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  • Portugal: Habitantes de Sintra protestam contra “turismo de massas"

    Os moradores e os comerciantes de Sintra, um dos principais destinos turísticos de Portugal, pedem medidas sustentáveis contra o excesso de visitantes. A associação QSintra, criada para combater as ameaças à vila que é património da Humanidade, destaca o caos do trânsito e a falta de soluções.

    Depois de várias queixas sem resposta por parte da Câmara Municipal, a associação QSintra começou um protesto com cartazes colocados em edifícios, principalmente nos principais pontos de passagem da vila. Carlos Salgado, um dos membros da associação, falou com a RFI sobre os protestos e sublinhou que o objectivo não é afastar os turistas.

    "É  uma reacção a tudo aquilo que se passava em Sintra. Para quem ama este lugar único fazia confusão. E tudo se veio a agravar. O ano passado pensámos em tomar uma acção, mas entretanto o presidente da Câmara anunciou que ia tomar medidas e nós resolvemos não fazer nada. Como essas medidas não foram tomadas este ano, resolvemos passar à acção. O problema aqui em Sintra é sobretudo uma falta de gestão do território. Não há  medidas concretas. Isto é um verdadeiro inferno de viaturas, de tuk tuks, de carros para turistas. Tudo entra. É uma enorme confusão. Está verdadeiramente a saque com alguns sintomas de violência por parte de muitos dos operadores turísticos, que é uma coisa estranhíssima. As pessoas, hoje em dia, têm uma vida completamente desgastante. Muitos não podem sair de casa porque têm carros parados à porta, não podem ir às compras. Além de que, toda esta evolução do turismo acabou por atirar a maior parte das pessoas para fora de Sintra. O centro histórico já é um local sem residentes e, portanto, sem memórias e sem histórias. Não existe uma farmácia, não existe uma padaria, não existe uma mercearia.

    Quando fala de violência de operadores turísticos, refere-se a que tipo de situações?

    "Por exemplo, aqui em São Pedro existe uma praça que é Praça D. Fernando. A câmara reservou uma parte para estacionamento, e alguns condutores dos tuk tuks destruíram todos os pinos que foram lá postos para delimitar o estacionamento. Depois, funcionários da Junta de Freguesia que foram lá repor as coisas foram corridos e insultados. Portanto, só vai para lá quem parar o carro e apanhar um tuk tuk para ir para o Palácio da Pena. É uma questão completamente louca, não é?"

    Depois de pedirem medidas à Câmara para resolver a situação, decidiram avançar com um protesto com cartazes que está a acontecer neste momento.

    "Exatamente. Isto é um processo que já se arrasta há muito tempo e, no fundo, grande parte dos residentes e nós, enquanto associação, manifestámo-nos nas assembleias municipais, escrevemos para a Câmara. Muitos residentes, mandaram e-mails e cartas. Às tantas, parecia que estavam a gozar connosco, como se estivesse tudo bem e nós não tivéssemos razão nenhuma. E perante essa ausência de resposta e perante essa falta de respeito da autarquia para com os residentes, decidimos avançar com esta campanha".

    Há quem diga que este é o preço a pagar por terem muitos visitantes. Mas a associação acredita que é possível um equilíbrio entre o turismo e a vida das pessoas que habitam em Sintra. 

    "Não é só das pessoas. É que hoje em dia os próprios comerciantes não estão a tirar benefício nenhum deste tipo de turismo. Para já é um turismo completamente descaracterizado e a maior parte das pessoas que vêm a Sintra estão cá uma ou duas horas. São tantas as pessoas que é uma verdadeira invasão. Portanto, o próprio usufruir da visita é muito relativo, porque são os próprios turistas que se sentem perdidos. Por exemplo, muitos de nós que temos alojamento local ouvimos os nossos turistas a dizer que não voltam mais a Sintra porque é uma confusão. A visita ao Palácio da Pena  tornou-se numa visita traumatizante. Para ver qualquer coisa, tem que espreitar por cima de não sei quantas cabeças".

    E como é que a autarquia reage às vossas queixas?

    "Começou por reagir de uma forma completamente disparatada, dizendo que este era um movimento dos donos das quintas que tinham perdido os seus privilégios e que, portanto, não queriam que os visitantes viessem a Sintra. E vai reagindo dizendo que tem feito coisas mas não tem resolvido coisa nenhuma. Por exemplo, agora falam na construção de um parque de estacionamento exterior, que é uma das uma das coisas que nós falamos há muito tempo. Só que a questão de fazer um parque de estacionamento per si não resolve coisa nenhuma".

    Quais são as medidas que poderiam funcionar?

    "Isso requer algum estudo e algum olhar. Obviamente que é necessário, por exemplo, uma limitação do trânsito, uma gestão do espaço de uma forma completamente diferente, de maneira a que seja permitido conviver num lugar único, porque Sintra é um lugar único, aos residentes, aos visitantes, aos comerciantes ... Mas não há uma medida milagrosa. Tudo isto requer uma gestão integrada de várias disciplinas que permitam desenvolver uma perspectiva sustentável e de qualidade de vida aqui dentro. Já aconteceu pessoas que precisam de uma ambulância e a ambulância não chega a tempo". 

    E como é que as pessoas estão a reagir ao vosso protesto? Falamos de cartazes com frases como "Sintra não é a Disneylândia nem um parque de diversões".

    "As pessoas que vivem em Sintra estão a reagir muito bem. Por exemplo, hoje fui tomar um café e a conversa era essa. E era entre pessoas que, se calhar, há pouco tempo não se permitiam falar daquela maneira e que agora falam abertamente contra esta loucura. Isto de facto é um desgaste. Outro dia, aqui ao pé da minha casa, uma pessoa não conseguia sair porque um carro estava completamente encostado à porta dele.

     

    Olhando para o exemplo das grandes cidades da Europa, acredita que há possibilidade de as coisas voltarem ao normal, de ser mais fácil para os habitantes de Sintra viverem na sua vila?

    "Se houver vontade política de, por um lado, ouvir as populações e de, em conjunto tentarem resolver os problemas, eu acredito que sim. É evidente que não vai voltar ao que era aqui há 40 anos. Era uma vila com uma vida perfeitamente normal. Viviam cerca de duas mil pessoas no centro histórico. Já é difícil voltar, mas eu acredito que sim. E sobretudo, se houver vontade das entidades políticas em começarem por ouvir os residentes".

    9 min
  • Incêndios na Madeira destroem áreas protegidas e "vegetação única"

    Desde 14 de Agosto lavra um incêndio na Madeira onde já arderam cerca de cinco mil hectares da ilha. Não há registo de mortos nem feridos, as infra-estruturas e habitações não sofreram danos. Mas, de acordo com a associação ambiental Quercus, vários tipos de vegetação rara já foram destruídos nesta ilha conhecida como a "Pérola do Atlântico", terreno para uma fauna e flora diversificada e áreas classificadas como património mundial da Unesco. 

    Na manhã de quinta-feira 22 de Agosto, no oitavo dia de luta contra as chamas, o incêndio na Madeira está com duas áreas de fogo activas, sendo a que evoluiu para a cordilheira central, principalmente na Achada do Teixeira, Pico Ruivo, a que mais preocupa, de acordo com as autoridades locais. 

    No terreno, para lutar contra as chamas, a Protecção Civil conta apenas com um helicóptero. O Governo regional da Madeira activou esta quarta-feira Mecanismo Europeu de Protecção Civil para que pudessem ser enviados "dois aviões Canadair".

    Em entrevista à RFI, Elsa Araújo, presidente da associação ambiental Quercus na Madeira, denuncia a falta de meios e questiona a demora na activação do plano europeu para a disponibilização de meios aéreos no combate às chamas.

    No espaço de uma semana arderam cerca de 5 000 hectares numa ilha com várias zonas classificadas como Património Mundial da UNESCO.

    "Nós na Quercus não conseguimos compreender como é que só após uma semana o governo regional activou o plano para a vinda dos meios aéreos. Isso não tem explicação. Todos os madeirenses sabem que na zona onde os fogos estão a lavrar, os aviões são a única forma de os combater. Qualquer pessoa com consciência e responsável teria pedido há imenso tempo os meios aéreos para combater os fogos. Isto mostra que da parte do governo não existe qualquer interesse pela conservação do património natural", alega a presidente da associação ambiental.

    A orografia da ilha da Madeira, com montes abruptos e de difícil acesso e a confluência dos ventos, dificulta o combate às chamas. O acesso por via terrestre é por vezes "impossível", concede a presidente da Quercus, questionando todavia a demora na activação do Mecanismo Europeu que permitiria incluir no combate às chamas mais meios aéreos. 

    "Ao longo destes dias tivemos apenas um meio aéreo [um helióptero] a combater o fogo. é muito pouco, tendo em conta a área atingida pelas chamas. Este descontrolo do fogo para a zona do Pico Ruivo deve-se precisamente ao facto de não termos tido mais meios aéreos numa fase inicial. O fogo foi ardendo e avançando por aquelas cordilheiras, até ao ponto de ficar descontrolado. Agora muito património natural já foi destruído e as chamas já estão a ameaçar a floresta Laurissilva", alerta Elsa Araújo.

    A associação tem vindo a alertar que já foi eliminado pelas chamas um conjunto de plantas em habitats protegidos e classificados Natura 2000, rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis na União Europeia.

    Receia-se ainda que "outras plantas, que são únicas, que só existem naquelas zonas, possam eventualmente já ter extinguido". 

    "Estamos muito preocupados em relação à conservação da floresta Laurissilva. Já há uns anos atrás, quando os fogos atingiram a zona do Parque Ecológico, na zona do Pico do Areeiro, uma espécie única, a cerveira, ardeu com o fogo e extinguiu no seu habitat natural", recorda a ambientalista Elsa Araújo.

    O património natural da ilha da Madeira atrai todos os anos milhões de turistas, atraídos pela fauna e a flora únicas da ilha. Mas sem regulação do turismo, não pode haver uma preservação justa do ambiente, de acordo com a Quercus que, pela voz de Elsa Araújo, alerta para os perigos do "turismo de massas".     

    "O número de turistas que visita a Madeira é excessivo, é turismo de massas. E temos uma agravante, que é o facto de não haver controlo no acesso às áreas protegidas. Os nossos vizinhos açorianos controlam o acesso às áreas protegidas, isto é regrado na Região Autónoma dos Açores. Há muitos anos que pedimos aos turistas para terem cuidado e respeito quando visitam as áreas protegidas, nomeadamente se existe indicação de que determinado percurso é proíbido.O que nós pedimos aos turistas é que respeitem a sinalização", conclui a presidente da Quercus.

    11 min
  • Guiné-Bissau: remodelação governamental "vai trazer mais dissidentes"

    Esta terça-feira, o Presidente Umaro Sissoco Embaló assinou e publicou uma série de decretos, procendendo a nomeações que remodelaram por completo o Governo. Em entrevista à RFI, o jurista guineense Fodé Mané alega que o país assiste a uma "acumulação de ilegalidades", a última sendo a nomeação para cargos governativos de personalidades próximas e fieis ao chefe de Estado.

    Esta lista de nomeações acontece em plena crise interna no partido do Madem G-15, uma semana depois das duas reuniões das alas divergentes, em que ficou claro quem se posiciona de forma fiel ao Presidente Sissoco ou ao até então coordenador do partido, Braima Camará.

    Esta remodelação do governo vai, ainda segundo Fodé Mané, ter "efeitos perversos" e resultar em maior dissidência nos partidos políticos. 

    Esta terça-feira foram nomeadas figuras políticas fieis ao Presidente para cargos no governo, através de decretos presidenciais. São legais estas nomeações?

    Havia algumas vagas por preencher no governo há dois meses. Primeiro, desde que alguns ministros afectos ao partido de Nuno Nabiam,  APU-PDGB, aceitaram acatar as orientações do partido para se retirar do governo. Então houve três ministros e um secretário de Estado que tinham pedido demissão. E o Presidente nesta sua atitude de confrontação aceitou e não foram nomeadas pessoas para os substituir. Depois houve o PRS, o Ministro da Saúde que também pediu demissão e mais tarde, quando Fidelis Forbs, do Madem G-15, e um dos vice-coordenadores, mostrou a relação com o Braima Camará, foi exonerado. Então havia vagas para preencher. 

    Houve também substituição de ministros, como é o caso de Nicolau dos Santos, exonerado do governo e substituído por Dionísio Cabi, antigo presidente do Tribunal de Contas. 

    Porque ele (Nicolau Santos) não tinha declarado claramente estar ao lado da facção do PRS que apoia Sissoco. Então certamente ia ser retirado. Não há novidades.

    Dá impressão de que o Presidente está a promover as alas do Madem G15 e do PRS que lhe são fieis.

    Sim, só que, pelo contrário, vai ter efeitos perversos. Porquê? Primeiro, porque algumas pessoas que estavam na ala dos inconformados, tanto do PRS como do Madem, e que estavam à espera de serem chamados para preencher aqueles lugares, não foram. Porque não há lugar para agradar e acomodar todos os interesses. Então essas pessoas vão ficar de lado e o que acontece? Vão-se juntar mais uma vez no exército dos opositores ao regime. 

    Há uma carta que esteve a circular ontem de um dos primeiros a pedir demissão, Fernando Victor Mandinga. Victor Mandinga fez uma carta em explica que, quando se está no governo, é necessário dizer "sim senhor Presidente" a tudo. E que mesmo nos Conselhos de ministros, não há debate. Não há nada. Se não disseres "sim, senhor Presidente", corres o risco de sair.

    Portanto, os que andavam a questionar, a tentar opinar, foram afastados. O Fernando Mandinga revelou precisamente qual era o ambiente naquela altura e como é hoje. Por isso quem tem um mínimo de sensibilidade sobre questões de  legalidade e democracia não pode acompanhar este regime político.

    Portanto, estas remodelações podem, no limite, ser justificadas do ponto de vista jurídico, mas considera que estamos perante mais um golpe de força do presidente, que procura rodear-se dos seus mais fieis?

    É exactamente o que se está a passar. Mas não tem nenhum valor jurídico, não tem nenhum enquadramento, é apenas uma demonstração de força para afastar quem está no outro lado e quem ainda não definiu a sua posição. 

    Mesmo aqueles que foram militantes do PAIGC e que fizeram parte deste governo, à revelia das orientações do seu partido, foram obrigados a tomar uma posição clara. Eles deram conferência de imprensa, atacaram a direcção do partido e agora está-se a ventilar de que também estão a pensar criar um movimento de inconformados dentro do PAIGC, que já existe em todos os partidos com assento parlamentar, excepto o PTG (Partido dos Trabalhadores guineenses) de Botche Candé, mas existe no PRS, existe no APU, existe no Madem G15. 

    Poderá o chefe de Estado, Umaro Sissoco Embaló, ser designado presidente honorário do Madem-G15, na sequência da proposta feita pela ala do partido do Madem G-15 que lhe é fiel? 

    Esta proposta não tem nenhum valor jurídico e muito menos em termos políticos. Simplesmente cabe na deriva de ilegalidade que se está a verificar. O que tem acontecido são sinais claros de que a legalidade dos procedimentos não são respeitados. A própria convocação daquele congresso extraordinário [convocado pela ala fiel a Sissoco, no mesmo dia em que a ala de Braima Camará organizou um conselho nacional, a 17 de Agosto] desobedece a todos os procedimentos estatutários. Sabe-se também de vários actos de ilegalidade interna ao partido. 

    Porque é claro que a luta que existe não é para o cumprimento dos estatutos, é para manter fiel à actual situação ou contestar. Então, eleger o Sissoco como presidente honorário é uma forma de afrontar aquilo que é feito pela outra ala, que tinha escolhido o ex-presidente José Mário Vaz como seu presidente honorário.

    Qual pensa que pode ser  a decisão do Supremo Tribunal sobre a nomeação de Satú Camará para coordenadora do partido do Madem-G15, aprovada pela ala fiel a Sissoco durante o congresso extraordinário? 

    O Supremo Tribunal tem estado a proceder nesta onda de violação da legalidade. O Supremo Tribunal extravagou as suas competências. Não se limitou apenas a anotar decisões, mas a declarar como legítima determinada ala de determinado partido. Quando o Madem apresentou uma acção de providência cautelar para impedir a realização do tal congresso extraordinário, o que fez o Supremo? Fez uma nota a impedir o juíz de receber o processo.

    É uma ilegalidade. Por isso é que dizemos que, hoje, há apenas uma pessoa a funcionar com todas as instituições. É Umaro Sissoco que decide em nome do Tribunal, em nome da Assembleia, em nome do governo, em nome de tudo. Os outros são apenas ajudantes.

    Tudo o que a sociedade civil tem vindo a pedir, incluindo a realização de eleições presidenciais, vai ser agora mais difícil de exigir?

    Vai ser mais difícil, porque cada vez há acumulação de ilegalidades, há limitações que a Constituição impõe ao Presidente da República, e nós sabemos que a tendência é de continuar a violar essas limitações. Mas isso vai agitar cada vez mais tanto a sociedade civil como algum sector político.

    O que aconteceu com a coordenação de Madem é que ficaram fartos de defender ilegalidades. Há quem bateu com a mão na mesa. Dentro dos próprios partidos políticos acaba por haver cada vez mais dissidência. Só para repararmos: Nuno Nabiam, Fernando Dias, Braima Camará foram fortes apoiantes de Umaro Sissoco. Foram as pessoas que o levaram ao poder. Mas hoje todos têm uma posição diferente. 

    E com esta remodelação governamental vamos ter outra vez alguns dissidentes, porque o que alimenta os guineenses é a nomeação para lugares públicos, a nomeação é como uma premiação. Ontem, não só houve nomeação de membros do governo, como houve exoneração de directores. O director do Fundo Rodoviário, a governadora da região de Biombo... Exonerados. Nomeou-se o filho de Satú Camará, ela própria nomeada coordenadora do Madem, como director. São formas de compensação e isso está a acontecer noutras instituições, desde o Governo Regional até às direcções-gerais, com o expurgar dos indesejados. Mas também cada vez mais pessoas, próximas de Sissoco, estão a mostrar que já estão cansadas. Vê-se no caso de Óscar Barbosa.

    Como explica a saída voluntária de Óscar Barbosa do governo, ele que foi conselheiro e porta-voz de Umaro Sissoco Embaló? 

    Entre todas as demissões, esta foi a que mais surpreendeu. Óscar Barbosa não é uma pessoa de princípios. Esta situação em que Sissoco está a ser isolado pelos próprios companheiros de partido e que Óscar Barbosa diz estar do lado de Braima Camará é uma supresa. Isto dá para duvidar sobre se não se trata de uma armadilha... Também podemos acreditar na sua boa fé. Mas toda a gente em Bissau comenta a situação de Óscar. São sinais para vermos que o único pilar que sustenta Umaro Sissoco é a força. Não é nenhuma legalidade.

    12 min
  • Convenção Democrata: "Kamala está a integrar-se na tradição dos candidatos presidenciais do partido"

    Desde ontem e até quinta-feira, decorre em Chicago a Convenção Democrata durante a qual Kamala Harris vai ser oficialmente entronizada candidata à Casa Branca, poucas semanas depois de Joe Biden ter desistido de brigar um segundo mandato face ao antigo Presidente Republicano, Donald Trump.

    Nesta segunda-feira, dia em que discursaram o Presidente cessante, Kamala Harris e outras figuras democratas como Alexandria Ocasio-Cortez ou ainda Hillary Clinton, ostentou-se uma frente unida em torno de aquela que ambiciona ser a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos e esboçou-se um balanço destes últimos quatro anos com Joe Biden.

    As melhorias no desempenho económico do país e as medidas a favor das franjas mais desfavorecidas foram alguns dos aspectos evocados. A política americana no Médio Oriente também irrompeu na Convenção, com militantes pró-palestinianos a manifestarem em Chicago para reclamar o fim do apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel.

    Estes foram alguns dos aspectos que abordamos com o analista político, Germano Almeida, que ao analisar o teor dos discursos pronunciados ontem, começa por evocar o legado de Joe Biden.

    RFI: Qual é o balanço que se pode fazer do mandato de Joe Biden como Presidente?

    Germano Almeida: Eu acho que aqui há algum balanço contraditório. Tem aspectos muito positivos e, depois, algumas coisas negativas. Eu acho que em alguns aspectos, Joe Biden faz uma presidência bastante sólida, bastante positiva, no sentido em que, depois dos 'anos Trump', consegue recuperar alguma eficiência e alguma estabilidade na administração americana, depois da qual consegue relançar a economia americana, que é a economia no G7 que mais cresce. Ao fim de dois anos seguidos, consegue reduzir a inflação, que de facto chegou ao nível histórico de 9,1%, mas não foi culpa de Joe Biden. Foi culpa da pandemia, do regresso da actividade com alguma disrupção ainda dos sectores da distribuição e depois do início da guerra da Ucrânia, naturalmente com as sanções à Rússia que isso implicou. Mas em dois anos, com uma política arriscada, mas com a subida dos juros, consegue baixar a inflação para 2,9%. Há um sentimento contraditório e isso porque, mesmo sendo assim, a verdade é que muitos americanos sentem que ainda estão a pagar demais e, portanto, a economia tem esse lado contraditório. No geral, bons índices económicos dos Estados Unidos, mas os americanos não sentem isso. E isso vai ser uma coisa que vai marcar esta eleição, que Kamala está a ganhar nos temas como a defesa do aborto, a mobilização do seu eleitorado, mas corre o risco, mais próximo da eleição, de ter problemas com a questão da economia e também a questão de imigração. Ou seja, nos últimos anos, tem havido um recorde de entrada de imigrantes ilegais, muito também por causa de uma lei de imigração que está obsoleta e que não consegue dar resposta à situação na fronteira sul do Texas com o México. Mas é responsabilidade também da maioria republicana no Congresso, que nunca se manifestou aberta a fazer um acordo sério para resolver a questão.

    RFI: Kamala Harris é esperada sobre a questão da imigração e sobre a questão da economia. Ela já falou, por exemplo, dos impostos que ela pretende estabelecer, nomeadamente aos mais ricos. Há também a questão do aborto e a questão da política exterior, nomeadamente o Médio Oriente.

    Germano Almeida: Sim, o caso do Médio Oriente, Joe Biden abordou isso. Enquanto eles falavam, havia protestos à porta da Convenção de manifestantes mais à esquerda, que dizem coisas que eu acho que são injustas, do estilo 'Harris, Joe Biden e Trump é tudo igual'. Não é tudo igual. Pode ser culpada de algumas coisas relativamente ao tema, mas a verdade é que a administração Biden está a liderar os esforços para que haja algum tipo de acordo de cessar-fogo em Gaza e mais globalmente uma solução política para aquela questão. É evidente que, olhando para o tempo que passou, podemos dizer que até agora estão a falhar porque continuam a morrer inocentes em Gaza. É verdade. Mas também me parece que essa ala esquerda tem que pensar muito bem se é assim muito inteligente estar a dizer que são iguais Kamala ou Trump e assim permitir um regresso de Trump que vai dar muito mais espaço para Netanyahu continuar a sua guerra em Gaza. Mas isso é outra questão. Vamos ver. Eu acho que Alexandria Ocasio-Cortez, da ala esquerda do Partido Democrata, foi muito clara ao elogiar Kamala, dizendo que ela fará tudo para haver uma libertação dos reféns e um cessar-fogo em Gaza. Relativamente à questão fiscal, uma questão muito importante também na discussão política da campanha, Kamala está a mostrar-se uma candidata de continuidade em relação a Biden e a Obama, no sentido de defender uma taxação dos mais ricos de modo a permitir um corte fiscal dos americanos com menos rendimentos. Espera-se nas próximas semanas que haja mais detalhes e que haja, já agora, debates entre Trump e Kamala relativamente a este tema, que é um tema muito importante.

    RFI: Mencionou a presença de Ocasio-Cortez nessa convenção e o elogio a Kamala Harris. Um pouco mais à direita do espectro dos democratas estava também Hillary Clinton, que em 2016 não beneficiou de toda a união que há neste momento em torno de Kamala Harris, quando se apresentou para as presidenciais. De facto, isto é um sinal forte, ver todo o espectro dos democratas com Kamala Harris?

    Germano Almeida: Sim, é muito importante esse ponto que refere. De facto, Hillary Clinton, à justa não consegue a eleição um pouco por isso. Se nos lembramos, a eleição geral com Hillary Clinton e Trump, decorre depois de umas primárias democratas em que houve muita fractura entre o lado mais centrista dela e o lado mais a esquerda de Bernie Sanders. E apesar de Sanders apelar ao voto em Hillary, houve muita gente que votou nele, sendo que foram 45% dos democratas, que ainda depois não terá votado em Hillary. Isso custou-lhe a eleição e eu acho sinceramente que Kamala não corre esse risco. Acho que ela consegue juntar mais as duas alas esquerda e centrista. Há quem a ache demasiado a esquerda. Eu acho que não. Acho que ela está a integrar-se na tradição dos candidatos presidenciais democratas dos últimos anos, centro-esquerda, com propostas progressistas, com algumas nuances, mas, sobretudo, consegue mobilizar mais a ala esquerda também porque tem um candidato a vice-presidente, Tim Waltz. Mas enfim, o que eu tenho dito, é que que tanto Kamala como Waltz pensam que as mulheres não devem ser criminalizadas se praticarem o aborto e defendem refeições escolares gratuitas para as crianças desfavorecidas. Isso não é ser radical de esquerda. Isso é ser civilizado numa sociedade civilizada.

    RFI: O campo democrata, em poucas semanas, remodelou completamente a sua estratégia. Como é que podemos analisar a forma como o Trump está a lidar com a situação?

    Germano Almeida: Não está a conseguir lidar bem. É preciso, para ser justo, dizer que há um mês Trump tinha a eleição ganha. A sua mensagem de que 'Biden não estava em condições' estava a passar. Mas depois, entretanto, com a desistência de Biden, tudo muda e ele ainda não conseguiu refazer isso. Está agora a tentar refazer, focando a mensagem mais na parte económica. Isso claramente é uma estratégia dos seus estrategas de campanha, mas está no sangue de Trump de depois divergir para coisas absolutamente disparatadas, como dizer que ele é mais bonito do que Kamala, que ela tem o riso que é irritante. Enfim, esse tipo de conversa anima os comícios dele. Há quem goste muito, mas sinceramente não acho que seja assim que ele vai ganhar a eleição. Isso é um problema dele. A questão é que realmente tem essa dualidade, entre um caminho que até existe porque as sondagens dizem que há mais americanos a confiar em Trump na parte económica do que em Kamala. Isso é uma oportunidade para o Trump, mas até agora ele não está a saber agarrá-la, embora ele estivesse claramente a liderar a eleição e portanto ainda falta algum tempo. Neste momento, parece-me que Kamala, se as eleições fossem hoje, ganhava. Mas a eleições vão ser daqui a 77 dias. Tudo pode acontecer.

    RFI: Em paralelo com a Convenção democrata, o campo republicano está a lançar um procedimento para a destituição de Joe Biden. Isto a poucos meses do fim do seu mandato. Qual é o objectivo desta iniciativa, a seu ver?

    Germano Almeida: É um objectivo político, mas é um disparate pegado. Se a maioria republicana no Congresso quer aproveitar o tempo que falta desta legislatura e deste mandato com isso, acho que faz mal e acho que perde -lá está- o tal centro e os tais moderados. Está a fazer um favor a Kamala que está a agarrar os moderados. 

    RFI: Com toda esta unanimidade que há em torno de Kamala Harris, a seu ver, quais poderiam ser os seus pontos fracos? 

    Germano Almeida: Tem alguns. Para já, ela está a conseguir contornar aquilo que diziam que eram os pontos fracos dela. Ela está a conseguir passar bem a mensagem e acho que se deve continuar a ir por aí. Os pontos fracos: até agora, ela ainda não se dispôs ao contraditório e tem que a fazer naturalmente. Tem que ter entrevistas, tem que ter conferências de imprensa. Não pode ser só situações completamente controladas por ela, como esta convenção. Assim é fácil brilhar, não é? Por outro lado, tem algumas coisas do seu passado que podem ser pontos fracos, nomeadamente o verão de 2020, depois da morte de George Floyd e os tumultos nas cidades americanas, sobretudo no Estado do Minnesota, precisamente já com Tim Waltz como governador, actual candidato a vice-presidente. Waltz foi acusado de não saber lidar bem com a situação e de criticar a polícia, de estar do lado dos manifestantes que estavam a praticar distúrbios. E Kamala, um bocado no calor daquilo, disse também coisas como 'se calhar temos de pensar em defund (deixar de financiar) a polícia' e portanto, naturalmente que isso vai ser usado pela campanha de Trump dizendo que Kamala e Waltz são um 'ticket' que põe em causa a segurança. Será muito por aí. Mas há um pequeno problema se quiser ir por aí, basta recordar várias vezes uma data: 6 de Janeiro de 2021 (data do ataque contra o Capitólio). Portanto, eu acho que o que o eleitorado moderado está a perceber isso, um grande risco para a democracia americana é, naturalmente, um regresso de Trump, perante uma coisa que não é um 'se'. Já aconteceu. Já houve um ataque às instituições democráticas de quem continua a dizer que 'não' a uma eleição que objectivamente perdeu há quatro anos.

    11 min
  • Guiné-Bissau: Sissoco Embaló “quer a bicefalia dos partidos com assento parlamentar”

    A ala do MADEM G-15, fiel a Braima Camará, realizou este fim-de semana um conselho nacional para debater a situação política do segundo maior partido da Guiné-Bissau, ao mesmo tempo em que a ala leal a Umaro Sissoco Embaló organizou um congresso extraordinário que terminou com a nomeação de Satu Camará, para o cargo de coordenadora do movimento. Abdu Mané, coordenador do Conselho de Direitos do MADEM G-15, acusa o chefe de Estado Umaro Sissoco Embaló de querer a bicefalia dos partidos e garante que a lei vai mostrar que este congresso é ilegal.

    A RFI: A ala do MADEM G-15 fiel a Umaro Sissoco Embaló organizou, este fim-de-semana, um congresso extraordinário que terminou com a nomeação da veterana de luta pela independência, Satu Camará, para o cargo de coordenadora do movimento. Qual é a vossa posição sobre as conclusões deste congresso?

    Abdu Mané, coordenador do Conselho de direitos do MADEM G-15: O congresso é manifestamente ilegal porque viola os estatutos do MADEM G-15.

    O MADEM G-15, o segundo maior partido da Guiné-Bissau, tem agora dois coordenadores- Braima Camará e Satu Camará. A veterana da luta pela independência que apelou à união de todos os órgãos do partido para que seja ultrapassada a actual crise interna. Este apelo poderá resolver a divisão interna no MADEM G-15?

    Não, não pode. Isto é um golpe, mas que ainda não está consumado. Nós vivemos num Estado de direito democrático e vamos accionar todos os meios legais, apresentar um processo judicial, no Tribunal Regional de Bissau e também no Supremo Tribunal de Justiça. Assistimos à usurpação de competências. Quem pode convocar [um congresso] é o conselho nacional.  Todavia, o conselho nacional só convoca na base de uma proposta apresentada pelo coordenador do MADEM G-15. Ela [Satu Camará] não é coisa nenhuma. É apenas a vice-coordenadora e não tem competências para o fazer.

    Está a dizer que todas as decisões que foram aprovadas neste congresso, nomeação de oito vice-coordenadores e o levantamento de sanções a militantes, nomeadamente ao general Sandji Fati, não são válidas?

    São nulas, não têm nenhum efeito. Por detrás dessa gente está o Presidente Umaro Sissoco Embaló que está a fazer a bicefalia nos partidos políticos, violando o artigo 9º da Lei 14 97. Estamos perante um atentado contra o Estado de Direito. [Violação] do artigo 24 com o abuso de funções da parte do Presidente da República.

    Qual é o objectivo de dividir um partido que o [Umaro Sissoco Embaló] representou quando foi eleito para o cargo de chefe de Estado?

    É o velho slogan agora “dividir para melhor reinar”. Ele quer fazer um segundo mandato, dividindo todos os partidos políticos, sobretudo os partidos com assento parlamentar. Já tentou isso no PRS, na APU PDGB NGB e agora é no MADEM G-15.

    O coordenador do movimento, Braima Camará, lembrou que havia um acordo político para que Umaro Sissoco Embaló fizesse apenas um mandato. Que com que base é que foi feito este acordo político?

    Eles têm uma testemunha, o coordenador Braima Camará falou claramente sobre isso. Trata-se do ex-presidente do Senegal, Macky Sall, que já não está em exercício de funções, mas testemunhou o acto. Nós temos que honrar a palavra. A palavra dada é palavra cumprida. Dos dois, alguém rasgou o acordo.

    Considera que as eleições presidenciais na Guiné-Bissau são o pomo da discórdia?

    Ele [Sissoco Embaló] marcou eleições legislativas, mas até agora tem estado a fazer campanha para as eleições presidenciais. É um contrassenso. (…) Todos os dias faz uma intensa campanha presidencial.

    Este fim-de-semana, a ala leal a Braima Camará, da qual o senhor faz parte, organizou um conselho nacional onde decidiu retirar a confiança política ao chefe de Estado. O que vos levou a tomar essa decisão?

    Por várias razões. Estamos a falar da violação sistemática da Constituição, abuso do exercício de funções, detenções arbitrárias, violação de direitos humanos. Isto é inadmissível, inaceitável. Ele é chefe de Estado e, ao mesmo tempo, exerce a função de chefe do Governo. Faz chantagem política com os nossos militantes que estão a ser corridos na administração pública. Estamos a assistir uma partidarização da administração pública.

    O chefe de Estado liga directamente aos governadores regionais para participarem num suposto congresso marcado pela Satu Camará, fazendo chantagem política de cessação de funções destes governadores regionais.

    Foram estas as razões que vos levaram a assinar a Declaração Política pela Salvação da Democracia em Lisboa, no passado dia 12 de Agosto, juntamente com outros partidos?

    Exatamente. Querendo fazer um segundo mandato, vamos ter de avaliar o desempenhou do primeiro mandato e, em função desses resultados, [tomaremos uma decisão]. No entanto, quando a pessoa insiste, viola sistematicamente a Constituição, com prisões arbitrárias, criando uma força anti golpe, pondo em causa o maior legado que Amílcar Cabral nos deixou… Como é que podemos acompanhar este Presidente? Nós não podemos.

    Nas conclusões do conselho nacional vocês decidem marca um congresso e também recomendam processos disciplinares….

    Sobre esta matéria não posso falar ainda. Vai ser aberto um processo no qual as pessoas terão a oportunidade de se defenderem. O Conselho Nacional delegou poderes à Comissão Política Nacional e vamos fazer uma reunião da Comissão Política Nacional para marcar a data da realização do primeiro Congresso Extraordinário.

    O coordenador Braima Camará esclareceu ainda os membros do conselho nacional, presentes na reunião, que não assinou nenhum acordo político com a coligação PAI-TERRA RANKA, mas sim com a APU-PDGB e PRS. Existe a necessidade de se afirmar um distanciamento do PAI-TERRA RANKA?

    Isto é subjectivo. A verdade é que ele não assinou o acordo com o PAI-TERRA RANKA, mas isso não é um bicho de sete cabeças. Na verdade, o único acordo que ele assinou foi  com a coligação KUMBA LANTA, a APU-PDGB e PRS.

    Então não descartam um acordo com o PAI-TERRA RANKA?

    Não é questão de descartar. Depende das circunstâncias políticas. Na verdade, neste momento nós temos um acordo firmado para a salvação da democracia com o PRS e APU-PDGB.  Agora em função de outras circunstâncias possíveis, pode-se ver.  No entanto, é prematuro falarmos de um acordo com o PAI-TERRA RANKA.

    Apelam à comunidade nacional internacional para estar atenta “às violações da Constituição da República, sequestro das instituições judiciais e outras violações cometidas pelo chefe de Estado da Guiné-Bissau”. O que é que vocês esperam da comunidade internacional?

    Estamos perante uma degradação dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Um dos nossos militantes, R Kelly, que esteve no aeroporto e não fez flagrante delito, foi levado para o Ministério do Interior, ficando lá 72 horas. Como é que nós podemos aceitar isso, ficarmos calados, impávidos e serenos? Em nome de quê?

    Mas porque é que só agora decidem falar? Quando outras situações semelhantes já aconteceram no país?

    Nós falamos das outras situações e até emitimos comunicados sobre isso. Mas tudo isso está a acontecer à ordem do general Umaro Sissoco Emabalá. Ele é o único responsável.

    O Presidente guineense, Umaro Sissoco Emabalú, exonerou o secretário de Estado guineense das Comunidades, Cipriano Mendes Pereira, sem evocar até ao momento os motivos. O secretário de Estado que esteve ao lado do líder do G15, Braima Camará. Pensa que esta ligação ao coordenador do Madame G15 poderá ter estado na origem desta demissão?

    Desculpe, minha senhora, mas isto não é perseguição política? Por que é que não exonera o Marciano Silva Barbeiro? Ele que esteve e está ao lado do Satu Camará. Porque é que não exonera Soares Sambu? Porque é que não exonera estes dois? Se todos eram do MADEM G-15. Estamos diante de dois pesos e duas medidas. O chefe de Estado exonerou o secretário de Estado por ter estado na nossa reunião do conselho nacional e os outros estiveram num congresso, violando todos os estatutos do MADEM G-15 continuam no Governo.

    E o que é que vocês contam fazer?

    Fazer uma acção judicial e trabalhar com as nossas bases, passando as mensagens de que mais uma vez se está a violar a Constituição e as demais leis do país.

    Mas como explicam que membros do seu partido continuem a apoiar o Presidente da República da Guiné-Bissau?

    Eu não tenho nada que explicar isso!

    8 min
  • Guiné-Bissau: "Há uma vontade de renovar e democratizar o MADEM G-15"

    Um grupo de militantes dissidentes do MADEM G-15 realiza este sábado, 17 de Agosto, na Guiné-Bissau, o primeiro congresso extraordinário do partido. Em entrevista à RFI, o general Sandji Fati, antigo ministro guineense de Defesa, afirma que este congresso nasce da vontade de renovar o partido e minimiza as declarações do coordenador Braima Camará que se opôs à realização do congresso e marcou para o mesmo dia o conselho nacional do MADEM G-15.

    RFI: Quais são os motivos que vos levaram a organizar este congresso extraordinário?

    Sandji Fati, antigo ministro guineense de Defesa: o primeiro congresso extraordinário foi uma subscrição dos militantes do MADEM G-15, em conformidade com o artigo 18.º n° 1. É uma vontade manifestada pelos subscritores e -conforme os estatutos- bastam mil assinaturas para se poder convocar um congresso extraordinário. Neste caso, foram ultrapassadas todas as expectativas, porque havia uma maioria silenciosa, dentro do partido, que queria alguma renovação e democratização do MADEM G-15.

    Quando falo em “renovação e democratização do partido”, refere-se a alguém em concreto?

    Não me refiro a ninguém. Refiro-me ao partido no seu próprio funcionamento, ao modus operandi, que tem de estar em conformidade com os estatutos.

    O coordenador do partido defende que para haver um congresso extraordinário é preciso haver um conselho nacional. Braima Camará que agendou igualmente o conselho nacional para amanhã, 17 de Agosto. Não há aqui uma divergência entre as partes?

    Não, esse é o entender de Braima Camará. E até pode ser que tenha tido um parcer jurídico nesse sentido. Quando se fala de um congresso extraordinário já se ultrapassa a própria competência do coordenador e do conselho nacional, uma vez que o maior órgão do partido é o congresso. Por isso, os militantes têm esse poder de convocar um congresso extraordinário.

    Deste congresso extraordinário e do conselho nacional sairão, a priori, conclusões.  Que decisões irão prevalecer no partido?

    As decisões do congresso, órgão superior, prevalecem em relação a todos os outros órgãos. Assim, se fosse em latim, diríamos que é “erga omnes”, ou seja, todas as decisões tomadas neste congresso são soberanas e são para toda a gente cumprir. Ponto final.

    Na base da divergência entre os membros do MADEM G-15 está o apoio ou não a um segundo mandato presidencial de Umaro Sissoco Embaló. Esta questão será discutida no congresso?

    Não, este assunto não está na agenda, porque não estamos nas eleições presidenciais. As eleições presidenciais só ocorrerão em 2025.

    Que assuntos serão debatidos durante este congresso? A escolha de um novo coordenador, por exemplo?

    O congresso tem os seus delegados e tem uma agenda própria que poderá ser aprovada ou não. É em função dessa discussão que serão tomadas as decisões. Não vale a pena eu estar aqui a fazer suposições porque não gosto desse aspecto.

    O coordenador do partido já veio dizer que o senhor general não tem legitimidade para falar em nome do MADEM G-15, uma vez que foi suspenso do partido por um período de dois anos. Que reacção lhe merece este comentário?

    Porque é que só foi por dois anos? Podia ter sido mais… No fundo, não há nenhuma pena que não esteja suportada por uma lei. No nosso partido, infelizmente, o conselho de direito não conseguiu elaborar um regulamento para a aplicação das sanções. Mas, pese embora isso, quando me notificaram da decisão, eu ainda fiz um recurso que está pendente, até agora não tive nenhuma resposta.

    Eu sou apenas uma pessoa, não fui eu a representar as mais de 3500 assinaturas. Eu não subscrevi a petição porque, como jurista, sabia que pendia sobre mim [esta sanção]. Mas eles também não responderam porque sabem que quem poderá dirimir o assunto são os tribunais. Por isso não responderam. Primeiro tem de se esgotar todos os aspectos processuais, dentro do partido, e só depois é que se vai para a via judicial.

    Esta semana, foi assinada, em Lisboa, uma declaração política conjunta que reuniu vários partidos, nomeadamente o MADEM G-15. Na declaração os partidos reconhecem que “o ambiente político que se vive no país é extremamente grave e propício a rupturas com impacto em consequências imprevisíveis”. O senhor revê-se nestas afirmações?

    Não me revejo nessa declaração. Apenas me reaviva a memória, os subscritores da carta, daqueles que accionaram a tentativa do golpe de Estado que se transformou numa guerra civil. Infelizmente, é consequência dessa guerra que estamos a viver até hoje. Por acaso, vi muita gente da junta militar à volta daquela mesa, por isso não fiquei admirado.

    O coordenador do MADEM G-15 acusa o Presidente Umaro Sissoco Embaló de não estar a respeitar a Constituição do país…

    Esse é um problema dele. O coordenador pensa, às vezes, que é o tribunal. Nós temos um Tribunal Constitucional e um o Supremo Tribunal de Justiça (…) Não podemos estar a pensar fazer justiça pelas nossas próprias mãos. Ou seja, a nossa interpretação do que é a lei. As pessoas alegam que não há Estado de direito democrático, mas são as opiniões dessas pessoas. Valem o que valem.

    A Liga Guineense dos Direitos Humanos revelou, em comunicado, estar preocupado com o estado de saúde do activista Queba Sané, também conhecido por R. Kelly, militante do MADEM G-15 detido arbitrariamente. Vocês estão preocupados?

    Não, eu não tenho nenhuma preocupação. Nem sequer tinha essa informação. Certamente que fez alguma coisa...

    Teria sido detido com outros militantes no aeroporto internacional Osvaldo Vieira quando aguardava a chegada de Braima Camará a Bissau…Não sei. Honestamente, eu não estive no aeroporto. Nestes dias tenho acompanhado o processo dos trabalhos para a realização do Congresso, apesar de não subscritor da petição, tenho estado a conversar com alguns camaradas e, imbuído neste espírito do trabalho, não me dá tempo para saber o que se está a passar. Portanto, como está a dar-me essa informação em primeira mão-obrigado- vou procurar saber.

    O Ssenhor general, está otimista quanto ao bom desenrolar do congresso extraordinário do MADEM G-15?

    Eu penso que os militantes estão determinados e são todas as categorias- da base ao topo. Temos mais de seis vice-coordenadores do MADEM G-15 escolhidos pelo senhor Brahma Camará, e todos subscreveram a realização do congresso extraordinário

    O coordenador do partido Braima Camará vai estar presente no congresso?

    Ele é que sabe. Ninguém o pode obrigar a lá estar. Estamos num Estado de direito democrático.

    7 min
  • "É de louvar" a condenação política de Umaro Sissoco Embaló, considera Frente Popular

    Com as críticas a Umaro Sissico Embaló a virem do seu próprio campo político face à gestão da situação na Guiné-Bissau, a Frente Popular, movimento da sociedade civil, louva que políticos como Braíma Camará reconheçam que o Presidente está "a ultrapassar" os limites e pede uma intervenção da comunidade internacional, como disse Lelito Quadé, coordenador desta plataforma, em entrevista à RFI.

    Na Guiné-Bissau, a crispação política aumenta diariamente com a sociedade civil a pedir o regresso do país ao Estado de Direito, defendendo o direito às manifestações pacíficas e a que os jornalistas possam realizar o seu trabalho em liberdade e sem quaisquer restrições.

    Este é também o pedido da Frente Popular, organização da sociedade civil que se mobiliza pela salvaguarda da democracia na Guiné-Bissau desde o início deste ano.

    Para este movimento, as críticas do líder do MADEM-G15, Braíma Camará, recentemente chegado a Bissau, contra Umaro Sissoco Embaló mostram que este ganhou consciência da situação no país.

    "Só não vê quem não quer ver como o Sissoco está a levar a Guiné-Bissau e a Frente Popular está a acompanhar essas dinâmicas políticas. O Partido MADEM-G15 é um partido que sempre apoiou o Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló. Mas, uma vez que esse partido ganha a consciência, reconhece que Sissoco está a ultrapassar todos os limites e vem condenar, nós, todos nós, aplaudimos. Por isso estamos a acompanhar. É de louvar as iniciativas de condenação aos actos de Sissoco Embaló", disse Lelito Quadé, coordenador da Frente Popular.

    A Frente Popular pede agora que a comunidade internacional intervenha no país de forma a prevenir uma escalada de desrespeito dos direitos dos guineenses.

    "A população da Guiné-Bissau precisa da intervenção da comunidade internacional. A Guiné-Bissau faz parte desta comunidade e havendo estas questões, havendo esse problema no nível em que está e não se sabe, num futuro próximo, o que é que pode acontecer, seria bom que a comunidade internacional antecipasse os eventos antes de chegarmos ao ponto do descambar das coisas. Então é importante uma intervenção imediata, porque a tensão está muito alta na Guiné-Bissau e as coisas parecem que podem perder o controlo a qualquer momento", avisou o activista da sociedade civil.

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  • Ofensiva ucraniana é “um grande embaraço para a Rússia”

    A ofensiva da Ucrânia em território russo é a maior incursão de um exército estrangeiro em solo russo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. É também “uma ocupação que tem um sabor a humilhação, um grande embaraço para a Rússia, sobretudo para Vladimir Putin”, considera o analista Calton Cadeado. O especialista em Estudos de Conflitos diz que o ataque surpresa ucraniano criou “mal-estar dentro da Rússia” e permitiu ganhar “elementos de troca” para a futura mesa de negociações. Resta saber se Kiev “tem força para aguentar” e qual será a dimensão do contra-ataque russo.

    Esta quarta-feira, o Presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, disse que prossegue a ofensiva em território russo. Kiev afirma ter conquistado 74 localidades na região fronteiriça de Kursk, onde entrou a 6 de Agosto, e também continua ataques aéreos contra Belgorod. De acordo com a agência France Presse, esta é a maior incursão de um exército estrangeiro em solo russo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Para analisar a situação, o nosso convidado é Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais e Estudos de Conflitos na Universidade Joaquim Chissano em Moçambique.

    RFI: Confirma que esta é a maior incursão de um exército estrangeiro em solo russo desde o fim da Segunda Guerra Mundial? Qual é o objectivo desta operação?

    Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais e Estudos de Conflitos na Universidade Joaquim Chissano em Maputo: "De facto, até agora, pelos registos da História, esta é a maior e - se calhar, eu até arriscaria a dizer - a única ocupação do território russo depois da Segunda Guerra Mundial. E é uma ocupação que tem um sabor a humilhação, um grande embaraço para a Rússia, sobretudo para Vladimir Putin como Presidente da Rússia."

    Uma derrota pessoal para Vladimir Putin?

    "Sem dúvida. Esta é uma derrota pessoal para Putin e também para o movimento nacionalista que ele tinha conseguido mobilizar em torno desta guerra ao ter conseguido apoio nos princípios desta guerra. Nós sabíamos das sondagens que mostravam que grande parte da população russa apoiava esta operação militar especial, mas hoje Vladimir Putin já não tem cara para aparecer diante do público e mostrar a Grande Rússia, a grande superpotência que Vladimir Putin sempre projectou."

    Vladimir Putin não pode tirar proveito desta operação ucraniana?

    "Neste momento, ele pode muito bem mobilizar os corações e as mentes dos russos para dizer que ‘temos que defender o nosso território’. Mas esta seria uma reviravolta na sua narrativa, que mostrava uma Rússia muito grande, uma Rússia super poderosa e uma Rússia que estava a lutar por um objectivo específico, incluindo a defesa do seu território.

    Mas, neste caso, a Ucrânia consegue ocupar o seu território, pelo menos até agora - depois vamos abordar o objectivo dessa operação. Isto não consegue ganhar os corações das pessoas porque as pessoas já estão a perguntar - pelo menos das notícias que nos chegam da Rússia - que mostram que uma parte da população pensa que Vladimir Putin mentiu sobre esta guerra e estão a pagar as consequências desta mentira neste momento."

    Qual é o objectivo desta incursão ucraniana?

    "Quando nós abordamos os objectivos, temos que ver objectivos na dimensão estratégica e na dimensão operacional. Até podemos ir à dimensão táctica, mas eu gostaria de me concentrar numa dimensão grande, estratégica, que é desviar a atenção e reduzir o moral da ofensiva militar russa que está a ocorrer na Zona Sul, na zona de Donetsk, e passar a concentrar a maior preocupação das forças russas em defender o seu território e impedir o avanço dos ucranianos até dentro do espaço russo."

    Mas são dois flancos distintos, eu suponho que a Rússia tenha operacionais para defender ambos os flancos…

    "Mas isso é o que está a ser mostrado do ponto de vista de fraqueza da Rússia porque se a Rússia tem essa capacidade, nunca os ucranianos teriam conseguido ocupar, ainda que fosse um dia só, o território que está a ocupar hoje. Se a Rússia tivesse essa capacidade, pelas imagens estão a circular, pelas notícias que estão a circular…

    E o curioso disto - com toda a crítica que a gente possa fazer a Vladimir Putin na sua ditadura - nós estamos a obter informações de dentro da Rússia, inclusive de fontes governamentais, como seja o próprio Vladimir Putin que não escondeu este tipo de desastre, o que para mim até é um paradoxo, sabendo da Rússia como tem estado a conduzir a guerra, incluindo a guerra no silêncio da informação.

    Desta vez estamos a ver todas as informações, quer dos governadores, quer do próprio Vladimir Putin. É verdade que, pelas imagens que circulam, nota-se o embaraço de Vladimir Putin ao receber este tipo de informações e nota-se o semblante - para quem analisa isto, chama-se linguagem corporal, que é um elemento fundamental de análise. Nota-se o embaraço que Putin se meteu nesta situação e que os ucranianos o forçaram a estar."

    Esta ofensiva ucraniana poderá ter um impacto no decurso da guerra iniciada há dois anos e meio pela Rússia? É uma operação com significado táctico de curto prazo ou pode ter um impacto a longo prazo e mudar o decurso da guerra?

    "Isso é uma incógnita neste momento, mas já trouxe algum impacto. Os russos estão a continuar a guerra no Sul, que é para mostrar uma pujança, mas ao mesmo tempo estão a mobilizar forças em direcção à zona ocupada neste momento pelos ucranianos, o que pode diminuir o entusiasmo ofensivo da guerra naquela zona porque é a honra da Rússia que está em causa. É a honra de Vladimir Putin que está em causa neste momento e que é preciso proteger.

    Mas também do ponto de vista de objectivos, a Ucrânia já conseguiu o seu objectivo que é criar este mal-estar, este desajuste no sentido de coesão dentro da Rússia.  E um objectivo estratégico acima de todos que se podem considerar neste momento é que provavelmente a Ucrânia esteja a ver nesta ofensiva uma forma de ocupar algum espaço, ainda pequeno que seja, como um elemento de troca amanhã à mesa de negociação. Em termos de negociação, isto, em resolução de conflitos, diríamos que a Ucrânia está à procura de aumentar o seu poder negocial, que estava fraco até este momento.

    Mas mais do que isso, a Ucrânia também está à procura, na minha forma de ver, de ter um elemento autónomo, de força, de pressão porque sente que, provavelmente, as eleições na América possam mudar o seu poder negocial se Donald Trump entrar para o poder na América. Então eles querem criar uma certa autonomia de poder negocial para este decurso da guerra, o que parece que estão a conseguir porque o mundo, pelo menos ocidental, está a apoiar neste momento."

    Kiev também quererá mostrar ao mundo que afinal tem capacidade para agir, não apenas para defender, mas também para atacar? Uma vez que a Ucrânia conta com a ajuda militar ocidental, até que ponto não haverá o risco de assistirmos a uma escalada da guerra por parte da Rússia?

    "Isso leva-me a uma discussão que é teórica, mas muito prática no mundo da guerra. A Ucrânia fez um ataque surpresa. Alguns duvidam desta surpresa, mas eu quero acreditar que foi, de facto, um ataque surpresa. Porque é que há dúvidas? É que há uma alegação segundo a qual os russos sabiam disto e deixaram que isto acontecesse, mas eu tenho as minhas dúvidas em relação a esta narrativa e foi, para mim, uma surpresa e uma surpresa estratégica. Os ucranianos estão a lutar no solo russo, inclusive com o apoio de georgianos, que já sabemos da sua inimizade com a Rússia. Este é um elemento: o ataque surpresa.

    Agora, quanto de força a Ucrânia tem para aguentar ou manter essas conquistas é uma incógnita até agora. Na guerra, quando temos o primeiro ataque surpresa, temos que estudar e pensar no segundo ataque porque o segundo ataque pode ser tão poderoso a ponto de eliminar os ganhos do ataque surpresa.

    Tem muitos estudos feitos sobre a guerra de Yom Kippur, em Israel, que mostram claramente o valor do primeiro ataque surpresa e o valor do segundo ataque de reacção. Os russos estão a dizer que vão fazer um ataque forte, mas até agora esse ataque forte não apareceu, até porque os ucranianos se prepararam bem na surpresa, incluindo na surpresa aos seus aliados, os americanos, o Ocidente, porque está visto que eles não sabiam desta manobra que os ucranianos estavam a fazer - até prova em contrário. Então, a surpresa deu esta vantagem, mas não sabemos até agora o quanto os ucranianos vão aguentar no caso de um segundo ataque russo de resposta ser tão poderoso quanto eles estão a dizer que será."

    E aí entraria a questão que há pouco colocou que é: os russos saberiam de antemão que este ataque ucraniano iria acontecer?

    "Exacto. Agora estamos a trabalhar com muita informação. Aliás, os estudiosos disto dizem que na guerra a primeira vítima é a verdade. Nós temos várias informações e é preciso juntar todas elas para podermos ver o ponto real e algumas vezes nem chegamos até lá.

    Mas o que é um facto é que há humilhação de Vladimir Putin, há humilhação da Rússia, há uma seriedade que os russos estão a tomar em relação a este assunto. É só lembrar que no ano passado Vladimir Putin sofreu com o motim do [Yevgeny] Prigozhin, conseguiu controlar, mas a reacção que ele teve no caso de Prigozhin e a reacção que está a ter agora, nota-se uma clara diferença. É só ver, por exemplo, quando foi demitido Prigozhin, ele ficou uns dias no silêncio, mas neste caso, imediatamente a seguir à publicação das informações, ele apareceu ao público e tomou a dianteira no controlo disto e com um certo semblante de nervosismo, de embaraço e humilhação, como estamos a dizer. Vamos ver até onde isto o vai levar, mas é um grande embaraço para Putin na sua audiência doméstica e na audiência internacional. Já não veremos o mesmo Putin tão forte quanto projectou antes."

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  • "João Lourenço quer conseguir aquilo que outros não conseguiram" na RDC

    O Presidente angolano esteve esta segunda-feira, 12 de Agosto, em Kinshasa, no quadro da mediação de paz e segurança na República Democrática do Congo. O investigador angolano do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, Eugénio Costa Almeida, acredita que o cessar-fogo está a ser respeitado pelo M 23 e que o Presidente João Lourenço se quer apresentar como "um paladino que conseguiu aquilo que outros não conseguiram".

    Na capital congolesa, o Presidente João Lourenço manteve um encontro com o Presidente Félix Tshisekedi. Na véspera, domingo, João Lourenço tinha estado no Ruanda, a assistir à investidura de Paul Kagame para um novo mandato de cinco anos e esteve reunido com o Presidente do Ruanda.

    RFI: Como é que explicam estes encontros entre João Lourenço, Félix Tshisekedi e Paul Kagame. Esta é uma forma de Angola garantir que o cessar-fogo seja respeitado?

    Eugénio Costa Almeida: Isto é quase como uma prenda de tomada de posse de Kagame, que João Lourenço teve a fazer, embora os interesses africanos nem sempre se sobreponham aos interesses particulares. João Lourenço está incumbido pela União Africana como mediador do conflito nos Grandes Lagos. E é isso que ele tem estado a fazer, procurar que a situação se dilua em termos de conflitualidade, se certa foram é o seguimento do acordo que entrou em vigor em 4 de Agosto e que parece estar a ser cumprido pelas partes. Parece; inclusivamente; estar a ser cumprido pelo M23 e portanto essa situação faz-nos crer que, provavelmente, talvez as coisas se encaminham. Embora, pessoalmente, tenha muitas e legítimas dúvidas.

    Essas dúvidas têm sido levantadas desde 4 de Agosto, o dia em que no Congo Democrático vive desde o dia 4 de Agosto um ambiente de cessação de hostilidades, na tensa região do Leste. O acordo foi assinado, em Luanda, entre as delegações ministeriais do Ruanda e da RDC, sob a mediação angolana. Nas negociações não fez parte o grupo rebelde M23, isso pode comprometer o cessar-fogo?

    Em princípio, e tendo em conta o M23, disse logo que não iria aceitar o acordo porque não foi tido nem achado e pela intensidade de combates que eles fizeram 24 horas antes do acordo entrar em vigor, tendo ocupado inclusivamente cinco localidades, fazia-se temer que era mais um acordo de papel. Todavia, como alguns analistas fizeram referência e de certa forma elementos da ONU, se o M23 cumprir o acordo era a prova inequívoca que estava está a ser patrocinado pelo Ruanda. Portanto, as conspirações e especulações deixo para terceiros, mas costuma-se dizer que não há fumo sem fogo e que as situações parecem indicar nesse sentido, ao que parece. Apesar de tudo, se no ponto de vista militar o conflito parece que entrou na calmaria e o acordo está a ser aceite, internamente na RDC as situações políticas não são as mais saudáveis. Como se sabe, o próprio Tshisekedi acusou, ainda no final da semana passada, Kabila de estar coordenado com Kagame.

    Esta segunda-feira, a ministra dos Negócios Estrangeiros congolesa disse que Felix Tshisekedi "reiterou a total disponibilidade do governo congolês em participar nas próximas etapas do processo de Luanda, sob os auspícios do mediador João Lourenço". O mesmo tem de acontecer do lado do Ruanda?

    O próprio Tete António, o ministro das Relações Exteriores de Angola, esteve em conversações com a RDC e com a sua homóloga, Thérèse Kayikwamba, e tudo indica que estão disponíveis. Portanto, o próximo passo que vai ser definido entre as partes ministeriais. Provavelmente, se ele ontem estive a falar com a ministra da RDC, é possível que hoje fale com o seu homólogo de Kigali. Não temos esse conhecimento. É tudo natural e é previsível que isso aconteça, até para definirem calendários.

    A RDC acusa o Ruanda de apoiar o movimento rebelde M23, para se apoderar dos recursos minerais do Leste do país, enquanto o grupo armado alega estar a defender uma parte ameaçada da população tutsi que vive na província do Kivu do Norte. O que está na origem desta conflito ?

    O M23 é um movimento rebelde constituído por antigos militares das Forças Armadas da RDC, que se rebeliaram por não estarem a ser cumpridos acordos de 2009. Pararam e depois reacenderam-se em 2021, precisamente na altura em que também recrudesceram os conflitos com o Ruanda. Agora, o M23 defende interesses próprios; são as áreas onde há minério e, recentemente, um relatório da ONU deu a entender que estão a ser canalizados através do Ruanda, oficialmente ou não isso é outra questão. E como há no exterior, em particular o Ocidente, que é o mais interessado nesses produtos, fecham-se os olhos, como a muitas empresas que fecham os olhos relativamente às sanções com a Rússia.

    Há um facto que deve ser importante e que historicamente as pessoas talvez se esqueçam é que o M23 está numa área onde desde sempre, ainda tempo Leopoldo, ocorreram conflitos entre forças militarizadas de Leopoldo e depois do reino da Bélgica e os povos locais. Esses conflitos nunca foram reconhecidos. Até que ponto o M23 não se está a aproveitar desse facto etno-histórico, isso não me surpreenderia nada.

    Em que medida, o Uganda também participa neste conflito?

    Neste momento do Uganda é mais uma questão de sobrevivência face a Paul Kagame. Muita gente olha para Paul Kagame como um grande líder e eu diria que ele é um ditador iluminado e tem uma forças armadas muito bem estruturadas e que estão distribuídas por várias partes da África, como forças de intervenção, com forças de interposição, como forças de apoio à paz ou mesmo, como já disse no caso Moçambique, que reforçou recentemente a presença das forças em Moçambique, em particular Cabo Delgado, mas também Niassa, embora com menos intensidade, pelo facto de - não se pode esquecer - que o Estado Islâmico da África Ocidental está a recrudescer as suas actividades na área. Ainda no sábado fizeram um ataque no nordeste da RDC, o Uganda já teve alguns problemas com isso. Todas essas situações fazem com que Uganda tenha que tenha algum medo de uma eventual subserviência de uma força armada forte, como é o caso de Ruanda. 

    Tendo em conta que o RDC é um mosaico extraordinariamente partido de conflitos, conflitualidades internas é conveniente estar melhor que o meu vizinho, que está mais bem estruturado do que o outro, que apesar de ser um grande jacaré, continua adormecido e não há perspectivas de haver um acordar que me possa temer.

    Daí que o Uganda esteja nessa situação de já esteve em plena conflitualidade. Basta ver que houve um protocolo no ano de 2019 em que juntaram-se as três partes: RDC, Uganda e Ruanda. A situação estabilizou, agora o Uganda está, não diremos em conflito aberto, mas numa situação de limbo em que está mais próximo do Ruanda do que propriamente da RDC e em caso de conflito, é capaz de apoiar a RDC. O que nós não esperamos que não venha a acontecer e que efectivamente os acordos de paz que João Lourenço está a tentar patrocinar sejam os definitivos, o que honestamente, tenho dúvidas.

    João Lourenço quer deixar uma herança neste segundo mandato?

    Se internamente, dentro do país, a imagem do Presidente João Lourenço não parece estar a ser muito boa, ou pelo menos alguma conflitualidade social, interna. Externamente, ele quer se apresentar como um paladino que conseguiu aquilo que outros não conseguiram há muitos anos e também preciso dizer uma coisa: se o meu vizinho estiver bem, eu também estou bem e RDC é um vizinho muito grande que ocupam um muro em vários milhares de quilómetros e a nós convém-nos que o nosso vizinho esteja calmo, que seja mais estável para impedir que a conflitualidade desça até ao nosso território, neste caso até o nosso quintal e aos quintais dos outros.

    Um dos factores que também penso que pode ajudar a estabilizar e levar à paz, será este ataque, que não foi tão pequeno como, este recente ataque do Estado Islâmico na África Ocidental, porque isso vai fazer com que as partes acabem por se ter reunido para combater uma possível invasão ou uma descida dos islamitas radicais para o sul, ainda que, sabemos, já estejam há muito a operar em territórios muito baixo, nomeadamente, como em Cabo Delgado, a linha férrea de africanos são óptimas passagens de radicalismos e de armas.

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  • Milhares de atletas fizeram-nos sonhar durante os Jogos Olímpicos de Paris

    Esta segunda-feira, 12 de Agosto, fazemos o resumo das duas semanas dos Jogos Olímpicos de Paris, revivendo os momentos mais marcantes deste evento desportivo planetário. Foram 16 dias inesquecíveis, 329 provas olímpicas, 45 modalidades, 206 países e 10.500 atletas. 

    Nesta emissão especial voltamos a ouvir alguns dos campeões que nos fizeram vibrar: o pugilista cabo-verdianos, David de Pina, a ginasta brasileira, Rebeca Andrade, o ciclista português, Iuri Leitão, o judoca francês, Teddy Riner, a ginasta norte-americana, Simone Biles, o lutador cubano Mijaín López ou ainda nadador francês, Léon Marchand.

    Paris recebeu estes Jogos Olímpicos e pela primeira vez as provas decorreram no centro da cidade, mas também em espaços emblemáticos como o Grand Palais, o Palácio de Versailles, a Praça da Concórdia ou ainda junto da Torre Eiffel. A organização dos jogos olímpicos contabilizou mais de 15 milhões de espectadores a assistir às provas nestes recintos.

    Nos Jogos Olímpicos de Paris, houve alegria, comunhão e muita entreajuda. Os  45.000 voluntários dos Jogos muito contribuíram; sempre simpáticos, alegres e prontos a ajudar. Os adeptos foram incansáveis, animados e a torcer por todos os atletas, mesmo aqueles que não eram da mesma nacionalidade.

    Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, as últimas medalhas foram entregues a mulheres, as maratonistas. Paris quis apostar na paridade e conseguiu, formalmente, aplicar uma paridade perfeita entre homens e mulheres, algo que todos esperam ser mantido por Los Angeles nos Jogos Olímpicos de 2028.

    Com mais de 70.000 pessoas no Stade de France, Paris encerrou este domingo, 11 de Agosto, os Jogos Olímpicos de 2024.

    25 min

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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.