Vitor Bertini

Vitor Bertini

By Vitor BertiniFictionDrama
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Vitor Bertini episodes

  • O psiquiatra de minha mãe

    Olá.

    Hoje é sexta-feira. Ontem, dia seis de janeiro, comecei a escrever minhas resoluções de fim de ano em uma cartinha ao Papai Noel.

    Gosto do formato: querido Papai Noel, meu nome, sou de tal cidade e me comportei o ano inteiro. Segue pequena lista de resoluções. Obrigado.

    Apesar do padrão estabelecido, iniciei a carta com uma pequena digressão: 

    “Entendo que resoluções de Ano Novo não sejam, exatamente, uma especialidade sua - mais próxima de compensações imediatas e vinculadas a comportamentos passados do que a quaisquer trabalhos, promessas ou decisões futuras.

    Mas, também entendo que o senhor, dada a seriedade e aparente compreensão geral das coisas, não se furtaria de olhar minha breve lista e, se alguma resolução estiver em sua área de influencia, ajudar - ou até resolver. Sem constrangimentos.”

    E comecei a lista:

    “Fazer do conjunto de textos de A Histórias da Sexta um livro e publicá-lo; registrar uma editora que vai chamar-se Casa Publicadora Lauro Ignácio; ler muito; ...”

    Antes de terminar a redação - e mesmo a lista do pouco que resolvi, recebi uma informação de caráter duvidoso e, se verdadeiro, alarmante: Papai Noel estaria em recesso.

    Não terminei a carta, mas rascunhei mais um parágrafo: 

    “Com relação ao seu eventual recesso, devo dizer que duvido muito. A propósito, como é o regime de trabalho dos três poderes na Lapônia?”

    Alguém sabe informar?

    Entre resoluções, textos curtos, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.

    O PSIQUIATRA DE MINHA MÃE

    Hoje é segunda-feira. Sábado, no enterro de minha mãe, conheci seu psiquiatra.

    Homem discreto, gestos contidos, chegou cedo e usava um chapéu Panamá. Abraçou carinhosamente meu pai, perguntou pelos filhos e foi embora – tão silencioso como havia chegado.

    Sempre soube de sua existência, nada mais. Nenhuma palavra ou comentário, apenas a vaga informação que ele a tratava desde sempre. Na única vez em que foi chamado às falas, papai respondeu com voz baixa e sem levantar os olhos da leitura:

    – Deixa assim, faz bem pra sua mãe.

    Nunca, nenhuma pergunta sobre esse tema recebeu alguma resposta. Sua existência, assim como o verbo no início dos tempos, pairava silenciosa sobre as águas. No caso, sobre todos nós.

    Nos breves instantes em que permaneceu no velório, o psiquiatra só trocou mesmo algumas palavras foi com a tia Alice, irmã de meu pai e de quem mamãe não gostava.

    Tudo isso foi no sábado. Hoje é segunda-feira, choro meu luto, esqueci o psiquiatra e comprei um chapéu Panamá.

    Vitor Bertini

    DIÁLOGOS NO BOA, LINHA 21

    – Shrare é uma palavra derivada do verbo sharear, que, em português, significa compartilhar.– Sério?

    * Este texto é ficção. Este texto não é uma ficção;

    * A próxima história, dia 14. Tá?

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí. Sério.

    FATIAS DE LIVRO

    O guarda, que é ao mesmo tempo coveiro e sacristão da igreja (tirando duplo provento dos cadáveres da paróquia), aproveitou o terreno vazio para semear batatas.

    – Madame Bovary, Gustave Flaubert, Editora Abril, 1971

    PS: no dia 12 de dezembro p.p., Flaubert completou duzentos anos.



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    2 min
  • Café da manhã

    Olá.

    Ano Novo – aprecie sem moderação.

    Com faunas, frases, muitos goles, queijos e beijos, boa leitura e boas festas.

    CAFÉ DA MANHÃ

    Bruna aguardava, com a sinistra paciência dos jacarés, uma alma inocente que lhe trouxesse café na cama.

    Lembrou que Marcelo provavelmente já havia saído para trabalhar e que ela havia dispensado os serviços da Constanza. Lembrou também que não existia nenhuma Constanza. Pelo menos não a seu serviço.

    Resistiu. Os jacarés são assim, couro duro. É preciso honrar a natureza e esperar. Nenhum movimento em vão.

    Cheiro de café é mais ou menos como uma sexta-feira: anuncia algo que nunca será, exatamente, como as expectativas geradas - mas é, em si, uma maravilha. Bruna não sabia onde havia lido isto. Sua memória era ótima. Faltava o café.

    Olhando reto para a frente, aos pés da cama, sobre a herança da primeira viuvez da tia Norma - “filha, não é um banco, é um lindo récamier”, um amontoado de roupas brancas e sua bolsa mais vistosa.

    Olhando para o lado, Bruna não via sombra, nem o menor sinal de movimento, na luz que vazava por baixo da porta do quarto. Melhor não mexer a cabeça.

    Na penumbra do dormitório, a rua fazia mais silêncio do que o normal; o zumbido nos ouvidos aumentava de olhos fechados, os pés latejavam e o incômodo no pescoço revelou-se um colar.

    Dona Nair, a vizinha de cima, foi ao banheiro. Lamentável. Protegendo-se, Bruna puxou o lençol à altura dos olhos.

    Jacarés hibernam quatro meses. Bruna, sem café, com dores generalizadas e sem conseguir achar seu celular, começou a recordar o que já sabia: a festa de réveillon na casa da tia Norma.

    Convidados, muitos convidados. Pessoas elegantes, bonitas, sinceras. Outras, só pessoas. Música, muita dança. Comida e bebida. Muita bebida.

    Ano passado tia Norma havia cancelado, em nome da saúde de todos, as comemorações. Este ano, não. Este ano teve festa, e disseram que ia ser com o valor de duas. Muita gente - meu Deus, que coisa boa. Abraços e beijos. Muitos. 

    Tudo ia bem demais, até a biblioteca já rodava, quando alguém gritou: 

    – Aproveitem, no próximo réveillon pode ter isolamento social. De novo!– Então, um com o valor de três! – Foi a resposta que se ouviu.

    A festa ficou ainda melhor.

    Jacaré tem vida longa e boa memória. Era o primeiro dia de janeiro do novo ano. Feriado.

    No caminho da cozinha, Bruna achou seus sapatos e o celular já sem bateria. Lembrou que era solteira e que o Marcelo tinha viajado, para não voltar, havia três anos. Precisava café.

    – Vai ser um longo ano.

    Vitor Bertini.

    Lembrou de alguém?

    * O quê? Já é 22? Aqui, é ficção;

    * A próxima história, só no ano que vem. Dia 7, tá?

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Um dia, pouco tempo atrás, escrevi:

    Reza a lenda que o escritor americano Ernest Hemingway, Nobel de Literatura em 1954, ganhou um belo dinheiro de seus colegas de profissão apostando na possibilidade de contar uma história completa usando apenas seis palavras: “Vendem-se sapatos de bebê. Nunca usados.”

    – Profeflor, A História da Sexta, Vitor Bertini (clique para ler)

    Vocês conhecem a Germana? Então:

    nunca digamdesta mágoanão beberei

    – Inscrição para uma mesa de bar, Eletrocardiodrama, Germana Zenettini, Laranja Original, 2016

    Pois viver deveria ser - até o último pensamento e derradeiro olhar - transformar-se.

    – Lya Luft (15 setembro 1938 – 30 dezembro 2021)



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    5 min
  • Biscoitos de canela

    Lapônia, 24 de dezembro de 2021.

    Entre perdões, páginas, beijos e queijos, boa leitura e feliz Natal!

    BISCOITOS DE CANELA

    Amanda, desde sempre, visitava toda a família no dia de Natal. Começava cedo e fazia o roteiro a pé.

    Na casa de uns distribuía conselhos, na de outros, sorrisos. Na chegada da noite, rezava. Às vezes cantava. Na última das casas, vestia-se de Papai Noel, distribuía os presentes que estavam sob a árvore e repartia seus famosos biscoitos de canela.

    Um dia, sem seus óculos, já vestida de vermelho, entrou em uma casa errada.

    Apressada, ignorou a discussão e os gritos que ecoavam na vizinhança, pediu silêncio, saudou quem não chamava-se Ênio, riu quando todos riram, foi à árvore, pediu auxílio na leitura para a suposta Iolanda, começou a chamar em voz alta os nomes escritos nas etiquetas e distribuiu os presentes.

    Depois, cantou, convidou todos a rezarem, aceitou um pedaço de torta e repartiu seus biscoitos.

    Na saída, já com seus óculos e guiada pelo involuntário anfitrião, despediu-se:

    – Espero ter ajudado.

    De volta à rota da família, realmente atrasada para a última visita, desculpou-se pelo horário e pela falta dos confeitos de canela:

    – Tem gente que precisava mais.

    Vitor Bertini

    Você já experimentou?

    * Amanda era minha tia-avó e vestia-se de Papai Noel. A história eu inventei;

    * Sexta, dia 31 de dezembro, the last day of the year, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão verde perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Heinrich von Kleist (1777-1811) foi um escritor alemão que esteve por aqui na semana passada. Voltou:

    Em M., grande cidade do norte da Itália, a marquesa de O., senhora de reputação ilibada, viúva e mãe de vários filhos bem-educados, publicou a seguinte notícia nos jornais: que, sem que soubesse como, estava grávida; que gostaria que o pai da criança que daria à luz se apresentasse; e que estava decidida, em consideração à sua família, a desposá-lo.

    – A Marquesa de O., Heinrich von Kleist, Colares Editora, 1997



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    2 min
  • Onde o sol se põe

    Olá.

    Um dia, no futuro, quando eu for Imperador das Galáxias, será proibido trabalhar em dezembro. Dedicaremos os últimos trinta e um dias do ano a abraçar os amigos, comemorar as coisas boas e fazer planos. Muitos planos. Nenhuma queixa.

    Entre viagens no tempo, histórias de sexta, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.

    ONDE O SOL SE PÕE

    Novo Oeste é minha cidade natal. Novo Oeste fica a oeste de algum lugar, é quente o tempo todo e tinha o melhor muro do mundo para sentar em cima, pensar na vida e comer bergamotas.

    Eu não sabia onde ficava o oeste, pouco sabia da vida, mas sabia muito bem onde ficava aquele muro alto, largo e que, à tardinha, recebia uma sombra perfeita. Sentado ali eu via tudo: a prefeitura, a igreja, o clube, a delegacia e, espichando um pouco o pescoço, a rodoviária e a bergamoteira.

    Certo fim de tarde, inclinando o corpo para apanhar a mais amarela das bergamotas, vi Iracyna fechando a rodoviária. Sempre de jeans, sapato baixo e blusa preta, Iracyna, gerente da rodoviária, era uma mulher discreta e de olhar severo. Sorriso mesmo, só vendendo passagens.

    Foi assim, na rua já deserta, no horário do sol vermelho, empoleirado no muro com uma bergamota na mão, que vi Iracyna se aproximar acompanhando uma moça que, tudo indicava, acabara de chegar à cidade.

    – Para que lado será que fica o oeste? – perguntou a visitante levantando o cabelo e insinuando a nuca.

    Iracyna parou, acarinhou o rosto da forasteira, encostou-a no muro, deu-lhe um beijo na boca e, colocando a mão por baixo de sua blusa, afirmou:

    – O oeste é onde o sol se põe e para onde corre minha mão.

    Nunca mais esqueci onde fica o oeste.

    Vitor Bertini

    Lembre-se, é dezembro. Tempo de compartilhar:

    * Você conhece Novo Oeste? – É outra cidade. Esta, eu inventei;

    * Sexta, dia 24 de dezembro, dia dos presentes, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Heinrich von Kleist (1777-1811) foi um escritor alemão que, entre planos de vida e pactos suicidas, escreveu esta pequena maravilha:

    Em Santiago, a capital do reino do Chile, no exato momento do grande terremoto de 1647 em que muitos milhares de vidas se perderam, um jovem espanhol chamado Jeronimo Rugera, que havia sido preso sob uma acusação criminal, estava de pé contra um pilar da prisão, prestes a se enforcar.

    – O Terremoto no Chile, Antígona, 1985



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    3 min
  • Sons da floresta

    Olá.

    Por agenda ocupada, preocupação e dever, o texto Os sons da floresta - sempre os mesmos e sempre diferentes, volta ao nosso convívio, e canta seu ofício.

    Entre pássaros e páginas, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.

    SONS DA FLORESTA

    O comunicado era oficial.

    O Conselho das Corujas, nos termos do Estatuto das Matas, convoca todos as criaturas desta floresta para a Assembléia Geral Extraordinária a ser realizada ainda hoje, ao pôr do sol, na Clareira do Lago.

    – Qual é a pauta? – repetiam quase todas as vozes, em forma de pergunta.– Melhor não faltar! Melhor não faltar! – Taramelavam os papagaios, emissários do Conselho, voando em bandos e espalhando ansiedade e suspense.

    Os boatos sobre os motivos da convocação só não foram mais numerosos por falta de tempo. Falava-se de um novo recenseamento na floresta, na votação de um novo fundo eleitoral,  na possível explicação sobre o desaparecimento global das abelhas e até na formação de um Superior Tribunal da Floresta, uma espécie de STF regular, há muito demandado.

    – Corujas não se reúnem por pouca coisa – rugiram os leões, seguros de si. – Vamos comparecer em paz – garantiram as leoas, respondendo aos olhares desconfiados das zebras.– Iremos aos pulos – completaram os improváveis cangurus, certos de que viviam em uma floresta inclusiva.

    Na hora do sol vermelho, com todos os bichos presentes e guardando silêncio, a coruja mais velha, Presidente do Conselho, tomou a palavra:

    – Muito obrigado pela presença de todos. Serei breve. Nos últimos dias o Conselho recebeu, preocupado, notícias dando conta de supostas proibições da emissão de alguns sons de nossa floresta, por parte de supostas autoridades. Como se nossos pios, mugidos, arrulhos ou cantos pudessem, de alguma forma, ser prejudiciais ao nosso conviver. Não sabemos se são verdadeiras as notícias, mas sabemos que são falsas estas autoridades – e concluiu, séria, de olhos arregalados: – aqui, falsos corvos não crocitarão. Aqui, livre falar, é falar com a voz que cada um tem. Salve a multiplicidade de sons da floresta!

    Os urras e vivas só foram interrompidos quando a coruja Secretária Geral piou, pedindo mais um minuto de atenção:

    – Só um lembrete. Nesta mata também se pode ir e vir, livremente. Nossa floresta não tem donos! 

    Diante de novo tumulto, as abelhas, que não tinham sido avisadas de seu próprio desaparecimento, preocupadas com o tempo de floração, saíram às pressas para fazer mel - e zunir como quisessem.

    Vitor Bertini

    Abaixo, dois dos comentários que recebi sobre a pena da semana passada. Gostei:

    Que lindo e emocionante relato. De minha sacada, vejo, todos os dias, uma revoada de pássaros que vêm comer a comida diária que ponho para eles. Esse momento é meu e deles, onde eu encontro a paz, observando-os. Esperarei, ansiosa, a próxima sexta, uma nova história. Abraços!

    Pássaros são bons companheiros.Há um que me acompanha sempre e gosta de pousar em galhos logo acima do meu carro.Abraço!

    * Você conhece esta floresta? – É outra. Nesta, as corujas falam;

    * Sexta, dia 17 de dezembro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Algumas das passagens mais célebres da literatura são aquelas cujas cadências nos impressionam de maneiras que reforçam e finalmente transcendem seus conteúdos. As frases nos afetam mais ou menos como a música, de uma maneira que não pode ser explicada. O ritmo dá às palavras um poder que não pode ser reduzido a, ou descrito por, meras palavras.

    – Para ler como um escritor, Francine Prose, Zahar, 2008

    Se escrevo, muito devo às aulas de música, lá no Colégio Concórdia, nos tempos do Peteca, quando, obrigado, repetia ritmado: pê-rá, pê-sse-gô; pê-rá, pê-sse-gô. Agora, bem mais tarde, no teclado, não sou obrigado, mas, todavia, contudo, ainda repito, sempre ritmado: pê-rá, pê-sse-gô; pê-rá, pê-sse-gô. Nunca esqueci.Vitor Bertini – 4º série ginasial, turma C, número 36.



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    4 min
  • A pena

    Olá.

    Os pássaros parecidos, aqui na minha janela, são, na verdade, pássaros diferentes.

    Entre pios piedosos, pingos de pinga e parágrafos pungentes, boa leitura e bom fim de semana.

    A PENA

    Chegou flanando, silencioso, e pousou ao meu lado, no banco da praça. Pousado, ficou quieto um tempo. Depois, já no chão, alternando os olhos no ritmo sincopado de seu pescoço, catou algumas migalhas, disse algumas coisas e ficou me encarando – até ir embora. Ainda sou capaz de sentir no rosto a lufada de ar quente com pó e de ouvir o barulho surdo de suas asas enormes. 

    Acompanhei sua trajetória em direção aos céus até o momento em que ele, voltando a cabeça, tornou a me olhar. Levantei do banco, juntei a pena que caíra, pensei na desproporcionalidade entre seu corpo e a envergadura de suas asas e, atrasado para a escola, segui meu caminho. Eu tinha ouvido um pássaro falar. 

    Naquele tempo eu não era muito forte, as meninas iriam fazer perguntas e achei melhor calar sobre o que havia acontecido. Um pouco mais tarde, depois da aula, já em casa, também não contei nada: meu pai e minha mãe não andavam se entendendo bem – depois, piorou. 

    Na universidade, estudei exatas: a força era massa vezes aceleração e o tempo, relativo. Mantive a pena escondida e deixei a neve cobrir os telhados da vida. Gostei.

    São anos de silêncio, bancos ao ar livre sempre que me sinto desafiado e olhares para o céu quando enfrento problemas complexos – as pessoas não sabem em que voos busco respostas.

    Acredito que a vida seja assim: falamos sobre algumas coisas e calamos sobre outras. 

    Maria é minha esposa. Maria não sabe nada sobre pássaros, e nosso casamento vai bem. Tivemos um filho saudável; ela perdeu o emprego mas não dá muita bola; quando chora diz que não é nada; parece divertir-se com meus olhares para o céu e até comprou um banco de madeira para colocar no jardim. 

    Só estou contando tudo isto agora, porque ontem foi um dia especial:

    – Pai. Hoje, voltando da escola, um estranho pássaro falou comigo. Pode ser?– Pode – respondi sem pensar.

    A seguir, emocionado, corri ao escritório, recuperei a pena e voltei para beijar meu filho.

    – Pode sim – repeti, apertando o abraço. – Guarde esta pena. É dele – falei baixinho.

    Depois, enquanto ele examinava a pena, concluí:

    – Não conta nada pra ninguém. Nem pra sua mãe.

    Vitor Bertini

    * Aqui, tudo é ficção; menos a pena;

    * Sexta, dia 10 de dezembro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Quando as palavras das beatas viraram pequenos sons à distância é que Butka caminhou em direção ao cão vermelho e à sua cadeira na calçada. Nesse trajeto, como dois velhos que se conhecem pela fama, o olhar de um procurava a alma do outro. Tateando, o açougueiro localizou a cadeira, sentou, tirou o boné e secou lentamente a cabeça meio calva e a nuca, quase uma continuação das costas.

    Uma vida em sessenta segundos depois, ainda sentado, imóvel, o olhar de Butka agora era refém de sua memória: Florença, 33 graus, o Rio Arno, a Ponte Vecchio, aromas da Aquaflor, a tumba vazia de Dante na Santa Croce, a Divina Comédia nas mãos e o cão Cerberus, o comedor de carne, na porta do Terceiro Círculo do Inferno, o Círculo da Gula.

    – Tolo é quem toma as beatas por tolas – pensou em voz alta o açougueiro, voltando de sua viagem no tempo e na geografia.

    – Não me Abandone, Vitor Bertini, Esquina do Lombas

    Este magnífico livro custa menos do que uma pizza média.



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    4 min
  • Chapéus da vida

    Olá.

    Em uma fase de exercícios sobre textos e escassez de tempo, aí vai uma verdade pessoal sobre o uso de chapéus.

    Entre proteções à cabeça, textos, beijos e queijos, boa leitura e bom fim de semana.

    CHAPÉUS DA VIDA

    Dois dias depois do enterro de minha mãe, comprei um chapéu Panamá.

    Mamãe tocava piano, lia clássicos, em sua casa o serviço era à francesa, tinha dedos longos e nutria silenciosas expectativas com relação à vida dos filhos.

    Minha primeira viagem à Florença foi obra de seu testamento: estação do ano sugerida, roteiros definidos, explicações histórico-culturais anotadas e o respectivo valor consignado. Tudo em palavras educadas.

    – Acho que você deve ir. Vai fazer bem pra você – afirmou papai, com voz baixa e jeitão de quem já sabia, antes da leitura pelo Oficial do Cartório, das vontades de mamãe.

    Três anos mais tarde, em minha segunda viagem à Florença, no caminho entre o Museu de Dante e a Ponte Vecchio, uma caminhada de sete minutos, na Via Porta Rossa, 40 - lembro bem, encantado, comprei um Borsalino, meu segundo chapéu.

    Nunca usei nenhum dos dois.

    Sempre imaginei que iria usar chapéu a partir de algum momento especial; uma situação qualquer que justificasse, aos olhos de todos e aos meus próprios, afinal, o adereço. 

    Estou há um ano e meio em casa, vivo, escrevendo e pensando na vida. Amanhã, começo a usar meus chapéus.

    Mamãe iria gostar.

    Vitor Bertini

    * Aqui, tudo é ficção. Dona Irany, graças a Deus, está viva e forte;

    * Sexta, dia 03 de dezembro, já? tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    I believe I have the right to think and say the wrong things. I believe your remedy for that should be to argue with me or to ignore me, and that I should have the same remedy for the wrong things that I believe you think.

    – The View From Cheap Seats, Neil Gaiman, William Morrow - An Imprint of HarperCollins Publishers

    Este parágrafo já andou por aqui. Achei que valia a repetição.Comprem o livro. Comprem livros. Custam menos que pizzas e não aumentam seu colesterol.

    Já compartilhou? Custa ainda menos.



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    2 min
  • Dona Baltasar

    Olá.

    Isaac Babel (1894 - 1940) é um espetacular autor russo de histórias curtas. Gosto do seu texto, de suas histórias e da história de sua vida.

    Em seu livro de memórias Anos de Esperança, Konstantin Paustovsky (1892 - 1968), descreve uma visita ao gabinete de Babel. Surpreendido com uma pilha de páginas manuscritas sobre uma escrivaninha, imaginou que o célebre escritor estivesse finalmente escrevendo um romance. Não, respondeu Babel.

    Eram 22 rascunhos de seu mais novo conto.

    Entre exercícios sobre textos, parágrafos e frases, um bj, boa leitura e bom fim de semana. Quem quiser beber, fique à vontade.

    DONA BALTASAR

    Terceira geração a comandar os negócios da família, Marcelo usava suspensórios, falava pouco e era incapaz de um gesto brusco. Nem sempre foi assim. 

    Houve um tempo onde disputar e assumir a presidência da empresa, pagar as dívidas, rejuvenescer a marca, reestruturar tudo e avançar em novos mercados parecia exigir outros atributos.

    Vem daquela época, a época dos números vermelhos, a lenda que assombra, até hoje - dizem, as reuniões na companhia:

    – Sono un carnivoro! – gritou e repetiu Marcelo, enquanto tirava o cinto das calças e açoitava a mesa, encerrando uma reunião de apresentação de resultados ruins.

    Foi Dona Baltasar, a mais antiga entre as secretárias, quem teve a coragem de entrar na sala de quem parecia alucinado:

    – Expomo-nos mais num único instante de fúria ou contentamento do que em muitas horas de indiferença, meu filho – disse, alcançando um copo com água para o neto do fundador da companhia.– O que a senhora faz? – Perguntou Marcelo, ainda sem o cinto.– Leio, meu filho. Leio.– E na empresa?– Ajudo meninos a colocarem cintos – afirmou, antes de aceitar o convite para trabalhar no gabinete.

    Os resultados azuis, o tempo, as leituras de Dona Baltasar e o segundo casamento foram os principais responsáveis pelas mudanças no comportamento de Marcelo. 

    – Os sensatos retardam o julgamento sobre o que ouvem – ensinou a secretária certa vez, quando a impulsividade de Marcelo ameaçava suas relações com o Conselho de Administração da própria empresa.– Dona Baltasar, em linguagem mais simples como é que fica?– Não existe sábio a cavalo - traduziu e, diante do silêncio do chefe, acrescentou:– É um ditado espanhol – colocando um ponto final nas citações.– Acho que entendi – disse o presidente, voltando a sentar. –  Com a calma recomendada estou indo para a Itália, Dona Baltasar. Vou retardar os julgamentos – completou, sorrindo com jeito de quem tinha assimilado a frase, rabiscando uma folha de papel.

    Foi desta viagem que vieram os primeiros suspensórios e a nova esposa.

    – Le mie bretelle – exibiu-se o presidente, treinando colocar os polegares atrás do novo acessório.– Muito bem, muito bonitos. O senhor ficou muito elegante. Entretanto, atenção: o gosto, assim como o intelecto, exige cultivo. Saiba como usá-los.– Frase de algum livro, Dona Baltasar?– Sim, sempre. Esta é do livro A Arte da Prudência, do Gracián – respondeu, omitindo, com um leve sorriso, o primeiro nome do autor.– A senhora já sabe que noivei, não sabe?– Sei sim, e vou continuar no mesmo livro: um grama de prudência vale mais do que uma arroba de habilidade – e aconselhou, saindo da sala:– Cuide da moça.

    Tempo depois, casado, feliz, tomando um café com sua secretária e fazendo confidências autorizadas pelo tempo de convívio, Marcelo lembra a frase que os aproximou:

    – Dona Baltasar, novamente sono un carnivoro! A Giulietta, entre outras qualidades, faz uma Bisteca à Fiorentina fantástica. Até achou um açougue de um italiano, lá perto de casa - eu não conhecia, que vende bistecas maravilhosas.– Açougueiro vende carne e entrega cumplicidade, meu presidente.– Livro, Dona Baltasar?– Não me Abandone, de um tal de Vitor Bertini.– Não conheço, mas gostei da frase – afirmou o chefe, e continuou:– Aliás, hoje ela não vai poder ir ao açougue e me pediu para passar por lá. A compra já é para estar separada – encerrou.

    A visita de Marcelo ao açougue durou o tempo suficiente para apanhar o embrulho, pagar a conta e notar, no canto do balcão, uma pilha de livros. Sobre todos eles, A Divina Comédia - Mário não conseguiu decorar o nome do autor, e, de pé, encostado na pilha, Para Viver um Grande Amor, de Vinícius de Moraes.

    – Dona Baltasar. Vinícius de Moraes é o nosso músico, não é?– Sim, e um espetacular poeta. Autor de alguns dos mais sedutores versos de amor que já ouvi – respondeu. A seguir, espichando o pescoço em direção à sala do chefe, perguntou:– Vai começar a ler, meu presidente?– Estou pensando.

    Naquela noite, durante o jantar, Marcelo comunicou à esposa que não gostava mais de bistecas.

    Vitor Bertini

    * Aqui, tudo é ficção. Os livros e seus autores, não.

    * Sexta, dia 26 de novembro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    And then, whether the work was good or bad, whether it did what you hoped or it failed, as a writer you shrug, and you go on to the next thing, whatever the next thing is.

    That’s what we do.

    – The view from the cheap seats, Neil Gaiman, William Morrow

    O preço?– O mesmo que uma pizza média.

    Escrevi, montei e gostei:

    Lembrou de alguém?



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    7 min
  • Olindas

    Florença, 12 de novembro de 2021.

    Entre sonhos de viagens, textos estranhos, páginas, goles e um bj, boa leitura e bom fim de semana.

    OLINDAS

    Olinda e Maria Olinda se conheciam de troca de olhares, acenos de cabeça e informações de terceiros, há muitos anos. Nunca haviam conversado. Coisas da vida.

    Moradoras da mesma rua, esposas de seus maridos, mães de seus filhos e donas de suas casas; com lenços na cabeça e casaquinhos para o frio, quando uma vinha, sempre, a outra já tinha ido. 

     Passaram-se os anos, os filhos ganharam mundo, levaram os netos junto, e os maridos, esta espécie morredoura, cumpriram seus destinos. Em suas casas, cuidando de tudo, ficaram as Olindas.

    Certa tarde, diz a história, uma delas, parada na calçada em frente à sua casa, viu a conhecida vir em sua direção, caminhando lenta, cuidando os passos e arrastando os pés. 

    Veio, parou, levantou o olhar e suspirou: 

    – Ai, ai.– Para mim você vai dizer isto? – Respondeu, a outra Olinda.

    Vitor Bertini

    * Ficção é uma mentira, cheia de verdades. Estas Olindas eu inventei - a história eu recolhi de amigos que admiro;

    * Sexta, dia 19 de novembro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Sonhar o sonho impossível,Sofrer a angústia implacável,Pisar onde os bravos não ousam,Reparar o mal irreparável,Amar um amor casto à distância,Enfrentar o inimigo invencível,Tentar quando as forças se esvaem,Alcançar a estrela inatingível:Essa é a minha busca (Que seja a tua busca*).– Dom Quixote de La Mancha - Miguel de Cervantes

    * De Lauro e Noemi, para Antônio.



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    2 min
  • Hai-Kais

    Olá.

    SextaDiferenteComece lendo, de trás para a frente.

    Entre cerejeiras, pares de hashi, pequenos goles e um bj, boa leitura e bom fim de semana.

    TEMPOS I

    A sabedoria, pobrezinhaNo fundo da salaCala.

    O verso fazJunto com a grafiaCuriosa poesia.

    Prudência, serenidade (eram)Amigas, (agora)Palavras antigas.

    FLORES

    Riso, mão e florJanela, rua e arSaudades, mato e mar.

    A Margarida, simplesAmadaÉ a flor mais desenhada.

    PerfumesDas flores?Só nomes.

    TEMPOS II

    De jardas em jardasNão seiQuantos metros já andei.

    Esperando, paradoEm vãoA terceira dentição.

    SonheiAmoresAcordei, dores.

    Vitor Bertini

    * Verdade / Hai-Kai é ficção / por definição;

    * Sexta, dia 12 de novembro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    O Haiku aparece em geral nos nossos dicionários com a grafia de Hai-Cai por dois motivos básicos: o primeiro, a guerra que os filólogos patrícios resolveram deflagrar à linda letra K, pelo simples fato dela ter aquele ar agressivamente germânico e só andar com passo de ganso. A batalha é, evidentemente, perdida, inclusive firmando-se na imagem, hoje quase mítica, de JK, também artificialmente banido da vida política brasileira.

    O segundo motivo do não-uso da grafia Haiku é a homofonia da segunda sílaba com outra palavra da língua portuguesa, designativa de certa parte do corpo de múltipla importância fisiológica. Essa palavra os filólogos só usam a medo. Quando a colocam no dicionário fazem sempre questão de acrescentar (chulo). Assim, entre parênteses.

    Resolvi - e não entro em detalhes para não alongar esta explicação - usar a grafia (comprometida) Hai-Kai.

    O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um - o segundo - de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen:

    A nuvem atenuaO cansaço das pessoasOlharem a lua.

    Apesar de sua forma frágil, quase volátil, dependendo da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação, o Hai-Kai é, contudo, uma forma fundamentalmente popular e, inúmeras vezes, humorística, no mais metafísico sentido da palavra:

    Roubaram a carteiraDo imbecil que olhavaA cerejeira.

    Meu interesse pelo Hai-Kai como forma de expressão direta e econômica começou em 1957, quando eu escrevia uma seção de humor (Pif-Paf) na revista O Cruzeiro.

    Passei a compor alguns quase semanalmente, usando, porém, apenas os três versos da forma original, não me preocupando com o número de sílabas.

    – Hai-Kais, Millor Fernandes, Coleção L&PM Pocket vol.27

    Preço? Menos do que uma fatia de pizza.



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    2 min

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