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Jesus, sensível a tudo e a todos que estão ao seu redor, percebe o homem que há muitos anos vive à margem de tudo e de todos. À espera de que alguém o jogue na piscina assim que as águas se agitarem, o homem doente simboliza a estagnação ou paralisia provocada pelo pecado e pelo sistema, que amarra as pessoas e impede que elas conquistem sua autonomia e independência. Diante do bem que foi realizado, Jesus encontra opositores; pois o arranjo social, político, econômico e religioso olha e busca a manutenção da estrutura que o caracteriza e não necessariamente o bem daqueles e daquelas que necessitam de cuidado e meios para que suas vidas sejam restabelecidas. Gestos do passado podem ainda ser reproduzidos em nossas comunidades hoje. Observemos e ajamos para que ao nosso redor a vida de todos tenha igual valor e prevaleça.
Em vez de “milagres”, o evangelista João adota o termo “sinais” para designar os feitos extraordinários que Jesus realizou. Ao todo, ao longo de seu Evangelho, João apresenta sete sinais; recordemos que o número sete na Bíblia significa plenitude. Inicialmente, Jesus afirma que sem sinais e prodígios o povo não é capaz de acreditar; e, ao ser interpelado por um pai aflito, Jesus, de forma simples, diz que a cura esperada já aconteceu. O pai da criança constata o que Jesus realizou e, por causa desse sinal, passa a acreditar. Os sinais realizados por Jesus têm, sim, caráter extraordinário, mas, sobretudo, pedagógico; não tem valor em si o “fora do normal”, mas o que esse sinal pode provocar de adesão ao projeto proposto por Jesus. O dia a dia, sim, deve se tornar extraordinário e nos motivar a construir um mundo mais justo e fraterno onde a vida de todos transborde.
Embora as palavras sejam claras e diretas, nem sempre somos capazes de compreendê-las ou não queremos compreendê-las. Aquele que se reconhece como justo coloca-se acima dos outros, pois julga-se próximo de Deus e cumpridor de todos os preceitos que o livrariam da condição de pecador. Com isso, no mínimo, essa pessoa atrai sobre si o pecado da arrogância, pois ela se torna a medida de todas as coisas, e não mais Deus. Por sua vez, quem reconhece sua condição de ser humano frágil e está sempre a caminho, sabe que precisa melhorar e recorre a Deus em sua necessidade. O coração humilde encontra repouso em Deus e nele confia; o coração arrogante acredita ter encontrado com suas próprias forças o caminho da plenitude. Todo ser humano vive um grande processo de conversão, alguns, porém, tentam ignorar sua pequenez.
Este dia – 25 de março e nove meses antes do Natal – marca a concepção de Maria, dia em que ela disse sim a Deus e se comprometeu a colaborar com seus planos. Maria, em sua vida cotidiana em Nazaré, é visitada pelo anjo do Senhor. O primeiro anúncio do anjo é de alegria e otimismo: “alegre-se, […] o Senhor está com você!” A presença do Senhor alegra e dá esperança a qualquer ser humano. Diante disso, Maria fica se interrogando o que seria essa saudação. O anjo a tranquiliza, o Espírito Santo se encarregará de solucionar as dúvidas. Ao receber a proposta do plano de Deus, ela aceita o desafio e se deixa envolver pelo Espírito de Deus. Submetendo-se à vontade divina, Maria colabora com a humanidade, trazendo ao mundo aquele que será chamado Filho de Deus, o Emanuel, o Deus-conosco. Com isso, ela concretiza a esperança que Israel há muito tempo esperava. Maria é a humanidade que ama, crê e aceita Deus e se converte em instrumento de sua obra. Todo o relato – a intervenção do anjo, a aceitação de Maria e o Espírito criador – conduz para um único objetivo: a salvação da humanidade. É importante abrir-se à ação de Deus, a exemplo de Maria, e buscar realizar, dia a dia, o que ele espera de cada um. Ele aguarda nosso sim para que continue agindo entre nós.
As curas promovidas por Jesus, para além do bem-estar recaído sobre os curados, também reintegravam tais pessoas ao convívio social, pois lhes restituíam a dignidade e a plenitude da vida. Jesus é acusado de realizar suas ações por meio do príncipe dos demônios, e não por meio de Deus; contudo, ele devolve a pergunta e afirma que um reino dividido é facilmente destruído. Precisamos discernir e escolher com quem estamos e ao lado de quem nos posicionamos. Não é possível estarmos com os pés em duas canoas, obviamente não haverá estabilidade e em pouco tempo estaríamos dentro d’água. Recolher, por mais difícil que seja, implica renunciar, pois optamos seguir por determinada via assumindo as consequências dessa opção. Quem não se decide vive na superficialidade e de forma inconsistente.
Jesus é a plenitude da Lei; contudo, sua presença e missão não cancelam a tradição e a Lei que regeram o povo até aquele momento. Entretanto, com Jesus, a Lei chega a seu ápice ou é retomada em seu sentido original, ou seja, promover a vida de todo ser humano sem distinção. De outra sorte, quem não cumpre a Lei ou quem incentiva o seu descumprimento, será considerado menor no Reino dos Céus. Jesus não é um revolucionário inconsequente; ele tem plena consciência de seus atos, pois refletem a vontade do Pai que o enviou. Como essa palavra pode nos iluminar? Certamente, considerando o caminho daqueles que vieram antes de nós e conhecendo a tradição e as leis que devem promover e garantir a vida. Não se cria nada do nada, ou seja, é preciso saber quais são nossas origens e fundamentos de fé para viver plenamente nosso chamado.
Somos chamados a perdoar de forma ilimitada; é isso que significa o “setenta vezes sete”. E para que não haja dúvida, Jesus conta uma pequena história que ilustra com muita clareza como devem ser a lógica e a dinâmica do perdão daqueles que seguem o Mestre. De modo geral, perdoar não é fácil. Depende, no mínimo, da índole de cada pessoa e também da ofensa recebida. Contudo, toda e qualquer dificuldade de perdoar somente será superada se estivermos inseridos no Cristo. Perdoar é libertador, é uma decisão, é um exercício. As ofensas recebidas não são esquecidas facilmente (ou nunca são esquecidas); contudo, o perdão concedido nos possibilita seguir adiante com leveza e de cabeça erguida.
Jesus se dirige ao povo de forma dura e provocativa. Ele afirma que nenhum profeta é aceito em sua pátria, como referência direta ao descaso e rejeição das pessoas que o cercam à mensagem por ele anunciada. Ao resgatar situações do passado, Jesus aponta para semelhanças. Elias e Eliseu, por exemplo, fizeram o bem a estrangeiros e não a seu próprio povo. Muitas vezes, por preconceito ou falta de sensibilidade, duvidamos que aquela pessoa crescida em nossa comunidade possa um dia ser instrumento de transformação da própria comunidade. Infelizmente, a desconfiança e a inveja falam mais alto, e não nos abrimos ao bem e ao bom que está ao nosso alcance. Com a rejeição sofrida e ameaça de morte, Jesus vai embora. Que saibamos reconhecer a graça de Deus, que vem nos visitar de muitas formas e por meio de muitas pessoas.
São José, esposo de Maria, pai adotivo de Jesus e padroeiro universal da Igreja, estabelece a ligação de Jesus à descendência de Davi. Os Evangelhos pouco falam de José. As poucas menções revelam que ele era carpinteiro, descendente da tribo de Davi, homem justo. Foi uma figura silenciosa, mas muito presente na infância e adolescência de Jesus. O episódio do encontro de Jesus no templo é o Evangelho proposto para esta solenidade. O relato apresenta a família de Nazaré se dirigindo a Jerusalém. O menino se afasta da família e se detém no templo enquanto seus pais voltam para casa. No templo, sentiu-se à vontade junto aos doutores, dialogando com eles. Desde pequeno, Jesus mostra sua relação filial com seu Pai. Interrogado pela mãe, ele responde que deve se preocupar com as coisas de seu Pai. Com isso, revela que sua vida está em sintonia com Deus. É o início de sua independência em relação à família, seguindo seu próprio caminho na vida, como acontece com muitos adolescentes e jovens. Vivendo plenamente sua humanidade, revela sua condição de Filho e se ocupa das coisas de Deus. Seguir a vontade de Deus pode significar ir além dos limitados horizontes da família. Jesus volta com sua família e convive com ela até o dia em que assumirá sua missão profética e missionária.
Então Jesus lhes disse: “Vós nunca lestes nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isto foi feito pelo Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos?” Por isso eu vos digo: o Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos".
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