A CURA DOS PAJÉS.
CRÔNICA DE UM MILAGRE ANUNCIADO.
De Rogério Medeiros para Manchete.
Terça-feira.
dia 21 de janeiro: o cientista Augusto Ruschi vai para o seu quarto, ao
lado da biblioteca do Museu Mello Leitão. Tira a roupa e coloca o seu
velho pijama de lã.
São quatro horas da tarde. As dores apertaram e o isolamento, segundo ele próprio, torna essas dores mais suportáveis.
Vai
para a poltrona e se acomoda nela com dificuldades. As dores estão
realmente apertando. Não pode ir para a cama por causa das hemorragias
nasais. A mulher entra com um prato de sopa. Ele. poe de lado o prato.
Diz que não tem vontade de comer. Ela sai e volta com o filho temporão,
Piero. Com o menino no colo, Ruschi quer abrir um sorriso, mas não
consegue.
No meu apartamento, em Vitória, o telefone toca. E do
Ministério do Interior. O Ministro Costa Couto manda me consultar se
Ruschi toparia um tratamento com os índios. Com o conhecimento de 20
anos do cientista, digo que não tenho dúvida alguma de que ele
aceitaria. E incentivo o mensageiro do ministro a telefonar para ele.
Tento falar com Ruschi, mas é impossível.
No domingo, 26 de janeiro, a casa do sogro do cientista, no Parque da
Cidade, amanheceu cheia de familiares, que vieram festejar sua
recuperação. E novamente Ruschi acordava tarde e cheio de energia, sem
sentir mais qualquer dor. Os índios chegaram para a ceia e as
despedidas. Ruschi foi carinhoso com eles. "Quero um dia retribuir, e a
melhor forma é trabalhando para a ciência, para a natureza."
Sua
mulher presenteou os caciques com redes e enfeites. Eles foram embora,
mas ficou para o cientista apenas um mistério: como Sapaim e Raoni,
depois que tiravam veneno, faziam a substância desaparecer sob o efeito
da fumaça de seu pajé-petan — fumaça com odor de mato e cor
cinza-azulada. — E o mistério da cura — comentou, rindo, Ruschi.