NO TEMPO DE EU MENINO

NO TEMPO DE EU MENINO

By Odenildo SenaArtsBooks
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NO TEMPO DE EU MENINO episodes

  • Paixão & cinema
    O cinema foi minha paixão e minha vida por tantos anos! Dividia isso apenas com o dever de ofício, marcado de perto por dona Maria do Carmo, de frequentar as aulas do ginásio no Marquês de Santa Cruz, em São Raimundo. Mas o cinema levava sempre vantagem, o que certamente explica o meu desempenho mediano nas matemáticas e geografias da vida. Fazia qualquer negócio para não me privar daquele fascinante mundo, sem fronteiras entre a ficção e a vida.
    5 min
  • O porteiro dos nossos sonhos
    Dividia seu tempo entre duas atividades incomuns. Durante o dia e até o final da última sessão, que começava às 8 da noite, era porteiro do cine Ideal. Depois, atravessava a rua e montava seu quiosque na lateral esquerda da praça. A partir de então, boêmios, notívagos e dançarinos, amantes dos deslizantes salões do Sul América, já podiam amenizar a fome deliciando-se com o famoso cachorro-quente do Davi Alcides.
    5 min
  • Na fila do cinema
    Lembro-me de que dávamos sempre preferência a casais enamorados. Explorávamos, com a malícia de bons lobistas, a vaidade e o machismo dos nossos clientes que, diante da mulher amada, não queriam fazer feio, muito menos entrar em fila. Sacavam a carteira do bolso, tufavam o peito e diziam com uma ponta de orgulho e disfarçada naturalidade: “Dois ingressos. Pode ficar com o troco”. Era tudo o que queríamos.
    5 min
  • Frases de Mãe
    Ao lado das lições diárias na Cartilha do ABC, gosto mesmo é de voltar ao passado e reviver a facilidade de minha mãe para criar frases de efeito. Algumas delas nada me diziam, outras eu levava dias para entender; outras, ainda, só ao longo do tempo e da vida eu fui decodificando. Cada uma de suas frases tinha um endereço certo e revelava o seu estado de espírito diante das mais variadas circunstâncias.
    5 min
  • Meu cinema Paradiso
    Sempre que me perguntam qual o filme de minha vida, respondo na bucha: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Durante anos, da meninice à adolescência, grande parte de meu tempo foi vivida naquele mundo mágico chamado cine Ideal. Ficava em São Raimundo, onde me criei.
    5 min
  • Os ônibus de minha meninice
    Já os ônibus de minha meninice eram bem diferentes. Cada um era único e tinha características que nos permitiam identificá-lo a distância. Tanto que nos dávamos o direito de pacientemente aguardar não um, mas o ônibus, aquele com o qual, por circunstâncias várias, tínhamos construído laços de afeição e carinho. E não estou falando do motorista, que, por sua empatia, também ajudava a despertar essa preferência, mas do veículo mesmo! Verdadeiramente os ônibus de minha meninice tinham alma, caráter, personalidade. Tinham nome! Nome próprio em letras coloridas desenhadas nas laterais. E eram tratados como entes queridos.
    10 min
  • No tempo das boiadas
    Impossível conter nossa alegria e admiração, quando vislumbrávamos, ao longe, a silhueta do nosso herói cavalgando elegantemente em direção ao barco, ancorado a alguns metros da praia e pronto para liberar sua carga e nossa emoção. Montado em seu vistoso cavalo de crinas salientes e todo paramentado, o bom vaqueiro farejava, de longe, o seu grupo de pequenos fãs. Tufava o peito e forçava as esporas na barriga do animal, que passava a cavalgar em ritmo sincronizado de bailado. Depois, erguia com vaidade a cabeça e exibia o chapéu de cor marrom, o que atiçava ainda mais a nossa vibração. Todo esse charme era completado pelo rolo de corda diligentemente arrumado e pendurado no lado direito da sela. Ficávamos todos de olho naquele precioso instrumento de trabalho. O desejo silencioso era haver um forte motivo para ser usado, diante da eventual teimosia de algum garrote rebelde que se desgarrasse e se recusasse a seguir fielmente o resto da boiada. Aquilo sempre fazia lembrar os caubóis de nossa convivência todas as tardes de domingo no cine Ideal.
    5 min
  • Teoria de Lavoisier
    Uma coisa chama outra. Dias desses estava eu lembrando os tempos em que a natureza tinha um papel auxiliar decisivo como provedora de nossa alimentação. As casas tinham quintais imensos, sempre repletos de árvores frutíferas; as cercas a separar os terrenos eram raras e nos permitiam trânsito livre por aquela abundância que a natureza colocava ao nosso dispor. Diria, portanto, que não eram tempos de miséria, pois de fome não se morria, mas de uma fartura diferente que, para os limites do pequeno mundo por nós habitado, nos contentava e nos fazia felizes. Outros mundos, com outros modos de vida e outros hábitos, conhecíamos das telas do cinema Ideal, mas eram sonhos, apenas sonhos tão distantes, que se apagavam ao acenderem as luzes no final de cada sessão.
    6 min
  • Os cinemas de minha meninice
    Não gosto dos cinemas de hoje. São extremamente impessoais. Ficam escondidos e acanhados no interior desses templos de consumo chamados shoppings. São divididos em diferentes salas cuja identificação se resume unicamente a um número frio. “Sala 1”, “sala 6” e por aí vai. Há sempre a preocupação de homogeneizar esses espaços. Pouco ou nada têm de diferentes entre si. A distinção se dá muito mais pelo título do filme em exibição. Decididamente, não gosto dos cinemas de hoje. Eles são destituídos de cara, de personalidade, de características próprias.
    6 min
  • Escambo
    Zorro, Mandrake, Superman, Batman e tantos outros heróis circulavam de mãos em mãos e de casa em casa a cada semana. E assim aquelas fantásticas viagens de leitura e de aventuras estonteantes iam, aos poucos, forjando em todos nós uma compreensão de mundo e de justiça. Só mais tarde, bem mais tarde, descobrimos serem apenas belas e inesquecíveis fantasias da infância.
    6 min

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