---Transcrição do áudio---
Máscara, mas cara
Sou um jarro, feito de barro.
Tudo que queria era colocar, gota a gota,
diversas texturas e cores,
(cada qual vinda de uma experiência ou relação diferente)
Dentro de mim
Queria que tudo se misturasse e formasse um líquido singular.
Esse líquido eu chamaria de EU.
E me enchesse tanto, mas tanto
que eu transbordasse.
E o que estivesse dentro de mim, agora me pintasse
por fora.
Se assim fosse, quem me olhasse, me reconheceria.
Isso é o que eu queria.
Que eu queria ser.
Que eu queria ter.
Ah, quem me dera poder...
O que quero ser, ter e poder?
Quero ser e ter poder ou ser e poder ter?
Quero poder ser e ter ou poder ter sem ser?
Para ser só é preciso ser,
para poder é preciso ter.
ter é poder.
E se não tenho, nem posso ter
Não vou poder.
O que me resta para ser
é parecer
Mas querer não é poder.
Quem dirá ser.
ainda mais estando quebrado.
Sou esse jarro furado
que não consigo tapar.
Qualquer líquido que tento segurar,
escorre pelo chão e evapora.
Por isso me pintei por fora.
Quem me olha vê um jarro
que cores escondem o simples barro.
Tenho um belíssimo avatar e um invejável perfil.
Assim ninguém verá o quanto estou vazio.
De costume, aprendi ser dessa cor
escondi bem o furo que só me trazia dor.
De mim, até a última gota evaporada
não sobrou desejos, vontade, amores, sonhos... nada!
Estou a caráter no baile de máscara
me visto com gosto,
escondo o rosto
e a canção não para.
Com o rosto descoberto, ficaria vulnerável
nem de casa sairia
mas com essa fantasia
cada dia é mais confortável
A mentira me convida pra essa valsa infinita e eu vou
E sendo essa farsa todos me aceitam por ser quem eu sou
Pode não ser o que sempre quis
Mas é o mais perto que estive de ser feliz
Engano a todos menos a você
que através da pintura fina,
o barro consegue ver
Você reconhece quem eu era antes do furo
Que acumulava “eus” passados
para construir o melhor “eu” futuro
Que reconhecia meu corpo, aquele que matei
e o olha, olha...
dentro dele está... quem?
Vê a falsificação de uma réplica de uma cópia de felicidade
que vive, se molda, se embala e se manipula
em função de esconder o que é de verdade
Sentimentos descartáveis, frases feitas, evitar sentir.
De tempos em tempos preciso olhar meu crachá,
pra tentar não me esquecer de mim.
Sempre neutro demais para não incomodar alguém
mais um qualquer na fila do pão,
ou pendurado na barra do trem.
Ainda assim não me sentia um coitado.
A vida ia passando enquanto eu estava anestesiado.
E seguia a rotina, obediente, calado.
E assim morreria, sem ao menos ser notado.
Foi quando quase me matou ao ter falado:
“Sabia que sinto mais saudades suas quando estou ao seu lado?”