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Às portas da Grande Semana, vemos que os sinais realizados por Jesus são vistos, mais uma vez, de duas maneiras: muitos, por causa dos sinais, passam a crer em Jesus; outros, por sua vez, em geral as autoridades, veem nesses mesmos sinais uma ameaça à posição que ocupam e aos privilégios que lhes são assegurados. Diante da possibilidade de Jesus se tornar “mais importante”, decidem matá-lo como sendo algo querido por Deus. Por mais que devamos reprovar essa atitude dos judeus em relação a Jesus, podemos enxergá-la também de dois modos em nossos dias e em nossa caminhada de conversão. Buscamos, através dos sinais que hoje Jesus realiza em nossa vida e em nossa comunidade, aderir ao seu projeto de vida, que visa à construção de uma nova sociedade baseada no amor, ou vemos com desconfiança os sinais do Reino e buscamos eliminar seus promotores em vista da manutenção da Lei? De que lado estamos?
Mais uma vez, os judeus se colocam em posição agressiva e procuram matar Jesus. Eles pegam pedras e tentam dar fim à vida do Filho de Deus por meio do apedrejamento. Novamente, há percepções diferentes acerca da realidade que envolve Jesus e os judeus. De um lado, Jesus que faz o bem; do outro, os judeus que enxergam em Jesus um blasfemo, ou seja, um homem que abertamente ofende a Deus, por se apresentar como Deus ou Filho de Deus. Nem sempre é fácil assimilar as informações que chegam até nós. Para os judeus, como já refletimos noutra ocasião, admitir que um humano se declare filho de Deus é inconcebível, pois fere a Lei que eles acreditam. Por outro lado, os judeus não se abrem (ao menos, uma boa parte deles) àquilo que Jesus diz e faz e, com isso, perdem a oportunidade de experimentar nas próprias vidas a graça e o bem. Estejamos atentos ao que Jesus tem a nos dizer.
Ainda estamos no capítulo 8 do Evangelho de João. Jesus continua lidando com os judeus e suas descrenças, dúvidas e questionamentos. Poderíamos afirmar que a falta de sintonia entre Jesus e os judeus se deve – também – ao fato de que ambos estão posicionados em lados opostos e falam a partir de entendimentos distintos. Há, sim, pontos comuns entre Jesus e os judeus – e não poderia ser diferente -, contudo, a maneira de compreender e interpretar a realidade faz com que os passos de um e outro trilhem estradas distintas. Jesus é a luz, a verdade, aquele que vence a morte e aquele que é. Aos poucos, nesse caminho quaresmal, vamos descortinando quem é Jesus de forma muito didática justamente porque esse caminho nos leva a conhecê-lo para assumi-lo em nossa vida. Não nos esqueçamos de que esse tempo que a Igreja nos oferece é por excelência tempo de preparação para assumir (ou reassumir) o batismo junto com vitória sobre a morte do Ressuscitado.
A presença de Jesus é libertadora simplesmente porque ele é a verdade. Grande parte dos judeus não reconheceu em Jesus a verdade que liberta. De antemão, não podemos repreendê-los por isso. Se fôssemos nós no lugar dos judeus, que postura tomaríamos? Provavelmente, não acreditaríamos em Jesus e buscaríamos os argumentos necessários para justificar nosso posicionamento. Entretanto, estamos distantes no tempo, e nosso olhar nos permite, pela fé, acreditar que verdadeiramente Jesus era (e é) o Filho de Deus. A verdade que liberta o ser humano é o próprio Jesus, que dá novo sentido a todas as coisas e nos coloca em sintonia com o projeto do Pai. Como filhos de Deus, somos capazes de reconhecer nossas faltas e buscar, no próprio Deus, a reconciliação que nos faz seguir adiante em nosso caminho de conversão contínua.
Em muitos momentos, o Evangelho parece dar voltas ao redor de si e, com isso, a sua compreensão nos exige mais atenção. Nesses dias, os textos propostos pelo evangelista João, com suas idas e vindas, provocam judeus, escribas e fariseus para que vejam quem é Jesus e acreditem nele. Contudo, essa disputa é dura, pois, como já vimos, os olhos de muitos judeus, escribas e fariseus estão fechados. Reconhecer quem é Jesus nos dá a possibilidade de aderir ao seu projeto, que é exigente e comprometedor. Podemos também não seguir a proposta do Mestre, mas, igualmente, tal escolha tem consequências que, em geral, estão pautadas em interesses que não se afinam com as luzes do Reino.
Jesus é a luz do mundo; contudo, os fariseus não conseguem enxergar a luminosidade proporcionada pelo Filho de Deus. Ao se prenderem à Lei, eles buscam um meio de levar Jesus à prisão e à morte; os fariseus maquinam e perdem a oportunidade de experimentar a plenitude da vida que Jesus oferece a cada pessoa que esteja disposta a acolhê-lo. A cegueira que priva os fariseus de verem a luz que é Jesus pode também turvar os nossos olhos. Nesse tempo favorável para a conversão do coração, somos convidados pela Igreja e pelo próprio Jesus a mudar a direção do nosso olhar e abrir os olhos para o que verdadeiramente importa. E o que importa de verdade para cada um de nós neste momento? Importa permitir que Jesus nos ilumine e, a partir da luz que brota do nosso interior, iluminar as realidades e pessoas que nos cercam.
A presença, a palavra e os gestos de Jesus são provocadores e desconcertantes. Em pouco tempo, entre aqueles que compunham a multidão, não há mais consenso sobre quem é Jesus, e o motivo aí apresentado é sua origem: a Galileia. Os chefes dos sacerdotes e fariseus, entendidos da Lei, sabem muito bem de onde o messias virá, portanto, Jesus está desqualificado. De outra sorte, a discussão estabelecida nos aponta uma clara postura de preconceito, pois subjaz a essa linha de raciocínio a questão: qual messias esperamos? Veremos que Jesus não corresponde ao messias triunfalista esperado, sua forma peculiar de agir frustrará muitos, pois não se adéqua às expectativas daqueles que esperam e acreditam num messias que se tornará Rei e tomará o poder político. Quem é Jesus para mim? O que espero dele?
Jesus ainda está às voltas com os judeus que tentam matá-lo. Ao mesmo tempo que é cauteloso, Jesus mostra-se provocativo. Mais uma vez, Jesus diz quem é e em nome de quem realiza sua missão. Ao falar da sua identidade, Jesus mostra-se sem reservas; entretanto, os judeus não são capazes de reconhecê-lo, pois não conhecem aquele que o enviou, o Pai. Parte da atitude de Jesus é provocativa, pois, ao revelar-se, ele instiga seus opositores a mostrarem-se, ou seja, a apresentarem suas credenciais. Estamos diante de um jogo de forças e interesses. Ao final, contudo, deve prevalecer a palavra que gera e promove a vida.
A maneira como Jesus se posiciona diante dos judeus é profundamente clara e desconcertante. Na realidade, o evangelista João apresenta uma bem elaborada reflexão de quem é Jesus, qual é a sua missão e por quais meios se confirma o que ele diz. Em Jesus, palavra e atitudes são equivalentes; por isso, as coisas que ele faz dão testemunho dele. Jesus não está preso nem depende de nenhuma pessoa para confirmá-lo em sua missão. Como Jesus é, por excelência, o vocacionado do Pai, tudo o que ele diz e faz reflete e confirma seu especial chamado de proclamar o Reino de Deus. Se os gestos de Jesus atestam quem ele é, por sua vez, as palavras e os gestos dos judeus revelam quem eles são. Podemos nos voltar para o nosso coração e realizar um detido exame de consciência a fim de identificar quem somos verdadeiramente no seguimento de Jesus.
A presença de Jesus é incômoda para muitos e por diferentes motivos. No Evangelho de hoje, os judeus não aceitavam a liberdade de Jesus, que fazia o que não era permitido aos sábados e chamava a Deus de Pai. Jesus vem romper com o esquema estabelecido e, obviamente, haverá questionamento e hostilidade por parte daqueles que têm certeza de que o errado é o outro, nesse caso, Jesus. Em sua resposta aos judeus, Jesus tenta clarificar quem ele é e qual é a sua missão. Jesus e o Pai formam uma unidade que pode ser traduzida e entendida como perfeita sintonia. Não há aqui relação de dependência e anulação de um ou de outro; mas profunda cumplicidade e complementariedade. Jesus não vive por si, mas segundo o projeto que o Pai tem para ele. O que move o nosso coração e firma nossos pés na caminhada?
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