NO TEMPO DE EU MENINO

NO TEMPO DE EU MENINO

By Odenildo SenaArtsBooks
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NO TEMPO DE EU MENINO episodes

  • Meu conto de Natal
    A princípio longe, o som marcado por uma doce melodia foi-se aproximando e se misturando àquele estado em que a embriaguez do sono é tão envolvente quanto a ansiedade de acordar. Num lampejo de lucidez, lembrei-me da razão das inquietações daquele dia e daquela longa noite, dei um salto para a beira da rede, segui a direção da cativante melodia e, tomado por um súbito encantamento, pude visualizar um objeto cônico a refletir o multicolorido de um arco-íris. Contagiado pela alegria, desci da fianga, deitei-me no chão e pude curtir sem pressa o giro sereno daquele mágico pião. Era o meu presente do bondoso velhinho.
    5 min
  • Os sem-cacimba
    Só depois de muitos anos, já adolescente, me dei conta. A pobreza não nos permitira ser proprietários nem mesmo de uma cacimba. Nem das mais simples. Sim, porque aqueles empreendimentos eram reveladores não só de flagrantes diferenças de classe social como também de famílias que, como se dizia antigamente, eram remediadas. Os vizinhos da esquerda, por exemplo, se enquadravam nessa categoria. Além de uma cacimba de alto padrão, mantinham como patrimônio, em uma das três janelas da casa, um quiosque onde vendiam frutas, verduras e, sobretudo, bananas das mais diversas espécies e apetitosas. Na minha avaliação de menino, comparativamente à condição em que vivíamos em casa, aqueles vizinhos ostentavam um padrão de vida bem superior. Hoje, já tão distante daquele tempo, revivo na memória o quanto me incomodava, o quanto achava uma ostentação e uma abusiva extravagância do meu colega de escola, filho do proprietário daquele pequeno império, escolher, dentre as tantas palmas expostas à venda, uma banana, descascá-la com enorme lentidão, num ritual que parecia me envolver como espectador, morder um pedaço de sua extremidade e cuspi-lo longe, num gesto de soberba. Fosse eu ou um de meus irmãos, só deixaríamos escapar a casca daquela preciosidade! No fundo, esse desejo se misturava a uma inveja danada daquele vizinho rico. (...)
    6 min
  • Uma Santa Casa
    De nossa parte, havia uma razão especial para nos alegrarmos sempre que ouvíamos o barulho de Mãe limpando os sapatos no batente da porta. Além da bolsa de napa, trazia consigo uma sacola que servia de mote para nos sentarmos em um dos bancos em redor da velha mesa de madeira. Da sacola, retirava duas dessas latas pequenas de leite Ninho e abria a tampa de cada uma com auxílio do cabo de uma colher. Pronto. Os pratos azuis de esmalte faziam a festa. A comida excedente dos enfermos, mesmo esbranquiçada e sem um pingo de sal, ganhava acentuado sabor com nosso apetite. E a nossa, naqueles instantes, era uma Santa Casa. Só Mãe, mesmo.
    7 min
  • Coisas de Mãe
    Éramos fãs incondicionais daquela criatividade de Mãe. E esse sentimento não se limitava apenas aos frangotes. Os mais taludinhos e até os já marmanjos, quase donos de suas ventas, como ela bem dizia, não hesitavam em rodeá-la naqueles encontros diários que aconteciam como extensão do horário do almoço, quando nos dávamos conta de que os surrados pratos de esmalte, nas cores branca e azul-anil, já estavam vazios e praticamente lavados pelo cuidado de nada deixarmos sobrar. Afinal, pai já havia partido e deixado a viúva com oito rebentos em diferentes idades, quatro agregados, aluguel para pagar e um salário mínimo por mês, fortuna que mãe administrava como um gênio de causar inveja aos prêmios Nobel de economia. Era, portanto, atribuição exclusiva dela distribuir, com parcimônia e justiça salomônica, o que nos cabia em cada refeição.
    6 min

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