Nossa Poesia

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Nossa Poesia episodes

  • Tortura - Florbela Espanca

    Tortura de Florbela Espanca por Gus

    Tirar dentro do peito a Emoção,

    A lúcida Verdade, o Sentimento!

    E ser, depois de vir do coração,

    Um punhado de cinza esparso ao vento!...

    Sonhar um verso de alto pensamento,

    E puro como um ritmo de oração!

    E ser, depois de vir do coração,

    O pó, o nada, o sonho dum momento!...

    São assim ocos, rudes, os meus versos:

    Rimas perdidas, vendavais dispersos,

    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me dera encontrar o verso puro,

    O verso altivo e forte, estranho e duro,

    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • O cavaleiro pobre - Olavo Bilac

    O cavaleiro pobre de Olavo Bilac por Gus

    Ninguém soube quem era o Cavaleiro Pobre,

    Que viveu solitário, e morreu sem falar:

    Era simples e sóbrio, era valente e nobre,

    E pálido como o luar.

    Antes de se entregar às fadigas da guerra,

    Dizem que um dia viu qualquer cousa do céu:

    E achou tudo vazio... e pareceu-lhe a terra

    Um vasto e inútil mausoléu.

    Desde então, uma atroz devoradora chama

    Calcinou-lhe o desejo, e o reduziu a pó.

    E nunca mais o Pobre olhou uma só dama,

    Nem uma só! nem uma só!

    Conservou, desde então, a viseira abaixada:

    E, fiel à Visão, e ao seu amor fiel,

    Trazia uma inscrição de três letras, gravada

    A fogo e sangue no broquel.

    Foi aos prélios da Fé. Na Palestina, quando,

    No ardor do seu guerreiro e piedoso mister,

    Cada filho da Cruz se batia, invocando

    Um nome caro de mulher,

    Ela rouco, brandindo o pique no ar, clamava:

    “Lumen coeli Regina!” e, ao clamor dessa voz,

    Nas hostes dos incréus como uma tromba entrava,

    Irresistível e feroz.

    Mil vezes sem morrer viu a morte de perto,

    E negou-lhe o destino outra vida melhor:

    Foi viver no deserto... E era imenso o deserto!

    Mas o seu Sonho era maior!

    E um dia, a se estorcer, aos saltos, desgrenhado,

    Louco, velho, feroz, - naquela solidão

    Morreu: - mudo, rilhando os dentes, devorado

    Pelo seu próprio coração.

    Ida

    Para a porta do céu, pálida e bela,

    Ida as asas levanta e as nuvens corta.

    Correm os anjos: e a criança morta

    Foge dos anjos namorados dela.

    Longe do amor materno o céu que importa?

    O pranto os olhos límpidos lhe estrela...

    Sob as rosas de neve da capela,

    Ida soluça, vendo abrir-se a porta.

    Quem lhe dera outra vez o escuro canto

    Da escura terra, onde, a sangrar, sozinho,

    Um coração de mão desfaz-se em pranto!

    Cerra-se a porta: os anjos todos voam...

    Como fica distante aquele ninho,

    Que as mães adoram... mas amaldiçoam!

    Edição por Felipe Xavier

    3 min
  • Lágrimas ocultas - Florbela Espanca

    Lágrimas ocultas de Florbela Espanca por Gus

    Se me ponho a cismar em outras eras

    Em que ri e cantei, em que era querida,

    Parece-me que foi noutras esferas,

    Parece-me que foi numa outra vida...

    E a minha triste boca dolorida,

    Que dantes tinha o rir das Primaveras,

    Esbate as linhas graves e severas

    E cai num abandono de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago...

    Toma a brandura plácida dum lago

    O meu rosto de monja de marfim...

    E as lágrimas que choro, branca e calma,

    Ninguém as vê brotar dentro da alma!

    Ninguém as vê cair dentro de mim!

    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Adamah - Francisca Júlia

    Adamah de Francisca Júlia por Gus

    Homem, sábio produto, epítome fecundo

    Do supremo saber, forma recém-nascida,

    Pelos mandos do céu, divinos, impelida,

    Para povoar a terra e dominar o mundo;

    Homem, filho de Deus, imagem foragida,

    Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,

    Da terrena substância, em que nasceu, oriundo,

    Para ser o primeiro a conhecer a vida;

    Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada

    Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas

    De pássaros saudando a primeira alvorada,

    Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas

    O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada

    No primeiro silêncio e nas primeiras trevas...

    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Página Vazia - Euclides da Cunha

    Página Vazia de Euclides da Cunha por Gilles


    Quem volta da região assustadora
    De onde eu venho, revendo, inda na mente,
    Muitas cenas do drama comovente
    De guerra despiedada e aterradora.

    Certo não pode ter uma sonora
    Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
    Que possa figurar dignamente
    Em vosso álbum gentil, minha senhora.

    E quando, com fidalga gentileza
    Cedestes-me esta página, a nobreza
    De nossa alma iludiu-vos, não previstes

    Que quem mais tarde, nesta folha lesse
    Perguntaria: "Que autor é esse
    De uns versos tão mal feitos e tão tristes?"


    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Sagres - Olavo Bilac

    Sagres de Olavo Bilac Por Gus


    "Acreditavam os antigos celtas,

    do Guadiana espalhados até

    a costa, que, no templo circular

    do Promontório Sacro, se reuniam

    à noite os deuses, em misteriosas

    conversas com esse mar cheio

    de enganos e tentações."

    OL. MARTINS. - Hist. de Portugal.

    Em Sagres. Ao tufão, que se desencadeia,

    A água negra, em cachões, se precipita, a uivar;

    Retorcem-se gemendo os zimbros sobre a areia.

    E, impassível, opondo ao mar o vulto enorme,

    Sob as trevas do céu, pelas trevas do mar,

    Berço de um mundo novo, o promontório dorme.

    Só, na trágica noite e no sítio medonho,

    Inquieto como o mar sentindo o coração,

    Mais largo do que o mar sentindo o próprio sonho,

    Só, aferrando os pés sobre um penhasco a pique,

    Sorvendo a ventania e espiando a escuridão,

    Queda, como um fantasma, o Infante Dom Henrique...

    Casto, fugindo o amor, atravessa a existência

    Imune de paixões, sem um grito sequer

    Na carne adormecida em plena adolescência;

    E nunca aproximou da face envelhecida

    O nectário da flor, a boca da mulher,

    Nada do que perfuma o deserto da vida.

    Forte, em Ceuta, ao clamor dos pífanos de guerra,

    Entre as mesnadas (quando a matança sem dó

    Dizimava a moirama e estremecia a terra),

    Viram-no levantar, imortal e brilhante,

    Entre os raios do sol, entre as nuvens do pó,

    A alma de Portugal no aceiro do montante.

    Em Tanger, na jornada atroz do desbarato,

    Duro, ensopando os pés em sangue português,

    Empedrado na teima e no orgulho insensato,

    Calmo, na confusão do horrendo desenlace,

    Vira partir o irmão para as prisões de Fez,

    Sem um tremor na voz, sem um tremor na face.

    É que o Sonho lhe traz dentro de um pensamento

    A alma toda cativa. A alma de um sonhador

    Guarda em si mesma a terra, o mar, o firmamento,

    E, cerrada de todo à inspiração de fora,

    Vive como um vulcão, cujo fogo interior

    A si mesmo imortal se nutre e se devora.

    "Terras da Fantasia! Ilhas Afortunadas,

    Virgens, sob a meiguice e a limpidez do céu,

    Como ninfas, à flor das águas remansadas!

    Pondo o rumo das naus contra a noite horrorosa

    Quem sondara esse abismo e rompera esse véu,

    Ó sonho de Platão, Atlântida formosa!

    Mar tenebroso! aqui recebes, porventura,

    A síncope da vida, a agonia da luz?.

    Começa o Caos aqui, na orla da praia escura?

    E a mortalha do mundo a bruma que te veste?

    Mas não! por trás da bruma, erguendo ao sol a Cruz,

    Vós sorrides ao sol, Terras Cristãs do Preste!

    Promontório Sagrado! Aos teus pés, amoroso,

    Chora o monstro... Aos teus pés, todo o grande poder,

    Toda a força se esvai do oceano Tenebroso...

    Que ansiedade lhe agita os flancos? Que segredo,

    Que palavras confia essa boca, a gemer,

    Entre beijos de espuma, à algidez do rochedo?

    Que montanhas mordeu, no seu furor sagrado?

    Que rios, através de selvas e areais,

    Vieram nele encontrar um túmulo ignorado?

    De onde vem ele? ao sol de que remotas plagas

    Borbulhou e dormiu? que cidades reais

    Embalou no regaço azul de suas vagas?

    Se tudo é morte além, - em que deserto horrendo,

    Em que ninho de treva os astros vão dormir?

    Em que solidão o sol sepulta-se, morrendo?

    Se tudo é morte além, por que, a sofrer sem calma,

    Erguendo os braços no ar, havemos de sentir

    Estas aspirações, como asas dentro da alma?"

    ...

    Link para todo o poema: https://poesia.fandom.com/pt/wiki/Sagres


    Edição por Felipe Xavier



    10 min
  • Tirana - Castro Alves

    Tirana de Castro Alves por Mell

    "MINHA MARIA é bonita,

    Tão bonita assim não há;

    O beija-flor quando passa

    Julga ver o manacá.

    "Minha Maria é morena,

    Corno as tardes de verão;

    Tem as tranças da palmeira

    Quando sopra a viração.

    "Companheiros! o meu peito

    Era um ninho sem senhor;

    Hoje tem um passarinho

    P'ra cantar o seu amor.

    "Trovadores da floresta!

    Não digam a ninguém, não!...

    Que Maria é a baunilha

    Que me prende o coração.

    "Quando eu morrer só me enterrem

    Junto às palmeiras do val,

    Para eu pensar que é Maria

    Que geme no taquaral . . ."

    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Vendaval - Fernando Pessoa

    Vendaval de Fernando Pessoa Declamado por Gus

    Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,

    Não achas, soprando por tanta solidão,

    Deserto, penhasco, coval mais vazio

    Que o meu coração!

    Indómita praia, que a raiva do oceano

    Faz louco lugar, caverna sem fim,

    Não são tão deixados do alegre e do humano

    Como a alma que há em mim!

    Mas dura planície, praia atra em fereza,

    Só têm a tristeza que a gente lhes vê;

    E nisto que em mim é vácuo e tristeza

    É o visto o que vê.

    Ah, mágoa de ter consciência da vida!

    Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,

    Que rasgas os robles – teu pulso divida

    Minh'alma do mundo!

    Ah, se, como levas as folhas e a areia,

    A alma que tenho pudesses levar –

    Fosse pr'onde fosse, pra longe da ideia

    De eu ter que pensar!

    Abismo da noite, da chuva, do vento,

    Mar torvo do caos que parece volver –

    Porque é que não entras no meu pensamento

    Para ele morrer?

    Horror de ser sempre com vida a consciência!

    Horror de sentir a alma sempre a pensar!

    Arranca-me, ó vento; do chão da existência,

    De ser um lugar!

    E, pela alta noite que fazes mais escura,

    Pelo caos furioso que crias no mundo,

    Dissolve em areia esta minha amargura,

    Meu tédio profundo.

    E contra as vidraças dos que há que têm lares,

    Telhados daqueles que têm razão,

    Atira, já pária desfeito dos ares,

    O meu coração!

    Meu coração triste, meu coração ermo,

    Tornado a substância dispersa e negada

    Do vento sem forma, da noite sem termo,

    Do abismo e do nada!

    Edição por Felipe Xavier

    3 min
  • Na margem - Castro Alves

    Na margem de Castro Alves por Mell

    "VAMOS! VAMOS! Aqui por entre os juncos

    Ei-la a canoa em que eu pequena outrora

    Voava nas maretas... Quando o vento,

    Abrindo o peito à camisinha úmida,

    Pela testa enrolava-me os cabelos,

    Ela voava qual marreca brava

    No dorso crespo da feral enchente!

    Voga, minha canoa! Voga ao largo!

    Deixa a praia, onde a vaga morde os juncos

    Como na mata os caititus bravios...

    Filha das ondas! andorinha arisca!

    Tu, que outrora levavas minha infância

    — Pulando alegre no espumante dorso

    Dos cães-marinhos a morder-te a proa, —

    Leva-me agora a mocidade triste

    Pelos ermos do rio ao longe... ao longe..."

    Assim dizia a Escrava...

    Iam caindo

    Dos dedos do crepúsc'lo os véus de sombra,

    Com que a terra se vela como noiva

    Para o doce himeneu das noites límpidas ...

    Lá no meio do rio, que cintila,

    Como o dorso de enorme crocodilo,

    Já manso e manso escoa-se a canoa.

    Parecia, assim vista ao sol poente,

    Esses ninhos, que tombam sobre o rio,

    E onde em meio das flores vão chilrando

    — Alegres sobre o abismo — os passarinhos!...

    Tu — guardas algum segredo?...

    Maria, stás a chorar!

    Onde vais? Por que assim foges,

    Rio abaixo a deslizar?

    Pedra — não tens o teu musgo?

    Não tens um favônio — flor?

    Estrela — não tens um lago?

    Mulher — não tens um amor?

    Edição por Felipe Xavier

    3 min
  • O cego e a guitarra - Fernando Pessoa

    O cego e a guitarra de Fernando Pessoa por Gus

    O ruído vário da rua

    Passa alto por mim que sigo.

    Vejo: cada coisa é sua

    Oiço: cada som é consigo.

    Sou como a praia a que invade

    Um mar que torna a descer.

    Ah, nisto tudo a verdade

    É só eu ter que morrer.

    Depois de eu cessar, o ruído.

    Não, não ajusto nada

    Ao meu conceito perdido

    Como uma flor na estrada.

    Cheguei à janela

    Porque ouvi cantar.

    É um cego e a guitarra

    Que estão a chorar.

    Ambos fazem pena,

    São uma coisa só

    Que anda pelo mundo

    A fazer ter dó.

    Eu também sou um cego

    Cantando na estrada,

    A estrada é maior

    E não peço nada.

    Edição por Felipe Xavier

    2 min

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