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  • “A Guiné-Bissau continua a viver num clima de insegurança, tensão e caça aos partidos”

    Numa altura em que o presidente do Parlamento dissolvido da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira, regressou ao país, lamentando a falta de segurança, e depois de o chefe de Estado ter admitido uma recandidatura, tentamos perceber como está o país. O investigador Rui Jorge Semedo não acredita na realização das legislativas em Novembro e diz que a Guiné-Bissau continua à espera da data das presidenciais. O analista avisa que se “continua a viver num clima de insegurança, tensão e caça aos partidos”.

    Como está a Guiné-Bissau dois meses antes da data prevista das eleições legislativas antecipadas e ainda sem dia marcado para as presidenciais? Este domingo, Umaro Sissoco Embaló afirmou que está disponível para continuar a ser “Presidente da Guiné-Bissau”, dias depois de ter dito que não se iria candidatar a um segundo mandato. Também este domingo, regressou ao país, após sete meses no estrangeiro, o presidente do Parlamento dissolvido, Domingos Simões Pereira, que lamentou a falta de segurança no país. E é pelo regresso do líder da coligação PAI – Terra Ranka que começámos a entrevista ao investigador Rui Jorge Semedo que admitiu que “a Guiné-Bissau continua a viver num clima de insegurança, tensão e de caça aos partidos”.

    RFI: Este domingo, regressou ao país, após sete meses no estrangeiro, o presidente do Parlamento dissolvido da Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira. Ele lamentou a falta de segurança no país, que disse afectar todos os cidadãos. Como vê o regresso de Domingos Simões Pereira nesta altura e como vê estas primeiras declarações?

    Rui Jorge Semedo, Investigador: “Supostamente ele tinha abandonado o país durante todo esse período exactamente por causa daquilo que ele enfatizou ao chegar, supostamente por causa da perseguição e insegurança. Seis meses depois, a realidade não mudou: a Guiné-Bissau continua a viver num clima de insegurança, de tensão, de caça aos partidos. Portanto, é nesse ambiente que ele voltou ao país e em que muitos outros líderes estão a viver. O líder do Madem-G15, o líder do PRS e o próprio líder do APU-PDGB que chegou a ser primeiro-ministro neste mesmo regime.”

    Domingos Simões Pereira notou que é chegada a altura de as forças vivas se levantarem para tranquilizar o ambiente no país. O que significa este apelo?

    “Deve começar exactamente pelo assumir do compromisso por parte dos partidos políticos. Ele [Domingos Simões Pereira] lidera o maior partido político na Guiné-Bissau, que nunca chegou a fazer nada nesse sentido de se levantar para poder influenciar o retorno à normalidade constitucional e, consequentemente, à democracia.

    Portanto, essa responsabilidade de mobilizar as forças vivas deve começar pela estratégia dos partidos que devem assumir as suas responsabilidades. Aliás, a Guiné-Bissau chegou onde chegou pelas responsabilidades dos partidos, do próprio PAIGC que esteve no poder por um longo período na Guiné-Bissau e contribuiu para chegarmos ao actual estado de coisas que o país hoje vive. É verdade que a partir de 2000 para cá não foi exactamente o PAIGC, foi o PRS, depois o Madem que surgiu recentemente, e o APU-PDGB contribuíram para afundar o país.

    Esta responsabilidade cabe aos partidos, mas especialmente ao Domingos Simões Pereira e aos outros líderes partidários que devem influenciar as forças vivas para pressionarem o actual poder político que cumpra com os preceitos constitucionais. O mínimo que deve fazer é cumprir com os preceitos constitucionais, o que não está a acontecer há praticamente cinco anos. Há praticamente cinco anos o país colocou a Constituição de lado e estamos a ser dirigidos em função da vontade particular ou do Presidente da República ou de um grupo de pessoas que estão a ditar regras. É inconcebível pensar que, depois de praticamente nove meses da dissolução do Parlamento, o país não conseguiu realizar as eleições.”

    A Guiné-Bissau tem eleições legislativas antecipadas marcadas para Novembro. O que esperar destas eleições? E para quando as presidenciais, uma vez que o mandato do Presidente vai terminar em Fevereiro e ainda não há data?

    “No Senegal, aqui ao lado, o Presidente dissolveu o Parlamento e no mesmo dia marcou a data para as eleições. Na Guiné-Bissau, dissolvemos o Parlamento em Dezembro passado e não marcámos. Eu não acredito que em Novembro teremos, na realidade, essas eleições.”

    Acha que estas eleições legislativas não se vão cumprir em Novembro?

    “Exactamente. A dinâmica política não está a apontar para isso porque temos uma Comissão Nacional das Eleições caduca, que não transmite a credibilidade, a responsabilidade e até o profissionalismo. Temos o Supremo Tribunal de Justiça que tem como competência inscrever e admitir as candidaturas, mas o tribunal está decapitado. Só há uma pessoa que é vice, não é presidente, é vice-presidente e está a ditar as regras, demitir os juízes e fazer o que quer. Portanto, não há condições para a realização das eleições em Novembro. Isso do ponto de vista institucional.

    Agora, do ponto de vista da dinâmica ou das dinâmicas, percebe-se que não existe vontade alguma porque o actual poder político, neste momento, quer ainda controlar o ambiente político, sobretudo partidário. Se chegar à conclusão que tudo está sob controlo, obviamente que vamos avançar, mas se chegar à conclusão que ainda falta um trabalho de captura dos partidos, essas eleições não vão acontecer em Novembro.”

    Este domingo, o Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, disse que está disponível para continuar a ser “Presidente da Guiné-Bissau”. Isto é um volte-face ao anúncio que fez na semana passada porque tinha dito que não se iria candidatar a um segundo mandato após acatar os conselhos da sua mulher. Como olhar para esta mudança de posição?

    “Esse anúncio, na altura, era apenas para desviar aquilo que era a agenda do jornalistas do momento, que era debater o caso do avião estacionado no Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira. Então, todos os dirigentes atentos sabiam que aquele anúncio não era nada sério, não era realmente a intenção. Vendo tudo aquilo que o Presidente tem demonstrado ao longo deste processo, ninguém acreditaria que ele estava realmente a fazer uma comunicação com conteúdo real. Por isso, se disser que se vai recandidatar ou vai abandonar o poder, neste momento não achamos importante. O que achamos é permitir que as instituições funcionem. Depois, o povo guineense decide a quem confiar o Parlamento ou a Presidência da República nos próximos tempos.”

    Mas o Presidente da Guiné-Bissau afirmou que não será "substituído nem por Nuno Nabiam, nem por Braima Camará, nem por Domingos Simões Pereira". Ele tem os poderes para decidir quem o vai substituir?

    “Num país normal, em condições normais, ninguém ousaria dizer isso porque o soberano é o povo. É exactamente nessa perspectiva que, já nesse dia, nós conseguimos perceber que a intenção dele é continuar no poder. Continuar no poder porque é inconcebível indicar quem o vai substituir, já que o país não pertence a ninguém, nem ao Presidente da República, nem ao chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, nem ao Domingos Simões Pereira, nem a ninguém. Cabe ao povo decidir, quando for chamado às urnas, para ver nesse momento quem lhe inspira maior confiança do ponto de vista daquilo que será a sua competência: ser Presidente, ser deputado…

    Nós, nos últimos tempos, temos sido habituados a essa retórica. Antes foi o Presidente Jomav [José Mário Vaz] a dizer isso e agora é o Presidente Sissoco a utilizar a mesma retórica, o que demonstra a posição autoritária desses dois presidentes em dizer ou apontar que não serão determinadas pessoas a serem eleitas Presidente da República. É a população e os eleitores a tomarem essa decisão, não o Presidente ou quem quer que seja.”

    A CEDEAO avisou que a Guiné-Bissau é o único país da organização “onde os estupefacientes não só provocam uma crise sanitária, como comprometem potencialmente a viabilidade do Estado” e diz que “o tráfico de droga é identificado como uma das principais ameaças à segurança da Guiné-Bissau, já que está associado a grupos criminosos organizados, à corrupção e à instabilidade política”. O facto de um avião ter aterrado no aeroporto de Bissau com 2,6 toneladas de cocaína, que imagem dá do país?

    “A própria CEDEAO tem contribuído - e muito - para o actual estado de coisas aqui na Guiné-Bissau. É verdade que nos outros países também houve apreensões desse género, agora, o que difere a Guiné-Bissau com esses países é que nesses outros países não é perceptível o envolvimento supostamente das autoridades e aqui na Guiné-Bissau é visível, tanto que já foram presas algumas personalidades públicas da Guiné-Bissau no exterior, incluindo militares e políticos, deputados que foram presos no exterior. Então é essa a mensagem que infelizmente, a Guiné-Bissau tem passado.

    Eu acho que, em parte, o que disse a CEDEAO não deixa de ser verdade, mas a CEDEAO não se pode colocar de lado porque contribuiu para essa instabilidade cíclica que a Guiné-Bissau está a viver por não ter respeitado e se demonstra desconhecedora também das leis da Guiné.  Isso percebe-se logo na última conferência de Chefe de Estado, realizada em Abuja, onde tiraram um comunicado que não reflete porque, em vez de pronunciar muito claramente, chamando a responsabilidade do Presidente para marcar ainda este ano as eleições presidenciais, no comunicado, está lá que a Guiné-Bissau deve ir para eleições legislativas, quando não é o que a Constituição prevê.

    Em relação a essas irresponsabilidades da CEDEAO, inclusive enviar uma força de estabilização sem um debate no Parlamento, sem mencionar outros casos de atrocidades do ponto de vista institucional que a CEDEAO tem cometido com a Guiné-Bissau, por isso, não tem autoridade moral e muito menos política para estar a emitir posicionamentos desse género porque também não tem contribuído para melhorar.

    Se a Guiné-Bissau se transformar ou se for capturada pelo crime organizado, sobretudo de tráfico de drogas, isso também influenciará negativamente a própria sub-região e a CEDEAO não tem visto, não tem compreendido todo esse aspecto. É por isso que hoje temos situações, por exemplo, no Mali, no Burkina Faso, no Níger e na Guiné-Conacri. Isso mostra que a CEDEAO não está em condições de jogar um papel estratégico de influenciar o funcionamento da democracia nos seus Estados-membros.”

    O que significa o silêncio das autoridades sobre o rumo que foi dado ou teria sido dado à droga?

    “O que eu acabei de dizer: a diferença entre a Guiné e os outros Estados é que supostamente na Guiné tem o envolvimento das autoridades políticas e militares. Então, temos que trabalhar sobre esse aspecto, mas como é que vamos conseguir? Quando conseguirmos estabilizar o país.

    Portanto, é verdade que esta situação não é de hoje, já se arrasta de um tempo para cá, mas é necessário que aqui, internamente, façamos alguma coisa. Mas, também, a Guiné-Bissau não é uma ilha isolada do mundo, particularmente da comunidade à qual pertence que é a CEDEAO.

    A CEDEAO tem de ter um funcionamento claro e decisivo em relação à situação da Guiné-Bissau, quer política e quer em relação ao combate à droga porque o combate a droga não é uma luta que se faça de forma isolada. Por isso, a apreensão desse avião aconteceu em sinergia com os departamentos internacionais de luta contra a droga da Europa e dos Estados Unidos. Portanto, eu acho que é dessa forma que o país poderá reunir condições para lutar e combater os narcotraficantes. Temos que lutar para demonstrar ao mundo que a Guiné não é um narco-Estado, mas sim está a ser vítima por causa da fragilidade do Estado.”

    12 min
  • Ana Maria Cabral e as memórias de Amílcar Cabral [2/2]

    Cabo Verde assinalou, no dia 12 de Setembro, o centenário do nascimento de Amílcar Cabral. Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral, afirma não ter havido justiça quanto à morte do marido e defende ser necessário que as antigas potências assumam a responsabilidade pelos erros do passado.

    RFI: Como é que era um ambiente em casa durante os momentos mais tensos da luta? Vocês falavam sobre os acontecimentos diários ou tentavam separar o lado político da vida familiar?

    Ana Maria Cabral: Falávamos sobre tudo, com os nossos filhos tinha que ser uma linguagem mais adaptada para que eles entendessem. Eles tiveram uma grande experiência; por exemplo, a 22 Novembro de 1970, se a memória não me falha, os colonialistas resolveram atacar Conacri. Bombardearam a nossa casa e não morremos, eu e os meus filhos, por um acaso porque a casa foi mesmo atingida. Tínhamos uns vizinhos, uma família da ex-Jugoslávia, que um dos filhos apanhou com uma bomba que conseguiu separar-lhe a cabeça. Vinha a correr, a sair do quarto -assustou-se com o barulho - quis sair do quarto e ir para o quarto dos pais e a bomba apanhou-o porque a casa deles era igual à nossa.

    Na altura, Sékou Touré era presidente da Guiné-Conacri e cedeu-nos um bairro que existia em Conacri que tinha sido feito pelos franceses, que se chamava bairro de La Minière porque o país tem muitos minerais, além da bauxita, tem ferro, tem cobre. Os franceses tinham construído aquele bairro que chamavam Minière. Quando os franceses saíram e se foram embora com a independência da Guiné-Conacri, o Sékou Touré deu ao PAIGC esse bairro.

    Não foi nada fácil. Eu tinha o pressentimento que ele poderia desaparecer de um dia para o outro. Os colonialistas estavam tão desesperados que queriam à força apanhar o Cabral. Ele sofreu várias tentativas até que conseguiram a 20 de Janeiro de 1973. Eu tinha consciência disso e tive quase dois anos a tentar convencê-lo e ele não queria aceitar. Estava preocupada e tinha um pressentimento que não seria nada fácil.

    Vivia preocupada com a questão da vossa segurança, da segurança, da família?

    Vivia muito preocupada, embora estivesse completamente comprometida com o PAIGC, com a escola piloto, com a elaboração de livros. Vivia muito preocupada com a situação.

    Como é que vê hoje o legado de Amílcar Cabral em Cabo Verde, aqui, na Guiné-Bissau, em África, 51 anos depois da morte de Amílcar Cabral?

    Eu acho que em certos países há muito mais preocupação em seguir o legado de Cabral. Em certas universidades, a obra de Cabral foi traduzida para inglês, para o francês. O falecido Mário Andrade, intelectual angolano que era muito próximo do Cabral, começou a traduzir em francês, agora já está publicado em França e na África do Sul, em inglês, na América, na Europa, em vários países. A obra dele tem sido estudada, traduzida e discutida.

    Nós temos um bocado de culpa porque fizemos muito pouco, depois das independências dos nossos país, para manter vivo o pensamento de Cabral, para o divulgar.

    Em que sentido é que tem culpa?

    No sentido de fazer maior divulgação da obra da Amílcar Cabral. Claro que se criou a Fundação Amílcar Cabral, em Santa Catarina e na Assomada há um liceu Amílcar Cabral. Fazem-se exposições com as obras de Cabral, quanto a mim é pouco.

    Se Amílcar Cabral estivesse vivo hoje, o que é que ele diria aos jovens?

    Eu penso que eu diria aos jovens que têm que estudar e aprender porque esta terra já não é uma colónia. É uma terra independente e há muito por se fazer.

    Alguma história que queira partilhar connosco, que não seja conhecida nas narrativas históricas de Amílcar Cabral da vossa história.

    Apesar de todas essas preocupações, ele dava muita atenção aos nossos filhos. Havia uma refeição que ele fazia questão de comermos todos juntos, em geral era o pequeno-almoço porque depois os meninos iam para a escola e eu para o meu trabalho. Por vezes, mandava-me chamar lá da escola, arranjavam um motorista ou ia mesmo buscar-me.

    Ele levantava-se muito cedo e tomava um café, um sumo de laranja ou de toranja, havia muita toranja em Conacri, e um cafezinho preto, mas só comia por volta das dez horas. Era nessa altura que vinha buscar-me às aulas e eu ficava furiosa porque tinha de interromper a aula. Tinha de arranjar uma desculpa qualquer aos meninos e ir, porque sua excelência não queria comer sozinho ou queria companhia.

    Queria partilhar inquietações?

    Exactamente.

    De conhecer o seu parecer relativamente a decisões importantes que teria que tomar...

    Provavelmente era isso que queria. Gostava e tinha de perceber o meu trabalho, tinha de conhecer tudo sobre o meu trabalho: o que eu fazia lá na escola, tudo o que eu não fazia.

    As grandes reuniões do partido eram lá nessa escola piloto. Ficava mais ou menos a cerca de três quilómetros de entre o secretariado do PAIGC, onde vivíamos e onde ficava a Escola Piloto.

    Depois também aparecia assim de repente, na escola, logo de manhã cedo, às 10 horas porque a primeira aula que eles tinham era ginástica e ele incentivava os professores a dar atenção à ginástica, não só ao intelecto, mas também ao físico.

    Se tivesse oportunidade de rever Amílcar Cabral e contar-lhe no que se transformou o mundo, o que é que lhe contaria?

    Teria de aceitar e dizer-lhe que o mundo evoluiu. Temos um outro mundo, temos o mundo já quase sem colónias - que eu saiba que eu me recorde, assim de repente, não há grandes colónias, os países estão independentes.

    Claro que há muita coisa ainda por fazer. Há guerras: a guerra ridícula, para mim, da Ucrânia, a guerra da Palestina com Israel, que é outra coisa mais ridícula. Não percebo por que motivo é que não se entendem porque podiam fazer se dois Estados o Estado de Israel, o Estado da Palestina. Porque é que ainda há tanta divisão? Por exemplo, o problema do Vietname ficou resolvido, o problema das colónias portuguesas ficou resolvido. Há pequenos conflitos, mas está muito melhor do que era antigamente.

    Valeu a pena lutar?

    Valeu a pena, embora com muito sacrifício. Muitos de nós estão com uma saúde completamente estragada e agora é que se estão a revelar os problemas de saúde.

    Na casa dos estudantes do Império e das reuniões entre Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mário de Andrade, todos poetas. Consegue explicar essa ligação entre a política e a poesia?

    O que é a poesia senão relatos da vida, da vida diária?

    Sente que houve justiça em relação ao que aconteceu a Amílcar Cabral? Pede se uma investigação séria, transparente para conhecer as circunstâncias, para perceber realmente o verdadeiro papel dos aliados e inimigos internos e externos de Cabral. Sente hoje que houve justiça?

    Não houve justiça nenhuma, mas há tempo alguém falava - creio que foi o Presidente  Marcelo - que era preciso fazer uma reparação. Vários políticos foram contra isso. Ele tem uma certa razão. As antigas potências deveriam fazer uma espécie de reparação. Essa história de uma boa cooperação bilateral faz parte, mas é pouco ainda. Acho que é pouco.

    E como é que se repara?

    Essa, é a questão. Como é que se repara? Se nos sentarmos e pensarmos, analisarmos bem, havemos de encontrar uma maneira.

    10 min
  • Ana Maria Cabral e as memórias de Amílcar Cabral [1/2]

    Cabo Verde comemora o centenário do nascimento de Amílcar Cabral, figura que liderou a luta pela libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. "Quando conheci Cabral o que me atraiu logo foi o lado político. Nós seguíamos as lutas de todos os povos do mundo. Acompanhámos a libertação de Cuba e precisávamos de gente assim para começar a luta, para mudar o nosso país", conta-nos Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral.

    RFI: De que forma é que olha para estas celebrações em torno do centenário do nascimento de Amilcar Cabral?

    Ana Maria Cabral: Foi uma boa iniciativa, mas foi pena não ter oportunidade de mobilizar mais gente, sobretudo jovens. A sala estava muito vazia. Fiquei impressionada, tendo em conta que se realizou no auditório de uma universidade. Claro que as aulas ainda não começaram, mas devíamos ter mobilizado mais alunos, porque foi pena. As intervenções foram muito interessantes. Foi pena realmente a assistência ter sido muito reduzida. 

    Recorda-se do primeiro encontro com Amílcar Cabral?

    O primeiro encontro foi há muitos anos. Acho que o primeiro encontro terá sido em Lisboa. Havia gente ligada à Casa dos Estudantes do Império, onde eu era muito activa. A Casa dos Estudantes do Império ficava na Rua Actor Vale, 37, onde vivia uma família de São Tomé e Príncipe, se a memória não me falha. Acho que foi nessa casa que eles criaram o Centro de Estudos Africanos, ele, o Agostinho Neto, o Mário de Andrade, já todos falecidos. Mais tarde entrou também o Eduardo Mondlane, de Moçambique, que também já morreu.

    Organizavam-se bailes, encontros no Natal, porque a maioria não tinha familiares em Portugal e era uma maneira de estarmos juntos. Na Casa dos Estudantes do Império, além das festas, organizavam-se outros actos culturais. Eu conheci o Amílcar numa dessas casas. Um dia disseram que ele era casado com uma portuguesa e eu disse 'ele não quer saber nada da nossa terra'. Foi uma amiga são-tomense que nos apresentou, ela continua a viver em Portugal, chama-se Esperança e também é viúva como eu. Foi ela quem me apresentou o Amílcar Cabral.

    O que é que a atraiu: o homem ou o político?

    Quando conheci Cabral o que me atraiu logo foi o lado político, embora fosse um homem extremamente atraente. Nós seguíamos as lutas de todos os povos do mundo. Até acompanhámos a libertação de Cuba e sempre precisamos de gente assim para começar a luta, para mudar o nosso país, libertar os nossos países. Foi interessante.

    Quais é que foram os maiores desafios de ser esposa de um líder revolucionário?

    Os desafios foram tantos, tantos, que eu podia ficar um dia inteiro a contá-los. Resumindo: o maior desafio foi acompanhar uma personalidade como ele, com um carácter forte. Além de ter um carácter muito forte, ele era condescendente, aceitava as opiniões de todos, mesmo se ele reparasse que não tínhamos razão. Ele aceitava porque ele aceitava a opinião de toda a gente. Ele dizia que 'todos nós somos úteis para essa nossa luta de libertação' e por isso aceitava a opinião de toda a gente. Lembro-me das reuniões que ele fazia com os mais velhos, com aqueles chefes. A Guiné é um país pequenininho, mas cheio de grupos étnicos, variadíssimos grupos étnicos. Há grupos que são sociedades estratificadas, e ele reunia-se com esses chefes. Uma vez, lembro-me, a propósito das mulheres, ele tinha lançado a ordem de que tínhamos de proteger as nossas mulheres nas áreas já libertadas do colonialismo. Ele insistia que era preciso chamar as mulheres.

    Integrá-las na luta?

    Não só integrá-las, havia muitas mulheres. As mulheres foram as primeiras a participar na luta porque elas eram exploradas em casa pelos maridos. Permitia que toda a gente participasse, inclusivamente aqueles que não estivessem de acordo podiam defender os seus ideais, as suas opiniões. Ele aceitou que toda a gente expusesse o seu ponto de vista, mesmo que fossem contrários à opinião dele. Por exemplo, nas áreas libertadas ele e os companheiros dele, se eram cinco membros, três tinham que ser mulheres. Se eram comités pequenos ou de três membros, um tinha de ser uma mulher. Houve muitos protestos da parte dos homens que diziam 'não há mulher para ficar em casa para cozinhar para nós', não sei o quê. Foi muito difícil.

    Mais tarde, ele e os companheiros dele resolveram criar as milícias, que eram gente que ajudava os combatentes que estavam a participar directamente no combate. Foi também um problema, os homens mais velhos não queriam que a mulher participasse, mas lá se conseguiu. Houve algumas mulheres que se tornaram célebres, como a Carmen Pereira, já falecida, e a Titina Silá, que morreu estupidamente. Ela estava numas áreas libertadas no Norte e como era muito jovem tratava o Cabral como pai. Quando soube da sua morte  quis ir a Conacri assistir aos funerais e os portugueses colonialistas acharam que deviam passar por aquele rio, que era um rio cheio de crocodilos. Ela caiu e como não sabia nadar, os companheiros não conseguiram salvá-la e ela terá sido levada e comida pelos crocodilos. Teve uma morte estúpida. A Titina Silá é considerada uma heroína. Todos os anos, depois de 20 de Janeiro, a data em que mataram o Cabral, as pessoas levam as crianças com flores e vão deitar flores a esse rio.

    O facto de ter vivido ao lado de Amílcar Cabral, de o ter apoiado, como é que vê para o seu contributo na luta de libertação?

    Eu, como era militante, eu tinha de contribuir, como toda a gente.

    Mas mais ainda enquanto esposa..

    Como militante fui professora na Escola Piloto. Depois foram-se criando áreas libertadas e uma das coisas que se fez foi criar pequenas escolas onde a palavra de ordem era 'quem souber ler e escrever tem de ensinar aos outros'. Os combatentes que sabiam escrever e ler, ensinavam. No início, abriram-se pequenas escolas com os meninos sentados no chão e assim começou a alfabetização nas áreas libertadas. Trabalhei na escola piloto como professora com os alunos, tivemos de fazer livros, tivemos de arranjar todo o material para fazer livros. Mais tarde, com o desenvolvimento e com trabalho de Cabral e dos outros, recebemos muito material escolar da parte dos países nórdicos, sobretudo da Suécia, Alemanha, antiga RDC, de Cuba... e às vezes tinha de interromper o meu trabalho porque o Cabral estava cansado de viajar sozinho e pedia que eu o acompanhasse. Fui a muitas conferências, acompanhando o Cabral.

    9 min
  • "Cabo Verde é um país independente graças a Amílcar Cabral"

    Em entrevista à RFI, o Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, evoca o centenário do nascimento de Amílcar Cabral como um momento que revela "a heroicidade do povo cabo-verdiano, apesar de todas as adversidades, Cabo Verde é hoje um país independente, graças à liderança de Amílcar Cabral".

    RFI: Cabo Verde assinala o centenário do nascimento de Amílcar Cabral. Foi depositada uma coroa de flores, feito descerramento de uma placa alusiva ao centenário. Esta é a homenagem justa ao pai da nacionalidade cabo-verdiana?

    José Maria Neves: Para além dessas actividades, foram realizadas muitas outras, como o Simpósio 'Amílcar Cabral, um património nacional e universal'. Há debates em várias universidades, manifestações culturais. Penso que a sociedade civil está a comemorar com algum entusiasmo o centenário do nascimento de Amílcar Cabral, que é hoje uma figura consensual em Cabo Verde e que se destaca como um dos principais heróis nacionais.

    O que é que esta data lhe evoca?

    Evoca heroicidade do povo cabo-verdiano, apesar de todas as adversidades, Cabo Verde é hoje um país independente, graças à liderança de Amílcar Cabral e está a construir o seu desenvolvimento. Cabral colocou sempre no centro da sua luta a dignidade da pessoa humana e hoje os cabo-verdianos vivem mais dignos com liberdade, em democracia. Estamos a construir os alicerces de um desenvolvimento durável. Considero que Cabral deu um enorme contributo para que hoje pudéssemos ter este Cabo Verde mais digno e com uma grande abertura de espírito para construir um futuro melhor para todos.

    Uma das maiores inquietações e preocupações de Cabral era a educação, eram as crianças. Essa continua a ser uma prioridade, uma vez que a maioria da população é muito jovem em Cabo Verde?

    Claro, os investimentos nas pessoas, particularmente educação, saúde e segurança social, eram preocupações fundamentais de Cabral. Após a independência investimos na educação, na democratização do acesso à escola e hoje temos escolas por todo o país liceus, universidades e temos uma população formada e educada. Eliminámos o analfabetismo e houve uma expansão do sistema nacional de saúde, do sistema de segurança social. Estamos com indicadores muito elevados nesses domínios. Fizemos o que tínhamos que fazer nesses 50 anos da nossa independência. Agora é dar o salto e fazer melhor, sofisticar mais e continuar a investir na educação, na saúde, na segurança social e, finalmente, na melhoria da qualidade de vida das pessoas.

    Este centenário não tem o mesmo eco nos dois países de Cabral. Consegue entender porquê?

    Bom, há alguns ruídos, alguns problemas. Aqui em Cabo Verde, Cabral é herói nacional,  segundo um diploma de Estado. Cabral tem sido homenageado por todos os chefes de Estado cabo-verdianos da democracia. Ainda em 2000, no quadro das comemorações dos 25 anos da Independência, foi inaugurado o mausoléu e fez-se o descerramento da placa por António Mascarenhas Monteiro, homenageando Cabral enquanto fundador da nacionalidade cabo-verdiana. É importante reconhecermos esses pontos, esses factos e respeitarmos os símbolos nacionais, respeitarmos a história do país.

    Um país tem de ter alicerces espirituais muito fortes para poder construir o futuro. E aqui as datas nacionais o 20 de Janeiro, o 5 de Julho, o 13 de Janeiro, a bandeira, o hino, os heróis nacionais são seivas importantes para irrigar a espiritualidade, a identidade cabo-verdiana e podermos, assim, de mãos dadas, construir o futuro. Portanto, em Cabo Verde respeitamos, queremos ser um país livre, com grande abertura de espírito, um país democrático e é isso que está em causa.

    Há outros conflitos, outros problemas na Guiné-Bissau, mas há também esforços de algumas comunidades no sentido de comemorarem condignamente o 12 de Setembro e espero que possamos ultrapassar os conflitos, os problemas existentes, porque Cabral lutou sobretudo para forjar uma nação guineense forte, onde as pessoas pudessem viver com liberdade e com dignidade.

    Como é que vê a Guiné-Bissau hoje, como histórico do PAICV, como vê a relação com o PAIGC?

    Acho que a nível do Estado, que é o que eu posso falar, temos feito um esforço para haver boas relações com a Guiné-Bissau. Fiz já uma visita de Estado à Guiné-Bissau, fiz uma outra visita para participar na cimeira da CEDEAO. O Presidente já fez uma visita de Estado a Cabo Verde. Já esteve nas comemorações dos 50 anos da libertação dos presos políticos e, portanto, é muito importante que essas relações entre os Estados se concretizem com abertura e de uma forma construtiva. Há conflitos na Guiné-Bissau, mas caberá às elites políticas, às principais lideranças, encontrarem, autonomamente, formas para resolverem os seus próprios problemas.

    Em 2020, um conjunto de historiadores na BBC considerou que Amilcar Cabral é a segunda figura mais importante do século XX. Cabral é um herói nacional, mas é também um herói aclamado no mundo?

    Sim, Cabral é muito debatido, mesmo em Portugal porque Cabral, nos seus textos, tem um grande carinho, uma grande amizade pelo povo português e dizia até que após a independência, deveríamos estabelecer relações especiais com Portugal.

    É o caso?

    E é o caso, Cabo Verde tem relações muito especiais com Portugal e é importante termos em conta que Cabral também promovia muito a língua portuguesa e disse que talvez fosse a principal herança que nós teríamos de Portugal. A sua primeira mulher era portuguesa e sentia-se, pela sua formação, pelo seu discurso, que Cabral tinha uma grande admiração pelo povo português, pela cultura portuguesa, pela língua portuguesa. Isso influenciou muito, desde a independência, as relações entre Cabo Verde e Portugal.

    Há quem defenda que a melhor forma de homenagear Cabral é dizer a verdade sobre a sua morte sobre o assassínio. O que é que tem a dizer em relação a isto?

    Eu acho que os actores materiais do crime já foram identificados. A questão tem a ver com autoria moral. Mas é claramente pelos acontecimentos, pela história, pelos antecedentes, que Cabral terá sido assassinado a mando da PIDE/DGS. E isso é cada vez mais evidente para quem conhece os antecedentes e toda a história da morte de Cabral. Ainda que pairem dúvidas sobre esta matéria, havia muitas contradições, muitos conflitos. Mas é evidente, cada vez mais, que os autores morais desse crime têm a ver com agentes do colonialismo.

    O Presidente Pedro Pires dizia-nos que Amilcar Cabral doou a vida pelo povo cabo-verdiano e guineense. Concorda?

    Sim. Amílcar Cabral morreu pela independência da Guiné e de Cabo Verde. Há dias, Pedro Pires terá dito que tem uma dívida trágica com Cabral porque permitiram que ele fosse assassinado, que foi uma falha. As lutas com essa dimensão acabam por conter falhas desta natureza. Mas Cabral é efectivamente o homem que doou a sua juventude e doou a sua própria vida à causa da libertação da África e particularmente dos povos da Guiné e Cabo Verde.

    O Senhor Presidente recorda-se, devia ser muito novo na altura, do dia 20 de Janeiro de 1973?

    Eu recordo-me, mas por um fenómeno fortuito. Havia uma pequena gráfica em Santa Catarina. Havia um grupo de jovens que trabalhavam nessa gráfica no dia da morte de Amílcar Cabral. Foram distribuídos panfletos, panfletos na Assomada que denunciavam a morte de Amílcar Cabral. Os jovens que trabalhavam nessa gráfica foram todos presos pela PIDE e interrogados para saber se eles é que tinham impresso esses panfletos, que eram coloridos, e foram imediatamente recolhidos. Não entendi bem porque é que tinham sido recolhidos. Eu estava no ciclo preparatório. A ideia era que tinha sido morto um grande terrorista que quis derrubar Salazar. Para os mais velhos, na altura era uma grande ousadia um homem africano querer derrubar Salazar. Foi a partir desse elemento fortuito que eu tomei conhecimento, mas não tinha a dimensão da luta das principais questões que se referiam à libertação da África e da Guiné e Cabo Verde.

    A traição e o assassínio de Amilcar Cabral foram um golpe devastador para o movimento. Como é que o PAIGC reagiu a essa perda e o que é que mudou depois?

    Eu acho que, passado o trauma inicial, o PAIGC conseguiu reorganizar-se e conseguiu ter forças e energia um pouco para "vingar" a morte de Cabral. Foi o que aconteceu. Proclamaram a independência, houve recrudescimento da luta armada nas várias frentes e conseguiram efetivamente grandes ganhos no plano internacional e o PAIGC sobreviveu à morte de Cabral.

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  • Pedro Pires: "Toda a minha vida gira à volta dos projectos de libertação"

    Comemora-se esta quinta-feira, 12 de Setembro, o centenário do nascimento de Amílcar Cabral. Pedro Pires, antigo Presidente de Cabo Verde e um dos líderes da luta de libertação da Guiné e de Cabo Verde recorda a sua relação com Amílcar Cabral.

    RFI: No Simpósio Internacional Amílcar Cabral, disse que "Cabral é uma personalidade excepcional, que não nasce todos os dias" porquê?

    Pedro Pires: Na verdade é ou foi uma pessoa excepcional. Quando avaliamos o seu percurso pessoal, o seu percurso político, chegamos a essa conclusão porque Amílcar Cabral, quando decidiu dedicar-se 100% às lutas de libertação de Cabo Verde, da Guiné e das outras colónias portuguesas em África já era um técnico muito conhecido e tinha a vida organizada do ponto de vista material. Estava muito bem e é a pergunta que se coloca. Porquê? O que é que o motivou? Aí é que chegámos à conclusão da sua excepcionalidade, porque geralmente uma pessoa nessas condições teria dúvidas, teria reservas. Mas ele não teve dúvidas. Estava convencido daquilo que fazia ou estava convencido do valor das suas opções. É dessa forma que eu avalio a personalidade de Amílcar Cabral.

    Ao mesmo tempo, o seu percurso político foi excepcional. Afirma-se naturalmente como um grande líder, um grande dirigente e afirma-se como um teórico, um pensador, alguém que foi capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo: dirigir uma luta de libertação que obriga a um esforço grande e a ocupação do tempo disponível. Mas, ao mesmo tempo, há a reflexão, criatividade, a inovação, a busca de razões e a busca de explicações. Cabral, quando morreu tinha uma visão completamente diferente - espero que não esteja a exagerar - da luta que conduzia, das possibilidades e das capacidades dos povos que dirigia. Amílcar Cabral é o símbolo de tudo isso. O que marca ainda mais é a sua morte trágica. Apesar de tudo isso, não fugiu a uma morte trágica e isso também faz dele uma personalidade excepcional.

    Lembra-se do primeiro dia em que conheceu Amílcar Cabral?

    Quando conheci Amílcar Cabral já tinha tomado uma decisão, uma opção de integrar o partido que Amílcar Cabral dirigia. Depois desse encontro inicial, tivemos a oportunidade de conviver durante cerca de 12 anos. Isso deu-me a oportunidade conviver com ele, discutir com ele, debater com ele, de apreciar as suas qualidades de líder, apreciar as suas qualidades humanas. Tive essa oportunidade e as minhas conclusões derivam dessa convivência, mas também da avaliação que eu tenho estado a fazer do percurso dele.

    Amílcar Cabral é para mim uma interrogação por que é que isso aconteceu: Por que motivo optou por isso? Por que motivo agiu assim? É sempre uma interrogação para mim. Para mim, há dois ou três conceitos. Nesse aspecto, a doação, a dádiva, o reconhecimento. Ando a reflectir à volta disso. Tenho gratidão por aquilo que fez, gratidão por aquilo que doou e reconhecimento por aquilo que fez.

    Ele doou a sua vida?

    O mais trágico é ter doado a vida. Isso é o final trágico de tudo isso. Esse final trágico, eu acho que talvez seja a razão da nossa ligação. A razão da minha dívida para com ele.

    Que momentos mais marcantes viveu ao lado de Amílcar Cabral na luta pela independência?

    Vivi vários momentos e, mais do que isso, tenho todas as correspondências trocadas com ele quando me encontrava no sul da Guiné. No simpósio estava a ver a plataforma apresentada para o Alfredo Caldeira e veio-me à memória o seguinte: afinal, quando ele foi interceptado no aeroporto de Orly, eu estava lá à espera dele, afinal a polícia francesa roubou-lhe os documentos que tinha, certamente algumas notas que tinha. Ele vinha da Suíça e polícia francesa roubou, retirou, mas o pior não era o ter roubado para uso próprio. O pior é ter enviado à PIDE essa documentação. Foi um momento extremamente complicado para mim, agora tenho os dados da polícia DGS, a polícia francesa tem os dados e posso avaliar os riscos que tínhamos corrido. Se ele foi interceptado depois Mantido, não diria detido porque seria exagerado utilizar a palavra detenção, eles identificaram que eu era companheiro dele. Quais os riscos que pairavam sobre mim? Ele podia ser mandado para Portugal. Eu podia ser preso.

    Tinham consciência dos riscos que corriam na altura?

    Não. Francamente, eu acho que fui nessa matéria - porque eu estive cerca de dez meses em França a fazer um trabalho clandestino. Talvez eu acreditasse que a polícia francesa não não se interessasse por aquilo que eu andava a fazer. Afinal, interessava-se, interceptou as minhas correspondências, interceptou o meu líder e tudo isso foi um momento de grande tensão e de grande risco.

    Estávamos em 1968, mas eu tinha estado em França durante todo o ano de 65. Não diria que presenciei nem testemunhei, mas tive conhecimento directo do rapto do Ben Barka, que era o líder da oposição, líder esquerda da oposição marroquina, era o presidente da comissão organizadora da Conferência Tricontinental, foi raptado em França, numa outra avenida do Quartier Latin, é raptado em pleno Paris e desaparece para sempre. Quando aconteceu esse acidente ou incidente com Amílcar Cabral, eu lembrei me imediatamente do destino do Ben Barka. Esse foi o momento de grande tensão, mas ao mesmo tempo teríamos de ter alguma coragem para tomar as iniciativas que pudessem oferecer-lhe a garantia de que não seria preso e enviado a Portugal.

    Há pouco falou da troca de correspondências quando se encontrava no sul da Guiné com Amílcar Cabral. Do que é que falavam na altura?

    Já falava da luta armada na Guiné e dos objectivos que tínhamos em vista, era uma correspondência operativa sobre aquilo que nós deveríamos fazer, sobre aquilo que eu devia fazer, sobre algumas operações que ele achava que nós devíamos elaborar. Uma dessas cartas fala precisamente da operação que veio constituir o fim da guerra, que era o ataque ou assalto ao quartel de Guileje, no sul da Guiné. Houve três correspondências em que insistia nessa questão que era preciso resolver o problema de Guileje, que nós conseguimos resolver quatro meses após a sua morte.

    Que problema era esse?

    O problema é o facto de haver um quartel que devíamos eliminar. Esse era o desafio. Se não é problema, era o desafio. A operação decorre de Março a Maio 1973 e organizámos a operação fins de Fevereiro, início de Março até 22 de Maio de 1973. Foi o golpe final e o abandono do quartel pelas tropas portuguesas.

    De que forma Cabral conciliava a luta armada, a diplomacia e a formação política do povo?

    O Cabral era um líder excepcional porque, para além de tudo isso, ele formava-se, melhorava as suas capacidades, melhorava os seus conhecimentos. Essa excepcionalidade de conseguir fazer tudo isso ao mesmo tempo. Nesse aspecto, lembro-me de também eu estava em Paris, naquela missão de 1965. Ele pediu me um livro de um antropólogo polaco, mas trabalhou na Inglaterra de nome Malinowski. Andei o Quartier Latin inteiro para encontrar esse livro, até que o encontre. Ele disse Bom, tens de me arranjar e mandar esse livro. Encontrei o livro de Malinowski sobre uma das etnias da Nova Guiné. Isso é para dar ideia que, para além de tudo, ainda se cultivava, investigava. Aí está a sua excepcionalidade. A capacidade era muito maior do que a nossa para fazer tanta coisa ao mesmo tempo.

    Ele ficou conhecido pela capacidade de unir diferentes grupos étnicos e culturais. Como é que ele conseguiu formar uma frente unida no contexto de uma luta diversificada?

    Está claro que há perguntas para as quais não tenho resposta. A minha resposta vem da observação e da convivência pela entrega plena, completa. O espírito de entrega, a coerência, o seu sentido de compromisso, mas a sua fidelidade à causa. Só isso é que poderia inspirá-lo a fazer tudo isso ao mesmo tempo. Mas, ao mesmo tempo, posso introduzir um outro conceito ou uma outra avaliação é a ligação. Podemos chamar isso até o amor que ele tinha para os guineenses, para os cabo-verdianos, é esse amor, a identificação, o espírito de pertença, o sonho de ver esses povos livres.

    Em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, decorre desde segunda-feira o Simpósio Internacional Amílcar Cabral. Numa altura em que já passaram mais de 50 anos da morte de Cabral, que legado é que ele deixa em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em África e no mundo?

    O legado é interessante porque ia comentar como é que está a decorrer o simpósio. O interessante aqui é que o número de intervenientes, o número de conferencistas de Cabo Verde da Guiné em número elevado, significa que os jovens, a mensagem passou. A mensagem chegou. Caso não tivesse chegado, não haveria essa parte, a ideia, a presença ou pensamento de Amílcar Cabral está difundido. Veja tudo isso junto, diz-nos que, na verdade, Amílcar Cabral e seu pensamento está presente entre nós nas várias instituições de ensino. Para mim, esse é o lado mais importante.

    O que é que significa para si Amílcar Cabral enquanto amigo e enquanto líder da libertação?

    As nossas relações eram relações de amizade e de camaradagem. Diria que é algo que ultrapassa muita coisa porque nós corríamos o risco juntos, investíamos o que nós tínhamos nesse projecto e essa ligação e nós estávamos a correr o risco, mas sonhávamos o mesmo sonho.

    Valeu a pena?

    Acho que sim. Acho que valeu a pena pessoalmente. Toda a minha vida gira à volta desse projecto que é o projecto da libertação dos nossos países e ao mesmo tempo, o projecto da sua afirmação, mas também que é o projecto da mensagem de Amílcar Cabral: a mensagem da libertação. A mensagem que nós devemos pensar pelas nossas cabeças, mas nós devemos assumir o nosso destino.

    O Miguel de Barros abordou essa questão da soberania, das nossas opções, da soberania, das nossas decisões. Nós devemos assumir como responsáveis pelo nosso futuro. Por vezes é extremamente complicado ou difícil porque há todo um movimento internacional no sentido de nos tirar, déposséder em francês, da nossa soberania de decisão, através dos métodos médicos e dos agentes mais diversos, de modo estamos sem saber, sem descobrir e estamos em competição permanente quanto ao futuro do mundo.

    No início da entrevista falava das questões que se coloca, das respostas que ficaram por responder. Imagino que falava de quem disparou em 1973 contra Cabral. Acredita que tenha sido alguém dentro do partido do PAIGC?

    A questão da traição nos movimentos de libertação, nas guerras, são fenómenos provocados pelos traidores. Ele são aqueles que são utilizados pelos nossos inimigos para trair a nossa causa e, eventualmente, assassinar os líderes. Foi o que aconteceu e Amílcar Cabral abordou a questão da traição de diversos ângulos: a primeira vez que ele aborda a questão foi em 1961 no Cairo, numa comunicação em que dizia que a crise africana é uma crise do conhecimento. Ele diz os imperialistas não dispensam os seus agentes, os traidores. Em 1961 já tinha abordado essa questão. Ele aborda essa questão da traição na homenagem a Kwame Nkrumah, em que aborda a questão do cancro, da traição. Isso dá-nos a ideia da dimensão do homem africano.

    Ele aborda essa questão já num contexto interno, quando do assalto a Conacri, perguntamos por que é que os guineenses, depois de terem a independência, depois de ter ganho a dignidade da independência, da soberania, decidem trair a pessoa que encarna tudo isso Sékou Touré. Por que é que decidiram trair? O que é que faltava? Colocava-se a questão mas as instituições que nós criámos dão plena confiança às pessoas que dirigimos. A questão da confiança, a questão da desconfiança, o medo do futuro, mas isso vem de longos anos de dominação colonial que nos fez perder essa capacidade.

    A traição é corrente no seio dos movimentos de libertação. O traidor, ou seja, aquele que ia assassinar Amílcar Cabral, teria que estar no nosso meio. Ele disse isso, alertou para isso várias vezes, não é nada de incomum que houvesse traição no nosso meio. O trabalho do nosso inimigo era precisamente criar traidores, alimentar traidores, fazer com que esses traidores traíssem a luta e isso é derivado da fraqueza enorme em matéria de consciência nacional, uma fraqueza enorme em matéria de dignidade e uma fraqueza enorme em matéria de confiança em si. São fraquezas que nos conduzem à traição.

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  • "Resgatar o pensamento revolucionário de Cabral para as lutas de hoje"

    Decorre esta quarta-feira, 11 de Setembro, o terceiro dia do simpósio internacional Amílcar Cabral - um património nacional e universal. O investigador guineense, Sumaila Jaló, participou na mesa redonda sobre Cabral e a Juventude: um debate inter-geracional. O estudante em doutoramento no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra afirma ser preciso "resgatar o pensamento revolucionário de Amílcar Cabral - enquanto ideologia progressista - para as lutas de hoje".

    RFI: Amílcar Cabral teve uma relação profunda com a juventude, tanto no contexto do movimento de libertação como em termos de inspiração política e ideológica. Esta relação entre o legado de Cabral e a juventude ainda existe?

    Sumaila Jaló: Existe há uma transdimensão em que podemos falar dessa relação de Cabral com a juventude. Uma primeira dimensão que é a dimensão da ausência, que consiste nas tentativas de apagamento do legado da luta e da acção revolucionária de Amílcar Cabral e dos seus camaradas no espaço público, tanto no sistema educativo como no espaço dos partidos políticos para a mobilização pública. No próprio PAIGC que ele ajudou a fundar que, a partir do golpe de 14 de Novembro de 1980, se desligou com a sua base ideológica fundadora, pan africanista, socialista e que pugna pelo progresso do povo realizado pela mobilização do próprio povo, mas também uma tentativa muito actual de certos poderes políticos identificados no caso da Guiné-Bissau, que decretam a celebração do Dia da Independência a 16 de Novembro, dia das Forças Armadas e não 24 de Setembro, que é o dia da proclamação unilateral histórica da independência da Guiné-Bissau. Uma tentativa de militarização do poder, mas também, muito recentemente, através de um despacho que impede a fixação de cartazes no espaço público para a celebração do centenário. Primeiro esta ausência, depois a presença na cultura em toda a sua dimensão na produção cultural. A figura de Cabral e o legado da luta aparece e a partir da produção cultural que a juventude se conecta com o legado de Amílcar Cabral. Através disso, os movimentos sociais que, tanto na Guiné-Bissau como em Cabo Verde, assim como nas suas diásporas, se mobilizam com base no pensamento revolucionário de Amílcar Cabral, para a transformação. Finalmente, há uma dinâmica de resgate da figura de Cabral.

    O que eu acredito é que essa dinâmica de resgate não seja no sentido de salvar o pensamento do Cabral, porque isso está salvo, 51 anos depois do seu assassinato, nós ainda falamos de Cabral e celebramos Cabral e o seu pensamento. O que nós precisamos é um resgate para o pensamento revolucionário de Cabral enquanto ideologia progressista e de transformação da realidade que nos sirva para as lutas de hoje, as lutas para a emancipação do povo guineense e cabo-verdiano, mas sobretudo para a construção de uma nova vida na paz e na dignidade em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em África e para toda a Humanidade.

    E porque é que acontece esse distanciamento entre as classes políticas, com a sociedade civil e este legado de Amílcar Cabral?

    Este desligar de entidades políticas, particularmente partidos políticos com as bases populares que mobilizam deu-se primeiro, como o próprio PAIGC, que é um movimento revolucionário de massas na sua origem. Mas a transição de sistema de partido único para a liberalização económica e depois para a abertura política. Não estou a dizer que estas aberturas não deviam ter acontecido, mas não são motivos para um partido dessa dimensão esvaziar do seu espaço o pensamento comprometido com a transformação dessas massas populares. O que aconteceu foi o aburguesamento das lideranças desses partidos políticos que repeliu a sua relação com as massas populares e essa desconexão começou a gerar desconfianças desse próprio povo que alimentou o surgimento do PAIGC com esta estrutura. Esta dinâmica se alastrou para todos os outros partidos criados com a abertura democrática: Em vez de o partido ser uma instituição ao serviço da população, o partido passou a transformar-se em entidades que se servem do erário público produzido pela população e pela massa popular.

    Amílcar Cabral defendia a educação política dos jovens. Acreditava que o futuro da África dependia da formação das novas gerações conscientes e preparadas, Muitos jovens foram educados pela visão de auto-determinação e igualdade. O que é que aconteceu a estes jovens? Onde é que estão estes jovens hoje? E o que é que fizeram pelo país?

    Há duas questões aqui: Quando o PAIGC e o resto dos outros partidos políticos se transformaram em espécies de castas para incorporar interesses pessoais e não interesses colectivos, quadros até formados por esses partidos, na linha progressista de servir para a transformação da realidade, para o benefício de todos. Quadros que não se inscreveram na lógica de instrumentalização do partido para agendas particulares tinham duas possibilidades ou continuar e acomodar-se na destruição da base ideológica fundadora do PAIGC, por um lado, dos outros partidos que queriam ser alternativas ou então vão fora do partido político. O que acontece? Por um lado, há uma fuga de quadros, aqueles que recusaram acomodar se no sistema para não ser cúmplice da destruição do nosso país, na Guiné-Bissau, também em Cabo Verde encontrou outros refúgios fora dos nossos países.

    Mas há aqueles outros que se acomodaram nos espaços das ONGs ou arranjaram outra forma de sobrevivência, mais uma vez, para não fazerem parte do sistema a destruir o país. Só que nenhuma dessas opções funciona como alternativa a esses lugares de mobilização política. O que nós devemos começar a pensar em fazer é criar alternativas de todas as dimensões, tanto no espaço político quanto no espaço social e de mobilização cultural. Três dimensões fundamentais para construção de qualquer sociedade no mundo, disputarmos esses espaços, afirmarmos nos nesses espaços com novas agendas viradas para o progresso. O progresso nada mais é do que trabalhar colectivamente, consentir sacrifícios que são indispensáveis consentir para a melhoria das nossas vidas. Porque a luta de libertação, o legado de Amílcar Cabral e dos seus companheiros, se continuar só no domínio teórico e não for concretizado no domínio da transformação da vida das populações, não serve para nada que não seja teoria e que não encontra a prática que transforme a realidade das nossas mobilizações.

    Este legado de Amílcar Cabral foi esquecido pelos nossos representantes?

    Foi. Primeiro porque o pensamento de Amílcar Cabral é sólido e é um pensamento que não dialoga bem com demagogia, que não dialoga bem com traição, que não dialoga bem com corrupção, que não dialoga bem como mentir ao povo. É um legado assentado em princípios éticos, morais e de compromisso patriótico que as actuais lideranças políticas não têm na sua gramática política. Por isso, não estão interessados em conhecer Amílcar Cabral.

    Amílcar Cabral e o seu pensamento inquietam. Amílcar Cabral e o seu pensamento fazem-nos perguntar onde estamos e por onde vamos caminhando. Lideranças políticas interessadas em construir castas, em consolidar burguesias para a captura do erário público, para interesses localizados e não colectivos, nunca estarão interessados na afirmação e consolidação do pensamento cabralista nas nossas sociedades. Por isso é que esse pensamento é repelido através de decretos e através de despachos que pretendem apagar do espaço público. Mas isso é impossível porque, mesmo que existam mais do que esses decretos, o pensamento de Cabral que já se consolidou 50 anos na academia, na cultura, nos movimentos sociais e mesmo nesses partidos políticos, apesar de uma lógica instrumentalizada e demagoga.

    Amílcar Cabral tornou-se um símbolo de luta contra o colonialismo e a opressão. Nos últimos 50 anos surgiram líderes que foram ou são vistos hoje como mentores ou guias pelos mais jovens?

    Não têm surgido muitos. Há líderes que nós podemos reconhecer que tenham feito esforço em Cabo Verde e também para a África. Nós devemos reconhecer a força, a resistência e a longevidade do compromisso patriótico do comandante Pedro Pires é um exemplo. Apesar de todas as dificuldades com que se confrontou no contexto em que foi primeiro-ministro de Cabo Verde e Presidente da República, manteve o vínculo com os valores da luta de construir o bem-estar dos nossos povos. Ensinou-nos a pensar na nossa unidade, que é um legado histórico, mesmo que essa unidade não exista numa dimensão binacional.

    No caso da Guiné-Bissau, nós tivemos Presidentes da República, como o Luís Cabral, que herdou uma linha, se esforçou a afirmar nos primeiros anos da independência. Depois houve três Presidentes da República, a quais eu tenho muito respeito na Guiné-Bissau.

    Malam Bacai Sanhá pelo seu carácter. Em tempos em que tipos de liderança que tivemos na altura não só se divorciaram destes princípios éticos e morais, mas se desafiaram com o próprio povo. Se nós olharmos para todos os Presidentes da República na Guiné-Bissau, podemos olhar para esta figura de Malam Bacai Sanhá como aquele que não teve muito tempo na Presidência, mas que nos ensinou a construir paz, estabilidade, mesmo que seja a fogo e ferro. Temos temos o Serifo Nhamadjo e o Henrique Rosa, que mesmo no caso do Serifo Nhamadjo, tendo sido Presidente num contexto de golpe de Estado e tenha havido muitas interpretações dessa altura. A forma como foi Presidente da República, se olharmos hoje para o tipo de Presidente que temos, perguntámos onde erramos. Estamos a falar de um Presidente que chegou à Presidência da República através de um golpe de Estado, mas que teve um desempenho ético e moral de larga dimensão, melhor que a situação actual. São exemplos que não são perfeitos, exemplos criticáveis, mas exemplos aos quais nós podemos olhar para fazer melhor, sobretudo melhor, no sentido que eles não conseguiram, no sentido de recuperar o pensamento cabralista enquanto base ideológica para olhar para a realidade, compreender a realidade e transformar a realidade para o nosso bem-estar.

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  • "Preocupações com as memórias do futuro" no centenário de Amílcar Cabral

    "Chegar aos 100 anos de Cabral e encontrar toda esta panóplia de iniciativas ao nível do mundo para celebrar esta data é algo que não só nos orgulha, mas encoraja a continuar esse debate e a questionar o passado, a desafiar o presente e acreditar que o futuro será muito melhor", descreveu o sociólogo, investigador guineense, Miguel de Barros, sobre o simpósio internacional Amílcar Cabral que decorre em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.

    RFI: Assinalam se esta terça-feira os 50 anos do reconhecimento da independência da Guiné-Bissau. A Guiné-Bissau declarou unilateralmente a sua independência a 24 de Setembro de 1973 e foi reconhecida por Portugal a 10 de Setembro de 1974, depois da Revolução portuguesa. Como é que este reconhecimento mudou a dinâmica da luta pela libertação e quais é que foram as implicações internacionais?

    Miguel de Barros: O reconhecimento não mudou a dinâmica da luta, no sentido em que o PAIGC já tinha proclamado a própria independência unilateral e com o reconhecimento de alguns países, inclusive das Nações Unidas. O reconhecimento veio trazer três questões fundamentais: A primeira questão tem que ver com o Acordo de Argel que permitiu, por um lado, não só o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, mas o princípio, a auto-determinação e o reconhecimento também da independência de Cabo Verde, criando as condições necessárias do ponto de vista político, para que essa decisão se tome baseado naquilo que foi a luta de libertação na Guiné-Bissau. Outro elemento importante é que esse processo abriu o caminho para o próprio reconhecimento da independência de São Tomé e Príncipe, que não teve uma luta de libertação nacional. O terceiro elemento que é mais simbólico, no meu ponto de vista de uma forma implícita, o regime fascista português decapitou-se a partir do processo da luta de libertação na Guiné-Bissau. O facto de o 25 de Abril ter acontecido depois da proclamação da independência na Guiné-Bissau abriu espaço às negociações para depois se dar o reconhecimento de independência de outros países, que vieram demonstrar por um lado, aquilo que era a máxima da acção política a curto prazo ao médio prazo do direito à auto-determinação dos povos.

    Hoje, na memória histórica política desses Estados, tanto na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, por exemplo, essa data não tem relevo nenhum, nem do ponto de vista político constitucional, nem do ponto de vista popular. Se olharmos, por exemplo, para as questões da independência, mesmo havendo disputas de memória entre correntes políticas partidárias, procuram trazer a sua versão daquilo que é a independência. Nós encontramos no campo popular, na sociedade civil, aquilo que é uma espécie de reposição da verdade histórica. Quanto mais conseguirmos avançar nessa perspectiva de uma maior apropriação de elementos históricos ao nível das novas gerações e de instituições não estatais, teremos, de facto, a conseguir, pelo menos fazer prevalecer não só a questão da memória histórica, mas também aquilo que são as memórias do futuro. E perceber como é que esses povos constroem a sua própria identidade baseada naquilo que é a sua representação histórica.

    Desde a sua independência, a Guiné-Bissau experimentou vários golpes de Estado, instabilidade política, uma democracia frágil, qual é que é o legado político dos últimos 50 anos?

    O legado político dos últimos 50 anos tem que ser completamente separado do ponto de vista histórico. O processo da luta de libertação que levou à independência permitiu efectivamente à construção de uma sociedade mais livre, uma sociedade pluralista e, ao mesmo tempo, onde é possível que os guineenses determinam a sua própria condição. Do ponto de vista da construção do Estado, nós não conseguimos construir o Estado naquilo que são as funções vitais, em termos de capacidade de prestação de serviços à população, em termos de capacidade da salvaguarda da segurança humana em termos de capacidade daquilo que é representação do Estado a partir daquilo que são as convenções, os protocolos e também como é que esse próprio Estado foi conceptualizado no sentido de permitir, numa primeira linha, a construção de uma ideia endógena de como é que esse Estado se imerge no pós-colonialismo.

    Por outro lado, também, como é que a sua estrutura económica favorece, de algum modo, a coordenação de políticas públicas que levam a capacidade de decisão com autonomia. A construção desse Estado, olhando tanto para a questão histórica da independência como para a questão, por exemplo, da construção do Estado, há uma terceira linha, que é como é que nós construímos a democracia, que é o grande elemento. Aí nós também não fomos felizes, porque, por um lado, nós partimos para o processo democrático, sem consolidação daquilo que seriam os pilares da própria democracia, uma sociedade com maior nível de educação e de instrução, uma sociedade com maior capacidade de construir o seu pilar de infra-estrutura económica e uma sociedade que tem a capacidade de primar pela liberdade para favorecer a possibilidade de construção pública da capacidade crítica e, ao mesmo tempo, de permitir aquilo que seria a construção de organizações cívicas e políticas que iriam inspirar, a partir desse pressuposto, a independência da autonomia de liberdade. Desse ponto de vista, nós não conseguimos construir uma sociedade com esses pilares, de todo esse processo da Guiné-Bissau e da sociedade guineense, aquilo que são elementos de maior resiliência.

    Alguns desses pilares chegam-nos através de Amílcar Cabral e é por isso que também estamos aqui em Cabo Verde. Esta segunda-feira arrancou o Simpósio Internacional "Amílcar Cabral, um património nacional e universal", que decorre aqui em Cabo Verde, mas também na Guiné-Bissau. Dois países que um dia estiveram para ser um só?

    Do ponto de vista da conceptualização de um único país, Cabral foi muito claro na perspectiva de que o pós independência ia dar lugar a um referendo para que os povos se posicionassem. Mas isso não aconteceu, o que também, no meu ponto de vista, colocou o próprio projecto político em causa. Por outro lado, havia condições históricas e políticas para que essa união se justificasse. Os cabo-verdianos estavam na administração pública portuguesa, tinham uma maior possibilidade de acesso ao sistema de ensino e, ao mesmo tempo, isso poderia favorecer uma luta política do ponto de vista diplomático, mas também a própria capacidade de contrabalançar aquilo que eram os efeitos da colonização, porque conheciam a máquina administrativa colonial, os guineenses não só tinham um território profícuo para a própria luta de libertação, mas tinha também a densidade humana para essa luta. Tinham as tais tecnologias sociais e culturais que permitiam resistir nesse contexto.

    Ao mesmo tempo, tinha, por um lado, nos dois povos a capital de resistência e bravura que favoreciam a uma luta colectiva. Porque, por exemplo, levar a derrota do colonialismo no território da Guiné-Bissau implicitamente ia levar a derrota do colonialismo português nos outros países e acabou por acontecer. Mas, por exemplo, levar a derrota do colonialismo em Cabo Verde não ia levar a derrota do colonialismo na Guiné-Bissau, porque Portugal incutiu uma matriz extremamente segregacionista e que criou uma ideia identitária a partir do território que hoje é Cabo Verde, que não se conectava com outras realidades e colocava como se fosse uma classe intermediária que também apoiava o serviço da própria colonização e instrumentalizou isso enquanto elemento também divisionista. Felizmente, Cabral conseguiu posicionar-se, tirou as mais valias desse processo e levou a uma luta conjunta que favoreceu as independências.

    Hoje, aquilo que têm sido os pontos de encontro entre a sociedade cabo-verdiana ou a população que os guineenses têm sido, sobretudo a nível de colectivos activistas de movimentos africanistas que não estão limitados só a partir de uma visão binacional. Mas olhem como é que as suas experiências, como é que os modelos culturais, como é que os modelos de solidariedade podem favorecer intercâmbios e diálogos é que projecta a questão do pan africanismo no Brasil como uma possibilidade de reconstrução identitária, mas também de reorganização de formas de participação de formas de criação de instituições que respondem à capacidade efectivamente da agenda pública nacional e que criam a tal autonomia que leva ao progresso que Cabral tanto advogava.

    Ainda há marcas dessa segregação criada pelos portugueses aqui em Cabo Verde, por exemplo?

    Sim, sim, há bastante. As questões identitárias não se esgotam a partir, por exemplo, de decretos. As questões identitárias não se esgotam a partir daquilo que são as memórias que as pessoas têm mais próximas ou não dos fenómenos sociais. As questões identitárias colocam-se sobretudo em formas de convivência. Como é que essas formas de convivência favorecem acesso a determinados níveis de privilégio e ou a determinados níveis de segregação? Em Cabo Verde posso dar dois exemplos interessantes. Quando uma cabo verdiana se casa, por exemplo, com um emigrante do Norte global, o termo que utilizado em crioulo é kompu raça , ou seja, construir a raça, arranjar a raça. Mas quando, por exemplo, há um casamento entre uma cabo verdiana e o imigrante, por exemplo oeste africano, o termo que utilizar straga raça estragar a raça, então esse é o elemento do colonialismo. Esse é o elemento da segregação, porque se criou essa ideia efectiva na construção dessa sociedade crioula.

    Uma outra ideia importante, por exemplo, aqui em Cabo Verde, quando as pessoas têm acesso ao dinheiro ou ao capital económico e têm alguma possibilidade de influência, de alguma decisão, de alguma escolha ou alguma capacidade aquisitiva. O termo que utilizar dja mbranku dja, ou seja, já estou branco. Quando ouvimos essas narrativas, quando há essas práticas, quando há essas representações, isso demonstra, de algum modo, que o processo colonial que levou à segregação e à construção da ideia do branco superior ou preto é algo que ainda tem que ser desconstruído e tem que ser desmistificado para criar formas mais inclusivas que favorecem depois a tal integração social. Essa integração favorecer todas as manifestações não só de norte global, mas também das pessoas do Sul global e das pessoas oeste africanas que constituem parte importante dessa sociedade cabo-verdiana.

    É preciso levar a cabo um trabalho sociológico ou que a mudança aconteça através da educação?

    É um trabalho político no qual entra a dimensão sociológica entre a dimensão educativa, entre a dimensão sociocultural, entre a dimensão económica, entre a dimensão geográfica e espacial e entre, sobretudo aquilo que são a capacidade de construir compromisso inter-geracional para permitir com que se dispa todo esse elemento de segregação e que pairam e trazem novas formas de racismo, de exclusão na sociedade cabo-verdiana.

    Não há comemorações oficiais em torno do centenário de Amílcar Cabral na Guiné-Bissau. Os eventos são organizados pela sociedade civil. Faz parte da organização que leva este simpósio e que o traz aqui a Cabo Verde?

    Nós estamos há dois anos a trabalhar sobre esse processo. Lançamos inicialmente à celebração do simpósio em 2022. Em 2023, começámos o processo de intervenção muito mais localizado ao nível de conferências, debates, estruturas, mas também no meio do processo discutimos com Cabo Verde sobre qual seria a possibilidade do evento ter uma coordenação. Essa coordenação levou-nos à ideia, perfeitamente partilhada e com unanimidade, que deveríamos ter uma iniciativa conjunta, entre as organizações académicas e organizações da sociedade civil, mas também onde entra a Fundação enquanto elemento que trabalha sobretudo na preservação do legado da memória de Amílcar Cabral. E funcionou. Funcionou, por um lado, porque havia muita gente que queria ter um nível de debate orientado com o método e que favorece a melhor compreensão dos vários ensinamentos teóricos e práticos de Amílcar Cabral, mas também porque há uma preocupação agora das memórias do futuro, de como é que as novas gerações que não conviveram com Cabral, que não tiveram luta de libertação, estão a conceptualizar Amílcar Cabral? E depois, como é que Cabral nos dá elementos que nos permitem interpelar a nossa condição no momento actual e que tecnologias que nos oferece para orientar também face ao futuro.

    Nessa perspectiva, mais de 50 comunicações foram apresentadas e iniciativas socio-culturais, movimentos, por exemplo, nas comunidades da diáspora africana a nível do mundo. Isso demonstra não só a vitalidade do pensamento do Cabral, mas mostra em que medida Cabral continua a inspirar processos de construção do Estado e a  construção do processo de participação. Como dizia Pedro Pires, se o Cabral estivesse vivo, acho que estaria feliz porque ele não está sitiado nem pelos militares, não está sob controlo nem dos partidos políticos, mas está efectivamente junto do povo. As questões que Cabral traz, por exemplo, sobre o lugar do povo na construção da sua história enquanto sujeito da sua historia e como é que o povo deve estar vigilante face os processos que levam a derrapagens políticas e como é que o povo deve ser entidade que deve estar na vigilância da acção pública.

    Chegar aos 100 anos de Cabral e encontrar toda essa panóplia de iniciativas ao nível do mundo em celebrar esses 100 anos é algo que nós devemos ficar não só orgulhosos e contentes, mas encoraja-nos a continuar esse debate e a questionar o passado, a desafiar o presente e acreditar que o futuro será muito melhor.

    É impossível responder a esta questão, mas se Cabral estivesse vivo, de que forma é que ele olharia para Cabo Verde e Guiné-Bissau?

    Fazer futurologia é difícil, mas mais complicado é estar no futuro e olhar para trás. Ele faria uma leitura diferente, porque ele, mais do que ninguém, compreendeu as dinâmicas socioculturais e históricas dos dois povos, dos dois países. Creio que Cabral estaria não só numa situação difícil em termos de encarar aquilo que são hoje as possibilidades de construção de uma governança autónoma com capacidade de prevalecer a soberania dos países. Cabo Verde é um país que tem muita dependência económica na condução das suas políticas públicas, no seu posicionamento internacional. Isso foi claramente comprovado, por exemplo, com a oposição de Cabo Verde em relação à guerra na Ucrânia, em relação, por exemplo, ao massacre de Israel na Palestina. Mas também estaria numa situação muito complicada com a Guiné-Bissau, para ver, por exemplo, a questão de como é que a falta de ética na política e na governança levou a Guiné-Bissau a autoritarismos ou à questão do narcotráfico. Muito mais difícil ainda será como, por exemplo, lutar pela independência, pela liberdade e hoje encontrar o país também dependente da ajuda externa e onde os jovens têm que enfrentar muitos desafios para conseguirem protestar. A posição de Cabral perante essas circunstâncias desses países não seria de lamento, seria, em primeiro lugar, de confronto e, ao mesmo tempo, da busca das alternativas que poderiam levar a novos caminhos. Hoje, por aquilo que são as manifestações vindas sobretudo de colectivos não partidarizados da sociedade civil, acredito que acabará. Estaria a encontrar se exactamente nesses movimentos, nesses colectivos, as bases para uma nova revolução.

    O Presidente do Pedro Pires, que participou neste primeiro dia do simpósio em torno do centenário Amílcar Cabral, dizia que "ninguém falhou porque ninguém sabia e que a falha foi a ignorância". Concorda?

    Por um lado, sim, eles foram jovens, foram muito, muito novos para o processo da luta e tiveram pouco contacto com aquilo que era a realidade social urbana desses países e também por aquilo que era a máquina necessária em termos de funcionamento. Mas, por outro lado, havia também ameaças, embora militarmente o regime colonial foi derrotado, mas o regime colonial, derrotado militarmente, não abdicou das influências políticas para condicionar também o destino desses países e ou para pôr em causa a própria revolução e voltar a tomar o poder. A partir do momento que essas questões existiram, não permitiu também uma maior abertura desses regimes para algo que podia favorecer uma entrada de tecnocratas de jovens e que não tivessem estado no processo de luta, de libertação. Agora, a partir do momento que se toma a decisão e se pensa que se está em condições de decidir em nome do povo, tem que se avaliar como é que essas medidas permitirão efectivamente cumprir aquilo que foi o compromisso e o engajamento das partes. Como é que a condução dos destinos do país levou aquilo que o camarada dizia à dignidade e ao progresso. Temos sempre que ter esses elementos como uma bússola no sentido de permitir uma maior justiça social, uma maior equidade entre comunidades, entre povos, entre territórios e que favorecem a emancipação que hoje nós estamos a discutir nesse simpósio.

    20 min
  • Andrew Parsons: "Estes são os Jogos Paralímpicos mais espectaculares da História"

    Após dez dias intensos de competições, os Jogos Paralímpicos de Paris chegam hoje ao fim encerrando um capítulo de ouro da capital francesa. A RFI entrevistou Andrew Parsons, presidente do Comité Paralímpico Internacional, e ele garantiu que estes foram os Jogos mais espectaculares de sempre e que o sucesso junto do público vai fortalecer o papel do desporto paralímpico em todo o Mundo. 

    RFI: Disse que estes tinham de ser os Jogos Paralímpicos mais espectaculares de sempre. São?

    Andrew Parsons: Sem dúvida, estes são os Jogos Paralímpicos mais espectaculares da História. Paris 2024 é a referência e a nova referência, o novo benchmark para qualquer futura edição dos Jogos Paralímpicos. Isso em termos da organização dos jogos, da promoção dos jogos, da experiência dos atletas. O que nós vimos aqui foi incrível do ponto de vista das instalações, o público, a atmosfera que foi criada para os atletas e o esporte. Os atletas tiveram performances melhores do que nunca. 

    Havia muitas dúvidas em relação à adesão do público para estes Jogos Paralímpicos. Nós vimos estádios cheios, vimos arenas cheias também nesses Jogos Paralímpicos?

    Vimos arenas cheias em todas as modalidades desportivas. Às vezes, pela manhã, em atletismo e natação, em número menor, mas em provas preliminares de modalidades colectivas, foi um sucesso absoluto. 2,5 milhões de bilhetes vendidos. É uma marca histórica, mas mais importante do que isso, do que os números, a qualidade e a interacção entre os espectadores e os atletas. E isso aconteceu aqui de uma forma incrível. 

    E que lições é que se pode tirar para Los Angeles em 2028? Do que correu bem e do que correu menos bem? Ou, se quiser, podemos dizer do que correu mal.

    Eu acho que o fundamental é adequar os jogos à ambição de cada país, enquanto cidade, enquanto movimento desportivo. E acho que isso Paris fez muito bem. Existe um legado enorme dos jogos do ponto de vista desportivo, mas também um legado enorme do ponto de vista social. A acessibilidade na cidade melhorou de uma forma incrível. Comparamos Paris de hoje com Paris há sete anos, quando eles foram eleitos sede para estes jogos e mudou. Mas vão continuar evoluindo. Os Jogos Paralímpicos são um acelerador, um catalisador. Não é um ponto final. O metro foi anunciado agora há pouco tempo. Há a intenção de tornar todo o sistema de metro de Paris acessível. Isso é um processo de 20 anos e o importante é que a sociedade francesa e parisiense continua esse processo de mudança. 

    O que se tem falado é que esse processo de mudança não diz respeito aos atletas que estão aqui a concorrer ou às pessoas que atualmente tem deficiências. Podem dizer respeito a todos nós porque não sabemos o que nos vai acontecer amanhã. E se tudo correr bem, um dia, um dia seremos mais velhos e precisaremos de mais ajuda, não é? 

    O fundamento principal de acessibilidade é que é para todos. Então, se nalgum momento das nossas vidas nós vamos ter necessidades de mobilidade maiores do que nós temos agora, se a gente adquire uma deficiência, se ficarmos mais velhos, uma mulher que pode engravidar e, obviamente, temporariamente, vai ter uma necessidade maior de mobilidade. Crianças, bebés com carrinhos. O princípio da acessibilidade é exactamente esse desenho universal e é para todos, não é só para pessoas com deficiência. Segregar também é muito complicado. Quando você coloca as pessoas com deficiência segregadas, do género elas só vão andar por aqui e as pessoas sem deficiência por ali, não está fazendo um favor para a sociedade. 

    Fala se muito então de igualdade nestes Jogos Paralímpicos. Mas como é que é possível ter igualdade se muitas vezes o que vemos é um grande financiamento para os Jogos Olímpicos e um financiamento mais pequeno para os Jogos Paralímpicos, especialmente para os atletas a nível de bolsas, a nível de oportunidades de treino. Estes jogos dão mais argumentos ao vosso comité para nos próximos quatro anos fazerem evoluir essa situação? 

    Sem dúvida que sim e eu penso que está evoluindo no mundo. Existem muitos países hoje que investem mais no desporto paralímpico e onde, por exemplo, o prémio por medalhas é igual, seja ele vindo de governos ou de entidades desportivas. Claro que o nosso movimento é mais jovem e mais novo do que o movimento olímpico, que tem mais de 120 anos de história. Então, nós ainda em muitos países, estamos nesse processo de crescimento, como na sociedade. Se a gente pensar onde a gente está na sociedade em termos de reconhecimento, em termos de retirar as barreiras para as pessoas com deficiência, nós ainda estamos evoluindo, estamos longe de onde a gente quer estar. Então, acho que o movimento paralímpico vem talvez puxando essa mudança na sociedade, mas ainda não estamos onde queremos. 

    E a nível de treino, a nível de ir buscar as pessoas, o trabalho do comité também é esse especialmente quando falamos de países com menos recursos. Neste momento vocês estão a pensar com todas as pessoas que encontraram aqui novos programas exactamente para tentar ir buscar ou alargar pequenas delegações que tinham vindo, por exemplo, um ou dois atletas e que em Los Angeles, por exemplo, possam vir quatro ou cinco?

    Essa é a ideia. É por isso que nós estamos trabalhando com outros organismos fora do desporto. Nós lançámos aqui uma parceria que pensamos que será muito forte com a UNESCO e com os governos de vários países, porque, obviamente, a ideia é que países em desenvolvimento possam ter mais oportunidades para o desporto, para as pessoas com deficiência e até países que ainda não têm o desporto paralímpico implementado ou organizado.

    E mais mulheres?

    Mais mulheres é fundamental. Esse é o objetivo nosso chegar aos 50% a 50% nos Jogos de 2032 em Brisbane. E nestes jogos nós chegámos a 45% das atletas mulheres. Não estamos satisfeitos com isso. Temos que chegar aos 50/50. Existem razões sociais, principalmente no que diz respeito às pessoas que adquirem deficiências do impacto maior no público masculino, mais envolvido em episódios de violência e acidentes. Então, existe aí uma participação talvez maior de homens no que diz respeito a pessoas com deficiência. Mas é um movimento nosso, movimento por igualdade de oportunidades.

    Muita gente descobriu nestes Jogos Olímpicos o CeciFoot, outros desportos e vibram tanto como se como se vibra no futebol só como é que se faz com que estas modalidades sejam conhecidas e e que possam ser vistas quando muitas vezes os episódios acontecem de quatro em quatro anos? Há uma discussão sobre, por exemplo, direitos de reprodução nas televisões. Há ideias para isto? 

    Na verdade, existe um calendário paralímpico permanente. todos os fins de semana há eventos paralímpicos acontecendo. Claro, nós temos os mesmos desafios que o desporto olímpico, o que acontece entre os jogos? E aí precisamos de investimento, dos meios de comunicação com uma presença maior nos eventos, que não são apenas os Jogos Paralímpicos. O interesse cresce, há uma demanda e é esse talvez seja o próximo passo. Precisávamos que os Jogos Paralímpicos fossem grandes, fossem relevantes. Eu penso que desde Pequim a gente tem conseguido isso. Agora, consolidar com esses jogos foram os mais espectaculares da história. E agora também trabalhar o que acontece entre os jogos.

    E novas modalidades?

    Nós abrimos um processo para essas novas modalidades se apresentarem. É claro que precisamos que sejam desportos globais, que se desenvolvam em três continentes, pelo menos. Também é preciso pensar o que essas modalidades representam dentro do contexto dos jogos, Qual população a que se destinam em termos de atletas, em termos de público, Uma nova modalidade em 2028 é a para-escalada. Para Brisbane o processo vai ser aberto em cerca de dois anos e a gente está de olho em novas modalidades. Sim. 

    O desporto, muito para além da questão da saúde física para uma pessoa com deficiência, é claro, e também para as pessoas sem deficiência. É claro que há também a questão da saúde mental, mas é sobretudo o laço social para as pessoas com deficiência. Tirar as pessoas de casa e fazer com que as pessoas se sintam inseridas numa sociedade, não? 

    O desporto é positivo para todo mundo e as pessoas com deficiência não são diferentes. A maioria das pessoas que praticam desporto no mundo jamais chegarão a uma Olimpíada. Mas os atletas são as referências. Essas são as pessoas que nos inspiram a praticar desporto. A pessoa com deficiência vai praticar desporto por saúde, por lazer, por integração, por sair de casa muitas vezes. E o treino ou actividade desportiva é o grande momento da semana daquela pessoa, seja ela qual seja ela sem deficiência. Então, queremos que isso seja oferecido também às pessoas com deficiência na escola, nos clubes sociais.

    Se tiver de convencer um amigo que tenha algum tipo de deficiência a praticar desporto, o que é que lhe diz para motivar?

    Primeiro, mostrar que o desporto é uma experiência positiva. Então que ele vai ser primeiro, que vai se divertir, que vai ter um momento importante, que vai ser para sua saúde. Quando as pessoas que praticam o desportosimplesmente para para compensar outros hábitos que elas têm, sejam para manter um físico melhor, a saúde melhora. E esses benefícios todos vêm. Então existem uma série de diferentes formas de envolver. Agora, acho que importante também é o desporto na escola, a pessoa com deficiência, principalmente com a educação inclusiva. É importante que a educação seja inclusiva também na educação física. Muitas vezes a educação física é subestimada, mas ela é muito, muito importante de atrair aquela criança, aquele jovem, para o desportoe não para se tornar um campeão paralímpico ou olímpico. Mas para você tem valores importantes de liderança, resiliência, trabalho em equipa, disciplina e saúde. 

    São os jogos mais espectaculares de sempre. Quais é que são os momentos mais espcetaculares para si? O que é que viveu aqui que fica na sua memória nesses Jogos Paralímpicos? 

    Para mim, alguns momentos foram muito importantes a cerimónia de abertura, sem dúvida nenhuma, foi um momento incrível, porque foi a primeira vez fora de um estádio tradicional no coração da cidade. Então nós sentimos o momento paralímpico sendo abraçado pela cidade de Paris, pelo povo francês, com a mensagem correcta. Outro momento especial foi quando a primeira medalha conquistada por uma atleta refugiada no taekwondo com a Zakia Khudadadi. Eu lembro da trajectória dela desde que ela chegou a Tóquio depois de ser evacuada do Afeganistão, numa operação espectacular que culminou com a participação dela em Tóquio e aqui. Depois de a ver treinando por três anos com condições, o que ela foi capaz? Então é mais um sinal, mais uma prova de que se você retirar as barreiras, as pessoas com deficiência podem fazer qualquer coisa, mesmo os refugiados numa situação tão difícil. 

    O que é que nos pode dizer sobre a cerimónia de fim destes Jogos Paraolímpicos hoje à noite? Há alguma coisa que possa revelar? 

    Vai ser uma grande festa. Eu acho que já foram anunciados aí uns 20 DJs franceses. A ideia é que os atletas e as delegações possam celebrar. A cerimónia de abertura, normalmente, define o tom da Paraolimpíada e a cerimónia de encerramento, na minha visão, é uma grande celebração. Então vão haver os elementos de protocolo, vão haver os momentos de reconhecer as delegações mas também vai ser uma grande festa. 

    14 min
  • França: "A extrema-direita está em posição de dizer quem pode ou não estar no governo"

    Michel Barnier, o novo Primeiro-Ministro nomeado nesta quinta-feira pelo Presidente francês encetou as suas consultas políticas com vista à formação de um governo, contra o qual desde já a esquerda disse que iria apresentar uma moção de censura, enquanto a extrema-direita condiciona o seu apoio ao programa político que irá ser apresentado.

    Oriundo do partido dos Republicanos, quarta força mais votada nas últimas legislativas, Michel Barnier é considerado como um homem com uma forte capacidade de negociação. Exerceu cargos ministeriais no passado, tendo sido nomeadamente Ministro do Ambiente, foi Comissário Europeu e também um dos mediadores europeus do Brexit.

    Todavia, ele chega num contexto de crise política profunda, na sequência das legislativas de Julho em que a Nova Frente Popular, à esquerda, chegou à frente mas sem conseguir a maioria absoluta, sendo que o bloco centrista chegou em segundo lugar e a extrema-direita não conseguiu concretizar o anseio de chegar ao poder, mas duplicou o número de deputados no parlamento.

    É perante uma sociedade francesa e uma Assembleia Nacional extremamente fragmentadas que Michel Barnier vai ter de apresentar um governo e um projecto que ele anunciou desde já ser de "ruptura", com a ameaça constante de uma queda iminente.

    Foi sobre este momento peculiar da vida política francesa que conversamos com o historiador Victor Pereira que começa por evocar a posição de fragilidade do novo chefe do governo e do campo político que ele representa.

    RFI: O que é esta nomeação traduz, tendo em conta que os Republicanos, o partido de Michel Barnier, chegaram em quarto lugar nas legislativas?

    Victor Pereira: Macron foi buscar, de facto, uma pessoa com estatura ministerial e com experiência, mas que vem de um partido que desde 2017 tem muito pouco peso político a nível nacional. Obviamente, que o que parece é que Macron quis buscar uma pessoa que continuasse a política que ele fez, nomeadamente a reforma das pensões, a reforma do fundo de desemprego, as medidas que ele quer manter, mas que pudesse dar algumas garantias à extrema-direita. Em 2021, quando foi às primárias dos republicanos, Michel Barnier disse que ia acabar com a imigração, que ia aumentar o número de expulsões, que ia acabar com a assistência médica aos estrangeiros, um discurso que é o discurso da extrema-direita francesa. Então, talvez o Macron pensou que ele ia estar em posição bastante fraca perante ele, que ia manter a política que o Macron quer continuar a ter.

    RFI: Para a esquerda, o que isto significa, sobretudo, é que Macron, apesar de ter sido o grande derrotado nas legislativas, não quer deixar o poder.

    Victor Pereira: Isso mesmo, foi derrotado, mas ele disse que "ninguém ganhou". Isso quer dizer que ele não aceita publicamente ter perdido e, sobretudo, ele quer manter a política que ele tem. Agora vamos ver como é que vai ser formado o governo e também quanto tempo vai ser necessário para ter um governo inteiro. E vamos ver quem vai estar nesse governo e quem não vai estar no governo. Mas, ao que parece, a grande preocupação de Macron é, de facto, manter-se numa posição dominante. O que as eleições mostraram é que muitos franceses não querem que seja assim e quiseram mostrar um sinal forte de mudança, mas que talvez ele (Emmanuel Macron) não queira compreender.

    RFI: Ao apostar na estratégia de "Castets ou nada", a esquerda não fechou algumas portas a si-própria?

    Victor Pereira: É difícil porque o que se passou depois das novas eleições, é uma coisa que Macron não estava à espera e que derrotou a sua estratégia. Ele pensou que com os conflitos que existem na esquerda, nomeadamente entre a França Insubmissa de Mélenchon e o PS, mas também o Partido Comunista, que a esquerda estava muito dividida há vários anos e que essa divisão ia permitir-lhe, mais uma vez, ganhar as eleições. O que Macron não pensou de todo é que, em apenas quatro dias, a esquerda conseguiu unir-se a ter um programa comum e ter candidatos comuns. E isso foi uma das causas da derrota de Macron. É uma coisa que não antecipou de todo e que, de facto, a Frente Republicana fez em parte a favor da esquerda. Desde então, o que tentou muito Emmanuel Macron, nomeadamente quando ele dizia que não queria nomear Castets (candidata ao posto de Primeira-Ministra pela esquerda da Nova Frente Popular) e que ele pensava, nomeadamente em Cazeneuve (membro do PS), era tentar mais uma vez dividir a esquerda, nomeadamente parte do PS, que aceitaria participar no Governo com o partido de Macron e a direita. Só que Olivier Faure, secretário-geral do Partido Socialista, não seguiu este caminho, apesar de alguma divisão dentro do PS e ficou fiel à coligação da Nova Frente Popular, talvez sabendo que se ele saísse e acabasse com a Nova Frente Popular, talvez seria o fim, mais uma vez do PS e abriria uma avenida, pelo menos nas próximas eleições presidenciais, ao Jean-Luc Mélenchon (líder da França Insubmissa). Então Emmanuel Macron, mais uma vez, não conseguiu. E agora é ver se a Nova Frente Popular vai continuar a ser unida nomeadamente em caso de voto numa Moção de censura às medidas que vai apresentar Barnier e muito rapidamente o próximo orçamento.

    RFI: A extrema-direita de Marine Le Pen acaba por aparecer, nestes últimos dias, como o "fiel da balança". Que impacto é que isto pode ter para o futuro?

    Victor Pereira: Parece que Macron recebeu várias vezes Marine Le Pen para tentar saber o que é que ela achava de alguns candidatos (a Primeiro-Ministro) e isso chocou parte da opinião pública, porque nas últimas eleições houve uma frente republicana contra a extrema-direita. O próprio Macron, desde 2017, diz que ele é um candidato que vai lutar contra a extrema-direita e fazer com que a extrema-direita não possa subir mais eleitoralmente e chegar ao poder. E agora parece quase que a extrema-direita está em posição de dizer quem pode ou não estar no governo. E isso vem depois da lei de Imigração, que foi votada em finais de 2023, em que se viu que o governo de Elisabeth Borne propunha medidas que a extrema-direita considerou como suas e achou que essa lei sobre a imigração era uma vitória eleitoral da extrema-direita. Então, mais uma vez, Emmanuel Macron, que sempre disse que ia lutar contra a extrema-direita, dá a impressão de isto ser uma transição para a extrema-direita e, em vez de combatê-la, dá-lhe uma força que se viu nas últimas eleições. Nunca a extrema-direita teve um tão bom resultado eleitoral em França.

    RFI: Que hipótese Barnier tem de conseguir, para já, formar um governo de união? A União Nacional (extrema-direita) já disse que não vai participar. E do lado da esquerda, também dizem que vão apresentar uma moção de censura. Quem é que vai entrar nesse governo?

    Victor Pereira: Bom, é muito provável que vão entrar pessoas do campo de Macron e talvez algumas pessoas do partido dele e ainda tem de ser pessoas um bocadinho independentes. Sobre a esquerda, não me parece que alguém aceite. Então vai ser um governo 'Ensemble-LR' e não é impossível que os Republicanos aceitem apoiar o governo sem ter ministros dentro. Mas muito provavelmente o que vai acontecer é que os franceses não vão compreender que, depois da derrota do Macron nas Europeias, na derrota de Macron nas eleições legislativas, vamos ter de novo, provavelmente, um governo com principalmente pessoas que vêm do campo do Macron.

    RFI: Que hipóteses Barnier tem de conseguir ficar?

    Victor Pereira: Isso vai depender muito da extrema-direita, de facto, porque vamos ver se ele vai dar garantias também à extrema-direita. E como é que são as garantias para a extrema-direita? Ter um discurso ofensivo sobre a imigração, sobre a segurança, um discurso que o próprio Barnier já teve nas primárias da direita em 2021. E isso vai ser uma das chaves: até que momento a extrema-direita vai deixá-lo governar. É muito provável que ele vai tentar negociar o orçamento e outras medidas, e que a esquerda também vote uma moção de censura. É um governo que está muito a prazo.

    RFI: O primeiro desafio vai ser fazer votar um orçamento. Tradicionalmente, o orçamento começa a ser analisado no Parlamento em Outubro. Já falta pouco tempo. Como é que se vai dar essa equação?

    Victor Pereira: É preciso formar um governo. Isso não vai ser assim tão fácil porque, por exemplo, na última vez, o governo só ficou completo depois de um mês e não era necessário negociações tão amplas como agora com os Republicanos. E, de facto, vai ser preciso encontrar o ministro das Finanças. Muito provavelmente não vai ser o Lemaire (Ministro das Finanças do anterior governo) apesar de ser da direita. Ele disse várias vezes que queria sair e já tem um emprego na Suíça. É preciso encontrar um Ministro das Finanças e um secretário de Estado ou ministro do Orçamento, que consiga muito rapidamente estabelecer um orçamento, quando as contas públicas francesas estão muito mal (mais de 5% de défice). Isso vai ser um elemento ainda mais complicado para o novo governo Barnier, que vai ser apresentar um orçamento que, depois, possa ser aceite pelo Parlamento, mas também pela Comissão Europeia.

    RFI: Que outros dossiers esperam Barnier? Mencionou, designadamente a questão da reforma do sistema de aposentações, que é aquele dossier que foi alvo de muita polémica, muita controvérsia, com toda a sociedade praticamente a mobilizar-se contra esta lei. Há também a questão do subsídio de desemprego, que é preciso também resolver rapidamente, uma vez que um novo dispositivo poderia entrar em vigor dentro de algumas semanas. Há muito trabalho pela frente.

    Victor Pereira: Sim, sim, obviamente há muito trabalho pela frente. Acho que no que toca às apresentações, Barnier não vai tocar na reforma que passou com muita contestação da oposição, da rua e dos sindicatos. Estava na calha uma reforma do subsídio de desemprego para reduzir ainda os direitos dos desempregados. Uma reforma que o Attal (anterior Primeiro-Ministro) enterrou depois das eleições europeias. Vamos ver o que é que vai fazer, se vai ser uma das prioridades ou se vai deixá-la para não provocar logo uma guerra com a esquerda. E, obviamente, depois a vida quotidiana vai retomar os seus direitos. Desde já, um dos temas foi muito falado durante as eleições, foi o peso que a extrema-direita tem nos medias. Vamos ver como é que o Barnier vai lidar com isto. Será que ele vai seguir a agenda imposta pelos canais de extrema-direita, os Fox News franceses, ou vai tentar reduzir o peso desses medias? Isso é um tema também que pode aparecer em breve.

    RFI: A esquerda, desde já, renovou o convite para uma grande mobilização neste sábado contra esta situação. Como é que se apresentam os próximos tempos?

    Victor Pereira: Obviamente, a esquerda vai tentar dizer que a vontade popular não é respeitada com essa escolha e vai tentar mobilizar na rua. Não parece que haja um grande movimento. Posso estar enganado. Além, talvez, de um protesto, pode haver um grande cansaço, porque as pessoas mobilizaram-se. Nunca houve tão pouca abstenção e vemos que Macron decidiu não tomar realmente em conta esse resultado. Obviamente, talvez não logo, mas vai ser mais difícil para o governo Barnier, se ele conseguir manter-se, fazer passar leis impopulares, porque muito provavelmente os sindicatos e parte dos partidos de esquerda vão tentar não deixar passar algumas medidas impopulares. 

    13 min
  • Sandra Monteiro: « É uma honra e um orgulho participar nos Jogos Paralímpicos»

    O boccia é uma prova especificamente paralímpica. Esta modalidade, que tem influências no jogo da Petanca, tornou-se uma modalidade Paralímpica em 1984 em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

    O boccia está dividido em quatro categorias, BC 1, BC 2, BC 3 e BC 4.

    É uma modalidade para atletas com paralisia cerebral e/ou outras disfunções neurológicas. É um desporto praticado num espaço interior, em que são arremessadas bolas de couro, seis azuis e seis vermelhas, com o objectivo de as colocar o mais perto possível de uma bola branca, numa partida dividida em quatro parciais nos individuais e em seis na prova por equipas.

    O boccia é uma modalidade em que dois países lusófonos já arrecadaram várias medalhas: Brasil e Portugal. A comitiva brasileira, desde 1960 e a primeira edição oficial dos Jogos Paralímpicos em Roma, na Itália, já conquistou 11 medalhas, enquanto os portugueses já levaram para casa 27 medalhas, inclusive nove de ouro.

    Para Portugal, o boccia é de longe a segunda modalidade com o maior número de medalhas e de ouros paralímpicos, apenas atrás do atletismo.

    Nestes Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024, Portugal regressou às medalhas de ouro com um título conquistado por Cristina Gonçalves na categoria de BC2.

     

     

    Nesta modalidade, dois árbitros portugueses também estão presentes, David Henriques e Sandra Monteiro.

    A RFI falou com Sandra Monteiro, árbitra internacional de boccia.

    Voluntária desde 1994 em competições de Boccia, ano em que fez o curso de Árbitra Nacional da modalidade. Sandra Monteiro já esteve presente em quatro edições dos Jogos Paralímpicos: Pequim em 2008, Londres em 2012, Rio de Janeiro em 2016 e Paris em 2024.

    Sandra Monteiro colabora na formação de Árbitros de Boccia em Portugal e é Presidente do Conselho de Arbitragem.

    Em entrevista à RFI, Sandra Monteiro, professora de profissão, revelou-nos como surgiu a paixão pelo boccia e a arbitragem, mas antes disso abordou a experiência em Paris, a quarta participação nos Jogos Paralímpicos.

    As provas de boccia acabam nesta quinta-feira nos Jogos Paralímpicos com as provas por equipas, onde Portugal foi eliminado na fase de grupos, e o Brasil nos quartos-de-final.

     

    11 min

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