Quando o Rafael foi preso, ele tinha acabado de descobrir que ia ser pai. A notícia, que deveria inaugurar um novo começo, chegou no mesmo instante em que sua vida desabou.
Em poucos minutos, tudo o que ele acreditava estar construindo foi interrompido por uma acusação que nunca foi ouvida de verdade.
Rafael cresceu em Sobral, um bairro periférico de Rio Branco, no Acre, marcado pelo estigma da violência, mas que para quem vive ali sempre foi, antes de tudo, um lugar de gente simples tentando sobreviver.
Em fevereiro de 2018, uma troca de tiros tomou a rua onde ele morava. Na fuga, dois homens invadiram casas da região, e um deles entrou na casa do Rafael, sem que ele visse.
A polícia entrou na casa de Rafael, que comentou não ter mais ninguém além dele ali. Ainda assim, os policiais entraram.
Um dos homens foi encontrado dentro da casa do Rafael e, naquele instante, a voz de Rafael deixou de existir.
Jovem, negro, morador da periferia, sozinho. Para os policiais, não havia dúvidas. Mesmo repetindo que não tinha envolvimento algum, a suspeita se impôs e o Rafael foi levado preso.
Foram três anos encarcerado. Três anos em que ele tentou entender como aquilo podia estar acontecendo com alguém que trabalhava. Mas também foram três anos longe da gestação da filha, do nascimento, do colo, dos primeiros dias de vida. Uma ausência que não se explica, ele simplesmente carrega consigo.
Durante o julgamento do caso, tudo mudou rápido demais. O próprio criminoso encontrado, que havia se escondido na casa, confirmou que Rafael era inocente. Os promotores não viram motivo para acusação e o juiz pediu perdão, absolvendo Rafael.
Do lado de fora, veio a descoberta mais dura: o tempo não se recupera. Não existem horas extras para os primeiros passos, a primeira palavra, o primeiro olhar de referência.
Hoje, Rafael não tenta mais compensar o tempo perdido com a filha. Ele tenta estar presente, inteiro. Porque algumas ausências não se apagam, mas podem ser cuidadas com amor, todos os dias.