Queria ter uma ter uma memória exata do dia que ganhei esse disco.
Como não tenho, farei o exercício de reinventar. Era um sábado. Meu pai chegava em casa no carro preta que ele tinha, um Honda Civic velho, empoeirado. Abriu a porta sorrindo: “Galogo!” era como me chamava. “Tenho uma surpresa pra você! Esse é um dos maiores discos da história da Música Brasileira e agora saiu em CD!”. Entramos no carro e fomos passear pela cidade , escutando o álbum. Ao final, comemos uma batata frita fria, a melhor que tem, em um bairro bem distante, chamado memória. Não foi bem assim ou pode ter sido exatamente assim. Mas o sentimento é esse. Memórias nada mais são que ficções do que fomos, ou somos.
A emoção trazida pelo presente de meu pai sobreviveu muito bem. Depois de escutar Paulo César Pinheiro, Márcia e Eduardo Gudin, minha vida nunca mais foi a mesma. Minha concepção de poesia, música e arte, em geral, mudou completamente. Aprendi com esse disco intertextualidade e, mais profundamente, sinestesia: passei a ver poesia e música como representações da mesma força motriz e, ainda hoje, quando fecho os olhos, cada centímetro, mililitro, grau ou quilograma desse disco remetem a uma forma, uma cor, um cheiro.
O ato que Paulo César Pinheiro idealizou, de fundir a frio música e poesia em uma molécula só, passou a ser minha meta na hora de fazer arte. Escute “O importante é que nossa emoção sobreviva” de olhos fechados, mas escute com sangue no olho.
Deixe o sangue da alma escorrer como lágrimas. Permita que essa obra desperte sua verdade interior e consuma com beleza os dias concretos do seu escritório, do seu quarto, da sua cidade.
Daniel Kijirney