido um ano mau para os jornalistas na Guiné-Bissau. Este foi também o caso no ano passado, mas acho que depois de vermos o Presidente da Guiné-Bissau, dissolver o parlamento e depois governar por decreto, vimos sinais muito, muito preocupantes dessa relação que o governo e o próprio Presidente têm com a imprensa. Notamos um aumento das violações dos direitos. O Presidente declarou, em Janeiro deste ano, que era necessário ter "brigadas" para monitorar o que os órgãos de comunicação dizem nas transmissões de rádio e assim por diante. Recentemente, todos nós sabemos, ele insultou um jornalista. E por que é que ele insultou o jornalista? Simplesmente porque o próprio jornalista estava a fazer uma pergunta de interesse público. E eu acho que esse é o ponto. Era uma questão de interesse público: 'Quando é que o Senhor Presidente vai realizar presidenciais ?' O mandato dele termina em Fevereiro. Obviamente, relativamente à legislatura que ele dissolveu, haverá eleições em Novembro e é uma pergunta perfeitamente normal. E como reagiu o Presidente? Ele reagiu insultando o jornalista. Eu acho que, em última análise, quando o chefe de Estado tem uma relação tão difícil com os jornalistas e mostra total desrespeito, apenas pela decência comum, isso envia o sinal errado para os outros. E é por isso que também vimos ataques contra jornalistas. Nós vimos a polícia este ano, quando os jornalistas foram impedidos de cobrir protestos. Mas também vimos apoiantes do Presidente. E isso tem sido uma grande preocupação para nós em termos de como é que eles estão a utilizar as redes sociais para assediar, em particular, mulheres jornalistas. Vimos os ataques contra mulheres jornalistas, incluindo ameaças de violação e assim por diante. É totalmente inaceitável. Eu acho que o ambiente é criado para isso acontecer porque o próprio Presidente está a enviar o sinal errado de que 'os jornalistas são os inimigos'. Os jornalistas fazem o trabalho que eles devem fazer, isto é garantir que a população da Guiné-Bissau seja informada. Eles devem estar em condições de relatar o que está a acontecer em termos de actualidade. E o dever da liberdade de imprensa e da livre expressão é de tal ordem que se não for discurso de ódio e se não for incitação à violência, não há nada de errado em ser crítico em relação ao governo. Qualquer governo que sinta que está a fazer o que é suposto fazer e que está do lado do povo, não sente necessidade de atacar a imprensa ou não se sente ameaçado quando os jornalistas são críticos relativamente a ele. A nossa expectativa é de que na Guiné-Bissau, vamos ver uma melhoria na relação entre o governo e a imprensa e em particular, o Presidente. Eu sei que houve uma reunião com jornalistas e a presidência disse-nos que esta foi uma boa reunião. Mas o facto é que há alguns jornalistas que estão a ser individualmente impedidos de cobrir eventos do governo porque o Presidente acredita que têm sido críticos em relação a ele e ao seu governo.

    RFI: Como se sente relativamente ao período que está a chegar agora na Guiné-Bissau, em que o Presidente diz que vai organizar novas eleições em Novembro? 

    Ângela Quintal: Estamos preocupados porque constatamos uma atitude em relação à imprensa que realmente abre caminho para que outros ataquem jornalistas. E sempre que há alguma eleição e é em todo o mundo, não só no continente africano, mesmo aqui (nos Estados Unidos), você vê um aumento de ataques contra jornalistas, porque os jornalistas são frequentemente aqueles que estão a cobrir protestos ou a cobrir comícios. Portanto, é um período de tensão, como vimos com outras eleições em todo o continente este ano. Portanto, há preocupação e é por isso que apelamos para que o Presidente, o partido no poder e outros responsáveis políticos  possam garantir que, no final do dia, os jornalistas possam fazer o seu trabalho, informar livremente e sem medo de represálias. Porque, em última análise, trata-se de garantir que os cidadãos da Guiné-Bissau tenham a informação necessária para fazerem uma escolha informada quando forem às urnas. 

    RFI: Ninguém reagiu até agora a toda esta situação com os jornalistas na Guiné-Bissau. Não ouvimos falar, por exemplo, de nenhum país de África ou de Portugal que está ciente da situação na Guiné-Bissau. Como explica isso? 

    Ângela Quintal: Explico isso muito facilmente porque há países que, no final do dia, vão focar-se em questões de política externa ou de geopolítica da região, que eles podem sentir que é do seu interesse. E francamente, vejo isso não só com a Guiné-Bissau, mas em muitos países do continente africano. Vamos olhar para o que está a acontecer no Afeganistão e vamos ver, por exemplo, o que acontece no Sudão. Se pensar na grande crise humanitária que existe no Sudão, como as pessoas fugiram, como as pessoas estão a viver lá, não vê a mesma indignação contra o que está a acontecer no Sudão em oposição ao que está a acontecer no Afeganistão ou mais recentemente, em Gaza. Não estou a dizer que o que está a acontecer em Gaza, que é terrível, é algo para ser ignorado. Mas muitas vezes penso 'bem, não seria óptimo se o tipo de atenção e oposição às violações dos Direitos Humanos que estão a ocorrer em Gaza, pudesse ser visto em outros lugares do continente?' Falo sobre os Camarões: desde o final de 2016, temos visto violência nas regiões de língua inglesa dos Camarões, onde os jornalistas foram presos, onde os jornalistas foram atacados, onde as próprias pessoas que vivem nessas regiões são sujeitas a violações dos Direitos Humanos diariamente. No entanto, a comunidade internacional não tem visto isso como uma prioridade. E isso é lamentável. E é por isso que organizações como o Comité para a Protecção dos Jornalistas e outros, não estamos sozinhos, estão a tentar usar todos os meios e todos os fóruns internacionais possíveis para pelo menos sublinhar que existem motivos graves de preocupação em países específicos, porque no final do dia, você não pode ser membro das Nações Unidas, subscrever o pacto, ou ser um membro da União Africana e subscrever a carta da União Africana, em que estão consagrados os Direitos Humanos, incluindo a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o direito do público de saber e não cumprir. Como Estados-membros, seria de esperar que eles realmente garantissem que não assinem algo sem significado, que realmente cumprissem o que assinaram, e eu acho que esse é o problema. 

    Podem ouvir aqui a entrevista na íntegra e na versão original:

    12 min
  • Novo capítulo no conflito entre Israel e o Hezbollah

    O exército israelita e o Hezbollah trocaram ataques este domingo, aumentando os receios de uma guerra regional que já conta com o conflito entre Telavive e o Hamas. Foram os ataques mais intensos entre Israel e a milícia xiita libanesa, desde o início da guerra em Gaza.

    As Forças de Defesa de Israel lançaram neste domingo uma ofensiva no Líbano, a que chamaram "ataque preventivo", depois de terem detectado preparativos do Hezbollah para lançar “ataques em grande escala” contra o território israelita. Neste ataque, 100 caças atingiram 40 alvos de infra-estruturas da milícia xiita. Na resposta, o Hezbollah afirmou ter iniciado a "primeira fase" de um grande ataque, disparando 320 foguetes e drones. Apesar de terem sido os ataques mais intensos desde o início da guerra em Gaza entre Israel e o Hezbollah, João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico, não considera que vão dar origem a uma nova guerra na região. 

    RFI: Nas reacções a este ataque, Benjamin Netanyahu disse que a resposta do país foi mais um passo para mudar a situação no Norte, e que este não é o fim da história. Por seu lado, o Hezbollah disse a operação deste fim-de-semana foi concluída e realizada com sucesso. Para já, ninguém quer uma guerra. O que é que está aqui em causa?

    João Henriques: A guerra não é desejável. Mas nós estamos a assistir a um jogo de retaliações, de provocação que está implícita. Eu acredito que isto não passe de retórica, mais nada. Para um eventual apaziguamento, até para que a comunidade internacional que está a ser liderada pelos Estados Unidos vejam que da parte dos envolvidos há alguma moderação, alguma vontade para resolverem o conflito pela via diplomática.

    O que aconteceu este fim-de-semana põe em causa as negociações em curso para a tentativa de encontrar um acordo de cessar-fogo?

    Sim, porque ao mesmo tempo que querem dizer que têm vontade de negociar e de restabelecer a paz na região vão atacando, com ou sem razão. Este ataque por parte de Israel é uma mensagem que o país está a transmitir não só ao Hezbollah mas ao eixo de resistência e à comunidade internacional em geral, de que o seu propósito de eliminar estes adversários mantém-se. E depois assistimos aos Estados Unidos, que ao mesmo tempo que dizem que querem ver a situação resolvida estão a enviar armamento para Israel. E o que é que nós vemos em relação às acções do Hezbollah, por um lado, e também do Hamas, e de Israel, por outro: que as posições, sobretudo as do Hamas e de Israel estão a sofrer algum enfraquecimento. No caso de Israel, esse enfraquecimento é não só de natureza bélica, de natureza militar, mas também de natureza política.

    E acredita que com esta pressão interna e externa para um cessar-fogo em Gaza Benjamin Netanyahu vai ceder?

    Vai continuar a ceder, apesar de dizer sobretudo aos Estados Unidos e aos seus aliados mais próximos, porque é também uma mensagem para fora, de que tem vontade de estabelecer a paz. Todavia, o programa político do actual Governo não é consentâneo com essa dialéctica, com essa retórica. Seja como for, a comunidade internacional está a pressionar. E o que é que vai acontecer? O governo de Netanyahu vai mesmo cair? Eu não vou dizer que seja já. Em fundo temos as eleições nos Estados Unidos.

    Muito importantes para este processo.

    Naturalmente que têm uma implicação determinante, independentemente de ser o candidato republicano ou o candidato democrata a ganhar. Diria que há um antes e um depois de 5 de Novembro. Kamala Harrison já fez saber que a situação com ela na Casa Branca não vai continuar como tem estado até aqui. E também já conhecemos aquilo que têm sido as afirmações de Donald Trump no caso de ser ele o vencedor das eleições. São determinantes para a evolução da situação.

    A ONU apelou aos dois lados para evitarem uma escalada de violência. São apelos repetidos que até agora não têm funcionado. Quem é que pode mudar alguma coisa?

    Eu diria que são alguns dos países mais próximos de Israel, a começar pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos poderiam também eles ser determinantes no terminar deste conflito. A comunidade internacional poderia impor, como tem feito noutros casos, sanções de natureza económica e Israel não teria alternativa senão inverter a marcha dos acontecimentos. Agora, as Nações Unidas não vão conseguir fazer nada. Eu estou a falar do bloco, estou a falar da organização porque, como referiu e bem, são repetidos os apelos às negociações, à contenção, a tudo isso e não tem tido qualquer efeito prático. E vai continuar a não ter qualquer efeito prático, porque as Nações Unidas têm poder de aconselhamento, mas não têm poder de materialização das suas decisões. Seria, então, a começar pelos Estados Unidos e também pela União Europeia e pelo Reino Unido, uma vontade política de enfrentar a posição de Israel. Acontecerá se aparecerem novos atores entre os dirigentes de Telavive, porque começa a haver fracturas dentro do Governo de Netanyahu e uma delas é mesmo veiculada pelo ministro da Defesa e Yoav Galant.

    Mas se imaginarmos um cenário de guerra... o Hezbollah e o Irão são mais perigosos para Israel do que o Hamas.

    Poderá ser uma uma tendência optimista, mas eu não acredito que entremos numa confrontação directa porque isso vai alastrar a actores mais poderosos. Estou a falar do bloco chinês com os seus aliados, desde logo a Rússia, e, naturalmente, o Irão e os grupos que lhe estão associados. Num cenário de confrontação directa, passo a ser pessimista e a dizer que isto alastraria para um conflito mundial. Há muita gente que diz que a Terceira Guerra Mundial já está numa fase de aquecimento, mas eu não acredito que a situação venha a descambar nesse sentido. Continuará a haver escaramuças e se subirem de tom continuarão a ser num tom controlado. Haverá alguma parcimónia por parte dos grupos e dos Estados que se opõem a Israel.

    9 min

About Convidado

From the publisher's feed

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.