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Mesmo que queira, Jesus não consegue ficar despercebido. Uma mulher pagã, preocupada com sua filha possuída por um espírito impuro, atira-se aos pés do Mestre, suplicando pela filha. Jesus tenta resistir, mas, diante da insistência da mulher, cede. Jesus entra “numa casa” em território não israelita. A fala do Mestre é questão de precedência e não de exclusão, isto é, ele veio para os judeus, antes de tudo, sem excluir os outros povos. A reação da mulher mostra bem isso, os cachorrinhos (pagãos) também têm necessidade do básico para a vida (as migalhas). A atitude do Mestre parece ser um teste para constatar a fé da mulher. Provavelmente o texto revela a dúvida da comunidade de Marcos a respeito da admissão ou não dos pagãos ao Reino de Deus. A conclusão é clara: sim, também entre os pagãos havia pessoas preparadas para receber os benefícios do Reino.
Diante da multidão, Jesus esclarece a questão da lei do puro e impuro: o que torna a pessoa pura ou impura – boa ou má – diante de Deus não são as coisas que entram em contato com ela, mas a atitude do seu coração. É dele (do coração) que saem as traições, as injustiças, a maldade. A impureza não vem de fora, é pensada a partir do coração. Jesus sugere que cada pessoa procure dentro de si mesma a raiz do pecado e a raiz do amor. Isso para dizer que não há alimento puro ou impuro, quando muito há alimentos mais saudáveis e menos saudáveis. Nenhum alimento torna a pessoa impura ou má diante de Deus. O coração da pessoa é feito para amar, só que muitas vezes as pessoas o transformam em fonte de ódio, raiva, intolerância, discriminação, inveja etc., que afastam de Deus e da boa convivência com os irmãos e irmãs.
Os fariseus e alguns doutores da Lei criticavam o comportamento dos discípulos de Jesus por não cumprirem certos preceitos humanos. Com isso, indiretamente a crítica acabava atingindo o próprio Mestre, pois este não se interessava em “ensinar” seus discípulos. Fariseus e especialistas em leis preocupavam-se com detalhes nas práticas religiosas. Jesus os esclarece sobre eles estarem muito preocupados com “preceitos humanos” e ignorarem os “preceitos divinos”. A observância das “tradições humanas” era uma forma de exploração da fé do povo e uma maneira de esconder grande hipocrisia. A hipocrisia é o cultivo de atitudes religiosas e morais exteriores, que não correspondem à atitude interior e à conversão do coração. O farisaísmo é o apego a tradições religiosas e morais sem valor autêntico, mas que dão prestígio social, esquecendo os critérios do Evangelho.
O evangelista descreve Jesus percorrendo aldeias e cidades, e curando os enfermos que o procuram. Não consegue passar despercebido, e sua presença atraía muitas pessoas. É grande a fé no poder dele; acreditam que basta tocar a veste para serem curados. O contato com Jesus comunica esperança e vida a esse povo marginalizado. Jesus é como que a última esperança dos sofredores. Isso costuma acontecer na religiosidade dos pobres: com suas promessas, esperam tudo de Deus. Muita gente ainda hoje espera que Jesus resolva todos os seus problemas, com a promessa de muitos pregadores. Toda essa procura por Jesus não o engana, pois tem consciência de sua missão a serviço do Reino e não da autopromoção. Ele se deixa mover por pura misericórdia em favor desse povo sofrido. Ele nos ensina que não podemos ficar indiferentes diante de tanto sofrimento.
Na volta de uma missão, os apóstolos se reúnem com Jesus para fazer uma avaliação da atividade. O Mestre os convida ao repouso, o missionário também tem direito ao descanso. Mas não conseguem ficar muito tempo afastados, pois a multidão corre atrás. E Jesus se compadece, ao perceber que são como ovelhas sem pastor. As pessoas buscam em Jesus alimentar a esperança e o sentido da vida. Elas anseiam por uma sociedade fundamentada em valores de justiça, de fraternidade, de respeito e de acolhida; enfim, tudo o que Jesus pratica e ensina. Nós nos tornamos cada vez mais humanos à medida que vivemos esses valores que o Mestre nos deixou. Tanto para os evangelizadores como para qualquer pessoa, Jesus nos ensina que são necessários o repouso, o lazer, a convivência familiar, a necessidade de repor as energias. Isso também nos humaniza.
João Batista se tornou conhecido pela sua ousadia e coragem em denunciar aquilo que não condizia com seus princípios de vida como precursor da Boa-nova. Até depois de morto, perturba a consciência do poderoso Herodes. Com detalhes, o Evangelho de hoje descreve a morte de João Batista. Essa morte antecipa o destino de Jesus e de muitos de seus seguidores. Tudo começou numa festa de aniversário entre ricos e poderosos. Em banquetes de poderosos, muitas vezes, são tramadas mortes de inocentes. Os dois – João e Jesus – não temeram pagar o preço de sua liberdade em denunciar tudo o que vai contra o projeto de Deus a respeito da humanidade. Eles devem fidelidade somente a Deus. Ambos são símbolos da coerência que existe no cristianismo entre profetismo e martírio. Que seu exemplo inspire os discípulos e discípulas de Jesus.
Jesus envia os apóstolos, numa espécie de experiência, para anunciar o Evangelho, com autoridade para converter e libertar dos demônios que dominam as pessoas. A missão dos Doze é continuar a obra libertadora do Mestre. A bagagem é simples e modesta, apenas o necessário para se vestir e proteger os pés, e carregam o símbolo da missão, o bastão. Com isso, o Mestre ensina que o evangelizador deve estar livre e desapegado de tudo o que possa ser obstáculo à credibilidade da missão. A riqueza gera segurança e pode nutrir o espírito de dominação e discriminação, principalmente em ambientes simples e pobres. Com isso, os apóstolos, pregando na pobreza, deviam confiar-se na providência divina. Ela não deixaria que lhes faltasse o necessário para a sobrevivência. Jesus não convida todos a segui-lo da mesma forma, porém espera que cada um seja fiel ao seu projeto.
Esta festa se refere tanto a Maria, por sua purificação segundo a “Lei de Moisés”, quanto a Jesus, o Filho primogênito que devia ser consagrado ao Senhor. Depois dos pastores e dos magos, Simeão, “movido pelo Espírito”, confirma a identidade do recém-nascido. Trata-se do Messias, “luz para iluminar as nações”. Essa referência à luz fez surgir na Igreja o costume de benzer as velas. Por isso, a festa de hoje é conhecida também como “a Candelária” (candela [latim] = vela). Simeão, representante da Antiga Aliança, é a testemunha viva e a voz de todos os que esperavam o Messias Redentor: “Meus olhos viram a tua salvação”. Tal salvação proclamada por Simeão, no Templo de Jerusalém, tem caráter universal, portanto faz cair por terra o exclusivismo de Israel; Deus se revela a todas as nações.
Nesse relato temos duas narrativas entrelaçadas, trazendo duas mulheres: uma em plena adolescência (doze anos), com toda a vida pela frente, à beira da morte; a outra, há doze anos carregando o peso da exploração econômica e da discriminação religiosa. Jesus vence dois poderosos inimigos: a morte da menina e a doença incurável da mulher. A mulher aproxima-se de Jesus, toca a roupa dele e fica curada; a menina é tocada por Jesus e se levanta. O encontro e o contato com Jesus transformam e promovem a vida das pessoas. O tocar em Jesus ou deixar-se tocar por ele é o gesto concreto de um encontro salvífico. A fé da mulher e a fé do pai da menina conseguem recuperar a dignidade dessas duas pessoas. A misericórdia de Jesus aliada à fé das pessoas restaura a plenitude da vida. Como seria bom ouvir de Jesus: sua fé salvou você, vai em paz.
Outro lado do mar significa território habitado por pagãos ou gentios. Lá, Jesus se defronta com um possesso. O espírito que domina o possesso simboliza o poder opressor, que tira da pessoa a liberdade de pensar e de agir livremente, tornando o povo submisso e, muitas vezes, violento. Fazendo memória do exército do faraó submerso no mar, o Mestre liberta o possesso e envia a “Legião” para o fundo do mar. Libertado, o homem agora é dono de si: está sentado, vestido e em perfeito juízo. O homem curado pede para seguir Jesus, mas este o convida a ir para sua casa e lá anunciar o que aconteceu com ele. Entre os seus, ele proclama as maravilhas que Deus lhe concedeu. Há diversos caminhos e diferentes maneiras de seguir o Mestre. Jesus não espera que todos o sigam da mesma forma. O importante é cada cristão discernir o que Deus deseja dele.
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