O historiador econômico José Luiz Portella, doutor em História Econômica pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, analisa a desigualdade no Brasil como um fenômeno histórico e estrutural, com raízes desde a chegada dos portugueses ao território. Desde os primeiros contatos coloniais, a violência, a imposição de poder e, posteriormente, a escravidão moldaram uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais e econômicas. Essa herança foi reforçada por uma visão de país como paraíso de oportunidades e exploração, onde a centralização do poder e a concentração fundiária criaram uma elite econômica desconectada da realidade da maioria da população.
Portella critica o fato de que, no Brasil atual, a desigualdade é amplamente naturalizada e aceita, mesmo com seus impactos devastadores. Ele observa que, apesar de todos reconhecerem a existência do problema, há uma omissão generalizada — tanto da população quanto da elite — em agir contra ele. Essa aceitação se baseia, em parte, em visões conservadoras, que veem a desigualdade como algo natural ou inevitável, numa lógica que remonta a Aristóteles. Com isso, mantém-se uma estrutura de injustiça social extrema, num país que já esteve entre as maiores economias do mundo.
Além do sofrimento humano, Portella destaca que a desigualdade afeta diretamente a economia: programas de transferência de renda como o Bolsa Família mostraram que o aumento do consumo das camadas mais pobres dinamiza o PIB. No entanto, há uma estigmatização dessas políticas por parte de setores da sociedade, especialmente os mais ricos, que veem os beneficiários como “encostados”, quando, na verdade, a maioria trabalha ou estuda, e uma parcela significativa é composta de mães solo sem apoio estrutural.
Outro ponto abordado é a relação entre desigualdade e violência. Segundo Portella, a pobreza por si só não gera violência — é a desigualdade, ou seja, a convivência entre extremos de riqueza e miséria que alimenta o ressentimento social e os conflitos urbanos. Ele também ressalta que combater a desigualdade traz benefícios ambientais, econômicos e sociais amplamente comprovados por estudos e especialistas.
Por fim, lamenta que, mesmo com todas essas evidências, o Brasil não trate a desigualdade com a seriedade que o tema exige. A elite econômica, em particular, não assume sua responsabilidade, buscando manter privilégios e isenções em vez de contribuir para um país mais justo. Portella conclui que a desigualdade é o maior problema brasileiro e que só será superada com uma profunda mudança de atitude da sociedade.
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