RPG Next apresenta... Contos Narrados #003 - Contos da Noite 01 - A Barbada!
ATENÇÃO: Esse podcast é recomendado para maiores de 14 anos.
A você que me lê, desejo, por enquanto, boa noite. Eu me chamo Rodrigo Watzl e sou o autor deste que é o primeiro da série “Contos da Noite”. Falar sobre si mesmo é sempre uma arte difícil e, possivelmente, para poucos. Posso dizer, no entanto, que, como você, que chegou até aqui, sou um apreciador de histórias sombrias, inspiradas no que Dostoievski poderia chamar de “o subsolo” e urdidas com o fio da narrativa bem alinhavada. Em síntese, sou o autor das histórias que gostaria de ler e, nesse caso, ouvir. Este trabalho é, portanto, o que a equipe da RPG Next e eu pretendemos aqui.
Então, despeço-me de você. Não com um boa noite, mas com bom divertimento. Porque estas histórias farão com que suas noites não sejam mais as mesmas.
A Barbada!
- Então, eu disse a ele que era uma barbada.
– Corrida de cavalos?
– Não, a mulher gorda do circo. Pergunta idiota! Claro que era corrida de cavalos!
– E ele acreditou?
– Nasce um otário a cada minuto.
– Ei, bigode! Mais um aqui para o meu amigo. E não me venha com aquela porcaria do outro dia. Quero coisa fina… E pode ser um duplo!
O bartender, um homem calvo, já de meia idade, não respondeu. Com um olhar servil e submisso, embora afetado e desdenhoso, pegou a garrafa de uísque e encheu o copo.
– Conte-me mais, meu caro.
O outro já tinha tomado quatro doses. Estava com a língua começando a enrolar. Mas, não se fez de rogado e tomou o duplo de uma golada só, depositando, em seguida, com a violência típica dos ébrios, o copo sobre o balcão.
– Pois é, veja só você… Eu expliquei a ele que a corrida estava no papo, que não tinha como perder.
– Como foi isso?
– Ele apareceu lá na casa de apostas. Era manhã, o sujeito parecia inquieto. Alguma coisa o perturbava.
– E daí?
– Daí que eu puxei papo. Sempre tive faro aguçado para trouxas. E ele não era só um trouxa. Era um que estava desesperado.
– Uma oportunidade e tanto.
– Sem dúvida! Não demorou cinco minutos e já sabia mais da vida dele que o seu próprio pai. Estava endividado, iria perder a casa e precisaria morar com a mulher e os filhos debaixo da ponte.
– E resolveu apostar dinheiro que não tinha?
– Para você ver que há maluco para tudo neste mundo.
– E qual foi a lorota que você contou?
– A de que havia um sistema de “rateio”: o resultado da corrida era combinado com antecedência, de forma que os “azarões” ganhassem de vez em quando e o cartel das casas de apostas ficasse com a maior parte do dinheiro dos otários que haviam apostado. E de que uma parte seria dividida entre os jóqueis. Bastaria ele, o otário, entrar no esquema e o ganho com o prêmio da aposta seria muito maior do que o que ele iria gastar.
– E ele acreditou nesta sandice?
– Ficou um pouco arredio no início. Ainda mais depois que eu expliquei que a aposta precisaria ser alta. Mas, sabe como é: o desespero cega a razão.
– Sem contar que só cai no golpe quem já é desonesto.
– Pois é. Mas, gozado, no caso dele, parecia ser só agonia mesmo.
– E ele caiu.
– Sim.
– E o que aconteceu depois que você fez a esperança dele em pedacinhos?
– O homem estava mal de saúde e eu não sabia. Teve um infarto fulminante e caiu duro, com o perdão do humor negro, no chão.
– Você teria feito isso se soubesse que o idiota era cardíaco?
– Sem pestanejar! Sabe como é… Sujeito precisa garantir o leite das crianças.
Ele não respondeu. Acendeu um cigarro, deu uma tragada e o observou demoradamente.
– O homem que você matou era meu irmão.
Como que por um passe de mágica (ou de glicose na veia), o efeito etílico desapareceu.
– Sabe, ele sempre foi um homem de bem. Nunca deu problema na escola, sempre tirou notas boas. Fez faculdade, MBA. Trabalhou em multinacional… Até que perdeu tudo em uma iniciativa própria de negócios. E isso o obrigou a pegar empréstimo em banco. Um dinheiro que estava com ele naquele dia.