LANÇADO agora em abril de 2021 pela Companhia das Letras, o romance policial de Marçal Aquino, Baixo esplendor, é uma obra que vale a pena – e não somente para os amantes do gênero policial. Ela marca o retorno – aliás, em alto estilo – de um dos mais importantes escritores brasileiros à obra de ficção, depois de 16 anos. O enredo – com perdão do clichê – é eletrizante; da primeira à última página. Trata-se da história de um policial civil que se infiltra numa quadrilha especializada em roubo de carga, tendo como missão mapear e desbaratar o bando; só que ele acaba se apaixonando pela irmã do chefe da quadrilha. Tudo se passa nos anos de 1973/74, tendo como pano de fundo os anos mais difíceis da ditadura militar. O romance tem um final de dar vertigem que, engenhosamente, convida o leitor a participar do fecho da história. Não é uma história convencional. O romance aborda o submundo do crime de uma maneira – não sei se seria esse o termo! – “genuinamente humana”, posto que mexe em questões fundamentais como amizade, fidelidade, amor, sexo e erotismo – e sem cair na armadilha da banalidade, do suspense sensacionalista. Há uma dose muito bem calibrada de realismo no romance. O erotismo, por exemplo, está longe de ser vulgar ou sexista – é tratado como deve ser: uma emoção natural. A linguagem é apropriada, trata do sexo, do amor e do erotismo como quem está mesmo disposto a espreitar a alma humana. Como diz o autor no texto, os protagonistas eram “dois sujos que se amavam com pureza”. A fluidez, a estrutura, os diálogos enxutos e a riqueza dos personagens constituem já uma marca registrada do autor de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Companhia das Letras). Não é à toa que Marçal Aquino por vezes é considerado um sucessor de Rubem Fonseca, esse gigante do romance policial na literatura brasileira. Enfim, nada é preciso dizer sobre a qualidade literária de Baixo esplendor. Que acabou de sair quentinho do forno – lançado em 9 de abril último. Sério candidato ao Jabuti deste ano. É uma boa leitura para quem sabe que o crime, até mesmo se quisermos combatê-lo, precisa ser encarado como algo “demasiado humano” (Nietzsche); e nada do que é humano nos deveria ser indiferente (Terêncio). Indicadíssimo! http://www.outrasprosas.wordpress.com #machadopodcast