Faz-se necessário transformar ficções: abrir o canal de comunicação entre as intempéries históricas e assentar novas narrativas. Um dos caminhos passados através das folhas é dobrar tempo-espaço. Provoca-se, através da recepção das escavações pelos ouvidos, ativações de memória.
Espero que na medida do possível você se encontre bem e forte. Lhe escrevo enquanto um convite para falarmos de caminhos. Em meio ao movimento diário de trazer seiva às raízes-corpo, vamos fazendo do encontro o impulso para fertilizar a Terra. E isso é impossível fazer só: a cura é coletiva ou não é. Como criamos formas de estar na terra a partir de uma perspectiva de não-exploração? Como nos ajudamos a nos lembrar dos apagamentos da Invasão Brasil? Como produzimos saúde a partir da união, da criação, dos conhecimentos passados através dos tempos?
Kessia Daline: Sou mulher indígena tocantinense residente no DF, assistente social, formada pela Universidade de Brasília (UnB), ativista indígena, cantora e compositora. Desde 2019, venho estudando, desenvolvendo e experimentando trabalhos na área da performance e pintura. A arte para mim é uma forma de mostrar minha perspectiva do mundo, enquanto mulher indígena, de lutar pelas pessoas oprimidas, de expressar o que sinto de formas diferentes. Utilizo da minha voz para fortalecer também o coletivo e honrar a minha caminhada aqui, permitida por minhas ancestrais. Realizo trabalhos como modelo fotográfica, firme que meu corpo e minha arte é protagonismo e representatividade de histórias plurais e que foge do padrão vigente na sociedade como um todo. Na caminhada, já fiz palco desde a rua à lugares como o Memorial dos Povos Indígenas, Unibess Cultural- SP e em casas de cultura pelo país. Já fiz participação em uma peça de teatro, onde aflorei e venho desenvolvendo mais a minha relação com a escrita livre e sou contadora de histórias, trabalhando com o público infantil. Ressalto que para mim, a arte que desenvolvo me faz sentir viva e útil na sociedade, cumprindo minha missão que foi deixada pelas minhas antepassadas e que irei deixar como um legado para as próximas gerações.
Morena é artivista de rua e permeia em todo espaço que há sopro para o fazer. É poeta, artista visual, produtora cultural, educadora social, fotógrafa e caminha por outras linguagens, as quais mistura em suas criações. Define sua feitura, a arte, como um mecanismo sociopolítico de comunicação e educação, e é nesse movimento que vem traçando sua caminhada enquanto artista. Radicada em São Sebastião-DF, é de origem Pataxó, do extremo Sul da Bahia e como caminhante, observa como a rua é palco de luta e nela realiza seu trabalho, com a confiança deixada por suas ancestrais de que unir e reunir é o caminho de volta para casa.
Descreve suas ações e performances em um lugar de levar informações aqueles que carecem delas através da arte.
A artista indígena teve sua primeira publicação no final de 2019, pelo coletivo Aua editorial. O livro chamado Id(entidades), mescla prosas poéticas, poesia e brinca com a visualidade do leitor, contando também com a participação de suas primas, Amarú Pataxó e Isa Santana. Atualmente trabalha na 2ª Edição do livro Id(entidades) junto com a editora Pachamama.
Projeto desenvolvido no contexto do programa de residências Pivô Pesquisa 2021 Ciclo I.