Vitor Bertini

Vitor Bertini

By Vitor BertiniFictionDrama
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Vitor Bertini episodes

  • Brasil, Outubro de 21

    Olá. Hoje é sexta-feira, dia 29.

    Penso, escrevo. Falo, não calo.

    Nos versos de um cantor que virou soldado, a inspiração e o grito rouco de um poeta manco, em um momento tão bruto da vida de todos nós.

    Entre preocupações, páginas, goles e um beijo, boa leitura e bom fim de semana.

    Me pediram pra deixar de lado toda a mesura, pra só trazer alegrias e não falar de censura. E mais, prometeram que se eu escrevesse feliz, agradava com certeza. Eu que não posso enganar, misturo tudo o que vivo. Escrevo sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza de meu verso vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a censura e faz do medo riqueza, foi quem me fez escritor.

    * Ao brasileiro Geraldo Pedrosa de Araújo Dias - Geraldo Vandré, peço vênia e perdão por ter mexido em verso tão definitivo;

    * Ao inglês Neil Gaiman, autor do Credo que vai aí embaixo, minha homenagem pelo texto e agradecimentos pelo involuntário empréstimo;

    * Sexta-feira, dia 5 de novembro, se não pintarem uma estrela em minha porta, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    CREDO

    I believe that it is difficult to kill an idea because ideas are invisible and contagious, and they move fast.

    I believe that you can set your own ideas against ideas you dislike. That you should be free to argue, explain, clarify, debate, offend, insult, rage, mock, sing, dramatize, and deny.

    I do not believe that burning, murdering, exploding people, smashing their heads with rocks (to let the bad ideas out), drowning them or even defeating them will work to contain ideas you do not like. Ideas spring up where you do not expect them, like weeds, and are as difficult to control.

    I believe that repressing ideas spreads ideas.

    I believe that people and books and newspapers are containers for ideas, but that burning the people who hold the ideas will be as unsuccessful as firebombing the newspaper archives. It is already too late. It is always too late. The ideas are already out, hiding behind people’s eyes, waiting in their thoughts. They can be whispered. They can be written on walls in the dead of night. They can be drawn.

    I believe that ideas do not have to be correct to exist.

    I believe you have every right to be perfectly certain that images of god or prophet or human that you revere are sacred, and undefinable, just as I have the right to be certain of the sacredness of speech, and of the sanctity of the right to mock, comment, to argue and to utter.

    I believe I have the right to think and say the wrong things. I believe your remedy for that should be to argue with me or to ignore me, and that I should have the same remedy for the wrong things that I believe you think.

    I believe that you have the absolute right to think things that I find offensive, stupid, preposterous or dangerous, and that you have the right to speak, write or distribute these things, and that I do not have the right to kill you, maim you, hurt you, or take away your liberty or property because I find your ideas threatening or insulting or downright disgusting. You probably think some of my ideas are pretty vile too.

    I believe that in the battle between guns and ideas, ideas will, eventually, win. Because the ideas are invisible, and they linger, and, sometimes, they can even be true.

    Eppur si muove: and yet it moves.

    The View From Cheap Seats, Neil Gaiman, William Morrow - An Imprint of HarperCollins Publishers

    – Preço? – Liberdade não tem preço.



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    1 min
  • Pata Branca

    Olá.

    Hoje é sexta e, confesso, deve ser a primavera, não tiro Bénya Krik da cabeça. Falei dele na semana passada, você lembra?

    Então, você já começou a pensar em presentes de Natal? Fale comigo.

    Entre comerciais e diálogos, livros, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.

    PATA BRANCA

    Abandonado, e essa história já foi contada, Blau não tinha memória dos cheiros de sua nova vida. Agora, tudo que ele tinha era medo, vergonha, um vago sentimento de culpa pelo próprio abandono e, do outro lado da rua, o olhar fixo de um cão que ele não sabia se chamar Bénya Krik.

    Sem sustentar o olhar de Bénya, Blau desceu do lixo em que fora largado e começou a andar em frente. Em silêncio, quase ao compasso da música que ganhava intensidade, seguiram cada um de um lado da rua, até o momento em que Bénya parou. Pararam quando o primeiro canhão da Abertura 1812 de Tchaikovsky enchia a calçada e seus quatro ouvidos sensíveis. Pararam em frente a uma loja branca de onde saía, junto com a música, um avental sujo de sangue trazendo nas mãos um cutelo e um pedaço de carne, gritando em direção ao outro lado da rua:

    – Bénya, meu Rei! Salve! – e, pousando o olhar no novato que agora tremia, seguiu. – Pata Branca! Pata Branca! – disse, jogando o naco de carne na calçada. – Proteína! Coma, Pata Branca! Proteína! Belok! Belok! Proteína para enfrentar o mundo! Foi a primeira vez que se ouviu o nome Pata Branca.

    Depois, quando a música e a carne já haviam terminado, foi que Georgy Butka, o açougueiro, sentado em sua cadeira reclinada contra a parede, secou os olhos. 

    Apenas Bénya Krik, no outro lado da rua, não havia mudado de postura. De pé, olhar ainda fixo no cão sujo de tinta, aguardava. Alimentado, Pata Branca recomeça a andar, seguido por Bénya. O caminho que percorreram pareceu longo como a vida andando pra trás. Tão pra trás que, quando deu por si, o pequeno Blau, aquele que não existia mais, estava de volta, na frente da residência da família Hatt. Foi a primeira vez que Bénya sentou.

    Pata Branca sentiu o remanescente cheiro de café vindo da casa, lambeu o focinho, sentiu o gosto da carne crua e, sem olhar para trás, atravessou a rua. Bénya se pôs de pé, colocou Pata Branca a caminhar e seguiu dois metros à frente. Assim fazem os reis.

    Vitor Bertini

    * Qualquer texto envolvendo um cão chamado Bénya Krik é meu e é ficção. Eu inventei;

    * Este texto é um capítulo de Não me Abandone, Vitor Bertini, Editora Esquina do Lombas;

    * Belok significa "proteína” em russo;

    * Sexta, dia 29 de outubro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    – Sr. Bennet, como pode ofender suas próprias filhas desta maneira? Você se compraz em me irritar. Não tem nenhuma compaixão pelos meus pobres nervos.

    – Você se engana, minha cara. Tenho grande respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço você mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos.

    – Diálogo entre o Sr. e a Sra. Bennet, em Orgulho e Preconceito, Jane Austen.

    Não é uma maravilha?Preço? O mesmo de uma pizza média.



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    4 min
  • Humanos

    Olá.

    Hoje, um pouco nostálgico, lembrei de Bénya Krik, o Rei. Bénya, para quem não sabe ou não lembra, é o cão herói de “Não me Abandone”, meu livro.

    Você já começou a pensar em presentes de Natal? Então…

    Entre comerciais, livros, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.

    HUMANOS

    Hoje acordei com uma estranha sensação nas costas e, ao contrário de Gregor Samsa, aquele personagem do Kafka que acorda parecido com uma barata gigante e termina confinado em seu próprio quarto, me levaram a passear. Que cansaço.

    Perdoem começar assim, com queixas. Deve ser a idade.

    Aliás, inicialmente achei que o tal incômodo nas costas fosse apenas mais um item da generosa lista de regalos del tiempo: dores generalizadas, tédio abrangente e, nas horas mais improváveis, um sono invencível.

    Depois do passeio - parque com pombos insolentes, vitrines aborrecidas, cãezinhos com ânimo excessivo, gramados irregulares, infinitos caminhos de terra e a minha firme recusa em buscar pedaços de pau jogados ao longe, o lanche foi bom e a sesta reparadora. Bendito sono.

    Acordei com as costas intactas. Novinhas em folha. Nenhum incômodo. 

    Entretanto, nada de calma. A seguir - eu ainda me espreguiçando, fui literalmente arrastado para a frente da televisão da sala de estar, no centro de uma constelação familiar. Todos presentes. 

    Já esquecido das costas e do medo da morte - coisas de velho, ganhei pipocas, meu cobertor favorito, muitos olhares e, confesso, achei tudo aquilo muito estranho. Conheço a minha gente.

    As coisas ficaram ainda mais estranhas quando percebi que eu já tinha visto aquele filme. Reconheci cada tormentoso pedaço do meu passeio matinal.

    Enquanto todos buscavam minhas reações ao ver as cenas, humanos, não perceberam meu reflexo na primeira vitrine, na loja de calçados femininos, carregando, montada nas minhas costas, uma filmadora. O meu pequeno incômodo.

    Inocentes, não só não viram o reflexo, com também não viram que são eles os objetos de minhas atenções, jamais os meus caminhos. Mesmo velho e rabugento, só tenho olhos para eles.

    Estranhos esses humanos, muito estranhos. 

    Vitor Bertini

    * Alguma dúvida sobre ser ficção?

    * Sexta, dia 22 de outubro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    RESENHAS INSÓLITAS

    Lolita, Vladimir Nabokov.

    Sem julgamentos: Humbert Humbert, o personagem narrador da história, é estrangeiro nos USA, anarquista e tarado; Lolita, uma ninfeta, é sua paixão. Esta é a história.

    Um ponto interessante é o fato da classificação bibliográfica do livro ser “romance norte-americano”. 

    Nabokov escreveu Lolita em inglês e, apesar de declarar que esse talvez fosse seu caso de amor com a língua inglesa, lamentou com a força de uma “tragédia pessoal” o abandono de seu idioma natural e as possibilidades e nuances que este lhe oferecia.

    Quanto à leitura propriamente dita, aqui vão breves e despretensiosas orientações de uso: 

    * Leia duas vezes o prefácio assinado por John Ray. É bom e vai ajudar;

    * Leia com vagar. Cuide com as expectativas criadas no primeiro terço da história;

    * Vista as roupas de Humbert Humbert ou qualquer um dos seus nomes e siga os próximos dois terços do livro. Nabokov sabe sobre as expectativas criadas e escreveu sobre isso;

    * Quando você chegar nos capítulos 35 e 36 sua vida não será mais a mesma;

    * Tempos depois, leia o livro de novo.

    Comprei minha edição no Sebo Itaim, Rua Clodomiro Amazonas, 112, em São Paulo, ao valor de 2F. Cada F vale R$ 5,00.

    Reproduzo um trecho do posfácio “Sobre um livro intitulado Lolita”, escrito pelo autor. Valeria, sozinho, outros 2F.

    “Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos, e, a despeito da afirmação de John Ray, Lolita não traz nenhuma moral a reboque. Para mim, um romance só existe na medida em que me proporciona o que chamarei de volúpia estética, isto é, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte constitui a norma.”

    – Não percam!

    PS: Vladimir Nabokov e sua esposa eram caçadores de borboletas. Grande parte do livro foi escrito à noite ou em dias nublados, pouco adequados à caça.



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    3 min
  • Outro Número

    Olá.

    Quando contei para uma sobrinha que eu havia discado um número, ela perguntou:– Tio, o que é discar?

    Entre gerações, páginas, livros, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.

    OUTRO NÚMERO 

    Um número:

    – Alô, Paulinho?– Não, não é o Paulinho.– Ok.

    – Alô, Paulinho?– Não, meu amigo. Você está ligando para o número errado. Este não é o celular do Paulinho.– Ok.

    – Alô, Paulinho?– Cara, eu não me chamo Paulinho e este número é meu desde mil e oitocentos. É a terceira vez que você me liga. Você está com o número errado. Ou, digitando errado.– E eu posso deixar um recado para o Paulinho?– Cacete. Eu não conheço nenhum Paulinho. Você entendeu? Não sou Paulinho, não conheço nenhum Paulinho e não gosto de Paulinhos.– Ok.

    Outro número:

    – Alô?– Sim, pois não.– Quem fala?– Com quem você quer falar?– Tanto faz. Aqui é o Paulinho. Você tem algum recado para mim?

    Vitor Bertini

    * Paulinho? Não conheço nenhum. Este eu inventei;

    * Sexta, dia 15 de outubro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Meu pai repetia esta frase:

    É de estatura meã e fornido de carnes.

    – Érico Veríssimo, Gato Preto em Campo de Neve, Editora Globo, 22ª edição, 1996.

    Preço no sebo: menos do que uma fatia de pizza.



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    2 min
  • Os Olhos de Noé

    Olá.

    Hoje é sexta-feira, e isto basta.

    Entre olhares, textos novos, livros e goles, um bj, boa leitura e bom fim de semana.

    OS OLHOS DE NOÉ

    Noé nasceu, – distraído este menino, sem sustentar o olhar da mãe. Na ignorância de todos, cresceu enxergando pouco. Nas rezas e promessas das velhas, foi sendo criado em casa.

    Terceiro filho de uma família pobre, Noé moldou o mundo às suas vistas embaçadas, virou menino forte e não sabia o que era reclamar.

    Cuidava do pátio, dos cachorros e da casa. Conhecia os caminhos da rua e aprendeu a comprar pão. Reconhecia as pessoas pelo vulto e as notas de dinheiro contra a luz. Ouvia música, os gritos da sua mãe e a voz doce de Maria Rita.

    Sua vizinha desde sempre, a criança Maria Rita tinha medo dos cachorros. 

    – Venha, não tenha medo. Prendo eles.– Primeiro você prende, depois eu vou.

    Cães presos, ela pulava a cerca e vinha correndo. Subia nas árvores, comia bergamotas descascadas pelo amigo e, pelo menos uma vez, perguntou se era verdade que ele não enxergava direito.

    Um dia, Maria Rita foi para o colégio e Noé ficou sentado no pátio - sozinho, distinguindo sombras.

    Sua vizinha, agora, era só a voz que, de tempos em tempos, abanava da janela:

    – Bom dia, Noé.– Bom dia, Maria Rita.

    Tempo depois, a morte de um dos cães trouxe Rita de volta.

    – Mamãe falou que o Branco morreu.– É verdade – respondeu Noé, olhando como se visse os detalhes de sua amiga e apontando para o lado do banco de madeira. – Você quer sentar?– Obrigada – disse, sentando. – Me deu um remorso. Eu fazia você prendê-los.– Não liga. Agora mesmo o Preto está preso – devolveu, sorrindo. – Você está bem?– Sim, bem. Com saudades da sua voz por aqui.– Pois é. Ainda mais agora, que comecei a trabalhar – suspirou a visita, fazendo uma pausa.

    Noé calou. A vida lhe ensinara muitas coisas. Entre elas, traduzir respirações.

    – Estou trabalhando de auxiliar de limpeza na biblioteca da escola – prosseguiu Maria Rita. – Não pagam muito, mas, sabe, eu posso retirar os livros que quiser. 

    A seguir, desviando o olhar e falando baixinho, concluiu:

    – Sempre lembro de você quando vejo alguma coleção com imagens bonitas.

    Antes do tempo de um constrangimento, Noé voltou à conversa:

    – Será que tem algum livro sobre catedrais? – Perguntou.– Catedrais? Acho que deve ter, sim.– Eu gostaria de saber se são parecidas com as dos meus sonhos.– Se eu achar, posso vir ler suas histórias e descrições pra você. Você quer?– Eu faço o café.

    Anos mais tarde, quando a moça de branco veio trazer a notícia de que tinha corrido tudo bem no parto, que a criança era um menino e que Maria Rita estava feliz, Noé lembrou da sua vida:

    – Ele é distraído?– Nada, super atento, não tira os olhos da mãe.

    Chorando de olhos fechados, Noé entrou em sua catedral imaginária. Só queria rezar e agradecer.

    Vitor Bertini

    * Aqui, Noé é ficção. Maria Rita também;

    * Terminaram, de verdade, os replays setembrinos;

    * Sexta, dia 8 de outubro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão verde perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Gostei:

    Estudantes paulistas que vão para uma universidade em Carolina do Norte, debruçam-se felizes à amurada do barco e fazem sinais para a terra. No convés inferior os rapazes do Botafogo F. C. berram aleguás tropicais para os torcedores, que lá debaixo lhes respondem com vivas e bandeiras.

    …..

    – O senhor é da missão do Botafogo?

    Respondo-lhe que não. O desconhecido faz meia volta e sai a correr, gritando. “Nariz! Onde está o Nariz?” E eu fico, com a doce melancolia de não pertencer a nenhuma das missões que se encontram no vapor. Nem estudante paulista, nem jogador de futebol.

    – Érico Veríssimo, Gato Preto em Campo de Neve, Editora Globo, 22ª edição, 1996.

    Preço no sebo: menos do que uma fatia de pizza.



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    5 min
  • Cuco

    Olá.

    Hoje, última sexta-feira de setembro, já é primavera. Ruim de calendários, salvou-me o barulho imenso da explosão de suas cores e cheiros: bem-vinda.

    Nas pequenas novidades, uma velha paixão: https://twitter.com/nrgremista - todos convidados.

    Entre amores, frases curtas e flores, um bj, boa leitura e bom fim de semana.

    CUCO

    No meio do campus universitário, o centro do mundo. No centro do mundo, uma cafeteria.

    A cafeteria da faculdade de arquitetura era ponto obrigatório para estudantes de todos os cursos: pela suposta qualidade do café – única que dizia ter grãos de origem –, pela temperatura da cerveja, pelas conversas interdisciplinares e, forçado reconhecer, pela beleza das alunas.

    – Todas as tribos passam por aqui – explicava Antonela, Antonela Matteo, enquanto apresentava as dependências da escola para uma caloura, filha de amigos da família. Depois, à tardinha, em horário de casa cheia, devidamente instalada com duas colegas em uma das mesas, ainda com a novata à tiracolo, sofisticou o discurso:– Acolher bem é reconhecer o outro… e a melhor arquitetura faz isto! – Ensinou, elevando o tom de voz e exemplificando, com um giro de queixo empinado, o que queria dizer.

    Na mesa ao lado, um grupo de estudantes de geologia misturava cervejas com placas tectônicas. Entre eles, Eduardo. Formando, veterano em ambientes bem mais rústicos, Eduardo ouviu embevecido os conceitos sobre a melhor arquitetura, e se encantou pelo queixo empinado.

    Foi o aplauso das amigas aos ensinamentos de Antonela que deu a deixa que Eduardo precisava: aplaudiu junto, arrastou a cadeira até a mesa das arquitetas e fez uma provocação qualquer sobre estética e tempos geológicos.

    Um ano de trocas conceituais, cervejas em qualquer temperatura e risadas com aplausos, resultou em uma cerimônia de casamento simples, repleta de amigos, na orgulhosa casa reformada - o primeiro projeto de Antonela.

    – Somos cosmopolitas e acolhemos o outro – declarou a noiva, toda sorrisos, festejando a presença de todos.

    Anos depois, triste, com voz frágil, Antonela repetia a frase:

    – Somos cosmopolitas e devemos acolher o outro – falou, iniciando as tratativas sobre a separação.– Espero que consigamos levar isto até o fim sem brigar – devolveu Eduardo, olhando para o chão.– Por favor… – murmurou a esposa, indo buscar dois copos d’água.

    Casal de poucas posses e muitas lembranças, as divisões seguiram a harmonia buscada pela arquitetura sob o complacente silêncio de tempos geológicos:

    – Fica bem assim pra você? – Perguntou a arquiteta, enxugando uma lágrima, depois da leitura de um detalhado rol de bens e seus respectivos destinos.– Fica, fica sim – murmurou o geólogo, ainda cabisbaixo. – Você só esqueceu de incluir o relógio da sala. Mas, sem galho, foi mamãe quem nos deu; eu fico com o cuco – ponderou Eduardo.– Eduardo, o cuco está no nicho projetado especialmente para ele. Sem o cuco, aquele nicho não faz sentido. Não interessa quem nos deu… –  O cuco era de mamãe; eu levo o cuco.– Eduardo, o cuco é o centro estético do meu projeto!– Antonela, se é por isso, o cuco marca a porra do tempo geológico da minha mãe! – gritou Eduardo, batendo os calcanhares e a porta.

    As duas petições de Ação de Divórcio Litigioso foram entregues no Foro da Cidade no mesmo dia, quase na mesma hora.

    Vitor Bertini

    * Aqui, tudo é ficção;

    * Este texto foi originalmente distribuído em 09 de outubro do ano passado e, com ele, espero encerrar o ciclo dos replays setembrinos;

    * Sexta, dia 1º de outubro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    FATIAS DE LIVRO

    Na semana passada este quase apêndice - aqui no fim, saiu de “furão”. Hoje, a reprodução é de caso pensado.

    Eu acredito no brasileiro e pior do que isso: – sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades: o “complexo de vira-latas”. Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, face ao resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Em Wembley (Inglaterra 4 x 2 Brasil, em 1956), por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular, o nosso vira-latismo. na já citada vergonha de 1950, éramos superiores ao nosso adversário. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo simples: porque Obdúlio (Obdúlio Varela, capitão do Uruguai) nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

    O problema do escrete não é mais futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: – para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

    – Nelson Rodrigues, em Meu Personagem da Semana, Manchete Esportiva, 1957 - citado em O Anjo Pornográfico - A vida de Nelson Rodrigues, Ruy Castro, Companhia das Letras.

    Preço: ainda, menos do que uma pizza média.



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    5 min
  • O Canto da Sereia

    Olá.

    – Hoje é quinta.– Não, hoje é sexta-feira, dia 17 de setembro do ano de 2021.– Hoje, quando estou escrevendo, é quinta. – Ontem, portanto.– É, pode ser.

    Entre um diálogo sem propósito, agenda cheia, frases e goles, um bj, boa leitura e bom fim de semana.

    O CANTO DA SEREIA

    No verão, Mário morava sozinho na cidade, pintava paredes, cometia versos e bebia; no inverno, morava na praia.

    Na praia, pintava paredes, cometia versos, bebia e, à tardinha, fazia esculturas de areia à beira-mar.

    – Doutor, o que atrasa o progresso é a tortura da parede – sentenciava com um olhar morno, sempre que precisava justificar um pedido de mais tinta ou uma mudança de data na entrega dos serviços. Quando a insinuação ou queixa envolvia a hipótese da bebida, Mário zombava, abusando da frase de Frida Kahlo:

    – Eu nunca pinto sonhos ou pesadelos. Pinto a minha realidade.

    Mário não lembrava quando havia começado a beber. Lembrava do pai: viúvo desde sempre, capataz de uma arrozeira, leitor voraz, exímio pescador de “caniço e rolha” e, todos os sagrados verões, veranista em alguma praia, em alguma casa de aluguel acessível e paredes descascadas. Lembrava também de sua prematura morte, assassinado com dois tiros em circunstâncias nunca esclarecidas, em um passeio noturno à beira da praia. Um dos tiros havia perfurado a sereia tatuada acima da enigmática frase “alguns sobrevivem”, no lado esquerdo do peito. 

    No verão seguinte ao assassinato do pai, Mário ficou na cidade; no inverno, foi à praia. Em uma casa de aluguel acessível, em uma mesa velha, ele instalou uma máquina de escrever e começou, alternadamente, a fazer versos e pintar paredes. Foi na solidão das caminhadas vespertinas que fez a primeira escultura de areia; só para encontrar-lá destruída no outro dia pela manhã. 

    A alternância das estações, a inconstância do estilo dos versos e as infinitas paredes - “cada uma é diferente da outra”, contrastavam com a rotina das esculturas: a areia moldada era sempre a de uma sereia de olhos fechados que seria destruída, pela ação do mar e dos ventos, antes do alvorecer. Na manhã seguinte, depois de confirmar a destruição de sua obra, ao contrário de Frida, acompanhado de versos com seus sonhos e pesadelos, ia para o bar.

    Esta rotina durou o tempo do cansaço das memórias de Mário. Seguiu até a manhã em que sua vista viu o que a cabeça, ainda zonza da noite, custava a crer: a sereia esculpida na véspera não fora destruída, estava intacta, de olhos abertos e parecia cantar.

    Espantado, Mário voltou para casa. Rejeitou a máquina de escrever, deitou, dormiu e sonhou com o pai. No sonho, o capataz da arrozeira, sorrindo, apontando a frase tatuada em seu peito, repetia indefinidamente: “alguns sobrevivem, alguns sobrevivem”.

    O verão seguinte encontrou Mário morando na praia - fazendo versos, pintando quadros e bebendo. Mário sobreviveu.

    Vitor Bertini

    * Você conhece alguma sereia? Todas são ficção;

    * Este texto foi distribuído, originalmente, em 12 de fevereiro deste ano;

    * Sexta, dia 24, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.

    O email já estava pronto. Cansado, resolvi ler um pouco. Sorri. Voltei:

    Quando os personagens de “A Falecida” disseram suas primeiras falas no palco do Teatro Municipal, no dia 8 de junho de 1953, a platéia levou um susto. Jogando uma sinuca invisível, os personagens se referiam a Carlyle, atacante do Fluminense, Pavão, beque do Flamengo, e Ademir, craque do Vasco, jogadores então em atividade - futebol ao Municipal! A peça tratava de uma sofrida mulher do subúrbio carioca, a tuberculosa Zulmira, cuja única ambição na vida era um enterro de luxo. Seu marido Tuninho, tricolor fanático, só pensava em futebol. Se pudesse, apostaria no Fluminense contra duzentas mil pessoas no Maracanã, dando dois gols de vantagem. Zulmira, pouco antes de morrer, mandou Tuninho procurar o milionário Pimentel. Ele pagaria o enterro de luxo. Zulmira morreu, Tuninho foi ao milionário e descobriu que ele era amante de Zulmira. Tomou-lhe o dinheiro, deu a Zulmira um enterro de cachorro e partiu eufórico para apostar contra o Maracanã lotado.

    O Anjo Pornográfico - A vida de Nelson Rodrigues, Ruy Castro, Companhia das Letras.

    Preço: menos do que uma pizza média.



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    4 min
  • Pelo Correio

    Olá.

    Hoje é sexta-feira, dia 10 de setembro de 2021 e, para bom entendedor, basta uma ilustração.

    Entre novidades, falta de tempo, páginas e goles, um bj e bom fim de semana.

    PELO CORREIO

    Lia Pintor era uma mulher honrada. Esconder aquelas fotos havia sido uma reação instintiva e, aparentemente, despropositada.

    Desde que fechara seu consultório – “o tal ano sabático”, nas palavras contrariadas de seu marito Romeo –, sua rotina nas terças-feiras era singela: desjejum em casa, academia, feira, pastel na feira, café em casa e depois, como nos outros dias, o que a alma determinasse.

    – O barato da vida é o improviso – respondia, bem-humorada, sempre que alguém perguntava o que, afinal, andava fazendo.

    O improviso daquela terça veio em meio à monótona abertura da correspondência, enquanto tomava seu café vespertino, na cozinha do apartamento. Em um envelope pardo, sem remetente, endereçado à Dra. Lia, três fotos suas. Três fotos em preto e branco. Só três fotos, nada mais.

    O impulso para sumir com aquilo foi instantâneo: em segundos, o envelope dormia entre receitas da culinária baiana. Em minutos, o apartamento já tinha sido percorrido em vão e o rosto, ainda pálido, lavado mais de uma vez.

    Somente depois, novamente sentada na cozinha, com as demais correspondências ainda intocadas e o café frio, é que a destinatária se deu conta que mal havia passado os olhos nas fotos e no tal envelope. Mais, não tinha razões para ficar nervosa. “Definitivamente não tem porquê”, pensou, quase  sorrindo. 

    Levantou, decidiu fazer um novo café e, enquanto a água esquentava, resgatou as perturbadoras fotos. 

    O envelope havia sido postado na sexta-feira anterior, na Agência Central dos Correios, endereçado com uma etiqueta e fechado com cola suficiente para transformar em sólida sua parte superior. As fotos obedeciam um padrão: todas flagravam Lia em passeios casuais, em diferentes bairros da cidade e em dias variados - as roupas mostravam isso. 

    Terminado o exame pouco revelador, Lia escolheu a poltrona com vista para o parque como próximo destino - seu local preferido de ócio e leituras. Levava a caneca com café quente e, traindo suas preocupações, o envelope rasgado e as fotografias. Ali, com o horizonte como conselheiro, pensando em círculos, Lia lembrou do falecido pai e seu conselho para casos confusos: “Recue para reorganizar a tropa.”

    No ensinamento do pai, o envelope voltou para a companhia das receitas baianas e Lia decidiu ficar em casa por uns dias. Sem improvisos.

    Na reorganização da tropa, a decisão do silêncio: o marito Romeo, sempre desconfiado, iria enlouquecê-la; as amigas não parariam de ligar e falar; e as colegas psicólogas, tão assustadas como ela, formulariam teses em excesso. Nem com a polícia - em quem de resto não confiava, parecia valer a pena falar.

    – Ôpa, surpresa! Você em casa? – Saudou Romeo, largando os jornais sobre o aparador e vindo beijar a esposa.– Pois é… vim tomar café, comecei a ler as tais “histórias da sexta” e fui ficando.– Maravilha! Pedimos um japonês?– Só se você abrir um vinho. Estou precisando.– De vinho?– De vinho e de um banho – concluiu Lia, rumando para a suíte do casal.

    Por seis dias consecutivos, recolhida, quieta e pensativa, Lia acrescentara às tradicionais opções de lazer e trabalho de quem fica em casa, a obsessiva rotina de buscar a correspondência. Habilidosa para encobrir a situação, as conversas com as amigas tratavam de amenidades; com as colegas, desafiando seu ano sabático, conjeturava alguma supervisão; e as conversas com Romeo - cada dia mais bem humorado e chegando mais cedo, andavam normais.

    – Seu Ernesto, a correspondência já chegou?– Não, dona Lia, ainda não. Mas pode ficar tranquila, seu Romeo já recomendou a gente. Deve ser importante, pode ficar tranquila.

    Mais tarde, após o jantar, preparando-se para ir dormir, Lia observa seu marito Romeo colocar creme dental na escova de dentes, e tem um insight.

    – Amor, nunca havia reparado, você sempre cobre a escova com pasta de dentes assim? De ponta à ponta?– Claro. Nenhum extremidade, nenhum cerda a descoberto! – respondeu o marido, com as dificuldades de uma boca cheia de espuma.– E… me diga, como você faria se fosse passar cola para fechar um envelope? Sabe, desses pardos e de tamanho médio.

    Romeo, corou e calou. Lia, nada mais perguntou.

    No dia seguinte, terça-feira, voltando do almoço, Romeo recebeu de sua secretária um bilhete sugerindo uma conversa com a Dra. Lúcia, colega de Lia, para a próxima quinta-feira, 14:00, no consultório dela - endereço anotado no verso.

    – Pode pôr na agenda – falou o chefe, resignado, fingindo normalidade.

    Naquele momento, na feira, Dra. Lia comia um pastel.

    Vitor Bertini

    * Você conhece a Lia? É outra. Esta, eu inventei só pelo pastel;

    * Este texto foi distribuído, originalmente, em 20 de novembro do ano passado;

    * Sexta, dia 17, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.



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    8 min
  • Profeflor

    Olá.

    Hoje é sexta-feira, dia 3 de setembro, trigésima quinta semana do ano de 2021.

    Ontem, recebi um bilhete:

    Só quando transgrido alguma ordem, o futuro se torna respirável.- Mário Benedetti

    Ganhei a semana.

    Entre homens de capa, histórias, livros e goles, um bj e boa leitura.

    PROFEFLOR

    “Camélia caiu do galho. Não morreu.”

    Este texto, escrito com letra caprichada no centro do quadro-negro da sala 42, alterou a coreografia da volta do intervalo dos alunos da difícil turma do terceiro ano do ensino médio, do Colégio St. Ignatius. Entre paradas em frente ao quadro, risos, trocas de olhares, perguntas sem respostas e retiradas de fones dos ouvidos, todos sentaram e fizeram silêncio.

    Camélia Anke, a sensível professora de Português e Literatura, a Profeflor - na zombeteira voz dos corredores, chegou dizendo bom dia, largou seu material, caminhou até o meio da sala, voltou-se para o texto escrito, respirou por dez segundos e, séria, retornou para a frente da turma.

    – Muito bem, quem foi o valente?

    Diante do constrangedor silêncio e antes que os celulares pudessem assumir o papel de rota de fuga, continuou:

    – É uma pena que não consigamos identificar nosso autor – lamentou, começando a sorrir. – Reza a lenda que o escritor americano Ernest Hemingway, Nobel de Literatura em 1954, ganhou um belo dinheiro de seus colegas de profissão apostando na possibilidade de contar uma história completa usando apenas seis palavras: “Vendem-se sapatos de bebê. Nunca usados.”

    A seguir, encerrou o episódio:

    – Tivesse assumido a valentia, o autor da nossa história em seis palavras, pelo talento, seria liberado do trabalho do mês e teria nota dez. Apesar da provocação!

    Na quarta-feira, dia da segunda das três aulas semanais de Português e Literatura, quando Hemingway e todo aquela conversa sobre histórias curtas pareciam ter sumido no abismo das redes sociais, a volta do intervalo confirmou, em letras de forma, a irreverência de alguns:

    “Trabalho chato, solicito ponto. Ainda vale?- Orlando Garcia da Silva.”

    Diferente da segunda-feira, a professora Camélia não precisou mais tempo do que o necessário para ir do “bom dia” na porta da sala até sua mesa de trabalho, para se manifestar: 

    – Senhor Orlando. Sua nota é dez e o senhor está dispensado de apresentar o chato trabalho deste mês. Parabéns!

    Os gritos e aplausos vindos da sala 42 foram o assunto do colégio naquele dia. No dia seguinte, o assunto foi a redação de histórias.

    Na sexta-feira, última aula de Português e Literatura da semana, os alunos do terceiro ano não saíram para o intervalo: foram copiadas, no quadro-negro, tantas histórias de seis palavras quanto o número de alunos na lista de chamada, menos um.

    Sorrindo, a professora chegou. Disse o tradicional “bom dia” e, ainda sorrindo, sem nenhuma distração, pediu que cada aluno levantasse e lesse a sua história.

    Concluídas as leituras, um silêncio cheio de expectativas tomou conta da sala. Também em silêncio, a professora foi até o quadro, apagou todas as histórias e escreveu sua decisão: “Esqueçam o trabalho. Dez para todos.”

    No tumulto que se instalara, uma pergunta gritada trouxe, de novo, algum silêncio:

    – Professora, ainda falta descobrir o valente autor do primeiro texto!

    Novamente séria, a professora olhou para todos, voltou-se para o quadro e apagou sua decisão. Juntou um pedaço de giz que caíra no chão e, com letra caprichada, escreveu: “Camélia voltou pro galho. Fui eu.”

    Naquele fim de semestre, Camélia Anke, a Profeflor, foi a paraninfa da difícil turma do terceiro ano do Colégio St. Ignatius.

    Vitor Bertini

    * Você conhece a Camélia? É outra. Esta, eu inventei em homenagem a todas as professoras deste mundo;

    * Este texto foi distribuído, originalmente, em 11 de dezembro do ano passado;

    * Sexta, dia 10, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.



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    6 min
  • Dona Nair

    Entre inspirações difusas, leituras, goles e um bj, boa leitura e bom fim de semana.

    DONA NAIR

    A novidade eram as pedras e as pauladas distribuídas entre as casas da vizinhança. A gritaria não era novidade.

    – Mãe, chama a polícia.– Apaga a luz e vai ver se a porta dos fundos está trancada, minha filha.– Mãe…– Eu já disse que não queria ver você falando com este rapaz.– Não falei com ninguém. De onde você tirou isso?– Ele gritou seu nome.– Mãe, chama a polícia. Ele grita qualquer coisa.– Eu não vou chamar a polícia, sou amiga da Nair.

    Moravam no Bairro do Céu, uma região da cidade com casas de família, minúsculos armazéns e gente. Muita gente.

    Bairro do Céu não nasceu bairro. Nasceu como um conjunto de casas de madeira - com nome de autoridade esquecida, que ficavam depois do fim da linha 70, construídas como alternativa para os desalojados do Mangue do Sapinho, por alegadas razões de saúde pública.

    Recém-casada, Dona Nair morava no Mangue. No anúncio da remoção, brincando com as promessas que acompanhavam a notícia da mudança compulsória de todos, dizia que ia passar sua segunda lua-de-mel, agora no céu. Anos mais tarde, na criação legal do bairro, o nome foi oficializado.

    Casa nova, tempos de sol. Todos os dias, ela cuidava das rosas e esperava o marido chegar. Na vida que corre - às vezes chovia, chegou Pedro, chegou Maria, e o marido começou a tardar. Sozinha com dois filhos, nada de rosas. Nair foi trabalhar.

    Na noite das pedras, Pedro apareceu à tardinha, beijou a mãe e perguntou pela irmã. Sentou, tomou café, comeu bolo, murmurou respostas, deitou no sofá e dormiu. 

    De pé, encostada na porta entre a sala e a cozinha, olhando o filho de braços magros e roupas que não pareciam suas, Nair chorou e rezou em silêncio.

    – “Pai, perdoa meu menino. Pai, ajuda meu menino.”

    Quando Pedro acordou, pediu dinheiro três vezes. Sem receber resposta, aos gritos para que a mãe parasse de chorar, socou a parede e saiu de casa.

    O surto das pauladas só aconteceu mais tarde, quando Pedro retornou. Durou até que chegasse a polícia.

    Tudo isto faz dois anos.

    Hoje, Dona Nair ainda trabalha e, à tardinha, já em casa, cuida das rosas:

    – Elas precisam estar bonitas para quando o Pedro voltar.

    Vitor Bertini

    Olá.

    Hoje é sexta e este papo, aqui no fim, abaixo da história, tem lá suas razões.

    A primeira, é para demonstrar que minhas convicções não valem um tostão furado: sempre afirmo que um escritor (ora, ora) não deve explicar seus textos. Explicá-los seria uma espécie de traição à própria literatura.

    A segunda, é que gosto do parágrafo que segue e não queria, de forma alguma, influenciar na leitura de ninguém.

    A quebra em parágrafos e a pontuação devem ser feitas adequadamente, mas apenas pelo efeito sobre o leitor. Um conjunto de regras mortas não é bom. Um novo parágrafo é uma coisa maravilhosa. Ele lhe permite mudar tranquilamente de ritmo, e pode ser como um relâmpago que mostra a mesma paisagem sob um aspecto diferente.

    Isaac Babel, em “Para Ler Como um Escritor”, Francine Prose, Zahar, 2008.

    * Você conhece a Dona Nair? É outra. Esta, eu inventei;

    * A ilustração da história de hoje é do pintor, ilustrador e designer gráfico checo, Alphonse Mucha (24/07/1860 - 14/07/1939);

    * Sexta, dia 03 de setembro, tem mais;

    * Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.



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    4 min

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