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#098 – Você já pensou em morar dentro de um livro que está lendo? Em fazer amizade com os seus personagens, em incorporar certos aspectos de seu estilo de vida?
Alguns livros asiáticos têm um poder de fascínio por meio do cotidiano. Neles, algo acontece, mas por trás da rotina. São livros que sabem combinar – e justamente por isso, ultrapassam – as dicotomias forma e conteúdo, reflexão e narrativa, tensão e distensão, desafio e leveza, prosa e poesia.
Com base no conceito de Nagomi, discutimos neste episódio de Prelo alguns elementos e princípios que poderiam inspirar a nossa prosa e a nossa poesia.
#097 – O episódio de hoje dá sequência à conversa sobre a Escrita Lenta. Por que você deve escrever num ritmo próprio, fazer menos e priorizar a qualidade na sua produção literária.
#096 – Durante bastante tempo – tempo demais, acredito –, fomos seduzidos por filmes, youtubers e livros de desenvolvimento pessoal a uma cultura da produtividade como sinônimo de felicidade. A ideia central desta cultura consistia na crença de que é possível e necessário desenvolver métodos de comprimir atividades e dilatar o tempo para fazer caber mais – mais trabalho, mais faturamento, mais ambições. A obsessão dos “high achievers” era derivada de uma versão corrompida do já tresloucado fordismo, transferido para os trabalhadores do conhecimento e funcionários de escritório.
Na literatura e nos seus irmãos mais mundanos, como o jornalismo e a produção de conteúdo, a moda pegou. A ideia era a de que deveríamos nos forçar a produzir a partir de “sprints” de escrita, de que dava para inventar de modo sequencial e uniforme, de que certos sistemas de organização aumentariam o nosso leitorado. 5000 palavras por hora. Opiniões sobre tudo. Um livro por semestre. Um conteúdo por dia. Nos acostumamos aos reels, aos nuggets, aos drops como modos de transmissão. Tanto o fazer quanto o consumir se atomizaram. É assombroso como essa tendência foi antevista ainda mais cedo, por um outro filósofo, Walter Benjamin, que vai escrever em um dos seus textos clássicos: “Hoje, nada se faz que não possa ser abreviado.”
A reação não tardou a chegar e foi generalizada. Crises de burnout e depressão em todas as esferas da sociedade, o abuso de álcool e de opioides, e uma espécie de confirmação pela experiência de que uma quantidade maior de horas trabalhadas não correspondia a um aumento da produtividade. Passamos a estudar as aparências, mais do que as coisas: como “se sair bem” numa entrevista, como criar um perfil. O filme foi substituído pelo trailer. A paixão pelas teorias motivacionais. O livro pelo autor.
Já desde antes da pandemia, assistimos a um outro movimento, uma reação ao primeiro. Ele vai afirmar o contrário do que se dizia. Quer mais? Faça menos. Faça melhor. Seja mais inteligente. Pense grande. Ganhe fôlego. Esvazie-se para que algo novo possa surgir. As 50 horas de trabalho semanais são uma armadilha de subserviência e domesticação. Elas nos tornam repetitivos e apáticos. Se as pessoas tivessem mais tempo livre, elas renderiam mais. O único modo de saber para onde estamos indo é parar.
Obras como “A única coisa”, de Gary Keller e Jay Papasan, “Essencialismo”, de Greg McKeown ou “Não Faça Nada: a batalha pela economia da atenção”, de Jenny Odell, defendem isso. O fazer, pura e simplesmente, é uma forma de alienação. Fazer por fazer é uma tolice. Escolha aquilo que merece a sua atenção. Aquilo que você sabe fazer, que é reconhecido e que encontra aí a sua paixão. Há muita coisa interessante a depreender destes livros. Nada melhor que limpar a agenda: eliminar o supérfluo; automatizar (pelo hábito ou pela tecnologia) o recorrente; delegar o que não é seu e que outros fazem melhor do que você. Aplicando certa filosofia e orientação, vai caindo a ficha de que a maioria de nós nunca nos ensinou de fato a trabalhar (planejar, pensar atividades, combiná-las de modo integrado aos nossos ritmos internos).
Na escrita, a equivalência é a da escrita lenta. Nas redes, da produção lenta de conteúdo. Ao invés de pílulas, fragmentos, versões repetidas do que se viu por aí, concentre-se na singularidade. Tome o seu tempo. Não tenha pressa. Abandone de vez a comida processada e o conteúdo ultraprocessados das redes.
No episódio desta semana de Prelo, falo sobre “A lentidão como método” e a Escrita Lenta. É uma proposta de revisão do modo como estamos escrevendo, e de como você pode aplicá-lo na sua rotina. Está mais que na hora de escrevermos no nosso tempo. De aceitarmos a oscilação dos ritmos próprios.
Como disparador da conversa, valemo-nos da obra "Slow Productivity", de Cal Newport. O livro que citamos é "Dionisio em Berlim", da Quelônio.
#095 – Os dias não nascem iguais.
Alguns começam bem e terminam mal. Uns são de festa, outros de ressaca.
Tem vezes que a gente acha que conquistou o equilíbrio, até que um pensamento ruim vem roubar o sono, e você passa duas horas para se acalmar e convencer-se de que está tudo bem de novo.
O budismo chama isso de doença do pensamento: raiva, desejo, insegurança estão sempre agitando as águas da nossa consciência.
É o amanhã que promete algo. É o amanhã que nos ameaça. É a dor na perna. É a mágoa e o remorso. Remordimento, remoer, morder, estas palavras compartilham a mesma origem: como se dentro de nós um roedor estivesse nos comendo vivos.
Na era do isolamento digital, perdemos recursos para lidar com estas ondas de humor. Ao que parece, a sociabilidade, por empatia e mímese, nos ensina a lidar com os nossos escrúpulos e neuroses. A alegria do amigo pode atenuar a nossa melancolia. A tristeza do outro ajuda a enxergar as próprias misérias com mais distanciamento.
Cultivar a paciência e a curiosidade perante a “outridade” do outro, com suas manias e particularidades, faz de nós criaturas melhores.
No episódio desta semana de Prelo, falo da influência sobre o ato criativo de duas forças aparentemente antagônicas: a autonomia e a sociabilidade.
Nesses pouco mais de quarenta minutos, vou te mostrar, a partir de experiências e investigações científicas, como que fazer parte de alguma comunidade de autores pode te ajudar a emancipar a sua atividade das oscilações cotidianas. E como cuidar disso que parece exercer tanto efeito sobre como nos apresentamos para o mundo: a confiança em si e no que se faz.
#094 – Existe uma mitologia do intelectual, do criador, do inventor, certamente derivada do deus monoteísta, fundador do céu e da terra, um homem enorme, de barbas brancas, onipotente e onipresente, que pressupõe um sujeito sério, sisudo, mal humorado.
É curioso contrapor esta imagem a das pesquisas que têm saído nos últimos anos, e que afirmam: o bom humor estimula a nossa criatividade, o impulso de fazer, a riqueza associativa. Com ânimo (com alma), as palavras se sentem convidadas a participar do jogo, e temos mais disponibilidade de experiências e repertório simbólico.
Este episódio discute isso: como fazer frente a esta força inercial do desânimo, da confusão, do sentimento de "para quê", de que nada vale a pena.
E quais os recursos temos à disposição para estimular este humor, para tornarmo-nos dispostos e despertos para inventar e sonhar?
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Abaixo, listo as referências bibliográficas utilizadas no livro:
Isen, A. M., Daubman, K. A. and Nowicki, G. P. (1987). Positive affect facilitates creative problem solving. Journal of Personality and Social Psychology, 52(6), 1122-1131.
Fredrickson, B. L. and Branigan, C. (2005). Positive emotions broaden the scope of attention and thought-action repertoires. Cognition & Emotion, 19(3), 313-332.
Lyubomirsky, S., King, L. and Diener, E. (2005). The benefits of frequent positive affect: does happiness lead to success? Psychological Bulletin, 131(6), 803-855.
Tegano, D. W., Sawyers, J. K. and Moran, J. D. (1989). Problem-finding and solving in play: the teacher's role. Childhood Education, 66(2), 92-97.
Ali Abdaal. Feel Good Productivity: How to Do More of What Matters to You
#093 – Qual é a relação entre uma ordem monástica grega, seu modo de relacionar-se com a sociedade e a psicologia das emoções positivas para a criação literária?
Como negociar e encontrar um tempo livre para a escrita de seu livro?
Como transformar um obstáculo para a escrita em um ponto de reflexão e inflexão do trabalho?
Obras mencionadas:
Roland Barthes. Como Viver Junto. Editora Martins Fontes.
Barbara L. Fredrickson. The Role of Positive Emotions in Positive Psychology. Am Psychology. 2001 Mar: 56(3); 218-226.
Edgar Cabanas e Eva Illouz. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. Editora Ubu.
Alex Soojung-Kim Pang. Rest: why you get more done when you work less. Basic Books.
#092 – Certa vez, durante uma entrevista para a televisão, perguntaram ao consagrado diretor de filmes de suspense Alfred Hitchcock qual era a sua definição de felicidade.
"Um horizonte cristalino", foi o que respondeu. Nada costuma ser mais desimpedido e cristalino do que um ambiente apaziguado, tranquilo, onde você possa realizar aquilo que te estimula, que te desafia. Aquilo a que se propôs.
Em uma rotina criativa, o sono, a comida, a sociabilidade, a escrita, a música, conversam e colaboram entre si. Uma rotina criativa é aquela que encontra caminhos para a calma e o cuidado, incorporando, inclusive, ansiedades e frustrações que podem desestabilizar ou até mesmo interromper a recorrência necessária da escrita.
No novo episódio de Prelo, converso sobre a rotina ideal e a possível, e como escrever para si uma que seja adequada para você.
#091 – Vamos conversar sobre O Trabalho Criativo do Romance.
1) Em primeiro lugar, vamos discutir a razão pela qual o romance, desde suas origens, têm fascinado o leitor moderno; o que caracteriza o romance, os seus atributos singulares e por que você deve considerar tornar-se romancista;
2) Em seguida, vou analisar o percurso autoral para compreender o que nos ajuda a crescer dentro deste percurso, quais os saltos que um autor pode dar e o que você deve fazer para realizar-se neste caminho;
3) Como encontrar tempo e disciplina – nesta primeira aula, vamos começar a discutir a ideia de disponibilidade e paixão, como você pode fazer para mobilizar o seu desejo sem interrupções ou titubeios.
4) Por onde começar: se você está à procura de ideias e quer começar agora a escrever, como encontrar o caminho e o que você precisa saber para que o medo e a resistência não dominem o processo.
#090 – O cérebro humano é um verdadeiro milagre. Tessitura de fibras orgânicas, circuito elétrico por onde passam imagens, ideias, pensamentos, memórias visíveis e invisíveis, ele tem também o incrível poder de acobertar aquilo que não podemos ver. Um exemplo fascinante é o do nervo ótico: temos dois pontinhos nos olhos a partir dos quais não conseguimos enxergar, que é por onde passam os nervos óticos.
Mas não vemos esses pontinhos! Por quê? O cérebro "edita" a visão, e substitui a mancha, que poderia nos distrair, por uma ilusão de visibilidade. É por isso que o chamamos pontos cegos.
Dentre as instâncias psíquicas, o ego faz a mesma coisa. O ego é um dos responsáveis pela nossa autoimagem constante, por sentirmos que somos o tempo todo a mesma pessoa. É também o ego que cuida de nós, que busca a preservação de uma integridade identitária. O ego quer nos ver bem. Ele acolhe um conceito sempre particular de dignidade, de preservação. Ele quer o melhor para nós.
O problema é que para isso, ele incorre em alguns lapsos. É por conta do ego que temos – eu, você, todo mundo – dificuldade de reconhecermos um equívoco. O ego não admite erros, porque isso fere a integridade subjetiva que construímos com tanto cuidado, e que nos parece tão frágil de vez em quando.
Em alguns momentos, isso se torna uma complicação. Na hora de fazer ciência, por exemplo, ou de participar de um debate, ou de lidar com frustrações na vida amorosa. E também quando decidimos escrever um livro.
Neste episódio de Prelo, falo sobre os pontos cegos mais comuns de escritores iniciantes – e como superá-los.
#089 – Ano que vem, vai fazer vinte anos que publico livros. Mesmo assim, e depois de oito livros autorais, eu aprendi muita coisa neste último ano de 2023.
Este é o tema deste episódio: o que o passado pode nos ensinar – o poder do pensamento retrospectivo na arte da tomada de decisões – e o que aprendi no ano que termina sobre a escrita, a publicação, o diálogo com os leitores e com editores, a promoção autoral nas redes, dentre outros temas.
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