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  • O que é racismo algorítmico?

    Especialista explica como a inteligência artificial reproduz o preconceito nos ambientes virtuais

    Racismo algorítmico é uma espécie de transposição do racismo estrutural da sociedade para ambientes digitais. A discriminação acontece principalmente por meio de

    ferramentas de inteligência artificial, que são alimentadas por algoritmos.

    “Sistemas algorítmicos, às vezes chamados de inteligência artificial, são sistemas que tomam algum tipo de decisão a partir de alguns objetivos definidos: ranquear um

    conteúdo, classificar uma pessoa ou mesmo transformar um tipo de conteúdo ou de imagem ou de mídia. O problema é: temos um histórico de séculos de violência
    racial e de discriminação. Então, por exemplo, se um sistema de IA [inteligência artificial] generativa, que faz uma foto aparentemente de forma automatizada,
    se baseia no histórico de fotos sobre pessoas negras no Brasil, vai haver uma representação muito negativa, relacionada à criminalidade, relacionada à violência, relacionada à pobreza”, explica o mestre em comunicação e cultura contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) Tarcízio Silva.

    Autor do livro “Racismo Algorítmico: Inteligência artificial e Discriminação nas Redes Digitais”, o pesquisador reflete nesse podcast sobre o que acontece quando as máquinas e programas apresentam resultados discriminatórios. No áudio, Silva comenta que é falsa a ideia de que tecnologias digitais seriam neutras.

    “Quando a gente pensa a internet, que foi muito festejada como a infovia do conhecimento, de fato revolucionou como a gente circula conhecimento, mas ao mesmo tempo aumentou a insegurança sobre o que é verdade e o que não é verdade. E a desinformação passou cada vez mais a ser estratégica para alguns grupos que preferem que a desinformação circule para diferentes fins: ganhos políticos, financeiros etc.”, argumenta.

    Um exemplo de racismo algorítmico é quando uma pessoa negra é representada de forma negativa no resultado da busca de imagens na internet ou a partir de ferramentas de inteligência artificial. A doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Data Privacy Brasil Johanna

    Monagreda cita o caso da deputada estadual Renata Souza (Psol-RJ) que, em outubro de 2023, relatou ter passado por esse tipo de discriminação ao gerar
    uma imagem via inteligência artificial.

    “Ela deu as instruções para o aplicativo: ‘Ah, eu quero que você faça a imagem de uma mulher negra com cabelo black na favela’. Ela descreveu a imagem que queria, e

    a inteligência artificial devolveu para ela a imagem de uma mulher negra com cabelo black na favela e incorporou uma arma na mão daquele desenho. Esse é um claro exemplo de racismo algorítmico, porque estereótipos sobre pessoas negras e sobre estar na favela ou a vida em comunidade acabaram sendo imbricados na tecnologia, de forma que, na produção dessa imagem, a própria tecnologia fez a relação que a humanidade faz, que é aquela relação de a favela como um território de violência”, explica Monagreda.

    Os pesquisadores trazem também outros exemplos com consequências que podem ser ainda mais prejudiciais. “Como um aplicativo de transporte, que estabelece

    preços maiores para comunidades onde mais pessoas negras e pobres moram ou mesmo no caso do reconhecimento facial, que tem uma precisão inferior quando se pensa em pessoas não brancas de modo geral”, afirma Silva.

    Monagreda comenta ainda o caso do torcedor do time de futebol Confiança, que, em 13 de abril de 2024, foi detido por agentes da polícia militar por erro de reconhecimento facial. A situação aconteceu na final do Campeonato Sergipano. “Ele foi identificado pela câmera de reconhecimento facial como uma pessoa em conflito com a lei, e ele teve que passar por uma abordagem policial, saiu do estádio algemado. Mas, além disso, ele teve um constrangimento público muito grande, porque foi num estádio, na frente de todo mundo”, argumenta a pesquisadora.

    Após o episódio, foi suspenso o uso de reconhecimento facial no estádio durante os jogos do time sergipano. Silva acredita que situações assim fazem uma parcela das pessoas perceber a necessidade de ter um olhar mais crítico sobre o que é acessado online.

    “Isso é importante, é positivo, em alguma medida. E se a gente conseguir transformar a educação para que cada vez mais, enquanto cidadãos, possamos desenvolver essas habilidades – pesquisar a veracidade de informações e interagir online –, podemos ter um futuro mais produtivo, justo e seguro para todos, conclui o pesquisador.

    Crédito da imagem: VioletaStoimenova – Getty Images

    9 min
  • Livro ajuda crianças a lidarem com traumas causados pelas enchentes no RS

    História online gratuita traz técnicas para controlar a ansiedade e o estresse associados a catástrofes

    O livro “Pipo e Lila ajudando as crianças num momento difícil – Quando a chuva passar” foi desenvolvido para trabalhar as emoções de estudantes da educação infantil e do ensino fundamental diante da catástrofe que atinge o Rio Grande do Sul desde abril.

    “As nossas histórias terapêuticas, elas sempre têm começo, meio e fim. O começo sempre é dentro da situação disfuncional que a criança está vivendo; o meio, a gente vai encontrando formas de resolver as situações; e no final sempre é um final feliz”, explica a psicóloga

    clínica e doutora em ciências da saúde pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Ana Lúcia Castello.

    Junto com a também psicóloga clínica Fabiana Brandão, Castello se baseia em técnicas da terapia Eye Movement

    Dessensitization and Reprocessing (EMDR), que em português significa Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares. Na história, Pipo e Lila
    entram em contato com essa abordagem terapêutica e aprendem a controlar o estresse e a ansiedade associados a eventos traumáticos.

    O livro gratuito pode ser baixado nesse link.

    Desenhos, respiração e o “abraço da

    borboleta”

    Na entrevista a este episódio do Livro Aberto, as autoras compartilham os recursos que ajudam as crianças a lidarem com tragédias. Fabiana Brandão destaca a importância do estímulo ao desenho. “Ele vem como a forma da criança representar a imagem mental do que ela viveu. Mesmo as que já têm a fala – as que não têm, [o livro] vai ajudar a representar e ressignificar aquela situação vivida -, elas vão poder deixar no concreto [os

    acontecimentos], e isso vai trazer mais confiança para ela na possibilidade da mudança, para internalizar bem, instalar essa situação positiva de futuro”, explica.

    A respiração é outra forma de controlar melhor as emoções. Nesse podcast, Brandão lê um trecho do livro

    com um exercício para ajudar a controlar as emoções.

    “Muitas pessoas quiseram nos ajudar e uma profissional me ensinou uma maneira de eu poder acalmar meus

    pensamentos e as minhas emoções. Me ensinou uma maneira de respirar importante: Inspira contando 4 tempos. Segure o ar contando 4 tempos Expira contando 8 tempos Solta o ar completo contando 4 tempos”, diz um trecho do livro. O termo “tempos” se refere a segundos.

    Castello cita ainda o chamado “abraço da borboleta”, idealizado pelos terapeutas mexicanos Ignacio Jarero e Lucina Artigas, quando o furacão Paulínia atingiu aquele país em 2008.

    “E a doutora Lucina estava atendendo as crianças, e fazer estimulação bilateral com as crianças estava sendo muito difícil. Então ela pedia às crianças para colocarem as duas mãos na frente do peito e golpearem lentamente um lado e outro, com objetivo de fazer a estimulação bilateral cerebral. Ela mostrava como se as mãos ficassem similares às asas de uma borboleta. Por isso que a técnica se chama ‘o abraço da borboleta’”, detalha a terapeuta.

    O livro foi imaginado para as psicólogas e autoras utilizarem em escolas do Rio Grande do Sul, mas elas

    ressaltam que pode ser importante para qualquer criança. “As crianças também podem desenvolver esse tipo de trauma por ouvirem tanto o que está acontecendo,
    por verem muitas imagens nas TVs, então poderia ajudar bastante as crianças de uma maneira geral”, esclarece Castello.

    Crédito da imagem: ilustração de Durvally Nicoletti e Bruna Nicoletti

    9 min
  • Como o abandono digital expõe crianças a risco de exploração sexual?

    Falta de orientação e monitoramento no

    uso da internet pode torná-las vítimas de criminosos

    Dados divulgados pela organização não governamental

    Safernet revelam que denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil na internet bateram recorde em 2023 com 71.867 queixas no período, número é
    77,1% superior ao registrado em 2022.

    “O abandono digital remete diretamente ao ponto de

    negligência ou de omissão efetivamente dos pais, quando estamos falando de menores de idade, crianças e adolescentes. Então é basicamente aquela situação
    em que os pais acabam buscando por maiores facilidades, mas que dão esses aparelhos para essas crianças e adolescentes, sem limite de tempo, sem limite de acessos, sem orientações e sem conversa e diálogo”, explica a advogada e especialista em direito digital Marina de Oliveira e Costa.  

    A falta de acompanhamento das atividades realizadas

    pelas crianças na internet gera uma série de possibilidades para os criminosos.
    “A internet acaba apresentando um leque maior de possibilidades para aproveitadores terem contato e se aproximar dos menores. Então são diversos aplicativos e aplicações, redes sociais, que pessoas podem interagir com esses menores”, argumenta a advogada.

    Oliveira e Costa acrescenta que há diversos motivos

    que levam ao abandono digital e aos possíveis riscos de crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes.

    “Os pais hoje em dia são muito mais ocupados do que

    antes. A gente tem muitas famílias que são compostas só pelo pai ou só pela mãe (...), muito mais mães trabalhando. Então tem alguns fatores da dinâmica da sociedade atual que fazem com que haja esse uso desenfreado das tecnologias como um escape”, destaca.

    Importância do diálogo

    Oliveira e Costa esclarece que a família pode ser responsabilidade se comprovado o abandono

    digital da criança ou do adolescente. Para prevenir a exposição deles aos riscos do mundo virtual, a advogada defende o diálogo permanente. "A compreensão pela criança desde o princípio, desde quando ela ganha o seu
    aparelho celular: qual será a finalidade? O que pode acontecer, quais serão os limites, quais serão as regras? Isso é o ideal até para as crianças se sentirem
    seguras nesse canal aberto com os pais para o diálogo", orienta.
    Crédito da imagem: ljubaphoto – Getty Images

    8 min
  • Olimpismo destaca como abordar o esporte nas aulas de educação física para além de valores competitivos

    Sequência pedagógica com jogos ajuda a trabalhar princípios como respeito e amizade

    Os jogos olímpicos se aproximam, e com eles aumenta o interesse de estudantes pelas atitudes desportivas atreladas ao desenvolvimento físico e pelos valores olímpicos. O momento é oportuno para trabalhar o conceito de olimpismo nas aulas de educação física.

    “O olimpismo é uma forma de entender o esporte além do rendimento, do resultado, identificar o potencial educativo que o esporte tem e, por meio do esporte, educar, construir valores, conceitos que possibilitem a união entre os povos, o respeito às diferenças, inserção do aluno que está desenvolvendo aquele conteúdo de uma forma mais justa, mais respeitosa dentro da sociedade”, afirma o professor de educação física da Escola Municipal em Tempo Integral Professora Ana Lucia de Oliveira Batista, em Campo Grande (MS), Leonardo Liziero.

    Entrevistado neste episódio, o educador explica que o olimpismo é baseado em valores imaginados pelo historiador francês Pierre de Coubertein, idealizador dos jogos olímpicos modernos – a partir de 1894.

    “A excelência, que é fazer o melhor, independente do resultado ou independente da comparação com o outro; a amizade, que possibilita você interagir na diferença, respeitando o outro da melhor forma possível; e o terceiro valor: o respeito, que é aquele que move essa vida social, essa vida em sociedade e comunidade, na qual as diferenças estão presentes”, explica Liziero.

    Olimpismo na educação física

    Incentivado pela coordenadora de educação física da escola, Rosimeire da Conceição, o Liziero coloca em prática, desde 2012, um plano de ensino com foco no olimpismo para turmas dos anos iniciais do ensino fundamental. No áudio, Liziero compartilha o passo a passo da trilha pedagógica que segue na escola, que, segundo ele, tem como ponto alto o momento em que o conceito é efetivamente colocado em prática.

    “A gente teve uma aplicação, um fechamento com esses jogos olímpicos acontecendo na escola, envolvendo todas as turmas, todos os professores, com cerimônia de abertura, com a tocha olímpica, apresentação cultural e depois a vivência dos jogos”, detalha o professor.

    Percorrendo as etapas do planejamento, os alunos conhecem os jogos olímpicos, sua origem e valores propagados, correlacionam esses valores – excelência, amizade e respeito – com as atitudes necessárias no cotidiano e desenvolvem seu repertório motor por meio da vivência de diversas modalidades esportivas olímpicas – individuais e coletivas.

    “Ao trabalhar nesses valores com as crianças, elas já exercitam eles no próprio dia a dia delas, de forma que elas levem para a vida reflexões do que elas estão fazendo, se aquilo é legal ou não, os impactos que isso vai gerar na vida delas, além do muro da escola”, enfatiza Conceição.

    Crédito da imagem: acervo da Escola Municipal em Tempo Integral Professora Ana Lucia de Oliveira Batista


    8 min
  • “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá” traz a desigualdade social do início do século XX

    Livro de Lima Barreto, exigido no vestibular da Unicamp, também apresenta crítica ao racismo

     O livro “Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá”, de Lima Barreto, está entre as obras obrigatórias do vestibular

    da Unicamp em 2025. Nela, o autor rompe com as convenções do realismo do século XIX que ainda imperavam nos romances daquela época.

    Narrado por Augusto Machado, um funcionário público negro, o livro tece a biografia do personagem Gonzaga de Sá. Por meio dela, transparece o comportamento da alta

    sociedade do Rio de Janeiro do começo do século XX, além dos diversos problemas sociais que afligiam o próprio Lima Barreto.

    “O Lima Barreto é e sempre foi um autor considerado periférico. Um homem que viveu nos subúrbios do Rio de Janeiro [RJ], que sempre se sentiu vítima de preconceito étnico, sempre se achou desprezado pelos seus colegas e sempre lutou muito contra o privilégio de determinados autores brancos, muitas vezes no julgamento dele, sem tanto talento, sem tanta coisa a dizer. Sendo assim, é

    compreensível que o principal tema de sua obra seja a denúncia do preconceito racial e a luta por um consequente reconhecimento social”, resume o professor
    de literatura brasileira do Sistema Anglo de Ensino Maurício Soares Filho.

    Nesse

    podcast, Soares Filho traz dicas para quem está se preparando para o vestibular
    e aponta possíveis abordagens que podem ser feitas no exame.

    “O que me

    parece que o Lima Barreto contribui muito claramente na leitura, na formação de
    um jovem leitor, num processo de desmontar as origens dos preconceitos. Ao
    investigarmos e compreendermos os movimentos em torno desse processo, que aqui
    nesse caso envolvem principalmente uma esperada modernização do Rio de Janeiro
    nessa passagem do Império para a República. E a abolição da escravatura, quer
    dizer, olhar para isso numa tentativa de compreender como chegamos até aqui,
    como chegamos nesse Brasil racista, machista, classista, em que ainda estamos
    no século XXI”, explica.

    Precursor

    do Modernismo

    Outro

    aspecto da obra que pode ser tema no vestibular da Unicamp, segundo Maurício
    soares Filho, é o fato de o livro não se enquadrar em um único gênero
    literário. Para o professor, ao ser publicado em 1919, a obra antecipa uma das
    características do Modernismo de 1922.

    “Nós sabemos

    que o livro se chama “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, e esse título
    sugere uma biografia. Acontece que os próprios interlocutores acabam entendendo
    que poderia ser um romance, uma vez que o próprio biógrafo acaba aparecendo, muitas
    vezes, mais do que o biografado. Quando nós percebemos que os doze capítulos
    são mais episódicos do que lineares, quase independentes, e poderiam até mudar
    de lugar dentro da organização do livro, a gente cogita chamar essa obra de um
    livro de contos. E considerando o fato de o enredo, dos acontecimentos serem
    menos relevantes ou considerados com menos importância, menos ênfase do que as
    reflexões propostas pelo autor, aí talvez pudéssemos dizer que, na verdade,
    estamos diante de um livro de ensaios”, contextualiza.

    Crédito da imagem: Augusto Malta – Acervo da Light

    9 min
  • Livro traz relatos de crianças sobre violência para debater direitos da infância

    Histórias apontam como os conflitos nas favelas da Maré (RJ) dificultam o acesso à escola e ao lazer

     

    O livro infantojuvenil “Eu devia estar na escola” foi idealizado a partir de 1,5 mil cartas escritas por crianças moradoras do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro (RJ), e endereçadas às autoridades brasileiras para retratar as consequências da violência no conjunto de 16 favelas.

    “Essas crianças, toda vez que tem operação policial, elas não têm aula. Elas têm muitas aulas perdidas no ano letivo”, explica a professora, pesquisadora sobre literatura infantil e coautora da obra Ananda Luz.

    “Tem uma frase que foi parar no livro, de uma das crianças, que diz assim: ‘Como é que a gente vai fazer para realizar os sonhos se a gente perde tanta aula?’ E isso me toca muito, porque essas crianças sabem que a educação seria um caminho para melhorar de vida. E, ao

    mesmo tempo, a escola é cancelada com frequência por causa de tiroteios, por causa de operação policial”, conta a jornalista e coautora do livro Isabel Malzoni.

    Organizado em conjunto com a ONG Redes da Maré, a obra é composta por desenhos e cartas de crianças, que desde muito cedo, precisam lutar por seus direitos segundo as autoras.

    “Eu li todas, e elas têm esse desejo em comum, que é o desejo de ir à escola, uma particularidade muito forte. Porque essa escola, com frequência, é fechada por causa dos tiroteios, por causa das operações. Então esse desejo é um desejo que aparece para todos”, afirma Malzoni.

    “Quando a violência tira a escola dessas crianças, ela tira também a possibilidade de ela construir outros mundos.

    Criança que está com o uniforme da escola deveria estar blindada, deveria estar circulando segura pela cidade”, completa Luz.

    Crédito da imagem: Editora Caixote – divulgação

    8 min
  • Como o texto teatral ajuda na fluência leitora das crianças?

    Estimular a interpretação dramática em voz alta facilita a compreensão dos alunos

    O texto teatral é uma forma de trabalhar a fluência leitora de estudantes nos anos iniciais do ensino fundamental. É o que acredita a doutora em educação pela Universidade

    Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora de projetos no Instituto Avisa Lá Renata Frauendorf.

    Para a educadora, a prática social originada a partir da leitura dramática tem características que motivam o desenvolvimento de competências para melhorar a compreensão e o sentido do que se lê.

    “A fluência leitora tem essa relação com a intencionalidade da leitura, e ela vai se construir na relação com o outro e tantos outros. Não é só a fluência oral, que é ler rápido e compreender, mas também a fluência semântica, que está nesse lugar da constituição dos sentidos”, analisa.

    Frauendorf ressalta que, para estudantes dos terceiro, quarto e quinto anos do ensino fundamental, a proposta não é encenar a peça, mas estimular a leitura dramática com o grupo.

    “O trabalho com o texto teatral coloca os estudantes nesse lugar de realizar a leitura em voz alta para os outros, que dependem dele para compreender aquela história que eles estão contando e que está organizada com o texto teatral”, explica.

    O texto teatral se organiza em cenas e diálogos. A educadora ressalta outra particularidade que

    torna ainda mais interessante a leitura em voz alta desse estilo de texto: as rubricas.

    “É uma informação que vem entre parênteses. E essa informação é determinante para você compreender a ação, o jeito daquele personagem, por exemplo, responder a uma pergunta. Então, a inferência e a antecipação são colocadas o tempo todo em jogo, porque se eu não considero o que está de informação entre parênteses, eu dificilmente vou compreender [o conteúdo] no contexto geral”, argumenta Frauendorf.

    A docente aponta ainda no podcast como a leitura dramática se torna uma prática inclusiva em sala de aula e traz dicas de textos teatrais para trabalhar em sala de aula com alunos dos anos iniciais do ensino fundamental.

    Crédito da imagem: FatCamera – Getty Images

    9 min
  • Jogo online ajuda crianças a identificar e eliminar focos de dengue

    Professores indicam o game para trabalhar a prevenção da doença com os alunos

    Diante do crescente número de casos de dengue divulgados pelo Ministério da Saúde no início de 2024, o portal de jogos virtuais Ludo Educativo está relançando o game “Contra a Dengue 3 – No Mundo Digital” para contribuir com a conscientização sobre as medidas de combate à proliferação do mosquito Aedes aegypti.

    “Depois de jogar uma ou duas vezes, porque é um jogo interativo, a criança fica na cabeça dela que ela tem que combater o mosquito e sabe claramente os locais onde o mosquito cria e porque cria naqueles locais”, explica o diretor do Centro para o Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF/Fapesp) e professor titular do departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Elson Longo.

    A versão 3 do jogo da série “Contra a Dengue”, lançada em março de 2024, a destemida protagonista Sophia embarca no mundo digital, junto com seus irmãos mais velhos. Na aventura, estudantes aprendem a combater, além da dengue, o vírus Chikungunya e o vírus Zika, todos

    transmitidos pelo Aedes aegypti.

    Longo afirma que todos os jogos disponíveis no portal Ludo Educativo recebem orientação de equipe pedagógica.

    “Com a repetição, fica na cabeça da criança o tempo todo: ‘Como eu posso viver com esse mosquito?’. ‘Eu tenho que acabar com ele e acabar com os focos’. A criança joga e vai falar com o pai que sabe como eliminar o mosquito da dengue”.

    “Contra a Dengue 3” na sala de aula

    Para a bióloga e professora do Centro Universitário da Grande Dourados (Unigran) Perla Loureiro de Almeida, o “Contra a Dengue 3” é de fácil entendimento para alunos dos primeiros anos do ensino fundamental. A docente indica fazer uma introdução sobre o que é a dengue antes

    de apresentar o jogo à turma.

    “Iniciando com o aluno do terceiro ano do ensino fundamental, o professor pode fazer questionamentos básicos, um trabalho primário de orientação sobre o mosquito, avaliar com os alunos se algum familiar já esteve doente? Então, os alunos vão promover esses relatos dentro da sala de aula”, explica.

    No podcast, a professora traz outros caminhos a serem trabalhados, como os conhecimentos sobre a dentificação do mosquito causador da doença e dos possíveis locais de proliferação do Aedes aegypti. Almeida também aponta como o jogo educativo é introduzido nesse aprendizado.

    “O jogo vai entrar como um feedback, porque se o aluno já obteve todas as informações, consegue trabalhar as suas habilidades referentes a essas informações: sobre todo o processo de dengue, forma de transmissão, forma de prevenção. O jogo é uma forma de o professor avaliar se o aluno realmente conseguiu obter essa informação, esses conceitos importantes para a sua formação”, conclui.


    Crédito da Imagem: tela de uma das fases do jogo "Contra a Dengue 3" – reprodução

    8 min
  • Indígenas produzem filmes retratando os diferentes povos originários

    A variedade de costumes é explicitada a partir das vivências das comunidades

    Em 2004, a partir do programa “Pontos de Cultura Indígena” foi criado o portal “Índios Online”. A proposta era reunir os saberes e a luta de alguns dos povos indígenas oriundos de Alagoas, Bahia e Pernambuco.

    “E eu fui convidado para fazer parte dessa rede de comunicação, onde a gente tinha um chat para conversar com as pessoas, e a gente publicava matérias escritas pra divulgar nossa cultura, nossa situação, falar um pouquinho dos povos indígenas do Brasil, como eles realmente são”, conta o produtor cultural, cineasta e comunicador Alexandre Pankararu.

    Ao perceber a importância de indígenas terem suas realidades retratadas em conteúdos desenvolvidos pelos próprios povos, Pankararu juntou-se à também produtora audiovisual Graci Guarani e, em 2014, criaram a Olhar da Alma Filmes, produtora de conteúdos originais de cineastas indígenas.

    “Isso é pela importância de nós escrevermos a nossa própria história e contar a de nossos antepassados, porque entendemos que um povo sem história não existe”, afirma o cineasta.

    Segundo Pankararu, é fundamental que a história e a cultura indígenas sejam mostradas pelos próprios povos originários.  “Eu percebi a importância de a gente contar a nossa realidade do nosso jeito para que ela seja transmitida por quem a vive. Isso nos possibilitou mostrar como nós vivemos de verdade, o que sofremos de verdade”, revela.

    Diversidade dos povos originários

    De acordo com os dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, o Brasil conta com mais de 266 povos indígenas, em todo o território nacional. Apesar de cada povo ter suas especificidades, segundo Alexandre Pankararu, há um pensamento comum entre todos eles.

    “Sempre lutamos pela sobrevivência, direito à natureza, a importância da natureza para a nossa sobrevivência. Então nós temos essa preocupação, não só o povo Pankararu, mas todos os povos indígenas do Brasil. Vocês vão poder perceber que onde tem a maior quantidade de matas e recursos naturais preservados são em territórios indígenas, então, para isso continuar, precisamos garantir o nosso território”, conclui.

    Crédito da imagem: Olhar da Alma Filmes – divulgação

    8 min
  • Unicamp 2025: “Prosas seguidas de Odes Mínimas” trata temas do cotidiano com ironia

    No livro, José Paulo Paes aborda com humor a morte, a família e suas experiências pessoais

     

    Vinte textos em prosa poética e treze poemas, chamados de odes mínimas, compõem o livro “Prosas seguidas de Odes Mínimas”, lançado no início dos anos 1990 por José Paulo Paes.

    Novidade na lista da Unicamp em 2025, a obra traz uma visão crítica da vida, adquirida pelo poeta com a maturidade.

    “José Paulo Paes usa de poucas palavras para conseguir grandes efeitos poéticos. Então, embora os poemas sejam muito breves, em sua maioria eles exploram profundidades

    filosóficas, humor e ironia”, analisa o professor de literatura do Curso Anglo São Paulo Paulo Oliveira.

    A obra tem forte influência do Modernismo. “Tanto que um importante protagonista deste movimento, que foi

    Oswald de Andrade, é citado nominalmente em um poema “Prosa para Miramar”.

    Justamente porque Oswald de Andrade caracterizou sua obra pela brevidade, pela concisão”, analisa o professor do Anglo.

    Estilo epigramático

    Oliveira explica que o estilo oswaldiano inspirou Paes a adotar um estilo epigramático. “Epigrama é uma forma

    concisa de se expressar poeticamente. A origem desse tipo de texto remonta à Grécia antiga, às inscrições feitas em monumentos, medalhas ou túmulos. Por falta de espaço, as palavras tinham que ser muito breves. Pois bem, José Paulo Paes é um poeta epigramático. Ele se vale da concisão, da brevidade. Isso implica dizer que ele é avesso a todo o tipo de enfeite desnecessário, a um
    preciosismo vocabular”, explica.

    O professor ressalta que é importante o vestibulando estar atento à ironia do poeta, principalmente na

    segunda parte do livro, dedicada às “odes mínimas”.

    “Se eu falo ‘ode à minha perna esquerda’, seria um canto, um poema dedicado à minha perna esquerda, que

    implica certo louvor. Mas, na pena de José Paulo Paes [que precisou ser amputada] nem sempre esses poemas, essas odes, terão o caráter celebrativo de exaltação. Muitas vezes essas odes têm um caráter irônico ou mesmo crítico”, revela.

    De acordo com Oliveira, além da presença constante do humor, é preciso estar atento também às sutilezas da

    obra, outra característica de José Paulo Paes.
    Crédito da imagem: Hobo_018 – Getty Images

    9 min

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