O que ler agora?

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O que ler agora? episodes

  • Episódio 54: Coisas boas de ler em 2023
    Para abrir a nova temporada de “O que ler agora?”, o podcast de livros do Plural, os jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre uma dúzia de lançamentos literários previstos para 2023.

    O episódio se inspira na lista de lançamentos do ano compilada pelo tradutor Daniel Dago para o Plural, com mais de 400 títulos.

    Porém, no podcast, Galindo e Netto fazem uma seleção destacando os livros mais legais (na opinião deles) que editoras independentes planejam lançar no ano que começa (ou que começou, há mais de um mês já).

    A lista dos dois inclui Anne Carson, Jon Lee Anderson, Projeto Querino, Annie Ernaux, Mohamed Mbougar Sarr, uma série de contos policiais que se passa em cidades como Bagdá e Teerã, Herman Melville e “Stoner”, de John Williams.
    32 min
  • Bônus 11: "A vida real", de Adeline Dieudonné
    Livro de Adeline Dieudonné tem sangue, suspense e sustos
    Escrito por Irinêo Netto, publicado pelo Plural.

    “A vida real”, da belga Adeline Dieudonné, tem uma narrativa que você lê rápido, virando as páginas uma depois da outra, completamente envolvido pela história.
    Publicado pela editora Nós e com tradução de Letícia Mei, a história conta com todos os elementos de um bom thriller e também com algo mais. Há sangue, suspense e sustos. E o algo mais fica por conta do talento de Adeline Dieudonné, que consegue criar uma atmosfera meio sobrenatural mesmo com os dois pés fincados num mundo que parece muito a realidade que existe fora do livro.

    A narradora é uma menina que tem dez anos no começo da história. Ela tem um irmão quatro anos mais novo, uma mãe omissa e submissa, e um pai violento. Tudo que diz respeito aos sentimentos e ao modo como as pessoas se comportam são tratados pela jovem narradora como algo estranho, com vida própria, como uma fera que toma posse dos seres humanos.

    Até mesmo o que ela sente é explicado dessa forma. Numa cena terrível, no meio da floresta, acuada, ela pensa: “Foi então que ela eclodiu. No fundo do meu ventre. Não era nas vísceras, era mais profundo do que isso. Muito além de tudo. Brotou uma criatura muito maior do que eu. No meu ventre. (…) Eu não era uma presa. Nem um predador. Eu era eu, e eu era indestrutível”.

    Da dificuldade de explicar a maldade do pai que, aos poucos, vai tomando conta também do irmão, ela acaba atribuindo esse ódio a uma hiena empalhada que o pai –um caçador orgulhoso dos seus troféus – mantém em casa. “Mesmo empalhada, ela estava viva – eu tinha certeza –, e se deliciava com o terror provocado em cada olhar que cruzasse o seu.”

    Logo, fica claro que a história é sobre a luta da narradora – que descobre ter uma inteligência muito acima da média – contra os monstros ao seu redor. E o maior deles é o próprio pai e a vida sufocante que ele impõe à família: sem nenhum afeto, ignorante e violenta. O pai é uma figura horrorosa. Um canalha ressentido que personifica tudo que pode haver de ruim num homem.

    Esse duelo entre a narradora e o pai chega a um clímax que não convém revelar aqui. Trata-se de um livro que se baseia muito nas revelações que faz ao longo do caminho. Lembra um Stephen King, tem boas cenas e daria uma boa série da Netflix.

    A maior engenhosidade do livro de Adeline Dieudonné é contar a história pelos olhos de uma criança. Vem daí a sensação de que algumas coisas são sobrenaturais, difíceis de ser explicadas, ou mesmo incompreensíveis. O mundo pode ser assim para uma criança, ainda mais um mundo agressivo como o da “Vida real”.

    Mas parece haver uma falha. Porque a narradora não é mais criança – ela está contando tudo o que aconteceu no passado. E às vezes a diferença entre a pessoa que a narradora é enquanto narra e aquela que ela foi na história que está narrando gera uns curtos-circuitos. Porque, em alguns momentos, ela se entrega à ingenuidade da criança que foi sem nenhuma mediação. É como se ela tivesse de novo dez anos de idade e falasse com a voz dessa criança e não com a voz da pessoa que ela se tornou ao fim dessa história. Mesmo que não faça sentido, ainda é possível. Mas aí o livro não ajuda a entender por que isso acontece.

    Ou a história é de fato narrada pela criança de dez anos que cresce ao longo da ação. Mas, nesse caso, é estranho que ela seja inteligente a ponto de sacar o mundo e as pessoas com uma profundidade impressionante para alguém da sua idade e, ao mesmo tempo, ser ingênua para acreditar em viagens no tempo e bruxarias, exatamente como uma criança de dez anos.
    5 min
  • Bônus 10: "Onze astros", de Mahmud Darwich
    Se você tem interesse pela causa palestina, procure ler Mahmud Darwich
    Escrito por Benedito Costa, publicado pelo Plural.


    A primeira observação que preciso fazer sobre “Onze astros”, de Mahmud Darwich (1941–2008), é sobre sua estrutura de escrita. São seis poemas longos, os quais no original são versificados de acordo com certa tradição do árabe.

    Explico: tanto pela escrita (mesmo no árabe) quanto pela tradução que infelizmente precisa deixar de lado a metrificação e as possíveis rimas, quanto pela própria junção desses seis poemas longos, o livro de Darwich pode ser lido como uma grande narrativa.

    Tenho como base aqui outros textos estranhos a toda sorte de classificação, a qual procuro deixar de lado nesta coluna: “Os cantos”, de Ezra Pound, por exemplo; os recentes “Autobiografia do vermelho”, de Anne Carson, “Viagem à Índia”, de Gonçalo Tavares, e tantos outros. Sei que a problemática entre “poema em prosa”, “prosa poética”, “narrativa com (alto) teor poético” é uma questão sem solução – e por vezes nosso desejo é de ler um Todorov qualquer que possa explicar o que cada coisa é sem imaginar que surgirá algo depois que não é nem uma coisa nem outra.

    Uma segunda observação importante é que Darwich é um autor altamente intertextual/interdiscursivo. Evidentemente, para escritores assim, caberá ao leitor fazer o levantamento do possível: se ele cita um mito bíblico ou corânico ou se ele cita um sábio judeu ou muçulmano, se ele cita um sultão do século 9º, talvez isso, por mais erudito que possa ser, ainda será mais “fácil” do que o diálogo que ele faz com uma longa tradição da escrita árabe e, em particular, com o universo cultural de uma região que ele diz estar entre “o Egito, a Ásia e o Norte”.

    Ele se refere à região que engloba a Palestina, a Síria, parte do Iraque e a Jordânia. Embora um entrave histórico e geográfico, aparentemente pequeno, frente à vastidão do que já foi o império árabe (ou turco, ou mongol), é bastante coisa. Ele mesmo lembra que a região já foi invadida por faraós, césares, líderes mongóis… E hoje é caminho de um sem número de outros povos que passaram por ali: ingleses, franceses, americanos, israelenses…

    Do mesmo modo, a escrita de Anne Carson, que faz profundas referências à tradição da escrita grega, também traz esse desafio. Talvez seja fácil encontrar ali a presença de Hércules, mas identificar o tipo de versificação utilizada por Estersícoro, intraduzível, é algo para especialistas muito capacitados. (O tipo de versificação é o dátilo-epitrito, em tríades.)

    Há muito em que prestar atenção, mas eu fecharia com uma terceira e importante observação: a origem da expressão “onze astros”. Ela vem do sonho de José, que, no Gênesis está em 37:9. O sonho de José ofende a seu pai e a seus irmãos, que perguntam se ele, José, deseja que o pai e os irmãos se ajoelhem perante ele. Não é o caso, claro. No livro de Darwich, o desejo igualmente não é o da subserviência e sim o da libertação.

    Ao longo dos poemas, Darwich falará das “duas quedas após o Paraíso” adâmico. Ele lida com paralelos: invasões antigas anteriores ao surgimento do Islamismo, a expulsão dos mouros da Península Ibérica, a instituição de Israel na Palestina em 1948.

    Como bem observa o tradutor Michel Sleiman, os poemas partem do coletivo para o individual. No entanto, como muito bem observa Adônis da Síria em “A time between ashes and roses” [Um tempo entre as cinzas e as rosas], “toda morte é uma morte árabe”. Não porque toda morte seja triste mas porque toda morte é terrivelmente triste. Então, o individual e o coletivo se misturam, sem separação.

    A leitura de Darwich é quase uma obrigação para quem tem um mínimo de interesse pela causa palestina. Ele é considerado o poeta por excelência do povo palestino – e muitos palestinos não apenas conhecem seus poemas, mas também cantam seus versos.

    Possivelmente, o poema mais famoso dele no Ocidente seja “Entre Rita e mim há um fuzil”. Nesse “Onze astros”, ele retoma esse poema, como se continuasse a narrativa de um amor impossível, que serve perfeitamente de metáfora para povos de mesmas origens, mas inconciliáveis.

    Sobre as obras citadas, “Onze astros” tem tradução e introdução de Michel Sleiman, pela excelente editora Tabla. “Autobiografia do vermelho”, da Editora 34, tem tradução de Ismar Tirelli Neto. “A time between ashes and roses”, infelizmente, não tem tradução para o português, mas você pode ler “Poemas”, de Adônis, também com tradução de Michel Sleiman, pela Companhia das Letras.

    Já “Uma viagem à Índia” tem edição pela Leya. “Os cantos”, de Ezra Pound, tem tradução de José Lino Grünewald e está em catálogo pela Nova Fronteira (que também coeditou uma versão do livro dentro da “Coleção Cultura”).
    5 min
  • Bônus 09: "Dostoiévski-Trip", de Vladímir Sorókin
    Vladímir Sorókin transforma escritores em drogas na peça “Dostoiévski-Trip”

    Escrito por Benedito Costa, publicado pelo Plural.

    Então temos sete personagens a procura de algo: no caso, uma droga e daí o “trip” do título “Dostoiévski-Trip”, de Vladímir Sorókin. A peça, de um ato só, pode ser dividida em três partes. Num primeiro momento, as personagens contam que tipo de drogas usam ou que já teriam usado. Cada droga tem o nome de um escritor.
    Difícil estabelecer se cada escritor citado (cada droga citada) revela algo sobre cada um dos personagens, ou se o próprio Sorókin (ou a voz que ele criou para essa peça) faz uma seleção do que seria apropriado e do que não seria apropriado no caminho que cada leitor pavimenta para sua leitura. Os escritores são vários: Kafka, Thomas Mann, Joyce, Tolstói, Dickens, Beauvoir, Nabokov etc.

    Pela descrição que cada personagem faz de cada droga, é possível estabelecer “leituras” a partir de cada escritor-droga citado, mas as menções são tão rápidas que isso deve se diluir na encenação, de modo que impossibilita inferências rápidas e precisas. De todo modo, o leitor (talvez diferentemente do espectador) tem tempo de fazer pausas e avaliar cada caso. Não busquei esse caminho de análise porque achei inútil.

    Num segundo momento, quando os personagens conseguem uma droga em particular, eles são deslocados para o universo das personagens de Dostoiévski. A droga que ingeriram leva o nome do escritor russo. As personagens não apenas “assumem”, então, papéis das obras de Dostoiévski como levam ao extremo características particulares de cada personagem citada.

    Num terceiro momento (quando os efeitos da droga começam a arrefecer?), as personagens de Sorókin caminham de volta ao cenário original e aí começam grande monólogos em que cada um conta sua vida. O gatilho para cada narrativa é um comentário feito pela personagem precedente. Certamente, é o auge da peça – e sua maior força.

    A conclusão a que chegam (e que conto aqui porque não é surpresa para ninguém) é a de que “Dostoiévski em estado puro mata”. O químico que vende a droga admite que é necessário diluir “Dostoiévski” muito provavelmente porque o público atual não o suporta mais, ou melhor, não “aguenta” Dostoiévski em estado puro. Então, ele sugere que tomem Stephen King.

    Narrada dessa forma, ela parece óbvia. Mas não é. Há muitos caminhos que podem ser percorridos ao analisar essa peça e a produção escrita de Vladímir Sorókin, um dos expoentes da literatura russa contemporânea.

    Embora a tendência seja a de apontar Dostoiévski como o auge da produção literária russa, Sorókin não é um autor para leituras fechadas e óbvias. Isso pode muito bem ser o contrário: uma crítica severa à necessidade de construirmos cânones. Isso não quer dizer que haja uma crítica negativa ao castelo de escrita deixado por Dostoiévski e que foi (e continua sendo) base de leitura para escritores do mundo todo.

    Se em outro grande escritor russo moderno, Dovlátov, a ironia é mais sutil, mas não menos ardente e iconoclasta, principalmente em “Parque Górki”, aqui a ironia é rasgada e nada comedida, indo às raias da loucura. Evidentemente, loucura e efeito de drogas são algo muito próximo nessa peça e na mirabolante escrita dela (e que não se perca de vista que ela foi escrita para encenação).

    O detalhe interessante é que em outros autores russos, como o próprio Dovlátov, é o álcool – grave problema de saúde pública na Rússia – que serve de mote para o desvelamento de determinadas verdades (de um crime ao sentido hediondo da vida), mas aqui é a droga, cada vez mais comum entre jovens russos notadamente pós-perestroika.

    Há outras situações curiosas, como o mercado cultural – e como ele destrói tudo ou abarca tudo e transforma tudo em produto, justamente num país que foi o centro do comunismo soviético, discussão também presente em Dovlátov –, o vazio da vida pós-moderna, ou pós-perestroika, ou do capitalismo tardio, a busca pelas soluções rápidas, como a droga etc.

    De todo modo, não se pode perder de vista que o autor usou nomes de outros autores para nomear as drogas e não nomes de empresas, por exemplo, como a Sony e o McDonald’s. De todo modo, uma peça – e notadamente os textos de Sorókin – tem múltiplas camadas. Trocar Dostoiévski por King pode remeter à troca de um escritor por outro, ou à troca de todo um sistema político por outro.

    Sim, o leitor ou o espectador lembrará de Pirandello (“Seis personagens em busca de um autor”). Não é muito clara a relação entre Sorókin e Pirandello, numa primeira vista, mas eu não descartaria essa investigação. Há muito de nonsense e absurdo nessa peça e, claro, fica complicado analisá-la sozinha, principalmente porque o teatro contemporâneo abriu os tentáculos para todas as direções, como a dança, o vídeo, os efeitos visuais etc. Ou seja, para os mais variados discursos e possibilidades. Interessante notar, também, a nudez do palco: não há grandes elementos que ajudem a traduzir a peça, sendo ela bem centrada na voz dos atores. Claro, isso dependerá de cada diretor, até mesmo porque não há exigências severas de montagem indicadas por Sorókin.

    A tradução da Editora 34 é de Arlete Cavaliere, que escreveu uma das melhores análises sobre a literatura russa contemporânea que li em muitos anos. Lendo a peça, você pode se deliciar com a análise precisa e erudita da tradutora.

    Sorókin é leitura obrigatória para quem deseja conhecer literatura russa contemporânea.
    7 min
  • Bônus 08: "No canto dos ladinos", de Quito Ribeiro
    “No canto dos ladinos”, livro de estreia de Quito Ribeiro, faz análise do Brasil de hoje

    Escrito por Aline Reis, publicado pelo Plural.

    A primeira coisa que fiz quando comecei a ler “No canto dos ladinos” foi pesquisar sobre a palavra. Achei peculiar a escolha dela e encontrei uma entrevista de Quito Ribeiro para a Todavia, que publicou o romance, explicando o contexto.
    A ressignificação da palavra foi um dos muitos acertos de “No canto dos ladinos”. A princípio, podemos entender ladino como alguém malandro. Ribeiro, na entrevista, vai além e conta que a palavra ladinos, na realidade, era designada para identificar escravizados africanos que aprendiam a falar português no Brasil. Os que não sabiam eram chamados de boçais.

    Negros que conseguem usar a “malandragem” e sair do lugar de pobreza, portanto, são ladinos. Os personagens apresentados por Quito Ribeiro em sua obra de estreia são todos negros de classe média. Um deslocamento que incomoda e marca toda trama.

    O romance é ambientado em Salvador, no Brasil, e tem passagens também por países europeus (imagine você, negros brasileiros na Europa).

    Há três personagens principais: Cristiane, que é escritora e está numa conferência em Lyon, na França, falando do seu livro. É irmã de Mariana, outra personagem importante no romance, que por sua vez é esposa de Érico.

    Personagens do livro de Cristiane também ganham capítulos para si. Um livro dentro do livro, uma técnica interessante que deixa a leitura bastante instigante.

    A história dessas pessoas é costurada a partir de percepções próprias. Eles vivem em bairros ricos e têm hábitos que não são comuns – ou não são vistos como comuns – para pessoas negras no Brasil.

    Entender o passado para compreender as consequências para as pessoas negras nem sempre é uma tarefa fácil – e às vezes pode soar complicada. Quito Ribeiro, por meio de histórias que se entrelaçam de maneira envolvente – consegue levantar essas questões sem pesar a mão e faz uma análise importante da sociedade brasileira.

    “Foi bem ridícula a primeira vez que apanhei de alguém com autoridade para bater. Andava por uma área residencial exclusiva para militares. Era acostumado a andar por ali porque a filha de um milico frequentava a minha área e eu já tinha passado pela zona militar várias vezes por causa dessa amizade. Nunca tinha chamado atenção, mesmo achando ousado passar por ali. Dessa vez, contudo, estava sozinho, andando para ir à casa de um amigo que morava num prédio bem ao lado desse cercadinho residencial-militar. Resolvi cruzar a rua fechada para cortar caminho. Quando já estava perto da saída, um soldado de guarda naquele quarteirão me falou que não podia passar ali. Reagi amedrontado e disse que já estava saindo. Veio andando em minha direção e, como eu ainda estava saindo quando ele chegou, me deu uma pancada com o cassetete nas costas, na altura do rim e disse: “Sai pra lá, neguinho”. Não foi para doer muito, mas a agressão ficou. A primeira vez que apanhei de alguém com autorização para agredir”.

    O trecho narrado pelo personagem Érico demonstra como o estilo da escrita de Quito deixa a leitura fluída e também dá o tom do que é discutido. Situações cotidianas para pessoas negras que dificilmente acontecem com pessoas brancas. Dois Brasis.

    Quito Ribeiro é compositor e montador de produções para cinema e TV. As habilidades usadas nessas atividades fazem com que a escrita seja bastante objetiva. O livro tem pouco mais de cem páginas para contar uma história engenhosa de afirmação da negritude.

    Outro ponto positivo são referências atuais. Baco Exu do Blues, Olodum e até mesmo o Facebook. Isso reforça a ideia de ser uma análise do agora. Tudo o que escreve Quito Ribeiro está acontecendo neste momento, com alguém, em Salvador ou Curitiba.

    O livro une a consciência das personagens acerca das consequências terríveis da escravidão ao passo que os coloca num lugar privilegiado, longe da pobreza, vivendo de um jeito branco.

    “No canto dos ladinos” usa a união das histórias para traçar um panorama preciso e pertinente sobre a sociedade brasileira e a falsa democracia racial.
    5 min
  • Bônus 07: "Eva", de Nara Vidal
    “Eva”, de Nara Vidal, discute o peso do passado sobre o presente
    Aline Reis

    Eva carrega o peso do pecado original desde criança e o estigma do nome dá norte ao romance homônimo, de Nara Vidal, publicado pela Todavia.
    Nas 112 páginas entramos na vida caótica de Eva, uma mulher solitária, que sofre pela ausência da mãe e que tenta se afastar do filho.

    Vidal deixa bem marcados na narrativa em primeira pessoa os dois temas importantes para a trama: a relação de Eva com a mãe e o envolvimento afetivo com o namorado que abusa dela.

    “Quando meu marido me tirou de casa, tinha razão”, diz a narradora, que desde a infância atrai para si todo tipo de maldade, mesmo após anos de benzimentos e rezas por causa do nome.

    Depois de sair de casa, o sofrimento de Eva não remete ao afastamento da família, e sim ocorre pela falta da mãe, que morreu, mas vive assombrando as memórias da protagonista.

    Vidal é feliz em desromantizar a relação materna. Mães não são perfeitas e as relações com as filhas podem ser conflituosas e cheias de manipulação travestida de amor.

    O marrom da capa do livro, que não é exatamente uma cor muito atraente, dialoga com a cortina de tule da mesma tonalidade na sala da personagem, que, pela janela, assiste à vida passar e faz suas reflexões.

    Eva, embora hipoteticamente possuída pelo demônio, é uma mulher vulnerável que vive com ajuda financeira do filho – com quem não tem nenhuma relação de afeto – e tenta dar aulas de língua portuguesa, apesar de não ter alunos.

    O pouco dinheiro faz com que ela passe por privações e reflita sobre como chegou a esse ponto. A escritora usa bem passado e presente para demonstrar a angústia da personagem que tem uma vida bastante incerta até conhecer outra mulher que também perdeu a mãe.

    Do meio para o fim, o livro traz algum mistério acerca da relação das personagens com suas mães e retoma os relacionamentos abusivos de Eva.

    Dito assim, parece uma bagunça, mas Vidal é habilidosa em tecer esta colcha de retalhos para estruturar uma narrativa interessante.

    O mergulho na vida de Eva é dividido em três partes: Superfície, Profundo e Fundo. Os títulos indicam nuances de um texto que brinca com a loucura e provoca sentimentos antagônicos em relação à personagem.

    Outro mérito tremendo de Vidal é saber usar o delírio como um pedido de ajuda e, ao mesmo tempo, trazer lampejos de lucidez que fazem de Eva menos pecadora e mais humana.

    Eva é um livro que usa perda, violência e liberdade para discutir de maneira muito sutil o peso que o passado tem sobre o presente.

    “Eva”, de Nara Vidal. Editora Todavia, 112 páginas, R$ 54,90 e R$ 36,90 (e-book).
    4 min
  • Bônus 06: "Inverno em Sokcho", de Elisa Shua Dusapin
    Elisa Shua Dusapin olha para os pequenos eventos da vida
    O livro “Inverno em Sokcho” tem um clima – e não é só no título. Esse livro discreto e pequeno, escrito por uma autora jovem chamada Elisa Shua Dusapin, fala sobre o interesse de uma garota coreana por um quadrinista francês mais velho. Ela narra a história e trabalha numa pousada de Sokcho que, com o frio, está quase vazia. Ele se hospeda na pousada para trabalhar por algumas semanas com tranquilidade.
    Faz frio em Sokcho. E por um tempo você tem chance de acompanhar a rotina da narradora. Ela tem uma mãe que mora na mesma cidade e que trabalha com pesca, além de ser uma das poucas no ramo com habilidade para preparar baiacus. Quando você não sabe como abrir e limpar um baiacu, o veneno do peixe pode contaminar a carne toda.

    Neva em Sokcho. E chove também. “Ele jamais conheceria Sokcho como eu”, diz a narradora-personagem, referindo-se ao desenhista francês. “Não era possível querer conhecê-la sem ter nascido nela, sem ter vivido seu inverno, seus odores, seu polvo. Sua solidão.”Talvez seja por causa dessa solidão que a jovem fica intrigada pelo francês soturno e algo excêntrico. Um sujeito com um gosto peculiar por tintas e papéis (que ele chega a comer, de verdade, enquanto desenha, numa espécie de cacoete).

    Assim como a narradora do livro, a escritora Elisa Shua Dusapin também é filha de mãe coreana e pai francês. Mas parece que as semelhanças, ao menos as mais evidentes, acabam por aí.Dusapin tem hoje 30 anos e escreve em francês. Quando publicou “Inverno em Sokcho” na França, tinha apenas 23 anos e esse foi seu romance de estreia. Depois de vencer alguns prêmios literários, publicou mais dois livros.A narradora-personagem de “Inverno em Sokcho” tem interesse por literatura. Gosta de ler e cita Maupassant, mas diz que antes lia com o coração e agora lê com o cérebro. Ela diz isso numa conversa com o francês enquanto o acompanhava até uma papelaria da região, um dos poucos momentos em que os dois não têm ninguém por perto.

    Entretanto, é um erro pensar que “Inverno em Sokcho” tem algo a ver com uma história de amor. Nada ali fica tão claro assim. Há uma tensão óbvia entre os dois, ou melhor, há uma tensão óbvia da parte da narradora, que se apega a pequenas coisas, como quando a mão dela que encosta sem querer na mão dele. Da sua parte, o francês parece ocupado demais com seus desenhos e trata a jovem coreana com uma mistura de educação e desinteresse.Para entender o clima de “Inverno em Sokcho”, uma comparação possível é com os filmes do coreano Hong Sang-soo (quando dizem “coreano”, quase sempre querem dizer “sul-coreano”, uma vez que a Coreia do Norte é fechada para o resto do mundo).

    Hong Sang-soo faz filmes de pequenos eventos e com muito bate-papo. “O filme da romancista” (2022), por exemplo, fala de uma escritora que visita uma conhecida que deixou de escrever para trabalhar numa livraria. Durante a conversa, ela descobre que a outra vendedora da loja estuda a língua dos sinais e pede para ela dizer, usando as mãos, algo como “o dia acaba rápido, então vamos aproveitá-lo”. E a cena dura muitos minutos com a garota ensinando a escritora os gestos para dizer essa frase específica.

    Curiosamente, existe algo de francês no cinema de Hong Sang-soo. Essa paciência com detalhes, esse interesse por pessoas e pelos pequenos eventos da vida – existe um mundo de filmes franceses que são assim. Sendo franco-coreana e escritora, faz sentido que Elisa Shua Dusapin combine bem essas características num estilo de escrever que é ao mesmo tempo delicado e fino.

    “Inverno em Sokcho”, de Elisa Shua Dusapin. Tradução de Priscila Catão. Âyiné, 150 páginas, R$ 59,90. Romance.
    5 min
  • Episódio 53: Especial de fim de ano
    No último episódio de 2022, o podcast “O que ler agora?” dá dicas de livros que podem render bons presentes de natal (ainda mais se você deixou para resolver isso em cima da hora, assim como nós) ou boas leituras num período do ano que você pode ter intervalos de descanso (se não estiver lidando com a família e todo o resto). Ou ainda para quem consegue emendar umas férias com o fim do ano.
    O que ler agora? Para tornar a lista de sugestões maior e mais diversa, o programa apresentado pelos jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conta com participações especiais: Mell Ferraz, do blog “Literature-se”; a escritora Livia Piccolo; a jornalista Gabriela Mayer, do podcast “Põe na Estante”; a escritora Giovana Madalosso; a tradutora Sandra Stroparo; o tradutor Caetano Galindo; e a jornalista Aline Reis, do Plural.
    35 min
  • Bônus 05: Lucas Mota, o escritor punk de Curitiba que venceu o Jabuti 2022
    Ex-missionário apaixonado pelo mundo geek, Lucas Mota conquistou o prêmio mais tradicional da literatura brasileira na categoria romance de entretenimento com o romance "Olhos de Pixel" (Plutão Livros). Neste perfil, a jornalista Luciana Nogueira Melo conta como esse filho de pastor e fã de Jorge Amado enveredou para a ficção científica e acabou conquistando fama com uma distopia curitibana.

    9 min
  • Episódio 52: "O guardião de nomes", de Leonardo Garzaro
    No episódio desta semana, o podcast “O que ler agora?” fala do livro “O guardião de nomes”, de Leonardo Garzaro, publicado pela Rua do Sabão.
    Para produzir o romance, o escritor, que é também colunista do Plural e editor da Rua do Sabão, seguiu uma dica clássica do meio literário: escrever sobre suas obsessões. E uma das obsessões Garzaro tem a ver com nomes, ou melhor, com o ato de nomear coisas, pessoas… tudo. Dar nome é talvez um dos atos mais humanos que existem.
    19 min

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"O que ler agora?" é o podcast de livros do Plural, feito com apoio das editoras Aleph, Antofágica, Arte e Letra, Companhia das Letras, Fósforo, Luna Parque, Mundaréu, Roça Nova, Rua do Sabão,…

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