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E aqui está o monólogo para seu proveito!
Dizem que quando um não quer, dois não brigam. Acho que é verdade. Mas sabe, quando o negócio é gosto musical, o caldo pode entornar rapidinho.
Tenho três amigos com quem sempre viajo. E gostamos de viajar de carro. Durante o trajeto, ouvimos músicas para passar o tempo, mas nunca fomos muito longe. Esse mês calhou de todos estarmos de férias, então fizemos as malas e colocamos o pé na estrada.
Dos meus amigos, o único que é fã de bossa-nova sou eu. Júlio é amarrado em sertanejo. A Marina é a roqueira de plantão e o Pedro... ele adora funk. Eca, eu sei, música de má qualidade. Mas como se diz, gosto não se discute.
Na nossa viagem, a escolha da trilha sonora foi uma discussão acalorada. Eu queria colocar os sucessos de Tom Jobim que embalaram a minha juventude. A Marina disse logo que era música de velho. Ela preferia os acordes da guitarra do Iron Maiden. “Que bossa-nova e rock que nada!” disse Júlio. “A gente vai ouvir é Marília Mendonça!” E o Pedro queria requebrar até o chão com funk, se desse, claro.
Depois de muita falação, chegamos a um meio-termo: a gente dividia a duração da viagem por quatro e o resultado seria o número de horas que cada um tocaria a música de que gosta.
A primeira hora e meia foi uma tortura. Eu pensava que funk era ruim, mas sertanejo é bem pior. São uns homens com voz de taquara rachada, super desafinados, cantando músicas com letras estúpidas que exaltam a bebedeira e a traição. Não admirava que Júlio fosse solteiro e depressivo.
Quando chegou a hora do rock da Marina, pelo menos deu para aguentar. O batuque da bateria e a melodia das letras pelo menos têm mais variedade. E como cantavam em inglês, eu não fazia ideia do que diziam... e era melhor assim. E as músicas tinham uma pegada mais dançante, que era agradável de acompanhar. Não era bom, mas aprazível.
Em seguida, foi o funk do Pedro. Gente, como é que alguém gosta daquilo? Não é querendo esnobar não, mas que música de baixa qualidade! E ainda tinha uma parte que tentaram dar um verniz de sofisticação para o funk e fizeram um acústico que ficou passável, mas ainda assim eu não tenho saco para isso.
Depois da hora e meia de tortura, finalmente tinha chegado a minha vez. Ia escutar os acordes do violão de João Gilberto e... quando começou a tocar Chega de Saudade, o Pedro bateu no meu ombro e disse: chegamos.
Todos eles saíram do carro mais rápido do que um relâmpago. Eu ia sair também, mas sabe? Eu ia curtir a minha hora e meia de bossa-nova. E fiquei lá.
By Eliaquim Sousa5
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E aqui está o monólogo para seu proveito!
Dizem que quando um não quer, dois não brigam. Acho que é verdade. Mas sabe, quando o negócio é gosto musical, o caldo pode entornar rapidinho.
Tenho três amigos com quem sempre viajo. E gostamos de viajar de carro. Durante o trajeto, ouvimos músicas para passar o tempo, mas nunca fomos muito longe. Esse mês calhou de todos estarmos de férias, então fizemos as malas e colocamos o pé na estrada.
Dos meus amigos, o único que é fã de bossa-nova sou eu. Júlio é amarrado em sertanejo. A Marina é a roqueira de plantão e o Pedro... ele adora funk. Eca, eu sei, música de má qualidade. Mas como se diz, gosto não se discute.
Na nossa viagem, a escolha da trilha sonora foi uma discussão acalorada. Eu queria colocar os sucessos de Tom Jobim que embalaram a minha juventude. A Marina disse logo que era música de velho. Ela preferia os acordes da guitarra do Iron Maiden. “Que bossa-nova e rock que nada!” disse Júlio. “A gente vai ouvir é Marília Mendonça!” E o Pedro queria requebrar até o chão com funk, se desse, claro.
Depois de muita falação, chegamos a um meio-termo: a gente dividia a duração da viagem por quatro e o resultado seria o número de horas que cada um tocaria a música de que gosta.
A primeira hora e meia foi uma tortura. Eu pensava que funk era ruim, mas sertanejo é bem pior. São uns homens com voz de taquara rachada, super desafinados, cantando músicas com letras estúpidas que exaltam a bebedeira e a traição. Não admirava que Júlio fosse solteiro e depressivo.
Quando chegou a hora do rock da Marina, pelo menos deu para aguentar. O batuque da bateria e a melodia das letras pelo menos têm mais variedade. E como cantavam em inglês, eu não fazia ideia do que diziam... e era melhor assim. E as músicas tinham uma pegada mais dançante, que era agradável de acompanhar. Não era bom, mas aprazível.
Em seguida, foi o funk do Pedro. Gente, como é que alguém gosta daquilo? Não é querendo esnobar não, mas que música de baixa qualidade! E ainda tinha uma parte que tentaram dar um verniz de sofisticação para o funk e fizeram um acústico que ficou passável, mas ainda assim eu não tenho saco para isso.
Depois da hora e meia de tortura, finalmente tinha chegado a minha vez. Ia escutar os acordes do violão de João Gilberto e... quando começou a tocar Chega de Saudade, o Pedro bateu no meu ombro e disse: chegamos.
Todos eles saíram do carro mais rápido do que um relâmpago. Eu ia sair também, mas sabe? Eu ia curtir a minha hora e meia de bossa-nova. E fiquei lá.

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