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Durante bastante tempo, eu tenho falado sobre os princípios da escrita lenta – dos efeitos que o tempo, a paciência e a depuração exercem sobre sua prosa. Mas se é verdade que não podemos constranger o tempo da criação ao tempo da produtividade, também é verdade que, em nome da paciência e da calma, você pode ser engolfado pelos seus próprios escrúpulos, distrações e desvios no processo de escrita do seu romance.
Não é à toa que mestrandos e doutorandos nas universidades separam alguns meses no final do prazo para concluir uma obra – sua tese ou dissertação.
Um prazo de fato nos ajuda. Ele nos dá foco. Ele cria um propósito ligado à gratificação: você tem um fim e uma finalidade em vista. E isso é muito bom.
Também sei que concluir um original – ainda que a primeira versão dele – é o que de fato ensina a escrever.
Não aprendemos nada sobre algo enquanto não chegarmos ao ponto final.
É por isso que quero lançar um desafio para você. O seu livro em 100 dias.
Meu programa de escrita se chama, não à toa, Festina Lente, o latim para "Apressa-te Devagar". É a ideia de sintonizar um ritmo – subjetivo e objetivo – à prática literária.
Quero te convidar para o VeRo – O verão do romance – 100 dias. 500 palavras por dia. Um primeiro rascunho.
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#147 – Você sabe: o vício da nossa era são as telas. Eu, como a maioria, passo mais tempo diante de um celular do que seria razoável.
Fui verificar: 4 horas e 10 minutos por dia. São quase 30 horas semanais. É uma jornada de trabalho dedicada às Big Techs, que investiram volumes vultuosos (retirados de nós, é claro) para tornar a “experiência mais imersiva”. Trinta horas semanais que poderiam ser dedicadas ao convívio, à contemplação, ao descanso dos olhos e do pensamento, ao devaneio puro e simples. Ou à escrita e à leitura.
Fui fazer essa conta. Se eu dedicasse metade desse tempo aos livros – que é o que eu fazia quando era mais jovem – 15 horas vezes 25 páginas por hora – isso renderia a leitura de mais de 70 livros por ano.
Eu, que já leio por volta de quarenta livros por ano, fico imaginando: imagine o efeito que isso teria sobre a nossa criatividade, o nosso repertório, nossa familiaridade com a língua. É o que temos sacrificado – é uma capacidade cognitiva, afetiva, social que está fazendo falta diante dos desafios de um tempo como um nosso.
Será que a melancolia, a lentidão de pensamento, uma certa confusão mental, uma dificuldade em tomar decisões, em ser assertivo, não estaria ligado ao excesso de tela? Não seria esse O remédio para muitos dos nossos males?
Fiz um experimento. Resolvi bancar o desafio. Durante dez dias, procurei trocar o tempo de tela por mais tempo de página. Mais especificamente, de duas a três horas por dia.
Confira como foi ouvindo o novo episódio do Prelo!
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#146 – Quem diria: o role-playing-game está voltando.
Na verdade, ele nunca foi embora de todo. Na pandemia, enquanto alguns assistiam a lives de banquinho & violão, outros se distraíam com transmissões ao vivo de longas campanhas fantásticas, onde elfos, druidas, anões e paladinos partiam em missões super arriscadas, masmorras adentro.
É um universo imenso, que envolve cartões, tabelas e tabuleiros, um álbum de lembranças nostálgicas dos anos oitenta e noventa cheias de anglicismos – The Legend of Zelda, Final Fantasy, Ravenloft, DarkSun, Dragonlance –, e inclui dados de vinte lados, miniaturas que foram de chumbo e hoje são impressos em resina. Os livros que se desdobram desses universos são verdadeiros catataus e costumam andar em série. Quem curte fantasia lê, e lê muito.
Para muitos de nós, antes da grande literatura havia um outro mundo que nascia da infância e se expandia em universos fantásticos, míticos e utópicos. Mais real que a realidade, ele carregava as contradições desta. Mas não ligávamos para isso. Ela bebeu do faz-de-conta, da inocência, mas também do teatro, do desenho, da História e das mitologias. E hoje ele é uma diversão não apenas para meninos adolescentes, mas para gente de todo gênero e idade.
No papo dessa semana, conto um pouco como o RPG – mais especificamente, exercer o papel de DM (Dungeon Master) me ajudou a começar a escrever, e em que medida o retorno da fantasia pode te ajudar a escrever os seus livros.
Na segunda parte do episódio, a gente vai falar sobre um traço dos personagens e que é, ao mesmo tempo, um traço humano: a agressividade em sua relação com o conflito na trama. E vamos, para isso, fazer uma análise da trama de "O senhor das moscas", clássico de William Golding. Sem dar nenhum spoiler, prometo.
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#145 – Há poucos dias, voltei de uma viagem a Dublin, na Irlanda, onde fui convidado para falar sobre o meu livro novo, ainda inédito. O International Dublin Writers Festival durou um fim de semana, e foi realizado na Trinity College, uma universidade fundada em 1592, por onde passaram autores como Bram Stoker, Sally Rooney, Samuel Beckett e James Joyce.
Foi muito bacana falar em voz alta sobre o tema de um projeto que tem me ocupado há anos, e ainda por cima numa língua estrangeira. E foi igualmente interessante uma certa impressão de como os europeus e norte-americanos falam da literatura, discutem a publicação e perceber as diferenças e semelhanças conosco. Pensei em contar um pouco dessas diferenças para você.
O tema do ciclo foi “O futuro das histórias”, e discutiu-se amplamente alguns dos meios alternativos de narrativa. Na cidade que celebra os livros clássicos em pubs, parques, museus e murais – participei de conversas sobre narrativas em video-games, audiotours ficcionais, podcasting e, claro, da infiltração da famigerada inteligência artificial no meio literário. Pude falar com alguns dos maiores agentes literários do Reino Unido e dos Estados Unidos, e sendo o único autor latino-americano do evento, dei uma de agente infiltrado, e quero contar para você o que ouvi.
Hoje eu quero conversar com você sobre o jogo infinito da literatura. Como a gente pensar grande na hora de escrever? E, inversamente, como podemos pensar pequeno no processo de escrita?
Na segunda parte do episódio, falo sobre o que fazer quando terminamos de escrever um livro:
✅ Vamos conversar sobre a ansiedade da conclusão, e de como manejá-la.
✅ Das diferenças entre a primeira versão e a última do seu livro.
✅ De um recurso bastante simples para, uma vez concluído, voltar a enxergar o seu livro e lapidar-lhe sua forma final.
✅ Do movimento contínuo que relativiza princípios e fins.
Você conhece a abertura do romance de Tolstói, Anna Kariênina? É um clássico:
"Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira."
Acho que com os romances é o contrário: romances ruins se parecem. Cada bom romance é bom à sua maneira.
Existem, no entanto, quatro atributos que identifiquei ao longo de mais de quinze anos de leitura de originais, e que estão presentes em quase todos os bons livros.
São os seguintes:
Se você quer saber no que consistem, e como aplicá-los a sua obra, você não pode perder esse episódio de Prelo.
Por último, mas não menos importante, fica um convite especial: entre os dias 27 de julho e 2 de agosto, vamos promover a Semana do Romance – O Primeiro Capítulo, uma semana de encontros ao vivo comigo, onde vou te ensinar os pormenores da escrita do romance, para que consiga entender os fundamentos da vida autoral, da estruturação da obra e do trabalho de estilo e linguagem. Você irá encontrar disciplina para escrever e contornar facilmente qualquer tipo de bloqueio criativo que advenha no caminho.
Clique agora no link para se inscrever: https://escritacriativa.net.br/lp/o-primeiro-capitulo-1/
#142 – Afinal: um escritor pode viver de sua escrita? E sob quais condições?
Que fique claro: ninguém abraça a literatura para ficar rico. Se esta é a sua única intenção, recomendo que busque outros caminhos, menos incertos. Escrevemos porque amamos os livros, e é saudável para a sua escrita que continue assim.
Se você me acompanha, sabe que raramente trato do tema dinheiro e vida artística, por mais importante que eu o considere. Em primeiro lugar, porque não sou e não quero ser mais um influencer que se vale das nossas angústias fiduciárias para alavancar-se, como a legião que há por aí no seu feed. Em segundo lugar, porque é muito fácil ser mal interpretado quando tratamos desse tema em complexidade – as pessoas facilmente encontram um modo de encaixar algo que dissemos em determinada caixinha interpretativa. Existem tantos preconceitos e melindres sobre dinheiro (e seus desdobramentos – merecimento, exclusão, comparações etc.), ele é tão carregado de distorções, que acabo concluindo que teria de escrever um ensaio mais longo apenas para começar a conversa.
Só que também acho que não falar de dinheiro e vida artística acaba reiterando um certo pudor, um recato farisaico sobre o tema. Ainda que não considere a literatura uma carreira, mas um ofício (podemos vender livros, mas não a alma que os enseja; a insubordinação ao tempo da produção moderna é tremendamente necessária), tentar preservá-la na categoria de ofícios intocáveis no fundo nos distancia do que fazemos, e acho isso um erro e um problema.
Também acho que não é porque amo o que faço que não possa receber por isso. Eu amava atender em consultório, quando trabalhava como psicólogo; por que não deveria ganhar dinheiro com isso? E por que não pode ser o mesmo com a escrita? Nem toda atividade direta ou indiretamente remunerável é alienada (todo um capítulo sobre isso...).
Mais: conheço muita gente que, assim como eu, vive de atividades ligadas à escrita. Uns vivem melhor do que outros. Ou seja: é possível. Existem caminhos, mais do que há vinte ou trinta anos. E se é verdade que quem tenta te convencer de que sabe como vender 500.000 exemplares de seu romance é um charlatão (ainda que esta pessoa tenha ela própria vendido essa quantidade), também sei que, com um bom livro e algum conhecimento, não é tão difícil vender 1.000 exemplares de seu livro na pré-venda (ou seja, antes do lançamento). Em outras palavras: há um conhecimento (como em qualquer ofício), e vale a pena adquiri-lo.
Esse é o tema do nosso vídeo da semana e do novo episódio de Prelo. Na segunda parte do Prelo, falamos sobre o livro Bolsa Amarela, da Lygia Bojunga.
#140 – Se existe uma coisa em comum entre bons livros, esta coisa é a atenção aos detalhes.
Os detalhes da frase. A escolha das palavras. A singularidade das analogias. As metáforas, a coesão da obra como um todo, fruto do trabalho, da carpintaria reflexiva.
Os sinais inevitáveis de que o autor fez do livro uma casa, e deixou ali marcas de convívio e de experiências.
O tempo da escrita pode ser visto, também, como uma viagem a uma terra estrangeira.
Se você passa três dias de um feriado em uma cidade, terá um conjunto de impressões muito semelhantes à maioria das pessoas. Seu ponto de contato com o leitor terá como base a identificação pelo lugar comum, pela generalização apressada.
Agora, se você se lança, se entrega, convive com o frio do território desconhecido pelo tempo que achar suficiente, se procura entendê-lo, contemplá-lo, se experimenta ali distintas abordagens, a sua prosa – seja de ficção, seja de não ficção, se tornará infinitamente mais rica.
Como fazer isso?
No novo episódio do Prelo, trato da atenção aos detalhes, da importância essencial da presença no ato de escrever.
#139 – Muitas vezes, a nossa miséria nasce de não podermos corresponder a ideais muito elevados que estipulamos para nós mesmos. Do que a vida deveria ser, de como os outros precisam se portar, de uma aura impossível que o nosso ofício dos sonhos precisa carregar.
Nesses últimos tempos, tenho trabalhado ativamente em um livro, que – espero – deve ficar pronto no início do segundo semestre.
O momento de costura da escrita é o de um sentimento oceânico. Sinto muito prazer em dialogar internamente com as experiências e leituras de que trato no livro. A escrita é uma terapia, para mim, uma meditação. E por isso mesmo, nesse momento, tenho me permitido prescindir tanto de meditação quanto de terapia.
Mas as condições da escrita não poderiam ser menos ideais. O percurso tampouco é o de uma linha reta. Não seria a primeira vez que descobrimos que o caos pode ser produtivo, e que algumas restrições podem oferecer um ótimo enquadre para a criação.
Toda história guarda uma segunda – a de como a primeira foi contada.
O making off. A produção. O processo. A cozinha da escrita.
No novo episódio de Prelo, procuro desconstruir os ideais que podem estar no caminho de um encontro feliz com o próprio projeto literário.
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