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As palavras e o agir de Jesus são marcados por aparente simplicidade e, ao mesmo tempo, por grande profundidade. Ao responder que são os doentes que precisam de médico, Jesus está afirmando o óbvio; contudo, muitas vezes o óbvio não é percebido e, por isso mesmo, não desperta nossa sensibilidade nem provoca em nós algum tipo de atitude. Infelizmente, o olhar do ser humano se acostuma a ver realidades duras e pesadas, feias e injustas, e as considera como algo “normal”, parte do cenário ou da paisagem. A sensibilidade do olhar de Jesus é bem diferente, pois leva ao acolhimento dos excluídos, e possibilita que eles retomem sua dignidade. Jesus “viu” Levi e o chamou para segui-lo. Jesus sabia que Levi era um pecador público, mas essa condição não o desqualificava como ser humano, desde que tivesse o desejo de mudar e converter-se.
“Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão”
Jesus, em sua missão, nos revela quem é o Pai e lança as sementes do Reino de Deus. Por causa da coerência de suas palavras e de seus gestos, Jesus sofrerá, será rejeitado e morto; contudo, a morte será vencida, pois Jesus ressuscitará. A trajetória de Jesus é, sem dúvida, exemplar para aqueles que, em qualquer tempo, se decidem por segui-lo. O sofrimento, a rejeição e a morte são realidades que não se desejam, mas, quando abraçamos a causa do Reino, precisamos estar preparados para dores, incompreensões e a própria morte, como ocorreu com o Mestre e muitos cristãos ao longo da história e ocorre ainda hoje. Embora pareça contraditório e de difícil entendimento, nossa vida é para Deus, e se não a colocamos a serviço, ela perde seu sentido e sua fecundidade.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus".
Depois do alerta de Jesus a respeito da partilha dos bens, como vimos ontem, Pedro quer saber o que acontece com eles, que deixaram tudo e o seguiram. Sempre que alguém deixa alguma coisa, tem em vista algo melhor em troca. Os discípulos que deixaram tudo encontraram em Jesus e na sua mensagem uma causa e valores superiores. Na vida cristã, o ponto de partida e de chegada é sempre Jesus Cristo e o Evangelho como plenitude humana. Isso é um convite a deixar tudo o que é incompatível com o seguimento a Jesus. Esse seguimento “radical” a Jesus pode trazer incompreensões, perseguições e até a morte, como aconteceu com o próprio Mestre. Jesus procura esclarecer que o “reino do dinheiro” é incompatível com o “Reino de Deus”. A mensagem do Mestre não despreza a família nem os bens necessários a uma vida digna; ao contrário, propõe solidariedade aos desprovidos desses bens.
“Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.
No tempo em que as crianças tinham pouco valor e praticamente não faziam parte do convívio social, muitas mães camponesas levavam suas crianças para que Jesus as tocasse; quem sabe, para protegê-las ou libertá-las do mau-olhado que se supunha ser causa de doenças, que ceifavam muitas crianças desde cedo. Certamente não era comum que alguns mestres acolhessem crianças em público. Elas eram os membros mais frágeis e vulneráveis da sociedade. Jesus se indigna contra seus discípulos que repreendiam essas pessoas que se aproximavam dele. Além disso, o Mestre convida seus seguidores a ver nas crianças modelos para quem quer pertencer ao Reino de Deus. Jesus, ao demonstrar um carinho todo especial às crianças indefesas e pouco valorizadas, ensina que no seu Reino têm lugar privilegiado os francos e indefesos.
"Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!”
Todo bem realizado em favor de alguém não perderá seu valor e sua recompensa, não importa de onde ou de quem vier. Assim como o bem pode vir de fora dos círculos cristãos, também do interior da comunidade cristã podem vir males, escândalos e traições. O Mestre alerta para não provocar escândalos contra os pequeninos, que podem ser desestimulados vendo as incoerências dos cristãos. É necessário cortar o mal pela raiz. Jesus usa imagens fortes e simbólicas: cortar a mão e o pé, e arrancar o olho. Não podemos tomar essas expressões ao pé da letra, são imagens simbólicas que representam as raízes dos males: o olho vê e cobiça, o pé aproxima da coisa cobiçada, e a mão apanha a coisa cobiçada. É o escândalo do egoísmo de quem quer se apossar de tudo. Talvez se possa dizer que o maior escândalo do mundo de hoje seja a disparidade cada vez maior entre ricos e pobres.
"Quem não é contra nós é a nosso favor”.
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