Olho de Gato

Olho de Gato

By Joaquim Alexandre Rodrigues | Jornal do CentroNewsNews Commentary
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Olho de Gato episodes

  • Ep29 | Gatos, ratos, bufos, chibos

    1. Por causa da Covid, este ano vão ser feitas menos um milhão e meio de consultas e menos 152 mil cirurgias do que em 2019.
    Dito assim é uma abstracção. Passa a ser muito concreto se pensarmos no que aqueles números representam: sofrimento, angústia, medo, perda de qualidade de vida, especialmente dos nossos concidadãos mais pobres que não têm seguros de saúde.
    Senhora ministra, nesta emergência que estamos a viver, esqueça os seus preconceitos ideológicos. Lembre-se que a China, numa geração, foi levada do século XIX para o século XXI por esta ideia simples de Deng Xiaoping: “não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace os ratos."
    A senhora não gosta dos gatos pretos, mas precisamos também que os ponha a matar ratos. Faça isso. Só precisa de ter um cuidado: não dê mais ração aos gatos pretos privados do que está a dar aos gatos brancos públicos.

    2. Histórias de bufos em escolas
    (i) O escritor António Cabrita, como é seu costume, escreveu um texto excelente no Hoje Macau na sequência da bufice de uma adolescente francesa que acabou na decapitação do professor Samuel Paty. 
    Nele, Cabrita conta-nos o que lhe aconteceu mal chegou à Universidade de Maputo, em 2006. Numa das suas aulas, para ilustrar que a “identidade sexual que assumimos” tem “o seu quê de construção social”, passou o belíssimo “Crying Games”, de Neil Jordan, que tem um amor trans. Por causa disso, uns alunos islâmicos foram acusá-lo à direcção. 
    Cabrita conta-nos que viveu umas semanas de tensão e que, como felizmente o coordenador do curso se pôs ao seu lado, “a avançada moralista” acabou por ser decapitada. 
    Só que, reconhece ele com amargura e cheio de razão, se fosse agora, não é nada certo que acontecesse o mesmo. Basta lembrar que, no início desta semana, o Daesh decapitou centenas de pessoas no campo de futebol de Madjedje, no distrito de Muidumbe, no norte de Moçambique.
    (ii) Em 14 de Outubro, na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, o professor João Pedro Costa estava a dar uma aula sem máscara porque não tinha nenhum aluno a menos de cinco metros e em frente a ele. Para seu espanto, a polícia foi lá interrompê-lo para o multar em cem euros. Tinha havido uma chibação anónima.
    Esta história mostra-nos o quanto a peste está a fazer saltar o lado feio e escuro das pessoas. Lembremo-nos dos “pides das varandas” que passavam a vida a apontar o dedo aos vizinhos, nas redes sociais, quando eles se atreviam a sair de casa durante o confinamento de Março e Abril.

    10 min
  • Ep28 | Velhos

    1.  Donald Trump tem 74 anos. Joe Biden, 77. Washington lembra Moscovo nos últimos anos do comunismo, quando o império soviético apodrecia dirigido por gerontes caducos, encharcados em vodka.
    A decadência e a deriva moral dos Estados Unidos não começaram com Trump mas, com ele, sofreram uma forte aceleração. Lembremos alguns sinais deste trambolhão:
    — a interferência activa e coroada de êxito da Rússia nas últimas eleições presidenciais;
    — a hostilidade da Casa Branca às democracias;
    — a tentativa do casal Trump/Putin de destruir a União Europeia.  
    Na próxima terça-feira, vai haver uma espécie de segunda volta das eleições de 2016. De um lado temos, de novo, um candidato republicano defensor do fechamento da América; do outro lado há, de novo, um candidato democrata defensor do livre-comércio e da abertura ao mundo.
    Há quatro anos, ganhou a América dos vencidos da globalização, perdeu a América cosmopolita. O que derrotou Hillary Clinton não foi a banha-da-cobra da Cambridge Analytica nem o Facebook, o que a derrotou foi o sofrimento dos brancos com baixa-escolaridade que viram os seus empregos na indústria voarem para países de mão-de-obra barata como a China.
    Depois de eleito, Trump abriu guerra a Xi Jinping e entregou três anos de bons resultados económicos à sua base de apoio. O presidente preparava-se para uma reeleição tranquila até que foi atropelado pela Covid. A sua gestão da pandemia foi uma desgraça, os Estados Unidos estão a entrar na terceira vaga, é o país com mais infecções e mais mortes.  
    Resultado: a acreditar nas sondagens, os velhos vão castigar a catástrofe sanitária causada pela incompetência de Trump. E correr com ele.

    2. O uso de máscaras e demais cuidados com a Covid evitou a gripe no último inverno do hemisfério sul. Apesar disso, convém não correr riscos. Quem tem mais de 65 anos deve vacinar-se contra a gripe até ao fim de Novembro.
    Para descongestionar os centros de saúde, o ministério fez um protocolo com as câmaras municipais que queiram comparticipar com dois euros e meio na vacina de cada sénior numa farmácia.
    Sem surpresa, a câmara de Viseu pôs-se fora deste programa. As prioridades de António Almeida Henriques são conhecidas. Poupa agora 45 mil euros e, quando acabar a peste, leva os velhos a um arraial minhoto na Quinta da Malafaia ou a outra festarola qualquer.

    12 min
  • Ep27 | N2 pintada de branco

    1. Se imaginarmos os 738,5 quilómetros da N2 como a coluna vertebral do país, podemos “colocar” a subida entre a Ponte Pedrinha e o Vale de Azia, em Castro Daire, algures numa das últimas vértebras cervicais. 
    Teimando nesta comparação anatómica de gosto muito duvidoso, diria que há, naquele troço de dois quilómetros, uma hérnia ou uma outra qualquer afecção da coluna. 
    É que tem havido vários problemas naquela estrada, depois daquela ponte sobre o rio Paiva que, em 1878, substituiu no mesmo sítio uma outra romana da era de Caio Júlio César:
    — no início de 2011, ainda as tempestades não tinham nome, uma delas fez colapsar meia estrada e o governo de Passos Coelho precisou de quatro anos para a compor por trinta mil euros;
    — no final de 2019, a depressão Elsa derrocou meia encosta, intransitando a N2, e o governo de António Costa precisou de nove meses e dez dias para a compor por duzentos e oitenta mil euros.
    Oito anos depois, as coisas estão melhor: 
    — agora puseram lá muito mais depressa um colar cervical, perdão, um colar cimental que parece capaz de aguentar um alfabeto completo de tempestades;
    — agora a N2 é um mito e um íman turístico para aquela região e todo o interior do país.

    2. Maria do Rosário Pedreira, a responsável editorial do grupo Leya, tem que ler muito para decidir o que é para publicar e o que não é. É um trabalho esmagador porque nunca se escreveu tanto e tão bem, porque nunca se escreveu tantíssimo e tão malíssimo.
    No início deste mês, Maria do Rosário Pedreira recebeu dos Estados Unidos a proposta de um livro, “ainda a ser escrito”, que já recebera um adiantamento de “uma enorme quantidade de dólares” de “uma editora de nomeada”. 
    Tema daquele futuro best-seller: “a tinta branca é racista”. A sinopse explica mesmo isso, que “pintar as nossas casas de branco não é inocente nem está isolado da supremacia branca”. Espantada, Rosário ainda pensou que “fosse um livro humorístico”, mas depois percebeu que o livro “não é uma piada”, ele “pretende mesmo ser sério”.
    Já se sabe, o identitarismo, nascido nas universidades norte-americanas e exportado para todo o mundo, está a estragar as cabeças. 
    Ainda vamos ver um consumidor joacínico ou mamadúcico daquele lixo, ao passar na parte lombar da N2, mais lá para o sul, olhar para o casario branco e dizer que os alentejanos são racistas.

    9 min
  • Ep26 | Aí vamos nós

    1. Os primeiros calafrios do outono já estão a provocar pele-de-galinha em quem ainda teima nas t-shirts. O verão já lá vai.
    Neste ano da peste, as vindimas foram temporãs e já há fervenças bem adiantadas nas pipas e nas cubas. Nos castanheiros, os ouriços impacientam-se pelo S. Martinho.
    Os líderes partidários, por causa da covid, não puderam exibir os bronzeados aos seus fiéis, amesendados e emplastros. Só o imperturbável Jerónimo de Sousa foi avante com a sua rentrée do costume, o que fez espumar de raiva o doutor Rio e inquietar o professor Marcelo. As romarias aos santuários da Quinta da  Atalaia e da Cova da Iria ajudaram a encher chouriços nos media e nas redes sociais durante a silly season estival.
    Por Viseu, o Cubo Mágico do dr. Sobrado resistiu aos espirros e ao mau-olhado da oposição sentada no Facebook. A câmara de Viseu costuma ser fraca em candidaturas a dinheiros europeus, espera-se que, desta vez, tenha havido competência e haja mesmo financiamento comunitário para ajudar a pagar aqueles eventos.
    Alunos e professores, pelo menos para já, deixaram-se de telescolas e recomeçaram aulas presenciais.
    A procura de papel higiénico está a crescer outra vez. No Reino Unido aumentou 23% numa semana. As cadeias de distribuição bem podem garantir que aquele aveludado produto não vai faltar. Essas juras não vão diminuir a procura e o fetiche por aquele papel macio enrolado. É que as pessoas passam cada vez mais tempo no WC, com os seus telemóveis e tablets, a produzirem e partilharem bosta na internet, como aquela invenção de que se forma um “nível tóxico” de CO2 dentro das máscaras que estamos a usar. Fake news tornadas virais por lelés-da-cuca sentados em sanitas.

    2. O verão estilhaçou os consensos iniciais sobre a pandemia. A segunda vaga da Covid vai abrir duas frentes de oposição aos governos: a dos que acham que as restrições sanitárias são de menos e a dos que acham que elas são de mais.
    Os números de infecções não param de aumentar. Aí vamos nós, mas não tão unidos como da outra vez.

    7 min
  • Ep25 | Sopradores-no-trombone, filmes e aleluias

    1. O julgamento de Rui Pinto vai ter uma testemunha marcante: o “whistleblower” Edward Snowden. 
    Entre nós, a palavra inglesa “whistleblower” (soprador-no-apito) costuma ser traduzida por “denunciante”, designação curta, poucochinha, se aplicada a Rui Pinto ou Edward Snowden. É que eles, quando botaram a boca no trombone, causaram sismos e cismas globais. 
    Para além das revelações sobre os negócios do futebol, o hacker português, com as suas Luanda Leaks, acelerou a ruptura entre o presidente angolano João Lourenço e o clã José Eduardo dos Santos. Para além disso, obrigou à higienização do capital de várias empresas portuguesas, num processo ainda em curso que está a consumir quantidades enormes de álcool-gel e produtos para branquear as cumplicidades lusas com Isabel dos Santos.
    Mas, claro, os feitos do novo “funcionário” da nossa Polícia Judiciária não podem ser comparados com o impacto e a força moral das revelações de Edward Snowden. Este provou que o governo norte-americano vigiava as comunicações de toda a gente, num programa maciço de intercepção de telefones e computadores em todo o mundo, incluindo de governantes amigos, como Angela Merkel e Dilma Rousseff. 
    Foi um sobressalto de consciência que obrigou aquele admirável soprador-no-trombone a trocar uma situação pessoal muito confortável pelo risco de vida e o exílio. 
    Snowden entregou os dados que desviou da Agência de Segurança Nacional (NSA) aos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras que, justiça lhes seja feita, fizeram com eles um trabalho impecável.
    Depois, com o prestígio e os prémios alcançados, Glenn e Laura fundaram a The Intercept. Esta publicação online, em 2017, não teve cuidado a proteger uma sua fonte anónima que lhe tinha feito chegar um relatório secreto sobre ataques cibernéticos russos. Desleixo que condenou uma jovem funcionária da NSA chamada Reality Winner (é mesmo esse o nome) a passar cinco anos e três meses na realidade perdedora de uma prisão.
    O grande Oliver Stone fez um bom filme biográfico de Edward Snowden. A história de Rui Pinto também tem potencial para um biopic. Já para a The Intercept aconselha-se uma comédia de enganos. Ou um filme de terror.

    2. Aleluia! Aleluia! Finalmente, esta semana, no dia 16 de Setembro, a câmara de Viseu  emitiu um comunicado sobre a situação da Covid-19 no concelho. Vale mais tarde do que nunca.

    9 min
  • Ep24 | Fake news e a peste em Viseu

    1. Nas redes sociais há muita gente que gosta de partilhar e consumir fake news desde que elas prejudiquem os seus adversários ou se sintonizem com os seus preconceitos. Mas, felizmente, a maioria das pessoas prefere factos e não aldrabices.

    Nos tempos que correm, já nada pode ser dado como autêntico logo à partida. É por isso que está a crescer o negócio da "verificação de factos". Ainda se consegue chegar à verdade, mas agora isso dá muito trabalho e ainda vai ser pior quando se começarem a espalhar os deepfakes, vídeos falsos onde um político, um vip, um cidadão comum, é posto num filme realista a fazer e a dizer coisas que nunca fez nem disse. 

    Este é o tema do livro "Fábrica de Mentiras, Viagem ao Mundo das Fake News", de Paulo Pena. O autor, jornalista do DN, não desistiu da verdade e recomenda-nos informação que seja proveniente de fontes identificadas e credíveis. 

    Para além disso, faz uma defesa fundamentada da liberdade de expressão: "ninguém pode, ou deve querer, policiar as publicações online, limitar o uso das plataformas aos seus milhões de seguidores, restringindo o direito ao disparate ou à opinião errada." 

    A opinião errada só valoriza a opinião baseada em factos. Querer censurá-la só lhe dá força. Força que, com frequência, é mais as vozes do que as nozes. 

    Por exemplo, Trump comandou uma campanha contra o Pacto de Marraquexe de protecção aos migrantes e refugiados, promovido pela ONU, e que foi assinado, em Dezembro de 2018, por 164 países, incluindo Portugal. Essa campanha xenófoba teve algum impacto em muitos países, mas, conforme um estudo do ISCTE, nas nossas redes sociais, ao todo, conseguiu... 198 tweets e 78 posts no Facebook. Um fiasco completo.

    Até isso mostra quanto é absurda a "polícia" da internet que a ministra Mariana Vieira da Silva quer arranjar.


    2

    No início de um comunicado divulgado na quinta-feira à noite, a câmara de Viseu reconheceu que já há transmissão comunitária do novo corona vírus no concelho, mas aquele documento tem muita conversa sobre o Cubo Mágico e nenhuma informação concreta sobre a Covid 19.

    Quantos casos? Quantos internamentos? Quantos doentes nos cuidados intensivos? Quantos em quarentena? Quantos testes? Que se passa nos lares? 

    A câmara sabe, mas não informa os munícipes. Não tem perdão.

    8 min

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