Nossa Poesia

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Nossa Poesia episodes

  • Amor que morre de Florbela Espanca

    Amor que morre de Florbela Espanca Declamado por Mell


    O nosso amor morreu... Quem o diria!

    Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta.

    Ceguinha de te ver, sem ver a conta

    Do tempo que passava, que fugia!

    Bem estava a sentir que ele morria...

    E outro clarão, ao longe, já desponta!

    Um engano que morre... e logo aponta

    A luz doutra miragem fugidia...

    Eu bem sei, meu Amor, que pra viver

    São precisos amores, pra morrer

    E são precisos sonhos pra partir.

    Eu bem sei, meu Amor, que era preciso

    Fazer do amor que parte o claro riso

    Doutro amor impossível que há de vir!

    2 min
  • A Florista de Francisca Júlia

    A Florista - Francisca Júlia Declamado por Gus


    Suspensa ao braço a grávida corbelha,

    Segue a passo, tranqüila... O sol faísca...

    Os seus carmíneos lábios de mourisca

    Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

    Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha

    Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,

    O pó do chão, pertinho dela, cisca,

    Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

    Aos ouvidos lhe soa um rumor brando

    De folhas... Pouco a pouco, um leve sono

    Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

    Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...

    E assim descalça, mostra, em abandono,

    O vultinho de um pé macio e branco.

    2 min
  • Amor Algébrico - Euclides da Cunha

    Amor Algébrico

    de Euclides da Cunha

    Acabo de estudar – da ciência fria e vã,

    O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,

    Acabo de arrancar a fronte minha ardente

    Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

    Bem triste e bem cruel decerto foi o ente

    Que este Saara atroz – sem aura, sem manhã,

    A Álgebra criou – a mente, a alma mais sã

    Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

    Acabo de estudar e pálido, cansado,

    Dumas dez equações os véus hei arrancado,

    Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.

    É tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso,

    Ir dela descansar no seio venturoso

    E achar do seu olhar o luminoso X.



    Declamado por Gilles

    2 min
  • Aniversário de Fernando Pessoa

    Aniversário de Alvaro de Campos - Poema declamado por Mell


    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

    Eu era feliz e ninguém estava morto.

    Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

    E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

    Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

    De ser inteligente para entre a família,

    E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

    Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

    Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

    Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

    O que fui de coração e parentesco.

    O que fui de serões de meia-província,

    O que fui de amarem-me e eu ser menino,

    O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…

    A que distância!…

    (Nem o acho…)

    O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

    O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,

    Pondo grelado nas paredes…

    O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas

    lágrimas),

    O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

    É terem morrido todos,

    É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

    Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

    Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

    Por uma viagem metafísica e carnal,

    Com uma dualidade de eu para mim…

    Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

    4 min
  • Vencedor de Augusto dos Anjos

    Vencedor de Augusto dos Anjos

    Toma as espadas rútilas, guerreiro,

    E à rutilância das espadas, toma

    A adaga de aço, o gládio de aço, e doma

    Meu coração – estranho carniceiro!

    Não podes?! Chama então presto o primeiro

    E o mais possante gladiador de Roma.

    E qual mais pronto, e qual mais presto assoma

    Nenhum pôde domar o prisioneiro.

    Meu coração triunfava nas arenas.

    Veio depois um domador de hienas

    E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

    Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…

    E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,

    Que ninguém doma um coração de poeta!


    Declamado por Gilles

    2 min
  • Sonho de Olavo Bilac

    Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade

    Solto para onde estás, e fico de ti perto!

    Como, depois do sonho, é triste a realidade!

    Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

    Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.

    Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:

    De cada estrela de ouro um anjo se debruça,

    E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

    Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.

    Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.

    E, como sobre um leito um alvo cortinado,

    Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

    Porém, subitamente, um relâmpago corta

    Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta

    E, sorrindo, serena, aparecer à porta,

    Como numa moldura a imagem de uma Santa...


    Poesia declamada por: Mell
    Texto disponível em: www.dominiopublico.gov.br

    2 min
  • A avenida das lágrimas de Olavo Bilac

    A avenida das lágrimas de Olavo Bilac


    Quando a primeira vez a harmonia secreta

    De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,

    Dentro do coração do primeiro poeta

    Desabrochou a flor da lágrima primeira.
    E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
    Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:
    Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
    Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.
    E na terra, por onde o sonhador passava,
    Ia a roxa corola espalhando as sementes:
    De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
    Uma vegetação de lágrimas ardentes.
    Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
    A avenida ensombrada e triste da Saudade,
    Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
    Dos órgãos do carinho e da felicidade.
    Recalcando no peito os gritos e os soluços,
    Tu conheceste bem essa longa avenida,

    Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,

    Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.
    Teu pé também deixou um sinal neste solo;
    Também por este solo arrastaste o teu manto...
    E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
    Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.
    Mas tua alma ficou, livre da desventura,
    Docemente sonhando, às delícias da lua:
    Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
    Guardando na corola uma lembrança tua...
    O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
    Se imortalizará, pelas almas disperso:

    Porque purificou a torpeza da terra

    Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.


    Poesia declamada por Gus

    3 min

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