— tíbios, inúteis, apócrifos —
sem prédica que os conforte.
Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
entre as tábuas do sarcófago.
Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,
não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
De quem foram tais despojos
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?
Onde andaram? Em que solo
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?
Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,
tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,
nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
lascívia, miséria e glória,
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
do que, no futuro, aflora?
para atestar esse cogito,
alheio a qualquer prosódia
ou língua em que se desdobre
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e o que morre?
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.
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