No Barquinho
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No Barquinho episodes

  • À Deriva #08 – Lembranças de um Moribundo

    “Por que não morri ao nascer, e não pereci quando saí do ventre?

    Por que houve joelhos para me receberem e seios para me amamentarem? Por que não me sepultaram como criança abortada?
    Por que se dá luz aos infelizes, e vida aos de alma amargurada?”

    O quarto estava completamente desconfigurado. O moribundo estava encolhido em um dos cantos. Repetia essas e outras frases constantemente. Suas roupas estavam velhas e apodrecidas no corpo, pelo uso contínuo. Não sentia fome, sede, ou vontade. Estava ali há dias… Quem sabe semanas, meses… Se contorcendo, tremendo, gemendo, e gritando… Não se lembrava direito quando chegara ali, suas memórias estavam bastante vagas… Mas sabia que algo tinha acontecido, algo que tinha medo de se lembrar. E só esse pensamento já o fazia explodir em lágrimas.

    – Por que se dá luz aos infelizes? Por quê? Por quê? POR QUÊ!? ­Levantou-­se de súbito e chutou fortemente a cama à sua frente, terminando de quebrar o que ainda restava dela. Sentou novamente no canto do quarto, e gemeu, com a cabeça entre os joelhos.

    A porta de madeira se abriu, luz ofuscando-­lhe os olhos. Era uma mulher, com aparência agradável, mas com uma expressão terrivelmente cansada. O moribundo pensou que talvez ela estivesse deprimida.

    ­

    – Está aqui sua comida. Experimente comê-­la dessa vez, se ainda pretende ficar vivo.

    A porta se fechou. Aos poucos, o cheiro da comida preencheu o quarto, e ao chegar nas narinas do moribundo, o transportou para um passado não tão distante, quando sua família tinha o costume de se reunir para almoçar.

    ­

    – É meu! ­- disse uma menininha de não mais de 5 anos.

    – Larga, é meu! ­- disse uma outra um pouco mais velha. Estavam em guerra pela posse da última coxa de frango.
    – Parem, vocês duas! ­- Uma voz respondeu em tom firme, pertencente ao irmão mais velho. Ele pegou a coxa de frango que estava em seu prato, deu para uma delas, e acabou com a briga. ­- Não briguem desse jeito, vocês são irmãs, e precisam resolver as coisas com amor.
    – Desculpa -­ responderam em coro, e meio segundo depois estavam com a boca cheia de frango.

    O pai já havia almoçado, estava ali para acompanhá-­los apenas. Ficou orgulhoso do filho, que soube lidar com a situação de maneira altruísta. Seu bebezinho agora era um homem formado, e que adorava chamar a família, especialmente os irmãos e irmãs, para almoçarem em sua casa. Era um rapaz muito sábio, também, sempre aconselhando outras pessoas. Acreditava que o filho tinha herdado essa qualidade dele. A mãe era do tipo prática, não gostava muito de pensar profundamente nas coisas.

    Não se achava tão sábio agora que estava tudo destruído. O quarto parecia se derreter em volta dele, como se estivesse no estômago de um monstro. Seu corpo inteiro coçava e definhava. Não era incomum ele estar em um local e posição dentro do quarto e de repente se ver em outro, sem saber como chegou ali. E ele não conseguia se lembrar… Sua dor era pura, tão pura que não havia memórias para corrompê-­la.

    Uma mosca passou voando em frente aos seus olhos. Encarou­-a por um momento, até que ele a viu saindo pela janela. Ele foi junto, e voou com ela até uma plantação de trigo, onde bois e jumentos aravam a plantação. Três de seus filhos mais novos, todos com menos de 15 anos, estavam por ali assistindo, maravilhados com a força dos animais. O pai chegou perto deles e disse:

    ­

    – Vocês sabem que um dia tudo isso aqui vai ser de vocês, não é mesmo?

    – É mesmo, papai? ­ disse o mais novo.
    – Sim, é tudo de vocês.
    – Então eu quero o Jujuba pra mim! ­- disse outro deles. Jujuba era o jumentinho mais desajeitado e engraçado daquela região.
    – Se seus irmãos concordarem com isso, tudo bem.
    – Mas se vai ficar tudo com a gente, você vai ficar com o que, papai? ­ – perguntou o terceiro.
    O pai bagunçou seu cabelo com a mão.
    – Eu já tenho tudo o que preciso, meu amor.

    E conversou com eles o resto da tarde, enquanto o sol descia lentamente em direção às montanhas. Depois foi caminhando com eles em direção ao pequeno morro onde se localizava sua casa. Até que a mosca entrou novamente pela janela e estragou tudo.

    Chorou por mais algumas horas, antes da porta se abrir novamente. Dessa vez eram três homens. Conforme esses homens entraram, foram reconhecidos de imediato. Eram seus amigos de infância, e todos eles também haviam ficado ricos e ido morar longe. Mas agora todos eles estavam ali.

    A visão desses três fez com que ele voltasse ainda mais ao passado, na época em que os quatro brincavam juntos, estudavam juntos, falavam sobre mulheres, sobre Deus e o sobre o sentido da vida. Então as memórias avançaram… O moribundo se viu estudando, e depois casando. Viu os amigos um a um formarem suas vidas, viu­-se despedindo deles. O primeiro filho nasceu, depois a primeira filha, e depois vários filhos se seguiram, seu comércio cresceu, e acabou por criar uma condição segura para si e sua família. Ficou contente consigo mesmo, de forma que se morresse naquele instante, não teria nada de que se arrepender. E então finalmente se lembrou do que aconteceu.

    Era uma tarde como outra qualquer. Pessoas trabalhavam nas plantações e cuidando do gado, os filhos almoçavam na casa do irmão mais velho, seus mensageiros levavam e traziam mensagens, e ele descansava em sua casa. Um mensageiro chegou fazendo bastante barulho.

    – O que aconteceu, homem?

    – Chefe, bandidos! Vieram da região ao lado do deserto, pareciam com pressa! Eles nos atacaram, e roubaram nossos bois! Quase me mataram!

    Não sabia o que pensar. Ainda estava tentando absorver todas essas informações, quando chegou outro homem gritando:

    – Fogo! Fogo! Fogo no céu!
    – Calma, calma, como assim fogo no céu?
    – Fogo, muito fogo. Caiu fogo do céu, na plantação. A plantação pegou fogo, as ovelhas morreram. A maioria dos trabalhadores também morreu queimada.

    Ainda chegou um terceiro mensageiro com mais notícias trágicas:

    – Chefe! Creio que não sou o primeiro a trazer más notícias! Fomos atacados pelos homens das fazendas vizinhas, e eles levaram o restante de nossos animais. Sinto muito, chefe!

    A casa inteira já estava em estado de pânico. Parecia um sonho. não podia estar acontecendo tudo aquilo no mesmo dia, na mesma hora! Era como um castigo dos céus que veio sem motivo algum. Depois de algum tempo, chegou mais um homem ofegante, entrando cambaleante em casa. Mas não era um homem qualquer, era o único homem que não poderia estar ali. Teve calafrios enquanto olhava para ele, prevendo o que se seguiria. Ele se aproximou ainda ofegante. Era o servo de maior confiança de seu filho mais velho.

    ­

    – Meu senhor, preciso lhe falar. Veio um vento muito forte… ­ – nesse momento uma mão tapou-­lhe a boca. Saiu perturbado e foi para fora da casa tomar um ar. Sentiu resistência para sair, um vento forte o empurrava para dentro. Venceu o vento, e quando saiu de casa, percebeu com clareza o que acontecera.

    Ao horizonte, teve a visão mais assombrosa que já vira em toda a sua vida. Um tornado gigantesco estava saindo do deserto. Já havia passado por várias cidades e vilarejos, pois os carregava dentro dele, juntamente com areia e várias árvores e objetos que estavam pegando fogo. Os pedaços de casas e de árvores eram constantemente arremessados para todas as direções, causando devastações e incêndios. Não parecia haver explicação para a existência daquele fenômeno.

    O furacão estava longe o suficiente para que não atingisse a sua casa, e quando o mesmo se distanciou, pode ver ao longe o local onde deveria estar a casa de seu filho. Não havia nada além de deserto.

    De seus olhos escorriam de lágrimas enquanto as memórias voltavam, frente aos seus amigos. Os amigos também choravam, pois mal o reconheciam agora em seu estado deplorável. Os amigos o abraçaram, e choraram junto com ele… Choraram por dias e dias com ele, até que ele estivesse pronto para começar a se recuperar, até que ele estivesse disposto a desabafar, brigar com eles, brigar com Deus, e por fim, começar a construir uma nova vida.

    _________________________

    Texto “Lembranças de um Moribundo”: Wilson Faws

    Gravação, edição e masterização do áudio: Chico Gabriel
    Artes gráficas: Daniel Sas (portfólio)

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    13 min
  • #NB66 – Apócrifos

    Fala discípulo! Pedro, Thiago e Matheus, diretamente do Mar da Galileia, se reúnem No Barquinho com os amigos Chico Gabriel (À Deriva) e Cacau Marques (Podcast 2em1) para trocar uma ideia sobre os livros chamados apócrifos.

    Neste episódio do podcast No Barquinho você vai descobrir algumas curiosidades muito interessantes sobre os livros que não estão na nossa Bíblia e a razão de não estarem lá.

    Duração: 1h28min

    Baixe a arte da vitrine AQUI

    Vitrine por Daniel Sas. Acesse o portfolio do nosso vitrinista!

    Links comentados no episódio:

    – Juntos em 1 #25 – História e formação da Bíblia
    – No Barquinho #032 – Leitura Bíblica: pra quê?
    – Irmaos.com #28 – Os originais da Bíblia

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    1 hr 28 min
  • #NB65 – Batismo: pra quê?

    Fala discípulo! Pedro, Thiago e Matheus, diretamente do Mar da Galileia, se reúnem No Barquinho com os tripulantes Thiago André Monteiro e Jaqueline Lima para falarmos a importância de um dos sacramentos do cristianismo: o batismo.

    Duração: 1h22min

    Vitrine por Daniel Sas.

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    Links comentados no episódio:

    – BTCast #031 – Entendendo o batismo
    – Batismos engraçados (vídeo)

    Links comentados nas epístolas:

    – Matheus Soares no Alerta Crucial #09 – Coisas que eu odeio
    – Go!Cast, novo podcast do Alerta Crucial

    – FÉ NA FACUL

    Dia 02 de Agosto, das 14h às 21h,
    Local: Av. Eng. Armando Arruda Pereira, 2747 (próximo ao Metrô Jabaquara) – São Paulo – SP
    Custo: R$20,00 (pagamento no local)
    Maiores informações na fanpage do Cinjo

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    1 hr 23 min
  • À Deriva #07 – Comumente

    É verdade que a gente mente.

    Comumente a gente mente.
    Como gente a gente mente.
    Até em mente a gente mente.

    Como também a gente pode afirmar,

    sem medo de errar,
    que gente comum mente.
    Sempre mente.

    Aliás, e como mente!

    Comumente.
    Conscientemente.
    Descaradamente.

    Mas serei mais específico, menos comum.

    Escolha, como quiser, um dentre os seus queridos entes.
    Será que até mesmo ele, escolhido tão convenientemente, mente?
    Ouso afirmar que, ainda que gentilmente, ele mente.

    Mas como a gente pode cuidar

    para que a nossa mente
    deixe este padrão comum
    de mentir descaradamente?

    Só há uma forma consciente

    de mudar permanentemente.
    Seguir o Ente Supremo.
    Aquele que nunca mente.

    É verdade que, enquanto a gente for gente,

    ainda vai ser gente que mente.
    Porém, não mais comumente ou voluntariamente.
    Agora será raramente. Equivocadamente.

    O segredo? Seguir a Cristo fielmente e entregar-se completamente.

    E, como afirmou o apóstolo Paulo,
    não se amoldar ao padrão deste mundo,
    mas transformar-se pela renovação da mente.

    “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.2)

    _________________________

    Texto “Comumente”: Thiago Monteiro (TAM)

    Gravação, edição e masterização do áudio: Chico Gabriel
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    3 min
  • #NB64 – Tô de mau humor

    Fala discípulo! Pedro, Thiago e Matheus, diretamente do Mar da Galileia, se reúnem No Barquinho com o pedante Abner Melanias (Achando Graça) e a metida da Cecília para falarmos sobre o que nos deixa de mau humor.

    Saiba neste podcast quem não tolera atrasos,  quem não aguenta atender telefone, e quem cobra pra fazer traduções caseiras!

    Duração: 1h40min

    Vitrine por Daniel Sas.

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    Links comentados nas epístolas:

    – Arroz de Festa

    • Pedro e Thiago no MassaCrente #41 – Músicas Ruins
    • Chico Gabriel no GraçaCast #43 – Manual Prático do Evangélico
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      1 hr 41 min
    • #NB63 – Apaixonados por futebol

      Fala discípulo! Pedro, Thiago e Matheus, diretamente do Mar da Galileia, se reúnem No Barquinho com o cruzeirense Lucas Teles e o sãopaulino Davi Luna (Juntos em 1) para falar sobre o assunto do momento: FUTEBOL!

      Neste podcast você NÃO vai saber sobre política e manifestações, nem se #VaiTerCopa ou #NaoVaiTerCopa (tá bom, só um pouquinho!); falaremos sobre nossas influências futebolísticas, nossas lembranças das copas passadas e nossas expectativas para a Copa das Copas!

      Duração: 1h40min Vitrine por Daniel Sas. Acesse o portfolio do nosso vitrinista!

      Links comentados nas epístolas:

      – Outros podcast sobre a Copa (ou não):

      • Podcast Irmaos.com #247 – Vai Ter Copa
      • Alerta Crucial #014 – Copa do Mundo
      • GraçaCast #042 – De Itaquera para o mundo
      • Maná com Manteiga #24 – O futebol segundo a manada
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        1 hr 41 min
      • À Deriva #06 – O Grande Dilema de Jack

        Nesses últimos meses Jack estava passando por um grande dilema, de modo que nossa história, muito por falta de criatividade deste que lhes conta, se chamará “O grande dilema de Jack”.

        Jack nasceu num dia 23 de agosto, às 0h17, mas queria ter nascido no dia 22. Isso talvez fizesse com que seus amigos nunca tivessem inventado essa piada idiota que acompanhou a sua vida desde sempre:

        — Jack, você é virgem por 17 minutos e nunca deixará de ser!

        Eu disse que a piada era idiota, mas é esse tipo de coisa que a gente guarda na memória quando é adolescente e nunca mais esquece, não é mesmo?

        O número 17 marcou pela segunda vez a sua vida com um fato bastante importante. Foi com esta idade, tardia para alguns, que Jack beijou na boca pela primeira vez. Não exatamente “beijou”, mas ganhou um beijo. Foi em um aniversário do primo, no interior. Priscila aproveitou que ninguém estava por perto e, ao invés de se declarar, inventou uma lorota qualquer, aproximou-se do rosto de Jack e lhe tascou um beijo. Foi apenas um selinho roubado que pegou Jack num momento de distração. E isso foi tudo o que aconteceu entre Jack e Priscila naquele dia. Na verdade, como Jack não sentia nada por Priscila, passou a evitá-la nas poucas ocasiões em que se encontravam. Logo Priscila percebeu que suas intenções não dariam em nada e nunca mais tocou no assunto. Mas, apesar de ter sido com a pessoa errada, isso despertou uma faísca no coração de Jack que jamais seria esquecida.

        Quase um ano depois Jack começou a namorar. Desta vez a garota foi escolhida. O nome dela era Fernanda, dois anos mais velha. Foi o pessoal da escola que a apresentou a Jack em uma festa. Fernanda era meio esquisita e andava com um pessoal mais barra pesada, mas isso não impediu Jack de gostar dela. O namoro com Fernanda era relativamente sério, mas Jack não queria que sua família a conhecesse. Sabia que não gostariam dela e não aprovariam tal namoro. Como Fernanda não se importava com isso, seguiu o namoro às escondidas sem nenhum problema. Foi nesta época em que Jack deixou de ser virgem, pelo menos em um dos sentidos.

        Mas tenho que lhes contar sobre o dilema do título da nossa história. Ele surgiu alguns meses depois que Jack perdera sua virgindade. Tudo ia muito bem entre Jack e Fernanda até que fez aquela viagem e, nela, surgiu o nome de um certo sujeito.

        Jack já ouvira falar daquele cara em algum momento da vida, porém não se lembrava mais de quando ou onde. Na verdade, a única lembrança que ainda guardava é que, na ocasião, dera de ombros àquele nome. No entanto, o nome daquele cara surgiu novamente. Nesta viagem que fez com alguns amigos, desta vez sem a Fernanda, o Pedro começou a contar de uma briga feia que tinha acontecido há alguns dias e de como o tal cara tinha sido importante para ajudá-lo a resolvê-la. O Alberto se empolgou e começou a contar daquela vez em que ele o salvara de um acidente que quase aconteceu no carnaval do ano passado. A Lídia então contou que ele tinha sido muito gentil com ela quando passou um perrengue danado com a sua mãe. O Chico exaltou a importância de seus conselhos quando estava a ponto de abandonar sua noiva por um motivo besta. E cada um começou a elogiá-lo por um motivo diferente. Aquele cara parecia ser perfeito demais e isso incomodava Jack, apesar de que, estranhamente, percebeu que se empolgava ao ouvir tais histórias.

        Quando Jack voltou da viagem, contou à Fernanda sobre aquele cara e sobre todas as histórias que ouvira a respeito dele. Ao mesmo tempo em que contava, Jack tentava se convencer de que aquilo não significara nada, mas foi ao notar certo ciúme na reação de Fernanda que percebeu, com grande assombro, um sentimento estranho brotando em seu coração. E, ao dizer isto, vocês devem pensar em algo imenso e totalmente improvável.

        Jack começou a se martirizar por nutrir um sentimento meio que de amor por este cara. Jack nem o conhecia pessoalmente, como ele poderia assaltar seu coração dessa forma? O que significava isso? Jack gostava de mulher e esse novo “amor” ia contra tudo o que Jack acreditava!

        O que as pessoas pensariam? Jack repudiava esse tipo de gente desde sempre. Mais do que repudiava, sentia nojo delas. Tentava se convencer de que aquilo não estava acontecendo. De que não sentia nada por aquele cara, mas era inútil. Quanto mais se esforçava por repudiar aquele sentimento bizarro, mais percebia que sua vontade era de conhecê-lo e, pasmem, de tê-lo só para si.

        Mais alguns dias se passaram e Jack continuava sem saber o que fazer. Será que deveria procurá-lo? Será que deveria se apresentar e contar tudo o que sentia? E o medo da rejeição? Será que ele seria tão amável e compreensivo como fora com seus amigos? Será que ele iria aceitar um relacionamento desses? Afinal, Jack sabia que, se quisesse tê-lo, teria que abandonar não somente Fernanda, mas trocar radicalmente sua orientação sexual. O que seus amigos diriam? O que Fernanda diria?

        Fernanda logo percebeu que Jack estava em crise e tinha certeza de que o motivo era aquele cara. As brigas começaram a ser frequentes, até que Fernanda deu um ultimato:

        — Jack, se você for atrás dele, eu vou te abandonar. Eu não acredito que estou passando por isto! Se você seguir com essa ideia ridícula, nunca mais olhe na minha cara!

        Finalmente, Jack resolveu meio que se abrir com alguém. Ok, mais ou menos. Chamou Pedro e Chico para uma pizza em sua casa e, como quem não quer nada, apenas mencionou o nome daquele que trouxera tanta turbulência a sua vida. Os dois, muito surpresos por justamente Jack tê-lo mencionado, começaram a contar mais sobre o tal cara, até que Chico fez um convite que fez Jack tremer:

        — Depois de amanhã, à noite, nós vamos à casa dele. Quer ir com a gente?

        O coração de Jack disparou. A vida toda passou em sua mente em segundos, e a única coisa que conseguiu responder foi que iria pensar a respeito.

        Pedro e Chico foram embora de sua casa depois da uma da manhã, mas quem disse que Jack conseguiu dormir naquela noite? Passou a noite em claro, desenhando na mente todas as hipóteses do que significaria tudo aquilo. Pensou em todos os cenários que viveria se seguisse adiante com essa ideia louca. Será que ainda seria capaz de ignorar todo aquele novo sentimento e seguir a vida normalmente? Será que conseguiria arcar com as consequências de mudar tanto assim o seu estilo de vida? Será que aguentaria perder a Fernanda, que tanto amava? Será que conseguiria mudar sua orientação sexual?

        Enfim, Jack decidiu que era hora de agir. Criou coragem, sabe-se lá de onde, para se abrir com a Fernanda. Ela chorou por horas e, finalmente, cumpriu sua promessa de

        fim de relacionamento. Jack chorou quando viu Fernanda pela última vez, mas seguiu adiante com seus planos.

        Finalmente, chegou a fatídica noite. Pela primeira vez na vida, Jack se preocupou com a roupa e o perfume que usaria. Apesar de todas as mudanças de vida que esta decisão implicava para si, a sua maior preocupação era como esse cara reagiria a tudo isso. Será que ele compreenderia o sacrifício que Jack estava fazendo ou ganharia como resposta o seu repúdio? Será que ele retribuiria esta ação com amor, compreensão, indiferença ou nojo?

        Quando Jack chegou à casa dele, percebeu que tinha muita gente lá. Muito mais gente do que esperava; mas, apesar do medo, seguiu adiante e entrou. Uma vez lá dentro, sentou-se e ficou em silêncio. Enquanto as outras pessoas pareciam muito confortáveis, Jack travava uma batalha velada em seu interior. Até que foi inevitável ficar em silêncio. O anfitrião percebeu sua presença ali e, com um grande sorriso no rosto, perguntou:

        — Olá. Qual o seu nome?

        Com as pernas tremendo, se levantou e respondeu com a voz mais meiga que lhe era possível:

        — Jaqueline, mas todo mundo sempre me chama de Jack.

        — Seja muito bem-vinda à casa do Senhor Jesus Cristo.
        E este foi o início de um verdadeiro e eterno relacionamento.

         

        _________________________

        Texto “O Grande Dilema de Jack”: Thiago Monteiro (TAM)

        Gravação, edição e masterização do áudio: Chico Gabriel
        Artes gráficas: Daniel Sas (portfólio)

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        15 min
      • #NB62 – Estante: Crer é Também Pensar

        Fala discípulo! Pedro, Thiago e Matheus, diretamente do Mar da Galileia, se reúnem No Barquinho com os tripulantes Alexfábio Custódio e Jaqueline Lima para discutir o livro de John Stott: Crer é Também Pensar. Escute, leia e discuta conosco os temas tratados neste livro; dê sua nota e comente o que achou nos comentários logo abaixo!

        Duração: 1h13min

        Vitrine por Daniel Sas. Acesse o portfolio do nosso vitrinista!

        Links comentados no episódio:

        • Conheça o podcast À Deriva!
        • Para comprar o livro: Crer é Também Pensar – Ed. Ultimato
        • Links comentados nas epístolas:

          • Participação da Jaqueline no GraçaCast #40 – Papo de Mulherzinha e no MassaCrente #40 – Propagandas
          • Participação do Pedro no GraçaCast #41 – Papo de Macho
          • Filme Momentos Roubados, do discípulo Ribamar Nascimento, disponível na íntegra no YouTube!
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            1 hr 14 min
          • #NB61 – Apocalipse para leigos

            Fala discípulo! Pedro, Thiago e Matheus, diretamente do Mar da Galileia, se reúnem No Barquinho, e dessa vez recebem o parceiro Maurício Machado (#BTCast), que é especialista em Apocalipse para tratar desse assunto tão controverso e esclarecer didaticamente as diversas linhas escatológicas e suas diferentes convicções sobre o apocalipse.

            Duração: 1h e 38min

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            Links comentados no episódio:

            • Amilenismo.com
            • Ouça o #BTCast 34 – O Milênio
            • Série Plenitude dos tempos
            • Mosaico Teológico
            • Links comentados nas epístolas:

              • Participação do Thiago no OsCabraCast #001 – Justiceiros
              • Participação do Matheus no Podcast 2 em 1 – Meu querido trabalho
              • Blog Prosa de Crente
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                1 hr 38 min
              • À Deriva #05 – O Triste Fim

                O desejo de comer a fruta era quase insuportável. Ele sabia que não devia: era expressamente proibido.

                — Mas, é bravo, né? — pensava ele — Que fruta mais deliciosa! E todo mundo come. Normal. Sem um pingo de consciência.
                André deu alguns passos em direção à ala de frutas e verduras do supermercado, ainda refletindo sobre aquela fruta bonita e atraente.
                — Que motivo Deus tem para me negá-la? É uma coisa tão natural e o desejo vem dentro de mim, do meu íntimo. Parece até que Deus tem prazer em me atormentar. Afinal das contas, foi Ele quem me deu a necessidade de comer e um desejo forte por frutas suculentas.
                Sem perceber o que fazia, André se viu novamente de frente da banca com a fruta proibida. Toda célula do seu corpo tremia de vontade por ela.
                — Uma vezinha certamente não vai trazer conseqüências muito ruins. É tão comum! Antigamente as pessoas levavam isso a sério. Hoje ninguém nem liga. Até vendem abertamente no supermercado!
                Ele hesitou um pouco mais…
                — Depois de ver como é, aí eu me arrependo e paro. É uma vez mesmo! Deus é misericordioso. Ele vai entender e me perdoar.
                Não podendo mais se conter, André primeiro olhou de um lado para outro e depois pegou uma fruta e pôs no carrinho, tendo o cuidado de colocar outra mercadoria em cima para ninguém ver.
                A caminho do caixa e depois do carro, sua imaginação correu solta: como seria gostosa! Ele podia sentir o cheiro doce e imaginar o suco escorrendo pelos cantos da sua boca e melecando suas mãos. Parece que metade do prazer da coisa estava na antecipação.
                Uma vez no carro, ele se dirigiu a um lugar isolado, longe de olhos curiosos. Aí abriu a sacola e pegou a fruta. Por um longo minuto, ele segurou-a nas suas mãos, sentindo seu peso e sua textura suave e agradável, como se fosse feita de cera. Sua consciência ainda relutou, valente. Mas, depois de alguns instantes ela perdeu a batalha e se calou. Então, ele comeu…
                — Ahhhh! Que delííííííciaaa!!! É melhor ainda que pensei. Nunca imaginei que pudesse ser tão gostosa. Como Deus poderia proibir isto?
                André começou a ficar bravo. Alguns minutos mais tarde, porém, o sentimento era outro: uma profunda tristeza, quase um desespero pelo que tinha feito. Parecia que o céu havia fechado e ele estava prestes a ser esbofeteado por ventos, relâmpagos e trovões. Clamaria a Deus, mas temia ser insincero. Então voltou pra casa, deprimido. Só no outro dia conseguiu fazer uma confissão meio sem graça a Deus.
                Passaram-se alguns dias e André lutou bravamente contra a tentação de comer novamente. Quando ia ao supermercado, evitava a banca com a fruta, ou, quando não dava, passava rápido, sem olhar.
                Mas, lembranças do prazer daquele dia o atordoavam e não demorou muito até se ver mais uma vez diante daquela banca de frutas, travando nova batalha com sua consciência. Desta vez a batalha durou menos tempo e comprou logo a fruta. Depois que comeu, novamente sentiu aquele peso na consciência, mas sabia que a sua resistência estava diminuindo.
                E assim foi. Às vezes resistia mais, às vezes menos, mas sempre acabava comendo. Isto o levava a tempos de depressão, tempos que perdia a vontade de fazer qualquer coisa a não ser ficar em casa, no seu quarto. Outras vezes ele justificava o pecado e tentava servir a Deus mesmo assim. Mas,sabia que estava sendo hipócrita e, aos poucos, foi deixando seus ministérios na igreja.
                Uma vez ele até fez uma consulta no psicólogo. O psicólogo o convenceu que não devia sentir culpa ao comer. Então passou um tempo defendo a liberdade cristã para comer da fruta. Mas, seu ser já não agüentava mais de exaustão e sequidão interior.
                Outra coisa aconteceu despercebido: a fruta começou a perder o seu prazer. André tinha a sensação de uma grande êxtase, mas o fato é que estava lembrando da primeira vez, sempre na expectativa de sentir novamente o que sentiu aquela vez. Mas nunca sentia. Agora ele comia porque não conseguia ficar sem comer.
                Eventualmente seu pecado tomou conta de tudo: era o gasto mais alto de cada mês, o prazer que expulsava todos os outros prazeres e o fator que regia seu relacionamento com Deus. Ele se sentia seco, cansado, esgotado e vazio. Depois de muitos anos, ele simplesmente morreu.

                _________________________

                Texto “O Triste Fim de André Fortunato”: Mark Swedberg

                Gravação, edição e masterização do áudio: Chico Gabriel
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                8 min

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