A sociedade brasileira convive histórica e estruturalmente com o racismo, que perpassa as relações sociais e inscreve no país uma forma particular de convivência entre desiguais.
Como ideologia que diferencia e hierarquiza os indivíduos em função de sua aparência, o racismo molda uma sociedade que se assenta na existência e naturalização da desigualdade e dela faz uma base especifica de apoio e funcionamento. Sob a ideologia racista, a existência da pobreza e da miséria e, mais grave, sua persistência, não se impõe como um problema social. Ao contrário, apresenta-se normalizada, parte da paisagem social.
Afinal, em uma sociedade de indivíduos intrinsecamente distintos, o racismo opera, legitima e engessa uma hierarquia social, operando uma escala de valores onde se torna aceitável e mesmo justificável que os elementos tidos como superiores devessem alçar posições sociais privilegiadas enquanto que aos demais, reafirmados ou naturalizados em sua condição de inferioridade, restariam os lugares subalternos. O racismo transforma diversidade em desigualdade. E ao longo dos séculos, a sociedade brasileira se estruturou a partir da desigualdade. Nossa modernidade se galga, em grande parte, na presença de desigualdades extremas, sociais e raciais.
Viabilizamos a possibilidade de vida profissional para a mulher da classe média não na partilha igualitária do trabalho doméstico, mas na ampla disseminação da figura subalterna da empregada doméstica. A oferta ilimitada de serviços pessoais os mais diversos por parte de uma camada pobre e negra é parte integrante da vida nacional. Tudo isso compõe um projeto de país que surfa a modernidade sem que essa altere suas estruturas sociais, injustas e desiguais. Essa convivência de situações sociais estruturalmente dessemelhantes ainda que não antagônicas deita raízes, evidentemente, no nosso passado escravista. Sua continuidade desenvolveu uma trajetória particularmente perversa, do ponto de vista da construção da nação. Um país desigual e que se mantem imune a maiores mudanças sociais que venham a alterar esse quadro.