Olho de Gato

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By Joaquim Alexandre Rodrigues | Jornal do CentroNewsNews Commentary
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Olho de Gato episodes

  • Ep3 | A grande corrida ao papel higiénico

    Mesmo antes de se saber se o SARS-CoV-2 ia deixar, ou não, que houvesse Jogos Olímpicos, já estava a acontecer em todo o mundo uma prova atlética muito dura e competitiva: a corrida aos rolos de papel higiénico. O tiro de partida foi dado na Austrália, mas aquela corrida de obstáculos espalhou-se por todos os continentes ainda mais depressa do que a pandemia. 
    A galhofa nas redes sociais foi mais que muita. A saudade dos velhos bidés, não inclusos em muitas casas modernas, ainda maior. 
    Ninguém percebeu o que é que a Covid-19 tem a ver com aquele papel macio enrolado. Mas factos são factos: o papel higiénico é dos produtos mais atreitos a avarias nas cadeias de abastecimento dos países com economia de mercado e a desaparecimento total nos países comunistas. 

    No final de 1973, houve uma pânico destes nos EUA. Zachary Crockett, num texto intitulado “O grande susto do papel higiénico de 1973”, publicado no Priceonomics, explica o acontecido.
    Tudo começou quando um lunático congressista do Wisconsin, eleito por uma circunscrição hiperflorestada (uma espécie de Mortágua lá do sítio), afirmou, sem base factual nenhuma, que a central de compras federal estava a adquirir papel higiénico abaixo das necessidades das tropas e dos burocratas norte-americanos e que aquele produto ia faltar. 
    Um assunto destes é, por definição, piadético. Portanto, Johnny Carson (uma espécie de Ricardo Araújo Pereira lá do sítio) não resistiu a gozar aquele prato no seu programa visto por dezenas de milhões de telespectadores. 
    Resultado: no dia seguinte, o povão correu às lojas e esgotou o papel higiénico, os preços dispararam, foram precisos quatro meses para o abastecimento normal ser restabelecido.

    Já os países comunistas, como se sabe, não são bons em abastecimento do mercado, mas os seus povos são fortíssimos em piadas sobre prateleiras vazias. Em Junho de 2016, num Olho de Gato intitulado “Papel higiénico”, contei aqui algumas. Eis uma que circulava na antiga Polónia comunista:
    Um cliente chega a uma loja e pergunta: «Você não deve ter manteiga, pois não?»
    Resposta da empregada: «Desculpe, a loja do lado de lá da rua é que não tem manteiga; nós não temos é papel higiénico...»

    6 min
  • Ep2 | Nogales

    Nogales é uma cidade partida ao meio por um muro, a parte norte pertence ao Colorado/EUA e a parte sul pertence a Sonora/México. 
    A parte norte-americana tem um rendimento per capita de 30 mil dólares, as pessoas têm pelo menos o secundário, há uma boa esperança de vida e bons serviços públicos. A lei é respeitada e há pouco crime.
    A Nogales mexicana tem um terço do rendimento dos seus vizinhos do norte, escolaridade baixa, grande abandono escolar na adolescência, menor esperança de vida, serviços públicos deficientes, muita criminalidade e corrupção.  
    Como ambos os lados têm antepassados comuns e a mesma cultura (Nogales foi mexicana até 1853), como explicar este fosso? Como pode haver uma esperança de vida desigual? É que “não há qualquer diferença no que se refere à geografia, clima ou tipos de doenças prevalecentes na zona, uma vez que não há qualquer restrição que impeça os germes de atravessarem, nos dois sentidos, o espaço entre os Estados Unidos e o México.” 
    As causas desta disparidade encontram-se nas instituições e nas elites dos dois países, conforme explicam Daron Acemoglu e James A. Robinson em “Porque Falham As Nações”, de onde provém tudo que escrevi até agora. 

    Ora, aqueles autores não podiam imaginar que, sete anos depois de terem escrito este livro, um “germe” chamado SARS-CoV-2 se ia transformar num boomerang aos espirros em cima da xenofobia trumpista. 
    É que, ao contrário dos EUA, o México tem ainda poucos casos de Covid-19 e, por isso, Nogales apareceu em todos os noticiários do mundo quando centenas de pessoas que vivem do lado pior bloquearam a fronteira para não serem invadidas por gente que vive do lado melhor. 
    Não há aqui nenhuma lição de moral, claro. O vírus tem-se encarregado de demolir todas as certezas, a começar pelas bravatas dos políticos. E, nesta matéria, López Obrador, o presidente mexicano, não tem ficado atrás de Donald Trump.
     
    Fique, o mais possível, em casa. 
    Veja, ou reveja, o tiquetaque dos 3'22'' do plano-sequência inicial de “A sede do mal”, de Orson Welles, passado na fronteira entre o México e os EUA. Ou, melhor ainda, veja o filme todo.
    Leia livros, este que deu origem a esta crónica é um bom explicador do mundo. 
    Esta peste há-de passar.

    6 min

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Uma conversa aperitiva para descobrir o tema da crónica da semana com assinatura de Joaquim Alexandre Rodrigues