O que ler agora?

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O que ler agora? episodes

  • Episódio 61: "Páradais", de Fernanda Melchor
    No episódio 61 de "O que ler agora?", os jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre o romance "Páradais", da escritora mexicana Fernanda Melchor.

    O livro, publicado no Brasil pela Mundaréu, foi selecionado para o Booker Prize International 2023, na Inglaterra, o prêmio literário mais importante do mundo para literaturas que, originalmente, não foram escritas em inglês, e são traduzidas e publicadas no mercado anglófono.

    Numa entrevista para a Rádio Nacional da Argentina, a escritora Fernanda Melchor diz que o estilo cinematográfico de "Páradais" é proposital. Por estilo cinematográfico, pode-se considerar o ritmo da narrativa, dividida em três atos e centrada nos dois personagens principais: Franco e Polo, um branco e um negro. Um rico e outro pobre. Ambos adolescentes.

    De uma espécie de convivência desesperada (chamar os dois de amigos seria um exagero), e por motivos diferentes, eles começam a arquitetar um crime: entrar na casa de uma das famílias ricas que vivem no mesmo condomínio de Franco. O mesmo condomínio onde Polo trabalha como jardineiro. Polo porque precisa de dinheiro. Franco porque quer violentar a mãe da família. (Ou, para o usar o verbo que os personagens usam no livro: porque ele quer "comer" a mãe de família.)
    20 min
  • Episódio 60: Quadrinhos de Marcelo D'Salete e Marcello Quintanilha
    No Episódio 60, Mitie e Tami Taketani conversam com Rogerio Galindo sobre HQs e sobre a importância de obras que partem de fatos históricos para abordar o passado do Brasil – que é sobretudo o passado dos povos negros e escravizados.

    Mais especificamente, Mitie e Tami (mãe e filha) falam sobre "Mukanda Tiodora", HQ inspirada na personagem histórica que dá título à obra, uma mulher negra que viveu no Brasil do século 19 e que produziu uma série de cartas que inspiraram o trabalho de D'Salete.

    As cartas foram descobertas pela historiadora Maria Cristina Cortez Wissenbach, junto de outros documentos da época.

    Mitie Taketani é proprietária da Itiban Comic Shop, uma livraria especializada em quadrinhos e um dos pontos culturais mais importantes de Curitiba. A livraria faz 34 anos em 2023. Tami Taketani, filha de Mitie, trabalhou ao lado da mãe e do pai, mas hoje é fotógrafa e videomaker do Plural.

    Na segunda parte do programa, as Taketanis falam sobre a HQ "Escuta, Formosa Márcia", de Marcello Quintanilha.
    25 min
  • Episódio 59: "98 segundos sem sombra", de Giovanna Rivero
    Em uma cidadezinha no interior da Bolívia no fim da década de 1980, a adolescente de 16 anos Genoveva Bravo Genovés sobrevive à escola de freiras, aos conflitos com as colegas de classe e à família disfuncional.

    Enquanto sonha em fugir desse lugar que não vê futuro nem felicidade, Genoveva atravessa situações que envolvem o misticismo popular boliviano, os ensinamentos do catolicismo, o narcotráfico e os ideais neoliberais que dominam a cidade.

    O romance “98 segundos sem sombra”, da escritora boliviana Giovanna Rivero, chegou ao Brasil no final de 2022 e é o destaque desta semana do podcast de livros “O que ler agora?”. O episódio conta com a participação da jornalista Cecília Zarpelon.
    17 min
  • Episódio 58: "Frio o bastante para nevar", de Jessica Au
    A australiana Jessica Au chega ao Brasil com esse romance curto sobre uma viagem de mãe e filha para o Japão. Um livro intimista, bonito, que explora as relações entre duas mulheres que têm muita coisa diferente, apesar da proximidade. A jornalista Luciana Mello é a convidada do episódio.
    23 min
  • Episódio 57: Mauri König, um repórter que virou contista
    Um dos mais premiados jornalistas do país, que sempre contou histórias de dramasd causados pela pobreza e pela exploração sexual de crianças, chega agora à literatura. Mauri König estreia na ficção com "Ensaio sobre o que nós somos", publicado pela Kotter. Neste episódio, Rogerio Galindo e Aline Reis falam sobre o livro.
    19 min
  • Episódio 56: "Felizes os felizes", de Yasmina Reza
    No episódio 56 de "O que ler agora?', Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre o romance "Felizes os felizes", de Yasmina Reza.

    Publicado pela editora Âyiné e com tradução Mariana Delfini, o romance é dividido em capítulos que abordam um personagem cada um (e são 18 personagens retratados no livro).

    Três desses personagens ganham um segundo capítulo e, à medida que a narrativa avança, as peças que pareciam avulsas vão se unindo umas às outras, criando um panorama divertido e inteligente da França contemporânea (ou de uma parte da França contemporânea).

    Sem nenhum receio, dá para afirmar que Yasmina Reza é uma das duas melhores escritoras francesas vivas – a outra atende pelo nome de Annie Ernaux.
    22 min
  • Bônus 14: Por que o escritor Itamar Vieira Junior faz tanto sucesso?
    Por que o escritor Itamar Vieira Junior faz tanto sucesso?
    Escrito por Rogerio Galindo e publicado pelo Plural

    Alguma coisa aconteceu com “Torto arado”. Não faz muito tempo, Itamar Vieira Junior era um desconhecido na literatura nacional. Tinha lançado dois livros de contos e só. Em 2018, seu primeiro romance venceu o prêmio LeYa em Portugal e, em seguida, foi comprado pela Todavia para lançamento no Brasil. Em 2019, quando o livro foi publicado ainda não estava claro o barulho que ia fazer. Mas fez.

    Do final de 2020 para cá, livro e autor entraram numa maré impressionante. “Torto arado” venceu o Jabuti de melhor romance e o Oceanos, um dos mais importantes prêmios para literatura de língua portuguesa. Itamar Vieira Junior foi convidado para ser colunista do jornal “Folha de S.Paulo” e para uma entrevista no programa “Roda Viva”. Numa matéria do UOL, ele foi chamado de “maior autor brasileiro”.

    Uau. Fazia tempo que nada do gênero acontecia no Brasil. Portanto, é justo analisar a obra de Itamar Vieira Junior para tentar entender, afinal de contas, o que é que está acontecendo. O que explica o sucesso de “Torto arado” e por que, de repente, ele aparece na mesinha de cabeceira de Lula ao mesmo tempo que é eleito o “hit do verão” pelo site “Glamurama”?

    O centro da trama de “Torto arado” tem duas irmãs pobres e negras na Chapada Diamantina, interior da Bahia. Crianças, elas encontram um facão com uma aura meio sagrada na mala da avó – e num acidente terrível, uma das meninas decepa a própria língua, ficando impossibilitada de falar pelo resto da vida.

    Durante dois terços do livro, são elas as narradoras da história, que acontece numa fazenda em que os trabalhadores não têm direito a quase nada. Eles trabalham não em troca de dinheiro, mas apenas para poder morar ali. Eles não podem construir casas de alvenaria, para que não sejam duradouras. Há limites para a roça que podem plantar e, evidentemente, o patrão (que mal aparece por lá, governando por meio de um capataz) pode tudo, quase como um rei absolutista.

    Embora as meninas Bibiana e Belonísia sejam o centro da história, a intenção claramente é de um panorama da vida agrária da região. Itamar Vieira Junior é funcionário do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e parece conhecer bem as fazendas do interior profundo. Mais do que isso, Vieira Junior é defensor ferrenho da reforma agrária, e vê na história uma oportunidade de mostrar os contrastes que o incomodam entre a pobreza e a riqueza no Brasil rural, entre os que mandam e os que sobrevivem.

    Contam-se histórias de líderes de religiões afro (o que se pratica na região é o jarê, uma espécie de variante do candomblé); de mulheres vítimas de maridos violentos, sem ter para onde correr; de gente que mal tem o que comer; de mulheres fortes sobrevivendo à seca, ao infortúnio e a desmandos de todo tipo; e dos jovens que mal chegam à vida adulta e já estão casados, com filhos e com seu destino escrito.

    Com o tempo o leitor percebe, porém, que Itamar Vieira Junior prepara uma virada. Que um personagem com ideias e leituras inusitadas começa a politizar os trabalhadores e a levá-los para um caminho de luta contra a sujeição. Embora não seja o caso de contar mais do que isso, fica evidente que “Torto arado” não é apenas a história da pobreza centenária, mas também o relato de uma tentativa de subverter essa situação – com traços de martírio em nome do desenvolvimento social.

    Talvez não seja tão difícil assim entender por que “Torto arado” fez tanto sucesso. O livro foi lançado em um momento de extrema desilusão da esquerda brasileira – um momento em que avanços sociais foram perdidos e em que os piores temores de quem saiu de uma ditadura nem tanto tempo atrás voltaram a assombrar os leitores mais afinados com a pauta progressista.

    “Torto arado” é um romance, evidente, mas tem ares de manifesto. Nenhuma das escolhas do autor parece ter sido feita à toa.

    O livro é narrado por mulheres e tem mulheres como personagens mais fortes (num momento em que o feminismo e a luta contra a sujeição da mulher são assuntos mais caros aos leitores progressistas.

    O livro se passa no Brasil rural, tentando discutir as raízes históricas de nossa desigualdade e recuperar a ideia do sertanejo forte, virtuoso, que se opõe em caráter ao patrão, o arquétipo do oligarca visto como mal maior da nação na narrativa de esquerda.

    A trama recupera práticas que têm sido objeto de estudo e resgate nas universidades e na comunidade negra, como as religiões de origem africana (a terceira parte, inclusive, é narrada por uma entidade sobrenatural do jarê).

    Etnicamente, o livro fala de negros que sentiam vergonha de se ver como negros mas que, com o incentivo de um personagem mais instruído, passam a se enxergar como quilombolas, cidadãos de direitos históricos que devem ser recuperados.

    Itamar Vieira Junior é um romancista que parece acreditar piamente que sua literatura deve tomar partido, deve ser socialmente engajada – e em nenhum momento parece ter pudores de falar disso desabridamente. Em certos momentos, o tom de homilia se deixa sentir como uma mão pesada que chega a incomodar (como deixou clara a polêmica entre o autor e a jornalista Fabiana Moraes).

    Embora em certos momentos Vieira Junior pareça ser um herdeiro de Gabriel García Márquez, ele acaba se aproximando muito mais de um novo Graciliano Ramos, mas com tons ainda mais políticos, mas claramente militantes. O que para muita gente é um alívio, mas para muitos outros é um incômodo.

    Em todo caso, o fenômeno é interessante, não importa a opinião que se tenha sobre o livro. Há muito um romance nacional não ganhava tanto espaço na mídia e não mexia com tanta gente. Se é em função de méritos literários ou de posturas políticas, o futuro dirá.

    “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, foi publicado no Brasil pela editora Todavia.

    (Texto lido por Luciana Nogueira Melo.)
    7 min
  • Bônus 13: "A Fronteira", de Erika Fatland
    Erika Fatland escreve sobre os 60 mil km de fronteira da Rússia

    Da Redação do Plural

    A antropóloga Erika Fatland percorreu os 60.932 quilômetros de fronteira da Rússia, o maior país do mundo, e falou sobre a experiência no livro “A fronteira – Uma viagem em torno da Rússia”, a ser lançado pela editora Âyiné no dia 23 de fevereiro (de 2023).

    ara se ter uma ideia das dimensões da Rússia e do trabalho de Erika Fatland em “A fronteira”, a circunferência da Terra tem “meros” 40.075 quilômetros. Em seu esforço de pesquisa, a antropóloga procurou analisar a influência russa sobre seus vizinhos (aqui vai a lista completa) Azerbaijão, Belarus (ou Bielorrússia), Cazaquistão, China, Coreia do Norte, Estônia, Finlândia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Mongólia, Noruega, Polônia e Ucrânia. Sem contar a Passagem do Nordeste, que embora não seja um país e sim uma via marítima, também é analisada no livro.

    E Erika Fatland percorreu esses lugares lançando mão de vários meios de transporte – ela andou a cavalo, voou de avião turboélice, além de ter apelado até para renas e caiaques.

    A pesquisa na origem de "A fronteira" ocorreu entre 2015 e 2017 (ano em que o livro saiu na Noruega). Em um prefácio à edição brasileira, Fatland destaca as mudanças constantes nesses territórios de fronteira, em parte por causa das invasões orquestradas pelo governo russo. Por isso, a antropóloga trata o livro como “um instantâneo” da fronteira da Rússia no período abordado pela autora.

    “A fronteira” é então um livro sobre a Rússia e sobre a história russa, com um detalhe peculiar: Erika Fatland não chegou a entrar em território russo. Entre as proezas da autora, está a descrição de culturas, indivíduos e paisagens que ela encontrou ao longo da pequisa.

    "A fronteira – Uma viagem em torno da Rússia", de Erika Fatland. Tradução de Leonardo Pinto Silva. Âyiné, 692 páginas, R$ 159,90.

    (Texto lido por Irinêo Netto.)

    2 min
  • Episódio 55: "Friday Black", de Nana Kwane Adjei-Brenyah
    Neste episódio, Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre "Friday Black", o livro de contos de Nana Kwame Adjei-Brenyah, publicado pela editora Fósforo. O autor americano de família ganesa é um dos nomes mais badalados da literatura americana contemporânea. Discípulo de George Saunders ("Lincoln no limbo"), Adjei-Brenyah desponta com contos quase impossíveis de classificar, que falam de raça e violência, pais e mães, vida e morte.
    29 min
  • Bônus 12: "A história invisível", de Sofia Nestrovski
    “A história invisível”, de Sofia Nestrovski, é um retorno à infância

    Escrito (e lido) por Cecília Zarpelon, publicado pelo Plural.

    Admito que comecei a ler “A história invisível”, de Sofia Nestrovski, sem muitas expectativas. A sinopse, de uma garotinha que em seu aniversário de sete anos deseja ficar invisível (e consegue) na busca de combater o tédio, não havia chamado minha atenção.
    Mas creio que, dentre muitos outros, esse foi um dos motivos que me fez apreciar o modo como Sofia Nestrovski conduz a história da personagem principal. Iniciei a leitura acreditando que seria uma obra infantil e não podia estar mais errada.

    De cara, o leitor é apresentado à personagem que vai acompanhá-lo no livro: Sofia, de sete anos, que “passa os dias conversando com as próprias ideias” e buscando aventuras para se livrar do tédio que a assombra.

    Após se tornar “invisível, órfã e livre”, como queria, Sofia passa a perambular por um mundo mágico onde tem a chance de visitar o interior de uma grande árvore, conversar com animais e aprender a enxergar tudo aquilo que normalmente não é visível: os pensamentos de um peixe e os diálogos que podem existir entre as pedras, por exemplo.

    Com uma escrita errática, parece que o leitor está dentro da cabeça de uma criança, neste caso de Sofia, escutando seus pensamentos frenéticos e questionamentos perspicazes.

    O que surpreende na obra é justamente o fato de Nestrovski escrever como se fosse Sofia narrando seu próprio mundo, sonhos, desejos e medos, e o sentimento nostálgico que traz de volta ao leitor experiências da infância.

    Não sei se perdemos ou aprendemos a esquecer esse jeito de pensar de criança, mas o livro é uma ótima forma de relembrar que, na infância, tudo é indefinido e um mistério. E, nas palavras de Nestrovski, se nada é definido, então tudo é possível.

    “A história invisível”, de Sofia Nestrovski (2022). Fósforo, 104 páginas, R$ 64,90 ou R$ 44,90 (e-book). Com ilustrações de Danilo Zamboni.
    2 min

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"O que ler agora?" é o podcast de livros do Plural, feito com apoio das editoras Aleph, Antofágica, Arte e Letra, Companhia das Letras, Fósforo, Luna Parque, Mundaréu, Roça Nova, Rua do Sabão,…

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