Nossa Poesia

Nossa Poesia

By PoesiasArtsBooks
Download on the App Store

Nossa Poesia episodes

  • Os Versos Que Te Fiz - Florbela Espanca

    Os Versos Que Te Fiz de Florbela Espanca por Mell

    Deixa dizer-te os lindos versos raros

    Que a minha boca tem pra te dizer!

    São talhados em mármore de Paros

    Cinzelados por mim pra te oferecer.

    Têm dolências de veludos caros,

    São como sedas brancas a arder...

    Deixa dizer-te os lindos versos raros

    Que foram feitos pra te endoidecer!

    Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...

    Que a boca da mulher é sempre linda

    Se dentro guarda um verso que não diz!

    Amo-te tanto! E nunca te beijei…

    E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei

    Guardo os versos mais lindos que te fiz!

    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Inania verba - Olavo Bilac

    Inania verba de Olavo Bilac por Gus

    Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,

    O que a boca não diz, o que a mão não escreve?

    Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,

    Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

    O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:

    A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...

    E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,

    Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

    Quem o molde achará para a expressão de tudo?

    Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas

    Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

    E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?

    E as palavras de fé que nunca foram ditas?

    E as confissões de amor que morrem na garganta?!

    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Em uma tarde de outono - Olavo Bilac

    Em uma tarde de outono de Olavo Bilac por Mell


    Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas

    Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.

    Outono... Rodopiando, as folhas amarelas

    Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

    Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,

    Visitaste este mar inabitado e morto,

    Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,

    Se logo, ao ir da luz, abandonaste o porto?

    A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos

    A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...

    Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

    E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,

    E contemplo o lugar por onde te sumiste,

    Banhado no clarão nascente do arrebol...

    Edição por Felipe Xavier.

    2 min
  • Ao Luar - Augusto dos Anjos

    Ao Luar de Augusto dos Anjos por Gilles

    Quando, à noite, o Infinito se levanta

    À luz do luar, pelos caminhos quedos

    Minha tátil intensidade é tanta

    Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

    Quebro a custódia dos sentidos tredos

    E a minha mão, dona, por fim, de quanta

    Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,

    Todas as coisas íntimas suplanta!

    Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado

    Nos paroxismos da hiperestesia,

    O Infinitésimo e o Indeterminado...

    Transponho ousadamente o átomo rude

    E, transmudado em rutilância fria,

    Encho o Espaço com a minha plenitude!

    Edição por Felipe Xavier.

    2 min
  • O Oitavo Pecado - Olavo Bilac

    O Oitavo Pecado de Olavo Bilac por Gilles

    Vivendo para a morte, alegre da tristeza,

    Temendo o fogo eterno e a danação sulfúrea,

    Gelaste no cilício, em ascética fúria,

    A alma ridente, o sangue em esto, a carne acesa.

    Foste mártir e herói da própria natureza.

    Intacto de ambição, de desejo ou de injúria,

    Para ganhar o céu, venceste a ira, a luxúria,

    A gula, a inveja, o orgulho, a preguiça e a avareza.

    Mas não amaste! E, além do Inferno, um outro existe,

    Onde é mais alto o choro e o horror dos renegados:

    Ali, penando, tu, que o amor nunca sentiste,

    Pagarás sem amor os dias dissipados!

    Esqueceste o pecado oitavo: e era o mais triste,

    Mortal, entre os mortais, de todos os pecados!


    Edição por Felipe Xavier

    2 min
  • Natal de Auta de Sousa

    NATAL de Auta de Sousa declamado por Gus


    É meia noite … O sino alvissareiro,

    Lá da igrejinha branca pendurado,

    Como num sonho místico e fagueiro,

    Vem relembrar o tempo do passado.

    —-

    Ó velho sino, ó bronze abençoado,

    Na alegria e na mágoa companheiro!

    Tu me recordas o sorrir primeiro

    De menino Jesus imaculado.

    —–

    E enquanto escuto a tua voz dolente,

    Meu ser que geme dolorosamente

    Da desventura, aos gélidos açoites …

    —-

    Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!

    Sino que lembras uma noite santa,

    Noite bendita mais que as outras noites!


    Foto de Olya Kobruseva no Pexels

    2 min
  • A Lagartixa de Álvares de Azevedo

    A Lagartixa de Álvares de Azevedo declamado por Gilles

    A lagartixa ao sol ardente vive

    E fazendo verão o corpo espicha:

    O clarão de teus olhos me dá vida,

    Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

    Amo-te como o vinho e como o sono,

    Tu és meu copo e amoroso leito...

    Mas teu néctar de amor jamais se esgota,

    Travesseiro não há como teu peito.

    Posso agora viver: para coroas

    Não preciso no prado colher flores;

    Engrinaldo melhor a minha fronte

    Nas rosas mais gentis de teus amores.

    Vale todo um harém a minha bela,

    Em fazer-me ditoso ela capricha;

    Vivo ao sol de seus olhos namorados,

    Como ao sol de verão a lagartixa.


    Photo by Min An from Pexels

    2 min
  • Para quê?! de Florbela Espanca

    Para quê?! de Florbela Espanca declamado por Gilles

    Tudo é vaidade neste mundo vão...

    Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!

    E mal desponta em nós a madrugada,

    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amor nos mente, essa canção

    Que o nosso peito ri à gargalhada,

    Flor que é nascida e logo desfolhada,

    Pétalas que se pisam pelo chão!...

    Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!

    Sonhos que logo são realidades,

    Que nos deixam a alma como morta!

    Só neles acredita quem é louca!

    Beijos de amor que vão de boca em boca,

    Como pobres que vão de porta em porta!...

    Foto de Magda Ehlers no Pexels

    2 min
  • Não sei quantas almas tenho de Fernando Pessoa

    Não sei quantas almas tenho de Fernando Pessoa declamado por Mell


    Não sei quantas almas tenho.

    Cada momento mudei.

    Continuamente me estranho.

    Nunca me vi nem acabei.

    De tanto ser, só tenho alma.

    Quem tem alma não tem calma.

    Quem vê é só o que vê,

    Quem sente não é quem é,

    Atento ao que sou e vejo,

    Torno-me eles e não eu.

    Cada meu sonho ou desejo

    É do que nasce e não meu.

    Sou minha própria paisagem;

    Assisto à minha passagem,

    Diverso, móbil e só,

    Não sei sentir-me onde estou.

    Por isso, alheio, vou lendo

    Como páginas, meu ser.

    O que segue não prevendo,

    O que passou a esquecer.

    Noto à margem do que li

    O que julguei que senti.

    Releio e digo: “Fui eu?”

    Deus sabe, porque o escreveu.

    2 min
  • Primavera de Olavo Bilac

    Primavera de Olavo Bilac declamado por Mell


    Ah! quem nos dera que isto, como outrora,

    Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera

    Que inda juntos pudéssemos agora

    Ver o desabrochar da primavera!

    Saíamos com os pássaros e a aurora.

    E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,

    Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:

    “Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

    E esse corpo de rosa recendia,

    E aos meus beijos de fogo palpitava,

    Alquebrado de amor e de cansaço...

    A alma da terra gorjeava e ria...

    Nascia a primavera... E eu te levava,

    Primavera de carne, pelo braço!

    2 min

About Nossa Poesia

From the publisher's feed

Nossa poesia é um podcast com o intuito de divulgar obras da poesia em domínio público.