O filme Bacurau, dos brasileiros Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, tem uma mistura de gêneros (drama, ficção científica, crítica social, caubói etc.) que é tecnicamente interessante. A obra é uma verdadeira interpelação da violência, do medo e da paranoia do nosso tempo. Tem uma crítica social interessante e desvela algum sentido sobre o Brasil atual. Os diretores descarnam a relação vertical imperialismo/Terceiro Mundo. E mais: alertam para até que ponto pode chegar o neocolonialismo e a supremacia norte-americana - ao ponto de "caçar" e matar gente como se fosse bicho, por simples esporte, Isso, num certo sentido, ilumina e denuncia o universo texano e a insanidade da Era Trump, que o delírio armamentista de Bolsonaro anda querendo copiar. Creio que ainda há no filme uma advertência, ou denúncia, sobre a psicopatia dos serial killers norte-americanos. Revelando que esses assassinos em série, muitas vezes, são pessoas respeitáveis, de classe média, perfeitamente inseridas na sociedade e no mercado de trabalho - sem traços evidentes de qualquer psicopatia ou exclusão social. O filme sugere que a patologia dos serials, o gosto pelas armas, a naturalização da violência, a supremacia branca e o racismo podem ser uma herança dos fundadores da América, reunidos lá em Filadélfia no século 18 - a herança "genética" de uma América profunda que impacta, sim, o mundo todo; sobretudo o Terceiro Mundo, onde consumimos passivamente o "American way of life" - desde o inocente Pato Donald até as séries da Netflix, passando por Hollywood. O filme já havia sido premiado em Cannes, e acaba de ser agora premiado também em Nova Iorque e Toronto. Daí a oportunidade da dica.