Olho de Gato

Olho de Gato

By Joaquim Alexandre Rodrigues | Jornal do CentroNewsNews Commentary
Download on the App Store

Olho de Gato episodes

  • Ep13 | Matrioscas de caras

    A paisagem humana mudou. Já não é carnaval, mas ninguém leva a mal por ainda andarmos mascarados. Toda a gente agora precisa de máscara e temos de aprender a reconhecermo-nos uns aos outros só através dos olhos.
    No mercado dos afectos, uns olhos bonitos agora fazem toda a diferença. O nariz, o desenho da boca, os dentes, já não são tão importantes. Há um meme que circula nas redes sociais que explica muito bem este “novo normal”. É um casal de namorados num banco de jardim; ele para ela: «mostra-me o nariz»; ela para ele: «só depois de casarmos».
    As máscaras são um mercado imenso. Vão dar muito dinheiro. O bicho corono conseguiu aquilo que os barbudos aiatolas nunca conseguiram. Chusmas de empreendedoristas (como se diz em economês), resmas de trafulhas, nuvens de criativos, está tudo na corrida para nos tapar a cara.
    A designer Danielle Baskin, de San Francisco, criou uma linha de máscaras N95 em que se pode imprimir o nariz, a boca e o queixo do proprietário. É à vontade do freguês. Esta máscara é uma cara sobre a cara. Se se fizer uma com cara a rir, e outra com cara séria, podemos alterná-las conforme o estado de espírito. Ou pôr uma sobre a outra, uma matriosca de caras. Espero ter explicado a ideia. Se pusesse aqui um gif da Danielle a tirar a cara da Danielle de cima da cara da Danielle, era mais fácil e este parágrafo ficava bem mais pequeno.

    Ao ver esta história lembrei-me da bancarrota da Argentina de 2001. Em 30 de Novembro daquele ano, o ministro da economia Domingo Cavallo decretou o corralito que congelou as contas bancárias. As pessoas ficaram sem acesso ao seu dinheiro. Em fúria, milhares e milhares de pessoas vieram para as ruas com uma máscara do odiado ministro e a baterem em panelas — o carecolazo -, uma tradição da política latino-americana. Houve tiros. Mortes. Pilhagens. Caos. 
    A 19 de Dezembro teve que ser declarado o estado de sítio. A multidão mascarada e de caçarolas na mão cercou a casa de Cavallo. Reza a lenda que o ministro só conseguiu escapulir-se pelo meio daquela turba porque levava posta uma das populares máscaras de si próprio.

    7 min
  • Ep12 | Elogio das tílias

    A circunvolução da terra em torno do sol produz hoje, 20 de Junho, o solstício — o dia mais longo no hemisfério norte, a noite mais longa no hemisfério sul.
    Entre nós, por causa da peste, estes dias grandes e estas noites pequenas não vão ter pimbas nos adros, nem martelinhos nas carolas, nem cavalhadas, nem sardinhas assadas nas ruas, nem marchas populares.
    Pensando melhor, mais vale não sermos muito peremptórios nesse “não-vão-ter”. É que, como se sabe, os humanóides têm relutância à social distância. É-lhes difícil resistir à pressa destas noites dionisíacas, noites propícias aos amores de verão e aos amores de todas as estações, noites de bebedeiras dos sentidos, noites que carpediam.
    Esperemos que não haja muitos contágios, que as sardinhas sejam assadas nas varandas e que se façam poucas actividades ao desabrigo das recomendações da dra. Graça Freitas.

    Indiferentes a estas inquietações e pulsões dos humanos, as tílias cumprem a sua vocação, como se diz num poema do viseense João Luís Oliva: “cheirar a tília é, afinal, o destino inexorável das tílias...” (Não se estranha a referência daquele amigo querido, cidadão do mundo, nascido na cidade das tílias.)
    As tílias nunca nos falham. Por alturas do solstício estão no seu perfume máximo. Mesmo neste ano desgraçado de 2020, o seu aroma consegue pituitar-nos através das máscaras cirúrgicas e das máscaras sociais, com griffe ou sem griffe.
    Aquela fragrância boa conseguiria, até, atravessar as “máscaras reutilizáveis” cujo envio a câmara de Viseu calendarizou para a “última quinzena de maio”, “por correio”, a “todas as habitações” do concelho. 
    Ainda não chegaram, mas releve-se mais este inconseguimento de António Almeida Henriques. Elas vão falhar o perfume das tílias do Rossio, mas darão para o das castanhas assadas, quando destas for o tempo. Isto se as prometidas máscaras chegarem a tempo, claro.

    6 min
  • Ep11 | O novo, o velho e o tempo

    1. O Ocidente já descolonizou há muitas décadas mas subsistem querelas sobre o seu passado colonial. É uma febre que se grudou a uma putativa “culpa do homem branco”, real ou imaginária, e que ora sobe, ora desce, mas não passa. Agora está outra vez a precisar de paracetamol. Estão a ser atacados símbolos coloniais em vários países. A polícia do Reino Unido já lhe chama “batalha das estátuas”.
    Mas olhemos para além da febre dos dias. O que fez esta semana decapitar a cabeça de uma estátua de Cristóvão Colombo, em Boston, não é diferente do que fez explodir, em 2001, os Budas de Bamiyan, no Afeganistão, e não foi o conflito colonial. O que deu origem àqueles dois casos é uma lei humana implacável: o novo quer substituir o velho, ou a bem ou a mal. Quando é a bem costuma chamar-se-lhe “progresso”, mesmo que cause muito mal. Quando é a mal, como em Boston e no Afeganistão, chama-se-lhe barbárie.
    Nada, nenhuma estátua, nenhuma fortaleza, nenhuma casa, nada vai sobreviver à acção destrutiva do novo e do tempo. Quando não é o novo a aniquilar o velho, o devir implacável dos anos e dos séculos faz esse serviço. 
    O novo e o tempo ganham sempre. E só há duas maneiras de lhes atardar a vitória — através da memória e do trabalho. Lembrar e trabalhar são o calhau que o homem/Sísifo está condenado a arrastar pelo monte do tempo acima.

    Já uma vez escrevi isto aqui, quando Fernando Ruas quis mas não chegou a ter tempo para demolir um bairro de casas pequenas junto à cadeia de Viseu.
    Depois, como António Almeida Henriques apostou tudo no “imaterial”, aquelas casinhas acabaram por resistir. Isso foi bom. Pelo menos para já, foi adiado o que a barbárie do “progresso” ou a ruína do tempo lhes há-de fazer.

    2. A forte candidatura socialista de João Azevedo à câmara de Viseu só acontece porque já é evidente para toda a gente o fiasco dos sete festivos anos de “política imaterial” do actual presidente.
    O próprio António Almeida Henriques já percebeu esse falhanço e mudou de conversa. Agora, em todas as oportunidades mediáticas, desdobra-se em anúncios e mais anúncios de obras físicas, a fazer algures no futuro. 
    O problema é muitas destas promessas parecerem coelhos tirados à pressa da cartola. Por exemplo, o autarca de Viseu acaba de anunciar um mercado novo para daqui a dois/três anos, mas, ao mesmo tempo, teve que confessar que não sabe quanto é que ele vai custar e nem tão pouco tem o projecto pronto. 

    6 min
  • Ep10 | Monotarefas

    1. Ainda Sócrates era primeiro-ministro, escrevi aqui um texto intitulado “Multitarefas”, em que defendi esta coisa muito simples — nós somos capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
    Dei até exemplos: um homem apanhado no IP3 a 160 à hora e a fazer a barba; uma mulher a levantar dinheiro num multibanco, a comer um croissant e a falar ao telemóvel.
    Naquele texto, a minha tese era que os eleitores não se baralhavam se tivessem de votar no mesmo dia várias eleições ou vários referendos (infelizmente a lei continua a não deixar que isso aconteça) e que os deputados, numa manhã, eram capazes de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (felizmente pouco depois foi legalizado) e ainda lhes sobrava o resto do dia para tratarem de outros assuntos.
    Relido onze anos depois, percebo que aquele texto bem-humorado tinha alguns pés-de-barro. A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo não é universal: as mulheres são multitarefas, os homens nem por isso. Pior: debaixo de muita pressão, viramos todos monotarefas, só conseguimos dar atenção a um, e só um, problema.
    A peste é um bom exemplo desse afunilamento: os serviços de saúde em todo o mundo mobilizaram-se para o combate à Covid-19 e descuraram tudo o resto, o tratamento das doenças crónicas, até a vacinação das crianças.
    Esta semana, na TVI, Pedro Santos Guerreiro lembrou mais um exemplo deste só-uma-coisa-de-cada-vez: em 15 e 16 de Outubro de 2017, o país foi varrido por um incêndio devastador; dois dias depois, foi consumada a venda do Novo Banco à Lone Star. O primeiro desastre, de tão violento, não deixou que déssemos a devida atenção ao segundo.

    2. Em Viseu, na Quinta da Cruz, está patente ao público uma exposição minimalista de Pedro Cabrita Reis, com néons e fios ao pendurão, designada I Dreamt Your House Was a Line.
    Antes de a ter ido visitar, fiz uma navegação prévia na internet pelo universo mental que deu origem àquilo: pus-me a ver os tubos fluorescentes do genial artista norte-americano Dan Flavin.
    Fiz mal. Devia ter trocado a ordem. Primeiro avia-se o mau e deixa-se o bom para o fim.

    7 min
  • Ep9 | Todo o pelado vira relvado

    1. Deambulando pelas nossas lindas e despovoadas terras beiroas, encontramos ao abandono, e em sítios desusados, muitos campos de futebol e parques de merendas. 

    Os campos de futebol de que falo são antigos, costumam estar prantados na margem de um rio ou num planalto eólico, longe de casas, e percebe-se que há décadas que não são pisoteados por nenhuma chuteira. São de um tempo em que os autarcas ainda não tinham descoberto o cimento dos polidesportivos, com rede altaneira à volta, junto às aldeias ou aos bairros. 
    Quando reparo nas balizas ferrugentas de um campo destes, agora só útil a rebanhos pastadores, costumo parar para o fotografar. Já publiquei nas redes sociais algumas dessas fotografias com a seguinte legenda: “com o tempo, todo o pelado vira relvado”. 

    Os parques de merendas são de um tempo posterior. São uma obra pública barata, jeitosa para inaugurar pelos senhores presidentes da junta em ano eleitoral. Já estiveram mais na moda — agora o que está a dar é passadiços e percursos pedestres que dão resposta, pelo menos para já, a uma evidente procura das pessoas. 
    Já os parques de merendas, alguns equipados até com churrasqueiras, nunca tiveram grande uso público. Passados os primeiros tempos de novidade, naqueles amesendados de granito nunca mais pastéis de bacalhau, nunca mais coxas de frango. E, desgraça das desgraças, nunca mais tintol. Só abandono. Musgo. Líquenes. E, nos senhores presidentes da junta seguintes, giestas e silvas. 
    Com o tempo, tudo vira mato.

    2. Ora, como os desgraçados incêndios de 2017 nos mostraram, o mato mata. Por isso, o governo impõe que ele seja limpo à volta das casas até 15 de Março. 
    Problema: este prazo é estúpido. Cortado tão cedo ele torna a crescer outra vez antes que chegue a época dos incêndios.
    Este ano, por causa da Covid-19, o prazo foi prolongado até ao fim de Maio. Foi uma decisão sensata. A peste que se vá de vez. E o novo prazo que fique.

    7 min
  • Ep8 | O eleitorado de Trump

    Em 28 de Fevereiro, dediquei aqui um texto às presidenciais norte-americanas em que justifiquei o voto jovem em Bernie Sanders e deixei para um Olho de Gato futuro a descrição da racionalidade do voto que elegeu Donald Trump.
    Vai ser hoje. Os entre-aspas que se seguem provêm do livro “Onde Estamos? Uma Outra Visão da História Humana”, de Emmanuel Todd.

    A globalização, criada e impulsionada pelos Estados Unidos, tornou-se uma história de sucesso na Ásia, começa a apresentar também alguns bons indicadores na África, mas aumentou a desigualdade económica, a precariedade e a insegurança social no ocidente.
    É o caso dos brancos norte-americanos com baixa escolaridade que se viram sujeitos a dois factores de stress simultâneos:
    — perderam empregos bem remunerados à medida que as fábricas eram deslocalizadas para países de mão-de-obra mais barata;
    — cresceu neles uma “insegurança territorial” à medida que, no seu país, a percentagem de habitantes nascidos no estrangeiro passava de 5 para 16%.
    Já se sabe: um caldeirão assim produz ressentimento, remexe directamente na “base primitiva da democracia, a sua necessidade de um Outro e portanto da xenofobia”. Para eles a América não era great, para eles a América só seria great again com as fábricas de volta e o muro de Trump.

    Mas há pior. Estudos de Anne Case e Angus Deaton, da Universidade de Princeton, mostraram um fenómeno demográfico único. Enquanto a esperança de vida aumenta em todo o lado, nos EUA, entre 1999 e 2013, houve “uma subida da mortalidade no seio da população branca com idades compreendidas entre 45 e 54 anos”, cujas causas “são claramente de ordem psico-social: envenenamentos, alcoolismo e suicídio”. “Os condados directamente afectados pela concorrência chinesa no plano industrial viram a sua taxa de mortalidade aumentar”, sendo “o suicídio mais do que o envenenamento” a causa principal deste aumento de letalidade. 
    Não admira que estas pessoas — a quem a sobranceria de Hillary Clinton chamou  “deploráveis” — tenham votado no isolacionismo de Trump. 
    O candidato democrata Joe Biden precisa de ter respostas políticas que tragam esperança a estes “vencidos da globalização” se quiser ganhar em Novembro.

    14 min
  • Ep7 | A chata da curva

    1. Neste ano da desgraça de 2020, durante dois meses, toda a gente esteve empenhada a achatar a curva das infecções e a arredondar a curva abdominal.
    É que todos aqueles pães caseiros e bolos produzidos nas nossas cozinhas não serviram só para fotografar e prantar nas redes sociais. O pão quentinho com manteiga foi sendo devidamente mastigado enquanto Rodrigo Guedes de Carvalho debitavaconselhos e se filmava a lavar as mãos. As tartes e as sericaias lá foram escorregando enquanto Paulo Portas mostrava gráficos e discorria sobre geo-estratégia.
    O oblívio há-de aliviar-nos das prédicas do primeiro, a memória há-de reter alguma coisa das análises do segundo. E, claro, os ginásios e as dietas hão-de reparar os outros estragos, não pensemos neles, pelo menos para já.
    A curva das infecções nunca mais achata, a chata. Os últimos relatórios da Direcção-Geral de Saúde têm sido maus. Esperemos que a actual “situação de calamidade” — em que o povo parece mais solto e descuidado — não estrague o que o “estado de emergência” conseguiu.
    Atestemos os carros enquanto o combustível não começa outra vez a subir. Usemos máscaras, já vai havendo algumas com griffemas são poucas, por enquanto as máscaras são democráticas, igualizam os ricos e os pobres.
    O vírus ainda não nos deixa aprochegar, mas podemos olhar-nos, os olhos são as janelas da alma, pelos olhos reconhecemo-nos uns aos outros.
    Não tarda nada estão aí os santos populares. Vamos ter que perguntar aos vizinhos se não se importam que assemos sardinhas na varanda. E pimentos para os consumos veg.
    Maldito vírus. Cuidado. Achatemos a chata da curva.

    2. Durante o período mais crítico da Covid-19, o presidente da câmara de Viseu foi um zombie político. 
    Informação ao munícipes sobre o evoluir das infecções no concelho? Zero.
    Preço da água das famílias? Euros de aumento, cêntimos de desconto.
    Testes nos lares? Só depois de um empurrão do governo e da CIM.
    Máscaras? Prometidas estão, mas por enquanto as pessoas que se desenrasquem.
    Os viseenses não podem contar com o município quando a adversidade lhes bate à porta. Os actuais inquilinos do Rossio só se mexem para festas e festinhas.

    9 min
  • Ep6 | De sobressalto em sobressalto

    A quem ainda duvidava das teorias do caos, a quem descria que o bater de asas de uma borboleta na serra da Arada pode causar um tufão nas Caraíbas, lembremos este facto recente: o esvoaçar de um morcego num mercado da China aumentou a venda de lixívia no país de Trump. 
    Portugal, que dá às asas pelo mundo fora há quase nove séculos, também tem tido a sua dose de sarilhos. Ainda não tivemos terror jiadista, mas nos últimos anos andamos de sobressalto em sobressalto: a bancarrota (2011/2014), os incêndios (2017), o sindicato do Pardal e os combustíveis (2019). E, este ano, a peste. 
    O tsunami global da Covid-19 vai ficar marcado nas memórias de todos, ricos e pobres, novos e velhos. Descobrimo-nos frágeis, o nosso mundo dependente de um espirro, tudo a abanar, o emprego, as certezas, os pequenos e grandes projectos. Tivemos que aprender que raio são crescimentos exponenciais, como lavar mãos, higienizar superfícies, quarentenar compras, perceber o menu da Netflix, burquizar o rosto, não levar as mãos à cara por maior que seja a comichão. 
    Durante esta desgraça, o “eu” hipermoderno, cheio de manias e nariz empinado, apequenou-se, pelo menos para já. E o “nós”, que sabe que todos dependemos de todos, engrandou-se, pelo menos para já. 
    Seria bom que fossem dadas condições a este “nós” para se agregar em colectivos de gente comum, gente livre, gente de trabalho, gente capaz de reconstruir o que o vírus destruiu. 
    Seria bom que fosse assim mas, infelizmente, não vai ser. 
    Os dinheiros que hão-de vir da “Europa” vão ser controlados pelas burocracias, os rentistas e as clientelas. A Covid-19 empobreceu-nos, tirou-nos liberdade e pôs-nos ainda mais dependentes do Estado. 
    Esta pobreza e dependência vai ser um paraíso para os populistas de esquerda e de direita.

    9 min
  • Ep5 | Murmúrio

    Este texto sai no dia da liberdade, 25 de Abril. Liberdade que nos foi tirada pelo SARS-CoV-2, esse não-ser que nos fechou em casa e pôs a nossa vida em pantanas.
    Já se sabe, temos de continuar a manter “distância social”, mas isso dói-nos. É anti-humano. É contra-natura. Nós, os sapiens, somos gregários, pelamo-nos por multidões, adoramos ajuntamentos — exactamente aquilo que agora não podemos nem devemos fazer. 
    Confinados, quarentenados, em teletrabalho ou não, vamos fazendo muita comunicação electrónica: 
    — regressou a Telescola, para alegria do eduquês centralista que sempre quis todas as escolas, de norte a sul, a darem o mesmo, à mesma hora; eduquês centralista que sonha em retirar de vez o controlo pedagógico aos professores e secundarizá-los; 
    — mergulhado numa profunda crise, o sector criativo distribui arte à borla em streaming, o que é um imenso e desesperado tiro-no-pé;
    — os jornais abandonam os formatos tradicionais e sofreguizam-se por cliques, partilhas nas redes sociais e pop-ups publicitários irritantes;
    — as redes sociais têm ainda mais clientela;
    — na comunicação não pública, multiplicam-se os chats e os telefonemas, agora mais em vídeo do que em audio. 
    Não há aqui surpresas. Como explica Yuval Noah Harari, “as capacidades linguísticas que os modernos sapiens adquiriram há cerca de 70 milénios” permitem-lhe “tagarelar horas sem fim” e que, “mesmo hoje, a grande maioria da comunicação humana — seja sob a forma de e-mails, telefonemas ou artigos de jornais — é composta por mexericos.” Estes mexericos são vitais, permitem-nos ir destrinçando quem é, e quem não é, de confiança e se não podem ser feitos presencialmente são feitos à distância. 
    Só que estes sucedâneos virtuais sabem a pouco. Faz-nos falta o dizer cúmplice boca-orelha. É-nos vedado o, como diz Umberto Eco, “único e verdadeiramente poderoso meio de informação”: o murmúrio. 

    Esta peste há-de passar. 
    Na que virá a seguir a esta — porque, depois desta peste, há-de vir outra — em vez de vídeos haverá hologramas ou outra figuração tridimensional qualquer. Mas os nossos filhos e os nossos netos vão sentir, na mesma, a falta do olhos-nos-olhos. 
    E do murmúrio.

    7 min
  • Ep4 | Esperança de vida

    Este gráfico mostra-nos que a esperança de vida no mundo, entre 1800 e 1910, manteve-se sem grandes alterações entre os 30 e os 33 anos. 
    A guerra 1914-18 (9 milhões de mortos), logo seguida da gripe pneumónica (50 milhões de mortos – 2,7% da população mundial de então) trambolharam aquele índice de 33 para 23 anos. Em 1920, um bebé-sapiens podia esperar viver 23 anos, decorrido um século prodigioso essa expectativa mais do que triplicou e ultrapassa agora os 72 anos. 
    Este indicador de longevidade não subiu sempre ao longo do século XX. Infelizmente, como se vê no gráfico, houve ainda mais duas grandes “pneumónicas”, causadas não por vírus mas por humanos:
    — a guerra de 1939-45 (70 a 85 milhões de mortos); 
    — a grande fome na China (em que o experimentalismo político de Mao Tsetung terá causado 36 milhões de mortes). 
    No seu monumental “Lápide - A Grande Fome Chinesa, 1958-1962”, o veterano jornalista Yang Jisheng, depois de ter acedido a arquivos secretos do partido comunista chinês, calcula que tenham morrido à fome 36 milhões de chineses.
    O desespero fez com que os chineses comessem tudo o que mexia. O livro faz relatos terríveis de técnicas para apanhar ratos, de episódios generalizados de canibalismo.
    Foi esta fome trágica que fez nascer na China o mercado de animais selvagens. Essa actividade acabou por sobreviver até aos nosso dias, agora já não para matar a fome dos pobres mas para dar resposta a uma procura “gourmet” (chamemos-lhe assim) de ricos. 
    Foi num mercado desses animais, em Wuhan, que o actual SARS-CoV-2 terá migrado para os humanos e, à hora que escrevo, pôs nos cuidado intensivos 51.092 pessoas, matou 135.569 e estes números trágicos continuam a subir. 
    Contudo, não percamos a perspectiva: esta ameaça viral conseguiu fechar-nos em casa angustiados, mas, ao contrário da pneumónica, não vai conseguir fazer baixar a gloriosa linha ascendente do aumento da esperança de vida dos humanos.

    Proteja-se. Fique em casa o mais possível. Esta peste há-de passar.

    8 min

About Olho de Gato

From the publisher's feed

Uma conversa aperitiva para descobrir o tema da crónica da semana com assinatura de Joaquim Alexandre Rodrigues