E acaso existirão os brasileiros? No 23º episódio do Política ao Quadrado, o professor titular de literatura da UERJ, historiador e pesquisador João Cezar de Castro Rocha parte do poema “Hino Nacional”, de Carlos Drummond de Andrade, para falar sobre os dilemas da constituição do Brasil enquanto nação. A pergunta corta na nossa carne, na medida em que ainda não fomos capazes de abraçar os nossos. Segundo o acadêmico, a conciliação da democracia com a justiça social é mais que uma tarefa, trata-se da decisão entre ser uma nação ou deixar de ter um país.
O papo rendeu e o programa foi dividido! A segunda parte da conversa vai ao ar nesta quinta-feira (24). O professor aprofunda sua análise sobre o fenômeno do bolsonarismo. Ele trata da guerra cultural do governo, com estratégias de criação de notícias falsas e de narrativas polarizadoras e conspiratórias. E ainda revela sua angústia com outubro de 2022. A tarefa agora, segundo ele, é não abrir mão da nossa democracia.
Neste episódio, Castro Rocha relembra as 500 mil mortes de compatriotas durante a pandemia e questiona o fato de tal luto não ser capaz de mobilizar uma nação inteira. Ao lembrar nossos dilemas de origem, o professor mostra que o Brasil surge a partir da exclusão secular e sistemática do outro: discussões oficiais se indígenas possuíam alma, durante o Brasil colônia; o esboço da nossa economia e sociedade a partir da escravização de corpos; a segregação de analfabetos na instituição da República, a partir da negação do voto. A negação radical do outro seria também o esteio filosófico do bolsonarismo, em que “só há o eu, os que me são próximos e todos os outros são reduzidos ao papel de inimigos que devem ser eliminados”.
O conflito na ordem do dia
O professor pede que as lideranças políticas enfrentem, de forma democrática e propositiva, os dilemas da formação social brasileira. E fala da necessidade de um conflito aberto (que não é violência simbólica ou luta física) em vez de “conciliações macunaímicas”. Castro Rocha ainda traz uma crítica ao governo Lula, que teria desperdiçado oportunidades de promover reformas.
O pesquisador deixa claro que o país criou estruturas de transferência de renda para pequenos grupos e que não podemos mais pedir sacrifícios de quem já é sacrificado há séculos. O projeto brasileiro de nação, na visão do pesquisador, passa pela progressividade do imposto de renda e pela taxação de grandes fortunas. E clama aos bancos, ricos, milionários e grandes empresas: “não criem fundações com nomes de família, não façam fundações, paguem impostos!”.
Queremos continuar a viver em um país onde a desigualdade é a estrutura da nossa formação social? Neste sentido, o professor revela que não deveria importar à esquerda democrática a busca pelo poder como substantivo - o aparato e os benefícios que a estrutura traz. O poder deveria ser visto enquanto verbo, capacidade de agir para transformar.
Quem faz o quadrado? O Política ao Quadrado é o podcast de primeira que vai ao ar toda segunda. A produção independente tem apresentação de Lívia Carolina e Caio Barros, técnica e vídeo por Kauê Pinto, edição e mixagem de Brunno Rossetti e produção de Germano Neto.
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