A balança comercial brasileira registrou um déficit de US$ 324 milhões em fevereiro, encerrando um ciclo de três anos consecutivos de saldos positivos. O último resultado deficitário havia ocorrido em janeiro de 2022, quando o saldo foi negativo em US$ 59 milhões. O déficit foi influenciado principalmente pela importação de uma plataforma de extração de petróleo, cujo valor foi de US$ 2,7 bilhões.
A análise dos fluxos comerciais revela uma dinâmica preocupante. Em fevereiro, as exportações somaram US$ 22,93 bilhões, registrando uma queda de 1,8% em relação ao mesmo mês de 2024. O recuo foi particularmente acentuado na indústria extrativa, cujo valor exportado caiu 26,4%, totalizando US$ 4,3 bilhões. Esse desempenho reflete a queda na demanda externa e a redução dos preços internacionais das commodities minerais. Por outro lado, a agropecuária apresentou um incremento de 1,3%, atingindo US$ 4,6 bilhões, enquanto a indústria de transformação registrou retração de 1,8%, com US$ 13,7 bilhões exportados.
As exportações brasileiras registraram queda em importantes produtos, como a soja (-12,3%), os óleos brutos de petróleo (-21,6%) e o minério de ferro (-36,6%), refletindo, em parte, a retração de 14,1% no mercado asiático, com destaque para a China (-21,1%). Por outro lado, houve crescimento nas exportações para a América do Norte (+20%), impulsionado pelos EUA (+22,9%), movido pela antecipação de importações americanas com a ameaça de novas barreiras comerciais, e para a Europa (+7,9%), especialmente para a União Europeia (+2,8%). Na América do Sul, o Mercosul registrou alta de 40%, com forte avanço nas vendas para a Argentina (+54%).
Entretanto, as importações totalizaram US$ 23,25 bilhões em fevereiro, representando um aumento expressivo de 27,6% em relação ao mesmo período de 2024. O maior destaque ficou para os bens de capital, cujas compras aumentaram 143,1%, alcançando US$ 5,6 bilhões. Outros componentes relevantes foram os bens intermediários, com elevação de 14,9% (US$ 12,7 bilhões), e os bens de consumo, que aumentaram 8,9% (US$ 3,1 bilhões). Por outro lado, as importações de combustíveis apresentaram queda de 6,2%, totalizando US$ 1,9 bilhão.
As importações foram impulsionadas principalmente pelas compras da Ásia, com destaque para China, Hong Kong e Macau (+76,8%), consolidando a região como a principal fornecedora do Brasil, com 34,7% de participação. Esse avanço reflete a dependência brasileira de insumos e bens manufaturados asiáticos, especialmente em setores estratégicos como eletrônicos, máquinas e produtos químicos. As compras da América do Norte também cresceram, com destaque para os EUA, que registraram alta de 19,9%, com um efeito de antecipação às prováveis medidas restritivas da potencial guerra comercial expressivo nas importações de plataformas e embarcações.
O resultado deficitário de fevereiro levanta preocupações em relação ao desempenho da balança comercial ao longo de 2025, considerando a combinação de eventos pontuais, como a importação da plataforma petrolífera, mas principalmente fatores estruturais, como o aumento contínuo das importações e a redução de desempenho do setor exportador. O ano de 2024 representou uma queda próximo de 30% no saldo da balança comercial em relação a 2023. Se a tendência continuar e o saldo diminuir ainda mais, pode reverter uma situação confortável atual, onde os saldos positivos da balança comercial compensam os saldos muito negativos do balanço de serviços no Balanço de Pagamentos, impactando as reservas internacionais.